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segunda-feira, 21 de julho de 2025

Padre António Ramos (1941-2022), uma evocação


Por
19/07/2025
Publicado no Jornal "7Margens"
Aqui divulgado sob autorização

“Irmão” Ramos: madeirense, padre próximo, professor e pedagogo, crítico do Estado Novo e dos poderes



Ordenado padre a 14 de Agosto de 1966, na Sé do Funchal, o “irmão” Ramos, como gostava que o tratassem e o modo como se dirigia a todas as pessoas, foi professor do Seminário e do ensino público. Nas diversas paróquias onde exerceu o múnus pastoral e nas escolas onde deu aulas não deixou ninguém indiferente. Foi ainda um dos subscritores da “Carta a um Governador”; capelão militar na Guiné; e impedido pelo Governo Regional, no ano lectivo de 1979/80, de exercer funções no conselho directivo da Escola Preparatória da Ribeira Brava.

António Ramos Teixeira da Silva nasceu em Santana – um dos concelhos do norte da Madeira – a 7 de Abril de 1941 e faleceu no hospital do Funchal, no dia de Natal de 2022, com 81 anos. Era, então, pároco do Piquinho e Preces, paróquias do arciprestado de Santa Cruz, Machico.

Quando, em Agosto de 2016, completou 50 anos de sacerdócio, a Paróquia do Piquinho – Caramanchão, em Machico, editou um pequeno livro de “Homenagem ao Nosso Irmão”.

O texto, uma iniciativa do então seminarista Patrício de Sousa – actual pároco na Ponta do Sol e na Tábua –, «em gratidão pela amizade e ajuda no seu percurso vocacional e por tudo aquilo que tem realizado pela Paróquia do Piquinho ao longo destes anos», foi, em grande parte, baseado num trabalho inserto na revista Olhar, publicação do Jornal da Madeira, em 12 de Agosto de 2006, da autoria da jornalista Élia Freitas, no qual o padre Ramos recorda a sua vida dedicada à Igreja e aos outros.

Ao longo de quatro páginas, a jornalista enaltece a «vida de um homem que soube evangelizar dentro e fora da Igreja, com o seu testemunho e maneira de estar na vida, quer na escola como professor, quer como pároco, amigo e camarada»: «Por onde passou, deu-se sempre bem com todos e foi bem acolhido; o segredo para quem não conhece o Padre Ramos é o seu humanismo, a maneira cordial e simples como trata as pessoas e uma forma particular de se aproximar dos outros chamando-os de “irmãos”».

Concluída a instrução primária (4ª classe, actual 4º ano de escolaridade), na sua terra natal, na Escola de São Francisco de Sales (na altura, sob a direcção das Irmãs Vitorianas) António Ramos, aos 12 anos, ingressou no Seminário de Nossa Senhora da Encarnação, no Funchal: «A ideia de ser padre foi uma descoberta e uma vocação que se foi fazendo ao longo da minha caminhada de jovem, na participação com os grupos de jovens (…) Decidi ser padre não por influência da família, mas com muita influência do Padre Doutor Abel Augusto da Silva que, na altura, era o reitor do seminário» (Abel Augusto da Silva foi director do Jornal da Madeira durante um curto período de tempo, entre meados de Fevereiro e fins de Outubro de 1974; sucedeu-lhe Alberto João Jardim, nomeado pelo então novo bispo da diocese, Francisco Santana).

“Uma grande aventura”


Foto: Direitos Reservados

Local do antigo seminário no Funchal, onde o padre Ramos foi prefeito; a equipa formadora introduziu mudanças mal recebidas pelo bispo e o director, Paquete de Oliveira, teve de sair da diocese para evitar ser preso. 

Após a ordenação sacerdotal, e durante quatro anos, António Ramos foi professor (lecionou matemática e ciências) e prefeito no referido seminário. Trabalhou em estreita colaboração com o então padre José Manuel Paquete de Oliveira que, no ano lectivo 1966/67, fora nomeado director pelo à época bispo do Funchal, D. João António da Silva Saraiva, com a incumbência de o transformar em colégio diocesano, aberto a alunos externos.

De entre as mudanças introduzidas por Paquete de Oliveira sobressaiu o recurso a professores leigos (homens e mulheres), uma forma de proporcionar aos alunos/seminaristas uma maior abertura ao mundo. Uma decisão que, aliás, se inseria no espírito do Concílio Vaticano II, mas que, como revelou a jornalista Isabel Nery, em Setembro de 2014, numa conferência integrada nas comemorações dos 500 anos da Diocese do Funchal, foi recebida como «um escândalo»: «O argumento de que escolhia os de melhor currículo de nada valeu e, em 1969, o bispo chama-o para lhe dizer como se comprometera com as autoridades locais a retirá-lo da diocese para evitar ser preso.»

Do grupo de professores contratados faziam parte, entre outros, Francisco Simões (escultor), Jorge Marques da Silva (pintor e artes plásticas), Luís de Sousa Melo (foi director do Arquivo do Funchal), Jorge Atouguia (foi presidente do Conselho de Gestão do Liceu do Funchal), Adília Andrade e Natália Pais (ambas fundadoras e dirigentes do Sindicato dos Professores da Madeira). Imbuído desse mesmo espírito conciliar, de atenção ao mundo e aos sinais dos tempos, o padre Ramos não teve quaisquer dúvidas em considerar que se tratou de “uma grande aventura”.

É também nesses quatro anos que António Ramos se envolve no trabalho da Acção Católica na Madeira, de modo particular com a JOC (Juventude Operária Católica), colaborando com o assistente diocesano dos movimentos operários (adultos e juvenis), o padre doutor João da Cruz Nunes.

Em simultâneo, participa nas actividades do CCO (Centro de Cultura Operária), contribuindo designadamente para dotar muitos jovens, e até adultos (operários, caixeiros, empregados de escritório e de outras profissões) do mínimo de escolaridade, a chamada 4ª classe. Por essa via se reduzia a enorme percentagem de analfabetismo que a Madeira registava (nessa altura, como observou o padre Ramos, “dar (tirar) a 4ª classe é como hoje dar o 12ºano”).

Funcionando em regime pós-laboral, essas actividades escolares permitiram igualmente que muitos desses jovens, prematuramente lançados no mundo do trabalho, tivessem condições para obter a melhoria das suas habilitações escolares, uma vez que os preparavam para exames no ensino oficial. Paralelamente, o CCO contribuirá para a formação cívica dos seus membros e participantes, para o exercício de uma cidadania activa e consciente, no reconhecimento do valor social do trabalho e da justiça social.

“Carta a um Governador”, um gesto de coragem



Carta a um Governador, documento subscrito por republicanos, intelectuais, jovens católicos, membros da Juventude Operária Católica e padres. Foto: Direitos reservados.

O ano de 1969 ficará ainda assinalado na vida do padre António Ramos por um acto de intervenção cívica de profundo significado e de coragem. Foi um dos 39 subscritores da denominada “Carta a um Governador”. No prefácio à publicação da sua 3ª edição, o jornalista José Manuel Barroso – um dos principais responsáveis pela sua elaboração –, definiu-o como um documento «desafiante, um requisitório pelas liberdades e pela autonomia» que «conduziria, depois, a uma candidatura da Oposição, pelo círculo do Funchal, nas legislativas do Outono do mesmo ano».

O «factor determinante» desse conjunto de iniciativas foi, como também destaca, a retoma da «edição de um antigo jornal madeirense – o Comércio do Funchal, à volta do qual «se juntam pessoas de pensamento democrático, de várias gerações e de ideário diverso, que comungavam nas palavras-chave de unidade política: democracia e autonomia».

A Carta – «um retrato do Portugal e da Madeira de então» –, datada de 22 de Abril, juntou «velhos democratas republicanos, dos tempos das eleições presidenciais da candidatura do general Delgado; intelectuais e representantes da classe média liberalizante; jovens católicos progressistas, membros da Juventude Operária Católica e até sacerdotes». Estes últimos (no total de cinco) faziam parte do denominado grupo dos “Padres do Pombal” (designação atribuída por se tratar do nome da rua onde quatro deles moravam e local frequentado por outros mais) – o documento foi subscrito por três desses padres: o já mencionado, João da Cruz Nunes (doutorado em Letras pela Faculdade da Universidade de Lisboa), João Arnaldo Rufino da Silva e Gabriel Lino Cabral.

Rufino da Silva tinha obtido formação superior na área da música em Roma e era assistente do Corpo Nacional de Escutas, enquanto Lino Cabral era assistente diocesano de todos os organismos rurais da Acção Católica (jovens e adultos, masculinos e femininos). A Carta foi ainda subscrita por José Maria Araújo que, tal como o padre Ramos, era professor do Seminário da Encarnação. A 11 de Novembro de 1975, a casa onde viviam os referidos “Padres do Pombal” foi alvo de um atentado bombista, com a colocação de uma bomba-relógio, que a danificou profundamente, tornando-a inabitável. Na sequência desse acto terrorista e de um outro que destruiu, a 14 de Janeiro de 1976, um automóvel pertencente a João da Cruz Nunes, os mesmos passaram a viver no território continental e abandonaram o múnus sacerdotal. O mesmo faria, um pouco mais tarde, José Maria Araújo, na altura pároco da Paróquia do Carmo, em Câmara de Lobos, igualmente vítima da hostilidade do partido governamental na Região com a conivência do próprio prelado diocesano.

“Obediência e fidelidade ao Evangelho”



Concílio Vaticano II: os oito padres autores da carta aos deputados reivindicavam o espírito conciliar de justiça, liberdade e paz. Foto © Vatican Media

Seis meses volvidos, a 22 de Outubro de 1969, nas vésperas das aludidas eleições para a Assembleia Nacional, um grupo de oito padres católicos da Madeira endereçou uma carta aos “Senhores Candidatos a Deputados” (listas do regime e da oposição), na qual, recorrendo a inúmeras citações dos Evangelhos, de encíclicas papais e de documentos do Concílio Vaticano II, assumem: «O Evangelho que anunciamos não é neutralidade mas exigência de partilha, de justiça, de liberdade, de verdade e de paz». A posição adoptada, acrescentavam, «é motivada pela obediência e fidelidade ao Evangelho e à Igreja que nos confiou a sua proclamação».

Nessa missiva, os signatários insurgem-se, por um lado, contra a censura vigente, escrevendo que «sem uma informação séria e honesta, livre e sem intimidações não há elementos suficientes para um juízo e, portanto, não poderá cumprir-se o direito elementar de “saber a quem se dá o voto”» (referência a uma nota do Episcopado sobre o processo eleitoral), e, por outro, contra «uma sociedade em que o lucro pessoal e individual seja a regra máxima da organização social, económica e política», proclamando: «A unidade religiosa e a caridade exigem um nivelamento económico-social no ambiente profano em que vivem os cristãos», sendo, por conseguinte, «inaceitável dizer que o Evangelho pode ser igualmente vivido por ricos e pobres, opressores e oprimidos», uma vez que «foi anunciado aos pobres como uma Boa Nova de libertação».

Quatro dos oito padres subscritores, haviam também assinado a “Carta a um Governador” – João da Cruz e Rufino Silva, e José Maria Araújo e António dos Ramos Silva; os restantes eram párocos: António Pedro Alves (Ribeira Brava), José Martins Júnior (Ribeira Seca), José Vieira Pereira (Caniçal) e Mário Tavares Figueira (São Tiago – Corticeiras, Estreito de Câmara de Lobos).

Essas eleições ficariam marcadas por um notório envolvimento de muitos militantes dos organismos operários da Acção Católica, nas iniciativas organizadas pela candidatura da oposição democrática, um facto que levou os próprios deputados eleitos pelo partido único, a União Nacional, a se queixarem junto do então bispo da diocese, D. João Saraiva, tendo os secretariados diocesanos desses quatro organismos sido chamados ao Paço Episcopal. Na ocasião, o prelado haveria de declarar que «o povo não aceitava que os dirigentes da Acção Católica andassem metidos em política» e em defesa da sua tese chegou a afirmar que «ele próprio não tinha ido votar». Em resposta, o assistente diocesano desses movimentos, dr. João da Cruz Nunes, disse que «a atitude de não votar também era fazer política» acrescentando: «Tudo é política».

“Inferno é a ausência de Deus”



António Ramos (ao centro) como capelão militar durante a Guerra Colonial: um “castigo” pelas suas posições. Foto: Direitos reservados.

Como resultado deste compromisso social e do seu envolvimento na pólis, o padre Ramos seria “convidado” – a expressão e a leitura dos acontecimentos é sua – a entrar na Academia Militar para obter a formação como capelão militar e posteriormente ser enviado para um dos três territórios africanos onde as tropas portuguesas combatiam os movimentos de libertação que lutavam pela independência (em Angola, a guerra iniciou-se em Março de 1961, na Guiné em Janeiro de 1963 e em Moçambique em Setembro do ano seguinte).

Sucedeu-lhe exactamente o mesmo a que foram sujeitos os conterrâneos José Martins Júnior e Mário Tavares Figueira: Martins Júnior esteve em Moçambique, na região de Cabo Delgado, e Mário Tavares, no sul da Guiné, junto à fronteira com a Guiné-Conacry. António Ramos seria enviado também para a Guiné, mas para o norte (Guidage), junto à fronteira com o Senegal. Precisamente a região onde o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), graças ao recurso aos mísseis Strela, acabará por virar definitivamente a seu favor a luta armada, iniciada em 1963.

No relato desse período de dois anos em que esteve na Guiné, o padre Ramos não escondeu à revista Olhar as dificuldades no terreno que presenciou: «Em Guidage chegou a ficar oito dias à espera da avioneta, debaixo da terra, devido aos conflitos. “Todos os dias surgiam ataques, é como agora em Israel”, disse. Depois do ataque, os militares tinham de averiguar a origem do mesmo, o que era extremamente perigoso». No livro As Ausências de Deus – No Labirinto da Guerra Colonial, António Loja (também subscritor da “Carta a um Governador”, agnóstico confesso, que entre 1966- 68, como oficial miliciano, comandou uma companhia no teatro da guerra na Guiné, recorre à catequista da sua infância para estabelecer uma analogia entre o dantesco da guerra que viveu por dentro e o inferno: «Inferno, ensinava a catequista da minha infância, é a ausência de Deus».

Nessas declarações à citada revista, o padre Ramos é peremptório: «A guerra, em si, é injusta. A guerra havia porque os povos queriam a sua libertação, autonomia e independência. Nessa altura, Portugal quis adiar contrariando as grandes decisões europeias (…) Portugal quis sufocar o desejo de liberdade dos locais que queriam tornar-se independentes e autónomos. “É um direito dos povos. Mais cedo ou mais tarde tinha de rebentar. Foi isso que sucedeu.» Enquanto a Inglaterra enceta o seu processo de descolonização até 1960 e a França em 1962, em Portugal só em 1974 é que os capitães de Abril criam essas condições.

“A pior guerra”



Igreja da Ribeira Brava: na paróquia, o padre Ramos organizou debates entre os políticos concorrentes às eleições regionais. Foto © Câmara Municipal da Ribeira Brava.

Concluída a comissão de dois anos na Guiné, regressaria à Madeira, onde permaneceu cerca de cinco meses, tendo em 1973 sido novamente mobilizado, desta feita para o norte de Angola, onde a situação era calma. Com o 25 de Abril, assistiu à aproximação entre o Exército português e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e em 1975 foi para Luanda, «onde apanhou a guerra civil»: «Os últimos meses em Luanda foram terríveis, até Agosto de 1975 [mês em que regressou à Madeira]. Para mim foi a pior guerra (…) Ninguém estava à espera. Andamos de rastos», salientou. A guerra civil em Angola começou nem dois meses depois do Acordo de Alvor, assinado a 15 de Janeiro de 1975 entre o governo português e os principais movimentos de libertação.

Por isso, não surpreende: «Da guerra, apenas retém os aspectos positivos de formação humana, amizade, camaradagem, o lidar com assuntos quentes da vida familiar e da política bem como acompanhar pessoas que não acreditavam em Deus, mas que acreditavam no padre, para além da descoberta da bondade humana».

O sacerdote, é, por outro lado, muito crítico da descolonização: «Foi um erro. Era preciso dar tempo, faltou maturidade, foi muito precipitada. Faltou responsabilidade política de Portugal, de respeito pelas estruturas que estavam montadas nessas províncias.»

No regresso à Madeira, o padre Ramos foi colocado, como pároco, na Ribeira Brava, onde esteve entre 1975 e 1983. Seguiu-se o Faial até 2002 e posteriormente a paróquia do Carmo, em Câmara de Lobos, até 2004. A partir de então e até à data do seu falecimento assumiu a responsabilidade das paróquias do Piquinho e Preces, situadas em Machico.

Na Ribeira Brava foi, simultaneamente, professor de português na Escola Preparatória e Secundária Padre Manuel Álvares, funções que exerceria igualmente na Escola Básica e Secundária Bispo D. Manuel Ferreira Cabral, em Santana, a partir do ano lectivo em que foi colocado como pároco no Faial, uma das paróquias desse concelho do norte da Madeira.

Como pároco da Ribeira Brava, organizaria, por ocasião das eleições para a Assembleia Regional, debates com a presença das forças políticas concorrentes e na qualidade de professor foi indigitado pela comunidade escolar para integrar, no ano lectivo1979/80, o respectivo conselho directivo. O seu nome seria, porém, vetado pelo Governo regional, chefiado desde Março de 1978 por Alberto João Jardim.

Situação idêntica verificar-se-ia na Escola da Ponta do Sol com Gabriela Relva Gonçalves, activista das lutas dos caseiros e dos produtores de cana sacarina. Já no ano lectivo 1984/85, uma lista que integrava Bernardo Martins, irmão de José Martins Júnior, seria também impedida de exercer funções, para as quais havia sido eleita, no conselho directivo da Escola Preparatória e Secundária de Machico – de acordo com a orientação transmitida às escolas pela secretaria regional da Educação, só eram elegíveis os professores que politicamente «se situassem à esquerda do CDS e à direita do PS». Gabriela Gonçalves e Bernardo Martins tinham ligações à UDP. António Ramos Teixeira da Silva foi “punido”, certamente, por ter estado ligado ao aludido grupo dos “Padres do Pombal”, entretanto desfeito com a partida para Lisboa dos seus principais mentores.

“Os caboucos da utopia”



Escola Básica e Secundária Bispo D. Manuel Ferreira Cabral, projecto ao qual o padre Ramos esteve profundamente ligado. Foto: Direitos reservados.

A edificação da Escola Básica e Secundária de Santana é outro dos projectos a que António Ramos está indissociavelmente ligado. Sob o título “Os caboucos da utopia”, em Junho de 2003, a Escola publicará, numa revista que editou por ocasião do seu 20º aniversário, o testemunho em que o seu professor do 1º grupo narra não só a envolvência enquanto jovem, mas também a saga da luta pela criação do referido estabelecimento de ensino que descreve como a concretização de uma “UTOPIA”: «Trinta e tal anos são volvidos (…) Nos anos 70 do século XX, balbuciavam-se utopias, verdadeiros sonhos do futuro eminente. Éramos poucos “os filhos da terra”, desde o Seixal até Machico que romperam a nuvem negra do analfabetismo para contemplarem o Sol do Ensino Superior, Universitário e Profissional.

«As férias, com o seu perfume de convívios, arrebatavam-nos para a expansão desportiva, cultural, “mundiais” de comes e bebes, muitos nos ambientes das famílias. Havia um relacionamento “fraterno” com as “pessoas vivas” das várias actividades sociais com uma influência peculiar, nos nossos debates e intervenções no meio, sem esquecer a participação nos órgãos da comunicação a bem das localidades (…)

«Lembro-me, a partir de 1968, que os estudantes universitários, professores, médicos, funcionários públicos e privados, autoridades administrativas e outros começaram a despontar o “gorgulhinho” utópico e distante de termos nas “terras” do Concelho de Santana um LICEU.

«Iniciativa nascente, imberbe, sonhadora, mas calorosa e, por vezes, compulsivamente, acolhida quando se colocava a tónica da sua localização.

«As pretendentes: São Jorge e Santana.


«Felizes e alegres encontros de pessoas que acreditam que é assim que as coisas acontecem frequentemente. Espontaneamente, é lançado um abaixo-assinado, em Santana, para aí ser a sua localização futura nas “terras rurais” da sede do concelho. A adesão foi plena. E entregue, após a sua recolha, às autoridades do Ensino/Educação, sediadas na sede do Distrito do Funchal.

«Este documento mexeu com os “pergaminhos” bairristas desses centros populacionais. O seu intuito e relance de perspectiva reforçou, ainda mais, os laços de união do bom convívio entre todos (…) Os alicerces foram cavados e as raízes mais profundas alimentaram-se deste fervilhar de conversas, por vezes, muito animadas.»

O padre Ramos, ou melhor o “irmão Ramos”, como carinhosamente lhe chamam ainda todos aqueles que com ele privaram e se disponibilizaram a facultarem-nos depoimentos sobre a sua personalidade e percurso de vida, seja como sacerdote ou como professor, não deixou ninguém indiferente. Todos lhe reconhecem um traço marcante: um carácter profundamente humanista, afável, cordial, sempre disponível para ouvir e para transmitir uma palavra de conforto, de alento.

“Um cidadão do mundo”




António Ramos: “Onde passava só deixava admiradores e amigos”. Foto © Manuel Nicolau/ Diário de Notícias da Madeira, cedida pelo autor.

António Baptista Rosa, seu conterrâneo, uns doze, treze anos mais novo, empregado bancário de profissão, recorda-o, enquanto seminarista, como «um jovem muito próximo dos outros e muito dado aos convívios no centro de Santana, mais concretamente no local mais apetecível, que era o Vera Cruz, tipo café restaurante para a época». A este propósito, Baptista Rosa acrescenta mesmo: «Sei por boca de alguém mais perto da idade dele, que ele era muito dado aos convívios nocturnos, as chamadas patuscadas, se fazia presente, mas tinha muito receio de ser visto pelo padre da freguesia, Agostinho João Cardoso, por sinal familiar de Alberto João Jardim, ex-presidente do Governo regional e, por isso, aparecia disfarçado» – o citado padre era «extremamente conservador» e adoptava uma postura muito «controladora e retrógrada, apegada aos valores salazarentos».

Rosa – que foi o primeiro vereador que o PS elegeu no município de Santana – adianta que, «mais tarde já quando como padre, vim a tomar contacto com ele e, sabendo da sua personalidade humana muito dada a ser um cidadão do mundo como um outro qualquer, sempre me despertou interesse em conversar quando o via ou o encontrava por Santana ou pelo Funchal» e confessa: «Claramente que me apercebi do seu carácter desapegado dos velhos hábitos dos padres mais tradicionais e, óbvio, via nele um espírito crítico ao rumo e posturas dos políticos regionais da dita Madeira Nova. Era um homem livre, um padre com carácter progressista, liberto de amarras.»

No testemunho que nos transmitiu, Baptista Rosa realça ainda: «Pelo que sei, onde passava só deixava admiradores e amigos, muito se falava de que, quando era proposto para sair de pároco da freguesia onde estava, a população desfazia-se em manifestações de agrado e até iam junto ao bispo rogar para que a mudança não se efectuasse”. E conclui: «Sem dúvida que ele foi um ser humano excepcional, duma vontade férrea de ser um entre todos, um amigo, irmão como bem nos tratava e, acima de tudo, foi bom pároco, óptimo professor e humanamente irrepreensível. Um dos melhores entre nós.»

Uma opinião, uma visão do homem, do amigo, do colega de profissão partilhada pelos professores da Escolha Básica e Secundária Bispo D. Manuel Ferreira Cabral que, a nosso pedido, formulado junto do respectivo Conselho Executivo, se disponibilizaram a testemunhar.

João Gabriel Caldeira, professor de Educação Física e actual presidente do conselho da comunidade educativa do referido estabelecimento de ensino, relembra «a imagem sorridente e afável, do colega e amigo, (…) a sua ética de ser e estar» e assume: «Para muitos de nós, ele não era apenas um colega, mas também uma fonte de inspiração, cordialidade, solidariedade e amizade. Durante os anos que trabalhámos juntos, o irmão Ramos sempre se destacou pela sua dedicação, ética, alegria e, acima de tudo, pela sua generosidade humanista e espiritual. Ele estava sempre pronto para ajudar, fosse com uma solução prática de empoderamento e/ou apenas uma(s) palavra (s) de encorajamento, nos momentos desafiantes da vida.»

“Uma energia contagiante, grandes lições de pedagogia”




O padre Ramos, segundo João Gabriel Caldeira, professor de Educação Física: «Possuía uma energia e positividade contagiantes, que iluminavam o ambiente de trabalho.» Foto: Direitos reservados.

João Gabriel Caldeira prossegue: «Possuía uma energia e positividade contagiantes, que iluminavam o ambiente de trabalho. Seu sorriso e espontaneidade eram capazes de aliviar as tensões do dia a dia e re-calibrar o ambiente tornando-o mais leve e aprazível. Ele tinha uma maneira única de transformar ambientes sombrios em ambientes luminosos, em transmutar desafios em oportunidades, em tornar leves acontecimentos pesados. A sua atitude, a sua acção positiva era um marcador singular da sua identidade e um exemplo para todos nós. Sentimos falta da sua presença, da sua sabedoria e deontologia profissionais, mas, ao mesmo tempo, somos gratos por tudo o que ele nos ensinou, da sua herança e abertura perante o conhecimento, a educação, cultura e religiosidade. O seu legado, enquanto professor e no exercício do ministério sacerdotal, ressoará para sempre em nossos corações, perpetuando-se e reflectindo-se na nossa visão humanista e consciência dos valores espirituais educativos.»

No texto emocionado e emotivo que nos facultou, este doutorado em Ciências do Desporto pela Universidade da Madeira e antigo deputado à Assembleia Legislativa Regional pelo PSD, confessar-nos-ia ainda: «Só agora percebo a sua vontade de ser chamado de IRMÃO, só agora entendo o alcance e significado desta palavra. Esta assunção de que todos tivemos origem do mesmo pai, esta aproximação entre todos e a comunhão de tudo, este sentido de comunidade universal, este pulsar de justiça social traduz bem a simplicidade complexa do agir do Irmão». A terminar, escreve: «Ficarás e serás sempre um capítulo crítico no livro, da minha/nossa história educativa e de todo o “aprender” do Homem ético».

Maria Rita Abreu, professora de Francês, foi outra colega que testemunhou: «Ensinou com partilha e humildade, com valentia! Como era sábio este nosso professor, que marcou tantos e tantos alunos. Ainda hoje é citado, pelo valor e impacto que teve nos conselhos que dava… (…) formou, de forma espontânea, uns quantos jovens professores que chegavam à escola de Santana para trabalhar. Tantos de nós ouvimos as intervenções que fazia nos conselhos de turma e nos conselhos pedagógicos. Foram grandes lições de pedagogia, de correcção profissional e de sentido de dever. Eu fui uma delas. Ouvia, como se as suas palavras fossem lei e muito do que sou, enquanto professora, foi “ali” que fui buscar… aos momentos em que o colega “irmão” nos brindava com a sua sabedoria. Foi um privilégio ter-me cruzado com alguém com o mais alto grau de humanidade.»

Palavra e Vida entrelaçadas



António Ramos a celebrar: “No altar, como na vida, a todos, sem excepção, tratava por irmão/irmã”, diz Maria de Freitas Vieira, professora de Português. Foto: Direitos reservados.

Quem também testemunhou foi a professora de Português Maria de Freitas Vieira que, tendo sido colega de grupo do “irmão” Ramos, foi também sua aluna e suceder-lhe-ia como Delegada de grupo quando em Dezembro de 2002 o professor António Ramos Teixeira da Silva se aposentou. Num texto com o título “Paz e Bem!”, Maria Vieira começa por evocar «com saudade e reverência profundas, a época da meninice em que por viver no limiar de duas paróquias, [lhe] foi dado a conhecer o padre Ramos. Foi na capela de Santo António, no Sítio da Fajã Grande (Faial), localidade isolada, que ao domingo envergava a roupa de ir à missa e caminhava, respondendo ao apelo do sino», recordando: «No altar, como na vida, a todos, sem excepção, tratava por irmão/irmã e a cada um reservava uma palavra de alento, de encorajamento, de paz! Homílias simples francas. A Palavra e a Vida de mãos estreitamente entrelaçadas com as mais belas metáforas tecidas de que são feitas as vidas duras do campo: o trabalho da sementeira, a paciência do germinar, a esperança de uma colheita avultada, para não haver falta, fome, fraqueza!».

