segunda-feira, 30 de setembro de 2019

AS RAZÕES DO MEU VOTO EM CARLOS PEREIRA


Domingo próximo os cidadãos são chamados a votar para a nova composição da Assembleia da República. Dali sairá um governo para os próximos quatro anos. Para o País, no seu todo, estas são eleições extremamente importantes atendendo aos mais variados sectores de análise, onde se destaca, naturalmente, as responsabilidades com a dívida pública que se situava, em Maio último, em 252,5 mil milhões de euros, o que significa cerca de 123% em percentagem do PIB (em 1995 era de 61,6% do PIB). Conjugado com este valor estão as necessidades reivindicadas pelos trabalhadores em geral, a grave situação de pobreza, com milhares de pensionistas vítimas da conjuntura (e não só), as questões da educação, saúde e segurança social! Entre outros, harmonizar estes aspectos com as necessidades de crescimento e desenvolvimento do interior, o combate à desertificação em contraponto com os grandes problemas nas cidades, as preocupações com o saldo fisiológico, as políticas empresariais geradoras de emprego mais estável, a justa reivindicação pela diminuição da carga fiscal, compreende-se que, tudo isto e muito, muito mais não constitui tarefa fácil. Se nos últimos quatro anos assistimos a uma significativa recuperação de alguns direitos, claramente extorquidos entre 2011 e 2015 (e até um pouco antes), o próximo passo pode ser determinante nesse caminhar por um Portugal onde não exista mais direitos do que justiça social. Depende de todos nós e daqueles que nos representam, muito para além dos partidos a que pertencem.


Para a Região da Madeira a eleição dos deputados é fundamental, simplesmente porque é no hemiciclo de S. Bento, talvez mais do que no seio do futuro governo, que alguns dossiês podem ser analisados e discutidos com vantagem para a Região. 
É que, se nunca foi, agora mais do que nunca, a solução dos problemas não passa por uma gritaria histérica e por ofensas gratuitas da ilha para o espaço continental, mas por uma pressão inteligente e pela capacidade negociadora; não vai através de repetidos "casos do dia" enquadrados mais na lógica de apresentação pública de serviço partidário do que na solução dos problemas. Vai, estou convicto, pela intervenção com rigor, qualidade técnica, científica e política capaz de trazer a água ao moinho, com dignidade e sem o "chapéu na mão". Ademais, hoje, as questões mais substantivas são de natureza económica e financeira e essa formação académica parece-me determinante.
O meu voto será depositado na candidatura do Dr. Carlos Pereira. Votarei na pessoa, porque ela concede-me as garantias necessárias para ajudar a resolver os problemas da Região, ao longo desta legislatura que se adivinha muito complicada. Aliás, na Assembleia da República, no último mandato, Carlos Pereira foi uma figura determinante ao ponto de ser reconhecido pelos seus pares, pela qualidade da intervenção, notável capacidade argumentativa, inteligência, eficácia e pela aptidão na negociação, sem necessidade de andar a gerar guerras e desconfortos que a nada conduzem. 
Faz HOJE quatro anos (30.09.2015) que escrevi um texto a propósito da candidatura do Dr. Carlos Pereira. Transcrevo-o, passado este tempo, porque, na verdade, não me enganei.

"O Dr. Carlos Pereira não é um político de aviário. Não apareceu nestas eleições porque estava a seguir na listinha dos "boy's" ou para contentar uma qualquer facção. A sua luta vem de longe, com muitas contrariedades pelo meio e muita maldade de gentinha sem escrúpulos que fizeram abalar a sua vida profissional. Por aqui, fecharam-lhe portas ao jeito de para aquele nada. O poder, do tipo "duracel", foi mais forte e cumpriu, na íntegra, o que sempre, perversamente, soube fazer: "para os amigos tudo, para os inimigos nada e, para os restantes, aplique-se a lei". Carlos Pereira não se deu por derrotado e fez dessa tentativa de amesquinhamento as forças necessárias para seguir o seu caminho profissional e o das suas convicções político-sociais. Tenho presente todas as suas lutas por uma sociedade melhor. 

Mas muito mais do que isso: tenho presente o político, que me habituei a seguir, que não fala de cor, que não manda para o ar umas frases feitas, antes estuda os problemas e apresenta soluções. Com o devido respeito por todas as candidaturas, ninguém se iguala à consistência técnica e política de Carlos Pereira. 

Quando uns falam de assuntos que são de junta de freguesia ou de câmara municipal, ele fala do País e da Região nas vertentes política, económica, social e cultural que a todos afecta; quando uns prometem "Autonomia Sempre" quando, na verdade, devolveram-na ao Terreiro do Paço, Carlos Pereira fala do resgate da obra maior do 25 de Abril, a possibilidade de sermos nós, madeirenses, autonomamente, com responsabilidade, a desenharmos o nosso futuro; quanto uns falam de anos de experiência (sempre repetida, diga-se), Carlos Pereira apresenta-se com a experiência sempre actualizada e portadora de futuro (...)".

Por isso, não tenho a menor dúvida que ele irá continuar o seu trabalho, no quadro do que há muito diz: SEMPRE PELA MADEIRA.

domingo, 29 de setembro de 2019

Os pegadores


Por
DN - Madeira
28 SET 2019

Se de manhã tinha votado por dever mais do que por convicção, à noite só me apetecia vomitar.

Até agora não saí do pasmo! Há uma semana que ando às voltas para arrumar o assunto mas ainda não consegui, apesar de já ter idade para conhecer os meandros do caráter humano – ou, melhor, da falta dele – e deixar de lado a ingenuidade que persiste em me fazer crer no brio, na honra e, sobretudo, na dignidade do ser humano. Qualidades superiores que, sem dúvida, inspiram o respeito, mas que, na fome desesperada de poder, são letra morta como ficou mais do que claro no passado domingo, quando foram dados a conhecer os resultados eleitorais.
Confesso que se de manhã tinha votado por dever mais do que por convicção, à noite só me apetecia vomitar face à náusea que tomou conta de mim ao assistir em direto às reacções dos partidos, a maioria dos quais vencedores não sei bem de quê, perante os resultados. Ainda, aliás, ecoam na minha cabeça os gritos descontrolados na sede do PSD/Madeira, onde era traçado o panegírico a Miguel Albuquerque por figuras da nossa praça que, esquecendo-se do seu estatuto e do dever de guardar a sua imagem, só faziam lembrar, parafraseando um dos críticos mais acutilantes da atualidade, gente que (dignamente) não sabe estar. E se, do outro lado do charco, também havia quem aclamasse a vitória de Paulo Cafôfo e do PS/Madeira, que em termos práticos ficou rigorosamente igual (ou pior) a como estava antes das eleições, deste lado mais asco suscitou assistir a um quadro verdadeiramente surrealista pintado na sede do 

CDS/Madeira que, em vez de chorar a mais do que óbvia derrota enquanto partido, clamava uma vitória própria dos fracos e de quem não olha a meios para chegar ao poder. Sorrisos desbocados, rostos rosados e anafados, punhos cerrados vitoriosos, declarações inflamadas, chantagens anunciadas, tudo foi absolutamente absurdo na reação dos centristas, alguns dos quais com indignas histórias de bastidores para contar e que, salivando devido à possibilidade do poder, celebraram a suposta vitória de um partido, o PSD, que até há poucos dias era um alvo a abater. Haja vergonha, pelo menos!

