sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - O MINISTRO TEM RAZÃO


O Conselho de Escolas, órgão de consulta do Ministério de Educação, posicionou-se, favoravelmente, à existência de exames no ensino básico. Não aceita o novo modelo de avaliação dos alunos aprovado na Assembleia da República. Isto é, o dito Conselho quer exames e o ministro quer uma avaliação rigorosa mas de base contínua. Assunto, aliás, sobre o qual várias vezes me pronunciei. Trata-se de uma posição, a do Conselho, absolutamente abstrusa, tendo em consideração o que a investigação científica já produziu sobre esta matéria. E a verdade é que, no mesmo dia (ontem) foi publicada a posição do Conselho, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) veio aconselhar Portugal a mudar a sua política educativa no sentido de uma substancial redução do número de retenções dos alunos. 


Ora, como facilmente se prova, não é pelo exames que se melhora o sistema, mas sim alterando, estruturalmente, a orientação de todo o sistema. O Ensino Básico é de abertura ao conhecimento e não só de resposta, alegadamente, correcta à pergunta do professor e de acordo com o manual. Diz-nos Luis Etevaldo da Silva: "(...) O conceito de “conhecimento poderoso” para M. Yong significa aquele que possibilita ao indivíduo, a partir de objectivos claros, atingir níveis de compreensão mais amplos do mundo. Implica apresentar hipóteses e instigar a discussão, repensar as próprias ideias, sob a luz das teorias. Deste modo, aprender a constituir representações sociais, culturais e políticas. Segundo ele, esse conceito não se refere a quem tem mais acesso ao conhecimento ou quem legitima, embora ambas sejam questões importantes, mas se refere ao que o conhecimento pode fazer, como, por exemplo, fornecer explicações confiáveis ou novas formas de se pensar a respeito do mundo. Em face de tal concepção, conhecimento poderoso se entende por conhecimento teórico, aquele que capaz de configurar múltiplos aspectos e argumentar o suficiente para o entendimento do tema em estudo (...)". É exactamente isto que é inviável no actual sistema educativo. Tal como há duzentos anos, salvo raras excepções, hoje, o professor continua a transmitir, o aluno a receber um dado conteúdo e, no dia x, obrigado a debitá-lo ou em um teste ou em um exame formal. Este tipo de ensino está, genericamente, desadequado, é pobre e inconsequente. Neste quadro o Conselho de Escolas não percebeu que há duas grandes mudanças a operacionalizar: a primeira, a montante da escola (espaço físico) ao nível da sociedade, reorganizando-a e tornando-a mais equilibrada a todos os níveis de análise; a segunda, ao nível do sistema educativo capaz de dar resposta a gerações que de todo não são as de ontem, consequência até, da proliferação dos meios tecnológicos e da informação que corre ao segundo. O Conselho de Escolas se não enquadra o seu pensamento nestes dois vectores, obviamente que não constitui bom conselheiro do ministério. Parece-me óbvio que o problema é muito mais profundo do que curricular e programático. É de pensamento, é organizacional, e pedagógico!  
Mas há aqui um dado marginal e muito curioso: o presidente do Conselho de Escolas, Professor José Eduardo Lemos de Sousa, foi o docente que, em 2011, em audição parlamentar na Assembleia da República, se mostrou contra a avaliação de desempenho dos professores e hoje, mostra-se favorável à avaliação dos alunos através de exames. Não é que a avaliação de desempenho dos docentes não deva ser outra, claramente que sim, de base formativa e não classificativa e punitiva, mas o que está aqui em causa é a dualidade da sua posição. Para nós uma coisa; para os outros... Não estou em condições de assumir que a atitude do Conselho de Escolas tenha pendor partidário, mas deixa transparecer isso, à luz do que foi a política de Nuno Crato e do que agora o governo pretende, no quadro de um sistema educativo portador de futuro. 
Ilustração: Google Imagens.

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