Escreve ainda Maria de Freitas Vieira: «Quando em Outubro do meu 7º ano, descobri que teria o padre Ramos como Professor de Português foi a alegria! Eu, que já acalentava um fervoroso gosto por ler, pela magia da palavra, encontrei nas suas aulas, novos autores, é certo! Mas a mesma simplicidade na condução da descoberta de pensamentos, ideias e sonhos, vivências de seres tão bons e humanos como cada humano que povoava as suas salas de aula. Porque para este mestre não havia maus alunos. Somente bons ou alguns apenas um pouco distraídos e irrequietos! A esses convidava, de vez em quando a ir até aos pátios observar a beleza dos canteiros ou a magnitude do céu e das montanhas envolventes. Nas suas aulas, também, foi enrubescendo a minha vontade de colaborar na nascença de outras vocações, de outras pessoas de bem!»

Maria Vieira, de seguida, recorda o momento em que se tornou colega do padre Ramos: «Recebeu-me de braços abertos quando integrei o Quadro Docente da Escola e soube, com a infinita paciência de quem não pretende ensinar, mostrar como o muito conhecimento que uma licenciatura confere pode ser ínfimo, se não formos capazes de ver em cada aluno um ser humano, portador de sonhos, apetências, laços, fragilidades, algumas pequenas misérias, também! Que não há casos perdidos! Foi meu delegado de grupo e as reuniões a que presidia com bonomia e franqueza, cordialidade e espírito de lealdade, acima de tudo, eram um prolongamento, em forma de eco, das celebrações dominicais e das aulas em que a análise de qualquer texto era inequívoca: todos podemos ser melhores, de preferência rodeados de boas amizades».

Por fim, a sua saída da Escola de Santana: «Com a aposentação, passou-me directamente o testemunho. Passei a desempenhar o cargo de delegada. Mal sonhava eu, então, com o quão bem me preparou! Por isso, quando desafiada a prestar depoimento do que foi a presença do padre professor Ramos na minha vida, pensei que tinha de ser fiel à simplicidade do seu registo e ocorreram-me as palavras Paz e Bem, como as que melhor se lhe adequam!»

“Irmão” não era retórica




Um opúsculo sobre o padre Ramos: «O “irmão” não era retórica, mas algo que transparecia em todas as suas palavras, no modo como se aproximava de nós», diz António Bernardino Ornelas, professor de Ciências e Matemática. Foto: Direitos reservados.

Por sua vez, António Bernardino Ornelas, professor de Ciências e Matemática, que, em meados da década de 1980, começou a ter «um contacto mais próximo com o “professor” Ramos porque, entretanto, colocado como pároco na freguesia vizinha do Faial, começa a exercer funções docentes na então Escola Preparatória de Santana, onde exercia», sublinha a importância do tipo de trato que o padre Ramos estabelecia no relacionamento com todos: «O “irmão”, como gostava de ser tratado e como tratava todos os demais, não era uma questão de retórica, mas algo que fazia transparecer em todas as suas palavras, no modo como se aproximava de nós, nos tratava, se despedia… sempre da forma mais genuína, atitude que também manifestava com os seus alunos (…). “Irmão”, palavra que representava a simbiose perfeita entre o “padre” e o “professor”, nas suas aceções mais humanistas, sem qualquer tipo de hierarquias subjacentes. Aliás, essa era a postura e a atitude que também manifestava no exercício dos cargos docentes (delegado) e da organização (comunidade educativa).»

No final do seu depoimento, recordando o já citado texto “Caboucos da Utopia” em que o padre Ramos historia o processo de implantação da escola na então freguesia de Santana, manifesta orgulho com o percurso da mesma, enquanto instituição, realçando o contributo de um dos seus percursores: «O “irmão” é um dos elementos que será sempre tido em consideração, também pela imagem que conseguiu criar e associar ao nome da Escola.»

Reconhecimento que, de resto, aquando da aposentação, a Escola fez questão de prestar-lhe, através de “público louvor”, sublinhando «com admiração e apreço, a capacidade de trabalho, a sua competência, o seu espírito construtivo, a sua sensatez, a sua solidariedade, o seu entusiasmo e o seu humanismo que pautaram a sua actividade na sua dedicação à causa da educação e a esta escola em particular.»

Unanimidade proveniente de diferentes quadrantes que repetir-se-ia quando faleceu. Na ocasião, a Junta de Freguesia do Faial (localidade onde foi pároco entre 1983 e 2002) relevou que «foram duas décadas de efervescência pastoral, social e cultural», destacando a criação de um grupo coral infantil e de o salão paroquial se ter tornado «centro de actividades de catequese, representações teatrais e convívios, com a juventude, dos anos oitenta e noventa, a encontrar espaço de crescimento, convívio e formação».

No comunicado tornado público, aquele órgão do poder local enalteceu ainda que «centenas de pessoas foram marcadas pelo seu bom feitio, abertura, aceitação de todos, sem excepção e por uma visão humanamente aberta. Valores e atitudes que cultivou e cuja prática incentivou».

Um exemplo de alegria e de fidelidade



“Em Agosto de 2016, no livro que a Paróquia do Piquinho – Caramanchão editou em sua homenagem, sobressaía a referência a uma marca do exercício do seu múnus sacerdotal: «É bonito vermos que a casa paroquial tem sempre a porta aberta, sinal de que está sempre pronto para atender e conversar com quem quer que seja.»”. Foto: Direitos reservados.

Seis anos antes, em Agosto de 2016, no livro que a Paróquia do Piquinho – Caramanchão editou em sua homenagem, sobressaía a referência a uma marca do exercício do seu múnus sacerdotal: «É bonito vermos que a casa paroquial tem sempre a porta aberta, sinal de que está sempre pronto para atender e conversar com quem quer que seja. Desde sempre marcou as pessoas pelo facto de estar junto delas e tratá-las por irmãos», ao mesmo tempo que eram enaltecidas as suas características e qualidades pessoais: «É verdadeiramente um irmão que temos tido durante estes quase doze anos. Tem sido um pastor muito presente e preocupado sempre com as famílias, os problemas da sociedade e da comunidade também (…) O padre Ramos ou o irmão Ramos tem sido uma figura muito importante para toda a comunidade. É um exemplo de alegria e de fidelidade ao seu ministério de entrega total a Deus e ao Povo que lhe foi confiado. Todas as pessoas são unânimes em afirmar que o padre Ramos é atento, com bom coração e amigo de todos. É o nosso irmão Ramos!».

José Martins Júnior, no blogue “Senso@Consenso”, num curto texto de 27 de Dezembro de 2022, sob o título «O “25” no “27”, referir-se-ia ao passamento do padre Ramos, escrevendo: «Por coincidência, o silêncio cobriu o céu chuvoso de Machico quando, na manhã do 25, se espalhou a notícia da morte do “Grande Irmão”, o Padre António Ramos, pároco de Piquinho e Preces. Meu Colega no Seminário, meu Camarada – Capelão Militar, meu Confrade e Vizinho, ‘porta com porta’ entre Ribeira Seca, Caramanchão e Ribeira Grande. Do muito que conversávamos sobre o futuro incerto da Igreja na Madeira, tudo quanto do meu apreço e amizade já lho disse em vida.»

Confrontado com esse curto texto e desafiado a reflectir sobre o percurso de António Ramos Teixeira da Silva, o padre Martins consideraria, pouco tempo antes de morrer ele próprio, no dia 12 de Junho último: «No seu múnus sacerdotal, embora não primasse pela combatividade aparente, no entanto guardava no seu íntimo um acurado sentido crítico perante a condução diocesana da pedagogia catequética e da prática religiosa na Madeira. Foi o que lhe reconheci, quando paroquiou as duas igrejas de Piquinho e Preces, circunvizinhas da minha paróquia da Ribeira Seca, nos últimos anos de convívio mais assíduo.»

“Só mercearia, peditórios, festas e confissões”



Padre José Martins Júnior sobre o colega António Ramos: «Era um homem sensível e atento aos Sinais dos Tempos, na linha do Vaticano II, preocupado com o modus vivendi do cristianismo regional, tão superficial e tão diverso do Evangelho proclamado por Jesus.» Foto © António Marujo/7MARGENS.


Como exemplo desse «acurado sentido crítico», Martins Júnior contar-nos-ia: «Notei que o amigo Padre Ramos raramente participava nas reuniões mensais do arciprestado de Santa Cruz e Machico, a que pertencíamos, as quais eram presididas e orientadas pelo bispo da diocese. Perguntei-lhe o porquê de só comparecer no Piquinho e na Ribeira Seca. E a resposta foi pronta, serena, mas firme: “Oh Martins, o que é que eu vou lá fazer? Não se aprende nada. Só mercearia, tabelas e peditórios de dinheiro, horário de festas, data das confissões auriculares pelo Natal e pela Páscoa. Não perco tempo com isso”». O ex-pároco da Ribeira Seca, acrescentaria: «E foi com muito apreço e redobrada atenção que lhe ouvi falar abertamente, numa dessas reuniões, diante de todos os colegas: “Onde é que estão os grandes problemas das nossas paróquias? Quando é que se vai falar da juventude, das situações de droga, desvios comportamentais, da pobreza, do crescente abandono das nossas igrejas, etc., etc.?!”».

Daí que Martins Júnior não hesitasse: «Era um homem sensível e atento aos Sinais dos Tempos, na linha do Vaticano II, preocupado com o modus vivendi do cristianismo regional, tão superficial e tão diverso do Evangelho proclamado por Jesus.» Por fim, o antigo pároco do Porto Santo e professor do Liceu do Funchal, recordou: «Jamais esquecerei o discurso, eloquente e sentido, que fez na igreja da Ribeira Seca, por ocasião da solene homenagem ao grande e coerente Padre Mário Tavares Figueira , de saudosa memória» (o «preito de gratidão e saudade» ao antigo pároco de São Tiago, na freguesia do Jardim da Serra, foi-lhe prestado a 5 de Julho de 2020, 30 dias após a sua morte, pela comunidade da Ribeira Seca, em sinal de reconhecimento pela colaboração dada nas ausências do pároco, Martins Júnior).