A este propósito, lembrei-me de Vieira, não do Ricardo que liderou o CDS em tempos idos, mas do padre que, à semelhança de Santo António, pregou aos peixes, invocando entre eles os pegadores que, “sendo pequenos, não só se chegam aos outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram”... Um “modo de vida”, política acrescento eu, que segundo o missionário seiscentista traduz uma forma de ser “mais astuta que generosa”, própria dos parasitas oportunistas que se “arrimam” aos mais fortes para que “lhe[s] matem a fome”. Grande Vieira, cuja intemporalidade quase assusta mais do que fascina!
Por isto tudo, desenganem-se aqueles que pensam que alguém ganhou as eleições. O único vencedor que houve foi o “tacho” e os vencidos fomos nós, contribuintes, que, ao longo de mais quatro anos, sustentaremos os “favores” e a vil ganância de pegadores e não só. Com maior ou menor pasmo, claro.

sábado, 28 de setembro de 2019

CDS, ajudem a compreender, pois confesso a minha dificuldade!


O meu sogro, já falecido, foi uma figura muito respeitada no CDS. Chegou a ser deputado, para além de membro da comissão política. O Professor Jardim era uma personalidade fantástica, pelos seus princípios e valores, pelas amizades que sabia cultivar, pelo trato amável e sincero. Era uma pessoa encantadora com quem muito aprendi. Nos nossos debates muito amigos lá em casa, eu ia escrever discussões políticas, mas não, eram debates sérios e muitas vezes profundos, entre pontos e contrapontos, um dia, a conversa derivou para a relação entre a Democracia Cristã e o Socialismo Democrático.


Em síntese, dizia-me, que, apesar dos ramos católico, protestante e outros, inclusive o estado laico, grosso modo, a democracia cristã, pelo menos em Portugal, seguia de certa forma a pureza da "Doutrina Social da Igreja Católica", mormente os princípios e valores cristãos. E, portanto, sendo liberal, no quadro de uma economia humanista, diferenciava-se de outros liberais exactamente nos planos económico e social, isto é, queria ele certamente dizer, dos social-democratas, independentemente das designações que assumem. Diferenciava-se, ainda, na luta política pelos diversos poderes, porque, essencialmente, era o ser humano que estava em causa. Ah, obviamente, enaltecia que se opunha a todos os sistemas fortes, centralizados ou docemente autoritários. No essencial, eram democratas e cristãos. 
É claro que este posicionamento conduziu a mais do que um debate e, volta e meia, lá estávamos, eu e o meu cunhado, a picá-lo para mais uma ronda, muitas vezes com um petisco pelo meio. Um dia, no meio de uma salutar gargalhada a propósito do que falávamos, disse-lhe que Cristo, pelas posições que assumiu, tinha sido um arreigado "socialista" e, pelo que se sabe, democrático! Não se vendeu, antes expulsou os vendilhões do templo. Não vou mais longe e fico por este enquadramento sumário resultante de saborosos diálogos, até porque não sou estudioso destas matérias e porque existe uma história de posicionamentos ideológicos muito complexos face aos formatos que existem um pouco por todo o mundo. 

Ora, tudo isto a propósito dos últimos dias políticos, que me fizeram trazer em pensamento o Professor Fernando da Conceição Jardim. A pública luta por querer ser poder, ou melhor, de integrar uma coligação regional, prognostico eu, de onde sairá fragilizado, constitui uma fuga aos tais princípios que enformam a Democracia Cristã. Ou, então, a ambição política tornou-os mais social-democratas do que democratas-cristãos. Os princípios, mesmo que estejam inscritos em um qualquer papel, julgo eu, tornou-se letra morta. A ideia que começa  a ser pública e notória, por um lado, é a de aproveitar a oportunidade, por outro, passar uma esponja sobre um passado terrível de ofensas grotescas que até invadiu a esfera familiar de várias figuras e, por outro ainda, negar uma parte da sua matriz ideológica. Agora, dizem-se próximos, mas a  verdade é que, ao longo de quarenta anos, por múltiplas razões, pareceram-me nos antípodas da proximidade. Basta consultar o diário das sessões da Assembleia Legislativa.

Há, claramente, ausência de memória e de respeito pelo legado ideológico de tantas figuras de referência, algumas ocorrem-me ao ritmo que digito, entre muitos, os nomes de Konrad Adenauer, Robert Schuman, Diogo Freitas do Amaral, Adriano Moreira e Lucas Pires. Embora situando-me em um espaço distinto, não deixo de reconhecer a capacidade política, verticalidade e sentido de humanista.
Vou terminar este breve texto, escrito ao ritmo do pensamento, mas gostava que me ajudassem a compreender este desejo pelo "carro preto", como, há uns anos, tão bem classificou o Dr. António Fontes relativamente às benesses do poder. Para mim constitui uma dificuldade compreender certas opções. Talvez, por isso, deixo aqui um texto que encontrei a propósito de "um prato de lentilhas". Se a história é verdadeira ou falsa, não sei, mas perdura como mensagem popular.
"Conta a Bíblia que Esaú, filho de Isaac e Rebeca, chegando a casa depois de uma caçada, viu seu irmão gémeo, Jacó, preparando um ensopado de lentilhas. Morto de fome depois da lida na floresta, Esaú pediu a Jacó que lhe servisse um prato daquela deliciosa iguaria (para quem está com fome, tudo parece uma deliciosa iguaria…). Jacó, muito esperto, resolveu tirar proveito da situação, e exigiu em troca que Esaú lhe cedesse os direitos da primogenitura. É bom explicar que, embora gémeos, Esaú nasceu primeiro, e, portanto, era o primogénito. E ser primogénito, naqueles tempos bíblicos, era usufruir de uma série de vantagens, inclusive as bênçãos de Deus em pessoa. Claro que Esaú se arrependeu amargamente. Mas então já era tarde… Foi assim que a lentilha protagonizou uma lição para toda a eternidade: pense bem antes de trocar os seus direitos por um prato de lentilhas. Pode não valer a pena!"
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Desconcertante


Christine Lagard é uma personalidade politicamente estranha. O jornal britânico "The Dail Telegraph" fez-lhe um retrato que, no final, o leitor questiona-se, mas que personalidade é esta que "saltita com uma facilidade desconcertante entre os cargos de alta responsabilidade, sem nunca ter de se preocupar com os eleitores reais"? Esta questão está no Courrier Internacional deste mês. 


De facto, a escolha para liderar o Banco Central Europeu, segundo o jornal britânico, não está "à altura da tarefa que a espera". Mario Draghi, segundo o que se sabe, é um economista brilhante, que deixou a sua marca à frente do BCE; Lagard é uma advogada "que ignora tudo sobre política monetária", mantendo uma "fidelidade absoluta à ortodoxia dominante". Tenho presente, por exemplo, as suas contradições relativamente à presença da troika em Portugal. Foi ziguezagueante todo o processo. Mas, adiante. Sublinha o jornal inglês que Lagard é "responsável por um dos maiores défices orçamentais jamais registados, quando ela foi ministra das Finanças durante a presidência de Sarkozy (...), pois entre 2007 e 2011 fez o défice orçamental de França passar de 56 mil milhões de euros para 193 mil milhões de euros, sem empreender a mínima reforma (...) foi a responsável pela pior recessão económica de que há memória estatística, a da Grécia, quando ela estava à cabeça do FMI (...) e regista uma condenação por negligência na questão da arbitragem feita a favor de Bernard Tapie", personalidade que "tinha sido acusada de beneficiar de uma arbitragem fraudulenta que, em 2008, proporcionou-lhe a indemnização de 403 milhões de euros". 
Conclui o jornal: estes são "os principais feitos de Christine Lagard durante a sua carreira de alta funcionária. E nada disso impediu de ser designada para uma das funções mais essenciais da economia mundial durante os próximos dez anos".
Aproximam-se tempos de incerteza. O que irá acontecer à moeda única? O futuro dirá. O que para mim é muito estranho é essa habilidade de "saltitar com uma facilidade desconcertante entre os cargos de alta responsabilidade, sem nunca ter de se preocupar com os eleitores reais".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Rui Rio perdeu a noção do ridículo


Por estatuadesal
In Blog O Jumento, 
25/09/2019

Quando se esperava que Rio encerrasse o ciclo de disparates eis que ele decide subir a parada, agora acha que as campanha eleitoral é decidida por uma luta de galos e que ganha o que tiver o melhor galo para a luta das finanças. Todos os dias desata a exigir a Costa um debate entre os dois Centenos, o dele e o do Costa. Mas como já percebeu que colocou o seu em situação de inferioridade, alterou os nomes, agora exige um debate entre o seu Sarmento e o Sarmento do Costa.


Rui Rio não percebeu a mensagem que está passando de forma subliminar aos seus próprios eleitores, sentindo que não está à altura das circunstâncias socorre-se numa tentativa desesperada de usar um dos seus apoiantes num debate contra um apoiante de Costa. É uma medida kamikaze já que é sabido que Mário Centeno não estará disponível para tal espetáculo degradante, o de ser exibido num debate para que o povo decida qual é o melhor economista.
E se o debate correr mal ao Sarmento do Rui Rio? A seguir vai dizer que tem um Eduardo Cabrita e que exige que o Eduardo Cabrita do Costa faça um debate com o seu. Se tudo correr mal é só ir à lista de membros do governo e escolher o seguinte. Por este andar vamos ter uma espécie da Taça Davis da política, em que os tenistas do Rui vão jogando com os tenistas do Costa, para que seja o que somou mais vitórias a levar a taça do governo.
É pena que Rui Rio não tenha a noção da patetice que está sugerindo, é lamentável que com tantas democracias e tantas eleições já realizadas em Portugal não tenha percebido que a ideia só tenha surgido agora não graças ao seu brilhantismo eleitoral, mas sim porque o seu nível de patetice é diretamente proporcional ao seu desespero.
Um dia destes vamos ver o Rio exigir a Costa a mais diversas comparações, quem come mais Big Macs, quem consegue comer mais sardinhas assadas, quem consegue engolir mais cerveja de uma vez, quem consegue mandar uma escarreta mais longe, enfim, são os argumentos que poderão favorecer Rui Rio na sua luta por chegar a primeiro-ministro e evitar a seca de ser deputado num hemiciclo onde o único deputado com classe é ele.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

E QUE TAL UM MANDATO COM UM GOVERNO MINORITÁRIO?


"Estabilidade" significa solidez e segurança. Ora, pelo que se lê, parece que estabilidade é coisa que dificilmente existirá na formação do governo da Região da Madeira. Posso estar enganado, embora, ideologicamente, se um diz mata, o outro, está na sua natureza, dirá esfola!

Porém, entre muitos aspectos da arte de bem governar, desde logo destaco dois aspectos: primeiro, a guerra pelos lugares, isto é, não é apenas o tal "caderno de encargos" que está em causa, mas as posições que, teoricamente, poderão conceder boa visibilidade política. É público que há quem queira a Presidência da Assembleia, a vice-presidência do Governo (que coisa esquisita, a existência de dois vices!), umas secretarias regionais, enfim, o partido vencedor, estou em crer, ou cede ou está a braços com problemas. Segundo, resulta da experiência política de quarenta anos, sustentado no quero, posso e mando, que tudo farão para, silenciosa e discretamente os engolir, em um prazo não muito longo. Se agora conseguiram três deputados, uma paz podre poderá complicar a vida do partido "fiel da balança".
Neste quadro, deixo a pergunta: e que tal um mandato com um governo minoritário? A obrigação de com todos negociar, experimentando, assim, as dificuldades porque passaram os partidos da oposição. Se não der certo, a democracia resolverá o problema com um novo acto eleitoral.
São contextos diferentes, eu sei, mas em 1994, quando o Professor Virgílio Pereira se demitiu da Câmara do Funchal, por ter reclamado apoio para saldar as dívidas da autarquia funchalense, o ex-presidente do governo disse-lhe: "bom é aquele que governa bem e faz obras mesmo sem dinheiro”. Digo eu agora, bom é aquele que governa bem obrigado à sentar-se à mesa da negociação. Experimentem!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de setembro de 2019

A derrota esperada... a avaliar pelas sondagens. Lamento.



