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domingo, 23 de janeiro de 2022

Gás natural e nuclear: uma postura ecuménica da UE


Por
João Abel de Freitas, 
18 Janeiro 2022

Quando a Humanidade dominar a fusão nuclear teremos energia que não emite CO2, nem detritos radioativos, nem acidentes graves. Uma energia limpa em toda a fileira. Neste momento, a situação é de confiança na ciência.



Os factos

1. A escassos minutos da meia-noite de 31 de Dezembro de 2021, a Comissão Europeia fez chegar aos Estados-membros, como noticiou grande parte da comunicação social de toda a Europa, um projecto de rotulagem verde, que acrescenta o gás natural e a nuclear ao conjunto das “actividades virtuosas” para o clima, por entender que estas duas fontes de energia reúnem elevado “potencial de contribuir para a descarbonização da economia”.

Esta posição “ecuménica” de agradar a gregos e troianos não agradou a vários Estados-membros. Luxemburgo e Dinamarca manifestaram descontentamento pela inclusão da nuclear. A Áustria ameaça recorrer à Justiça europeia pela mesma razão. A Alemanha condena também a junção da energia nuclear e assume o desacordo com a França, através de declaração de 7 de Janeiro da Secretária de Estado Alemã dos Assuntos Europeus, sublinhando que a Alemanha conhece bem “a posição francesa sobre o nuclear”, da mesma maneira que Paris “sabe muito bem qual é a posição alemã”.

Os verdes europeus, com excepção dos finlandeses pró-nucleares, também condenam a atitude da Comissão. No entanto, dizem compreender que a Comissão tenha tido pressões dos lobbies do gás e do nuclear para fazer transitar estas energias do passado “a verdes”, destacando que o lobby nuclear é dirigido pelo Governo francês. A referência explícita ao Governo como lóbi deve-se à aposta de Macron que, ainda em Novembro último, foi claro na defesa da nuclear como energia de futuro para o seu país, sobretudo agora entusiasmado com as tecnologias de 4ª geração e as centrais de mini reactores SMR.

2. A propósito refira-se que a China, segundo a Agência de notícias Bloomberg (8 de Janeiro), pôs a funcionar, pela primeira vez no Mundo, um SMR ligado à rede eléctrica do País, com a capacidade de fornecer energia a 200 mil habitações.

3. O lobby nuclear está, de facto, activo. Em Outubro último, a França fez circular, na comunicação social europeia, uma posição em defesa da energia nuclear. Posição também assinada por vários países, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Finlândia, Hungria, Polónia, República Checa e Roménia. Muitos destes países estão em vias de abandonar a produção de energia a partir do carvão e a analisar o caminho a seguir.

As razões de protesto

4. Este alargamento da lista das actividades sustentáveis, embora com algumas condições restritivas, facilita o acesso a condições mais favoráveis ao financiamento dos investimentos das centrais a gás natural durante o próximo decénio e das nucleares nos dois próximos decénios.

Thierry Bretton, comissário europeu do Mercado Interno, estima que a nuclear de nova geração necessita de um investimento de “500 mil milhões de euros até 2050” e considera estruturante, no quadro da transição energética, o alargamento do rótulo verde bem como a corrida ao capital entre as diversas fontes de energia.

A questão dos financiamentos em condições mais favoráveis de custo e em concorrência é, de facto, a pedra angular da guerra dos lobbies. Ora, os lobbies das renováveis entendem que este alargamento desvia financiamentos e fundos comunitários para projectos no domínio da nuclear, ainda mais quando os pequenos reactores (SMR) estão a ganhar projecção na Europa e no Mundo.

5. A Alemanha, por seu lado, reconhece que não é maioritária na Europa na condenação do nuclear. Assume a posição por uma questão de “independência política”, nada dizendo, porém, sobre o gás natural.

A coerência

6. As razões subjacentes à condenação da nuclear e do gás natural como energias “limpas”, nada têm de comum.

O gás natural é de origem fóssil e, como tal, poluente lançando na atmosfera dióxido de carbono (CO2) e não se vislumbra no horizonte qualquer tecnologia que venha a resolver este efeito nocivo.

A sua inclusão é um puro contra-senso em termos climáticos. Como as energias renováveis são intermitentes precisam de outras fontes de energia para colmatar as falhas de produção que são muitas. Em sua defesa, surgem os lóbis e governos, sobretudo o alemão, defensores do gás e das renováveis.

Este tipo de argumento não colhe para a energia nuclear pois segundo alguns especialistas é a mais limpa e de produção contínua.

A questão está na segurança, o problema dos detritos radioactivos e os acidentes nucleares e não a qualidade da energia produzida. Os avanços tecnológicos são significativos e, agora, com os SMR, o risco torna-se ainda mais reduzido. Ficou, contudo, o sentimento profundo nas pessoas associando as bombas sobre Hiroxima e Nagasáqui na Segunda Guerra mundial.

Por outro lado, os três maiores acidentes nucleares foram dramáticos e, em especial, Chernobyl. Mas não houve acidentes por exemplo em França, o país que consome em termos relativos mais energia de origem nuclear (>70%). E ainda segundo indicadores da OMS para um período alargado incluindo Chernobyl, o número de mortes da nuclear é inferior ao de qualquer outra fonte de produção de energia.

Contudo, ficou intuído um sentimento de dimensão distorcido como ocorre com os mortos em acidentes de automóvel e aviação.

7. Assim, a Comissão na sua atitude de equilibrar os interesses incluiu o gás natural indo em contraciclo ao que se pretende na transição climática: “descarbonizar as economias”. Pensamos que deveria ter havido tratamento diferenciado privilegiando a Investigação e a Ciência, fundamentais em termos de Futuro.

Perspectivas

8. A energia nuclear avança em duas direcções:
Na produção segundo tecnologias de nova geração e SMR, na base da “fissão” nuclear, ou melhor, “cisão” na opinião de um amigo conhecedor. Fissão – diz – é termo de importação brasileira.
E na Investigação da fusão nuclear.

A competição entre a China e EUA neste domínio apresenta-se positiva.

Recentemente, a China deu um grande passo pois um dos seis reactores (EAST) experimentais, afectos à fusão nuclear, manteve o plasma durante mais de 17 minutos a temperaturas elevadíssimas. Para os cientistas, este avanço face ao anterior de três minutos é entusiasmante e uma boa referência.

9. Porquê a aposta na fusão nuclear?

Quando a Humanidade dominar a fusão nuclear teremos energia que não emite dióxido de carbono (CO2), nem detritos radioactivos, nem acidentes graves. Uma energia limpa em toda a fileira.

Neste momento, a situação é de confiança na ciência. A progressão é sustentada. Uma cooperação descomplexada entre os cientistas dos diferentes países, que há apesar de tudo, aceleraria os trabalhos experimentais.

Com a fusão nuclear dominada, a solução do problema da produção de electricidade é uma certeza. E o problema da transição energética fica em grande parte resolvido, dispensando-se eventualmente a prazo as renováveis de hoje ou serão exploradas para fins muito específicos, com a nuclear a substituir a sua função na produção de hidrogénio verde.

Com a tecnologia da fusão dominada e operacional atingiremos o grande objectivo: produzir energia eléctrica ilimitada e limpa.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Serviço Nacional de Saúde: votar à esquerda ou à direita


Por estatuadesal
Isabel do Carmo, 
in Público, 
15/01/2022

Um estudo da Universidade Católica (UC) em associação com o jornal PÚBLICO e a RTP publicou como resultado, no dia 8 de Janeiro, que no topo das prioridades para o próximo Governo 43% dos inquiridos consideravam o Serviço Nacional de Saúde (SNS). A partir daí passou a haver nuances nas posições à direita nos debates televisivos que são interessantes de observar. Por isso, ainda, convém relembrar o que são as posições de uns e outros. Trata-se, de facto, de um debate ideológico e que trata de ideias. Embora o pragmatismo seja necessário, mal de nós se deixarmos de ter ideias estruturadas, num mundo em que a superficialidade corre online e em que falta pensamento crítico. Cada vez que há uma proposta “prática” e “não-ideológica” devemos perguntar porquê.



Se seriarmos as propostas dos partidos, podemos começar pela Iniciativa Liberal (IL). O que propõe para a Saúde e para a Educação é que o Estado se retire dessas áreas, que passe a haver mercado livre na oferta e escolha de serviços de Saúde. Baseia-se em seguros. A solução é cara, demonstrado nos países onde são obrigatórios – Holanda, Alemanha, Suíça. A livre escolha agrada a muitos utentes, sobretudo se o acesso ao público é difícil. Mas os seguros, sejam eles obrigatórios ou livres, têm tetos conhecidos por plafonds. Por vezes terrivelmente desumanos, quando o teto chega a meio do tratamento oncológico ou das doenças neurodegenerativas.

Para o Centro Democrático Social (CDS), como os impostos têm que baixar, as pessoas pagariam de acordo com os rendimentos e as “classes mais desprotegidas” teriam as despesas pagas pelo Estado. Esta forma conservadora da “solidariedade” já não tem nada a ver com as orientações cristãs actuais.

O Partido Social Democrata (PSD) defende o SNS, mas considera que devem ser feitas contratualizações com o sector privado para consultas e acesso ao médico assistente. Propõe nova Lei de Bases para a Saúde. Na anterior, de autoria e prática governamental deste partido, a concorrência ou complementaridade do SNS e dos privados levou a dramático enfraquecimento dos serviços públicos. As empresas privadas de saúde não sobrevivem apenas com a clientela rica, os seguros e a ADSE. Sobrevivem com o financiamento do Estado. Durante o Governo de 2011 a 2015, quanto a hospitais foram tirados cerca de 400 milhões de euros aos públicos e financiados os privados em cerca da mesma quantia. Chegámos a 2019 com menos 4000 camas hospitalares e mais 3000 privadas, sobretudo cirúrgicas.