O próprio ex-presidente do Governo regional – que em Outubro de 1979 não permitira que o padre Ramos desempenhasse funções no conselho directivo da Escola da Ribeira Brava –, aquando do seu falecimento, escreveria no antigo Twitter: «Partiu na manhã de Natal, tão Lhe adequada [sic]. Progressista, culto, foi o IRMÃO como todos O tratávamos e considerávamos. Como na Igreja de Cristo, acolhia todos, resolvia problemas, a ninguém hostilizava, não se exibia, não tinha complexos. Abraço forte, Irmão.»

Em jeito de síntese, o conterrâneo e amigo António Baptista Rosa disse-nos que o Padre, o Irmão Ramos herdou o carácter e a personalidade do pai – um pequeno agricultor e comerciante de gado – e que personificava na plenitude a essência de um Homem Bom. Praticava, ao fim e ao cabo, «a proximidade, a vizinhança» de que falava o Papa Francisco, em 2013, em entrevista a La Civiltà Cattolica.

*António Henrique Sampaio foi militante da Juventude Operária Católica e redactor d’O Comércio do Funchal. Subtítulos da responsabilidade do 7MARGENS.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Energia: Suécia furiosa com a Alemanha


Por

O próprio Tribunal de Contas Europeu tem apontado várias incongruências ao Pacto Verde de transição, a diversos níveis, incluindo o tecnológico.



“Je suis furieuse contre les Allemands”, palavras de Ebba Busch, Ministra sueca da Energia e Indústria, numa conferência de imprensa a 19/12/2024, largamente referidas na comunicação social europeia. Para Ebba Busch, a política energética (Energiewende) da Alemanha é irresponsável e injusta, porque sobrecarrega as famílias e empresas suecas (e europeias, acrescento eu) com os seus preços elevados de electricidade, os chamados “preços alemães”, que os europeus têm de pagar, quando, no seu território, muitos países produzem-na a custos bem mais baixos.

Isto acontece porque a União Europeia está interligada em rede, possibilitando, deste modo, um equilíbrio alisado entre a oferta e a procura, a nível de todo o espaço europeu, com um regime de formação de preços estabelecido no mercado por grosso, no mínimo discutível (?) e desadequado que se repercute numa prática de preços elevados de electricidade, em benefício da Alemanha.

A Suécia é o segundo maior exportador líquido de electricidade para a União Europeia (o primeiro é a França) e, quer um quer outro país têm um mix de produção conjugada de hídrica, nuclear e renovável, que lhes permite produzir a custo mais baixo e de forma regular (não intermitente). São também países de baixa emissão de gases com efeitos de estufa – CO2, enquanto a Alemanha é o pior da Europa.

2. A Alemanha, a principal economia europeia (por enquanto?!) apostou numa política energética de abandono da nuclear, iniciada com Merkel na sequência de Fukushima, reconhecida hoje como uma aposta falhada, inclusive por instituições e partidos da própria Alemanha, mas que nunca corrigiu como outros países o fizeram, entre eles, a Suécia.

Pior, esta política estendeu-se à União Europeia por imposição da Alemanha, e, hoje, continua com defensores ao nível da Comissão Europeia, com dois Comissários, assumidamente antinucleares, sendo um, o Comissário Europeu para a Energia, o dinamarquês Dan Jorgensen, que tem tentado dificultar quando não boicotar os países que não apostam cegamente nas renováveis (eólica e solar) como ainda recentemente aconteceu com a França e continua a pôr entraves a projectos da Aliança Nuclear Europeia, aliança essa maioritária, em termos de número de países, no seio da energia e reconhecida pela anterior Comissão de Ursula von der Leyen, para a qual foram aprovadas medidas, sobretudo no tocante a Investimentos em SMR (reactores modulares de pequena dimensão) a concretizar até 2030.

Neste contexto, é perfeitamente entendível e merecida a expressão de zanga profunda da ministra sueca, porque não é justo que suecos e restantes europeus paguem “preços alemães” por teimosia dos lóbis das renováveis que nem as necessidades da Alemanha conseguem satisfazer, em dias sem sol e sem vento, como ultimamente tem acontecido e continuará a acontecer, se a teimosia continuar e a UE não corrigir o rumo, apostando numa estratégia óbvia para a energia, em que a nuclear tenha o espaço que lhe compete. São estas decisões/falhas de fundo que levaram a UE a perder competitividade à UE e a entrar em declínio continuado no contexto mundial.

O problema de fundo é grave

3. As sucessivas Comissões Europeias, desde o tempo em que Merkel decidiu sair da energia nuclear (houve uma onda, então, por toda a Europa, até Macron alinhou na redução da energia nuclear em França para substituir por renováveis), são corresponsáveis por toda esta estratégia de tragédia para a competitividade da União. As culpas maiores recaem, contudo, nas últimas Comissões que se demitiram de ter pensamento sobre a energia, apesar das boas achegas que a Ciência, entretanto, tem acrescentado, no sentido da escolha de outros caminhos. A Alemanha não mudou, os lóbis das renováveis instalaram-se e, até à data, domina a orientação das renováveis, apesar das provas de que não resolvem a situação. Para as eleições de Fevereiro, as expectativas de reviravolta apresentam-se favoráveis.

Lendo, com cuidado, o estudo do think tank Bruegel, de Bruxelas, pró-europeu, publicado em 2 de Dezembro 2024, sob o título: Uma estratégia de investimento para manter o Pacto Ecológico Europeu no bom caminho, deduz-se que a Europa não tem recursos financeiros para implementar a transição energética (tecnicamente discutível como refere o Tribunal de Contas e vários especialistas da matéria), traçada por Ursula von der Leyen em Julho de 2021.

O estudo, na prática, contém uma denúncia do mau desempenho da Comissão, embora não tenha sido essa a intenção do Bruegel. Mas, ao afirmar que a UE não tem capacidade financeira para despender os custos reais da transição energética de cerca de 1,3 triliões (trilions, francês) de euros por ano até 2030 para atingir a meta climática definida de redução de emissões de 55% e de 1,54 triliões/ano de 2031 a 2050 para atingir a neutralidade carbónica, não há outra leitura possível. Aliás, está escrito: “a Europa não está no caminho certo para atingir as suas metas climáticas”, apontando uma resistência à descarbonização cada vez mais forte e o esgotamento de meios financeiros quer ao nível da União Europeia quer dos Estados-membros.

A resistência das populações é cada vez mais forte porque ao Pacto Verde europeu se associam o aumento sucessivo de preços da energia e a noção de que as complicações recaem sobretudo sobre a vida dos mais pobres e com muitas empresas de diversos sectores a atravessarem profundas crises, encerramento e/ou deslocalização para outros países. Por outro lado, a ameaça de desemprego é uma realidade em empresas ícones da indústria europeia (química, automóvel, metalurgia, etc.) que estão a encerrar em vários países europeus. Numa outra frente, os agricultores estão em luta contra o Pacto Verde há muito tempo e agora, de novo, o Mercosul veio despoletar uma situação de concorrência desleal, ajudando a consolidar ainda mais essa resistência de rejeição.

Finalmente, o próprio Tribunal de Contas Europeu tem apontado várias incongruências ao Pacto Verde de transição, a diversos níveis, incluindo o tecnológico. A juntar, especialistas há que têm atacado a Comissão Europeia de não ter quantificado, deliberadamente, os verdadeiros custos do Pacto Verde por temer a rejeição de um programa debilmente fundamentado e dispendioso.

Situação a nível global

4. O modelo económico subjacente a esta transição energética está em causa pelos seus efeitos designadamente a grande desindustrialização que tem vindo a provocar, desde há anos. Como saída tem sido avançado o mito da “reindustrialização” que não está a acontecer porque lhe faltam as bases e os consensos.

Sem um largo consenso, no campo da energia, base de tudo, (a energia tem de ser encarada não como um simples ramo da economia, mas como algo instrumental para toda a economia) não há saída, até porque a UE tem vindo a perder vantagem em várias frentes (tecnologia e inovação) e se não acomoda o essencial dificilmente arrancará. E as instituições da União Europeia não estão a dar grande contributo até porque os desentendimentos entre si são muito profundos embora mais ou menos velados. Dirigentes europeus capazes (pensamento, conhecimento e acção) é o que faz falta porque, na realidade, não os há.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Caos e desorientação na União Europeia


Por
Economista

Perda de valores, grandes incertezas sobre o futuro, caos nas ideias, na política, nas relações internacionais, são ‘qualificativos’ estruturantes do Mundo de hoje.



Vendo bem, irresponsabilidade, desorientação, desencontro de gerações, perda de valores, grandes incertezas sobre o futuro, caos nas ideias, na política, nas relações internacionais, são qualificativos estruturantes do Mundo de hoje.

A título de exemplo. A futura equipa presidencial dos EUA, escolhida a dedo, cheia de gente negacionista da Ciência, o caso da saúde com Robert F. Kennedy Jr., no comando, é aberrante, um homem anti-vacinas, felizmente contestado por um grupo de Prémios Nobéis ligados a temas de saúde; os representantes do grande capital, corporizados na gestão político-económica do país em que Elon Musk é o protagonista nº1 subjugando o país aos interesses de uma ínfima minoria, é, no mínimo, um tremendo caos.