Uma sondagem do DN-Madeira (Eurosondagem),
publicada no dia 18.11.2017

Apetecia-me publicar o que escrevi e que corresponde ao que realmente penso. Desisti de aqui deixar esse meu testemunho. Não vale a pena recordar trajectos e momentos muito frágéis e sobretudo tristes. Apenas, para que a história não seja apagada, aqui fica uma sondagem, de há quase dois anos, que colocava o PS separado 1,1% do PSD. Não permitiram a caminhada. Perdeu o partido e perderam os madeirenses que desejavam acabar, embora os contextos sejam diferentes, com 48 anos de Estado Novo, seguidos, vai para 47 anos de maiorias PSD. Possivelmente, agora, com uma coligação PSD/CDS. E sendo assim, não espero alterações de rumo. Não existe qualquer mudança de ciclo político.
Só uma nota de alguma curiosidade: os 35,7% agora alcançados são inferiores à sondagem de 2017 que foi de 35,8%. Embora sendo uma sondagem, sublinho.
Confesso, que ontem passei um dia politicamente complicado. A pergunta bailava-me: votar em quem depois de tudo o que assisti? Pensei muito no somatório 48+47 e decidi, hoje, fechar os olhos e votar novamente no PS. Pela necessidade de mudança.
O que considero um "assalto", com vestes democráticas, deu nisto. O PS perdeu (que interesse tem falar-se de um resultado histórico?), quando o objectivo era ter mais votos que a actual força maioritária. Perdeu e fez os madeirenses perderem uma oportunidade. Aqueles lugarzinhos na Assembleia, no contexto da necessária mudança, valem chumbo para os madeirenses e portosantenses, mas poderiam valer ouro para uma população que, urgentemente, espera e desespera pela melhoria das suas vidas. Tenhamos presente que "em 2018, na RAM, cerca de 81 mil pessoas encontravam-se em risco de pobreza ou exclusão social, representando uma taxa de 31,9%." 
E fico por aqui, do muito que não quero escalpelizar. I'am out.

Peço desculpa!



Inadvertidamente, publiquei um texto por um grave erro que cometi. Ao invés de "salvar" cliquei em "publicar". O texto, escrito antecipadamente, apenas por convicção minha dos resultados finais, tendo em consideração as várias sondagens publicadas, analisava, de forma sumária, as eleições e o meu sentimento, no caso das tais sondagens se verificarem. Destinava-se, repito, caso os resultados das sondagens se verificassem, a ser publicado, ainda hoje, após o fecho das urnas e conhecidas as projecções. São 17:30, abri o blogue e dei conta do grave erro. Peço desculpa aos meus leitores. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Porque apoiei este Governo apesar de ter saído do PS, e porque não quero que o PS tenha maioria absoluta


Por estatuadesal
Alfredo Barroso, 
in Facebook, 
16/09/2019

Não tenho qualquer animosidade especial em relação ao PS, partido de que fui um dos fundadores, em 1973, no qual militei, até à marginalização absoluta, durante 42 anos, e do qual me desfiliei em 2015. As minhas divergências começaram com António Guterres, decidido a copiar o estilo "Terceira Via" - na realidade o estilo neoliberal - de Tony Blair, aliado do perigoso idiota Bush filho, presidente dos EUA, na criminosa invasão do Iraque que pôs o Médio Oriente em polvorosa, como hoje bem podemos constatar.


A "neoliberalização ideológica" do PS e da maioria dos partidos da Internacional Socialista foi assim como que uma espécie de suicídio colectivo que deu cabo das melhores intenções de alguns líderes políticos aparentemente de esquerda, que acabaram por pôr em prática políticas contrárias aos interesses das classes populares e de boa parte das classes médias, "proletarizando-as".
E foi então que comecei a bater-me pela necessidade dos partidos de esquerda - PS, BE e PCP-PEV - manifestarem a vontade de estabelecer uma plataforma mínima comum capaz de viabilizar Governos sustentados à esquerda, rompendo com a tradição, nefasta para o PS e para o País, deste partido governar ao centro, em alternância ou em conivência com o PPD-PSD e, inclusive, com o CDS-PP, integrando assim o famoso "arco de governação" tão caro a Paulo Portas.
Ora bem, António Costa teve a coragem de romper com esse ridículo "arco", afastando-se do PPD-PSD e estabelecendo com o BE e o PCP-PEV a tal "plataforma mínima comum" capaz de viabilizar um Governo que durou uma Legislatura.
É por estas e outras razões que me preocupa a possibilidade do PS vir a obter uma maioria absoluta e derivar para a direita. Sobretudo depois de ouvir o ministro das Finanças, Mário Centeno, defender a maioria absoluta, dizendo que com ela seria muito mais fácil "governar" - ou seja, presumo eu, seria muito mais fácil fazer "cativações" que distorcem e retorcem os Orçamentos de Estado em prejuízo da qualidade dos serviços públicos e do investimento público, tão necessários ao País.

Passei tantos anos da minha vida política - sem quaisquer ambições pessoais e sendo até prejudicado por isso - a defender a constituição e viabilização de Governos sustentados à esquerda, que não há-de ser agora que desistirei de os defender. Creio que terão sido muito poucos os comentadores e cronistas políticos que defenderam tão aberta e afincadamente este Governo do PS e o seu primeiro-ministro, António Costa.

Todavia, preocupa-me a perspectiva de o PS alcançar maioria absoluta e, por isso mesmo, vou votar no sentido de tentar evita-la. Há pessoas que andam na vida política, não para conquistar cargos políticos e garantir carreiras auspiciosas, mas sim para serem fiéis às suas ideias e ideais políticos e sociais. É esse o meu caso.
E sei de gente vária, até de amigos meus, que não conseguem compreender tal atitude. Paciência. Estou de bem comigo próprio, e posso dizer, sem jactância, que saí da vida política activa mais pobre do que para lá entrei, logo após o 25 de Abril de 1974. Em todo o caso, acho que chegou o tempo de deixar a minha actividade de cronista político - desde há vários anos a escrever quase sempre "de borla" - para me dedicar um pouco mais a mim próprio, nos poucos anos que ainda me restam. Estou algo pessimista em relação ao futuro, mas espero que o futuro me desminta e que tudo corra pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, como diria o professor Pangloss...
Campo d' Ourique, 16 de Setembro de 2019

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Rui Rio: um bom adjunto para Costa


Joaquim Vassalo Abreu, 
16/09/2019

E, digo eu, até é bom que assim seja! Em nome do País e em nome do nosso futuro é bom e salutar que haja um líder da oposição com este porte: que diga abertamente que concorda e apresente, aqui e ali, visões diferentes, mas sempre sem aquele jugo ideológico que tinha, por exemplo, o seu antecessor.