No início da pandemia vimos a falta das públicas. Surgiu então grande pressão de certas correntes para a utilização e pagamento de camas privadas para os doentes não-covid. Só no pico de 2021 foram propostos Cuidados Intensivos dos privados para os doentes covid. No entanto, com racionalidade imediata, o SNS recorreu e bem aos laboratórios privados logo no início da pandemia, visto que os públicos não eram suficientes. Mas foram os públicos (Instituto Ricardo Jorge, IMM da Faculdade de Medicina de Lisboa) a fazer os estudos que acompanharam a epidemia.

Investir no SNS – a maior prioridade

No Partido Socialista (PS) observam-se claramente duas correntes, visto que os oponentes das realizações e decisões do Governo não lhes poupam ataques, mesmo em plena campanha eleitoral. No entanto foram os votos do PS com os do Bloco de Esquerda (BE), Partido Comunista Português (PCP) e Partido Ecologista Os Verdes (PEV) que aprovaram a nova Lei de Bases da Saúde em 2019, contra as propostas da direita. Derrubando o tal “muro” da aliança PSD/CDS que António Costa não quer reerguer.

Finalmente, o BE, o PCP e o Livre defendem a verdadeira linha social-democrata. Longe de serem os extremistas de que se fala, longe de andarem aí a exigir a nacionalização dos grandes meios de produção, mas apenas a participação maioritária do Estado ou a nacionalização de serviços, aliás, de empresas já perdidas (PT, EDP, CTT), propõem para o SNS a linha da lei Beveridge adotada no Reino Unido e nos países escandinavos. A saúde é um serviço público com orçamento a partir do Orçamento Geral do Estado, o qual depende dos impostos progressivos.

A razão pela qual cidadãos sem partido apelam à coligação PS/BE/PCP e à sua confluência política é com certeza, em grande parte, para protecção do SNS, sem dúvidas em primeiro lugar para 43% dos portugueses e pelo menos 53% dos votantes (percentagens dos partidos nos resultados da sondagem da UC). Para tal é necessário inflectir o fluxo financeiro actual e repor no público o investimento que é feito nos serviços privados. Ora o fluxo do orçamento do SNS para os privados mantém-se e é anualmente (última avaliação 2018) de 474 milhões de euros para pagar serviços clínicos, excluindo a hemodiálise. Os equipamentos e medicamentos não estão incluídos.


A proposta de complementaridade, que afinal é a prática actual em relação a determinados serviços, tem resultados perversos, independentemente da vontade dos seus autores. Tira-se ao público para dar ao privado e depois diz-se que o privado é melhor. E é melhor no acesso, na hotelaria, no atendimento. Tem excelentes médicos, formados no SNS, que optaram por ser reconhecidos e ganhar decentemente.

As consultas no privado propostas pelo PSD arrastarão meios complementares de diagnóstico. E este fluxo, por este caminho, continuará sem fim, até que o SNS fique reduzido ao tratamento de agudos graves, às doenças crónicas dispendiosas e à Saúde Pública.

Na tal boa gestão dos privados, estes poupam naquilo que é a cultura colectiva do público, decisões e escrutínio interpares. Mas há uma questão: é que as empresas privadas de serviços de saúde destinam-se, como qualquer estrutura capitalista (sim é ideia, é ideologia e é prática) a ter lucro. Donde é que ele vem? Fica a pergunta para desenvolver o pensamento crítico.

Investimento no SNS como prioridade - pagar aos seus profissionais com reconhecimento e retê-los no serviço público. Com reposição da cultura do conhecimento e da investigação clínica. Reposição da cultura da empatia e da Medicina Narrativa, que é terapêutica para o doente e que inclui ter tempo e disposição. Pressupõe dedicação plena optativa e não só para os directores clínicos (essa já é exigida actualmente). A decisão deve depender do ministro da Saúde por proposta da instituição, sem caber ao ministro das Finanças, como se até ele houvesse uma cadeia de irresponsáveis.

Pressupõe investimento nos Cuidados Primários a nível de equipamentos (Programa de Recuperação e Resiliência). O programa do PS promete a abertura de 100 novas Unidades de Saúde Familiar. Assim seja. Para isso são necessários recursos humanos em dedicação plena. Assim se evitariam os seis milhões de urgências hospitalares em ano normal e seria pedagógico para distinguir o que é urgente do que não é. Portanto, olhemos para as propostas, coloquemos perguntas e coloquemos hipóteses. Isto são ideias, sim é ideológico. É para formular ideias e conduzi-las à prática que o cérebro do ser humano se desenvolveu tanto. Ou passou a ter ideias e práticas porque se desenvolveu, é a dialéctica da evolução.

Médica; professora da Faculdade de Medicina de Lisboa; activista política

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O “killer” Ventura e a normalização da mentira


Por estatuadesal
Fernanda Câncio, 
in Diário de Notícias, 
04/01/2022

E a "questão da mentira", como deve ser valorizada? A pergunta é do pivot que dirigiu, na SIC-N, a roda de comentadores que se seguiu ao confronto entre Catarina Martins e o líder do Chega deste domingo à noite. Ninguém de entre os três - Ângela Silva, Ricardo Costa e Pedro Marques Lopes - respondeu à primeira, pelo que o pivot insistiu. Aí, o diretor da SIC afirmou: "A mentira existe sempre na política".



Depois de um debate em que Ventura falara de "polícias com reformas de 290 euros", de "Mercedes à porta de quem recebe o RSI" e restante habitual chorrilho de aldrabices odientas, e de termos visto a jornalista do Expresso Ângela Silva decretar que o deputado do Chega é "um killer" e "ganhou" a uma Catarina Martins "quase frágil", o encolher de ombros normalizador de Ricardo Costa garantiu-nos aquilo que só não sabíamos se muito distraídos nos últimos tempos: a maioria dos jornalistas e comentadores decidiu tratar Ventura como se fosse "um político igual aos outros", analisando as suas "performances" sem se deterem sequer a contradizer as falsidades que constituem toda a sua retórica. E até, como se constata pela opinião de Ângela Silva, elogiando a sua "técnica" - como um júri de boxe que dá mais pontos a quem leva uma marreta para o ringue.

Confesso que não sei bem interpretar esta posição, sobretudo quando assistimos simultaneamente à profusão de "fact-checking" nos media. Será que é por esse motivo, porque há "espaços para fazer a destrinça entre o verdadeiro e o falso", que os comentadores e jornalistas se acham desobrigados de sublinhar - ou sequer valorizar - mentiras quando as ouvem? Será que acham tão óbvio que Ventura mente que já nem vale a pena assinalar, porque toda a gente percebe? Será que, por ignorância ou desatenção, não reparam que mente? Ou será que, como indicia a resposta de Ricardo Costa, acham que não mente mais que "os outros políticos", ou que a política implica mentir e portanto quanto mais mentir mais "killer" é?

É tanto mais perplexizante esta atitude quando na mesma ocasião Pedro Marques Lopes sublinhou a importância de desmontar as mentiras de Ventura e lamentou que Catarina Martins o não tivesse feito - sendo óbvio que num modelo de debate de 25 minutos como é (incrivelmente) o escolhido pelas TV se favorece quem manda bocas e se impossibilita qualquer demonstração sistemática de falsidade.

Entendamo-nos: se debater com um demagogo que se especializa em dizer agora uma coisa e daqui a bocado o seu contrário (é ver as cambalhotas que o programa do partido tem dado nos últimos meses), em acusações torpes, em chistes, em interrupções e em invenções é sempre muito difícil, em 25 minutos é um tormento. A meu ver, Catarina Martins escolheu a postura mais eficaz: ignorar serenamente a maioria das mentiras e ataques, não entrar em diálogo e escolher um ou dois momentos e temas fulcrais para expor a demagogia e a mentira e sublinhar a sua diferença face ao oponente - fê-lo, e muito bem, com o racismo e com o Rendimento Social de Inserção. Ao contrário do que sustentou Ângela Silva, a postura da coordenadora do Bloco não foi "frágil"; foi tão forte e superior que, como bem assinalou Anabela Neves na CNN - corroborada por Sebastião Bugalho -, deixou Ventura nervoso, aflito até. O líder do Chega não está habituado a não conseguir irritar os adversários e precisa da lama para se sentir à vontade; assim ficou a rebolar sozinho.

Mas, admitindo naturalmente que haja diferentes opiniões sobre como melhor enfrentar Ventura num debate deste tipo (sobretudo quando se disputa eleitorado, o que não é o caso de Catarina Martins), a questão é que a tarefa de o combater e àquilo que representa não compete apenas aos adversários políticos - é antes de mais até, defendo, do jornalismo. É aos jornalistas que compete contextualizar, expor falsidades, repor a verdade - e perante alguém que se especializa em ódio e mentira e na destruição da democracia, chame-se Trump ou André Ventura, não dá para entrar na desculpa da falsa "objetividade", muito menos para namoros a "killers".

Nos EUA, há um ano - a 6 de janeiro - viu-se no que pode resultar a sistemática efabulação odienta, com uma multidão de hooligans trumpistas a invadir o parlamento. No mesmo exato dia, em Portugal, Ventura, no debate televisivo com Marcelo, mostrava a foto de sete pessoas negras com o Presidente e acusava-o de, naquela imagem, estar com a "bandidagem". Nem Marcelo nem a jornalista em estúdio - Clara de Sousa - reagiram ao ataque racista. O mesmo sucedeu nos comentários que se seguiram nas TV e nas notícias sobre o debate: não dei conta de alguém sublinhar a gravidade e a natureza do que ali se passara.

