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sábado, 15 de outubro de 2016

"CARTA A UM MENINO QUE VAI NASCER"


"Chamar-se-á Guilherme. É o nosso primeiro neto e esta não é a carta que gostaríamos de lhe escrever. O que desejávamos era poder escrever uma mensagem de boas-vindas a um mundo luminoso, de futuro esperançoso, que não estivesse a ser governado ao ritmo e ao gosto do capital financeiro, cujo poder se encontra plasmado nas siglas que todos conhecemos e nos rostos (sempre os mesmos) que aparecem diariamente nas aberturas dos telejornais,  nos debates televisivos e nas redações dos jornais.


Como gostaríamos, Guilherme, de te apresentar a um planeta onde fosse possível anunciar que, finalmente, a fome  a pobreza começaram a ser derrotadas; um planeta onde os responsáveis políticos e nós, os cidadãos, havíamos, finalmente,, que não somos os donos dele, mas apenas transitórios habitantes, que partilhamos com as plantas e os restantes animais, o mar, os rios, as montanhas, os desertos, as savanas e o futuro. Gostaríamos de te escrever sobre sociedades onde a democracia seria mesmo o melhor de todos os sistemas, depois de ter sido entendida como o melhor dos males quando o confronto se estabelece com a tirania das ditaduras; sobre como nos deixamos de contentar somente com a possibilidade de votar em eleições que deixaram de ser decididas pela força do marketing e da informação que, nos jornais, na rádio e na televisão, controla e decide qual a realidade que devemos conhecer.
(...)
Apesar de tudo o que está a acontecer, esperamos ansiosos por ti. Queremos-te connosco!
(...)
Por isso, também por tua causa, temos mais um motivo para continuarmos empenhados na construção de uma Escola que deixe de discriminar os alunos pela sua origem social e cultural, étnica e religiosa. Uma Escola onde a palavra inclusão não seja uma palavra vazia de uma ladainha que se invoca em discursos solenes. Uma Escola que seja um espaço culturalmente significativo e não um cemitério de ideias, uma espécie de monstro que a todos parece escapar e sobre o qual ninguém parece entender-se, enredados nas mil e uma armadilhas que não se resolvem e nos jogos de palavras sem sentido onde só ganha quem tem as cartas escondidas na manga. (...)
Bem-vindo, Guilherme!" 
NOTA
Excerto de um texto dos Professores Rui Trindade e Ariana Cosme, publicado na edição de Verão da revista A Página da Educação, que ainda não está disponível aos leitores não assinantes. Um artigo onde me deliciei com as palavras sentidas e pela oportunidade em função do mundo que estamos a viver. Também digo, bem-vindo Guilherme. E parabéns aos pais e avós.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

EDUCAÇÃO: FRASES QUE ME FICARAM DAS MINHAS ÚLTIMAS LEITURAS


"Como é que um país que tem 3,4 milhões de pessoas com o 4º ano de escolaridade ou menos, pode prescindir da educação de adultos? Como é que nos podemos dar ao luxo de ter tantos professores no desemprego e tanta gente a querer formação? - Ana Maria Bettencourt.