Ficou vincado que Rio, um homem de números, não conseguindo rebater esses mesmos, adoptou uma postura “estadista”, não se distanciando nem afastando de Costa, como quem diz eu até discordo em alguns pontos (;o Partido a isso obriga) mas, no fundo estamos de acordo, prestou neste debate um bom serviço ao País!
Mostrou ser um homem aberto e pragmático tendo sempre por fundo um País melhor e isso, comparativamente com o seu antecessor até que me agradou!
Mostrou ser um ser aberto e liberal e, acima de tudo, um político ( sem ter ares disso) em quem Costa até pode confiar para, num País como o nosso, levar avante realizações importantes e decisivas de que o País necessita.
É evidente para mim que esse não é, nem de perto nem de longe, o que o PSD de quem ainda é líder, assim pense e esse é o seu maior problema: o de afirmar-se perante os seus na sua maioria distanciados do seu pensamento pragmático e aberto.
Os comentadores de serviço que por alguns instantes ouvi falaram das espectativas e, como tal…mas como tal o quê? Pensavam ser Rio como Passos? Não e faço-lhe essa justiça!
Mas esse é o problema deste PSD, um partido de bases radicais e direitistas e que, a partir de hoje, mais vão odiar este líder que, definitivamente, não é o seu! E não ver ser pela sua prestação de hoje que a sua ideia vai mudar… Então votamos Costa como muitos já decidiram…
É que esta manifesta concordância e abrangência não lhes agrada. É e será um traidor, pensam muitos embora não o digam…
Números são números e ele nenhum dos apresentados por Costa desmentiu ( ele é um homem de números) e isso, para os seus ficou gravado na pele! Concordar com este Governo naquilo que ele é mais forte? Imperdoável..
Foi este debate decisivo? Claro que não mas foi, na minha humilde óptica, decisivo no seu manifesto anuimento aos números, incostentaveis, apresentados por Costa: os atestados e verdadeiros!
De modo que Rui Rio, mesmo pretendendo com esta postura, próxima à de Costa, mobilizar as suas direitistas bases deu um tiro no pé e mostrou à saciedade o quanto delas está distante!
Costa esteve igual a si próprio, ciente do trabalho feito e que todos, com mais ênfase ou menos ênfase, reconhecemos.
Que ficou do debate, afinal?
O de um Rio mortinho por trabalhar com Costa!
Estarei assim tão errado? Mas será que os “seus” deixam?!!!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A solução à espanhola que nos teria salvado da destruição insana


Por estatuadesal
In Blog Aspirina B,
10/09/2019


«A Espanha não teve o chumbo do PEC 4, e, portanto, pôde evitar o resgate; e, por isso, nunca teve a sua credibilidade internacional tão afectada como Portugal teve.» - António Costa em entrevista à SIC, 4 de Setembro 2019). Ver no link abaixo vídeo com a entrevista completa / Primeiro-Ministro de Portugal, Setembro de 2019

Não é possível encontrar, em toda a Internet, uma referência que seja a esta declaração de Costa na sua última entrevista à SIC (se existe, rogo que me indiquem onde para corrigir). Suponho que também não existam referências indirectas no comentariado (mas sei lá). No entanto, contudo, todavia, esta é só a declaração política mais importante em Portugal desde [é favor preencher a gosto – ou seja, a desgosto].
O momento que leva ao atrasadíssimo reconhecimento público por parte de Costa do que foi a defesa do interesse nacional e do bem comum por parte de Sócrates e de quem com ele estava nesse Governo – até aos limites do imaginável e até mesmo uma beca para além – começa no minuto 16 da entrevista. Bernardo Ferrão, uma infeliz e incompetente escolha para o jornalismo político que só se justifica pela sua disponibilidade para o sectarismo rasteiro, achou que ia entalar o entrevistado com a comparação entre Portugal e Espanha. Costa agradeceu a benesse e limpou o rabinho ao entrevistador. Como o Ferrão não parava de escavar o buraco onde se enfiou voluntariamente, o actual secretário-geral do PS e primeiro-ministro em funções ia ficando saturado e, na procura de ainda mais argumentos na categoria do “isto é óbvio, pá”, cometeu o deslize de ir parar aos idos de Março de 2011. Rapidamente o assunto ibérico na berlinda deixou de estimular a perseguição canina do “jornalista”.
Quem perder o seu rico tempo a ouvir esse trecho da entrevista fica autorizado a tirar umas ilações correspondentes sem qualquer risco de errar. Por exemplo, passa a ser inevitável ver em António Costa um alto responsável político que teria tentado, com o máximo das suas forças, evitar que o PEC 4 fosse chumbado usando exactamente o mesmo racional dos governantes ao tempo. E, num outro exemplo, é fatal ver em António Costa um cidadão que consegue calcular o valor da pérfida e estupidamente colossal destruição em capital financeiro, estrutura económica, tecido social, qualidade e segurança da vida pessoal – a que se soma o número de vidas que se desgraçaram e perderam em doenças e suicídios em consequência das decisões tomadas pelos partidos que chumbaram o PEC e impuseram o resgate de uma Troika fanática da “austeridade salvífica” que encontrou em Passos o carrasco guloso para cumprir as ordens e embriagado de desprezo para aumentar a devastação – num fenómeno de anos que, como também referiu na entrevista, só agora começa a permitir a recuperação dos instrumentos internacionais e estatuto do País para conseguir ter acesso a capitais necessários à boa gestão das contas públicas e à promoção dos investimentos estruturais por fazer há uma década.
Houve quem, para além de Sócrates e do PS ao tempo, tivesse antecipado o que iria acontecer se o PEC 4 fosse chumbado. Eram umas raríssimas e rarefeitas vozes, inaudíveis no berreiro furioso que queria sangue numa estratégia de terra queimada, vingança rancorosa contra aquele perante o qual se sentiam e sabiam inferiores e a captura do poder pelo poder. Infelizmente, tragicamente, em 2011 não pudemos ter uma solução à espanhola; confirmou Costa e confirma o silêncio cúmplice que abafou a sua extraordinária e fundamental recordação.

domingo, 8 de setembro de 2019

As campanhas eleitorais são um contributo para a abstenção


José Pacheco Pereira,
in Público, 
08/09/2019

Toda a gente diz há muito tempo que o actual modelo de campanha eleitoral está ultrapassado. Não vale a pena sequer lembrá-lo, porque ninguém está disposto a mudar a rotina desgastada das campanhas e, ano após ano, fazem sempre o mesmo. Umas vezes são mais caras, outras menos caras. Mas não só não há qualquer rasgo de inovação, como há uma geral indiferença face àquilo que todos sabem: a inutilidade e o carácter contraproducente das campanhas, que contribuem para a abstenção.