Não há duas interpretações possíveis para esse facto. A verdade é que ninguém, entre políticos, comentadores e jornalistas, achou assim tão grave que Ventura tivesse usado a imagem daquelas pessoas, por serem negras e pobres, como símbolo daquilo que diz combater e como arma contra o adversário. Ninguém se deu sequer ao trabalho de saber se alguma coisa do que ali afirmou (acusou aquelas pessoas de "terem vindo para Portugal para beneficiar do Estado Social", de terem "atacado uma esquadra da polícia" - tudo falsidades absolutas) correspondia à verdade: o que terá interessado é se "foi eficaz", se conseguiu o seu intento de embaraçar Marcelo, se foi ou não "killer".

Não tivesse existido um processo vitorioso em tribunal contra Ventura e o Chega e este episódio repugnante, que define o partido e o seu líder, mas também o jornalismo e o comentariado nacional, teria sido esquecido por quase todos.

Uma democracia em que isto sucede, em que a mentira, a calúnia e o ódio passam como normalidade, sem indignação nem refutação, e quem os usa como "vencedor", uma democracia que não grita ao racismo mais gritante e na qual não entrar no jogo do demagogo é ser "frágil", é uma democracia a precisar de cuidados intensivos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Estará a renascer no mundo um certo impulso pela energia nuclear?


Por
João Abel de Freitas, 
Economista 
04 Janeiro 2022

À Europa urge encontrar uma estratégia energética comum de futuro, na base da ponderação de critérios científicos e delineada um pouco longe da pressão lobista.



1. Será que a energia nuclear está a encaminhar-se para uma fase “Small is Beautiful”?!

Esta, uma designação capturada à indústria. Um período que não resistiu euforicamente muito tempo. Talvez na energia nuclear tal não suceda. O sector da energia, em termos de estrutura produtiva, grupos empresariais, organização da fileira, acesso a financiamentos, pouco compara com a indústria, onde tudo é mais variado e pouco homogéneo.

O mundo encontra-se numa encruzilhada energética e está longe de cumprir os objectivos da transição climática, muito por causa do panorama errático da energia.

A energia na origem e dinâmica de diversos processos de desenvolvimento económico, hoje, se não se atalhar a tempo, será causa possível de retrocessos sociais, económicos e ecológicos. “Falta-nos tempo” refere Gordon Dalzell, o ilustre militante ecologista anti-nuclear do Canadá, que se bateu por várias causas com ganhos, agora defensor da energia nuclear. “Certo, há riscos. Mas os riscos serão bem maiores se não se adoptar a nuclear”, afirma.

Salvar o mundo de uma catástrofe climática, sem reduzir drasticamente o consumo dos combustíveis fósseis, não é viável. O COP26 foi, nesse campo, um fracasso tremendo.

O que são os Small Modular Reactors (SMR)?

2. São reactores de pequeno formato, de uma potência entre 10 e 300 MW. Segundo os especialistas, são mais eficazes, tecnologicamente mais avançados, flexíveis e facilmente transportáveis. Por estas características, têm menor impacto nos espaços naturais e na biodiversidade. Permitem a fabricação em série com uma economia de custos significativa.

As centrais nucleares com SMR tornam-se moduláveis com uma flexibilidade que as grandes não permitem. Assim, podem ser accionadas para complementar outras fontes de energia.

Há quem defenda que têm uma segurança mais consistente e, segundo o “Forum Nucléaire”, transcendem a simples produção de electricidade, pois podem “ir mais longe” na descarbonização das sociedades e desempenhar um papel determinante no apoio à economia do hidrogénio. No entanto, não deixam de utilizar o urânio como combustível, à imagem das centrais nucleares tradicionais existentes.

A situação actual

3. Existem 70 projectos no mundo para a construção de SMR.
Alguns já construídos como o HTR-PM na China e uma central flutuante com dois reactores a operar, instalados na Rússia a bordo da barcaça Akademic-Lomonosov. Outros em construção no Canadá, China, EUA, França, Reino Unido e Rússia.

A lista de países com manifestações públicas de adesão a este tipo de energia é longa e cada dia é acrescentada: Argentina, Bulgária, Estónia, Finlândia, Polónia, República Checa, Roménia.

Por outro lado, alguns países que tinham interditado a construção de novas centrais nucleares estão a reconsiderar, caso da Holanda e Austrália. Até a Bélgica, que nem há 15 dias vincou de novo a desactivação das suas centrais nucleares tradicionais até 2025, está a investigar o rumo a tomar quanto a SMR.

Parece estar na forja um movimento de alguma euforia face a este novo reactor que, em teoria, oferece condições operacionais mais avançadas e muito ajustáveis, por exemplo, a regiões isoladas como as ilhas ou de difícil acessibilidade.

4. Por outro lado, as renováveis eólicas e solar continuam a não responder em pleno.

Uma das muitas causas do aumento recente dos preços da electricidade na Europa, não sendo a maior, mas sendo relevante, é a intermitência da sua produção. No campo das eólicas, por exemplo, o vento no mar do Norte tem sido muito problemático nestes últimos tempos. Outra área menos conhecida é a elevada taxa de inoperacionalidade de uma central eólica que não funciona com vento fraco nem com vento forte (acima de 90Kms/h). Neste último caso, as centrais têm dispositivos próprios de paralisação sob pena de graves danos nas instalações.

Os especialistas criaram um indicador, designado de factor de carga, para medir a produção real ao longo de um período determinado (ano normalmente). Este indicador é um rácio entre a energia que produz e a que teria produzido se o vento fosse constante.

Na Europa, a utilização da capacidade instalada anda, em média, à volta de 20%. Na fotovoltaica (sol) é ainda menor, 15%. Este indicador aplicado à electricidade nuclear varia entre 75 e 80% em período equivalente.

Compensação das intermitências

5. As centrais nucleares tradicionais não entram, pelas suas características, na compensação das intermitências.

As centrais à base de SMR, porque moduláveis, podem ser planeadas para se articularem com outras fontes de energia. Até à data, a compensação das intermitências é feita mediante recurso às fontes energéticas de origem fóssil, contrariando assim os objectivos da transição climática.

Também está demonstrado que o consumo de electricidade em aumento, de que o mundo precisa para se desenvolver, não será satisfeito só com renováveis e, se nos períodos de compensação das intermitências for necessário continuar a recorrer a energias de origem fóssil, isso equivalerá a caminhar em sentido inverso ao da correcção climática (mais CO2).

Por outro lado, cada energia renovável no seu conjunto, ou seja, ao longo da fileira, não é assim tão limpa ou tão verde como se diz. Nas eólicas, por exemplo, temos os graves problemas com a extracção das terras raras, usadas e determinantes na produção da energia eólica, para além dos materiais compósitos dos aerogeradores que não são recicláveis como as misturas de fibras de carbono, de resinas de poliéster, de fibras de vidro. Outros problemas se levantam com o solar e até com as hídricas.

Assim, nem toda a “pintura” é tão real. Depois, nada disto é isento de lóbis, de interesses económicos que se digladiam nos mercados, na comunicação, nas universidades e nos aparelhos de Estado. De qualquer modo, apresentam mais vantagens que as de origem fóssil na descarbonização.

A Europa num dilema

6. A Europa está num dilema e em pane. Em pane, por escassez de energia, o que pode custar um dos invernos mais rigorosos.

Mas já é tradição. A UE não chegou a acordo para minorar esta situação. E resolver o problema de fundo quão difícil vai ser o caminho a percorrer! No dilema, entram os lóbis, os das renováveis e os da nuclear, com a Alemanha e a França em disputa.

A energia nuclear, no entanto, fez grandes progressos em termos de segurança, a questão-chave, e procura a designação de energia limpa. À Europa urge encontrar uma estratégia energética comum de futuro, na base da ponderação de critérios científicos e delineada um pouco longe da pressão lobista.

O Canadá, uma sociedade já muito descarbonizada (60% de hidro-electricidade, um pouco menos de 20% de origem fóssil, 7% de renováveis, 15% de nuclear) apostou na energia de origem nuclear na base dos SMR, com muito apoio da população e dos investidores, para prosseguir as suas necessidades futuras. Os EUA, com uma estrutura produtiva bem diferente, também vão apostar na nuclear para certos fins e nas renováveis (solar).

Dois exemplos de inspiração? Que a União Europeia não arraste indefinidamente tão importante questão! Muita pedra vai ser preciso partir até pela influência de lóbis, com algumas ONG de peso pelo meio.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Carta aberta ao mundo da mãe de Julian Assange


Por 
Christine Ann Assange [*] , 
in Resistir, 
31/12/2021




Há cinquenta anos, quando dei a luz pela primeira vez como jovem mãe, pensei que não podia haver dor maior, mas logo a esqueci quando sustive meu belo bebé nos braços. Chamei-o Julian.

Agora percebo que estava equivocada. Há uma dor maior. A dor incessante de ser a mãe de um jornalista galardoado, que teve a coragem de publicar a verdade sobre crimes governamentais de alto nível e sobre a corrupção.

A dor de ver o meu filho, que tentou publicar verdades importantes, manchado a nível mundial.

A dor de ver o meu filho, que arriscou a sua vida denunciar a injustiça, inculpado e privado do direito a julgamento justo, reiteradamente.

A dor de ver um filho são deteriorar-se lentamente, porque foi-lhe negada a atenção médica e sanitária adequada em anos e anos de prisão.