A Coreia do Sul, onde o Presidente Yoon decreta a Lei Marcial, alegando razões absurdas, para horas depois a anular por decisão do Parlamento e do povo nas ruas e pedir desculpas ao país do que fez, mas onde, por outro lado, o líder do partido do Presidente, apesar de afirmar que ele representa um “grande perigo” para o país e seu povo, não o querer destituir, apesar da Assembleia tê-lo feito, não na primeira tentativa é, no mínimo, irresponsabilidade.

A Síria tomada pelos rebeldes sem qualquer oposição, mas de futuro incerto, enfrenta dias difíceis de desintegração, se não anos. De positivo, no Médio Oriente, só mesmo a condenação cada vez mais reconhecida no Mundo do crime de genocídio praticado por Israel na faixa de Gaza.

Para terminar a exemplificação. Nada a sair bem no combate às alterações climáticas, as pessoas cada vez mais descrentes das medidas que os responsáveis políticos mundiais aprovam nas célebres COP e ainda a denúncia indireta pelo think-tank Bruegel pró-europeu de que a Europa não tem dinheiro (meios) para a sua transição energética. Tudo isto e outras situações indiciam maus momentos (estruturais) que perduram, com poucos sinais visíveis de alteração no Horizonte. Que ambiente mundial é este?!

A amenizar, aconteceu Notre-Dame, um sucesso na recuperação de um património de grande simbolismo, cuja celebração foi aproveitada para contactos políticos de circunstância, de alto nível, mas sem grandes ilusões pois, apesar de tanto aparato, apenas uma pequena parte de representantes políticos do Mundo esteve ali. A outra grande parte, o “Sul Global”, cada vez mais influente e reivindicativo, com vozes, quantas vezes contraditórias, mas que não deixará de ser determinante no lançamento de novas condições para uma “outra arrumação” das instituições mundiais, não foi ouvida. Então, porque se fala de uma Cimeira Mundial em Notre-Dame?

A Europa em desconforto

Na União Europeia, temos as duas maiores economias em crise (fechos de empresas, despedimentos) e os respectivos países (Alemanha e França) desgovernados: o governo Barnier (França) chegou ao fim pelo chumbo do Orçamento 2025 por uma moção de censura na Assembleia. O de Olaf Scholz, em banho-maria, aguarda eleições em Fevereiro. As incertezas de um e outro país, que se arrastarão por meses quanto a soluções em conteúdo e em equipas governamentais, são angustiantes, apesar de Macron já ter escolhido Bayron para PM.

O governo de Scholz na Alemanha é um não ente, admitindo-se que a CDU/CSU venha a ser a coligação mais votada, embora com um forte avanço da extrema-direita, a AfD. As expectativas estão no programa eleitoral da CDU/CSU incluir a retoma da energia nuclear, substituindo, desta forma, a Energiewende, a política energética vigente (aposta nas renováveis intermitentes, solar e eólica) que arruinou o país e ia afundando a UE. A energia é o grande problema de fundo da União Europeia.

A propósito da Energiewende um exemplo recente. A 6 de Novembro último, devido à falta de vento, as 1602 turbinas eólicas offshore do país estavam paradas, assim como as onshore… e esta situação durou 30 horas. Com o pôr do sol cessa a energia solar. Mas o consumo continuava uma necessidade. Como se recompôs a situação? A Alemanha teve de importar, de emergência, electricidade (nuclear) de França e o preço no mercado alemão de um megawatt/hora atingiu, então, 820 euros. Se tal cenário se repetir em Janeiro/Fevereiro de 2025, a temperaturas bem mais baixas, por conseguinte, consumos mais elevados que a 6 de Novembro, a Alemanha não vai conseguir importar e, certamente, poderá não escapar a um apagão maior ou menor (Transitions & Énergies 4 de Dezembro 2024).

Este exemplo demonstra o fracasso monumental do que tem sido a política energética da Alemanha: grossos investimentos nas renováveis intermitentes na ordem dos 600 mil milhões de euros, nos últimos dez anos, acompanhados do fecho das centrais nucleares, tendo cada vez mais que recorrer às fontes de energia fóssil. “Não é de admirar que os preços da electricidade na Alemanha sejam os mais altos da Europa e, por isso, tenham enfraquecido as suas actividades industriais”, lê-se na fonte antes citada, levando ao fecho de muitas unidades fabris ou à sua deslocalização, como tem acontecido com as químicas e muitas empresas electromecânicas.

Esta situação tem tido repercussões na economia europeia, enfraquecendo-a e tornando-a menos competitiva. E já que muito se fala de Draghi, cabe aqui dizer que, no relatório sobre os problemas da UE, identifica a questão energética fundamental. Sem estratégia, a UE será um pólo mundial manco, porque não competitivo e, menos ainda, poderá guindar-se a uma posição relevante nas actividades tecnológicas ligadas à IA, à computação quântica que requerem muita energia. EUA e China estão a avançar com medidas de política nesse domínio, recorrendo à nuclear.

Por outro lado, a Presidente da Comissão Von der Leyen anda toda entusiasmada com o Mercosul que, neste momento, tem a oposição de França, Polónia e Itália e, sobretudo, dos agricultores de vários sindicatos europeus com manifestações de rua previstas, em vários países. Evidente o Mercosul merece reflexão e celeridade, mas sem perceber as razões que levam grande parte dos agricultores europeus a manifestarem-se; sem corrigir as políticas europeias, em si, mal calibradas, a competitividade da agricultura da Europa não se resolve.

Não havia razão para mais uma fissura entre a Comissão e os países. Já existem tantas e muitas outras estarão na forja, a partir de 20 de Janeiro, complicando as relações de entendimento na Europa.

Caos e irresponsabilidade grassam no Mundo e, sobre as guerras, o cansaço e as informações pessimistas predominam, desde as deserções na Ucrânia que apontam para centenas de milhares e de mortes também dessa ordem, a sondagens que não se sabe se existiram ou não, em que elevadas percentagens dos europeus exigem negociações de paz e um clima de desilusão contagiante por toda a Europa.

Reina uma sensação de fim de ciclo. Urge equacionar, sem mais delongas, ajustamentos profundos em cada pólo económico e na relação entre si. Mas quem serão os agentes da passagem para o novo ciclo, se quem domina as relações mundiais não está para largar, de ânimo leve, as alavancas do poder, sem luta, seja de que tipo for…?

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Os “11 de Setembro” ao longo dos tempos


Por

A ideia inicial de um simples revisitar, de forma simbólica, o Golpe Militar do Chile e o Atentado às Torres Gémeas, qualquer deles, um acto de terrorismo puro, surgiu de muitos investigadores defenderem que estes dois acontecimentos trouxeram ao Mundo mudanças profundas duradouras, designadamente descredibilizando o “Mundo do Poder” indiciando o seu declínio, incentivando a prazo um novo Mundo em ebulição.




A publicação deste artigo de opinião coincide em data com dois acontecimentos de primordial importância mundial, relativamente recentes: o Golpe Militar do Chile, no ano de 1973, comandado por Pinochet, pouco antes do nosso 25 de Abril, que derrubou o regime constitucional existente, no decorrer do qual morre o Presidente Salvador Allende e o Atentado às Torres Gémeas em Nova York, em 2001, com milhares de mortos.

O Golpe militar do Chile

Salvador Allende chegou à Presidência do Chile, eleito a 4 de Setembro de 1970, constituindo um governo de Unidade Popular com um programa de reformas estruturais de transformação da sociedade. Esse programa ia contra os interesses da extrema-direita, direita e democracia cristã. A CIA, aliada destas forças políticas chilenas, esteve sempre na manobra da criação de condições para o derrube de Allende que, sem maioria no Congresso, enfrentava problemas graves de funcionamento, designadamente em termos da legislação das reformas a introduzir. Em tempos de guerra fria e grande envolvimento na guerra do Vietname, a governação Allende, em desgraça desde início face aos EUA, pois, tornava-se ainda mais incómoda, na América Latina, a funcionar em contracorrente. Assim, o regime democrático de esquerda sobreviveu somente 3 anos, graças ao apoio da CIA no seu derrube. Com o golpe militar instituiu-se a Junta Militar, com Pinochet na Presidência, o cérebro que comandou o ataque ao Palácio de la Moneda.

A Junta desencadeia uma repressão sangrenta por todo o Chile. Os números oficiais de vítimas são terríveis. Cerca de 3200 entre desaparecidas e executadas e 200 a 300 mil pessoas presas e torturadas. Abule o Congresso, instala a ditadura, suprime a liberdade de imprensa e implanta um regime ultraliberal na economia. Passaram-se 19 anos até a retoma de eleições.

O Ataque às Torres Gémeas

O ataque às Torres Gémeas foi desencadeado pela Al-Qaeda, dirigida então por Osama bin Laden. Dos quatro aviões americanos, sequestrados na costa Leste, dois são lançados contra as Torres Gémeas do World Trade Center (WTC), em Nova Iorque, um danifica o Pentágono, em Washington, e o outro cai na Pensilvânia em área não habitada.

Sobre estes atentados persistem muitos buracos negros. Demorou tudo muito tempo a saber-se. Desde o apuramento do número de mortos que nunca se saberá, sendo a maior incógnita uma “aparente negligência” da CIA na antevisão dos acontecimentos porque houve indícios, pelo menos, vários investigadores e historiadores a isso se referem.

De assinalar que Bin Laden, por algum tempo, manteve excelentes relações com os EUA, recebendo inclusive armas e dinheiro. Porém, a guerra do Golfo mudou tudo, por despeito, devido ao alinhamento dos EUA. E aí começam os atentados da Al-Qaeda contra os EUA.

Estes dois acontecimentos têm leituras bem diferentes. O primeiro é um conluio do “Mundo do Poder” atacando um país democrático por não lhe prestar vassalagem. O segundo é uma “rebeldia” contra “o Mundo do Poder”, abrindo-lhe fragilidades.