Os políticos não querem e não sabem ser diferentes, mas também não têm muita margem de manobra para o serem, ou porque não sabem nem querem — o populismo é o que está a dar — ou porque os militantes dos partidos estão viciados na rotina e ficam em abstinência se não lhes derem o festival de camisola. E a comunicação social penaliza a mudança.
Vejamos alguns destes factores. Os militantes partidários das estruturas fazem parte da pressão para se fazer sempre o mesmo. Querem o líder para passear na sua terra, levá-lo a cumprimentar o senhor Francisco, comerciante, que é muito “amigo” do partido, ou seja, ajuda a financiar as campanhas locais. E trazer o líder a encontrar os seus conhecidos locais é um factor de influência e importância, mesmo que tudo se passe numa redoma que nunca muda há dezenas de anos, a não ser quando o senhor Francisco morrer ou se zangar com o partido.
E há nos partidos quem goste muito de campanhas eleitorais. As campanhas hoje são essencialmente feitas em outdoors, em páginas do Facebook mais ou menos profissionalizadas e em pseudo-eventos de rua, e há muito dinheiro a ganhar aí. Militantes das “jotas” são pagos para acompanhar o líder em caravanas de terra em terra. Empresas e pseudo-empresas “amigas” ligadas aos partidos, ou, melhor, aos funcionários e militantes do partido, oferecem serviços de marketing, de importação de “brindes”, de organização de eventos, numa rede que se ilumina nas campanhas eleitorais.

A comunicação social, cuja cobertura é tão estereotipada como as campanhas, precisa dos eventos artificiais como as “arruadas” e os pseudocomícios para ter alimento de imagens, sons e incidentes anedóticos para encher os telejornais e os jornais e, se não lhos derem, desata a protestar pela “pobreza” da campanha, ou pelos “erros de comunicação”, ou a referir as ausências que devem ser punidas. Tudo isto se passa num ambiente de desertificação de ideias e propostas, e tudo o que é mais sério ou não é coberto ou é tido como sem interesse mediático.

E por aí adiante. Deviam todos parar para pensar, mas nos dias de hoje parar para pensar é tão contraditório com o estilo de vida centrado nos devices, nos telemóveis e nas redes sociais, que é um acto quase de per si revolucionário. E nós não temos uma abundância de revolucionários. E pensar exige tempo lento, silêncio, solidão e espaço e é tão hostil à ecologia da pressa, do barulho, das 24 horas em directo.
Uma das coisas que se podiam ir fazendo era restringir os temas de campanha e, sobre os temas, que sobrassem do pandemónio de querer falar de tudo, fazer propostas a sério, com princípio, meio e fim, com ideologia e política, e saber. Não são propostas tecnocráticas, são propostas políticas. E centrar tudo aí.

Eu admiraria um candidato que dissesse: “Eu vou gerir nos próximos quatro anos tudo o que tiver que gerir, sem rasgos especiais, nem inovações, nem experiências, nem “reformas”, o melhor possível, mas há duas ou três coisas em que vou mudar, e muito. Por exemplo, vou concentrar os recursos e meios do Estado para melhorar as condições de habitação dos portugueses, e julguem-me por isso. 

Vou mudar toda a rede ferroviária, modernizá-la, e colocá-la ao serviço dos utentes dos transportes e das empresas. E julguem-me por isso. Vou baixar o nível da pobreza de forma significativa e reconstruir o elevador social. E julguem-me por isso. Direi com clareza como o conto fazer e com quem o conto fazer, e as decisões que devem ser tomadas, quem fica a ganhar e quem fica a perder. Defrontarei os interesses e os privilégios que impedem a mudança. E é isso que vou discutir na campanha eleitoral. Não esperem de mim qualquer omnisciência de ter que responder a tudo, até porque há matérias que não domino, mas sei escolher quem as conhece e sei ouvir o que me dizem.
Não vou fazer 50 coisas, vou fazer três, mas três estruturantes. Em todos estes casos vou concentrar recursos, meios e conhecimento especializado. No fim do mandato, as mudanças têm que ser significativas e inequívocas, serão de natureza quantitativa e qualitativa e, se for um problema que possa ser resolvido por umas décadas, ficará resolvido. Julguem-me por isso. E irei candidatar-me de novo a um outro mandato da mesma forma, com mais três programas estruturantes, seja o interior, seja a modernização da administração pública, seja o combate à corrupção, seja a reforma das Forças Armadas.”
A campanha seria, assim, séria e sóbria, mas colocaria a comunicação social a subir pelas paredes acima, com o aborrecimento da campanha. A prazo, provavelmente teria uma fase de “estranha-se”, antes de ter uma fase de “entranha-se”. Por isso, precisa de tempo, e provavelmente não será “ganhadora”, a curto prazo, mas com perseverança, seria pedagógica e refrescante. Em vez da “novidade” superficial e do ruído, das modernices da moda, dos truques e das frases assassinas preparadas pelas agências de comunicação, faria um esforço para ser útil. Admito que me digam que tal é hoje completamente impossível na ecologia mediática dos nossos dias. Talvez. Mas eu não acho que essa ecologia seja um progresso da democracia, bem pelo contrário.

sábado, 7 de setembro de 2019

Nós te saudamos, crise vindoura!


Por estatuadesal
António Guerreiro, 
in Público, 
06/09/2019

Nos jornais e em todos os meios de comunicação e amplificação anuncia-se uma crise que aí vem, não se sabe quando, mas já está — como dizer? — em processo de iminência. Esta é uma expressão absurda, bem sei, porque iminente é o que está a atingir o ponto de catástrofe onde se dá a passagem para outro plano qualitativo, descontínuo.



Mas a verdade é que não há crise que, num actualizado dicionário das ideias feitas, não precise de ser definida com esta indicação: “Mal se começa a dar por ela, já ela é iminente.” Por enquanto, a crise por vir só se manifesta através de sintomas (não esqueçamos que na história semântica do conceito de crise há inicialmente um significado médico) que se oferecem à tarefa de decifração por gente com comprovadas competências semióticas: uma curva descendente subtil no gráfico das exportações, uma inflexão disfórica da linha das importações, uma desaceleração algures a indicar que já não se está a deslizar da mesma maneira no caminho do crescimento, isto é, do progresso, etc. São índices que não passam despercebidos aos historiadores indiciários do tempo por vir, que outrora eram chamados profetas. E eu acredito neles, sem que me ocorra sequer a ideia de formular reservas como as que os doutores da Igreja teoricamente formulavam (às vezes em exercícios teológicos requintadíssimos) sobre a existência e os poderes de Deus. E acredito por duas razões fundamentais: porque ao tempo vazio de crise sempre se sucedeu o tempo pleno de crise, sabemo-lo por experiência própria e porque hoje somos todos especialistas em crítica da economia política, o que significa que somos todos marxianos, mesmo — ou sobretudo — quando não somos marxistas; e porque a crise advém por uma lógica performativa, as palavras que descrevem a sua vinda iminente, se são pronunciadas por quem tem uma reconhecida autoridade (e quem tem mais voz e autoridade do que os media, na esfera pública alargada?), praticam um acto, realizam a crise que anunciam.
Só nos resta, portanto, esperar com paciência que ela se instale, até porque a vida sem crise económica é o tédio, a monotonia, o spleen. Seria mesmo o tempo homogéneo e vazio, para usar uma expressão com pergaminhos, se não houvesse crises suficientes, noutros planos da história universal, para nos entreter. Mas aquilo de que gosto menos é do lado perverso e enviesado destes adivinhos que nunca correm o risco de se enganar. Na verdade, para serem sinceros, eles deviam dizer que adoram as crises, que o tempo da não-crise deve ser gerido com uma voluntária severidade crítica para ficarmos treinados e imunizados contra a obrigatória severidade a que a crise por vir obriga. Em suma: a crise deve ser a regra em que vivemos sempre, sem interrupções. Bem vistas as coisas, a grande maioria da população nunca conheceu outro estado, de maneira que estas oscilações, para ela, não passam de um complexo que está para lá da sua experiência, digamos, superestrutural. Já agora: porque é que para certas classes a superestrutura coincide completamente com a infra-estrutura? Eis um questão pouco compatível com um marxismo ortodoxo e vulgar.
O conceito económico da crise anulou o seu conceito médico e o seu conceito teológico (quem se lembra hoje, a não ser um reputado filósofo arqueólogo, da sua relação com o Juízo Final?). A única crise que existe é a económica e nem convém que ela seja declinada noutros domínios. É por ela que clamam os semiólogos performativos quando ela se ausenta temporariamente. É que se não houver a crise como figura de invocação não é tão fácil impor a política que lhe corresponde, segundo um programa que todos conhecemos. Em suma: sem crise não é possível governar, de acordo com o sentido que as palavras “governo” e “governar” hoje têm. 