A angústia de ver o meu filho submetido a cruéis torturas psicológicas, numa tentativa de romper o seu imenso espírito.

O constante pesadelo de que seja extraditado para os EUA e a seguir passe o resto dos seus dias enterrado vivo em isolamento total.

O medo constante de que a CIA possa cumprir seus planos para assassiná-lo.

A onda de tristeza quando na última audiência vi seu corpo frágil cair exausto por um mini derrame cerebral, devido ao stress crónico.

Muitas pessoas ficaram traumatizadas ao ver uma super-potência vingativa que usa seus recursos ilimitados para intimidar e destruir um indivíduo indefeso.

Quero agradecer a todos os cidadãos decentes e solidários que protestam globalmente contra a brutal perseguição política sofrida por Julian.

Por favor, continuem a levantar a voz aos seus políticos até que seja a única que ouvirão.

Sua vida está nas suas mãos.

#YoSoyAssange
#JusticiaPorJulian

30/Dezembro/2021
[*] Mãe de Julian Assange.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

O Universo, o mundo, a minha paróquia


Por estatuadesal
Miguel Sousa Tavares,
in Expresso,
30/12/2021

1 O James Webb partiu para o seu posto de observação no espaço exactamente no dia de Natal e essa foi practicamente a única notícia boa que o planeta Terra teve neste Natal. De resto, o bom Papa Francisco repetiu os seus apelos, que ninguém escuta, à concórdia em lugar dos conflitos e à solidariedade entre nações em lugar dos egoísmos; mais uns quantos imigrantes morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo da miséria para a esperança e a covid continuou a condicionar, envenenar e adiar as nossas vidas, enquanto alguns idiotas persistem em exigir que se faça como se nada se passasse. Talvez daqui a seis meses o James Webb nos possa começar a explicar, mais uma vez, como somos insignificantes habitantes de um planeta precioso, num universo demasiado vasto para a nossa capacidade de entendimento. Como somos um frágil milagre num imenso céu pejado de luzes por decifrar.



2 Em Janeiro, depois da sua conferência virtual com Vladimir Putin, Joe Biden iniciará conversações bilaterais Estados Unidos-Rússia, à revelia dos “Doctors Strangelove” da NATO — esses falcões histéricos que todos os dias colocam artigos supostamente sé­rios na imprensa ocidental, incluindo a nossa, sobre a iminente invasão russa da Ucrânia, mas que nunca se detêm a meditar naquilo que Putin disse na sua tradicional conferência de imprensa de Natal para os correspondentes estrangeiros: “Eles só falam de guerra, guerra, guerra. Mas não fomos nós que colocámos tropas nas fronteiras de Inglaterra ou dos Estados Unidos e que planeamos colocar lá mísseis nucleares; foram eles.” Há poucos anos, de visita a Moscovo, conheci alguém próximo de Vladimir Putin — não um empresário, mas um operacional. Ofereceu-me, a mim e à minha pequena comitiva, um fabuloso jantar no Pushkin, um dos mais sofisticados restaurantes da Europa. Quando lhe perguntei por que razão a Rússia pós-soviética não se assumia como potência europeia de pleno direito, respondeu-me, soberbo: “Porque nós não somos uma potência europeia; somos uma potência euro-asiática.” A tal Rússia dos 12 fusos horários, 60 etnias, 30 nações e 20 religiões de que falou Gorbachov uns anos antes, na Gulbenkian. Uma Rússia que só se pode entender verdadeiramente lendo a sua história, e não os artigos encomendados pelos generais e políticos avençados da NATO. Uma Rússia imperialista, sim, como o são, hoje ainda, os Estados Unidos, a China, a Turquia, Inglaterra ou França. Uma Rússia que esmaga, como sempre o fez, os seus opositores, até no estrangeiro, e que interfere quanto pode no processo democrático das sociedades ocidentais, mas que também não tem um Trump, nem um QAnon ou outras ameaças igualmente graves às democracias liberais. Uma Rússia que vive no terror milenar do cerco e na obsessão da independência. E que, por isso, devia ser compreendida e escutada, e não desprezada — ou porque não significa nada no grande conflito sino-americano ou porque nada mais é para a Europa do que um gasoduto, que, todavia, tem o poder de a condenar ao frio e à paralisia. No “Público” desta terça-feira, Teresa de Sousa — de longe a nossa melhor colunista em temas internacionais e de leitura obrigatória — alinhava pela tese ofi­cial da ameaça russa sobre a Ucrânia e a Europa. Segundo ela, o “problema é que Putin não aceita o status quo actual nem tenciona cumprir as regras” (quais regras — as ditadas pela NATO?). Na explicação de Teresa de Sousa há duas razões por detrás da atitude do Presidente russo: “Ser reconhecido como o chefe de uma grande potência mundial” e “redesenhar a arquitectura de segurança europeia, garantindo o congelamento das fronteiras da NATO”. Se tivermos em conta que estamos a falar de um gigante mundial em termos geográficos, e não só, e da segunda potência nuclear do mundo, não vejo como é que qualquer das razões pode ser descartada como “inaceitável” sequer para discussão.

3 Assisti, entre o divertido e o apiedado, ao vídeo de Natal protagonizado por Francisco Rodrigues dos Santos, o “Chicão”, tendo como tema a direita e as eleições. Algum cérebro de propaganda iluminado pela quadra pariu um cenário de mesa de Consoada em que na cabeceira estaria o CDS, como anfitrião, em frente o Chega, à direita do anfitrião o PSD e à esquerda o Iniciativa Liberal. Depois, entre árvore, musgo e presépio, um sorridente “Chicão”, disfarçando a angústia que lhe deve ir na alma, percorria a mesa, explicando: aqui, o Iniciativa Liberal não pode ser convidado, porque, embora tenha algumas ideias boas (iguais às nossas), não se preocupa com os pobrezinhos como nós; aqui, o Chega também não pode ser convidado, porque não tem maneiras à mesa; e aqui, o nosso velho amigo, o PSD, não pode vir porque este ano resolveu baldear-se com novos amigos so­cialistas. Conclusão do vídeo: o CDS passou o Natal sozinho. Olha, que descoberta! E se fosse só o Natal...

Há um telescópio gigante no espaço, uma mesa de patetas vazia na Consoada e uns patos a provocarem um urso.

André Ventura espera que o Chega tenha entre 8% e 12% dos votos e entre 15 a 25 deputados em 30 de Janeiro. A minha aposta é de que nunca passará dos 10% e a minha esperança é de que a campanha eleitoral sirva para mostrar que o Chega é um partido de um só discurso, de nenhuma solução e de um só homem. E que, uma vez saídas as tropas para o terreno, o país se dê conta do imenso vazio e da indigência intelectual e política daquela gente. Mas, se não for agora, será depois: o pior que pode acontecer a André Ventura, a prazo, é eleger e expor perante o país um grupo parlamentar de simples idiotas de extrema-direita.

O mesmo, acredito, acontecerá com Rui Tavares e o seu Livre: os eleitores terão ocasião para se dar conta de que, tirando um conhecimento adquirido em alguns dossiers europeus durante a sua passagem pelo PE, ele nada mais tem para dizer que valha a pena ouvir. E espero que o PAN se comece a esvaziar como um balão de vacuidades e demagogia e uma simples muleta de ocasião que é e está disposto a continuar a ser. Divertido, divertido mesmo, vai ser continuar a assistir às piruetas que o BE e o PCP fazem para se lamentarem das “inúteis eleições” que eles próprios provocaram e do perigo do bloco central que agora espreita. Mas todos podem espernear em vão: tudo o centro vai esmagar.

4 António Costa foi esclarecedor e directo em muitas coisas na sua entrevista à CNN Portugal: quer maioria absoluta; não renovará o acordo com as esquerdas, pelo menos agora; não aceita o acordo de mútua viabilidade de governação proposto por Rui Rio, pelo menos a dois anos; demitir-se-á de secretário-geral do PS se não ganhar as eleições, e jamais será candidato a Presidente da República (assim contrariando as previsões de algumas pitonisas ofi­ciais da nação). Porém, não esclareceu ainda com clareza: a) o que é não ganhar as eleições; b) o que fará se as vencer sem maioria absoluta, e c) o que recomendará que o PS faça se for o PSD a vencê-las sem maioria absoluta. E deixou uma previsão, a de que é provável que um dia Pedro Nuno Santos chegue a primeiro-ministro, “se for essa a vontade da generalidade dos socialistas”. Mas aqui sou eu que faço de pitonisa: tal jamais acontecerá. Até pode acontecer que a generalidade dos socialistas queira um dia fazer prova de garotice, mas daí até os eleitores fazerem também prova de instinto suicidário vai uma enorme distância: pelo menos um milhão de votos, os dos que pagam impostos a sério.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Paes Mamede: “Vivemos uma situação que pode dar origem a grandes convulsões políticas”


Entrevista a Paes Mamede
 in Público, 
26/12/2021


O ano três da pandemia poderá caracterizar-se por “uma certa desglobalização”, isto é, por um movimento de relocalização da capacidade produtiva para dentro da Europa, de que Portugal poderá sair beneficiado, diz o economista Ricardo Paes Mamede.



Se os problemas de interrupção da produção e do fornecimento continuarem, e a inflação galopar, corremos o risco de voltar às políticas de austeridade de há dez anos, alerta o também professor de Economia Política no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, para quem as desigualdades tornadas mais evidentes pela pandemia deveriam estar no centro das atenções, “porque as sociedades não aguentam níveis muito elevados de desigualdade durante muito tempo sem fortes problemas de instabilidade política”. Quanto aos milhões do PRR, deveriam ser aplicados fundamentalmente no ataque ao problema das baixas-qualificações.

