terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

PARA LER ALGUNS HISTORIADORES TENHO DE ESQUECER-ME DO QUE LI EM “JARDIM – A GRANDE FRAUDE”


Tive um professor que, logo no primeiro dia de aulas, disse que admitia a discussão sobre um qualquer tema, desde que o interlocutor fizesse, antecipadamente, um esforço de estudo e de compreensão sobre um dado conteúdo. Absolutamente correcto. Por isso, não entro pelo domínio da História, nem da sociologia, porque não fiz esse esforço e porque sempre segui o princípio de “cada macaquinho no seu poleiro”, mas entro pelo domínio do exercício da política onde a história é outra. Sobretudo no âmbito da História narram-se factos; na política existe sempre um ponto e um contraponto. A História rejeita a visão clubística, parcial e os olhos enviesados. Na política coexistem muitas verdades. É aqui que me situo. Ora, nos últimos dias tenho dado conta de posicionamentos de “historiadores” (e até de sociólogos e poetas) que parecem mais próximos do “omo ou do tide”, ao jeito de quem lava mais branco quarenta anos de atropelos, do que propriamente de uma leitura isenta que fique para a História. Daí este texto.


Sabe-se que quando há dinheiro, empreiteiros não faltam. E também que um historiador credível, aquele para quem se olha, lê e manifestamos confiança, é aquele que consegue manter um grande distanciamento ao mundo político-partidário, consegue fugir do espaço da verdade conveniente que interessa à política paroquial e dominante, permanecendo, assim, incólume à tentação de ser agradável seja a quem for. É isso, penso eu, que o cidadão comum pede a um historiador. Rejeito leituras quando o pensamento de alguém tende a rebolar deitado sobre a grande e viscosa bola do poder. Por exemplo, a história do “deve e do haver”, do meu ponto de vista, em função da sua finalidade primeira, política, não foi um tiro no pé, mas na própria cabeça do historiador. Simplesmente porque, no essencial, percorre tempos políticos que não podem ser comparados entre si. Mas essa é uma outra história, onde um trabalho de encomenda política acabou por ser colocado em uma prateleira, sem qualquer resultado prático no dirimir do debate político nacional. Foi um tiro de pólvora seca. A consequência do esforço valeu zero no plano político. E dessa prateleira não sairá. E se o objectivo maior não foi conseguido, ao madeirense em geral, no plano político, repito, quer lá saber, em suma, dos relatos, das circunstâncias e das contas ao longo de quinhentos anos. A sua preocupação centra-se na vivência do seu tempo, nas políticas que são assumidas e que podem ser geradoras de bem-estar económico, financeiro, social e cultural. 
Li declarações sobre as acessibilidades na Madeira e fiquei com o claro sentimento daquelas serem mais um hino de louvor ao paizinho partidário. Porque da mesma forma que quando há dinheiro, empreiteiros não faltam, também sabe-se que se tais obras não tivessem sido realizadas, em função dos gigantescos montantes em causa, com financiamento externo muito considerável, não seria um caso de política, mas de polícia. Portanto, o problema não se circunscreve ao domínio das acessibilidades enquanto marca do poder, numa visão unilateral e afunilada. Necessário se torna compreender o contexto, se à dita obra correspondeu a celebração do ser humano (a Madeira tem mais instituições de solidariedade social do que freguesias) ou se a "obra" foi apenas física e mais, se as prioridades foram ou não enquadradas nos doze princípios do desenvolvimento. Apenas um exemplo entre muitos (estudo de 2008): "a Noruega tinha o 3º PIB per capita do mundo e o segundo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), tem uma área de 307.000 Km2 e dispõe de 173 Km de via rápida; a Irlanda 70.000 Km2 e 176 Km de via rápida; a Madeira, com 780 Km2 e tinha 140 Km de vias rápidas".
A Noruega é rica e nós somos pobres! Na Noruega muitos túneis são “tenebrosos” (passei por dois, um de 16 e outro de 24 km) estreitos, de uma só pista com dois sentidos e menos bem iluminados, semelhantes aos antigos “furados” da Madeira, enquanto aqui, repito, numa Região pobre, assimétrica e dependente, pode-se encerrar um túnel e ali realizar um baile? Como justificar este paradoxo entre as políticas de um país rico e a pobreza de uma região de um país pobre? 
Eram necessárias novas acessibilidades, obviamente que sim, desde que muitas dessas acessibilidades fizessem parte de um rigoroso planeamento que não se esgotasse, apenas, em pontos de partida e de chegada. Que essas acessibilidades conduzissem a novos polos de economia e de desenvolvimento, mantendo a outra rede, manifestamente de interesse histórico e turístico. Mas o problema não foi apenas esse. A “fúria inauguracionista” como bem caracterizou o Deputado Edgar Silva, levou Jardim, ao mesmo tempo que mandava rasgar vias de circulação viária, a descompensar sectores determinantes do desenvolvimento sustentável. Ele, com as suas nefastas opções e falta de rigor no estabelecimento das prioridades, acabou por gerar duas dívidas: a dívida pública, para cima de seis mil milhões, que ninguém sabe como pagar e uma dívida social (onde se inclui  desastre da Educação com vergonhosas taxas de abandono e de insucesso) que levará algumas dezenas de anos a superar. 
Fico, assim, pasmado quando um historiador fala de Jardim como um político que "marcará a história do Portugal democrático pós-25 de Abril" (só se for de forma negativa, considero eu), um historiador que enaltece a sua “postura irreverente, combativa, frontal, que marcou uma forma muito própria de fazer política e de defender os interesses da Madeira” (quantos foram brutalmente ofendidos, espezinhados e afastados), como aquele que bateu recordes em termos de “longevidade como titular de cargos eleitos em processos eleitorais ganhos sucessivamente com maiorias absolutas" (à custa de quê e de quem? Será que o JM tem alguma coisa a ver com os resultados?), que “ficará na história da construção da União Europeia (…) e na memória coletiva da opinião pública e no meio político português da democracia contemporânea". Ao ponto de passar uma imagem onde a mais conhecida postura combativa deste líder (...) dá lugar ao perfil do 'gentleman', culto, simpático, acolhedor e com grande sentido de humor" (lembro-me daquela tirada, digna de um "gentleman", aos jornalistas: há para aí uns bastardos para não lhes chamar filhos da p...). Para ler isto tenho de fazer um “resert” a tudo o que li no livro “Jardim, a grande fraude” e a tudo o que vi e escutei ao longo dos últimos 40 anos. Se aquilo é História, vou ali e já volto!
Ilustração: Google Imagens.

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