A crise tornou-se assim um instrumento salvífico que, embora esteja sempre presente, tem momentos em que a sua acção fica atenuada. E então o que é preciso é apelar à sua iminência, para que tudo continue a ser como sempre foi. Quem diria que a crise haveria de se tornar não a alteração abrupta ou mesmo catastrófica de uma ordem, mas o garante dessa ordem?

Livro de Recitações

“De regresso das férias? Temos dez ideias para não deprimir. ”


Ao contrário do que reza um discurso muito voluntarista e também muito ideológico em que o trabalho é sempre digno dos maiores louvores, a verdade é que o trabalho, hoje, não é um valor nem um antivalor. Já nem sequer vale dizer que “o trabalho cansa”, porque, na verdade, nos modos como é hoje praticado, ele deprime, causa distúrbios psicológicos, paralisa, coloca grande parte da população trabalhadora a recitar uma interrogação: “Como é que eu saio disto?” Na história do trabalho, deu-se, num tempo ainda próximo de nós, uma transformação dos efeitos do trabalho como corveia: quando ele deixou de provocar, em geral, malefícios físicos selectivos, passou a provocar malefícios psicológicos generalizados. De maneira que actualmente até os directores das empresas e a alta burguesia assalariada estão ameaçados pelo burnout, que é o nome inglês de uma síndrome universal, ao mesmo tempo trágica e cómica, como se pode ver pelo título acima citado.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Fazer a ou não a mudança


DN-Madeira
04 SET 2019 

Comparem-se as duas realidades Madeira e Açores, a orla costeira deles e a nossa, o modelo de desenvolvimento deles e o nosso.


Estou absolutamente farto da narrativa enviesada, do discurso “cáustico” do PPD-M no geral e do seu líder em particular, do ódio contra Lisboa, como se não fossemos todos do mesmo país, membros do mesmo corpo, ou “farinha do mesmo saco”. Estou farto dos “bodes expiatórios” da contínua externalização das culpas pela má governação, do clientelismo, do populismo. As suas principais “bandeiras” são falsas. Tanto o subsídio das viagens aéreas, como os juros da dívida, foram negociados pelo “benemérito e amigo da Madeira” Passos Coelho e pelo PPD-M. “Fonte segura” garantiu-me que o helicóptero, ao contrário do que o PPD afirma, afinal é pago por Lisboa. Relativamente aos juros da dívida, haja vergonha, por decoro, não se devia sequer falar da dívida que foi contraída por AJJ à socapa da lei e do país, negada até “às últimas”, e que, inclusivamente, fez subir o déficit do país e nos colocou a todos a pagar o PAEL enquanto formos vivos. Costa, por sua iniciativa, e possivelmente por ser “colonialista” baixou unilateralmente a taxa de juro do PAEL, colocando-a de forma dinâmica e indexada à MÉDIA DOS JUROS QUE O PAÍS PAGA PELO CONJUNTO DOS SEUS EMPRÉSTIMOS.
Todos impostos gerados na RAM, ficam na Madeira, a saúde está regionalizada, todas as despesas são da exclusiva responsabilidade da RAM. Costa sem ser obrigado a tal, disponibilizou-se para comparticipar no novo hospital. O PPD-M “agradece” tudo isto da forma que sabemos...
O PPD-M disse explicitamente que se ganhar as eleições pretende “mais autonomia” de forma a regionalizar as finanças e os impostos (porque não também a polícia?). Assim, poderá “ajudar ainda melhor” os amigos e fica com a possibilidade de “atirar as finanças às canelas” dos opositores.
O PPD pretende baixar o IRC para 12%, tal medida, contudo, terá tanto efeito nos preços ao consumidor final como teve a baixa no IVA na restauração. Sobre o IRS o PPD nada disse, não é a sua praia. Aliás, se fosse, com a autonomia atual já poderia ter baixado o IRS há muito tempo, como acontece na RAA. A propósito, não entendo a razão da superioridade e sobranceria com que o PPD-M trata os Açores.

Aconteceu comigo o seguinte: Enganei-me no preenchimento do IRS e pus como morada a R. A. Açores. Se eu vivesse nos Açores a devolução do IRS seria mais do dobro do a que recebi por viver neste paraíso jardinista à beira mar plantado.

Ao verificar a diferença abismal a nível do IRS, fiquei com a “pulga atrás da orelha” e fui ver o que se passava com os Açores com outros indicadores de desenvolvimento, comparando-os ainda com a “meterpolis” e a média do País. Ver nota.

• IVA nos Açores e na RAM: As taxas de IVA lá são de 18, 9 e 4%, e as nossas de 22, 12 e 5%. É uma questão de fazer contas para a diferença que isto faz nas compras de um ano.
• Taxa de Analfabetismo (Censos 2011): RAA 4,7 %; Med. Nacional 5,2%; RAM 7%
• Crescimento do PIB por habitante (2017): RAA +142% face a 1995; Nacional +112,8%; RAM ???
• Crescimento do PIB desde 2000: RAA+67,6%; RAM+62,3%; Méd.Nac.+51,3%
• Emprego Total (1995 – 2017): RAA +27,1%; Tot. país +6,0%; RAM (menos) -3,8%.
• Emprego Total (2000 – 2017): RAA +7,5%; Tot. país +4,8%; RAM (menos) -10,5%.
• Crescimento do PIB (desde 2000): RAA +67,6 %; RAM +62,3 %; Med. Nac. +51,3%.
• Evolução do Rendimento Disponível Bruto (RDB)das famílias (período 1995-2016): RAA +133,4%; Med. nacional de +94,7%; RAM +84,1%.
• RDB das famílias per capita: RAA 12.446 euros; Med. nacional 12.066 €; RAM 11.747€.
• RDB per capita das famílias (desde 1995): RAA +127,9%; Med. nacional +89,1% A RAM cresceu apenas +76,8%, abaixo, portanto da média nacional.