Conseguiremos escapar a uma nova crise social e económica em 2022?

A evolução da pandemia vai ter um papel fundamental. É completamente diferente a economia estar a funcionar sem ou com restrições. As perspectivas relativamente optimistas sobre as questões da pandemia fazem-nos pensar que vai haver um maior retorno ao normal, como já houve um bocadinho em 2021 por contraste com 2020. Se assim for, haverá mais actividade económica e algumas das tensões em termos da evolução dos preços podem-se desanuviar.

Diria que o cenário global neste momento é relativamente positivo, mas há vários factores de risco e, se alguns deles se realizarem, as coisas podem não correr tão bem.

Admitindo que teremos um 2022 ainda intermitentemente marcado pela pandemia, como mede o risco de os governos retomarem as políticas de contenção que marcaram a resposta à crise de 2008?
Aquilo que vai determinar a acção dos governos e dos bancos centrais, que no fundo são quem decide as políticas económicas relevantes para lidar com as crises, dependerá muito do que for a evolução da inflação, que, por seu lado, também tem alguma relação com a pandemia.

Neste momento, os preços estão a subir bastante mais do que era costume, em parte porque a pandemia está a causar alguma alteração dos padrões de consumo (há produtos que eram pouco consumidos e que estão a ser muito consumidos, e outros com os quais se passa o contrário), e isso cria alguns problemas de fornecimento: sabemos que há postos que estão a funcionar a meio-gás e que há fábricas que fecham e não fornecem os produtos que deviam fornecer. E não há tantos movimentos migratórios, o que também afecta algum tipo de produção que vive muito de mão-de-obra migrante.

Não estou totalmente convencido de que 2022 vá ser um ano em que tenhamos um reforço substancial do poder de compra de quem vive do seu trabalho. E o motivo fundamental é a inflação.

Se estes problemas associados à pandemia continuarem, e a inflação continuar elevada, o que também depende da evolução do preço do petróleo, os bancos centrais vão estar numa situação muito difícil, porque não será possível manter a inflação muito acima dos níveis habituais sem aumentar as taxas de juro, que é uma medida habitual para contrariar a subida dos preços.

Mas se aumentarem as taxas de juro, teremos um grande problema, até para o comum dos mortais: quem deve dinheiro ao banco sabe que, quando as taxas aumentam, tem de pagar mais. E os juros a pagar pela dívida pública custarão mais ao país e implicarão mais impostos.

Os sinais que temos dos bancos centrais é que vão manter os juros baixos, mas se a inflação começar a galopar, isso não será possível. E também há riscos de política económica associados a factores não monetários. A União Europeia (UE), durante estes dois anos de pandemia, decidiu suspender as regras orçamentais, isto é, aquela pressão feita sobre os governos para manterem os défices baixos e reduzirem a dívida pública. O que está previsto é que em 2023 essas regras voltem. Ora, para alguns países, isso representará um grande esforço ao nível da política orçamental, e poderá significar o regresso a algo muito parecido com as políticas de austeridade que tivemos há dez anos.

Esta tensão ainda não está resolvida. Ainda não há sinais claros de que, caso a crise pandémica continue, a suspensão das regras europeias vá ser prolongada no tempo. E, portanto, há aqui algum risco, mas para já ainda é só isso.

Nesse sentido, 2022 será um ano de transição e de clarificação das incertezas?

Pode ser que seja o ano em que tudo isto se resolve, mas também pode ser que, por causa do prolongamento dos problemas, quer na saúde pública, quer na economia, surjam tensões sociais e políticas, porque há um limite para o que as populações são capazes de suportar e para os custos que isto está a ter. Para mim não seria uma surpresa se 2022 fosse um ano de grande instabilidade política associada a estas tensões que foram sendo acumuladas nos últimos dois anos. E isto pode afectar o desempenho económico. Portanto, 2022 é, nesta fase, um ano muito imprevisível do ponto de vista da evolução da economia.

O mundo será menos global em 2022, nomeadamente por causa das perturbações nas cadeias de distribuição?

A crise pandémica constituiu um marco importante no processo de globalização. Foi um momento em que se percebeu que o excesso de interdependência pode constituir um risco grande, não apenas para a saúde pública, porque os vírus se espalham mais rapidamente, mas também para o funcionamento das economias, porque quando as economias estão muito dependentes umas das outras e do que se passa do outro lado do mundo, uma crise de saúde pública ou outra qualquer que ponha em causa os transportes, a circulação de mercadorias, pode causar grandes disrupções.

E, portanto, é relativamente expectável que uma das consequências desta crise seja uma tendência para uma certa desglobalização, pelo menos em alguns domínios estratégicos. Parece-me que esta tendência para algum recuo na interdependência vai existir, mas francamente não sabemos, porque pode haver algum desbloqueio dos estrangulamentos que têm existido.

Como é que Portugal sairá desse eventual recuo para lógicas mais locais?

A vontade de realocar capacidade produtiva para dentro da Europa, evitando uma dependência excessiva dos mercados asiáticos, por exemplo, fará com que os países que têm melhores condições para acolher esse tipo de investimentos possam beneficiar. E Portugal tem vantagens relativas, no quadro da União Europeia, para receber alguns deles.

Estamos a falar da mão-de-obra barata, uma vez mais?

Não. Na Europa existem países com níveis salariais muito inferiores aos portugueses e seria absurdo achar que a solução é descermos os salários para metade, na esperança de ficarmos mais competitivos.

Portugal poderá conseguir atrair investimentos por ter condições favoráveis a um certo tipo de produção, que não exige mão-de-obra muito barata, mas requer custos competitivos e, fundamentalmente, pessoas qualificadas e boas infra-estruturas. E existem, no país, boas infra-estruturas de transportes, de comunicações, de energia. E ainda competências específicas na indústria transformadora, nas tecnologias da informação e em diferentes áreas da engenharia.

Antevê mudanças expressivas em 2022 no mundo do trabalho? Vamos ter um novo aumento do salário mínimo nacional (SMN), mas continuamos a ser dos países da Europa com uma maior proporção de trabalhadores pobres.
A evolução que tem havido nos últimos anos no SMN é muitíssimo expressiva. E 2022, já sabemos, vai ser um ano em que haverá um novo aumento para os 705 euros. Isto é muito importante, porque significa que a probabilidade de termos pessoas que, apesar de trabalharem, são pobres (o que não é aceitável), se vai felizmente reduzindo.

A existência de desigualdades muito grandes (às vezes não apenas materiais, mas também simbólicas) e a falta de coesão social contêm os elementos fundamentais para a explosão de revoltas.

Mas não estou totalmente convencido de que 2022 vá ser um ano em que tenhamos um reforço substancial do poder de compra de quem vive do seu trabalho. E o motivo fundamental é a inflação. Podemos ter aumentos nos salários mais baixos, mas se forem insuficientes para compensar o aumento generalizado dos preços, serão na realidade fictícios, porque o que resta ao fim do mês vai ser igual ou menor.

Em 2022 o teletrabalho estará desestigmatizado?

Creio que o teletrabalho vai ser o grande legado desta pandemia, para o bem e para o mal. Não é que não existisse antes, mas foi massificado e deixou de ser um bicho estranho às organizações.

Tenderia a apostar que 2022 será um ano em que mais organizações, públicas ou privadas, assumirão o teletrabalho, não já como uma resposta necessária e obrigatória face à pandemia, mas como algo que pode ser incorporado nas práticas organizacionais, em benefício quer das pessoas quer da dinâmica das organizações.

O mundo posterior à covid-19 será mais ou menos igualitário?

A pandemia tornou mais claras as desigualdades, e algumas eram bastante invisíveis, como o nível de desprotecção dos trabalhadores informais, mas os problemas já vinham de trás e, se a pandemia se prolongar, vão acentuar-se.

No acesso à saúde, que já era um problema, os estrangulamentos no SNS tornaram ainda mais difícil o acesso à saúde a pessoas sem meios para recorrer a alternativas privadas.

Em alguns domínios houve um agravamento, mas, na verdade, os factores que determinam a desigualdade não são sanitários, são políticos, são decorrentes de decisões quanto à forma de organização da nossa sociedade, de distribuição de recursos, de regras laborais, da forma como funcionam os serviços colectivos.

Espero que os decisores políticos tenham consciência de que, a cada dia que passa em que haja pessoas que, pelas desigualdades a que estão sujeitas, têm menos acesso a serviços essenciais, maior é o risco de perturbação do funcionamento das sociedades democráticas.

Portanto, mesmo que as desigualdades sejam agora mais visíveis, não significa que sejam estruturalmente mais graves: elas já eram graves, e felizmente que agora são mais óbvias. Isto será um problema se não houver respostas eficazes, porque as sociedades não aguentam níveis elevados de desigualdade durante muito tempo sem fortes problemas de instabilidade política.

Não sei se 2022 vai ser um ano com respostas mais eficazes. Espero que os decisores políticos tenham consciência de que, a cada dia que passa em que haja pessoas que, pelas desigualdades a que estão sujeitas, têm menos acesso a serviços essenciais, maior é o risco de perturbação do funcionamento das sociedades democráticas.

O seu colega francês Thomas Piketty considerava há dias, numa entrevista ao El Pais, que vivemos hoje uma situação similar à que levou à Revolução Francesa, em 1789, aludindo aos privilégios dos detentores de grandes fortunas e ao facto de, sobretudo desde a crise de 2008, se ter acelerado a tomada de consciência dos excessos da desregulação financeira. Concorda com este diagnóstico/aviso?

