sexta-feira, 29 de março de 2013

POLÍTICA DESPORTIVA: UMA GERAÇÃO SEM ESPERANÇA?


Uma juventude não perde a "esperança" por não competir a outros níveis. Perde a esperança se o sistema educativo for de má qualidade, perde a esperança se a pobreza os conduzir ao abandono e às baixas qualificações académicas e profissionais, se a escola não lhe oferecer uma educação desportiva para a vida, sinónima de cultura, e perde a esperança se o sistema educativo for o reprodutor do que pior tem o sistema capitalista. É o que, infelizmente, temos. Eduardo Galeano escreve, no Le Monde, edição 593, Agosto de 2003, um artigo subordinado ao título: Futebol – Une industrie cannibale. Compaginada com as posições de Galeano, o Doutor Manuel Sérgio, sintetiza na edição de O Desporto Madeira de 27.11.03: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)". E nesse barco não entro! O desporto é parte integrante da cultura (a cultura nasce sob a forma de jogo, disse Huizinga): fundamenta-se na ciência, alimenta-se dos princípios que consubstanciam o humanismo contemporâneo, pode exercitar as liberdades fundamentais da pessoa, ajuda a um troca fecunda entre as várias culturas (…)". Ora, isto é muito mais que sair da ilha para competir. Certo?


