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sábado, 9 de setembro de 2023

Bilhardeiro(a)

 

Há um regionalismo madeirense que atribui o significado ao que se passou no recente Conselho de Estado: bilhardeiro ou bilhardeira, aquele(a) que tem uma apetência especial pela intriga. Já não bastavam as transcrições integrais do que se passa nos inquéritos e audições da Justiça, em processos alegadamente em "segredo", ao mais alto nível do Estado, o comportamento bisbilhoteiro parece que se tornou norma. Desprestigiante.



Não me interessa saber quem foi o bilhardeiro(a) que soprou à comunicação social que as figuras x ou y não abriram a boca no decorrer da reunião. Isso parece-me ser de somenos importância. Como disse o pedagogo austríaco Shlomo Rubin, "gosta-se da bisbilhotice, mas odeia-se o bisbilhoteiro". E eu não aprecio nem a bisbilhotice tampouco odeio a figurinha bilhardeira. Corto o mal pela raiz. Aliás, ao longo da vida participei em tantas reuniões onde preferi o silêncio. Entendi que, com essa opção, estava a falar não falando. 

Ora, mais grave e a ter em atenção não é a existência do bilhardeiro(a), mas a composição do Conselho de Estado. Não é recente a minha posição sobre esse importante órgão de audição do Presidente da República. Penso que é nessa composição que reside o problema. Com as devidas excepções de pessoas de um mérito excepcional, estadistas que ali se sentam pensando na geração seguinte e não na eleição seguinte, aquele órgão está extremamente partidarizado com pessoas de reconhecimento muito discutível. Gostaria, isso sim, que o Conselho de Estado tivesse uma menor representação partidária, directa ou indirecta. Com as óbvias excepções, claro, sem presenças por inerência de cargos, mas pelo mérito pessoal, de tal forma que para ele olhássemos como um corpo de referências maiores do país, uma estrutura de rectaguarda capaz de, com sabedoria, ajudar a guiar o mais alto representante do povo. Infelizmente o que se denota é que, naquele Conselho, alguém corresponde ao pensamento do escritor Apparício Torelly (1895/1971), de pseudónimo Barão de Itarará, quando enalteceu que "todo o homem que se vende recebe muito mais do que vale".

Compaginando, Aristóteles (322 aC) terá dito que o "sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz". Ora, por um lado, o bilhardeiro(a) vendeu-se e, por isso mesmo pouco vale; por outro, os que não falaram, no actual contexto político, podem ter sido sábios. 

Através de bilhardeiros o país não vai longe. Aqueles, porque perversos, estimulam, enquanto contrapartida, os comentadores do nada, que desvalorizam e descentram as preocupações vitais que dizem respeito ao bem-estar do povo. Tornou-se regra a marginalização do importante e, entre a confidencialidade a que estão obrigados e a intriga, o bilhardeiro prefere a última. Entre a regra que impõe o sigilo e o bufar com interesses pessoais, pedindo para eles próprios a não divulgação da origem da fonte, o bilhardeiro vende-se por pouco, na esteira de Sttau Monteiro - in "Angústia para o jantar": 

"O homem vende-se por pouco. Um Volkswagen, um andar no Areeiro, uma mulher que só casa pela Igreja, ou a amizade dum tipo importante, são suficientes para que se esqueça do que tem de mais íntegro e de mais seu. Por vezes o negócio é mais subtil, menos aparente, e o homem vende-se para ver o seu nome no jornal, para viajar à custa do seu semelhante ou ainda para ter acesso a certos círculos que o deslumbram. A transacção nunca é rápida. O homem vende-se aos bocados, a prestações, dia a dia. Muitos, ao fim dum tempo, já nem sabem que estão a se vender: atingem uma posição que os obriga a defender interesses contrários a tudo o que sempre sustentaram, e são comprados por essa posição. Continuam, em voz alta, a defender os mesmos princípios de sempre, mas secretamente guerreiam os ideais que dizem ter e fazem o que podem para evitar a sua concretização. A grande maioria dos homens, porém, vende-se por cobardia".

