sábado, 31 de agosto de 2019

"Uma questão de fé" ou falta de honestidade e prudência?



Perguntava o DN-Madeira na edição de Domingo passado: "Qual será o secretário regional do governo de Miguel Albuquerque que tem tanta, tanta, tanta confiança na vitória do seu partido a 22 de Setembro, que até vai mais longe, pois considera-se desde já nomeado para continuar como governante. A única pista que Este Planeta tem, dá conta que se fez convidado e confirmou a sua presença em viagens para a Venezuela, imagine-se, em meados de Outubro (...)". Quem será?


Entre tantas nomeações para o desempenho de lugares na Administração Pública, já concretizadas, que poderiam aguardar pelo resultado das eleições regionais de Setembro, no plano orçamental, há quem se comprometa com apoios para 2020, quando é desconhecida a futura orientação política, seja ela qual for?

Mais grave. Segundo denunciou o JPP, este estabelecimento de aprendizagem, com uma longa história de problemas, "não vai abrir portas no próximo ano lectivo". Seria bom que fosse completa e publicamente esclarecida a verdadeira situação.

A confirmar-se, trata-se de uma ausência de prudência, revela irresponsabilidade política e até desonestidade.

Para além de tudo o que fica por esclarecer, sendo certo que a vida não pára, que as instituições precisam de saber com o que contam, alguma ponderação na imagem de independência seria aplaudida. Pode um governo comprometer-se por quatro anos, mais do que isso... NÃO. 
Esta secretaria da Educação é um desastre.

Só mais esta: há nomeações, para "comissões de serviço" (renovação), com efeitos a partir de 14 de Fevereiro de 2020. Parece que é tempo de assegurar lugares, porque "o seguro morreu de velho".

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

“Take back control” para quem?


Por estatuadesal
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário,
29/08/2019


Há excelentes argumentos democráticos contra o que é hoje a União Europeia. Quem não se choca ao ver não eleitos com o poder de vetar Orçamentos de Estado aprovados por deputados não acredita na democracia parlamentar. Quem não se incomoda ao ver a União destruir as suas próprias encenações pseudodemocráticas, quando promove um debate entre supostos candidatos a presidentes da Comissão Europeia sem que nenhum deles seja depois escolhido, gosta de ser tomado por tonto. As falhas democráticas da UE são tão grosseiras e nascem de equívocos tão profundos sobre a capacidade de elites vanguardistas construírem em gabinetes democracias e povos que qualquer democrata exigente tem de ser, no mínimo, eurocrítico.

Qualquer pessoa que tenha assistido ao debate sobre o Brexit, em que ao discurso do medo perante a imigração se respondeu com o discurso do medo perante as consequências da saída, sem restar nada de positivo para defender, sabe que nunca foi a questão democrática que esteve em cima da mesa. E podia ter sido. Não faltava assunto, atropelo e perigo vindo de instituições dominadas por burocratas e por políticos que fogem ao escrutínio democrático. O mote de um discurso eurocético democrático até podia ser o mesmo que foi usado pelos xenófobos: “Take back control”. Mas isso era se o objetivo fosse devolver ao povo o controlo das suas vidas, o que implica o controlo da soberania democrática, seja lá a escala em que a política se faz. As mentiras da campanha e o discurso que escolheu os imigrantes como inimigos deixaram claro que essa não era a questão. Esse não era o controlo. Essa não era a soberania.

O primeiro gesto de Boris Johnson não foi devolver aos povos do Reino Unido o poder sobre o seu destino. Foi tirar-lhes esse controlo. Custa governar com esta contrariedade democrática? Claro. Mais do que dirigir uma campanha demagógica

Para quem tivesse dúvidas sobre a irrelevância de qualquer preocupação democrática de Boris Johnson, tudo ficou mais evidente esta semana. O seu primeiro gesto não foi devolver aos povos do Reino Unido o poder sobre o seu destino. Foi tirar-lhes esse controlo. A suspensão do Parlamento, como atalho para tentar tornar inevitável um Brexit sem acordo, deixa claro que Boris não queria devolver o controlo aos britânicos, queria ter ele o controlo sobre os britânicos. Toda a diatribe de Nigel Farage e do próprio Boris Johnson contra os atropelos aos valores democráticos e parlamentares, que se não saísse de bocas tão impróprias até poderia ser subscrita por verdadeiros democratas, fica agora exposta como puro cinismo.
Boris Johnson não respeita mais o Parlamento britânico do que qualquer burocrata sentado em Bruxelas. Respeita menos. Num país que não tem uma Constituição escrita, o mais relevante não é se a coisa é legal ou ilegal, assim como o mais relevante nos atropelos ao espírito democrático por parte das instituições europeias não é o que está escrito nos tratados. É a política. E ficou claro o que quer Boris Johnson.
Disse, e não me arrependo, que ele é o melhor primeiro-ministro para liderar o Brexit: porque é quem o defendeu que tem o dever de o aplicar. Espero que as instituições do Reino Unido sejam suficientemente firmes para o impedir de seguir qualquer atalho. É respeitando as regras democráticas que Boris terá de percorrer o caminho que propôs aos britânicos. Sem recorrer aos mesmos estratagemas, em versão piorada, que tão violentamente criticou na Europa. Não queria devolver o controlo ao povo? Pois o povo é legitimamente representado pelo Parlamento que lhe deu a maioria para governar. Custa governar com esta contrariedade democrática? Claro. Mais do que dirigir uma campanha demagógica.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A FOME DE ERISÍCTON

LILIANA RODRIGUES
Professora Universitária/Investigadora
Opinião no JM - 25/08/2019 

Imagine uma árvore gigante, no meio de um bosque deslumbrante, onde as ninfas da floresta, as Dríades, procuravam a sombra para dançarem. Cada Dríade nascia ligada e era emanada de uma determinada árvore. Ali vivia, junto a ela. Quando a sua árvore era cortada ou morta, a ninfa também morria. Então, os deuses puniam quem as destruía. 


Foi o que aconteceu com Erisícton, Rei da Tessália. Este desafiou Deméter, deusa das colheitas, protectora dos agricultores e do bosque, que amava com todas as suas forças a árvore das árvores – um carvalho gigante. O rei decidiu usar essa árvore para fazer o soalho do seu palácio. De machados em punho, os serviçais obedientes começaram a golpear o carvalho, que carpia de dor e escorria sofrimento do seu tronco. Ali por perto, ouviam-se as vozes da indignação. A deusa protectora da floresta exigiu ao rei que desistisse de abater o colossal carvalho. Mas Erisícton, como todos os que pensam que são reis não o sendo, só se ouvia a si mesmo e os seus propósitos seriam atingidos sem que o esmagamento de terceiros lhe doesse na consciência. O seu desprezo pelos vivos e pelo sagrado, o não se curvar nem a deuses nem a homens, mostravam bem o seu carácter violento e ímpio. Tinha em si que a sua riqueza poderia comprar os medos e os castigos. Voltou a ordenar aos servos que abatessem a árvore. Um deles atreveu-se a contrariar o rei evocando a profanação do carvalho sagrado e a ira dos deuses. Antes que acabasse a frase já tinha a cabeça cortada. Algo bastante comum no mundo da política, onde a discordância é a mais imperdoável heresia.