Acontecimentos ao longo dos tempos

Uma pesquisa alargada aos muitos Setembros permitiu identificar factos históricos de relevo, de que se escolheram alguns, relativos a Portugal e ao Mundo. Desde logo, neste mesmo dia, 11 de Setembro, só que do ano de 1891, suicidou-se, em São Miguel, num banco de jardim, o poeta Antero de Quental.

Nos acontecimentos salientados, a escolha tem muito de pessoal. O que uma pessoa entende relevante, para uma outra pode não o ser.

Continuando:

Dia 1 de Setembro, 1911 (menos de um ano da implantação da Primeira República Portuguesa, 5 de Outubro 1910), promulga-se a Portaria a regulamentar a reforma ortográfica da Comissão, nomeada para o efeito, em Fevereiro de 1911. Assinale-se a velocidade de funcionamento, comparada aos dias de hoje. Neste mesmo dia de 1945, o Japão rende-se aos aliados, após o lançamento pelos EUA das duas bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki

Dia 3, 1759, promulgação da Carta Régia de D. José a abolir a Companhia de Jesus.

Dia 6, 1951, primeiro acordo entre Portugal e EUA sobre a Base das Lages.

Dia 7, 1822, declaração da Independência do Brasil pelo infante Dom Pedro, filho de D. João VI – grito do “Ipiranga” e a assinatura dos acordos de Lusaca, Portugal – Moçambique, 1974.

Dia 8, 1918, distribuição de senhas de racionamento de bens em Portugal, em tempo da Primeira Grande Guerra.

Dia 10, 1911, reconhecimento da República Portuguesa pelas maiores potências europeias, todas (curioso) com sistema de Monarquia: Espanha, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e Áustria/Hungria.

Dia 12, 1297, assinatura do Tratado de Alcanizes, entre D. Dinis e Fernando IV de Castela, definindo as fronteiras entre Portugal e Castela. Portugal até agora perdeu São Félix dos Galegos em 1640 e Olivença em 1801. Neste mesmo dia 12, mas do ano 1990, deu-se a reunificação da Alemanha, com a junção da RFA e RDA.

Já os “15 de Setembro” parecem um dia “fadado” pelo nascimento de escritores: 1765, nasce em Setúbal, Barbosa de Bocage; 1789, em New Jersey, o escritor americano F. Cooper, cujo livro mais famoso é O Último dos Moicanos; 1890, em Torquay, a escritora inglesa Agatha Christie, que produziu mais de 100 livros, entre policiais, ensaios e poesia.

Dia 16, 1900, nasce O Mundo, um jornal diário da linha republicana Afonso Costa. Por curiosidade, a rua da Misericórdia durante algum tempo designou-se Mundo. No Mundo, neste mesmo dia de 1908, nasceu, em Michigan, a General Motors, aquela empresa de que se dizia: tudo o que é bom para a GM é bom para os EUA.

Dia 18, 1499, Vasco da Gama desembarca em Lisboa da viagem à India, com muita informação (e haveres) para a continuação da saga dos descobrimentos e no Porto, mas em 1865, é inaugurado o Palácio de Cristal, hoje pavilhão Rosa Mota.

Dia 21, 1761, é queimado no Rossio o padre jesuíta Gabriel Malagrida, denunciado pelo Marquês de Pombal de falso profeta e impostor. É o último auto-de-fé, com condenação à morte, efectuado em Lisboa.

Dia 23, 1822, é promulgada a primeira Constituição da República Portuguesa, um marco da época do liberalismo em Portugal apesar dos seus muitos ziguezagues.

Dia 28 de Setembro de 1974, a primeira grande derrota de Spínola. Por todo o país, barricadas contra a manifestação da Maioria Silenciosa, convocada pela direita e extrema-direita de apoio ao General Spínola, que acaba por se demitir de Presidente da República na sequência destas movimentações. Curiosamente, neste mesmo dia de Setembro de 1863, nasceu o rei D. Carlos que morre assassinado no Terreiro do Paço, em 1889, vítima de um atentado republicano.

Dia 29, 1992, realizam-se as primeiras eleições em Angola cujos resultados não são reconhecidos pela UNITA.

Dia 30, 1974, toma posse o 3º governo provisório de Portugal, presidido por Vasco Gonçalves.
Estes, alguns dos muitos acontecimentos registados no Mundo e no nosso país, nestes Setembros todos, o que pode ser feito para qualquer outro mês. Listas de acontecimentos com registos por dia, mês e ano existem de várias fontes. Os apresentados, aqui, decorrem de consulta ao Portal da História.

A ideia inicial de um simples revisitar, de forma simbólica, o Golpe Militar do Chile e o Atentado às Torres Gémeas, qualquer deles, um acto de terrorismo puro, surgiu de muitos investigadores defenderem que estes dois acontecimentos trouxeram ao Mundo mudanças profundas duradouras, designadamente descredibilizando o “Mundo do Poder” indiciando o seu declínio, incentivando a prazo um novo Mundo em ebulição.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

França: tudo os uniu e agora tudo os desune


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

A ‘magia’ só será efectiva se houver um programa de desenvolvimento bem assente no terreno, que terá de ser bem negociado com os partidos e as instituições de natureza social.



Deu-se “magia” na segunda volta das Legislativas em França. O Presidente Macron, face à pesada derrota nas Eleições Europeias (9 Junho), dissolve de imediato a Assembleia Nacional e marca Legislativas para 30 de Junho e 7 de Julho (primeira e segunda volta). Face às sondagens que lhe eram, desde há muito adversas, Macron, tudo indica, trazia premeditadamente esta decisão para aquela noite.

Aliás, há quem identifique o Presidente Macron, como um homem que pensa e decide “só” e, raramente, partilha com os assessores as suas decisões difíceis. E esta não terá sido diferente. Nem com o primeiro-ministro Attal terá conversado. Limitou-se a convocar, simbolicamente, uma reunião no Palácio do Eliseu, um pouco antes de se conhecerem os resultados esperados, para dizer que ia anunciar a dissolução da Assembleia Nacional.

1. Na primeira volta das legislativas, os resultados chegam tão desoladores (duas grandes derrotas seguidas), dizendo-se que as sondagens apontavam, no mínimo, para uma vitória final relativa do partido (RN) de Marine Le Pen, e muitos para uma maioria absoluta.

Nesta situação de perda, muito rapidamente se gera um movimento em torno de tudo fazer para impedir a constituição de um governo RN, ou seja, bloquear a maioria absoluta como muitos previam ser ainda possível.

Utilizando as peculiaridades da lei eleitoral francesa da segunda volta, em que se pode desistir em favor de candidato melhor colocado, fizeram-se os arranjos contra o RN e a situação resultou praticamente em pleno. Esta permuta favoreceu todos os grupos políticos em desfavor do RN e o objectivo comum é atingido, ficando, assim, em termos de deputados, Marine Le Pen, em terceiro lugar, o grupo político de Macron, em segundo e a Nova Frente Popular (NFP-esquerdas), em primeiro. Até se escreveu que o primeiro-ministro Attal teve um bom desempenho na teia desta troca de permutas, pois foi muito extensivo, saindo assim prestigiado.

2. Uma matéria é o número de deputados, outra o número de votos que cada grupo político aufere. E havendo grandes desvios nesta correlação, sem dúvida, resta-nos uma profunda reflexão, sobretudo em termos de visão de futuro, sobre a questão como conjugar resultados e gestão de governação de forma a barrar o crescimento continuado da extrema-direita.

Cumprindo a lei, o objectivo foi alcançado, trabalhando na base do que unia os diversos grupos políticos: bloquear o acesso à formação de governo pelo RN.

Numa análise de como avançar ou mesmo se haverá condições de avançar pois foi esse certamente o motivo por que a Assembleia Nacional foi dissolvida, criar condições de governabilidade política do País, através da negociação de maiorias que sustentem o Governo, o que não havia anteriormente e a governação entrara em degradação, por enquanto a situação continua muito complexa e os motivos da dissolução ainda não se ultrapassaram.

Situação comparada – votos e deputados

3. A Nova Frente Popular obteve 182 deputados com 6 milhões 948 mil votos. O grupo do Presidente Macron 168 deputados com 6 milhões 574 mil votos e o RN (União Nacional) 143 deputados com dez milhões 121 mil votos (números redondos).

Por esta informação, vemos que o RN tem em relação à NFP mais 3 milhões e 100 mil votos e menos cerca de 39 deputados e em relação ao grupo do Presidente 3 milhões e 500 mil votos e menos 25 deputados. Diferenças muito acentuadas que nos fazem pensar, apesar de base legal.

No nosso país, tornar-se-ia chocante uma situação destas, pois estamos familiarizados com o sistema do voto directo e proporcional e ainda o queremos aperfeiçoar para que todos os votos sejam aproveitados em termos de deputados a eleger.

Tudo os uniu e agora tudo os desune

4. Macron está numa situação complexa para encontrar caminho para uma “terceira ronda”, ou seja, caminho sustentado para nomear um primeiro-ministro. Numa carta sua, divulgada a 10 de Julho, escreveu que “ninguém ganhou” estas eleições e então apelou para que se encontre uma maioria política na Assembleia Nacional para nessa base se designar o governo.

O caos domina. No interior da NFP, são muitos os que querem o cargo de primeiro-ministro, incluindo Mélenchon, uma personalidade rejeitada em geral para tal cargo, menos no seu partido a França Insubmissa (LFI), pois consideram-no muito quezilento e nada dialogante.