Inventariei algumas medidas de carater social que existem na RAA e na RAM não: Complementos para: Regional de pensão (CRP); Abono de família para crianças e jovens; Especial para Doentes Oncológicos (CEDO); Regime de almoço para os alunos durante o período de férias e interrupções letivas; Banco Regional de Equipamentos para apoio a pessoas com mobilidade reduzida.

Comparem-se as duas realidades Madeira e Açores, a orla costeira deles e a nossa, o modelo de desenvolvimento deles e o nosso. Onde estão por exemplo os nossos lares para idosos e a rede de cuidados continuados? E o “cheque cirurgia”? Albuquerque de cada vez que fala, refere os 72 meses de crescimento da economia. Para onde vão esses ganhos?

Julgo que os breves números aqui apresentados, frios, reais, provenientes de instituições credíveis como o INE e o censos 2011, desmentem por completo a retórica, a narrativa e a propaganda do PPD-M, do “paraíso”. O PPD, recorre a tudo, em pânico por perder as eleições e de que se possam descobrir os “segredos bem guardados”. Perca um pouco do seu tempo e consulte o JORAM online e veja com os seus próprios olhos a imensidão extravagante de nomeações feitas pelo GR nos últimos dias, com os objetivos de “fidelizar” as pessoas e as respetivas família, “agasalhar” os amigos e colocar “submarinos” na administração para quando perderem as eleições. Acha sinceramente e em consciência que corremos o risco de que, se mudarmos, mudamos para pior?
Oxalá esteja enganado, mas se chegar a crise, que infelizmente já se vislumbra, com Trump, Brexit e com a Alemanha em recessão, onde nos levará a guerra de Albuquerque com Lisboa? Dependentes das nossas duas “monoculturas”, voláteis e perecíveis, estamos “bem lixados”. Tenho, porém, a certeza de que os açorianos não passarão fome, pois têm vacas e peixe de fartura para comer.
Se Albuquerque improvavelmente ganhar as eleições, depois de ter “partido todas as pontes”, vai negociar com quem? Com o Papa? Ou pensa reverter a situação com “porreirismo”, poncha e espetada? Há porém uma diferença: Costa não precisa de Albuquerque para nada, mas ao contrário, Albuquerque precisa de Costa para quase tudo.
No dia 22 está na sua mão e é da sua inteira responsabilidade acabar com esta situação.

Nota: A fonte dos dados sobre analfabetismo é dos censos 2011, a restante informação tem como fonte o INE. Optei por não introduzir dados da D. R. de Estatística da Madeira por não estar seguro da sua independência em relação ao GR.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

COM ESTE PALAVREADO A REGIÃO NÃO VAI LONGE


FACTO

"Albuquerque considera a entrevista de Costa um "rol de aldrabices". 
Fonte: DN-Madeira.

COMENTÁRIO


Com este palavreado a Região da Madeira não vai longe. Li a entrevista do Dr. António Costa, Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS, concedida ao DN-Madeira. Por não possuir o total domínio dos dossiês, confesso que tinha algumas reservas na relação Região da Madeira-República, derivado do facto, também, de quase diariamente ser bombardeado com declarações no quadro do "inimigo externo", isto é, tudo o que está bem feito na Região a nós (governo) se deve; tudo o resto é consequência daqueles malvados da República! São já muitos anos a escutar esta musiquinha, enfadonha e repetitiva. Entretanto, o visado veio à Madeira, contou o outro lado da história, esclareceu várias situações, as quais não encaixam no habitual e truculento discurso regional. E zás, o que ele disse é um "rol de aldrabices".
Depois de ler a entrevista e de reler algumas passagens, vários dossiês, pelo menos para mim, ficaram mais claros, pois passei a dispor de um contraponto político. E neste interesse em conhecer tudo em pormenor, aguardei pela natural resposta política do governo regional. Esperava que ela constituísse um novo contraponto que me (nos) ajudasse a melhor decifrar os vários enquadramentos. De resto, era fundamental que assim fosse, tim-tim-por-tim-tim, com dados e argumentos consistentes. Poderia o governo realizar uma conferência de imprensa ou elaborar um comunicado, mas não, preferiu, à margem de uma inauguração, disparar mais com o fígado do que com a cabeça. A entrevista é um "rol de aldrabices", disse o presidente.
Ora bem, admitamos que o seu pensamento crítico por aí se enquadra. Só que a sua responsabilidade política implicaria que não entrasse pelo lado da ofensa, como se o seu interlocutor fosse "um espertalhão, um trapaceiro, um ladrão, um parasita, um velhaco, um oportunista, um patife, um burlista, um intrujão, um trambiqueiro, um explorador", eu sei lá, basta ir ao dicionário e verificar o significado de aldrabão. Quem pratica uma aldrabice é, naturalmente, um aldrabão. Certo? Com aquele palavreado a Região não vai longe. Perderá sempre e nunca se afirmará no quadro autonómico. 

Ora, o sentimento com que fiquei, até que outros dados sejam disponibilizados, é que o presidente do governo foi apanhado. Ou melhor, o seu governo. Normalmente, quando falham os argumentos, alguns partem para a ofensa. O que é grave quando se trata de pessoas que lideram instituições ao mais alto nível. Neste caso, ambos pertencem ao Conselho de Estado. Confirmou-se, desta feita, a "dupla personalidade" de que falava o secretário-geral do Partido Socialista. 
É claro que, no exercício da política, ninguém espera "abraços e beijos" entre concorrentes com bases ideológicas distintas. Porém, uma coisa é o direito ao pensamento livre e diferenciado, outra a má educação mesmo que à distância. Seja a quem for e porque motivos forem. Aliás, quem anda há muitos anos pela política deveria saber que o povo detesta a ofensa. Foi chão que poucas uvas deu! De que serviu, questiono, o tal "contencioso das autonomias"? Ainda não interiorizaram que o formato de fazer política ao longo de quarenta anos, pertence a um passado irrepetível. Hoje, esse povo exige decência e argumentos consistentes. Repito, com aquele palavreado a Região não vai longe. Exigir e não ser subserviente é uma coisa. Detesto quem ande com o "chapéu na mão". Outra bem diferente é ser agressivo. E isto é para ambos os lados da  barricada. Trata-se, no essencial, de uma questão de adultez política.
Ilustração: Google Imagens.