Eu acho que a comparação não é totalmente devida, na medida em que já não vivemos em sociedades em que temos pessoas completamente desprovidas e a morrer à fome. Pelo menos na Europa, as pessoas têm acesso a um conjunto de bens e serviços muito mais dignificantes do que há 250 anos.

Dito isto, a existência de desigualdades muito grandes (às vezes não apenas materiais, mas também simbólicas) e a falta de coesão social contêm os elementos fundamentais para a explosão de revoltas, para o surgimento de extremismos, de populismos. E vivemos, portanto, numa situação que pode dar origem a grandes convulsões políticas. E quando elas começam é muito difícil voltar atrás. Não tenho a certeza de que os responsáveis políticos mundiais tenham percebido isto devidamente, e se perceberam, a verdade é que não estamos a ver medidas suficientes para regressar a uma sociedade mais coesa e igualitária. Gostaria muito de pensar que 2022 vai ser um ano em que a urgência da promoção da igualdade volta a estar no centro das preocupações políticas.

Não está muito convencido disso?

Não estou, não.
Mas a pandemia não pôs a nu precisamente a impossibilidade de manutenção destas desigualdades?
Isto é um pouco um paradoxo, porque é cada vez mais claro que vivemos num mundo em que dependemos todos uns dos outros. Já era claro com as guerras ou o terrorismo, e depois com as alterações climáticas, e agora também com as questões de saúde pública.

Sabemos que não vamos conseguir controlar esta pandemia enquanto a generalidade da população no mundo não tiver acesso a vacinas. Há sinais, às vezes, que parecem indicar que, de repente, os líderes mundiais se aperceberam disto e estão a tomar decisões mais colectivas. Mas do ponto de vista da distribuição de recursos a nível internacional, não vemos isso acontecer.

O que acontece pontualmente é a concessão de alguns apoios acrescidos para ajudar a custear as vacinas, ou subsídios para financiar a transição para modos de produção menos poluentes, mas o problema fundamental da distribuição da riqueza mundial está muito associado ao facto de termos sectores que acumulam cada vez mais poder e riqueza e são capazes de impor regras que lhes são favoráveis.

Há uma ausência de mecanismos de redistribuição e de criação de oportunidades de desenvolvimento sustentado à escala mundial, e nenhum sinal de que isto esteja a ser invertido. E, portanto, temos aqui medidas que se arriscam a ser essencialmente paliativas, por muito impacto simbólico que pareçam ter.

Os problemas que a economia e a sociedade portuguesa têm não se resolvem numa década, lamento informar. São problemas que têm um século.

Os 16,6 mil milhões do PRR vão mudar o país?

Os políticos mais entusiasmados dizem que o dinheiro do PRR vai alterar estruturalmente o país, os mais cépticos dizem que isto vai ser outra oportunidade perdida. Eu tendo a não ver as coisas nem de uma forma nem de outra.

Os problemas que a economia e a sociedade portuguesa têm não se resolvem numa década, lamento informar. São problemas que têm um século: temos um século de atraso na educação e na industrialização; há problemas em termos de qualificações e de capacidade produtiva que demoram décadas a transformar. Mas temos vindo a fazer uma trajectória positiva nos níveis de qualificações e nos tipos de actividade económica que se desenvolvem no país. O que a “bazuca” europeia pode fazer, se o dinheiro for bem aplicado, é contribuir para que este processo continue.

Agora, não esperemos que daqui a oito ou nove anos o país esteja radicalmente diferente. Não estará. Espero é que tenhamos a capacidade de ir, a cada momento, perguntando como está a ser utilizado esse dinheiro, porque, apesar de tudo, ele pode ajudar a encaminhar o nosso futuro colectivo numa direcção mais favorável.

Resolver o problema das baixas qualificações exige que, para lá escola, haja vários mecanismos a funcionar na sociedade portuguesa que permitam que as pessoas não tenham que trabalhar tantas horas e consigam ter mais rendimentos, outro tipo de aspirações, outra auto-estima.

Quais deveriam ser as áreas prioritárias de investimento?

Há na sociedade portuguesa um problema central, que é o das baixas qualificações. E não se resolve facilmente. Não basta decidir que agora toda a gente é obrigada a ir à escola, porque o desempenho escolar das crianças e dos jovens é muito determinado pelo contexto que têm em casa. Ora, se partimos de uma sociedade que é altamente desigual, em que temos famílias completamente desestruturadas, com salários muito baixos, em que os pais não podem dar apoio porque eles próprios não tiveram formação escolar, não podemos esperar que estas crianças e jovens tenham o mesmo desempenho e a mesma capacidade de adquirir competências quanto crianças e jovens de famílias que já são à partida altamente qualificadas.

Portanto, resolver o problema das baixas qualificações exige que, para lá escola, haja vários mecanismos a funcionar na sociedade portuguesa que permitam que as pessoas não tenham que trabalhar tantas horas e consigam ter mais rendimentos, outro tipo de aspirações, outra auto-estima. São problemas complexos e que só conseguimos resolver construindo uma sociedade que seja mais dignificante para as pessoas.

Essa seria a minha preocupação fundamental. Não tenho a certeza, para ser franco, que, não apenas o PRR mas o conjunto de instrumentos de política pública já hoje planeados, dêem a devida prioridade a este assunto e consigam abranger todas as dimensões necessárias para ultrapassarmos estes obstáculos e termos uma sociedade mais igualitária, mais escolarizada e mais produtiva.

Em 2022, quais serão as palavras-chave no sector económico?

As três primeiras palavras são: incerteza, incerteza, incerteza.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

O LUÍS CALISTO FOI UM AMIGO


Sento-me para ler as últimas notícias e zás... dou com a morte do meu querido Amigo Luís Calisto. Uma amizade que vem dos anos 60 quando integrámos as equipas de juvenis e de juniores do Marítimo. Desde então ficou sempre uma relação de consideração e estima. Não uma amizade selada em convívios (apenas jantou uma vez na minha casa) ou através de tertúlias, mas porque a palavra Amizade tinha para ele e para mim um significado mais vasto, de pessoa em quem se pode confiar e onde existe uma relação de afecto e respeito mútuos. Frequentemente, entrávamos em contacto, mais que não fosse para apenas perguntar: como estás?



Tem poucas semanas, estava eu no Porto e apeteceu-me falar-lhe. Segui a sua doença e isso bastava para saber do Amigo. Intencionalmente, deixava essa questão para o final do nosso paleio. Passávamos em revista a actualidade política, ele sempre com um humor corrosivo, mas profundo na sua análise. E, no momento certo, questionava-o de forma subtil: "Luís, e o resto, está tudo controlado?" Respondeu-me que sim. Que estava em permanente vigilância, mas que se sentia bem. Era o que eu gostava de ouvir, porém, da minha parte, sempre com algumas dúvidas. A voz não me agradava, confesso.

Mas, perante as suas palavras, nós que somos do mesmo "escalão", disse-lhe que ainda iríamos ver o fogo pelo menos 25 vezes. Respondeu-me: "André, se alguém tiver a paciência de nos levar à varanda!" Rimos, passando ao lado das questões de saúde.

Pois, Luís, estamos sempre na fila e agora a tristeza invade-me. Foste um Amigo. Tinhas entre mãos vários e muito interessantes projectos para publicação e, ainda assim, não esqueço, arranjaste tempo para ler um livro da minha autoria que em breve chegará ao mercado. Pacientemente o leste, aconselhaste-me sobre vários pontos, corrigi-os e, portanto, Amigo Luís, ele tem a tua mão. Obrigado Luís.

O Luís foi um Jornalista brilhante. Os seus textos em livro são de uma leitura doce, onde pontifica a narrativa cuidada. Deixa um legado por onde passou e isso será sempre lembrado. Curvo-me perante a morte de um Amigo.

A toda a sua família apresento as sentidas condolências.

Nota
Em Maio de 2020, no início da sua doença, escrevi um texto subordinado ao título: "Luís Calisto, por favor, não chutes para fora"

domingo, 19 de dezembro de 2021

É NATAL... sonhar com o impossível!


Então, D. Isabel, como vai? Olhe, como Deus quer que eu ande! Ela uma mulher que não perde uma Missa, agora pela televisão. São os joelhos que me atormentam e, pelas dores, já nem vou à fazenda. Pois, a idade, não é D. Isabel? Todos caminhamos para lá. E o seu Natal? O habitual. Disse-lhe, certamente com "Semilhas do Caculo"* na noite de Natal para as duas, depois da Missa, claro. Referia-me à irmã, mais velha, com vários problemas de saúde, o pior, o da visão. É isto e que Deus permita que para o ano aqui esteja - disse-me ainda ontem! 



Tenho pela D. Isabel, a minha vizinha na Atouguia, Calheta, uma enorme amizade. Gosto dela, da sua maneira de ser, da sua simplicidade e humildade, pela vida que teve emigrada em Aruba, a simpatia que irradia e o seu esforço para que a terra continue a dar o que a sobrevivência exige. Há tempos mostrou-me uma batata de tamanho anormal. Aprecio e gosto de gente assim. As suas queixas não vão além do desconforto das "juntas", como lhe digo para riso dela. Olho-a, como se estivesse a mergulhar nos seus pensamentos e antevejo-lhe a solidão, apenas atenuada pelo carinho do filho emigrado e dos familiares mais próximos que a visitam e mantêm laços de verdadeira família solidária. Mas a solidão está lá pela incapacidade de fazer o que outrora era possível. A televisão é o refúgio.