Nos últimos dias tenho andado a (re)ler a última edição da revista A Página da Educação onde, humildemente, colaboro. Foi devorando as páginas com vários artigos de extrema importância. Muitas passagens deixaram-me a pensar, registei-as e aqui partilho-as convosco:
"Nas bolsas de valores, os mercados tornaram-se pessoas que é preciso acalmar, e as pessoas tornaram-se coisas que é preciso dispensar. Não pode ser. Temos de abrir caminhos de literacia cívico-jurídica. Está nas nossas mãos" - Emanuel Oliveira Medeiros.
"Talvez seja importante reler, à luz da actualidade, o livro VII d'A República, de Platão, no seu profundo sentido político, humano, cívico e educacional. Há sempre uma saída. Há sempre saídas. A alegoria da caverna é  lição que exige uma sábia compreensão e uma pedagogia social e cívica". - Emanuel Oliveira Medeiros. 
"É uma grande injustiça pôr em causa a Escola Pública. Os testes internacionais mostram que estamos ao nível dos outros, ou melhor" (...) O que é preciso é dar mais liberdade às escolas" (...) "Como é que um país que tem 3,4 milhões de pessoas com o 4º ano de escolaridade ou menos, pode prescindir da educação de adultos? Como é que nos podemos dar ao luxo de ter tantos professores no desemprego e tanta gente a querer formação? - Ana Maria Bettencourt.
"O tempo mostrou-nos quão infundadas eram as expectativas relativamente a um homem (Nuno Crato) que, pelo que escrevia e defendia, não poderia ter feito coisa diferente daquilo que tem andado a fazer. Acusem-no do que quiserem, menos de incoerência e de oportunismo. Neste caso, nem sequer é necessário recorrer à metáfora do ovo da serpente para explicar a perplexidade de tantos que há bem pouco o incensavam, porque, na verdade, a serpente já rastejava desde 2006, pelo menos" - Ariana Cosme e Rui Trindade.
"Esta não sociedade é a ausência da sua definição identitária, relacional e histórica; é a bandeira na lapela dos governantes (o simbólico sobrepõe-se ao real), é o exercício do governo sobre os indivíduos (e não com os cidadãos), é o passado só invocado para desculpabilizar o presente" - Henrique Vaz.
"A nova reforma é efectivamente é neoconservadora e neoliberal. A direita parece não se contenta em manter os privilégios das elites, mas procura intervir em todo o sistema, impondo mecanismos de mercado no acesso e gestão da educação (...)" - Xavier Bonal.
"Descolonizar a Escola para dialogar com os vários mundos" - José Guilherme Gonzaga.
"O que nos faz sermos felizes é a aceitação de uma identidade plural" (...) "o medo rouba-nos de nós mesmos" - Mia Couto. 
"Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o Mundo" (...) "A Educação é a única solução" - Malala Yousafzai.
"Estamos cada vez mais um povo triste" - Júlio Gago.
"Esprememo-nos, contorcemo-nos, sonhamos, aviltamo-nos, bajulamos, e o resultado de todo este bailado é a miséria de quem se sente com direito a ter, mas padece despojado de pão para o corpo e de justiça para o espírito" - Luís Vendeirinho.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

LABIRINTOS NA EDUCAÇÃO


Um exemplo: com estabelecimentos de educação e ensino a abarrotar de dívidas de vários anos, sem dinheiro para os projectos educativos, consumíveis, água, energia e comunicações, com muitas dezenas de docentes mandados borda fora e centenas no trapézio sem rede, com seis milhões em dívida aos professores, o orçamento de 2013 contemplará quase onze milhões de euros para o sistema desportivo, fundamentalmente dirigidos para a competição e representação externa nacional e internacional. Uma afronta.


O Ministro da Educação, Doutor Nuno Crato, anda, como sói dizer-se, à procura da rolha. Não consegue sair do "plano inclinado", programa de televisão que o catapultou para o ministério. Só que, entre dizer umas coisas, ao lado do pregador Dr. Medina Carreira, e governar, a diferença é substancial. Dos meses de governação que leva, denuncia uma ausência de visão de conjunto do sector, ao mesmo tempo que demonstra não ter força política suficiente para determinar que o actual quadro de crise necessita de um substancial reforço na política educativa. Governa nas margens e subjugado às regras economicistas, não as do rigor, ditadas externamente e que explicam, entre outras, a insensata revisão da estrutura curricular, geradora de inúmeros conflitos, onde os professores, intencionalmente, são enxotados como peças descartáveis.
O ministro quer lá saber dos estudos que revelam que não há professores a mais, que apresentam elevados valores de exaustão emocional, falta de reconhecimento profissional, que ter “horário zero” tira o sono a qualquer profissional e que provoca altos níveis de ansiedade e depressão! Quer lá saber que haja gente imolada no altar dos interesses ditados pela sacrossanta troika, que pouco ralada demonstra estar com as pessoas e com o país. Interessa-lhe a submissão à lógica do “bom aluno” perante esses funcionários de tez carregada e distante, que sacam o máximo de juros em função de um empréstimo que deveria ser considerado de acordo com as possibilidades do país e no quadro dos equilíbrios financeiros mundiais. Há uma cegueira e uma preocupação em saber onde poder esmifrar, mesmo que isso signifique empobrecimento de todos e o pão da boca de milhares de docentes necessários ao sistema educativo.
O quadro que hoje está desenhado, estou certo, só conduzirá a uma profundíssima revolta, muito mais expressiva do que aquela contra a ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues. Não me sobejam dúvidas relativamente a isso. Este “PREC de direita”, na expressão de Miguel Sousa Tavares, ou estes “tempos bárbaros”, na escrita de Henrique Monteiro, visam os que vêem limitados os acessos à Educação e à Saúde, direitos constitucionais, cortados sem dó nem piedade e sem a visão que o futuro só pode ser construído com muito trabalho, rigor e disciplina, é certo, mas com respeito pelas pessoas e pelos direitos conquistados. Ora, Nuno Crato é mais um que, no seu sector, dá rumo ao desmantelamento do Estado. Um governo que não assume a Educação como a prioridade das prioridades, que demonstra apenas saber conjugar o verbo cortar, manifesta desprezo pelo futuro. Revoltam-me os traços desta ideologia dominante que varre a esperança que deveria constituir o alimento e a motivação de toda a população.
Mas, não é só o ministro que constitui motivo de insatisfação. Na Região Autónoma da Madeira, sujeita a uma dupla austeridade, pela dívida do Estado e pela assustadora dívida regional de oito mil milhões (o orçamento regional é cerca de 1.5 mil milhões), o quadro é de uma enorme angústia. Apenas, um exemplo: com estabelecimentos de educação e ensino a abarrotar de dívidas de vários anos, sem dinheiro para os projectos educativos, consumíveis, água, energia e comunicações, com muitas dezenas de docentes mandados borda fora e centenas no trapézio sem rede, com seis milhões em dívida aos professores, o orçamento de 2013 contemplará quase onze milhões de euros para o sistema desportivo, fundamentalmente dirigidos para a competição e representação externa nacional e internacional. Trata-se de uma afronta, não só pelos constrangimentos globais, mas também pelos enclausuradores níveis de instrução, de habilitação académica, profissional e de insucesso, limitadores da construção do futuro. Curiosamente, no âmbito do desporto educativo escolar, aquele que pode ser portador de futuro e de desenvolvimento, nem uma palavra. Importante é, embora no decurso de uma gravíssima crise, alimentar o circo, mesmo que a lona esteja esburacada e as bancadas cada vez mais vazias.
Face a um povo que sucumbe nas mãos de várias troikas, Crato e Jardim, cada um à sua maneira, multiplicam o labirinto ao invés de procurarem encontrar a saída para um caminho que se sabe estreito, penoso, mas com o sentido de alguma esperança.
NOTA
Artigo de opinião, a partir de alguns textos já publicados neste blogue, publicado na Revista A Página da Educação, nº 198, edição de Outono 2012/Profedições.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

FALECEU O PROFESSOR JOSÉ PAULO SERRALHEIRO

Continuam as mensagens a propósito do falecimento do Professor José Paulo Serralheiro, distinto Professor e Director do Jornal, agora revista, A Página da Educação.
Já lá vão uns cinco ou seis anos que recebi um seu contacto para me tornar colaborador daquele mensário de referência no panorama da Educação em Portugal. Tenho vindo a escrever, com regularidade e, sobretudo, a amadurecer a excelência de conteúdos publicados por académicos de enorme qualidade científica, entre os quais, saliento os notáveis textos do Amigo José Paulo Serralheiro.
O País e toda a classe docente muito lhe fica a dever. Uma das mensagens que me chegou foi do Professor Doutor António Teodoro que foi, nos anos 80, Secretário-Geral da Fenprof. A páginas tantas salienta:
"Sempre admirei a sua calma e serenidade, o seu bom senso e sabedoria, que decorriam de um profundo conhecimento dos professores e de uma sensibilidade muito particular para lidar com as pessoas, na sua diversidade de ambições e convicções. Nas decisões difíceis era sempre uma opinião que procurava e tinha em consideração (...)
já como responsável na minha Universidade pela área das Ciências da Educação, aceitei integrar o corpo de colaboradores de A Página e dar o contributo possível à afirmação de um jornal ímpar no panorama português, e com muito poucos exemplos em outros países (...) defendo que a melhor homenagem que podemos fazer ao José Paulo é continuar e aprofundar o projecto de A Página. Aos dirigentes do SPN deixo o desafio de continuarem a criar as condições materiais para que o projecto prossiga e se amplie. A todos os que colaboravam com A Página, a garantia que a sua colaboração continuará. Da minha parte, é esse o compromisso".
Tenho pena que a revista A Página da Educação não seja conhecida da esmagadora maioria dos educadores e professores portugueses. A melhor homenagem que se pode fazer ao José Paulo Serralheiro, grande referência da Educação, é assinar a revista. Aqui fica o endereço: assinaturas@apagina.pt
Nota:
Valor a pagar pela assinatura: 1 ano (4 números) € 12,00; 2 anos (8 números) € 20,00.
Assinem porque vale a pena.