Nos partidos do centro, a confusão também não é menor, consoante se trata do centro-direita ou do centro-esquerda. Macron apelou à constituição de uma maioria na Assembleia Nacional, uma Frente Republicana para, de certa forma, excluir a LFI. E há quem aponte ainda um governo de natureza “técnica” como já aconteceu, em tempos idos, em países como a Itália. Tudo indica que a França não tem tradição para uma solução destas.

Mas talvez fosse a melhor saída temporária. É impossível um programa mínimo de governo a partir de pontos dos programas da NFP e do partido do Presidente. Pelo menos, partes dos dois grupos teriam de ser partilhados. E a distância é tamanha. Se até na NFP não se incluíram certas matérias como a energia nuclear, as relações externas, o equilíbrio das contas públicas, para que algo avançasse na segunda volta!

Se na reforma das reformas que afasta os dois grupos e Mélenchon desejaria acabar por decreto com esta reforma que deu tanto brado há cerca de um ano, o que não parece possível! Se a própria energia nuclear, neste momento, fulcral para a França, o défice orçamental, o problema do automóvel eléctrico, as minas de lítio, o mundo agrícola (os preços agrícolas/Ucrânia) e o ambiente, quase diremos não há saída, pois pouco de comum existe, para compor um programa mínimo de governo.

Só mesmo um governo “técnico” poderá abarcar uma série destas questões sem rejeição, tão essenciais na recuperação da economia francesa e equilíbrio das suas contas públicas.

Por exemplo, o desenvolvimento da energia nuclear em que cerca do 65% do povo francês está de acordo, tem de constar de um programa de governo, tanto mais que é motor da indústria e do emprego em França ou mesmo o automóvel eléctrico com impacto forte directo e indirecto na vida das pessoas e ainda as medidas sempre dolorosas para tirar uma França de um país em bancarrota.

Muita negociação está em curso ou deverá passar a estar. E se o que uniu os franceses foi o bloqueio de acesso ao poder do RN, algo tem de ser feito pelo próximo governo para que não se continue a gerar as condições para o seu crescimento. E esse trabalho só pode advir de um programa de desenvolvimento bem assente no terreno, pelo que terá de ser bem negociado com os partidos e as instituições de natureza social.

Há alguma esperança de que, no dia 18 deste mês, data da eleição da presidência da Assembleia, se tal se vier a realizar, isso revele indícios de que está em marcha um acordo de largo espectro que poderá ser conducente à solução do problema da coligação, na base de uma Frente Republicana. Se essa frente se concretizar, daqui sairá o governo que coabitará com Macron Presidente.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quarta-feira, 3 de julho de 2024

A transição energética a patinar e muito


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

A transição energética, que tem por finalidade dar combate às alterações climáticas em curso, é acima de tudo “um negócio” e só, depois, procura responder a finalidades ambientais e humanas.



1. O consumo global de energia no planeta atingiu, em 2023, um novo máximo (619,6 exa-joules), superior em 2% ao ano anterior. A questão não está no crescimento, até poderá ser um excelente indicador, pois o Mundo precisa de mais energia para viver melhor e desenvolver-se, nomeadamente em zonas como África, América-Latina. O problema permanece na composição do consumo em que 81,5% continua a ser satisfeito por combustíveis fósseis, uma queda apenas de 0,4% em relação a 2022 (Fonte: Statistical Review of World Energy, 2024).

Tanto investimento, tanta propaganda, tantas COP (aliás, todos os anos há COP, certamente de muito interesse turístico) para tão poucos avanços no combate às alterações climáticas. Com elevada probabilidade, a receita de mudança não estará a ser a adequada. Se nessas COP ainda se discutisse o que falha! Mas são mais uma “feira de vaidades” e sobretudo sítio de encontros de negócios.

2. A transição energética devia ser um processo de transferência de recursos para a introdução de novas tecnologias, com vista a atingir metas apropriadas. Por isto, os custos tecnológicos situam-se mais no investimento e menos na operacionalização.

A transição energética actual consiste numa mudança de paradigma produtivo que transforma o processo de produção da energia na base de combustíveis fósseis para as de baixo carbono (nuclear e renováveis).

Mas a transição energética, que tem por finalidade dar combate às alterações climáticas em curso que todos os dias nos batem à porta, com múltiplos estragos materiais e muitas perdas de vidas humanas, é acima de tudo “um negócio” e só, depois, então, procura responder a finalidades ambientais e humanas.

Vamos a dois exemplos. Um americano e outro europeu: os veículos eléctricos.

3. Todos sabemos. A China é o país mais avançado nos domínios das tecnologias de produção de veículos eléctricos e de baterias, peça-chave deste tipo de veículo. Em 2023, o volume de vendas destes veículos a bateria (excluindo os mistos, plug-in) atingiu 10 milhões de unidades contra 7.5 milhões no ano anterior, sendo 60% distribuídos pela China, 25% UE e 10% EUA.

Acontece que as transações internacionais deste sector não resultam da dinâmica do mercado, mas são um assunto de teor essencialmente político. E as tarifas aduaneiras impostas recentemente pelos EUA e pela União Europeia às exportações de automóveis eléctricos oriundos da China, embora em percentagens diferentes por razões também diferentes, vêm provar o que se acaba de se dizer, até porque a penetração no mercado americano do veículo eléctrico chinês é tão diminuto que não as justificam.

4. Então que razões reais para tão exagerada subida das taxas aduaneiras de 25% para 100% no mercado americano?

Recuando um pouco no tempo, a governação Biden nas relações com a China, contra as expectativas de vários analistas, não trouxe nada de diferente de Trump. As relações continuaram/continuam muito tensas e o que prevalece são medidas de política pelo lado americano para preservar o domínio das tecnologias que serão determinantes nas próximas décadas. E esta área dos veículos, importante em termos de descarbonização da economia, poderá ser crucial nas próximas décadas. Os EUA têm consciência que perderam esta guerra, por várias razões, mas sobretudo estão a ver que não conseguem competir na superioridade tecnológica com a China.

As explicações justificativas são muito variadas, mas ilusórias. Houve uma averiguação sobre prática de dumping por parte da China. Não houve conclusões assertivas. Mas tudo serviu para justificar. Inclusive constituiu-se uma comissão bipartidária para análise de “roubo” pelos chineses de “propriedade industrial” dos EUA, esquecendo-se que um sector não pode desenvolver-se na base da cópia e que casos de cópia existem em todo o lado.

O que aconteceu foi uma planificação rigorosa com a finalidade de dominar esta indústria até porque a China domina o mercado mundial de matérias-primas, para esta produção, as conhecidas terras raras e, certamente, vai tentar defender esse quase monopólio, como qualquer outro país faria.

Esta potencial perda de superioridade tecnológica aterroriza os EUA há mais de 20 anos. Quando se aperceberam em perda nesta e outras áreas (fotovoltaicas, aerogeradores) começaram a recorrer a todos os meios para limitar os prejuízos. A introdução de taxas alfandegárias, contornando todas as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), desprestigia as instituições e quebra as regras de comércio, internacionalmente aceites, porque politiza descaradamente o problema do comércio. E é o que mais uma vez foi feito. Ainda não se conhece por onde a China retaliará, mas de certeza que o vai fazer. Anote-se que Musk (o grande senhor no Ocidente do carro eléctrico) é contra esta decisão de Biden.

5. O caso europeu é bem diferente. Em Bruxelas, também se anunciou, há um certo tempo, a análise da situação de dumping sem grandes conclusões, mas a Comissão Europeia contra a opinião de vários países-membros e empresas impõe o aumento de tarifas alfandegárias provisórias, embora mais brandas (15% a 30%), podendo atingir em certos casos 38%. Houve partidos como a CDU/CSU que fez campanha nas eleições europeias contra esta medida da Comissão, alegando que prejudicava países-membros e empresas europeias que mantêm investimentos na China e estão a negociar investimentos na Europa com ligação a capital chinês, como a Stellantis, quer na produção de baterias quer de veículos.

Esta indústria não está de boa saúde na União Europeia. Até o Tribunal de Contas Europeu “arrasou” a já célebre decisão de Bruxelas em querer acabar com carros a gasóleo e a gasolina até 2035, aconselhando a ponderação do equilíbrio entre prioridades ecológicas e política industrial e manifestando-se sobre o atraso da indústria de baterias na UE face aos seus concorrentes mundiais num mercado claramente dominado pela China.

Mas aqui a China não tardou a ripostar e aponta analisar a situação da importação de carne de porco e abates da União Europeia, alegando que a Europa através da PAC dá incentivos que distorcem a concorrência e, assim, tenciona aplicar a mesma conduta que a União Europeia lhe está a aplicar.

Mais uma vez, a União Europeia, apesar da discordância de alguns países-membros, age a reboque dos Estados Unidos. Temos aqui a funcionar, mais uma vez, a frase assassina de Jeffrey Sachs, célebre economista americano: “Fico muito triste por ver como a Europa é manipulada e dividida pelos EUA” (entrevista Público 16/06/2024), completando: “Estamos numa época de grandes potências. Há a China, a Índia, os Estados Unidos, a Rússia. Precisamos da Europa como uma verdadeira união, não como simples subordinada aos interesses hegemónicos dos EUA”.

Na verdade, foram montadas instituições internacionais para regular várias áreas críticas de interesses entre blocos, países e, depois, “inferiorizámo-las” não cumprindo as normas multilateralmente acordadas. Rebaixa-se a diplomacia a que deve ser reconhecida no Mundo uma função nobre, na resolução destes conflitos, com vista ao encontro de equilíbrios de interesses.

Há, de facto, tanto a rever para um Mundo mais equilibrado e de maior progresso. E para que a União Europeia se transforme numa potência de primeira, uma linha de conduta autónoma, não confundindo cooperação negociada com subordinação a interesses alheios.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.