E dou comigo a reflectir nas muitas solidões, sobretudo entre os seniores da nossa sociedade. Porque também as há entre jovens. E que são muitas e preocupantes. Por estes dias, quando assisto e sinto tanta azáfama, apesar dos constrangimentos impostos pela pandemia, não deixo de ter um olhar de desassossego, de inquietação perturbadora do pensamento, relativamente aos mais vulneráveis, onde se incluem os sem-abrigo, os que se encontram nas margens e no labirinto das dificuldades, dos cêntimos contados, da saída que não encontram e da saúde precária que não permite a plena vivência deste período festivo. Fica-lhes, talvez, a Mensagem desse Homem, Jesus, onde cada página da Palavra apela ao amor, à partilha, à solidariedade entre os povos e à irmandade entre as nações. Convenhamos que é pouco. Se outro fosse o Mundo, se o exercício da política apontasse no sentido do esbatimento das graves assimetrias, se não houvesse mais direitos do que justiça social, se a incessante e desmesurada busca pelo lucro não conduzisse ao espezinhamento dos demais, se outra fosse a mentalidade humana construída por muitos, alguns que até capela em casa têm, talvez outro fosse o Homem que, circunstancialmente, habita o planeta. 

Mas isto é sonhar com o impossível, por melhores que sejam as mensagens "Urbi et Orbi" lançadas da cadeira de Pedro. As gritantes desigualdades estão para durar, os ódios e a violência contra a mulher andarão por aí, a guerra e o sangue continuará a manchar a nossa existência, a terrível história de morte dos migrantes persistirá, os crimes ambientais, idem, eu sei lá o rosário de dramas e de assimetrias consequentes da louca corrida por hegemonias e vitórias sem sentido. Sempre foi assim, dirão alguns! É verdade, mas vergonha deveriam ter na cara todos quantos a este beco sem saída conduziram e conduzem milhares de milhões de seres humanos. Desde que estejam bem, os outros que se desenrasquem!


O Natal traz-me tudo isto em memória activa. Vivo-o na tradição, nos princípios e valores herdados, mas fica-me o amargo, confesso, de olhar para o Mundo a partir de casa e questionar-me: se sou feliz, por que razão milhões não são. Uma análise que leva a tantos e complexos campos de observação e debate. 

Fico por aqui, apenas desejando a todos quantos por aqui passarem, aos meus Amigos e a todos os que não concordando comigo ajudam-me a reflectir, os mais sinceros votos que este Nascimento, independentemente da certeza da data, seja pontificado por uma Mensagem de Amor.  

                                                                    ****

* SEMILHAS DO CACULO - Receita recolhida na Calheta/Madeira. 

  • Um tacho com 1,5 l. de água
    • sal, massa de tomate, vinho, louro, alho, caril e outros a gosto.
    • Camada de cebola às rodelas e pimento cortado em tiras.
    • Carne vaca em bife com cerca de um centímetro
    • Nova camada: semilha vermelha pequena inteira.
    • Camada de cebola às rodelas com pimento.
    • Camada de carne de porco em bife.
    • Semilha vermelha pequena inteira.
    • Nova camada de cebola às rodelas com pimento.
    • Camada de frango partido em oito.
    • Termina com uma nova camada de cebola às rodelas com pimento.
Já experimentei e gostei.

Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O juiz certo


Por
José Sócrates, 
in Diário de Notícias, 
15/12/2021


No episódio da prisão de Manuel Pinho não sei o que é mais difícil de suportar. Se a violência ilegítima do Estado, se o cinismo de quem assiste a tudo isto limitando-se a dizer que "é difícil compreender". Na verdade, não é nada difícil perceber porque as razões estão bem à frente dos nossos olhos. Os senhores procuradores decidiram aproveitar a janela de oportunidade para agir. Entre a decisão do juiz Ivo Rosa ficar em exclusividade com o processo BES e a próxima entrada em vigor da lei que alarga para sete o número de juízes do tribunal de instrução, este era o momento. Agora têm a certeza de ter o juiz certo. 



Dez anos depois, em vez de apresentarem a acusação e as provas para que os cidadãos se possam defender, resolvem prender. Prender para humilhar, para ferir, para poderem exibir a prisão como prova. Nada disto é novo. Tudo isto começou com o governo de Passos Coelho que decidiu criminalizar as políticas do governo anterior, declarando, pela boca da então ministra da justiça, que tinha acabado a impunidade. Depois foi o festival de processos - os gastos de gabinetes, as parcerias público-privadas, a EDP e finalmente o processo marquês, onde constavam as políticas do TGV, da Parque Escolar, da diplomacia económica com a Venezuela, de Vale do Lobo, da Opa da Sonae e do veto à venda da Vivo. Pelo caminho construíram a narrativa da fortuna escondida e da proximidade a Ricardo Salgado. Todas estas acusações foram consideradas fantasiosas, especulativas e destituídas de coerência, para usar as próprias palavras do tribunal. Mas que importa? O que realmente importa é o serviço de difamação que está feito. Durou sete anos.

A operação exigia um Presidente, uma maioria, um governo e uma procuradora geral. Mas precisava também de um juiz. Assim sendo, a distribuição do processo marquês foi viciada e o juiz escolhido de forma fraudulenta. Estes são factos confirmados por decisão instrutória que, nesta parte, já transitou em julgado. Quanto às consequências estamos para ver. No entanto é hoje possível afirmar que naquele tribunal, entre setembro de 2014 e abril de 2016, as normas legais que regulam a distribuição de processos não foram cumpridas. Um ano e meio. Durante um ano e meio aquele tribunal funcionou como tribunal de excepção. E nenhum dos dois juízes que ali prestavam serviço fez nada para corrigir a situação. Os processos simplesmente caíam-lhes nas mãos e era quanto bastava. E, no entanto, os dois juízes conheciam a lei - sabiam que a lei impõe a presidência de um juiz na distribuição e sabiam que a lei manda que esta seja "realizada por meios eletrónicos, os quais devem garantir aleatoriedade no resultado". Os dois juízes sabiam que o sistema de distribuição estava viciado e que garantia constitucional do juiz natural estava a ser negada a dezenas e dezenas de cidadãos. Sabiam e nada fizeram.

E, já agora, talvez devamos ir um pouco mais longe na descrição do escândalo: no mais importante tribunal de combate à corrupção, as regras legais e as garantias constitucionais foram pervertidas em favor de interesses espúrios. O combate à corrupção começou por corromper a lei. Naquele tribunal escolhia -se o juiz de forma ad-hoc. Naquele tribunal, escolhia-se o juiz que mais interessava à chamada "dimensão mediática" do processo.

Tal como nas ditaduras, o juiz era escolhido de acordo com os visados no inquérito. Esta é a dimensão da vergonha do que se passou naquele tribunal. Agora, mais de sete anos depois, voltamos ao mesmo. Agora já nem é preciso fraudar a distribuição porque só está um juiz em serviço no tribunal. Difícil de compreender? Não. Os procuradores simplesmente escolheram o momento em que podiam também escolher o juiz. O juiz adequado ao caso. O juiz que garante aos procuradores o uso de medidas de excecional violência que nada tem a ver com o estado de direito. Difícil de compreender? Não. Agora têm o juiz certo.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Para quê?

 

Para quê tanta opulência? Para quê tanta ganância, tanta luta pela riqueza, muitas vezes mal explicada? Para quê, é a pergunta(s). Um grande Amigo meu, infelizmente já falecido, o Franklim, nas nossas longas noites de conversa em redor de um frugal petisco acompanhado de um copo, dizia-me, de forma tão simples quanto eloquente, "para quê, quando temos um só estômago"? Queria ele atingir não apenas o âmbito das necessidades do corpo como a noção de finitude da vida. 



Ele tal como eu não olhávamos de forma enviesada para quem muito tem, por herança, por investimento certo no momento exacto, por criatividade e sentido de risco. Nada disso. Desde que criem postos de trabalho, sejam cumpridores da lei e paguem os impostos devidos, nada a opor, era essa a nossa convicção. 

O problema, na altura conversávamos, situava-se no exagero, na ambição descontrolada, nos passos superiores à perna, nas situações que mereciam uma cabal explicação, na infame exploração dos que trabalham para regozijo pessoal, na opulência desmedida e nos sinais exteriores de uma riqueza de duvidosa fundamentação. Se, hoje, estivesse à conversa com o Franklim certamente que ele me diria: "há muitos rendeiros em Portugal" ou melhor, muitos a "fabricar rendas". Então, pergunto, para quê viver numa permanente ilusão, no vício da nota fácil, no olhar para o cofre recheado, bastas vezes sem um mínimo pudor relativamente à forma como ele encheu. Quanto mais têm, mais desejam. Para quê?

São tantos os exemplos que choca todos aqueles que fazem da vida a viagem da honestidade. O que se encontra em Durban, viveu na ostentação, na exaltação dos bens à custa de outros, luxo que não durou para sempre. Antes, transportado pelo motorista, confortavelmente no banco traseiro, agora, numa viatura celular que mais me pareceu de transporte de gado; antes, protegido pela vigilância particular, agora, deambula por um espaço com polícias armados até aos dentes; antes, no hotel de todas as estrelas em comodidade e atenções, agora, no espaço nauseabundo compartilhado e ameaçado por dezenas de bandidos; antes, à mesa sumptuosa dos restaurantes, servido com todas as atenções, agora, na angustiante cantina prisional que tantos documentários mostram a frieza dos comportamentos.   

Para quê a riqueza insustentável, volto a questionar. Para quê? De facto, Amigo e sempre presente Franklim, "só temos um estômago".

Ilustração: Google Imagens.   

