quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

FAÇAM UM DESENHO, PORQUE A POPULAÇÃO NÃO ENTENDE


Sou um cidadão livre. Demitido de um partido, "graças a Deus"! Se nunca deixei de ter opinião, então agora, sinto-me um passarinho fora da gaiola! Como sempre o fiz, votarei em consciência, se estiver na Região. Ora bem, nada tenho contra a cidadã Drª Sara Cerdas. O problema não é meu. Mas deixa-me perplexo, enquanto cidadão, quando sigo este vídeo, leio a síntese que abaixo deixo e, no final do mandato, colocam uns patins à Doutora Liliana Rodrigues. Faz-me lembrar as feiras de Natal, onde o homem dos carrinhos de choque anuncia: "mais uma corrida, porque esta já terminou".

 


Pedir mais do que isto é impossível!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O exercício da política não é um emprego


Participar politicamente constitui um serviço público, voluntário, à comunidade. Não é um emprego, mas há quem não o considere por vários outros motivos. Entre outros, os de natureza salarial, obviamente, em conjugação com um pressuposto estatuto social que advém do facto de ser qualquer coisa: governante, deputado, presidente câmara, de junta ou director disto ou daquilo! Mesmo sem nada se conhecer de algumas personalidades, em abstracto, apresentam-se, aceitam, sentam-se e mostram uma desmedida ambição que, hoje, de olhos mais abertos, nem notam que a maioria da população os vê com distanciamento.


A petição pública solicitando a demissão do secretário regional da Saúde, na sequência de uma reportagem da TVI, do meu ponto de vista, nem necessária seria se, perante factos, o titular colocasse o seu lugar à disposição do presidente do governo ou, pura e simplesmente, se demitisse. Ser secretário não é um emprego. Mesmo admitindo que, em consciência, o responsável pela pasta tenha presente que tudo, mas mesmo tudo tem feito, um facto, grave, com dimensão nacional, que tem natureza política, não pode ser escamoteado. A assumpção de responsabilidades POLÍTICAS parece-me óbvia. Seria o terceiro secretário da saúde a ser substituído neste mandato, paciência, é a vida! Essa é uma outra história.
Ademais, o caso da medicina nuclear do hospital Dr. Nélio Mendonça é, apenas, mais um da longa lista de fragilidades que o sistema de saúde apresenta. Quando falta dinheiro para o seu funcionamento, quando existem tantas prioridades, aliás, enunciadas com muita regularidade pelo DN-Madeira, o governo decide apostar, este é um mero exemplo, em um complexo sistema de videovigilância através da instalação de 60 câmaras digitais. Parece-me que fica quase tudo dito! Mais, ainda, quando 99 médicos de Medicina Geral e Familiar, afectos ao Serviço Regional de Saúde, mostram descontentamento, será necessária, pergunto, uma petição pública? 


Mas, atenção, embora seja inegável que o sistema evidencia sinais preocupantes, não é justo que se ignore tudo o que de bom acontece nos vários serviços hospitalares e nos centros de saúde. Há muita dedicação de médicos, enfermeiros e restante pessoal técnico que, apesar dos constrangimentos, salvam vidas que, permitam-me a expressão, ali se apresentam "pelas pontas", em situação extremamente debilitada e complexa. Pessoal que aufere muito menos do que seria justo ganhar. Enquanto cidadão aplaudo a dedicação e o rigor científico. Se há culpados não são eles, mas todo o quadro POLÍTICO que resvalou ao longo de anos. 

E sendo assim, é evidente que o culpado da situação a que se chegou não se chama Dr. Pedro Ramos. Existem lá para trás, 40 anos de erros acumulados que agora estão a rebentar nas suas mãos. Nas mãos dos últimos secretários. Mas a verdade é que ele é, para todos os efeitos, o responsável político "de turno". Desta feita, deveria considerar que o seu ciclo terminou, porque o exercício da política é, repito, um serviço público à comunidade. Sem dramas, porque é médico, porque lhe é reconhecida competência entre pares, porque tem uma carreira e não precisa da política para nada. É assim que deveria ser, mas, infelizmente, na política são raros os casos que colocam um ponto final nos compromissos. Em abstracto, genericamente, porque há uma imagem político-partidária a defender, os pedidos são tantos que as pessoas perdem a sua independência e ficam. Aliás, em tudo na vida, é tão bom sair pelos próprios pés. Talvez a política, um dia, corresponda às minhas preocupações. Por enquanto é o que se vê!
Ilustração: Google Imagens.  

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

OS VAMPIROS DE HOJE

Local: uma grande superfície comercial. À entrada dei de frente com um amigo que já não via há um certo tempo. Conversámos sobre as nossas vidas. Das palavras de circunstância passámos a alguns assuntos mais sérios, no essencial, a sociedade que estamos a deixar para os vindouros. Um diálogo que, rigorosamente, nada teve a ver com qualquer atitude bota-de-elástico, ao jeito de "no nosso tempo é que era bom". Nada disso, até porque o nosso tempo de plena juventude, permitam-me a palavra, foi uma trampa, na sequência do pós II Grande Guerra, da ditadura de Salazar e quejandos, do analfabetismo, da emigração, da pobreza avassaladora e de uma posterior guerra colonial estúpida e sem sentido na qual estivemos envolvidos. Safámo-nos, como poderíamos ter regressado em um caixão de chumbo! Nos primeiros seis anos de guerra, o Estado só pagava o regresso dos militares vivos. Portanto, tempo que não se esquece, mas que também nos permite olhar o presente com distanciamento e preocupação. Falámos, obviamente, da parte política, dos desencantos, dos roubos, das pensões, de um mundo às avessas que humilha, do nosso país que se transformou, é verdade, mas onde quase tudo o que se passou ao longo do Século XX não serviu de memória para a construção de uma sociedade menos assimétrica e, sobretudo, com preocupações de plena humanidade. Os sucessivos casos de corrupção, as obras megalómanas, a inversão das prioridades, o encolher de ombros para as gerações seguintes e as políticas do facto consumado, deixam um enorme rasto de tristeza. Porque tudo poderia ser diferente, para melhor, com o mesmo dinheiro! 


Vou a sair e novo encontro, agora com  uma Amiga de longa data, desde há 40 anos, com quem não me cruzava faz muito tempo. Filhos crescidos, dois com curso superior, que deambulam de emprego em emprego, quando surgem, claro, sempre muito limitados nos salários em contraponto com os encargos da habitação e de tudo o que envolve a sobrevivência. Ela, uma funcionária de uma transportadora aérea que acabou com a representação na Região, preferindo a escravização de um call center, porque sai mais barato! Acabaram com a montra e os colaboradores para casa. Apesar disso, essa minha Amiga apresenta um semblante de optimismo contagiante. Será?

Na sequência do nosso interessante diálogo, cruzando o que ali estávamos a equacionar com os desabafos que antes tinha tido com o outro amigo, perpassou-me a canção "Os Vampiros" cantada pelo Zéca Afonso... "eles comem tudo e não deixam nada...". É isso, exemplos tantos, arquitectos e engenheiros a 300/400 euros, recibos verdes, precariedade em todos os sectores de actividade, anulação de direitos sociais, juventude impedida de viver na sua terra, natalidade bloqueada ou adiada, fracasso nas habilitações académicas e profissionais, cerca de 1000 idosos dependentes que não conseguem um espaço em um lar que suavize o outono da vida, e damos com uma catrefada de vampiros de hoje a pedir à juventude que seja empreendedora neste mundo cão, selvagem, indigno, desumano "que chupa o sangue fresco da manada". 

Sejam empreendedores, dizem-nos com voz terna, face aos "mordomos do universo todo, senhores à força, mandadores sem lei (...)". É, minha querida Amiga, é isso, quando tudo poderia e deveria ser equilibrado e, sobretudo, JUSTO, se outro tivesse sido o sentido organizacional de construção de uma sociedade para todos, inclusiva, que garantisse à maioria, respeitando a diferença, o direito à esperança.
Meti-me no carro e dei comigo a cruzar pensamentos, os encontros acabados de ter e sobre uma fotografia que tinha visto, logo pela manhã, sobre uma escola que obteve muitos "vintes" na avaliação final do secundário. Que paradoxo, exclamei para dentro! Afinal, de que servirão esses vintes, quando a vida, a vivência, a convivência, a cultura, a sabedoria, o sucesso e um relativo bem-estar é muito mais que uma circunstancial nota? Eu que nunca tive nenhum vinte escolar, "graças a Deus"! Uma satisfação que pode ser pontual, mas que de pouco valerá, quando o sistema no qual funcionamos está estruturalmente errado. O verdadeiro conhecimento é muito mais do que x em uma determinada disciplina escolar. Basta repetir (treinar) até à exaustão que a nota aparece na pauta. Basta repetir o manual. Basta uma certa inflação na dita avaliação. Pode oferecer, acredito que sim, essa tal satisfação momentânea, poderá servir, até, para o director y dizer "que a minha escola é melhor que a tua", e depois? Quantos, mas quantos foram, ao longo dos anos, no quadro deste sistema educativo, considerados excelentes e, depois, descartados por uma estrutura organizacional da sociedade que não os considerou? Quantos obtiveram "vintes" e mudaram de curso? Sei de muitos! E sei de casos que são os pais e os avós que os aguentam. Seria interessante fazer um estudo para avaliar por onde andam os "vintes" dos últimos dez anos e de que valeu esta pública e nociva luta entre duas escolas. A vida pede-nos conhecimento, e a SABEDORIA, a excelência mental, é muito mais complexa que um somatório de alguns "vintes".  
Regresso ao centro comercial cenário desses meus encontros. Na aparente vida, do entra e sai das lojas, questiono-me, tantas vezes, sobre quantos dramas ali se cruzam? Da aparente felicidade à realidade há uma enorme distância. Quantos poderiam ser resolvidos ou atenuados, não fosse a desorganização onde, intencionalmente, nos meteram? Cantou o Zéca:

(...)
A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas
(...)
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

CUIDADO COM O FUTURO


Ontem li dois artigos de opinião muito importantes: um clarividente, chamando à atenção para possíveis loucuras ou desmandos financeiros; outro, sempre a abrir ao jeito de, estando ao comando do avião, assume, quero lá saber que caia, ele nem é meu! Daí eu deixar alguns excertos apenas para aguçar o apetite da sua leitura integral.

Diz-nos a Drª Fátima Ascensão:

"(...) Lembra-se dos cortes salariais que sofreu por ocasião da austeridade e o quanto lhe fez falta esse dinheiro? Acha que nunca mais passará por tamanho aperto? Aconselho-o a ser cada vez mais exigente com qualquer governação, reivindicando clarificação e transparência de como estão a gerir o dinheiro público. Lembre-se que qualquer subsídio e apoio concedido e investimento efetuado é feito com o seu dinheiro. Assusta-me a governação que empurra os problemas com a barriga. Recorrer sistematicamente a empréstimos para pagamento doutros empréstimos é protelar e aumentar dívida, colocar-se na mão dos bancos e criar dificuldades acrescidas para o futuro. (...) Afogados em dívidas não teremos condições para nada e viveremos pior. A prioridade passa a ser o pagamento das dívidas. Não há autonomia sem equilíbrio nas contas públicas. Quem paga as contas é quem manda. Se estamos sempre de mão estendida a Lisboa, quem manda não somos nós. (...) De 2016 para 2017 a dívida aumentou 208,5 milhões de euros, cifrando-se em 31/12/2017 em 3,5 mil milhões de euros. (...) Desde junho do ano passado o Governo Regional contraiu 3 empréstimos no total de 860 milhões de euros - 455 milhões de euros, em junho de 2018, 50 milhões de euros em novembro de 2018 e 355 milhões de euros, a 15 de janeiro deste ano. Os dois grandes empréstimos foram para pagar outros empréstimos. (...) Sabe quanto era a dívida em 2014? 4,29 mil milhões. Tire as suas conclusões. (...) E todos nós sabemos quais as consequências da renegociação de empréstimos com os bancos. Nos próximos 4 anos, estaremos a enfrentar, novamente, o pagamento destes empréstimos. Como vamos pagar? (...) Deixo, pois, à consideração do leitor como classificar a nossa situação financeira e o cuidado que deve ter nas suas escolhas para o futuro. A continuar assim, o que acha que vai acontecer?

Por seu turno, escreve o vice-presidente do governo regional, Dr. Pedro Calado: 

"Os meses que aí vêm, pelos três atos eleitorais que vamos viver, serão muito trabalhosos, competitivos, exigentes e de muita desinformação. Haverá tendência para deturpar a realidade, ver o copo “meio vazio”, falar inverdades, esquecer o passado e passar por cima das coisas boas e positivas. (...) Não podemos deixar que nos controlem e mandem nos nossos destinos. Nas nossas vontades. Não precisamos que nos venham ensinar a fazer. Quem desenvolveu e lutou por esta Madeira desenvolvida, foi o Povo Madeirense. Com o nosso esforço e trabalho árduo. Com a conquista da nossa Autonomia. (...) Nunca poderemos aceitar que nos moldem aos interesses dos outros e muito menos poderemos aceitar que nos venham dizer como fazer, apenas pela vontade de conquistar o poder pelo poder. O verdadeiro poder, está no Nosso desenvolvimento e na Nossa qualidade de vida, que transmitimos e conquistamos para o Nosso Povo. (...) O que está em jogo nos próximos tempos é a escolha por parte de todos os cidadãos madeirenses, que caminho querem para a Madeira. Se o continuar do nosso desenvolvimento e autonomia pela defesa dos nossos interesses ou se queremos uma Madeira subjugada aos interesses de Lisboa e do Terreiro do Paço, olhando para a Madeira como uma colónia onde se vão lembrar e apresentar soluções apenas em períodos eleitorais. (...) Sejamos todos, portadores de um espírito de liderança, de vontade de lutar pela defesa dos nossos direitos, com garra e determinação. E nada de sermos controlados por Lisboa. (...) O nosso tempo de mudança começou há 40 anos e ainda tem muito por fazer e conquistar (...)"

O artigo de Fátima Ascensão pede cuidado, moderação, fazendo lembrar que são as pessoas que pagam os devaneios de uma governação tresloucada; o artigo de Pedro Calado é o do comandante do tal avião. A dívida já foi superior a seis mil milhões e, por este andar, para lá se dirige. Se cair, o avião não é dele! Para já, uma diz que "se estamos sempre de mão estendida a Lisboa, quem manda não somos nós", outro, continua como há 40 anos: "nada de sermos controlados por Lisboa". Leiam, por favor, porque nós estamos todos dentro deste avião.
Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Artigos de opinião publicados na edição de ontem do DN-Madeira.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A IGREJA PREFERE OBEDIÊNCIA E SUBSERVIÊNCIA


Escrevo este texto com a liberdade de pensamento que me assiste e sentido de responsabilidade, também, porque sou cristão. Escrevo a poucas horas da entrada do Bispo Nuno Brás na Diocese do Funchal. Escrevo sabendo que a figura central destas linhas me perdoará a ousadia dele falar. Escrevo com o sentimento que me vem das entranhas, depois de muito pensar e de vários escutar. Escrevo, quando uma só pergunta bastaria: porquê buscar um Bispo de fora quando Padres existem, aqui nascidos, que deveriam merecer tal ordenação episcopal, desempenhando as funções com obediência qb, mas sem subserviência.


A comunidade, estou certo, pelo que tenho lido de vários quadrantes, veria com bons olhos a liderança da Diocese nas mãos de um Bispo madeirense. Não seriam muitos os candidatos, mas existem. Porventura, se há mais tempo tivesse acontecido, não teria a Diocese tantos, graves e adiados problemas por resolver. Incompreensões e intolerâncias sem fim que estão à vista de todos. Até há um padre, o Martins Júnior, há 40 anos, inexplicavelmente, suspenso "a divinis"! 
No entanto, percebo que não interesse, porque a bajulação e a falta de independência  na Igreja têm andado de braço dado ao longo destes últimos 45 anos. 

A Palavra de Cristo pouco tem interessado, antes os desejos e compromissos políticos de outros que ordenam, sem ordenar, os formatos comportamentais. Sou claro e não me coloco com rodriguinhos: o poder político adora essa humilhação, de trazer a Igreja pela trela e, por seu turno, à Igreja, sempre lhe faltou a coragem necessária para mantê-lo em sentido. São muitas as dívidas de mútua gratidão. Um dia acertarão contas com o Divino!

O primeiro dos últimos três Bispos abriu a porta política, de uma forma absolutamente indecorosa; o segundo, agachou-se, completamente, servindo os  interesses da corte dominante e o terceiro quase nem demos por ele nas questões essenciais. Cantou a fé e a caridade e o poder, obviamente, bateu palmas porque essa não é tarefa sua (nem de programa de governo!!!), porque a história de denunciar a pobreza, a violência dos actos, os atropelos aos mais vulneráveis, entrar na esfera do mundo laboral, na precariedade, na desorganização social, na educação, na saúde, enfim, pregar e contextualizar a PALAVRA e o exemplo de Cristo, está quieto, nesse caminho, deverá ter pensado, não me atreverei. Infelizmente, Carrilho, descarrilhou semanas após ter aqui chegado. Percebeu o contexto.
Em contraponto, diz o Padre José Luís Rodrigues, da Paróquia de S.Roque, em mais um artigo de opinião: 

"(...) A organização da Igreja, o seu funcionamento, os seus hábitos e a sua maneira de se governar foram moldados numa época em que existia um Ocidente todo cristão. Tomar consciência de que este já não existe é, desde logo, difícil de admitir e tem como consequência a necessidade de repensar a organização, o funcionamento, os hábitos e as maneiras de governar. Por isso, como conceber uma Igreja diferente? – Pensar o governo da Igreja, mudar o seu funcionamento, mudar os hábitos, incluindo o governo, e inventar novos equilíbrios não são coisas fáceis de serem acolhidas por todos os cristãos católicos. Muitos não admitem isso e sofrem com a diminuição da influência da Igreja. As investidas contra o Papa Francisco são bem reveladoras. (...)" - Fonte: Funchal Notícias. Daí que, em um outro artigo, desta feita no blogue www.gnose.eu, o Padre José Luís seja peremptório: "A Igreja perdeu o inferno, o céu vai no mesmo caminho, dizem que os jovens não querem saber da Igreja para nada, os casais mandam às urtigas todas as directrizes morais que a Igreja lhes reclama, a sociedade em geral emancipou-se faz tudo sem a referência ao religioso, a cultura actual funciona muito bem sem a Igreja, a vida é possível sem a doutrina da Igreja (...)" E mais adiante: "ninguém deseja uma Igreja apenas zeladora do património, que se preocupa apenas com os bens deste mundo, qual senhor rico que se gasta com as transações do mercado e com as papeladas burocráticas que ditam a posse e o domínio da propriedade (...) Precisamos de encontrar uma Igreja aberta ao mundo, a este mundo concreto da nossa vida, onde o normal já não é o unanimismo da nossa fé (...)".

Perante tão experiente, sábio e acutilante pensamento discursivo (são tantos os divulgados no seu blogue, O Banquete da Palavra, as reflexões na sua página de facebook, no DN e em vários outros blogues de informação), pergunto, se será necessário um Bispo Nuno Brás, nascido no Vimeiro, Lourinhã, para liderar esta Diocese? Confesso que fiquei feliz pela ordenação e posterior nomeação do Arcebispo madeirense Tolentino Mendonça para altas funções no Vaticano. Pela qualidade da sua Obra e pelo Homem de convicções que sempre foi. Por isso, também, é-me difícil entender, enquanto leigo, claro, que, por exemplo, o Padre José Luís Rodrigues, o Homem culto que é, pelas posições que assume, pelos textos que deixa para memória futura, pela sua capacidade de transmissão da Palavra, repito, contextualizada com a VIDA, pela sua humildade e solidariedade, não seja um dos eleitos da Igreja! Poderia não desejar, presumo, poderia, julgo eu, prescindir, mas ele é a prova que existem sacerdotes, aqui nascidos, conhecedores da idiossincrasia deste povo e da Igreja que servem. O Padre José Luís bem poderia ser chamado a ir muito mais longe do que os rituais domingueiros e/ou festivos, repetitivos e enfadonhos. São suas estas palavras: "Sou sacerdote. Gosto muito do que faço. Ora bem, e o que se há-de esperar de quem é feliz! Assim, o que mais desejo neste mundo é que os outros também sejam muito felizes (...)". Não ouvi de nenhum anterior Bispo palavras no sentido mais profundo da felicidade de um povo. E a felicidade não se conquista, apenas, com "fé e caridade". Certo?
Ah, pois, existe, aqui, estou convencido, um mas... A hierarquia não deseja a felicidade. Uma coisa é a pregação, outra a práxis. A hierarquia prefere a doçura e ama quem não agite as águas. A hierarquia prefere quem compareça às inaugurações, faça da sacristia ou do Paço residência permanente, que faça o Te Deum de qualquer coisa, que diga generalidades e banalidades, que não apoquente instalados, que, vendo, assobie para o lado e que se entretenha a pregar a tal fé e a caridade! Pois é, enquanto o rabinho estiver preso, parece-me óbvio que, dificilmente, se cumprirá a Palavra de Cristo. 
Repito, finalmente, que me perdoe o Padre José Luís, de quem sou leitor assíduo, admirador e Amigo, mas não poderia, por falta de coerência para comigo próprio, não deixar aqui o meu pensamento. Que vale o que vale!
Que o Bispo Nuno Brás venha e contrarie as minhas palavras. Aí, curvar-me-ei! Como disse em tempos o director do DIÁRIO, com refinado humor, que esta não seja uma "Diocese à Brás".
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

FALTAM REFERÊNCIAS PÚBLICAS


Por uma série de circunstâncias, nesta minha passagem pela Região, nos últimos dias tenho falado com pessoas, umas que bem conheço, outras que comigo se cruzaram e me deram o prazer de algumas fugazes conversas. Em síntese, diálogos do tipo: tenho acompanhado a situação e estou consigo. Política sem dignidade só afasta as pessoas, dizem-me! Agradeço, despeço-me e fica o bom sabor da simpatia manifestada. Situações que acabaram por traduzir, para mim, dois significados: primeiro, parecendo que não, as pessoas estão atentas e têm leituras sobre o que as rodeia; segundo, que o exercício da política não é confiável. Evidentemente que constitui um erro de grave avaliação, meter tudo e todos no mesmo saco. Não. Há gente boa, pessoas que, mais do que a ideologia partidária, lutam por uma sociedade decente, justa, equilibrada, digna dos deveres e dos direitos constitucionais que lhe assiste. Conheço muitos que trabalham no quadro da solidariedade, da ternura que manifestam pelos outros, que estão na política ou em organizações por dever de cidadania e paixão, por  um desinteressado serviço público à comunidade, porque assumem o seu dever de participar e construir uma sociedade democrática, pessoas que não suportam a pobreza e a doença dos outros, as assimetrias económicas, financeiras, sociais e culturais.  

Conheço, também, perdoem-me a expressão, gente que não tem onde cair morto, e aos partidos se alapam, enquanto emprego. Pacientemente, espreitam uma oportunidade. São artistas, alguns até jovens mas com uma alma de velhos contorcionistas, malabaristas e voadores com rede. Actuam debaixo de uma tenda esburacada e esfarrapada pelo tempo. E todos os dias mantêm-se no palco da vergonha. Lamento dizê-lo, mas faltam-nos referências públicas, confiabilidade, gente que faça jus a Sá de Miranda (1481/1558):

"Homem de um só parecer
Dum só rosto, uma só fé,
De antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte, homem não é."


Faltam-nos gente desta estirpe que coloque no seu devido sítio os infantis e medíocres, os palradores de pacotilha, os falsos e interesseiros, gente geradora de espaços de ódio, de repulsão contra pessoas porque podem constituir entrave aos seus desígnios, gente faminta que, paradoxalmente, transporta na língua a palavra solidariedade, para fora, claro, mas completamente indiferente nos grupos que a sustenta. O que se está a passar, de governantes a quem lá quer aportar, equivale a um quase total descrédito. 
Ainda ontem, pela tarde, o telemóvel tocou. Do outro lado, um grande Amigo: "(...) só para saber como estás!" Que bom um Amigo lembrar-se do outro. E ficámos a conversar sobre os nossos desencantos, do número de Amigos que se contam em uma só mão, sobre as indignidades, a falta de vergonha, a insensatez e ausência de credibilidade, sobre o assalto desavergonhado às instituições, as múltiplas formas de corrupção, e todos nós, pela conjuntura, porque se tornou normal esta profunda anormalidade, sem qualquer ferramenta para dizer chega! O voto? Qual voto? A engrenagem é extremamente densa e complexa. Há medo em dizer NÃO... que "não vou por aí". Há uma cegueira em alguns e um encolher de ombros em outros.
A degradação das instituições só poderia dar nisto. Os Juízes e Procuradores não estão a salvo tantos são os escândalos, eu que sou de um tempo que se dizia, com distanciamento e respeito "ele é Juiz"; de olhar para um banco e ver nos seus administradores pessoas de altíssima responsabilidade; de olhar para os professores e tratá-los com deferência, ora, hoje, por essa tal degradação, os patamares de exigência que deveriam acompanhar o desenvolvimento, pelo contrário, entraram na esfera do oportunismo, do salve-se quem puder, de alguma indecência, ausência de honradez e até de decoro. Para alguns vale tudo, que enganar é palavra de ordem, fingir um apego à sociedade constitui a vocação primeira, enfim, tudo isto necessita de uma nova ordem, de uma configuração diferente, de onde sobressaia a confiança perdida. Como iniciar, perguntar-me-ão! Talvez pela família e pela escola, que mais do que a tralha "estudada" para o teste e para logo esquecer (a escola está cheia de "entulho"), se eduque para os valores, para o rigor, para os comportamentos desejáveis, para a democracia com responsabilidade e não para o "teatro" reles a roçar o ordinário. O resto, o conhecimento, vem por arrasto, naturalmente. 
Ilustração: Google Imagens.
Publicado no blogue: www.gnose.eu

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Dia Mundial do Doente. Se a sociedade está doente a saúde não pode estar melhor!