Ora bem, o bilhardeiro é um cobarde!

Ilustração: Google Imagens

terça-feira, 21 de março de 2023

Conselho de Estado


Desde há muito que me causa alguma perplexidade a constituição do Conselho de Estado, enquanto "órgão político de consulta do Presidente da República, por ele presidido". Sendo um órgão de natureza política, essa situação não implica que a sua constituição seja, implicitamente, formada por agentes directa ou indirectamente ao exercício político-partidário. Tenho por assumido que o Conselho de Estado deve ser um órgão acima de qualquer suspeita, formada pelos melhores nos diversos sectores e áreas do conhecimento, que pela sua independência, visão, verticalidade e honestidade, as suas vozes sejam audíveis, respeitadas e constituam um bom aconselhamento junto do Presidente de todos os portugueses.



Gostaria que assim fosse, mas infelizmente não é. É uma miscelânea, onde se encontra de tudo, desde homens e mulheres com pensamento até alguns que nem tanto. Pior, ainda, e eu não estou a pensar em quotas, mas não deixa de ser tão estranho que dos vinte elementos, incluindo o Presidente, apenas três sejam mulheres.

Aquele Conselho tem muito que se lhe diga. Questiono-me sobre, por exemplo, a atribuição de alguns lugares apenas por inerência de funções. Mas pior do que isso é constatar a existência de figuras que são membros do Conselho de Estado e, simultaneamente, articulistas e comentadores políticos em televisões e estações de rádio. Do meu ponto de vista tal não faz sentido. Um Conselheiro de Estado devia manter um distanciamento que oferecesse uma certa garantia de reserva e independência. Ao Domingo posso dar com um "conselheiro" a manifestar-se, às vezes directamente, sobre uma dada actuação do Presidente da República e, na Segunda-feira, vejo-o sentado na mesa do Conselho de Estado, como se a sua opinião já não fosse conhecida. Vejo um "conselheiro", por despeito ou não, hoje, bater forte e feio no governo e, amanhã, à volta da mesa de onde seria dele esperar distanciamento, independência e respeitabilidade. Enfim, são vários os casos.

Pergunto, para que serve um Conselho de Estado quando se torna numa extensão partidária e não no tal "órgão de consulta" sobre a vida do País e de todos nós. Para reflectir!

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 5 de julho de 2014

OS PATÉTICOS CONSENSOS DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA


Pedir consensos onde as estruturas de pensamento político são divergentes ou totalmente divergentes, é inadequado e gerador de tristeza política! Se lutámos e optámos por viver em regime democrático, logo, quando a maioria parlamentar não corresponde a uma substancial maioria do sentimento do Povo, expressa em tantas e variadas situações e indicadores, ao Presidente deve competir a auscultação do Conselho de Estado sobre uma eventual demissão do governo, nunca para conduzir o processo no sentido de chegar à sua permanente lengalenga do consenso. É nas urnas e através do voto soberano do povo que as questões da governação do País devem ser resolvidas. A lógica do consenso constitui, em si mesma, a anulação da existência de alternativas políticas naquilo que é substancial e, por via disso, a existência de uma "ditadurazinha" disfarçada de democracia. E eu por aí não vou, até porque em regime democrático há sempre alternativas.


Do último Conselho de Estado resultou, em síntese, o apelo a "todas as forças políticas e sociais" a preservarem "pontes de diálogo construtivo" e empenharem "os seus melhores esforços na obtenção de entendimentos quanto aos objectivos nacionais permanentes". Em uma só palavra: consensos! Das duas, uma: ou o Presidente da República ainda não percebeu como funciona a democracia, ou, então, anda a brincar com a paciência do povo. Alguém disse, infelizmente não me recordo quem, que a convocação do Conselho de Estado justificava-se por um de dois motivos: ou para demitir o governo ou ele próprio anunciar a sua demissão. Concordo com esta análise. Aliás, a Constituição da República Portuguesa é muito clara sobre as competências do Conselho de Estado (da página oficial da presidência):
Artigo 145.º
(Competência)
Compete ao Conselho de Estado:
a) Pronunciar-se sobre a dissolução da Assembleia da República e das Assembleias Legislativas das regiões autónomas;
b) Pronunciar-se sobre a demissão do Governo, no caso previsto no n.º 2 do artigo 195.º;
c) Pronunciar-se sobre a declaração da guerra e a feitura da paz;
d) Pronunciar-se sobre os atos do Presidente da República interino referidos no artigo 139.º;
e) Pronunciar-se nos demais casos previstos na Constituição e, em geral, aconselhar o Presidente da República no exercício das suas funções, quando este lho solicitar.

