domingo, 19 de junho de 2016

NA MADEIRA A EDUCAÇÃO É MASCARADA COM UM FOLCLORE QUE SERVE OS ADULTOS, NÃO AS CRIANÇAS.


Anteontem deixei aqui um vídeo, entre muitos que tenho seguido e que estão disponíveis para quem se interessa pela Educação, neste caso sobre o sistema educativo na Finlândia. Este vídeo é daquele país que tem servido de referência, mas há muitas outras experiências em sistemas de sucesso, mesmo em países com sérios problemas económicos. O embaraçoso disto é que, por aqui, não querem ver e perceber que o mundo mudou e há muito! A ideia que fica da governação é que é mais fácil repetir, mecanicamente, o passado, é mais sereno correr atrás dos problemas, mascará-los e desenvolver os mecanismos que favorecem o folclore que serve, politicamente, os adultos, não as crianças. É a semana disto e daquilo, é a avenida embandeirada de uma ponta a outra, é a música e o desporto, é a arte, as bandeiras verdes e a propaganda, tudo de mãos dadas servindo esse insustentável folclore. No meio disto, questiona-se, então, por que marcamos passo? Quais as razões que conduzem a um permanente amargo quando se olha para a estatística do insucesso, do abandono e do crónico desfazamento entre as necessidades de formação e a empregabilidade?

Hoje li o artigo do senhor director regional da Educação. Confesso que fiquei perplexo. Uma vez mais. Não porque o que lá está escrito possa ser considerado um erro de pensamento. Aliás, quem sou eu para julgar esse domínio. Porém, leiamos: "(...) Centrando a nossa atenção no aluno, convém deste logo referir que o sucesso escolar produz uma auto-imagem positiva deste e promove o desejo de envolvimentos posteriores em atividades académicas mostrando que, de facto, sucesso gera sucesso. Do mesmo modo, pode-se afirmar que, quanto mais orientado for o estudo, por um lado e quanto mais sólidos forem os conhecimentos adquiridos, por outro, melhor estruturado ficará o conhecimento e menos espaço será concedido à possibilidade de fracasso do aluno. O perfil e a postura do aluno face ao estudo e ao saber são a base a partir da qual se pode sedimentar toda a aprendizagem e o posterior sucesso. Desta forma é fundamental um trabalho conjunto do professor, da família e de outros agentes do meio envolvente, no sentido de proporcionar o ambiente necessário para fazer “nascer” um aluno que compreende, aprofunda e que é capaz de mobilizar e transferir conhecimentos de várias matérias para a sua “performance”. A aplicação de capacidades e conhecimentos em novas situações serão atributos de um aluno com vontade de aprender, persistente, capaz de todos os esforços. É preciso muito treino, mas sem descurar aspetos como a análise, a sistematização e a interdisciplinaridade. A perseverança e o espírito de iniciativa precisam igualmente de estar presentes em todos os momentos (...)".
Grosso modo, em abstracto, qualquer pessoa assinaria por baixo. Só que o problema não é este. É muito mais profundo, é de organização de um sistema que, partindo das palavras do articulista, centre a "atenção no aluno", promova o "conhecimento", o "sucesso", os "envolvimentos posteriores", a partir do interesse do "professor, da família e de outros agentes do meio", a "vontade de aprender, persistente, capaz de todos os esforços". Como é que isto se consegue, quando se sabe que uma estrutura organizacional de pensamento do passado, do século XIX, só pode garantir os mesmos resultados atingidos nesse passado. Não basta, senhor director regional, quase por decreto, definir a "perseverança e espírito de iniciativa" para que se obtenham resultados. Isso deve surgir como consequência natural de uma estrutura de pensamento, quer a montante, na sociedade, em geral, quer a jusante, na escola, que espolete o sentido do seu texto. Se assim não acontecer, amanhã, outro escreverá mais ou menos a mesma coisa que hoje publicou. E mais do que ninguém, é quem tem os cordelinhos do sistema educativo que tem o dever de, paulatinamente, mudar o rumo do pensamento e a estrutura na esteira de Aristóteles: "A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces" (384 a.C. - 322 a.C.). Ataque(m) o que hoje é amargo.
Ilustração: Google Imagens.

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