quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

"MÁRIO SOARES NÃO LEVOU NADA COM ELE. DEIXOU-NOS TUDO"


Mário Soares partiu. Como li em Miguel Esteves Cardoso, "Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo (...) Mário Soares não levou nada com ele. Deixou tudo connosco. É essa a maior generosidade que uma pessoa pode ter: querer tudo para os outros e dedicar a vida a lutar por isso — e por nós. Mário Soares não se importava que não gostassem dele. Ia em frente, achassem o que achassem. É essa a coragem maravilhosa que deixou: serviu de exemplo da liberdade mais importante de todas, que é a liberdade de sermos como somos e acreditarmos no que acreditamos". 


Milhares e milhares de pessoas renderam-se à figura e à sua história feita de luta durante 32 anos. Preso doze vezes, desterrado e exilado. Bastaria isto, tendo, como pano de fundo, sempre, mas sempre, a LIBERDADE, para que alguns, se coibissem de comentários desajustados na altura da sua morte. Obviamente que são livres de o fazerem, lá está a questão da liberdade, porém, quando se analisa existe um dever óbvio de colocar nos pratos da balança o deve e o haver da VIDA. Saberão, alguns, o que foi o salazarismo, primeiro, e o marcelismo, depois, que deixou Portugal com mais de 74% de analfabetos e uma paisagem de pobreza que conduziu à emigração forçada? Conhecerão a História das colónias portuguesas e a guerra que matou 8.290 militares para além de centenas de civis, gerou cerca de 30.000 deficientes e mais de 100.000 militares com “stress de guerra”? Dominarão o facto de 40% do Orçamento do País, durante treze anos, ter sido destinado ao esforço de uma guerra estúpida? Terão consciência do que foi a PIDE/DGS, o sofrimento de tantos portugueses que se opuseram ao regime, a clandestinidade, o silêncio das prisões, a tortura ordinária e a sangue frio, o Tarrafal, a fome e a morte a espreitar a todo o momento? Talvez não saibam o que foi casar hoje e, um mês depois, estar nas matas de Guiléje, na Guiné, para, diziam, cumprir um "serviço à Pátria"! Foram esses homens de bravura, que tal como escreveu o Miguel Esteves Cardoso, deixaram "tudo connosco". Não levaram nada. Mário Soares foi um deles, o maior da sua geração, o inspirador e disseminador da importância da liberdade. O discurso eloquente do Senhor Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, no Mosteiro dos Jerónimos, testemunhou, exactamente, a grandeza de Mário Soares no quadro da História de Portugal.
Todos somos um misto de virtudes e defeitos. O ser humano é assim. Mas, quando leio alguns comentários de pendor extremamente agressivo, sem nexo, desenterrando, até, inverdades, lembro-me da Escola, da formação básica, essa escola que toca e foge da História com o medo do comprometimento. É essa escola que permite que se chegue a aluno universitário sem conhecer as figuras da História, a confundir acontecimentos e a não ter uma leitura sobre a liberdade e a democracia que dispõem. Mas também folgo ao ver milhares e milhares, por todo o País, líderes mundiais, jornalistas e comentadores a curvarem-se perante a morte de um estadista com uma única palavra: OBRIGADO!
Ilustração: Google Imagens. 

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