sexta-feira, 11 de abril de 2014

FUNCHAL, CIDADE EUROPEIA DO DESPORTO EM 2016. NÃO, OBRIGADO!


Dei conta que, esta semana, o Deputado Europeu Nuno Teixeira reuniu, no Parlamento Europeu, com o representante da Federação das Capitais e Cidades Europeias do Desporto (ACES Europe), Eduardo Balekjian, e o chefe da Divisão de Desporto do Município do Funchal, Duarte Oliveira, com a intenção de preparar a candidatura da cidade do Funchal a cidade Europeia do Desporto em 2016. Ora bem, pergunto, desde logo, para quê? E a pergunta tem a sua razão de ser. Alguém saberá ou lembrar-se-á do que foi realizado e quais foram os resultados e benefícios do Funchal ter assumido o "pontapé de saída" do "Ano Europeu da Educação pelo Desporto" (2004), com uma cerimónia realizada com pompa e circunstância? Zero. As políticas continuaram as mesma, em muitos casos agravaram-se e só a grave crise financeira veio pôr a nu a ausência de políticas sérias, no sistema educativo escolar e no sistema associativo, consequência das decisões do governo e das autarquias. Em 2005 escrevi um artigo que publiquei na revista A Página da Educação que sintetizou o meu posicionamento sobre esta matéria:


"Escolarizar o desporto, desportivizar a escola e a Vida...
Tal como destacou Mário David Soares, no Jornal da Fenprof, alguém, porventura, se lembra de alguma iniciativa portadora de futuro naquele que foi o Ano Europeu da Pessoa com Deficiência? E agora questiono eu: mais recentemente, alguém será capaz de referir uma só atitude política no decorrer do Ano Europeu da Educação pelo Desporto, capaz de renovar e alimentar a esperança portuguesa de um desporto direito de todos? Infelizmente, deste último ano, retenho, o fracasso de Portugal nos Jogos Olímpicos de Atenas, vários municípios endividados até ao céu da boca na sequência do Euro-2004, impressionantes fugas ao fisco, detenções e, sobretudo no futebol, muitos arguidos em processos de alegada corrupção. Pelo meio, discursos de circunstância, genericamente ocos, como foram aqueles que escutei, no Funchal, por ocasião da pomposa cerimónia oficial de abertura do Ano Europeu da Educação pelo Desporto. Na Escola, aí, no centro das políticas educativas, onde tudo deve começar, rigorosamente nada aconteceu. Tudo permaneceu igual, numa enervante rotina onde sobressaíram, numa aproximação a Shakespeare, "words, words, words, nothing, but words". Mais um ano de palavras, de supérfluos programas desportivos, em horário nobre, que nada acrescentaram, espaços do tipo pescadinha-de-rabo-na-boca, porque não vão além do golo falhado, das milionárias contratações, dos comentários em redor da arbitragem, numa arrepiante coscuvilhice que serve às mil maravilhas o embrutecimento e o desvio das atenções dos reais problemas do país no que, entre outras, à educação pelo desporto diz respeito. 
O Ano Europeu da Educação pelo Desporto não deixou nada nem permitiu abrir a desejável janela de esperança. Teria sido, no mínimo, oportuno e sensato o aproveitamento do momento para multiplicar, por este país fora, um grande e sensibilizador debate nacional que questionasse velhos problemas de ordem económica, social, cultural e organizacional dos Sistemas Educativo e Desportivo. Um debate que, por exemplo, afrontasse a crise de identidade e de credibilidade social da Educação Física curricular, o caos a que os sucessivos governos conduziram o Desporto Escolar e a corresponde interface com o Sistema Desportivo. Um debate absolutamente necessário, agitador de consciências anestesiadas, no quadro do pensamento estratégico que, bastas vezes, A Página, desde há muito, vem fazendo eco através dos singulares textos dos Doutores Manuel Sérgio e Gustavo Pires. Um debate que equacionasse o drama vivido na escola e no desporto português e que tão bem foi sintetizado pelo meu Amigo Doutor Olímpio Bento:
"(...) para a reconstrução da Educação Física assume particular relevância a revolução operada nos conceitos de corpo, de saúde, de estilo de vida activa e na educação ambiental. Mais, essa reconstrução é ditada por duas ordens de razões incontornáveis: 1. pela necessidade de renovação da própria escola, no tocante à sua configuração enquanto polo de cultura e de humanidade; 2. pela necessidade de influenciar o desporto institucionalizado que hoje ostenta as máculas de um paradoxo, ao afastar-se da cultura, da formação, da educação, do humanismo. Isto é, encontra-se em rota de colisão com princípios e valores que o fundaram como um sistema moralmente bom e resvala, cada vez mais, para a imoralidade, para o analfabetismo, para a incultura e para a trapaça. Sendo através desta área escolar que as crianças e jovens acedem ao contacto com o desporto, a escola não pode eximir-se da responsabilidade que lhe cabe nesta matéria (...) é, portanto, curial reconstruir esta área à luz de um lema como este: escolarizar o desporto, desportivizar a escola e a vida (...)" (B., Olímpio. Da Educação Física ao Alto Rendimento. Edição de O Desporto Madeira. 2001. Pág.: 83)
Pois bem, muito mais do que as iniciativas de carácter pontual, o Ano Europeu da Educação pelo Desporto deveria ter ido ao encontro das causas, rompendo com anacrónicas e ultrapassadas lógicas de funcionamento, orgânicas e programáticas, muitas vezes alimentadas por um cego corporativismo. É, de facto, de uma pobreza conceptual, face à realidade do País em múltiplos domínios, inclusive, no desporto, o próprio Comité Olímpico de Portugal querer apresentar uma candidatura à organização dos Jogos Olímpicos, quando o desporto não está escolarizado, quando temos a pior taxa de participação desportiva da Europa e a estatística nos mostra um quadro de menoridade competitiva no contexto das nações, bem evidente no facto de, em 108 anos de Jogos Olímpicos da era moderna, Portugal ter somado vinte medalhas, entre as quais, apenas três de ouro. (...)". 
Esta continua a ser a realidade... dez anos depois! E, por favor, não venham, novamente, com essa do "prestígio e reconhecimento à cidade do Funchal, colocando a tónica na actividade física e no desenvolvimento de actividades desportivas durante todo o ano" (...) e porque "será também uma oportunidade de divulgar a qualidade da oferta de infra-estruturas desportivas disponíveis na Madeira - Deputado Nuno Teixeira". Reconhecimento? Bom, isto é o que se designa por paleio político que de verdade nada tem. A promoção da Região não passa por aí; a maior ou menor adesão às práticas físicas ou ao desporto formal não passa por aí; tampouco a "venda" das infraestruturas. Se quase todos os dias corro é porque assumi a prática física como um bem cultural. E, já agora, se tenho um desejo de ir a Istambul, não é por ter sido capital europeia do desporto, mas pela riqueza do seu património histórico-cultural. Finalmente, conheço os processos, com exemplos vários, que conduzem ao despertar do interesse pela realização de estágios desportivos associados à hotelaria, sobretudo ao nível do alto rendimento.
Ademais, o desporto só pode ser a primeira das segundas ou terceiras prioridades. No actual quadro financeiro isso, aliás, é muito evidente. Daí, complemente, que muito deverá mudar (a lógica política é de MUDANÇA", não é verdade?), pelo que essa mudança não passa pela cidade ser "Cidade Europeia do Desporto". Com toda a modéstia, todavia foi o meu contributo (quem dá o que tem a mais não é obrigado) sugiro aos responsáveis, se tiverem paciência, claro, a leitura de um texto que apresentei na Assembleia Municipal do Funchal, em 1988, exactamente sobre uma política municipal de abertura ao desporto e autonomização das práticas físicas dirigida à maioria da população aparentemente saudável. Já lá vão 36 anos!
Em suma, os responsáveis pelo desporto e pela actividade física em geral, seja a que nível for, não devem utilizar as instituições como uma passerelle de vaidades ou porque há eleições europeias. O que está em causa é a construção do futuro e o direito constitucional consignado no Artigo 79º da Lei Fundamental. E as autarquias têm a sua quota parte de responsabilidades, quando integradas numa política global de desenvolvimento. Tão simples quanto isto!
NOTA:
Na política não acredito em coincidências. Aliás, faz parte do abc político que "o que parece é". Num dia, leio uma notícia sobre uma reunião, em Bruxelas, entre o Deputado Nuno Teixeira e um representante da Câmara Municipal do Funchal, sobre a possibilidade de uma candidatura do Funchal a Capital Europeia do Desporto; no dia seguinte, outra notícia, que dá conta que a candidata do PSD, indicada pela Madeira, reuniu com Nuno Teixeira, com Durão Barroso a apadrinhar a foto ("Já trabalha em Bruxelas", li!). São coincidências a mais, quando, no próximo mês, se realizam eleições europeias. Espero que não passe disso mesmo... de folclore eleitoral.   
Ilustração: Google Imagens.

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