Erisícton pegou no machado e, ele próprio, cortou a árvore. As ninfas choravam por não terem conseguido impedir a morte daquela que lhes dava sombra e que era, por Deméter, velada. Derrubado e coberto de lacerações, do carvalho gigante irrompia sangue e ouvia-se uma voz a anunciar um castigo, intimado pelas ninfas das florestas. A punição seria cruel. 

Deméter enviou para o rei a Fome, conhecida por Éton, e ordenou que esta se instalasse no estômago do rei. Daí foi despertado um apetite insaciável que tudo devorava. O rei gastou toda a sua fortuna em comida, devorou os seus rebanhos e cavalos de corrida. Vendeu a própria filha como escrava para comprar mais e mais comida…
Não somos muito diferentes hoje em dia. Há reis que usam e abusam da imagem dos filhos para ter maior simpatia dos súbditos. A diferença é que as bocas destes reis se enchem da palavra “democracia”, que vai sendo mendigada, tal como Erisícton vagabundeava a pedir por alimento, nas ruas por onde passam. Outros deitam alcatrão nos lugares de poder da natureza. Outros ainda, limitam-se a queimá-la.
A magreza era visível a cada dia que passava e o rei Erisícton, entre a soberba de outrora e a loucura presente, arrancava os seus braços e devorava os seus próprios membros. Assim são alguns homens que devoram os seus e a si mesmos, até que o limite do poder redunde no seu próprio desaparecimento. Para trás, deixam um rasto de destruição e de cabeças cortadas pelo prazer da vaidade. “A vaidade tem horror a tudo o que desperta a lembrança da nossa indigência” (Aires, M.). Que obrigação terão estes servos de escolher homens assim?
No fim, os deuses castigam um homem só. Em todos os sentidos que a palavra solidão tem. A cegueira e a loucura já puniram verdadeiros e falsos reis. Mas a arrogância, o orgulho e a vingança engolem qualquer homem. O deserto só atravessa quem quer e a obediência tem o custo da fome. Uma fome que nos devora a alma.

domingo, 25 de agosto de 2019

O incendiário e o patriarca


Por estatuadesal
Viriato Soromenho Marques* 
in Diário de Notícias, 
24/08/2019

Foi Erasmo de Roterdão quem no seu Elogio da Loucura (1509) cunhou a melhor definição política de povo, chamando-lhe "esse enorme e poderoso animal". Ao contrário do que pretendem os sedutores, os demagogos ou os leitores precipitados de Rousseau, o povo também se engana. O "poderoso animal" às vezes equivoca-se na escolha dos seus líderes. No Novo Mundo, em pouco tempo, foram cometidos dois erros políticos pelos povos dos EUA e do Brasil. Erros que, dada a dimensão dessas duas federações, têm repercussão global. O poder que foi transferido para Trump e Bolsonaro pelos respetivos povos parece ter aumentado o atrevimento da sua ignorância. Nenhum deles sofreu a metamorfose que ocorre nos raros políticos que se transformam em estadistas.


Os incêndios imensos que lavram no Brasil (numa área maior do que a União Europeia), queimando imensidões de floresta tropical e de cerrado, revelam que o programa de Bolsonaro consiste em destruir tudo o que foi sendo construído para organizar a Amazónia legal, desde os tempos de Getúlio Vargas. O aumento exponencial dos incêndios reflete no terreno a consequência das suas palavras de ódio contra todos aqueles que querem preservar a floresta e respeitar os povos indígenas. Bolsonaro e os seus cúmplices, como o "ministro do Ambiente" Ricardo Salles, estão a instigar todos aqueles que se querem apoderar, mesmo ilegalmente, do território da Amazónia para fazer pastagens, garimpo ilegal e corte predatório de madeira. A partir de Brasília, atacam-se as agências federais que têm ajudado a manter a lei e a ordem: o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais); o IBAMA (principal agência ambiental); a FUNAI (a fundação destinada a proteger as populações indígenas). Sem vergonha, Brasília insulta a Alemanha e a Noruega que desde 2008 têm feito grandes doações para o Fundo Amazónia e diaboliza as ONG como se fossem malfeitores.
Tudo isto parece ainda mais trágico, quando o principal homem de ação e intelecto, que inspirou D. Pedro I nos primeiros anos de soberania do Brasil foi o genial José Bonifácio (1763-1838), que os brasileiros reconhecem como o Patriarca da Independência. Bonifácio foi um dos maiores naturalistas da época e pioneiro mundial da ecologia, tendo criado, tanto em Portugal como no Brasil, visionária legislação para a proteção das florestas. Em 1823, numa intervenção contra a escravatura, apresentada na Assembleia Geral Constituinte do Império, Bonifácio, proferiu este extraordinário alerta: " (...) nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente. E com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes, que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil em menos de dois séculos ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia. Virá então esse dia (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos."
O povo brasileiro terá de escolher entre honrar o patriarca que sonhou o Brasil ou vergar-se ao incendiário que o está a mergulhar num pesadelo.
*Professor universitário

sábado, 24 de agosto de 2019

EU NÃO ESQUEÇO…


Por
José Martins Júnior
Blogue Senso&Consenso
23.08.2019

Hoje, sexta-feira de Agosto, decretaram baixar as bandeiras a meia haste em todos os edifícios oficiais da Região. Foi a homenagem regulamentar dada a alguém “que da lei da morte se foi libertando”. E porque da lei da morte se libertou, sinto-me no dever de hastear bem alto a sua memória, símbolo de um povo autónomo, responsável, decidido, “de antes quebrar que torcer”, bandeira triunfal do Povo de Machico, do Povo da Madeira.



