sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

DRAGUI NO LEITO DA MORTE


Há hoje muita gente a celebrar um funeral. A impressão de dinheiro pelo BCE não quer dizer nada a não ser mais austeridade – dinheiro não faz dinheiro nem evita a queda da taxa média de lucro, deflação nos preços de produção. A impressão de dinheiro nos EUA em 2008 – quantitative easing – teve efeitos porque os EUA têm a maior produtividade do mundo, os chineses a produzir a preço de ditadura do PC Chinês e tijela de arroz, e, sobretudo, e acima de tudo, porque o salário médio nos EUA sofreu uma queda histórica de 25% desde 2008 e foi essa queda, o salário, o único valor real, que pagou a impressão desse dinheiro. Ou seja, a salvação do capitalismo norte-americano, e por arrasto do comércio mundial, foi feita a partir do segundo semestre de 2009 com uma queda abrupta no salário, dada pelo aumento do desemprego, desde logo. Quem imprime dinheiro imprime papel, que não vale nada a não ser que se reduza o custo unitário do trabalho para garantir esse papel impresso.


Hoje quando vejo, à esquerda e à direita, celebrarem esta medida, falando de coisas sem qualquer veracidade económica, penso numa metáfora caseira. Tenho flores nas varandas que a minha mãe – engenheira genética florestal, um papa no tema portanto – me diz que estão mal, sol a mais, sol a menos, água a mais, água a menos, nutrientes, o que é certo é que elas só estão mesmo bonitas quando vou de férias e são cuidadas…pela minha mãe. Um dia destes vinguei-me, cheguei a casa e vi o Hibiscus resplandecente de flores e liguei-lhe, afinal “também eu sabia cuidar das flores!”. Ela respondeu-me: “Está a morrer, as plantas quando estão a morrer desatam a reproduzir-se”. Dragui imprime dinheiro para evitar um 1929 – que já está aqui, e sabemo-lo exactamente porque ele…está a imprimir dinheiro. E dinheiro não é valor. O nosso desafio hoje não é salvar o capitalismo europeu, morto. É salvar-nos da sua salvação, uma guerra 39-45. E sobretudo construir uma alternativa que não seja, como foram as do passado, como na URSS, um pesadelo. Era sobre isso, podemos ou não construir sociedades justas, iguais e livres, que devíamos estar todos juntos a pensar, dia e noite, e não a bater palmas ao Hibiscus a mostrar o seu brilho no leito da morte.
NOTA:  Artigo de Raquel Varela: 
https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2015/01/22/dragui-no-leito-da-morte/

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