Estou total e frontalmente em desacordo com o Professor Hélder Lopes da Universidade da Madeira, relativamente às consequências de uma alegada diminuição da actividade desportiva dos praticantes da Madeira e do Porto Santo nos quadros competitivos nacionais. Diz o docente da UMa: "Se esta situação se prolongar muito mais no tempo, estaremos a destruir a esperança das pessoas. Mas o pior está para vir, já que o maior impacto será sentido daqui a dez, 15 ou 20 anos quando os jovens, que não evoluírem agora, daqui a 15 anos, em que estariam no máximo das suas capacidades, não vão estar porque não lhes deram a possibilidade de competir com outros tão bons ou melhores do que eles". 
Ora, são múltiplos os aspectos que me levam ao desacordo. Vou por partes, embora sobre este assunto muitos textos tenha publicado e defendido, inclusive, em uma edição em livro.
Primeiro: numa Região historicamente pobre, assimétrica e dependente, o desporto não pode ser considerado uma prioridade. Neste quadro, o diálogo competitivo nacional justifica-se apenas para uma elite, como momento de aferição, motivação e até de superação. Mas, sublinho, para uma elite sujeita a regras muito apertadas de selecção. Simplesmente por uma razão: os recursos financeiros são sempre escassos e, desde há muito, que não há dinheiro. Outra coisa são as aldrabices do governo, as promessas que depois não cumpre e, por via disso, a situação delicada para a qual foram empurrados muitos dirigentes. De resto uma juventude não perde a "esperança" por não competir a outros níveis. Perde a esperança se o sistema educativo for de má qualidade, perde a esperança se a pobreza conduzi-los ao abandono e às baixas qualificações académicas e profissionais, se a escola não lhe oferecer uma educação desportiva para a vida, sinónima de cultura, e perde a esperança se o sistema educativo, genericamente, for o reprodutor do pior que tem o sistema capitalista. É o que, infelizmente, temos. Eduardo Galeano escreveu, no Le Monde, edição 593, Agosto de 2003, um artigo subordinado ao título: Futebol – Une industrie cannibale. Compaginada com as posições de Galeano, o Doutor Manuel Sérgio, sintetizou na edição de O Desporto Madeira de 27.11.03: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)". E nesse barco não entro, porque as interligações, dependências e consequências são demasiado óbvias.!
Segundo: olhe-se para a História, para todos estes anos de despesa sem controlo, de contratos-programa insustentáveis, de rios de dinheiro aplicados, mais de 350 milhões de euros nos últimos doze anos, e o que restou? Restaram, de facto, muitos títulos nacionais e alguns internacionais, efémeros e que apenas ficam para a história, que facultaram algum gozo no momento, mas que não deixaram nada para o futuro: mais de 70% dos habitantes não têm actividade física nem desportiva (15-65 anos) com alguma regularidade, um colapso financeiro de quase todo o associativismo, um quase inexistente desporto educativo escolar sem meios para crescer e só consegue não parar à custa de muitos sacrifícios dos serviços que o gerem, uma mentalidade distorcida quanto à importância cultural do desporto e uma inexplicável desproporção entre a participação dos géneros masculino (mais de 70%) e o feminino. 
Terceiro: Não me parece correcto dizer que "há miúdos que os quadros competitivos da Região não são suficientes para eles evoluírem. (...) "não é só a elite madeirense que compete ao nível nacional que está a perder. São todos os outros miúdos a quem esses serviam de modelo. Os outros miúdos olham para ele e inspiram-se neles. Deixa de haver vontade de evoluir". Esta análise carece de fundamento que não é apenas técnico. A propósito, há uns anos, um treinador olímpico da Região das Canárias, Professor Universitário, dizia-me que se contavam pelos dedos os jovens que saiam das ilhas para competir na península. E não era por falta de dinheiro, as preocupações é que eram outras. Explicou-me as mais profundas razões. Por isso questiono: "modelos", mas quais modelos? Atente-se no caso do Engº João Rodrigues, velejador com seis olimpíadas, um excepcional "modelo" de dedicação, de tenacidade, de resultados de topo mundial, de técnica e até na simpatia que irradia e pergunto: serviu de "modelo" no sentido de conduzir a uma prática, em número alargado e em qualidade, na mais barata "instalação desportiva" da Região? Isto para não falar do que os meios de comunicação, particularmente os canais de televisão temáticos, trazem. O problema não é, portanto, de "modelo", mas de paradigma de um desporto ao serviço do desenvolvimento ou de um desporto ao serviço da política. Eu defendo, obviamente, a primeira dimensão. Portanto, o que está em causa é a educação para uma outra mentalidade. O que está também em causa é o planeamento e o respeito pelas prioridades, no próprio desporto. E a este propósito, o Doutor Olímpio Bento (2001), professor universitário, já lá vão doze anos, sobre a crise da Educação Física, chamou à atenção: “(…) a reconstrução da Educação Física assume particular relevância a revolução operada nos conceitos de corpo, de saúde e de estilo de vida activa e na educação ambiental. Mais, essa reconstrução é ditada por duas ordens de razões incontronáveis: 1. pela necessidade de renovação da própria escola, no tocante à sua configuração enquanto pólo de cultura e de humanidade; 2. pela necessidade de influenciar o desporto institucionalizado que hoje ostenta as máculas de um paradoxo, ao afastar-se da cultura, da formação, da educação, do humanismo. Isto é, encontra-se em rota de colisão com princípios e valores que o fundaram como um sistema moralmente bom e resvala, cada vez mais, para a imoralidade, para o analfabetismo, para a incultura e para a trapaça. Sendo através desta área escolar que as crianças e jovens acedem ao contacto com o desporto, a escola não pode eximir-se da responsabilidade que lhe cabe nesta matéria”. Mais tarde, no livro Da Educação Física à Motricidade Humana (2002), editado pelo O Desporto Madeira, pode ler-se na pág. 36 a seguinte passagem do mesmo professor: "(…) é, portanto, curial reconstruir esta área à luz de um lema como este: "escolarizar o desporto – desportivizar a escola e a vida”. Mas atenção, como também salienta o Doutor Manuel Sérgio, desportivizar a escola e a vida num projecto que combata uma prática que constitui "uma das grandes alienações do nosso tempo". Isto é, "para além do desenvolvimento desportivo, é preciso criar um desporto ao serviço do desenvolvimento". E a Escola, neste aspecto, é determinante essencialmente porque é futuro.
Quarto: entre tanto que havia a dizer, eu felizmente sei o que é, fora do país, em representação nacional, ver a bandeira portuguesa subir ao mastro testemunhando a vitória ao som do hino nacional. Tive a felicidade de sentir esse orgulho, porque um dos nossos, um madeirense, acabava de ganhar. É indescritível a emoção e a comoção. Enquanto povo temos esse direito de sentirmos esse orgulho, mas isso não equivale dizer que todos e a todo o momento tenham de participar, quando não é essa a primeira finalidade de uma política desportiva numa terra pobre. O percurso de um atleta, seja em que modalidade for, é longo, de persistência e de progressivo sacrifício, pois o treino, a partir de um determinado momento, na palavra de Peter Daland "é dor, sofrimento e agonia". E esse espaço não é para todos, é para alguns; os outros, menos talentosos, têm de transportar a prática física e ou desportiva como bem cultural... pela vida fora. E isso está por concretizar. Só uma nota complementar: o que por estes dias está a acontecer em S. Vicente é muito mais importante que muitas competições nacionais!
Quinto: finalmente, deixo aqui uma parte do livro "Algumas Teses Sobre o Desporto", do meu Amigo Doutor Manuel Sérgio, páginas 25 a 28: "(…) O desporto é, acima de tudo, um processo de criação cultural". E dirigindo-se ao desportista, sublinha: "Considera o desporto, sobretudo como um factor educativo insubstituível, que visa tanto a saúde como a promoção e a libertação dos agentes do desporto; que procura tanto o lazer e a reabilitação, como a construção de um espaço onde seja possível educar para a cidadania. Se na prática do desporto encontrares graves inconvenientes, encaminha-te (nesta sociedade, que vivemos, da informação e do saber) para normas, valores, produtos e símbolos culturais da sociedade. Verás, aí, com nitidez, as causas das causas das anomalias do desporto. (…) O desporto é parte integrante da cultura (a cultura nasce sob a forma de jogo, disse Huizinga): fundamenta-se na ciência, alimenta-se dos princípios que consubstanciam o humanismo contemporâneo, pode exercitar as liberdades fundamentais da pessoa, ajuda a um troca fecunda entre as várias culturas (…)". Ora, isto é muito mais que sair da ilha para competir. A "esperança" mora aqui. Certo?
Ilustração: Google Imagens.

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