Eu não esqueço …
A transparente cordialidade e o tratamento igualitário com que se dirigia aos deputados, enquanto presidente do Primeiro Órgão da Autonomia Regional, respeitando integralmente os direitos e deveres regimentais, fosse qual fosse o partido interveniente.
Eu não esqueço…
A serena mas corajosa seriedade quando recusou a palavra ao líder parlamentar do seu próprio partido (mais tarde presidente do governo) quando este pretendia intervir, à revelia das normas regimentais. Eu estava lá.
Eu não esqueço…
A superior dignidade com que suportou a humilhação a que o sujeitaram os seus pares na Assembleia, quando alteraram o regimento para que a votação à presidência fosse feita por sessão legislativa, todos os anos, em vez da eleição por legislatura, quatro anos, como vigorava desde o início.
Eu não esqueço…
A forma diplomática, mas frontal e directa, como não aceitou a procuração do governo regional para ser advogado contra mim, no ‘famoso’ processo de difamação pelo desaparecimento das pratas da Assembleia Regional, o qual terminou com a derrota do próprio governo.
Eu não esqueço…
A sua decisiva intervenção aquando do inquérito parlamentar (movido de dentro do partido onde eu próprio me inseria, como independente) o qual originaria a imediata perda de mandato, não fora a sua elevada argumentação. Eu estava lá e escutei atentamente.
Eu não esqueço…
A sua inteireza de carácter quando, nas eleições para a Presidência da República, apoiou publicamente um candidato à margem do candidato oficial do seu partido na Madeira.
Eu não esqueço…
A fidelidade às suas convicções sócio-políticas e ao seu sonho de uma Madeira autónoma e democrática, pois que, apesar da indiferença e, até, da marginalização a que os seus pares o votaram, nunca abandonou o código ideológico que abraçou desde a primeira hora.
E, acima de tudo, não esqueço…
Que antes e depois, dentro ou fora da acção política, nunca deixámos de partilhar uma sã convivialidade, sempre saudável, optimista, produtiva.
É sempre assim que há-de ficar comigo, enquanto não chegar a minha hora. É sempre assim que ele ficará também entre os conterrâneos e vizinhos em terras de Tristão Vaz.
Ele, Emanuel Rodrigues, monumento eloquente das gentes de Machico, perpetua, ainda, a memória do seu patrono, no dealbar da carreira jurídica, esse eminente machiquense, o Dr. João Gouveia de Menezes.
Conhecendo Emanuel Rodrigues e sabendo da sua vivência discreta, avessa à espectacularidade das homenagens mundanas, achei-me, entretanto, no dever de prestar-lhe este modesto depoimento, vindo de quem se situava politicamente em campos opostos, mas intimamente solidários e comprometidos com os mesmos ideais de um Mundo Melhor.
Emanuel Rodrigues, bandeirante da Democracia, lídimo representante da Autonomia, Honra e Glória de Machico!

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A Estrada das Ginjas – Parte II


Por
DIÁRIO de Notícias
22 AGO 2019 

Na minha anterior abordagem a este assunto, resumi num pequeno historial, os factos que levaram à abertura do acesso rodoviário das Ginjas em S. Vicente, pelos Serviços Florestais da Madeira no início da década de 1980, e das implicações que tal obra causou ao coberto florestal indígena da Ilha da Madeira. Em Dezembro de 1999, por ocasião da 23ª Sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO, que decorreu em Marraqueche, a floresta Laurissilva da Madeira foi formalmente inscrita na Lista do Património Natural Mundial daquela Instituição, o primeiro Bem de Portugal, e o único até ao momento a merecer tal prestigiante distinção.

Foram cinco anos de um longo processo de avaliação técnico-científico, conduzido pelo então Serviço do Parque Natural da Madeira, tendo em vista a formalização da candidatura. A Laurissilva da Madeira preencheu dois dos quatro critérios que a UNESCO determina (bastava que preenchesse apenas um), para que um Bem possa figurar na Lista do Património Natural Mundial.
Assim, a Laurissilva cumpriu o critério II “...exemplo eminentemente representativo de um ecossistema ecológico único à escala mundial...”, bem como o critério IV “...conter os habitats naturais mais representativos e importantes para a conservação in situ da diversidade biológica da flora e da fauna e de espécies ameaçadas apresentando um valor universal excepcional do ponto de vista da ciência e da conservação.”
Por aqui se depreende da responsabilidade que sobre nós pende, perante o compromisso que assumimos para com o Mundo, para a perpetuação deste valioso e único património natural. A partir do momento em que a Laurissilva foi considerada Património Mundial, a Madeira assumiu o papel de fiel-depositária, obrigando-se a conservá-la, e, sempre que possível, melhorá-la, e garantir a sua integridade e perenidade para toda a humanidade.

Pelo que se assiste, e pela postura que este GR assumiu publicamente, estão a preparar-se para fazer de tudo o que está assumido, tábua rasa. Temos que estar muito atentos ao que se está a passar, e se necessário ir até às últimas consequências, na defesa da nossa Floresta Laurissilva, Património do Mundo!...

Faço no entanto, ao GR e ao Município de S. Vicente, uma proposta absolutamente viável, que é a da recuperação do Caminho Real Nº 28, que ligava S. Vicente à Ponta do Sol, passando precisamente pelo Caramujo (onde é possível ver ainda a respectiva porta de entrada), prosseguindo até aos Estanquinhos, atravessando todo o Paúl e descendo para o sítio das Cruzinhas na vertente Sul.
Associada a esta intervenção, deveria proceder-se à recuperação das casas do Caramujo (pertença da Região e actualmente em completo abandono), transformando-as em alojamento turístico de natureza, dando lugar assim a um pólo de actividade único e de grande qualidade cénica e ambiental. Esta sim, seria uma medida culturalmente inteligente, com plena justificação do emprego de fundos comunitários.
Para os que pretendam apreciar a Laurissilva, comodamente instalados num automóvel, podem fazê-lo percorrendo um belo trecho da Estrada Regional que liga S. Vicente à Encumeada.
Terminaria, fazendo com a vénia que merece, uma referência ao Senhor Eng.º Rui Vieira, que num dos seus últimos escritos (Islenha Nº 42/2008), e que assim escreveu a propósito da Laurissilva: “A Laurisilva é, acima de tudo, um monumento da Natureza, um lugar sublime de supremo gozo e contemplação, uma vida multifacetada activa e milenária que se oferece à ciência e à cultura de toda a Humanidade, uma fonte inesgotável de bens para a ilha que com ela respira e que merece, por isso, todo o respeito. Espera-se dos responsáveis que a gerem, mais do que serem guardiães valorosos, que sejam também devotos convictos, defensores acérrimos e inteligentes e permanentemente dispostos a fazer pedagogia sobre o inestimável valor do património por que velam”.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

ESTRADA GINJAS-PAÚL DA SERRA. MAIORIA ABSOLUTA NÃO É PODER ABSOLUTO


FACTO

"Eu vou avançar e concretizar a obra da estrada das Ginjas quer queiram, quer não, porque tenho mandato para isso" - Presidente do Governo Regional da Madeira. 

COMENTÁRIO 

Como nota prévia: 
Não estou minimamente habilitado, cientificamente, para discutir o erro na construção da estrada Ginjas-Paul. Mas tenho a sensibilidade para perceber o sustentável posicionamento de quem tem uma vida dedicada às questões ambientais. É o caso do Engº Henrique Costa Neves que publicou, no DN-Madeira, dois artigos sobre aquela matéria. 
Em síntese, diz o especialista: "(...) Estávamos no início da década de 1980, quando os Serviços Florestais da Madeira decidiram rasgar um acesso rodoviário, no Concelhio de S. Vicente, entre a localidade das Ginjas e a dos Estanquinhos no Paúl da Serra, passando pelo sítio do Caramujo. (...) ao fim de uns longos meses, as máquinas atingiram finalmente o sítio dos Estanquinhos, no bordo Nordeste do planalto do Paúl da Serra, vencendo um desnível de 600 m. Para trás ficou um rasto de destruição significativo ao longo de 10 Km, numa zona até então praticamente intocada, e com pouca ou nenhuma pressão humana. (...) Não nos tomem por tolos com falácias deste género, e assumam humildemente de uma vez por todas que esta estrada é absolutamente desnecessária!... O mais incrível e inaceitável de tudo isto, é o facto de a entidade que deveria promover e zelar pela protecção efectiva da Laurissilva - o GR, seja ela própria a tomar a iniciativa de a depreciar em grande escala, pomposamente anunciada no município que se intitula e se assume como Capital da Laurissilva!...Quando se assiste ao fenómeno imparável e impiedoso das alterações climáticas, e à crescente escassez de água, deveria prevalecer o bom senso e a competência, para se acautelar com o maior rigor possível a salvaguarda da nossa Laurissilva, considerando-a como se de um Santuário se tratasse. (...)" 
Depois do que li, concluo da falta rigor científico naquela obra. Prevaleceu a teimosia e a crónica tendência para o quero, posso e mando. A posição do presidente do governo regional é, por isso, insustentável. Parece-me existir gato (político) escondido com o rabo de fora! 
Mas o que mais me incomoda é uma outra crónica tendência para falar no singular: "eu vou avançar e concretizar a obra 
"(...) porque tenho mandato para isso". O presidente confunde, assim, maioria absoluta com poder absoluto. E esse poder absoluto não lhe foi outorgado, obviamente. 
O governo tem um presidente, mas não deixa de ser um órgão colegial. Falar no plural, no "nós", torna-se, no mínimo, mais simpático e elegante. O problema é a escola política de quarenta anos e que o actual presidente não consegue se libertar. Sempre foi o "eu" que pautou o discurso político e os outros membros do governo, humildemente, sempre aceitaram ser meros ajudantes de cena! 
Finalmente, não lhe ficaria mal se recuasse, se colocasse à discussão técnica e científica a estrada Ginjas-Paúl na defesa da Laurissilva. É tempo de acabar com caprichos e decisões que, pelo que li, poderão trazer consequências negativas. Mas, acentuo, desta matéria nada sei, apenas a sensibilidade me diz que, existindo controvérsia, deve-se debater com quem está habilitado para isso. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

AO POBRE... A MULTA. AO RICO... UMA ADVERTÊNCIA!



FACTO

"Tecnovia apanhada a furtar pedra (...) A construtora aproveitou o facto de estar a executar a obra de ampliação do troço final da Ribeira da Madalena do Mar para retirar inertes fora da zona de obras. A infração motivou APENAS uma advertência do governo". - 1ª página da edição de hoje do DN-Madeira.

COMENTÁRIO

Depois das trapalhadas na Ribeira dos Socorridos, de onde transpareceu para o cidadão comum, uma atitude ziguezagueante por parte do governo, dizendo uma coisa hoje e o seu contrário no dia seguinte, portanto, incapaz de acompanhar, fiscalizar, travar e multar, agora foi na Madalena do Mar, sublinhe-se, depois de uma denúncia. 
Ora, isto tem muito que se lhe diga. Esta evidente complacência, explica ou pode explicar muitos anos de cumplicidades entre pessoas muito próximas e que desempenharam ou desempenham funções na governação. É-lhes difícil dizerem NÃO. 
O Dr. Miguel Sousa (2017) chegou a denunciar, pública e frontalmente, que uma percentagem das obras (10%) tinham uma finalidade: "um regime caduco" com "braço corrupto". Vale a pena ter presente tais declarações. Pois bem, fizeram-se fortunas e compraram-se herdades que, por meios normais, seriam mais difíceis. Daí que, a lógica do podes roubar ou delapidar desde que ninguém veja, é uma cultura enraizada, quase impossível de romper enquanto o exercício da política regional for aquilo que é. 
Hoje, para os corruptos, convenhamos que já não é tão fácil. Essa ausência de princípios, valores e transparência, confronta-se com as redes sociais e com uma comunicação social que lá vai denunciando toda a porcaria que vão amassando à socapa. E há muito por descobrir e corrigir. Se há!
Um pobre arrisca o mar e apanha umas lapas ou uns quilos de pescado a mais e, se tem um agente por perto, zás, porque não cumpriu a regra fica de mãos a abanar e, certamente, com uma multa. Outros, bem posicionados, ricos, roubam, delapidam e colocam em risco a segurança, para esses o governo faz-lhes uma "advertência"! É espantoso. Mas a quem enganam?
Ilustração: Google Imagens.

Nunca seremos de mais, camaradas!


Por estatuadesal
Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 
19/08/2019

Para quem acha que todos os debates se resumem a um “prós e contras”, a greve dos motoristas, desconvocada este domingo, baralhou as trincheiras. Como tentei demonstrar nos dois últimos textos da edição semanal do Expresso, é possível considerar esta greve desproporcionada e a sua direção evidentemente oportunista e, no entanto, fazer uma avaliação crítica da exibição de força de um Governo que a viu como uma oportunidade para ganhar votos à direita. As duas coisas não são contraditórias. 



Correspondem ao mesmo, aliás: a uma preocupação com a defesa de um sindicalismo solidário e com a preservação dos valores que devem nortear a esquerda na sua relação com as lutas dos trabalhadores. A complexidade de um conflito pode obrigar a respostas igualmente complexas, mas não permite transvestismo. À esquerda, esse transvestimo corresponde ao discurso que nos diz que uma greve não pode prejudicar a economia, à aceitação de que subsídios podem substituir o salário base ou à satisfação com demonstrações de força perante uma greve.
Mas o mais delicioso foi assistir à autêntica transfiguração da direita mediática portuguesa, que por pouco não reivindicou para si o vocabulário marxista da luta de classes. Não é habitual ver a direita aplaudir uma greve, mas ainda menos comum vê-la aplaudir uma greve por tempo indeterminado por causa de um aumento em 2021.
É a mesma direita que costuma rasgar as vestes por qualquer greve de 24 horas para pressionar a uma negociação salarial congelada há anos. Não bate a bota com a perdigota. Nem sequer vou recordar o que disseram e escreveram noutras requisições civis, em greves que não eram por tempo indeterminado nem tinham a capacidade de paralisar toda a economia nacional. Não entro nesse jogo do teu foi pior do que o meu. Fico-me pela incoerência política mais essencial.
É estranho ver os maiores opositores da contratação coletiva – de tal forma que quase a fizeram desaparecer – apoiarem uma greve para que se reforcem as garantias no contrato coletivo de trabalho num sector que não o renegociava há duas décadas. É estranho ver os mesmos que diariamente defendem a flexibilização das leis laborais a bater-se por muito mais garantias legais para estes trabalhadores. É estranho ver quem quer prémios de produtividade no lugar de rendimento fixo defender a integração de pagamento por quilómetros no salário base. É estranho ver quem costuma defender que os aumentos salariais devem acompanhar a situação económica de um sector e das empresas bater-se por uma greve que quer fechar aumentos salariais para 2021 e 2022. E até houve quem apontasse as baterias ao poder cartelizado das petrolíferas quando foram os maiores defensores dos benefícios para a concorrência da sua privatização.

Esta greve, a natureza da sua liderança e a forma como o Governo lidou com ela levantam questões difíceis para a esquerda. Mas há coisas que não mudam de lugar. E as posições tomadas por grande parte da direita mediática exibem o seu oportunismo político. Nuns casos, ele é movido pela vontade de desgastar um Governo. Noutros, compreendem o potencial autodestrutivo que algum “novo sindicalismo” tem para o movimento sindical e querem dar-lhe gás. Noutros, querem exibir as contradições da esquerda, colocando-se eles próprios numa posição de insustentável incoerência.

Escrevi aqui que a irresponsabilidade mercenária com que esta luta foi dirigida fragilizou o sindicalismo e isso foi evidente na forma como acabaram por ter de recuar sem grande ganho aparente. Também escrevi que a exibição de testosterona de António Costa para conquistar ainda mais votos à direita fragilizou alguns valores fundamentais para esquerda. Mas a direita que sobra, que é a que fala nos jornais e nas televisões, não sai melhor deste filme. A incoerência oportunista a que se entregou por estes dias fragilizou o seu discurso e afastou-a ainda mais da base que a apoia. Por mim, está tudo bem. Nunca são de mais os que defendem os direitos para quem trabalha. Até os travestis políticos são bem-vindos.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A Estrada das Ginjas – Parte I


Por
DN - Madeira 20 AGO 2019 

Fiquei verdadeiramente estupefcto, quando li no DN de 24 de Julho último, solenemente anunciado pelo Presidente do GR, que estão para breve os trabalhos de arranjo e reabertura ao trânsito rodoviário da Estrada das Ginjas. Pergunta-se para quê, com que objectivo? Mas antes, vamos a um pouco de história:

Estávamos no início da década de 1980, quando os Serviços Florestais da Madeira decidiram rasgar um acesso rodoviário, no Concelhio de S. Vicente, entre a localidade das Ginjas e a dos Estanquinhos no Paúl da Serra, passando pelo sítio do Caramujo. Nunca se entendeu muito bem qual a justificação de semelhante obra, uma vez que não serviria agregados populacionais ou agrícolas, nem tão pouco haveria necessidade de proceder a trabalhos de reflorestação ou de limpezas florestais, dado que a área em questão se encontrava coberta por densa floresta Laurissilva.
De qualquer modo, foram colocadas as máquinas no terreno, junto à Levada Grande ou Canal do Norte, no sítio das Ginjas, e iniciaram-se os trabalhos de desbravamento, subindo encosta fora aos ziguezagues. Os danos no coberto vegetal foram então inevitáveis e bastante notórios, principalmente na zona quase plana do Caramujo.
Por essa altura, tinha iniciado havia pouco tempo, a minha actividade profissional, tendo sido colocado na Circunscrição Florestal do Funchal. Integrava aí a equipa de trabalho que procedia no terreno, ao reconhecimento e delimitação do que viria a ser o Parque Natural da Madeira. Recordo-me de o meu Director, a dada altura, me ter pedido para acompanhar os trabalhos de abertura da estrada, ao que solicitei escusa a essa tarefa, pelo facto de não concordar em absoluto com tal obra, alegando as razões que me pareceram então óbvias, e que ainda hoje se mantêm perfeitamente actuais.

Os trabalhos prosseguiram, e ao fim de uns longos meses, as máquinas atingiram finalmente o sítio dos Estanquinhos, no bordo Nordeste do planalto do Paúl da Serra, vencendo um desnível de 600 m. Para trás ficou um rasto de destruição significativo ao longo de 10 Km, numa zona até então praticamente intocada, e com pouca ou nenhuma pressão humana.

Dizia-se então que a estrada agora aberta, constituiria uma alternativa rodoviária à Estrada Regional, assegurando assim o não isolamento da Vila de S. Vicente, servindo como escapatória para o Sul da Ilha. A estrada de terra batida, rapidamente começou a sofrer as consequências erosivas dos rigores dos invernos nortenhos, e as chuvas que por vezes lá caem abundantemente, tornaram-na dificilmente transitável, mesmo por viaturas todo-o-terreno. Pouca ou nenhuma utilidade teve aquela estrada ao longo dos anos. Deixada a um relativo abandono, a generosa floresta indígena foi gradualmente regenerando, numa tentativa de cicatrizar a extensa ferida que lhe causaram.
Entretanto, no ano de 1982 é criado oficialmente o Parque Natural da Madeira, o que foi o grande instrumento de ordenamento e gestão do património natural da Ilha, ficando a área em questão classificada como “Reserva Natural” e “Reserva Geológica e de Vegetação de Altitude”, respectivamente.
Com tal notícia, veio também a saber-se que nos trabalhos vão ser utilizados dinheiros comunitários do PRODERAM, e que a estrada terá um “pavimento especial não impermeabilizado”. Gostaria que me esclarecessem como é que num acesso compactado pela circulação automóvel, apresentando um declive como aquele, se garante a infiltração no solo das águas pluviais?!
Não nos tomem por tolos com falácias deste género, e assumam humildemente de uma vez por todas que esta estrada é absolutamente desnecessária!....
O mais incrível e inaceitável de tudo isto, é o facto de a entidade que deveria promover e zelar pela protecção efectiva da Laurissilva - o GR, seja ela própria a tomar a iniciativa de a depreciar em grande escala, pomposamente anunciada no município que se intitula e se assume como Capital da Laurissilva!...Quando se assiste ao fenómeno imparável e impiedoso das alterações climáticas, e à crescente escassez de água, deveria prevalecer o bom senso e a competência, para se acautelar com o maior rigor possível a salvaguarda da nossa Laurissilva, considerando-a como se de um Santuário se tratasse.
E por hoje aqui me fico...

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

As televisões, a greve e o caos


Por estatuadesal
Eldad Manuel Neto, 
11/08/2019


1- O conteúdo massacrante das notícias das televisões é um exercício pérfido e tendencioso deturpador da realidade. A grande maioria dos postos tem combustível e só um pequeno número aguarda reabastecimento.

2- 90% dos postos estão a abastecer os clientes. O clima geral é de normalidade e tranquilo. No entanto as Tvs bombardeiam com a notícia de 10% das bombas já não possuírem combustível.

3- Hoje ninguém tem dúvidas sobre a oportunidade e reais intenções dos principais protagonistas desta greve: aproveitar cirurgicamente as vésperas dumas eleições, semear a intranquilidade, lançar o caos e provocar danos de dimensão gigantesca ao País e aos Portugueses. Danos de dimensão totalmente desproporcionada e de difícil reparação.

4- Se alguma dúvida restasse sobre os propósitos desta greve bastará observar as posições dos partidos da direita parlamentar para percebermos o dissimulado apoio que prestam à anunciada greve.

5- Sempre aprovaram leis que prejudicaram seriamente os interesses de quem trabalha. Aprovaram cortes nos subsídios, votaram contra o salário mínimo e vêm agora, em Pilatico exercício, estender a mão aos desprotegidos grevistas!!!

6- Tornou-se evidente que os partidos da direita estavam preparados para, em face do caos, da instabilidade e da perturbação geral do País, sairem a terreiro a zurzir no governo, a capitalizar o descontentamento geral e, qual cereja em cima do bolo, a reclamar a alteração da Lei da Greve!

7- As Televisões desempenham um importante papel na contribuição de climas e retratos da realidade que, muitas vezes, abalam consciências menos prevenidas recorrendo à trafulhice panfletária e, não raras vezes, à difusão de falsidades. Assim, permanentemente, atacam a credibilidade de políticos, difundem um pretenso caos no Serviço Nacional de Saúde, na direção da Proteção Civil, nos Registos e nos Tribunais mais parecendo que vivemos num país à beira da tragédia colectiva.

8- Apesar dos propósitos e conjugados esforços dos profetas da desgraça as sondagens dão à direita parlamentar 25 a 27% dos votos dos portugueses adivinhando-se a sua estrondosa derrota eleitoral.

9- Os comentadores de serviço bem se esforçam por socavar a imagem genericamente positiva que os portugueses têm da Geringonça. Mas a Geringonça funcionou. E o povo quer que continue a funcionar.

10- Já agora sublinho uma das últimas leis aprovadas no Parlamento por proposta do PCP. São as novas regras e estrangulamentos legais das penhoras e execuções sobre a casa morada de família protegendo as famílias em dificuldades financeiras . A este tema voltarei, dada a sua importância.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Para os amigos tudo, para os inimigos nada e aos restantes aplique-se a lei!

Quando se encontrava em fase de construção. Mais um "navio encalhado" 


FACTO

"O Governo Regional, através da Secretaria Regional da Inclusão e dos Assuntos Sociais, vai investir cerca de 655 mil euros em 10 acções de formação para responder às necessidades de recursos humanos do novo hotel Savoy Palace, a abrir no próximo ano na Madeira. No total, está previsto abranger 195 desempregados no projecto". Fonte: Dnotícias - 08.08.2019

COMENTÁRIO

Por favor, façam-me um desenho, porque, pelo menos eu, estou com dificuldades em entender. Sucintamente, vamos lá por partes: primeiro, a entidade promotora sabia que, para aquilo funcionar, precisaria de ter pessoal habilitado. Logo, pressupondo a existência de défice de oferta, certamente acautelou, promovendo tal formação especializada, com posteriores estágios nos hotéis do grupo. Portanto, deduzo, terá elaborado e quantificado o respectivo plano de formação; segundo, o governo, ao apoiar o promotor, acaba por transmitir a ideia que descurou a formação profissional (pública e privada), daí que esta apresente défice, colocando em causa a resposta adequada face à previsibilidade dos investimentos privados. Deduz-se, assim, que o sistema educativo (domínio profissional) evidencie lacunas ao não adequar a oferta à procura; terceiro, parece que não existem prioridades orçamentais de âmbito social (verba a sair da Secretaria Regional da Inclusão e dos Assuntos Sociais).
É claro que não estranho esta facilidade, mesmo que legalmente enquadrada, como não estranhei o licenciamento inicial do mamarracho. Quem ontem licenciou a obra, hoje, abre os cordões à bolsa entregando mais seiscentos e cinquenta mil, a juntar, segundo li, aos 2,5 milhões de fundos comunitários! Ora, a pergunta que qualquer cidadão pode fazer talvez seja esta: por que raio, através dos impostos de todos, temos de pagar a formação profissional de um grupo privado? Terão os contribuintes direito aos posteriores dividendos, mesmo que por daqui a vinte anos? E este apoio não constituirá uma deslealdade face à concorrência?
Façam-me um desenho. E não me venham com a historieta que serão x postos de trabalho que estão em causa. O problema é outro, obviamente. É de princípio e de planeamento!
Talvez seja oportuno contar um episódio. Primórdios de 1970, por aí. Assisti a uma conferência no decorrer da qual, o conferencista disse, não estou certo dos números, que, em 1985, a Suécia precisaria de 5.542,5 novos professores (os números não são os referidos na altura e isso pouco interessa). Alguém perguntou, sobre o porquê do "vírgula, cinco". Resposta célere: não sei, são números do planeamento. O que sei, disse o conferencista, é que "vão trabalhar para que exista uma resposta às necessidades".
Repito, façam-me um desenho, porque, sinceramente, não sendo o turismo o meu sector, sinto-me limitadíssimo e não quero concluir de mais um jeitinho! Só desabafo porque são, também, os meus impostos que estão em causa. Na política e nas amizades cúmplices, de acordo com Maquiavel, sabe-se que para os amigos tudo, para os inimigos nada e, aos restantes, aplique-se a lei.

MAIS 17,5 MILHÕES 
PARA O SISTEMA EDUCATIVO PRIVADO


Para além dos 655 mil Euros para a formação de pessoal do Hotel Savoy, o Governo Regional aprovou, ontem, contratos-programa, a subscrever com 27 estabelecimentos de ensino particular, no valor global de 17,5 milhões de euros. "Uma decisão que teve em conta que os estabelecimentos de ensino particular asseguram uma desejável complementaridade com o sector público, disponibilizando uma oferta que permite a liberdade de escolha das famílias (...)". 
Dois aspectos: primeiro, estes 17,5 milhões, agora anunciados, pergunto, farão parte dos 30 milhões referidos no debate do orçamento regional de 2019, ou trata-se de mais uma ajudinha? É preciso que isto seja esclarecido; segundo, o governo confunde o direito à livre opção das famílias com o direito à Educação. O direito à Educação consubstancia-se no quadro da Constituição da República e daí decorre que seja o sector público a assegurá-lo de forma universal e gratuita. O direito à livre opção deve corresponder ao paralelismo curricular e não às despesas de funcionamento. Quem quer opta e paga. Os governos só devem subsidiar, no justo valor, quando o sector público não consegue dar resposta. Aí é dever do sector público pagar para que ninguém fique para trás. 
Sobre isto, em tempo de campanha eleitoral, seria bom que os partidos se definissem.
Ilustração: Arquivo próprio.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O CDS e a (des)educação


Por estatuadesal
Marisa Matias, 
in Diário de Notícias, 
03/08/2019

Não é preciso ler livros como Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana.


Entrar a "preços de mercado" em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.Não se trata de notícia falsa, mas parece. Ou isso ou falta de vergonha na cara. Equiparar a escola pública e a universidade pública à lógica do privado é uma ideia totalmente fora do quadro constitucional e um ataque direto a uma democracia que se queira inclusiva, e é seguramente uma aberração sob qualquer ponto de vista.
O CDS, que sempre defendeu que devia ser a meritocracia a vingar em todos os setores da sociedade, parece sofrer de amnésia seletiva. O que esta proposta demonstra é que o CDS entrou no "vale tudo", antes fosse efeito da silly season.
Sabemos que a verdadeira intenção do CDS é ir contaminando todo o setor público até que dele pouco reste. Tem-no tentado fazer na saúde, na segurança social e, claro está, na educação. Mas a diferença na educação é que, até agora, as propostas passavam por esvaziar a escola pública por via do subfinanciamento ou pela desconsideração dos profissionais da educação, ao mesmo tempo que propunham desviar os dinheiros públicos para o setor privado. Esta proposta agora apresentada vai uns passos mais à frente. Mantém-se a sempre inalterável intenção de subverter a escola pública à lógica dos privados, mas a incoerência com o que o próprio partido vem defendido é de tal ordem que roça o insulto.
Uma das dimensões das desigualdades sociais em qualquer sociedade é que existem fatores de opressão que prevalecem nas vidas quotidianas. Os que têm mais recursos acabam por ter vantagem sobre as classes populares. Quem viveu a realidade da pobreza ou de poucos recursos sabe bem o que isso é, da mesma forma como sabe que a escola pública ou a saúde pública a funcionarem no seu sentido pleno são dos melhores antídotos a essa opressão. A escola pública no seu verdadeiro sentido promove princípios como a autonomia e a liberdade. É na escola pública que podem encontrar-se as ferramentas necessárias para o desenvolvimento da consciência social. É na escola pública que reside um dos maiores garantes para a igualdade. Deturpar estes princípios pela via da introdução de corredores abertos para quem tem mais recursos, pela simples razão de ter mais recursos, é a anulação da própria democracia. O CDS provou, mais uma vez, com esta proposta que anda longe de encontrar-se. Insistir na divisão de um país é um caminho perigoso e não serve a ninguém.
Eurodeputada do BE

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Os que receiam


Por
DN-Madeira
06 AGO 2019 

Ser do PPD na Madeira, não é bem uma opção política, é mais um “arranjo de vida”, inscrevem-se na “J”, participam nuns comícios e arruadas e depois de adquirirem algum tipo de notoriedade, passam a integrar a divisão “sénior”. Quando se é “bem-nascido”, com o sobrenome certo e a quantidade certa de sangue laranja a correr nas veias, ocupa-se diretamente um lugar na administração pública. Não necessitam sequer de se submeter a qualquer concurso. Quando pode dar muito nas vistas, publica-se o concurso, como manda a lei, mas não no DN-M ou no JM, como era suposto, mas publicam por exemplo, no Jornal do Fundão, não vá algum madeirense ver e opor-se. Se, mesmo assim, algum “fundanense” repara e se opõe ao concurso, o problema é resolvido com uma “entrevista” de forma a garantir que o resultado seja para quem estava destinado. Outra das formas utilizadas para colocar “os nossos”, é a do “regime de substituição”. Sem grandes exigências faz-se a nomeação. O nomeado fica no lugar algum tempo, depois abre-se o concurso para a vaga e pasme-se, a principal exigência é a de ter experiência na função, justamente a experiência que foi adquirida através da nomeação discricionária.

Nesta tribo, cada um tem o seu lugar, para uns, os da 1ª divisão, são a extração de inertes nas ribeiras, os portos, a escola hoteleira, o centro de inspeções, etc., etc. Para os da 2ª divisão, a Administração pública e as empresas públicas, para os demais, os de “má cabeça para a escola”, sobra sempre um lugarzinho de A.O. numa escola, uma bata azul, uma secretária com um telefone à porta duma repartição.
De vez em quando, de quatro em quatro anos, o vento agita a paz podre, há eleições e “ai Jesus”, se não formos nós, será o fim do mundo. Os que ainda não tiveram direito a nada, têm a sua vez, telha, cimento ou eletrodoméstico. Se plantou duas alfaces, ou fez uma bainha, terá um subsídio, se não fez, terá também. Haverá circo, inaugurações e subsídios para tudo e todos, para que não se esqueçam de nós (deles) na hora do voto. Se, até agora, três ou mais pescadores numa embarcação podiam pescar 25Kg de peixe não contando com o peso dos dois maiores exemplares, a partir do mês passado poderão pescar o mesmo peso, mas o número de exemplares de maior peso que não contam para os 25Kg, passou eleitoralmente de dois para QUINZE. É fartar vilanagem, escancarar as portas aos “piratas” do mar ou das ribeiras, porque se houver uma aluvião ou não houver peixe, isso será apenas depois das eleições.
Para se ser governante do PPD, diretor de serviço ou chefe de divisão não é necessária formação específica, experiência, curriculum ou sequer ter anteriormente gerido alguma coisa. Uma pergunta indiscreta: quem será o diretor do Atelier Vicente (não Vicente´s, como uma criatura iluminada designou, pensando talvez tratar-se dum restaurante italiano). Fala-se se de escusas no júri. Por que será? Tal como as demais nomeações, terá de ser em breve “não vá o diabo tecê-las”.

A economia da Madeira alegadamente cresce há 70 meses. A minha não cresceu um cêntimo. A sua cresceu? Sendo verdadeira esta afirmação, então afinal para quem será que cresceu?

Tudo o que de bom se fez por cá é mérito do GR, tudo o que falta ou não se fez, a culpa é do Costa. Com a previsível vitória do Costa, este PPD estará em condições de negociar o que quer que seja? O que poderá fazer para combater o centralismo? Podem berrar e espernear à vontade, pois Costa que não precisa do PPD-M para nada, se lhe apetecer, fará exclusivamente o que a Constituição e a Lei das F. Regionais o obrigam. A saúde, por exemplo está regionalizada. Se Costa quiser, “chuta para canto”. Fazer isto ou aquilo, não é importante, o que interessa mesmo ao PPD é que a situação se mantenha e que eles e os amigos continuem a “aproveitar”.
Sintoma da mentalidade gueto do PPD, é por exemplo a comemoração dos 600 anos da descoberta da Madeira. Criando à partida a comemoração doméstica, intestina, como se a Madeira tivesse sido descoberta pelos madeirenses e não pelos portugueses como foi efetivamente. Fez-se uma comemoração míope, perdendo a oportunidade de envolver o todo Nacional, com todos os benefícios que daí adviriam.
Depois das últimas eleições para a AR, Passos Coelho, andou meses a “bradar aos céus”, que com o PS, no governo, viria o diabo e que viria a bancarrota. Acontece que o diabo não veio e que, para a maioria de nós, a vida está melhor, O PPD-M, usa o mesmo discurso, a mesma tática. Procura a todo o custo fazer-nos querer que se não forem eles a governar, será o “fim do mundo”.
O importante é interromper este “círculo interminável” de 40 anos. As raízes do PPD-M, são profundas, estão em todas as casas do Povo, Clubes, Associações. Não se distingue o PPD da máquina administrativa. Uma vez interrompido o ciclo é fácil de quatro em quatro anos, avaliar a governação e fazer escolhas diferentes. Se não nos governarem bem, será fácil ao fim de quatro anos, escolhermos outros. Poderão inclusivamente voltar a ser escolhidos outra vez os do PPD se as pessoas assim o entenderem.
As últimas eleições autárquicas mostram-nos que nas câmaras ganhas pela oposição e pelos independentes, as dívidas pagam-se, a obra nasce, a “coisa” funciona, mesmo com a recusa de Albuquerque em fazer contratos programa. Esta é a prova provada de que se o PPD ao perder as eleições, não foi o fim do mundo, antes pelo contrário, com as “novas cabeças”, novas ideias e novos procedimentos, não é o paraíso, mas as coisas até melhoraram. Vendo bem, quatro anos, passam num instante.

NOTA
Publicado na edição de hoje do DIÁRIO de NOTÍCIAS da Madeira.

sábado, 3 de agosto de 2019

PAULO CAMACHO - 31 ANOS DEPOIS DOS JOGOS OLÍMPICOS DE SEOUL




Sónia Silva Franco, jornalista, biógrafa, Licenciada em História é a proprietária da Arteleia. Esta semana, sob a sua responsabilidade, foi publicado o livro "Ondas de Glória - Momentos históricos da natação da Madeira". Fizeram-me chegar uma foto do meu Amigo Paulo Camacho com a Drª Sónia Silva Franco. Que saudades! Tem algum tempo que não o via. Quase instantaneamente um turbilhão de imagens passaram pela minha cabeça, de anos e anos de convívio, de grandes êxitos vividos em comum e dos momentos menos bons que partilhámos, tendo sempre por princípio, na expressão de Peter Daland (1921/2014) que o treino é "dor, sofrimento e agonia". Imagens que passam, sequencialmente, na minha memória, impossíveis de apagar, pelo que fiquei feliz por vê-lo fazer parte deste livro. 
A 25 de Março de 2014 escrevi um texto que aqui reproduzo:
Um óleo do Doutor Rui Carita
"O maior de todos", sintetiza o Diário de Notícias de hoje, numa entrevista conduzida por Herberto Duarte Pereira. De facto, Paulo Camacho, foi um nadador extraordinário. Tenho saudades desse tempo, de vê-lo nadar, pela sua apurada técnica, pela sua capacidade física, pelo empenho que demonstrava e pela concentração antes das competições. Quando se pensava que uma prova estava perdida, lutava e ganhava. Julgo que o seu melhor registo foi 56''78 centésimos nos 100 metros mariposa e que foi recorde nacional absoluto. Uma marca que lhe garantiu a presença no Campeonato do Mundo. Melhor que os 57'' que o apurou para os Jogos Olímpicos de Seoul. 
Foi o nadador mais completo de Portugal quer em juniores quer ao nível absoluto. Viajou por todos os Continentes integrado na selecção nacional, numa altura que, por aqui, as condições de treino eram quase nulas. 
A foto ao lado é um fantástico óleo do Doutor Rui Carita e que serviu de capa ao VI Grande Prémio Internacional Cidade do Funchal, organizado pelo Clube Naval do Funchal.
O seu palmarés é invejável. Em síntese:

Melhor nadador português da geração de 1970.
Único nadador madeirense que percorreu todas as etapas: campeão regional, campeão nacional, Campeonato da Europa de juniores, Campeonato da Europa absoluto, Campeonato do Mundo de piscina curta, Campeonato do Mundo de piscina de 50 mts. e Jogos Olímpicos.
Nadador com o Estatuto de Atleta de Alta Competição Nacional com a categoria Europeia.
Campeão e recordista regional absoluto em doze das catorze provas do programa olímpico.
Campeão Nacional em várias distâncias, com destaque para os 100 mariposa e 200 mts, livres.
Título de nadador mais completo de Portugal na categoria de Juniores (1986 e 1987).
Título de nadador mais completo de Portugal ao nível absoluto (1989/90).
Vencedor absoluto do Torneio Nacional de Fundo na prova dos 1500 metros (1987).
Vencedor no Torneio Multinations, disputado em Antuérpia, em 1988, da prova de 100 mts. mariposa (57,47).
Recordista Nacional de categoria e absoluto dos 100 mariposa.
Participação no Campeonato da Europa de Juniores.
Participação no Campeonato da Europa Absoluto (Shefield – 1993). A marca de admissão (56’49) foi conseguida no Campeonato Nacional Absoluto de 1993.
Participação no I Campeonato do Mundo de piscina curta (Palma de Maiorca – 1993/94).
Participação no VII Campeonato do Mundo de piscina de dimensões olímpicas (Perth – Austrália – Janeiro de 1991). A marca de 56,78 nos 100 mariposa foi conseguida na piscina de Indianápolis, no Open dos Estados Unidos.
Participante nos Jogos Olímpicos de Seoul-88 na prova dos 100 mts. mariposa (57,62)
Participação, em representação de Portugal, em muitos «meeting’s» na Europa, em África, na América do Norte e do Sul.
Medalha de Mérito Desportivo Regional, atribuído pelo Governo da Região Autónoma da Madeira.

Faz, neste mês de Agosto, 31 anos após Seoul. Um abraço Paulo e um brinde a essa data que aos dois enche de orgulho. A sua felicidade sempre foi a minha felicidade.