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Eu, estátua, indefesa e silenciosa


Por 
Miguel Sousa Tavares, 
in Expresso, 
11/12/2021

“Eu, Diogo Cão, navegador,
deixei este padrão ao pé
do areal moreno
E para diante naveguei”

Fernando Pessoa, in “Mensagem”


Mário Lúcio de Sousa, natural do Tarrafal, Cabo Verde (onde, da última vez que lá estive, nenhuma estátua, nenhuma placa, nenhuma simples escultura, evocava o campo de morte onde tantos resistentes portugueses pagaram pela sua luta contra o fascismo e o colonialismo), escreveu no “Público” de domingo passado um artigo a defender o derrube, o “afundamento” ou a “vandalização” das estátuas coloniais portuguesas em Portugal. Embora identificado pelo jornal como “escritor e músico”, confesso que a minha ignorância sobre ele era total. Erro meu: a sua biografia ilustra-o como poeta, escritor (com dois prémios literários portugueses conquistados), músico, cantor, “cantautor”, “pensador”, pintor, global artist e ex-ministro da Cultura de Cabo Verde. Um personagem e tanto! Das suas qualidades musicais, a net pouco mais me revelou que brevíssimos excertos dos vários concertos ao vivo em que parece ter ocupado o seu último Verão em Portugal, mas nada que o aproxime sequer dos vários nomes que fizeram da música cabo-verdiana uma referência mundial. Das suas qualidades literárias, apenas consegui chegar a dois poemas sofríveis, para não dizer medíocres, e o próprio texto publicado no jornal, onde, em minha modesta opinião, faz um fraco uso desta extraordinária língua que lhe deixámos em herança... para além das estátuas. Mas isso é o menos, o fundamental é o seu argumentário.

Primeiro que tudo, a questão da legitimidade. Mário Lúcio (como ele gosta de assinar) fala em nome dos “antigos colonizados, seus descendentes, hoje pessoas nascidas, crescidas, naturalizadas, cidadanizadas, nacionalizadas, simplesmente portuguesas”. Ora, os de quem ele fala, sim, são portugueses, tal qual como eu; ele, não. Por mais que este país o acarinhe e premeie, ele continua a ser, de direito, um estrangeiro, como eu sou em Cabo Verde — embora, segundo percebi, ele goze daquele estatuto especial de alguns cidadãos dos PALOP de serem aqui quase tão portugueses como nós, mas, vade retro, orgulhosamente africanos em África e no Brasil... Assim, a minha pergunta é: que legitimidade tem um estrangeiro para vir pregar o derrube de estátuas, ou do que quer que seja, num país que não é o seu? Acaso ele se atreveria a isso em Inglaterra, em Angola ou no Brasil? Acaso ele me consentiria isso em Cabo Verde?

Segunda questão, o fundamento. Diz ele que os “‘novos portugueses’ conti­nuam a ouvir os ecos das ordens de matar e de castigar, esses que abafam os uivos de dor”. Não vou, obviamente, discutir o que foi a barbárie da escravatura e o tráfico de 1.400.000 seres humanos, que, só os portugueses, levaram, acorrentados, de África para o Brasil — e sem os quais o Brasil que conhecemos não existiria. Mas se os “novos portugueses” ainda ouvem esses ecos, eu não: não há chicotes nem correntes em minha casa e não oiço uivos de dor vindos da sanzala dos meus escravos. O meu dever contemporâneo é contar a história, a verdadeira história (e, sim, ao contrário do que ele diz, já há em Lisboa um monumento de homenagem às vítimas da escravatura, mas, por pudor, não há um Museu das Descobertas). E, sobretudo, é meu dever denunciar novas formas de escravatura, com novos disfarces, sem chicote nem correntes, como as de que são vítimas os trabalhadores asiáticos na agricultura intensiva — e de que não se ocupam estes activistas talvez porque eles não são negros. Porque também me espanta que estes derrubadores de símbolos de um passado que há muito deixou de existir se remetam a um silêncio sujo de cumplicidade com as múltiplas formas como os povos dos países africanos outrora colónias portuguesas hoje são roubados pelos seus dirigentes, à vista de todos e como nunca foram antes. Não é o caso de Mário Lúcio, natural do único desses países que tem orgulhado a sua independência, mas o que dizer da deputada portuguesa Joacine Katar, aqui acolhida como em raros países do mundo, tão crítica do seu país de acolhimento e tão silenciosa perante a vergonha continuada que é a governação do seu país de origem e a desgraça do seu povo?

Terceira questão: o que querem eles derrubar ao certo? Mário Lúcio não esclarece esta questão, dizendo apenas que “a história é tanto a erecção das estátuas e monumentos como a sua demolição”, e o “Público” ilustra o seu texto com uma fotografa do Padrão dos Descobrimentos — cuja demolição, aliás, já foi defendida por uma luminária do PS. E, numa infeliz comparação, Mário Lúcio diz que os alemães, pelo menos, “não expõem as estátuas dos nazistas”. Passe o insulto, decerto imponderado, a verdade é que eu não conheço por cá nenhuma estátua a esclavagistas — a não ser, assim se achando, as que houver ao Infante D. Henrique, que foi, historicamente, o primeiro importador de escravos em Portugal. Mas uma vez derrubado o Infante, um dos maiores homens do seu tempo e um visionário da História da Humanidade, tudo o resto que tenha que ver com aquilo que ele iniciou e a que chamamos a epopeia das Descobertas Portuguesas terá de ser varrido do olhar e da memória, actual e futura. Estátuas, monumentos, Padrão dos Descobrimentos, Torre de Belém, Jerónimos, Mafra, Queluz, e não só aqui: por todo esse mundo fora, onde, desde 1415 até à independência de Macau, alguma vez os portugueses pousaram pé, e onde, com bússolas ou sextantes, com mapas ou sem mapas, com escravos, sem escravos ou com índios, ergueram castelos, fortes, igrejas, feitorias, sinais do Ocidente europeu e do seu tempo entre “gente remota”. Aquilo que esses países preservam como património histórico e como fonte de receitas turísticas, mas que o buldozer da história “limpa” deveria derrubar, em consequência e por igual.

Mas, uma vez isto feito, a limpeza da memória histórica não estaria terminada. A exaltação do “colonialismo” português, confundida por estes derrubadores de estátuas com tudo o resto, não poderia, coerentemente, ficar sacia­da. Sobrariam ainda, por exemplo, as pinturas e os livros: “Os Lusíadas”, “A Peregrinação”, “As Décadas da Índia”, o “Esmeraldo de Situ Orbis”, os relatos da “História Trágico-Marítima”, o “De Angola à Contracosta”, e tantos, tantos livros mais, que haveria bibliotecas inteiras para queimar em autos-de-fé. E os escritores que algum dia se deixaram tomar pelo espanto daqueles que navegavam sem horizonte conhecido: Camões, Pessoa, Jorge de Sena, Manuel Alegre, Sophia.

Diga-me lá, Mário Lúcio, com a sua visão de global artist: a sua fúria demolidora começa em que estátua nossa em concreto e acaba em que específico pergaminho?

2 Os Estados Unidos, a União Europeia e a NATO dizem que a Rússia se prepara para invadir a Ucrânia, como fez com a Crimeia, e porque nunca desistiu dos seus sonhos imperiais. Putin responde que aceitará uma garantia firme do Ocidente de que a Ucrânia não se tornará membro da NATO e não acolherá no seu território armas nucleares capazes de atingirem Moscovo em cinco ou sete minutos. Putin tem toda a razão. Há 30 anos, a Rússia “imperial” fez aquilo que só em sonhos o Ocidente podia esperar: dissolveu a União Soviética e o Pacto de Varsóvia, devolveu a independência aos Estados Bálticos, às repúblicas russófonas e à Ucrânia, província russa durante séculos, sede de uma importante base naval e de silos nucleares. A NATO respondeu não só não se dissolvendo, como ainda alargando sistematicamente as suas fronteiras para leste, em direcção à Rússia. E se é verdade que Putin anexou a Crimeia, não é menos verdade que esta sempre fora uma província russa (como a Florida é dos Estados Unidos) — tanto que foi ali, em Ialta, que teve lugar a mais importante cimeira dos Aliados durante a 2ª Grande Guerra, entre Estaline, Churchill e Roosevelt, e que a sua anexação teve o apoio maio­ritário da população, pois a entrega à Ucrânia, durante o tempo da URSS, fora um gesto absurdo do ucraniano secretário-geral do PCUS, Khrushchov. E na questão da adesão da Ucrânia à NATO, com a consequente instalação de tropas da NATO e armas nucleares no seu território apontadas à Rússia, Putin está carregado de razão: por igual razão, Kennedy esteve à beira de desencadear a terceira guerra mundial quando o mesmo Khrushchov quis instalar mísseis russos em Cuba, apontados aos Estados Unidos. A mesma narrativa não pode ter duas leituras e duas morais diferentes.

3 Eduardo Cabrita devia ter-se demitido quando um serviço do Estado, sob a sua direcção, espancou até à morte um cidadão estrangeiro no aeroporto de Lisboa. Agora, quando o carro de serviço em que seguia atropelou mortalmente um peão que saiu inesperada e ilegalmente do separador central da auto-estrada para a pista, a única coisa que ele deveria ter feito era defender o motorista. Porque, não obstante toda a especulação mediática e o penoso esforço de aproveitamento político da situação, aquilo que é por demais evidente é que a tese da acusação de homicídio por negligência não tem a menor base de sustentação, de boa-fé. Basta imaginarmo-nos ao volante e não termos um ministro sentado atrás.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia