Adsense

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Esta guerra que nos querem vender


Por estatuadesal
Miguel Sousa Tavares, 
12/02/2022


Parece que o mundo não tem suficientes problemas globais urgentes, com a pandemia, as alterações climáticas, as migrações do sul para o norte, a crise do preço das matérias-primas e a inflação, e ainda precisa de lhes acrescentar uma guerra — uma guerra a sério, capaz de destabilizar tudo, de causar a morte a muitos milhares de seres humanos, lançar o caos na economia e relançar em força o espírito da Guerra Fria, que ainda alimenta tantas nostalgias.




Putin, garantem-nos há meses os nossos “especialistas” ocidentais, prepara uma invasão iminente da Ucrânia: marcada primeiro para Janeiro, depois adiada para o início de Fevereiro e agora garantida para a semana que vem. Mas desconfiem também disto: de cada vez que alguém fora do círculo belicista NATO-Estados Unidos-Inglaterra inicia diligências paralelas para encontrar uma saída que evite a guerra (o chanceler Scholz ou o Presidente Macron), ou de cada vez que é o próprio Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a pedir aos seus aliados ocidentais que parem com a “histeria” da guerra iminente, logo aumentam as “notícias” na imprensa ocidental sobre novas movimentações de tropas russas com vista à invasão. Sim, é verdade que Putin tem os meios para iniciar a invasão de parte ou de toda a Ucrânia quando o quiser e se o quiser. Mas ainda ninguém respondeu cabalmente a esta pergunta: porque haveria Putin de querer invadir a Ucrânia, o que teria a ganhar com isso, no curto e no longo prazo? A Ucrânia não será nunca, para o Exército russo, um passeio na Crimeia: é 25 vezes maior do que a Crimeia, e a sua população de 43 milhões de pessoas é dividida entre 73% de ucranianos e 22% de russos, contra apenas 2,4 milhões de habitantes na Crimeia, dos quais 65% de russos e 15% de ucranianos. Mesmo que o referendo posterior à anexação russa de 2014, que Moscovo sustenta ter-lhe sido favorável com 94% dos votos, não seja credível, é óbvio que na Crimeia — que Potemkin conquistou para Catarina, a Grande, em 1783, e que o ucraniano secretário-geral do PCUS Nikita Khrushchov deu à Ucrânia, em 1954 — Moscovo está em casa, enquanto na Ucrânia teria pela frente umas Forças Armadas poderosas, uma resistência feroz e um povo maioritariamente hostil, que transformaria a ocupação num inferno permanente. E por mais que Putin seja um saudosista do Império russo e soviético, também é suficientemente pragmático para compreender os custos que tal aventura lhe acarretariam, com a Rússia mergulhada em nova Guerra Fria, cercada de inimigos por todos os lados e reduzida à condição de pária entre as nações, só com o cordial inimigo chinês como potencial aliado.

Não, é muito provável que Putin não queira invadir a Ucrânia, nem queira uma guerra. Que queira outras coisas, paras as quais é preciso ouvi-lo com atenção. Para começar, isso mesmo: ser escutado. Lembrar que, apesar da actual guerra latente Ocidente-China, continua a existir uma terceira superpotência chamada Rússia, o segundo maior país do mundo, com o segundo arsenal nuclear, maior fornecedor à Europa de gás natural (agora considerado “energia verde” pela UE), e cujos interesses estratégicos não podem, pura e simplesmente, ser distratados, como se não merecessem qualquer consideração. Quem conhecer a história da Rússia sabe que no subconsciente de todos os russos está o medo ancestral do cerco. Putin vê nos sucessivos alargamentos da NATO aos ex-países da órbita soviética e aos vizinhos da Rússia uma manobra de cerco, e, ao opor-se a ela, ele não está, necessariamente, a manifestar um saudosismo imperial, mas a defender aquilo que os russos pensam: é política interna, não é política externa.

E a verdade é que, se a NATO foi criada para enfrentar a ameaça soviética, uma vez dissolvida a URSS e extinto o Pacto de Varsóvia, foi preciso uma grande ginástica política para justificar a sua continuidade — que, aliás, e por outras razões, Donald Trump pôs claramente em causa. Mas não só a NATO não se extinguiu como se foi alargando a novos membros e a novos territórios, abraçando e cercando a Rússia, mas não só. Na sequência do 11 de Setembro, e torcendo de forma clara os princípios da sua carta fundadora, a NATO foi intimada pelos Estados Unidos a segui-los na caça à Al-Qaeda e a Bin Laden, no Afeganistão. Mas como a Al-Qaeda era uma ameaça planetária e o 11 de Setembro chocou todos, abriu-se pacificamente o precedente. Porém, não havia Al-Qaeda no Afeganistão, e Bin Laden foi capturado e morto comprometedoramente no Paquistão, um aliado americano. E, depois de anos de inúteis e mortíferos esforços de nation building, os EUA, logo seguidos pelos seus fiéis aliados, bateram em retirada daquele vespeiro, entregando-o à barbárie dos talibãs. Mas aprendemos a lição? Não.