É o primeiro bem. Ter saúde, sublinha a Organização Mundial de Saúde, constitui "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades". Infelizmente, tal desígnio anda pela via da amargura. Aqueles três âmbitos podem ser desmontados com uma impressionante facilidade: no bem-estar físico, 70% da população não tem uma actividade física de característica regular, simplesmente porque nunca lhe foi incutido o pressuposto do bem cultural para a vida; no quadro mental vivem-se tempos dramáticos, bastando olhar para os números dos síndromes depressivos, ansiedade, tristeza, perturbações do sono, cansaço, falta de concentração. Calcula-se que, anualmente, em média, cerca de 400.000 portugueses sofram de síndrome depressivo, uma das médias mais altas do mundo. A cada oito horas um português suicida-se! Ascende a quase 8.000.000 de embalagens vendidas, por ano, de antidepressivos. Por aí fora, com os custos que todo este quadro tem nas mais variadas análises possíveis. Finalmente, a parte social, vivem-se tempos de engano, de uma louca corrida contra o tempo, como se não houvesse amanhã. É a organização da sociedade que está em causa que tudo pede, que tudo exige, à custa dos baixos salários e de uma estúpida competitividade ao serviço de poucos.


Neste Dia Mundial do Doente, não se pode falar de um povo saudável. A população, genericamente, está doente porque a sociedade está doente. Vivem-se tempos turbulentos e de falsas aparências saudáveis. Vivem-se tempos de confronto entre o norte e o sul, o interior e o litoral. Tempos de violência e catarse gratuitas que, a montante, escondem razões primárias e chocantes. Tempos de sonhos irrealizáveis, onde pedem que nos adaptemos a uma sociedade inadequada, vazia e errada nas suas raízes. Nesse sentido, quem tem poder ou serve um poder, pede empreendedorismo e resiliência como panaceia para a infelicidade. Vivem-se tempos de corrupção às escâncaras, tempos de eternização da Justiça e de sentenças simbólicas. Vivem-se tempos de tendencial ausência de protecção aos que mais precisam. Vivem-se tempos de aparente abundância, mas de intencional desperdício e de despesas inúteis. Vivem-se tempos que nos conduzem, serena e docemente, para a arena do individualismo, para a cerca onde ficamos encurralados e sujeitos às orientações e interesses de poderes maiores que nem descortinamos. Vivem-se tempos de hipnose, tal como salientou Umberto Eco (1991), porque a linguagem da imagem não permite à civilização, aparentemente democrática, fazer dela um estímulo à reflexão crítica. A televisão, por exemplo, escreveu Jacques Piveteau (1984), instalou-se nas nossas casas "como um parente que se transforma, gradualmente, no pai de família autoritário, gerador de efeitos hemiplégicos no seio da família". Li em Karl Popper e Jonh Condry que "a televisão tornou-se um perigo para a democracia, porque o seu poder é colossal e que nenhuma democracia poderá sobreviver se não pusermos cobro a essa omnipotência". 


Ben Baddikian, citado por Jorge de Campos (1994), sublinhou que os "senhores da aldeia global têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económicas e sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros. Juntos, eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias, a cultura e o comércio que afectam as populações (...) Nem César, nem Hitler, nem Rosevelt, nem qualquer Papa tiveram tanto poder como eles para moldar a informação da qual tantas pessoas dependem sobre as mais variadas matérias: desde em quem votar até o que comer".

Todo o discurso está, assim, contaminado. Designam isto, simpaticamente, pelo mercado. Os equilíbrios estão cada vez mais distantes do aceitável e necessário. Aliás, quando persiste o princípio "dos rápidos ou dos mortos", quando a cultura empresarial é a do nanosegundo, é evidente que só podemos esperar uma sociedade doente. Quando o homem, sem dar por isso, ou empurrado pelas circunstâncias, torna-se peça da engrenagem, quando deixa de ter voz e embarca na condescendência, quando se torna actor de uma peça que não gosta, quando acredita na mentira que, pela enésima vez, lhe vendem, quando prefere o individualismo ao sentido e vantagens do colectivo, obviamente que escancara as portas à ausência de "bem-estar físico, mental e social".  
Estamos, por isso, em conflito aberto. Da perspectiva global, fechemos o zoom e situemo-nos por aqui. Olhemos em redor, para as famílias em sofrimento, para as diversas assimetrias, passemos os olhos sobre os salários e o custo de vida, já que falamos de doentes vs saúde, para os magros salários pagos aos médicos, aos enfermeiros e outros técnicos, tenhamos presente as intermináveis listas de espera, para o hospital que há vinte anos não avança, para a proliferação de seguros de saúde para colmatarem o direito público ao sistema de saúde, para a tendencial prevalência do sector privado em detrimento do que sobressai da Constituição da República, para a emigração de técnicos que tanta falta aqui fazem, para os medicamentos em falta, para a instabilidade do próprio sistema que contou com três secretários nesta legislatura, idem na administração do SESARAM, e mais, e mais e mais, pergunto, entre tanto que aqui poderia aflorar, se não estaremos mais próximos da doença do que da saúde?  
Deixo-vos com Leandro Karnal que nos fala da necessidade de "ser louco numa sociedade doente é a única opção (...) O mal sempre vem travestido de bem". Mais do que as minhas palavras, escritas ao correr do pensamento, oiçam Leandro Karnal.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Na semana onde tantas vezes pensei em Munch!


Já tem uns anos quando visitei a Galeria Nacional de Oslo. Ali se encontram obras de El Greco, Renoir, Monet, Cézanne, Degas e Picasso, entre muitos outros. Não apenas por isso, mas, conhecedor da emblemática história de Edvard Munch, "O Grito", sobremaneira, motivava-me. Entre salas dei como essa Obra, de 1893, a original (existem, julgo eu, mais três versões), significativa do desespero. Munch não teve uma infância fácil, a mãe faleceu muito cedo tal como uma irmã e o pai, segundo li, era portador de uma doença do foro mental. Tornou-se artista, expressionista, e aquela Obra, pelos intensos diálogos, no quadro das preocupações sociais que, todas as semanas, mantinha com o meu Amigo Franklim Lopes, já falecido e que tanta falta me faz, era uma que me fascinava pelo significado da ansiedade, da angústia, do desespero existencial e até do medo.



"O Grito" estava, na altura, mesmo ao lado de uma outra Obra da sua autoria, "Madonna", de uma enorme sensualidade. Tenho presente todo o ambiente. Sentados no chão, de pernas cruzadas e, curiosamente, de mãos colocadas à cara tal qual na pintura, estava um grupo de meninos que, talvez, não tivessem mais de dez anos. Um professor, na altura considerei, com a voz muito baixinha e meiga, gesticulava e falava, presumo, sobre o(s) quadro(s) que os pequenitos observavam com interesse. Situação normal que se vê em tanto lado. Mas, ali, aquele quadro, o seu significado, acrescido de uma educação vivida perante e através da pintura, redobrou o meu entusiasmo. Até que ficámos sós, inertes, a uns três metros da Obra, em silêncio, cruzando pensamentos sobre os tantos e mais variados gritos que acontecem. Uns, interiores, pelo que se vê e sente, outros, manifestados de tanta maneira e de forma bem audível. Franklim ficou com as lágrimas nos olhos, ele, um apaixonado do jazz, do canto e da música do sofrimento, ele, o Homem culto capaz de cruzar os inúmeros gritos que a humanidade dá e que passam ao lado da maquiavélica máquina trituradora dos seres humanos. 

Depois conversámos sobre tudo isto, sobre o Mundo egoísta, cruel, sem amor, de pura ilusão, destruidor, de dor, de desmedidas e insustentáveis ambições, na palavra de Saramago, onde "(...) tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses (...)". 

"O Grito" do norueguês Munch é isso, é actual, é um basta, estou farto, cansado, não aceito que, no plano global, dentro em pouco, 1% dos mais ricos venham a ser donos de dois terços de toda a riqueza. Li, há tempos, um estudo sobre desigualdade, do francês Thomas Piketty, que revelava que os 0,1% mais ricos aumentaram a sua riqueza tanto quanto a metade mais pobre da população. Mas "O Grito", tenhamos presente, tem, também, uma expressão local, quando se olha para a sociedade, quando nos cruzamos com a pobreza, visível ou escondida, para a escravização do mundo laboral, para as miseráveis pensões, para os olhares tristes, para a(s) solidão(ões), para as mãos estendidas à caridade, para a inversão das prioridades, para as diversas violências, para a secundarização da educação e da saúde, ou quando olhamos, paradoxalmente, para a ânsia na conquista de um lugar, para os atropelos, para a marginalização, para a crueldade dos actos, para o submundo político, distante do altruísmo, transformado em um tabuleiro de xadrez, cheio de jogadas exaustivamente pensadas até ao cheque-mate, quando se olha para a venda do homem aos bocados (Sttau Monteiro), para presunção, a tristeza da arrogância e a incompetência, para tanto nariz colado aos joelhos, para tanto discurso oco e falso de gente sem espelho e consciência das suas limitações. O quadro de Edvard Munch explica-me isso, na perenidade daquela Obra, uma razão estúpida de viver e de comportar-se com os outros. Na última semana tantas vezes senti-me frente ao quadro de Munch. E gritei, para dentro!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

“MATEM O MENSAGEIRO”


"Hoje não estou em paz. E quem poderá estar?... Talvez os inquilinos da mansão dos mortos. Mas nem todos. Aqueles que doaram os verdes anos e os frutos maduros de uma vida em prol de uma renovada primavera para o mundo de amanhã, esses também não têm paz, ao olhar o mundo com que sonharam e não viram. Ameaças entre os povos, convulsões territoriais, contorções fratricidas, corrupções premiadas, mensagens cifradas e mensageiros abatidos.

Quem poderá estar em paz?!... Até no silêncio acolhedor das alcovas domésticas rebentam furacões devoradores, cuja proporção ultrapassa o trágico furor dos esquadrões da morte. Segurança e paz, onde morais?
Remeto-me à solidão interior, onde o pensamento marulha inquieto como o mar que abala a falésia e traz-me vagas rolantes, redemoinhos de contradições que custam a engolir. Com elas, vem a jovem Serafita, do romance de Geoge Bernanos (Jounal dún Curé de campagne), figura de uma candura e sensibilidade supra-humanas, de uma virtude subtil, parca em palavras, mas impressiva nas atitudes, que o romancista resume nestes termos: Quando ela aparecia era como a luz da manhã que põe a nu os contornos que a noite esconde. A bondade da sua presença servia para reflectir-se nela o negrume das nossas maldades.
Há pessoas, na vida real, irmãs gémeas da jovem Serafita, de Bernanos. Uma palavra, um gesto bastam para, em contraste, reflectir-se nelas a oculta imundície adjacente, tal a força anímica da sua mensagem.
Mensagem e mensageiro, duas ondas potestativas que batem na margem do meu solilóquio. E trazem aquela “frase batida”, que vem de muito longe – “Matem o Mensageiro” – desde os combates da barbárie até aos tempos de agora, como o demonstrou o jornalista Gary Webb, soberbamente interpretado pelo actor Jeremy Renner (2014). Estava então no fio da navalha o tráfico da droga de altos políticos americanos que, perante a divulgação na imprensa, elegeram o jornalista denunciante como único alvo a abater.

Em tempos que já lá vão, João - o Baptista - denunciou Herodes. A João, sacaram-lhe a língua, degolaram-no. A Herodes, a corte manteve-o no trono. Até que caíram a corte, o trono e o entronizado.

Mas a vibrante língua de João, essa ficou para sempre cada vez mais alta, eloquente, imaculada. E com isto, tento recuperar a paz e a esperança nas futuras madrugadas."

07.Fev.19
Martins Júnior

NOTA
Um artigo sublime do Padre José Martins Júnior, publicado no seu blogue "senso&consenso".

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

OBRIGADO


Em certas circunstâncias, quanto mais se mexe mais fede! É verdade. Não quero voltar ao assunto. Tenho, apenas, o dever, junto dos amigos que por aqui passam e que fazem o favor de ler os meus desabafos, agradecer-lhes os comentários (e telefonemas) de compreensão que, acreditem, deixaram-me, ontem, muito sensibilizado. Quando sentimos um certo tipo de agressividade, de intencional exclusão e apagamento da memória, e isto acontece com tantos e em vários sectores de actividade, quando o execrável se sobrepõe à dignidade, escorrem na garganta como mel todos os desabafos sinceros e amistosos, mesmo aqueles comentários, talvez por ausência de dados, se apresentem desenquadrados relativamente aos factos. Por isso, obrigado a todos. Fiquei, repito, sensibilizado, acreditem. 


Hoje, sinto-me um pássaro fora da gaiola, capaz de, neste outono da vida, ter forças para voar e, do alto, olhar o terreno, as manobras, os jogos, as artimanhas, os enganos, os cantares dúbios, os subterfúgios, os pousos preferenciais de algumas aves e onde desejam nidificar. Se nunca o fiz, jamais descerei em voo picado para alimentar-me no pote que a todos pertence.
Não tenho, como a esmagadora maioria, meios para alterar os cursos da História, mas talvez valha a pena continuar, serenamente, a reflectir sobre assuntos que a todos diz respeito: a Educação, a Saúde e os Assuntos Sociais, pilares essenciais da Democracia. Vale a pena, com humildade, continuar a escutar os outros, com quem aprendo, e ser porta-voz de princípios e de valores comuns. Tenho, eu diria, temos o dever de forçar a mudança do modelo de organização da sociedade, de forma séria e não oportunista, olhar para a estrutura da família como centro das preocupações, ter presente o respeito pela(s) cultura(s), as questões de natureza laboral e, de resto, uma preocupação pelo estabelecimento dos mais elementares princípios do desenvolvimento, onde se inclui, desde logo, o da prioridade estrutural.
Tudo isto nos deve obrigar a um esforço, sem ofensas e distante de uma politiquice que descarta cidadãos, que a nada tem conduzido, apenas revoltado as pessoas de bem. A grande obra está por ser iniciada: a obra de (re)construção do ser humano. Tudo o resto, passar-me-á ao lado, quando vejo que as cartas estão, claramente, viciadas!
Uma vez mais, obrigado a todos.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

NEGO-ME CANTAR A REBOQUE


No exercício da política não existe memória, existe atropelo, em muitos casos, a lógica do salve-se quem puder e a oportunidade para subir, pelo menos temporariamente, no elevador do salário e das ligações tendencialmente prósperas. Churchill disse, um dia, que a política "é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes". Churchill tinha razão, na política a "guerra" é perigosa pela vastidão dos interesses em jogo. No plano pessoal, embora compreendendo a dimensão e o contexto das palavras do estadista britânico, porque não morri na guerra colonial, também não deixarei que me assassinem no plano político. Os direitos de cidadania, em um país tendencialmente democrático, permitem que, pelos outros, pelos que estão a nascer e a despontar para a vida familiar e profissional, continue a utilizar a escrita tal como nos versos de José Mário Branco:

"A cantiga é uma arma
e eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria (...)"

"(...) há quem faça profissão
de combater a cantar
e há quem cante de pantufas
para não perder o lugar (...)"

A propósito, um dia li uma carta que, depois de várias críticas, algumas justas, era assinada pelo "Meliante" X! Foi alvo de uma certa graça, porque logo espoletou a diferença entre militante e meliante. De facto, ambos coexistem nos partidos políticos, uns sem pontaria, outros, de pantufas, que surfam as ondas, mantendo-se, ilusoriamente, na sua crista. São tantos os escândalos, as patifarias, as negociatas, as mentiras, os afastamentos como quem corta capim para abrir o trilho, as lutas pelo dinheiro, as subserviências aos grandes senhores que impõem e dispõem, que só nos resta não permitir que nos matem, antes continuem a escutar o embaraço de quem, livremente, pensa e age em conformidade.
Regresso ao José Mario Branco:

"(...) Se tu cantas a reboque
não vale a pena cantar
se vais à frente demais
bem te podes engasgar (...)"

Não tenho, confesso, raiva por ninguém, nunca pressenti esse pesadelo, e embora a alegria não seja muita, há uma coisa que é certa: nego-me "cantar a reboque". E já que estou em maré de canções, corre-me, neste momento, no pensamento a canção dos "Resistência":

Mais do que a um país
Que a uma família ou geração
Mais do que a um passado
Que a uma história ou tradição
Tu pertences a ti
Não és de ninguém

(...)
Mais do que a um partido
que a uma equipa ou religião
Tu pertences a ti
Não és de ninguém
Vive selvagem
E para ti serás alguém
Nesta viagem (...)"

Só tenho, por tudo isto, uma ambição: apesar dos contratempos, ser feliz e lutar para que os outros o sejam. De resto, deixem-me da mão!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Choque económico IX: A nova velha economia do mar


CARLOS PEREIRA /
DN-Madeira - 30 JAN 2019

Entrou de rompante nos programas políticos de quase todos os partidos. Há mesmo quem pouco saiba o que fazer em termos económicos mas já tem a certeza do papel central da também chamada economia azul. Este conceito entrou nas discussões sobre a sustentabilidade do planeta em 2012 e de alguma forma até se confunde com a também conhecida economia verde, cuja essência não se distingue desta onde o essencial é desenvolver estratégias que estejam centradas na protecção da natureza, assentes na eliminação dos resíduos. Azul e não verde porque em boa verdade é o azul que predomina no planeta: o mar, os oceanos e o céu não deixam margem para dúvidas. 