Ora, convocar um Conselho de Estado para, no essencial, pedir consensos às forças partidárias é, no mínimo, patético. A Democracia tem uma estrutura de funcionamento e, ao que parece, o Presidente dá a entender que ainda não percebeu! E não percebeu uma outra coisa: é que assumiu um lugar político que o impede de ser partidário e que ali está porque jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição. O Presidente da República não pode assim comportar-se como se fosse um primeiro-ministro (na sombra) ou como um líder do PSD. E a verdade é que quase todos os seus comportamentos induzem nessa leitura.
Do meu ponto de vista é ininteligível pedir consensos quando a nossa estrutura política assenta na existência de forças partidárias representadas no Parlamento. No caso em apreço, o governo goza de uma confortável maioria absoluta de dois partidos que assumiram governar o País. Não existe, portanto, crise política por ausência de uma quebra na estabilidade dos partidos que suportam o governo. Daí que, solicitar consensos, repito, seja patético. Ou o governo, na opinião do Presidente da República, está a governar bem e, portanto, deve continuar; ou, não está e deve ser demitido. Se não tem opinião, quem se deve demitir é o próprio Presidente da República. Pedir consensos onde as estruturas de pensamento político são divergentes ou totalmente divergentes, é inadequado e gerador de tristeza política! Se lutámos e optámos por viver em regime democrático, logo, quando a maioria parlamentar não corresponde a uma substancial maioria do sentimento do Povo, expressa em tantas e variadas situações e indicadores, ao Presidente deve competir a auscultação do Conselho de Estado sobre uma eventual demissão do governo, nunca para conduzir o processo no sentido de chegar à sua permanente lengalenga do consenso. É nas urnas e através do voto soberano do povo que as questões da governação do País devem ser resolvidas. A lógica do consenso constitui, em si mesma, a anulação da existência de alternativas políticas naquilo que é substancial e, por via disso, a existência de uma "ditadurazinha" disfarçada de democracia. E eu por aí não vou, até porque em regime democrático há sempre alternativas. 
Não nutro a mínima consideração por este político que, infelizmente, chegou a Presidente da República. É fraco. Sobre o que é importante, ou não tem opinião ou não se pronuncia, denota, claramente, que não é o presidente de todos os portugueses, foge da realidade, inventa(ou) perseguições, assume discursos que demonstram estar distante da realidade nacional e comporta-se com uma roda dentada de outros interesses que a direita política mais retrógrada prossegue. Este homem ficará na História como o Presidente pós 25 de Abril que mais o povo detestou. Pessoalmente, já estou como o General Garcia Leandro:  "Neste momento, eu não aceito sequer olhar para a cara dele".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA COMPORTA-SE COMO UM INIMIGO DE PORTUGAL E DOS PORTUGUESES


Aquele despropositado Conselho de Estado assemelhou-se a um jogo de futebol, onde nada se decide e que apenas serve para cumprir o calendário. O comunicado dele saído denuncia isso mesmo. Se juntarmos as declarações anteriores de vários conselheiros bem como de outras figuras de referência nacional, pode concluir-se que se tratou de um desperdício de tempo. O essencial e prioritário não foi debatido, as questões que colocam em causa a vida de todos os portugueses continuarão por aí em rédea solta sem que ninguém contextualize e com firmeza aponte um caminho. O Presidente da República, uma vez mais, demonstrou fraqueza e calculista submissão a interesses ideológicos. Se nunca o foi, agora, está cada vez mais distante de ser o presidente de todos os portugueses.



Ora, num momento de sérios constrangimentos para empresários e trabalhadores, num momento de absoluta falta de confiança, num momento em que está demonstrado o total descrédito das políticas de austeridade, de empobrecimento e de continuada espiral recessiva, o comunicado do Presidente enuncia que no "quadro da criação de uma união bancária, o Conselho analisou a instituição dos mecanismos de supervisão, de resolução de crises e de garantia de depósitos dos bancos, um passo da maior importância para corrigir a actual fragmentação dos mercados financeiros da Zona Euro" (...) o "reforço da coordenação das políticas económicas" e a "criação de um instrumento financeiro de solidariedade destinado a apoiar as reformas estruturais dos Estados-membros", tendo sido defendidos mecanismos para fomentar a saída da crise económica com reformas que ajudem ao crescimento e ao emprego" (...) e que no quadro do "programa de aprofundamento da União Económica e Monetária deve criar condições para que a União Europeia e os Estados-membros enfrentem, com êxito, o flagelo do desemprego que os atinge e reconquistem a confiança dos cidadãos, devendo ser assegurado um adequado equilíbrio entre disciplina financeira, solidariedade e estímulo à actividade económica".
Ora, trata-se de um texto genérico, distante da realidade nacional e que poderia ter sido elaborado no âmbito de uma qualquer conferência europeia. Para um comunicado daqueles não seriam necessárias seis ou sete horas de reunião. É claro que o Presidente conhece os problemas nacionais, sabe onde está a doer, mas comporta-se como uma figura política manhosa e ardilosa, simplesmente porque não consegue libertar-se das suas convicções partidárias. A sua doutrina esmaga e cega, impedindo-o de uma postura de distanciamento e actuação em função dos interesses nacionais. Este Presidente comporta-se como um inimigo de Portugal e dos portugueses. Os conturbados tempos que vivemos exigem respostas adequadas e firmeza na actuação, exigem transparência nas atitudes de todos os órgãos de soberania, em circunstância alguma reuniões improdutivas, descontextualizadas e sem valor real para a vida dos portugueses. Ele ainda não percebeu que a maioria dos portugueses não o suporta.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

JÁ NÃO É SÓ O GOVERNO QUE DEVE IR EMBORA... O PRESIDENTE TAMBÉM.


Ainda hoje li a síntese de um estudo que dá conta que os portugueses vão precisar de trabalhar este ano mais de cinco meses, até ao dia 04 de Junho, para pagar impostos e só daí em diante o salário se torna verdadeiro rendimento líquido. Paga, por um lado, e retiram-lhe direitos sociais, por outro. Paga, trabalha mais horas e agora, como se não bastassem todas as agressões anteriores, aos funcionários públicos, querem penalizá-los com 4% nos salários de 2014, ao mesmo tempo que manifestam interesse em reduzir 10% nas aposentações anteriores a 2005. Perante isto, o Presidente dá-se por satisfeito com o rumo do País, entende que assim está bem, que não há fome, que o País "ai aguenta, aguenta..." e, no extremo, Nossa Senhora de Fátima resolverá esta situação que pertence ao domínio dos comportamentos dos homens e mulheres que por aqui andam. Ele brincou e brinca, abusivamente, com o domínio da transcendência e da fé apenas para mascarar uma complexa situação que só poderá ser resolvida com atitudes políticas sérias, honestas e que fazem apelo à inteligência e à negociação. 


Este Presidente da República banalizou a importância do Conselho de Estado. Do essencial das suas competências ressaltam a audição sobre a dissolução das Assembleias da República e das Regiões Autónomas, sobre a demissão do governo, sobre a declaração de guerra e feitura da paz, sobre determinados actos do Presidente da República interino e aconselhamento do Presidente da República no exercício das suas funções, quando este lho solicitar. Estes são os pontos fundamentais que justificam a convocação do Conselho de Estado. Ora, num momento de gravíssimas dificuldades, de um governo a duas e mais vozes, de um claro descalabro da dívida em percentagem do PIB, de acelerado crescimento do  desemprego e de persistente recessão, o Presidente convoca o Conselho para uma inexplicável abordagem sobre o futuro do pós-troika. Ou é declaradamente incompetente, ou tem uma agenda própria, ou está ao serviço de outros interesses ideológicos ou está a fazer do povo uns parvalhões que não sabem o que se está a passar. Ou, então, reflecte um mix de tudo isto, envolvido com o celofane da importância do fim da sétima avaliação da troika, enquanto "inspiração" de Nossa Senhora de Fátima, a 13 de Maio. Uma mensagem que me chegou dizia que "nem o Almirante Américo Tomáz foi tão longe"! Bastaria que colocasse como ponto único da agenda de trabalhos: "análise à situação política" e isso poderia envolver as questões mais pertinentes que hoje se colocam ao povo. Pelo contrário, solicita uma audição e aconselhamento para um pós-troika, que bem longe vem, quando tudo leva a crer que este governo, extremamente corroído por dentro, pode cair mais mês menos mês. É o sentimento que existe junto do povo, mas é também esse o sentimento que cresce junto de comentadores e jornalistas. Poucos, muito poucos, acreditam nesta receita austera que está a devorar os portugueses.
Ainda hoje li a síntese de um estudo que dá conta que os portugueses vão precisar de trabalhar este ano mais de cinco meses, até ao dia 04 de Junho, para pagar impostos e só daí em diante o salário se torna verdadeiro rendimento líquido. Paga, por um lado, e retiram-lhe direitos sociais, por outro. Paga, trabalha mais horas e agora, como se não bastassem todas as agressões anteriores, aos funcionários públicos, querem penalizá-los com 4% nos salários de 2014, ao mesmo tempo que manifestam interesse em reduzir 10% nas aposentações anteriores a 2005. Perante isto, o Presidente dá-se por satisfeito com o rumo do País, entende que assim está bem, que não há fome, que o País "ai aguenta, aguenta..." e, no extremo, Nossa Senhora de Fátima resolverá esta situação que pertence ao domínio dos comportamentos dos homens e mulheres que por aqui andam. Ele brincou e brinca, abusivamente, com o domínio da transcendência e da fé apenas para mascarar uma complexa situação que só poderá ser resolvida com atitudes políticas sérias, honestas e que fazem apelo à inteligência e à negociação. 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 14 de maio de 2013

UM PRESIDENTE À MARGEM DOS INTERESSES DOS PORTUGUESES


Numa altura em que assistimos, indefesos, a uma barbárie anti-social, quando aumenta a tensão e as críticas ao governo de coligação PSD/CDS, quando a aldrabice política existe, quando o desemprego atinge valores extremamente preocupantes, quando a fome alastra, quando a emigração dispara, quando os reformados e pensionistas sofrem penalizações que colocam em causa a confiança dos contratos estabelecidos com o Estado, quando se assiste a uma doentia perseguição aos funcionários públicos, quando, ainda hoje, na União Europeia, os ministros das finanças (Ecofin) vão discutir uma proposta sobre a possibilidade de os depositantes com mais de 100 mil euros assumirem parte das perdas dos bancos, o presidente, pasme-se, convoca o Conselho de Estado não para debater o presente estado do País, mas o futuro de Portugal, tendo como ordem de trabalhos as "perspectivas da economia portuguesa no pós-troika, no quadro de uma União Económica e Monetária efectiva e aprofundada". Apetece segredar-lhe ao ouvido um palavrão que certamente os leitores adivinharão.


Nunca mais se vai embora...
O Presidente da República Portuguesa só pode estar a brincar com o povo ou, então, anda a ludibriá-lo em função dos seus posicionamentos ideológicos. Ele que jurou cumprir a Constituição e ser o presidente de todos os portugueses, sucessivamente, tem vindo a demonstrar que, Portugal, num momento que mais precisava de uma figura independente, atenta e vigorosa, confronta-se com um político frágil e politicamente oco. Dele apenas fica a repetitiva mensagem de efeito nulo: depois, não digam que eu não avisei! 
Ora, o País não precisa de quem avise, ainda por cima sobre assuntos que os atentos dominam, mas de quem tome atitudes no quadro da Constituição da República. É um tipo de político irritante, que existe e não existe, que prefere olhar para o lado, dizer palavras de circunstância com um ar circunspecto, fugindo aos assuntos de primeira linha que tanto preocupam os portugueses. Tanto assim é que jornalistas, comentadores, políticos e as pessoas na rua olham-no com distanciamento e, por isso mesmo, os seus índices de popularidade andam significativamente negativos.
Numa altura em que assistimos, indefesos, a uma barbárie anti-social, quando aumenta a tensão a as críticas ao governo de coligação PSD/CDS, quando a aldrabice política existe, quando o desemprego atinge valores extremamente preocupantes, quando a fome alastra, quando a emigração dispara, quando os reformados e pensionistas sofrem penalizações que colocam em causa a confiança dos contratos estabelecidos com o Estado, quando se assiste a uma doentia perseguição aos funcionários públicos, quando, ainda hoje, na União Europeia, os ministros das finanças (Ecofin) vão discutir uma proposta sobre a possibilidade de os depositantes com mais de 100 mil euros assumirem parte das perdas dos bancos, o presidente, pasme-se, convoca o Conselho de Estado não para debater o presente estado do País, mas o futuro de Portugal, tendo como ordem de trabalhos as "perspectivas da economia portuguesa no pós-troika, no quadro de uma União Económica e Monetária efectiva e aprofundada". Apetece segredar-lhe ao ouvido um palavrão que certamente os leitores adivinharão.

Já não é apenas o governo que está em causa, é o próprio Presidente da República que faz coro pela desgraça do Povo Português. O pesadelo parece não ter fim. Em Junho de 2011, após as eleições legislativas nacionais, escrevi: "(...) Talvez a maquinação gerada lhes rebente nas mãos, mais cedo que tarde. Porque há um aspecto face ao qual não me subsistem dúvidas, aliás, pelos exemplos de outros países: a direita privatiza tudo, inclusive, os sectores que devem estar sob o controlo do Estado. Privatiza a Educação, a Saúde, reduz o apoio social e empurra para as seguradoras e para outros sistemas os direitos que se enquadram, por exemplo, na aposentação. A direita ultraliberal é capaz de bater no peito e "comungar" aos domingos, mas odeia o "cheiro a pobre". Dirão alguns, que exagero! Não, não se trata de exagero, com o respeito que tenho por figuras do centro-direita, com quem tenho relações de amizade, em abstracto, a leitura que tenho do mundo, do que leio e do que ouço, da compaginação de vários analistas e de autores insuspeitos, a direita é o fulcro de uma continuada "barbárie anti-social", onde se assiste ao esmagamento dos que menos têm para que alguns continuem a alimentar uma riqueza, muitas vezes obscena (...)". E perante o quadro previsível, o Presidente reúne o Conselho de Estado para discutir um assunto que não está na ordem do dia das preocupações dos portugueses. Que tristeza de Presidente!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 22 de setembro de 2012

BEM PODERIA SAIR DE BELÉM QUE NÃO SENTIRÍAMOS A FALTA!


Só ele não vê, fiel ao seu posicionamento ideológico, que este povo está a rebentar pelas costuras, que a angústia cresce todos os dias, que existe uma claríssima ausência de esperança e que a situação tem de ser travada, no sentido do País pagar o que deve, mas à custa de cortes em sectores e áreas despesistas de um Estado monstro que nada acrescenta de riqueza. Nunca à custa de quem já pouco ou nada tem, de quem chora por não ter que dar aos filhos, não só para a alimentação, mas também para a sua formação, à custa de uma juventude cujo futuro está na incerteza da emigração, à custa do descarado roubo aos reformados e pensionistas, à custa de gente que a partir dos 35 anos é considerada "velha" para um emprego, à custa de tanta gente obrigada a trabalhar a três euros e tal à hora e quadros bem qualificados a quinhentos euros por mês. Estamos perante uma situação de desastre. A TSU foi apenas mais uma decisão no sentido do empobrecimento. E as outras? Todas as outras?


Estiveram oito horas no Conselho de Estado.
Poderiam estar dezasseis...
 pois com esta figura o resultado seria o mesmo.
"Só o Parlamento pode aprovar impostos, só o Parlamento pode aprovar o Orçamento", disse o Presidente da República. Não disse que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição e que é o garante do regular funcionamento das instituições. O que ontem assumiu é conversa de treta, pois qualquer cidadão, mesmo aquele menos escolarizado e familiarizado com a "coisa pública" sabe que é na Assembleia da República que o Orçamento de Estado e restantes leis são aprovadas. O que não significa que tudo não tenha de passar pelo seu crivo. Ora, com costumeiras intervenções daquela natureza, bem poderíamos tirar este senhor de Belém que não se notaria a sua falta. É tudo menos o Presidente de todos nós! O Presidente que funcione como último reduto de confiança. Num momento que precisamos de um político de mão cheia, temos um político com uma mão cheia de nada. Um Presidente intermitente, jogador de palavras, que se refugia, que se diz "prudente" e "cauteloso" para que dali nada saia. Um Presidente que sorri de si mesmo, incapaz de ajudar ou mesmo colocar isto nos eixos. Cruzo-me com pessoas, abordamos as questões de actualidade política e tudo vai bater ao mesmo: "ele que nos desampare a loja", dizia-me um amigo.
Ouvi as suas declarações antes do Conselho de Estado de ontem. Para mim é um desespero escutar a sua continuada lengalenga. Disse pensar que a "eventualidade" de uma crise política "está ultrapassada" (...) que "seria dramático para Portugal se juntássemos às dificuldades de financiamento externo uma crise política" (...) que "a estabilidade política é essencial para Portugal" e, finalmente, a treta do costume "por isso, compreendam que eu seja ponderado, cuidadoso na utilização das palavras". Ora, crise política "ultrapassada", duvido, quando este governo está ferido de morte; entre uma "crise política e dar cabo dos portugueses, sinceramente, prefiro a primeira com aquela responsabilidade que os portugueses, apesar de apertados, há meses que aceitam, tolerantemente; "ser ponderado e cuidadoso" não o inibe de tomar atitudes públicas. Portanto, concluo, com esta primeira figura do Estado, vamos continuar a "empobrecer", quando está aos olhos de todos que este continua a ser o caminho do desastre. Só ele não vê, fiel ao seu posicionamento ideológico, que este povo está a rebentar pelas costuras, que a angústia cresce todos os dias, que existe uma claríssima ausência de esperança e que a situação tem de ser travada, no sentido do País pagar o que deve, mas à custa de cortes em sectores e áreas despesistas de um Estado monstro que nada acrescenta de riqueza. Nunca à custa de quem já pouco ou nada tem, de quem chora por não ter que dar aos filhos, não só para a alimentação, mas também para a sua formação, à custa de uma juventude cujo futuro está na incerteza da emigração, à custa do descarado roubo aos reformados e pensionistas, à custa de gente que a partir dos 35 anos é considerada "velha" para um emprego, à custa de tanta gente obrigada a trabalhar a três euros e tal à hora e quadros bem qualificados a quinhentos euros por mês.
Estamos perante uma situação de desastre. A TSU foi apenas mais uma decisão no sentido do empobrecimento. E as outras? Todas as outras?
Sinto uma incontida revolta, tal como ouvi da boca do General Ramalho Eanes, "pelos meus filhos e pelos filhos dos outros". Só aquela primeira figura do Estado, fazendo o jogo de uma direita ideologicamente repelente, não vê nem toma uma atitude. Antes apara o jogo de um grupo politicamente mafioso, reles e insensível, cúmplice de uma rede internacional. Continuo a dizer que isto vai dar chatice. Se vai!
Ilustração: Google Imagens.