Quando se tem uma organização que deixou de ter como fim a preservação da paz através da dissuasão para passar a ser um instrumento de guerra sempre latente, comandada por um pistoleiro irresponsável e tão sensível aos interesses dos grandes fabricantes de armas, a qualquer guerra falhada segue-se invariavelmente uma nova tentativa de guerra feliz — como se isso pudesse existir.

Eu conheci a NATO em 1979, no seu quartel-general em Bruxelas, numa das minhas primeiras viagens como jornalista ao estrangeiro. A ordem de trabalhos da reunião extraordinária não podia ser mais dramática: discutia-se que resposta dar à iniciativa da URSS de colocar mísseis de curto e médio alcance — os SS-20 — na Alemanha Orien tal, Polónia e Checoslováquia. Aquele passo, tomado pelo louco do Brejnev, era uma escalada determinante que rompia o periclitante “equilíbrio do terror” em que se vivia na Europa. Significava que, em lugar de esperar que um míssil disparado da Rússia demorasse 20 ou 30 minutos a atingir uma capital europeia, bastariam agora 5 minutos para isso, não dando tempo ao lado de cá de tentar interceptar os mísseis e até de ripostar — o mesmo que Khrushchov tentara 16 anos antes, em Cuba, e que Kennedy travou com a ameaça de uma terceira guerra mun dial. Fora do edifício da NATO, uma multidão de manifestantes, vindos de toda a Europa, gritavam e ostentavam cartazes dizendo “Better red than dead” (“Antes vermelhos do que mortos”) — o mesmo que apregoava essa organização pró-soviética chamada Conselho Mundial da Paz, em Portugal representada pelo ex-PR Costa Gomes e um patético personagem de seu nome Silas Cerqueira. Pelo contrário, eu não tive dúvidas algumas de que, se a NATO não respondesse, não só acabaríamos vermelhos como também provavelmente mortos. Mas a NATO não vacilou, apesar das resistências em contrário: ripostou com a instalação dos Cruise e Pershing II junto às fronteiras do Pacto de Varsóvia, e esse gesto de resistência viria a apressar o fim da URSS.

De então para cá assistimos à 1ª Guerra do Golfo, que George Bush pai desencadeou, com toda a legitimidade, para expulsar Saddam Hussein do Koweit, que ele acabara de invadir, e que terminou cumprida a missão. Mas depois a NATO envolveu-se na guerra civil da ex-Jugoslávia, na infame guerra de bombardeamento aéreo de Belgrado, cujo objectivo primeiro foi escoar material militar americano em vias de ficar obsoleto e permitir à indústria militar nova geração de contratos com o Pentágono.

E envolveu-se na 2ª Guerra do Golfo, desencadeada pela vaidade oca de George Bush filho, “a President at war”, com o pretexto de aniquilar as armas de destruição maciça de Saddam, cuja existência não estava provada e cujas “provas irrefutáveis”, de que falava Durão Barroso, se revelaram grosseiramente forjadas.

Uma guerra em que a NATO (e Portugal) se envolveram contra o voto do Conselho de Segurança da ONU e que teve como consequência, até hoje, a disseminação do terrorismo islâmico por todo o Médio Oriente. Lembrem-se disso. Lembrem- -se das aventuras desastrosas, das guerras ilegítimas e das suas consequências trágicas em que a NATO já nos envolveu desde que ficou sem inimigo natural e passou a procurá-lo algures. Lembrem- -se de como o Ocidente respondeu, e bem, às tentativas da URSS de o cercar de mísseis de alcance próximo, em Cuba e na Alemanha, em 1962 e 1979. É isso mesmo que a NATO pretende fazer agora com a Rússia. Cercá-la de aliados seus e posteriores inimigos da Rússia — à força, se necessário, pois ninguém ainda ouviu a Ucrânia ou a Geórgia pedirem para aderir à NATO. E depois armá-los para os defender da ameaça russa. O que, aliás, já estão a fazer, sem esperar sequer pela adesão. Porque, se até há umas semanas o discurso, do lado de cá, é que em caso de invasão russa se responderia com sanções económicas e financeiras nunca vistas, agora, e no meio da gritaria permanente com os 100 mil soldados russos do lado de lá, ninguém fala dos soldados e armas que se vão colocando no terreno do lado de cá. “São apenas manobras defensivas”, explicava há dias um “especialista” português.

Defensivas? Trazer dos Estados Unidos a 82ª Divisão Aerotransportada, a unidade de combate de elite do Exército americano, para a Polónia, será uma manobra defensiva ou a preparação de uma sanção económica? Acordem, europeus! Porque Biden e Johnson precisam de tensão ou guerra para subir os índices de popularidade interna e a Polónia precisa de transfigurar a sua imagem de pior parceiro europeu em tempo de paz para parceiro indispensável em tempo de guerra, querem vender-nos uma guerra sem causa.

Uma guerra que os ucranianos suplicam que não lhes imponham, que os russos pedem que evitem e que nos fará, a nós outros, na melhor das hipóteses, retroceder anos, em vez de avançar em direcção ao que importa.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Sem comentários: