Adsense

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Provocando ou polemizando


Por
26 Abril 2022

Uma coisa e outra. Mas como envolve uma grada figura da igreja, alguém mais puritano poderá ver algum melindre, numa conversa tida como filosófica, em misturar o religioso e as técnicas do profano e ser levado a “aprimorar” o título, com a palavra, “pecando”, ou então como inclui também um grande nome do desporto nacional e europeu poderia alguém desta área, com todo o direito, ser tentado a questionar e o “futebol?”.



Uma coisa e outra. Mas como envolve uma grada figura da igreja, alguém mais puritano poderá ver algum melindre, numa conversa tida como filosófica, em misturar o religioso e as técnicas do profano e ser levado a “aprimorar” o título, com a palavra, “pecando”, ou então como inclui também um grande nome do desporto nacional e europeu poderia alguém desta área, com todo o direito, ser tentado a questionar e o “futebol?”.

De pecados estamos bem. Dos mais clássicos, parece que já não se fala. Dos novos, a dinâmica é de mudança a toda a hora e que interessam pois, segundo sei, se já nem inferno existe! E pecados sem inferno… Assim, cada um “peca” consoante entende e para “os pecados” que caem no crivo da sociedade, a justiça civil que trate do assunto. Um Estado mais laico. De pecados paro, só assinei o ponto … embora só veja maldades e das grossas…

Os factos

1.Imensa curiosidade à partida no teor da conversa havida na Biblioteca do Vaticano entre José Mourinho e Tolentino Mendonça, duas figuras portuguesas, graúdas nos seus meios/profissões, uma bem mais conhecida nacional e internacionalmente, por ser um dos treinadores de futebol mais badalados do mundo, desde há bastante tempo.

O cardeal Tolentino Mendonça ainda não chegou ao patamar de José Mourinho em termos de celebridade e atrevo-me a dizer mesmo no seu próprio meio, mas opinião própria, está a trabalhar para lá entrar. Legítimos os seus objectivos pessoais.

Talvez mesmo no círculo restrito dos cardeais ainda não tenha a projecção ambicionada, pois tratou-se de uma subida estonteante. Aqui, assemelha-se um tanto ao José Mourinho que desde muito cedo subiu a jacto, embora com uma vantagem e um grande trunfo. Tinha passado por uma “catedral do futebol”, o Barcelona. Penso que isto de não se seguir uma certa tradição, a gestão de uma diocese ou de uma ordem/instituição, dificulta a modelação do carisma. E não tendo ainda o carisma de competição seguro precisa de o burilar de formas condizentes.

2. A minha curiosidade surge quando vou comprar o Expresso do fim-de-semana da Páscoa que até saiu um dia antes e vejo a capa da revista preenchida por essas duas figuras (Tolentino Mendonça e José Mourinho – o cardeal e o treinador, em foto em pose de pensar (a lembrar agência de comunicação), empolgante, bem ajustada à imagem que de cada um imagino.

O que terá acontecido a estas duas figuras para capa de tamanho destaque?!

Não tinha informação que nenhum estivesse em vésperas de ganhar um “campeonato”. José Mourinho anda distraído e arredado nestes últimos tempos de justificar o “Special One” que tanto assumiu e Tolentino Mendonça também já distante um tanto do tempo do seu título cardinalício. Independentemente do seu valor, a subida fez-me transportar para uma ligação à sua terra de origem, a ilha da Madeira, um verdadeiro viveiro, uma terra produtiva de figuras gradas da Igreja. Muitos bispos e dois cardeais.

Tolentino Mendonça é o segundo cardeal. E os dois um pouco do lado norte da Ilha

Teodósio Clemente de Gouveia, cardeal de Lourenço Marques, é da minha freguesia São Jorge e contemporâneo de Cerejeira. Segundo parece não se conjugavam lá muito bem. Em algumas pesquisas na Torre do Tombo, cruzei-me com um ou outro documento de Dom Teodósio sobre as Colónias, endereçados a Salazar, mais concretamente sobre as missões a questionar a política, numa linha de pensamento de proximidade a Rolão Preto.

Tolentino Mendonça é natural de Machico, sacerdote, professor universitário, poeta, doutorado em Teologia Bíblica. Vive no Vaticano desde 2018, onde dirige a Biblioteca Pontifícia, para o que teve de ser coroado de arcebispo pelo Papa Francisco, que cerca de um ano depois o chama a cardeal.

O conteúdo da conversa

3. Não sei se se trata de uma “conversa” o texto promovido e produzido primeiro pelo jornal “L’Osservatore Romano” (mas é a palavra que consta), embora o veja mais como uma entrevista a Mourinho conduzida pelo Cardeal Tolentino. Pormenor de somenos importância.

O texto é interessante e motivado, à partida, pela pessoa de Manuel Sérgio, um pensador com alguma originalidade, muito ligado à filosofia abrangente do desporto que foi professor de José Mourinho na Escola de Motricidade Humana de Lisboa.

Manuel Sérgio, o motivo de começo para falarem. Mourinho, depois, vai discorrendo muito centrado em si e na sua evolução como homem gestor de outros homens.

Não consigo dar uma ideia global do conteúdo da entrevista que é grande demais para caber neste meu espaço. Permito-me relevar, contudo, uma passagem do pensamento de Mourinho de que cito: “ao nível técnico propriamente dito, entramos numa situação de quase dejà vu porque aquilo que me acontece hoje já me aconteceu há alguns anos atrás”…”Mas, a nível humano, cada dia é um novo dia e cada pessoa é uma pessoa nova … eu recuso sempre fazer comparações entre jogadores. Ao longo dos últimos 20 anos tive muitos, e cada um deles é único”.

Este pensamento de José Mourinho não podendo dizer-se que é um último grito , interessante até para se reflectir ao nível das empresas e organizações.

Acho que José Mourinho se saiu do contexto, com a distinção mais elevada.

Mas porque cheguei aqui?

4. Podia ter ficado pela leitura, matando a curiosidade.

Mas pus-me a matutar: como o acaso dá tanta volta! No “Expresso”, sem dúvida, uma conversa entre dois crentes de meios diferentes e sendo Tolentino Mendonça, colaborador, a publicação é furo jornalístico. Capa, destaques, fotos dos dois na Biblioteca do Vaticano, tudo se conjuga numa promoção das diferentes Partes e o jornal vende. Tudo oportuno: o tempo de Páscoa.

E, então, olho para outros ângulos. Comecei a deslumbrar laivos de alguma “economia promocional”. Gerar carisma…objectivos. O próprio acaso do “L’Osservatore Romano”, jornal do Vaticano, ter uma iniciativa destas quando tenho a sensação que para publicar algo não rotineiro nesse meio de comunicação se precisa de mover alguns cordelinhos!

Dúvidas que partilho porque me tocaram.

No Vaticano (e poderia citar outra instituição tipo ONU, FMI …) quem por lá anda pode ambicionar desempenhar certas funções, qualificadas e influentes, subir no pódio. E criar carisma é, assim, um requisito importante.

L’Osservatore Romano, Expresso não se encaixarão nessa sina?! É a dúvida que me permito plantar aqui.

Penso que interrogar o acaso não é pecado!

Sem comentários: