quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

OXALÁ ESTEJA EU ERRADO!


Recebi este comentário (anónimo) que transcrevo:
"Caro Professor André Escórcio,
Tenho o maior respeito e consideração por si, pois os anos de luta contra o regime opressor do Jardinismo em que deu a cara pelo PS merecem o meu agradecimento. Mas no último ano tenho assistido a uma campanha da sua parte contra a atual direção do PS, que me leva a pensar se neste momento terá real interesse na mudança de cor política na região. É evidente que estas negociações finais não estão a correr bem ao partido socialista, talvez com alguma culpa do atual líder, mas principalmente porque os restantes partidos não têm um real interesse na mudança, mas sim garantir o seu lugarzinho. E os interesses de outros não se consegue controlar. Relembro que no passado recente em que o PS adoptou uma estratégia em que candidatou alguém que não o líder, o resultado foi o que está representado na Assembleia".


Respeito o seu anonimato, mas confesso que preferia debater um assunto desta importância, porque está em causa o futuro da Madeira, olhos nos olhos, sem qualquer receio de uma crítica sobre os posicionamentos. Mas respeito, sobretudo porque conheço e todos nós sentimos a existência de uma liberdade condicionada. Agradeço-lhe, porém, o facto de ter escrito e de enaltecer a minha acção política ao longo de muitos anos. Não fiz mais do que seguir as minhas convicções políticas. Todos(as) temos esse dever de cidadania.
Ora, o exercício da política não se compadece de jogos de bastidores assentes na disputa de lugares remunerados. O exercício da política visa conduzir a sociedade para o seu bem-estar. Os egoísmos e os alinhamentos com grupos nunca proporcionaram bons resultados. E deles sempre fugi, por entender que o exercício da política constitui um serviço à comunidade e não um emprego para a vida. O meu emprego foi a docência que abracei. A História do processo demonstra-o. De acordo com esta minha forma de estar na política tenho-me mantido activo, é verdade, mas numa lógica de chamada de atenção para os perigos que estão a ser corridos. Não estou contra ninguém do Partido Socialista, como é demonstrável pela forma como escrevo, mas há quem, internamente, julgo eu, pense na lógica de que se ele chama à atenção é porque está contra nós. Nada de mais errado até por dois motivos: primeiro, a liberdade nasceu em 1974; segundo, um partido fechado sobre si mesmo é um partido tendencialmente morto. O problema é, portanto, outro, de um olhar sobre a realidade sociológica concreta. O PS-Madeira chegou a ter resultados eleitorais acima dos 30%, que lhe permitia acalentar a esperança de ganhar actos eleitorais. Hoje, o quadro é bem diferente por múltiplas razões, umas internas e outras de natureza externa. Obviamente que não excluo responsabilidades pessoais. Poderia ter feito mais, talvez, mas fiz o que pude, colaborei e esse sentimento transporto-o.
Todos nós sabíamos que o Dr. Jardim ia cair. Depois de um primeiro despique onde venceu o Dr. Miguel Albuquerque à tangente, era óbvio que o segundo "round" seria inevitável a mudança de líder entre aqueles que conduziram a Madeira ao colapso. Era a sobrevivência política do PSD que estaria em jogo. Portanto, a oposição e, particularmente, o PS, dispôs de dois anos para preparar uma alternativa de governo. E o que aconteceu? Deixaram o marfim correr e nem quando o PSD-M entrou em colapso com seis candidaturas, verifiquei esse ímpeto de "agora ou nunca". Alguns acreditaram que os social-democratas devorar-se-iam na disputa interna. Ignoraram que o jardinismo é muito maior que Jardim! Perderam a oportunidade de, serenamente, construir uma alternativa que, parece-me óbvio, se elaborada a tempo, marcaria a agenda política, estava na dianteira e colocaria hoje o PSD-M numa situação eleitoral ingrata. Mas isto é o que eu penso e ninguém me pode condenar por, democraticamente, exprimir a leitura que faço da situação. Oxalá esteja eu errado.
Acabo de ler, no Jornal I uma entrevista com o presidente do PS-M Vítor Freitas. Perguntou o jornalista: - No cenário de uma vitória com maioria relativa, admite governar nessa situação? Resposta: "Prefiro governar com maioria relativa a fazer qualquer coligação com a direita. O PSD na Madeira é hoje mais "passos-coelhista" e o CDS "paulo-portista". A Madeira não precisa de colonos nacionais à frente dos seus destinos. As soluções para o futuro da Madeira têm que passar pela esquerda e não pela direita. É melhor governar em maioria relativa do que fazer alianças à direita". Repito, perante esta posição só lhe desejo que consiga a vitória, mesmo que relativa, apesar dos estudos de opinião não serem muito favoráveis. Se esse é o caminho e se a vitória acontecer, aqui estarei para dar os parabéns e assumir quanto errado estava. Em suma, o que desejo, referindo-me ao seu texto, é que se encontre uma solução pois os mesmos que conduziram a Madeira ao desastre e a uma dupla e severa austeridade, não devem ser alternativa a si próprios. Todavia, uma coisa é o que eu desejo, outra a realidade sociológica. A ver vamos. Da minha parte, nem mais uma palavra sobre este assunto.
Só como nota de rodapé, quero sublinhar que me envolvi nas eleições de 2011. Ajudei a elaborar um programa de governo e a projectar uma excelente equipa de governo. De sete deputados, o PS passou para seis. Retirei as minhas ilacções políticas. Afastei-me, de vez! Acabou. Não pertenço, sequer, aos órgãos do PS-M. Escrevo, apenas, como cidadão, com convicções socialistas e nada mais.
Ilustração: Google Imagens.

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