Mas sendo esta uma discussão mais longa, e talvez pouco relevante para o caso, gostaria de me focar no potencial do mar e fazer apelo a uma clarificação dos responsáveis, evitando ideias abstractas, pouco consistentes e sem capacidade de materialização. A economia do mar pode incluir a aquicultura, o turismo marítimo, a biotecnologia marinha, a energia dos oceanos e a exploração mineira dos fundos marinhos. Procurando associar esta concepção à Madeira parece relevante que quem a defende como central no processo de desenvolvimento e crescimento económico deve ser capaz de especificar e concretizar os projectos, as ideias os objectivos e quantificar o seu valor . Quanto vale, ou poderá valer no PIB da Região as actividades associadas à economia do mar? Não há resposta nenhuma satisfatória! De resto era bom lembrar que não tem sustentabilidade formal retirar actividades já incluídas noutros sectores tradicionais para associar à economia do mar como algo novo, quando apenas se tratou de uma mudança estatística, sem adicionar mais emprego, mais riqueza, mais inovação, no fundo sem adicionar uma nova actividade. Para ser mais claro: por exemplo, a aposta nas actividades marítimo portuárias não é uma nova actividade. Está incluída para efeitos estatísticos no sector do turismo. Tal como a actividade portuárias não é nova, está incluída no sector dos transportes. Ora estas duas actividades são hoje identificadas como fazendo parte da economia do mar. Mas não são novas e muito menos inovadoras . São velhas actividades cobertas com uma nova roupagem de economia do mar. As respostas que têm de ser dadas por quem se propõe colocar no centro da diversificação da economia regional este sector são muito simples : que riqueza e que emprego pode ser gerado por novas actividades ligadas ao mar; que investimento publico, que I&D, que parcerias ou que Investimento Directo Estrangeiro são fundamentais ? Se é para ser a sério, os responsáveis têm mesmo de saber responder qual a estratégia da Região neste âmbito, qual o potencial que podemos ter em consideração e que investimento é necessário para a sua exploração / rentabilização. Vou ser ainda mais claro: A Madeira tem uma Zona Económica Exclusiva apreciável, por isso no âmbito da economia do mar era útil saber qual o potencial em termos de exploração mineira? E se a importância for apreciável, qual o investimento necessário para explorar essas riquezas ? Outra pergunta para ser respondida : que investimentos públicos e parcerias são necessários para tornar a biotecnologia marinha na Madeira em uma actividade económica de valor acrescentado? Mas mais, depois de um combate incisivo contra a aquacultura numa localidade da Madeira ( que recuso comentar) esse facto poderá querer dizer que esta actividade em particular, apesar de estar associada à economia do mar, não fará parte da diversificação arengada por aí? Ou foi mais um lapso de não ter sido feito a pergunta ( em tempo oportuno) à tal sociedade civil daqui e (sobretudo) além mar? Por outro lado, assumindo a importância das energias renováveis e reconhecendo o papel dos oceanos na sua produção, pode se concluir que a Madeira tem potencial nessa área?É uma hipótese mas se for assim, era preciso responder ao seguinte : essa também seria uma das apostas a incluir? Se sim, há investigação ( ou potencial de investigação ) na Região que permita admitir que este subsector terá um papel suficiente para ter expressão económica? Ou, em alternativa, qual o caminho a seguir para atrair esse tipo de investimento ( ou mesmo a inovação ) do exterior? Nada disto tem sido justificado. Aparentemente é “tudo ao molhe e fé em Deus”! Finalmente, os portos. O arquipélago da Madeira há dezenas de anos que sofre com a falta de competitividade dos seus portos. É verdade que a sua posição geoestratégica é muito favorável mas há muitos anos que já perdemos a batalha para os nossos vizinhos das Canárias. Gostaria de acreditar neste papel central de entreposto comercial no meio do Atlântico, usando os nossos portos, mas para quem hesita em combater monopólios que castram a competitividade das PME,s regionais deixa pouca margem para alguma esperança. Resta o habitual e cada vez mais importante : o esforço empreendedor de madeirenses que insistem em inovar, ganhar dinheiro e criar emprego com actividades marítimas associadas ao turismo. Ainda bem, mas isso não é nada de novo. É apenas mais do mesmo. Não integra objectivos ambiciosos e resultados concretos no quadro do que se quer da (efectivamente) nova economia do mar.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

"NUNCA DIGA MAL DE NINGUÉM..."


Já se torna insuportável acompanhar os debates na Assembleia Legislativa da Madeira. Pelo menos para mim! Não é sério, porque é marginal, isto é, como soe dizer-se, não vai ao osso, aos problemas que, de facto, interessam à população. Ainda ontem, circunstancialmente, segui uma parte na qual discursava o vice-presidente do governo. Nem estive cinco minutos e mudei de estação para outra música mais agradável. Cimentei na minha consciência política, desde há muitos anos, que a arruaça, os trocadilhos, o pegar nas palavras para atingir seja quem for, não traz qualquer dividendo político. Apenas afasta as pessoas. Um dia, não me lembro onde, durante uma campanha eleitoral, uma Senhora de avançada idade, segredou-me: "nunca diga mal de ninguém. O povo não gosta. Seja sereno e credível". Na fogosidade da idade, saía-me o que queria e o que depois me arrependia. Essa Senhora foi, posso dizê-lo, professora da minha conduta política. Aprendi a lição tão sábia, porque feita de experiência e de sentimento.

Isto não significa que o Parlamento deva ser constituído por meninos de coro! Obviamente que a emoção, o humor corrosivo e a acutilância na defesa das ideias terá de estar presente. Outra coisa é a repetida mentira, o enviesamento das questões, a algazarra e o chutar para outros as suas próprias responsabilidades. Esquecer-se dos telhados de vidro! 
Aliás, a manutenção do discurso do "inimigo externo" e o da "independência" foi chão que até poucas uvas deu. Hoje, esse alijar de responsabilidades é como uma mina exaurida. Nem para consumo interno, porque, seja qual for o tema, uma grande parte dos insulanos, pelo bulir dos beiços percebem onde querem chegar. Antes era Jardim, entretanto calado, agora surgiu um Calado, de baixa profundidade, mas feito metralhadora cuja bandoleira parece não chegar ao fim. Está em todas. Ontem, fez-me lembrar o meu tempo nas matas da Guiné, onde para nos sentirmos psicologicamente menos mal, a superioridade de fogo era determinante. Se atingia o alvo não se sabia, mas, paradoxalmente, o barulho concedia um certo descanso. Ali, o capitão quase só assiste, porque cada vez mais parece não ter jeito para liderar as tropas!
Mas o curioso disto é que não há um dia, uma só sessão, uma entrevista, um artigo, uma declaração qualquer, onde surja uma voz dizendo: errámos, vamos corrigir. Isso até concederia uma certa credibilidade. Mas não, a ideia que resta é a da infalibilidade, tudo o que está feito é obra nossa, tudo o que não foi realizado é por culpa dos outros, inclusive, da oposição. Eu que gosto do exercício da política, do debate das ideias, cheguei a um ponto, confesso, que perdi a paciência. Simplesmente não assisto, tenho mais do que me preocupar, prefiro outros canais de informação, pelo nível baixo, incoerente e porque nos tratam por analfabetos ou imbecis. E a população não é parola. Quem assim os considerar "está feito ao bife".
Ilustração: Google Imagens.