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sexta-feira, 23 de julho de 2021

Jogos Olímpicos


Embora envoltos em várias polémicas, agravado pela pandemia, eis que aí estão os Jogos Olímpicos. Não será, com toda a certeza, o encontro mundial do desporto que todos sonhavam. Mas será sempre, para os atletas, um ponto alto das suas carreiras. Tive a felicidade de poder viver os Jogos de 1988, em Seoul, na Coreia do Sul. 

Guardo desse tempo memórias indiscritíveis. Só quem os vive, pelo menos uma vez, como foi o meu caso, é capaz de trazer em memória, a todo o momento, aquelas vivências ímpares. Não apenas as das competições, seja em que modalidade for, mas o sentimento que nos invade naquilo que os Jogos são ou deveriam ser, o momento de exemplar fraternidade entre os povos e de irmandade entre as nações.

Os Jogos de 1988 tiveram uma particularidade, foram os Jogos da "reconcialiação", depois dos boicotes em 1984 (Moscovo) pelos Estados Unidos e 1980 (Los Angeles) pela ex-União Soviética.

Os Jogos da XXIV Olimpíada, em Seul, realizaram-se entre 17 de Setembro e 2 de Outubro, com a participação recorde de 159 países e 8 391 atletas.


 Pierre de Coubertin deixou-nos a "Ode ao Desporto":

"Ó Desporto Essência da vida (...) Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo (...) Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita (...) Ó Desporto, tu és a audácia! Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...) Ó Desporto, tu és a alegria! Ó Desporto, tu és o progresso! Ó Desporto, tu és a paz! (...)".

Ilustração: Arquivo pessoal.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

JOGOS OLÍMPICOS: O IMPORTANTE É PARTICIPAR


Quando se anuncia a possibilidade de poderem vir a ser conquistadas seis medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2106) devia também ser explicado como é que isso é possível. Como é possível, ao cabo de oito anos de profunda crise económica, financeira e social, poderem, eventualmente, ser conquistadas seis medalhas olímpicas. Como é que tal é possível quando em Londres (2012) foi obtida uma única medalha; em Pequim (2008) duas medalhas; em Atenas (2004) três medalhas; e em Sydney (2000) duas medalhas?


Telma Monteiro acabou por ganhar a medalha olímpica que, com toda a justiça, há muito, ambicionava. Parabéns. Devemos ficar felizes por ela.
- Não pelo País porque nos Jogos Olímpicos não participam países mas atletas. 
- Não pelo Governo na medida em que quanto menos o Governo se meter no Movimento Olímpico tanto melhor. 
- Não pelos treinadores que mais não fazem do que cumprir a sua profissão com brilho e proficiência. 
- Não pelos dirigentes que devem estar ao serviço dos atletas e não os atletas ao seu serviço. 
Devemos ficar felizes pelos resultados que, a título individual, os atletas obtêm nos Jogos Olímpicos porque eles representam uma extraordinária capacidade de superação, deles e das suas famílias. Por isso, a judoca brasileira Rafaela Silva dedicou a medalha de ouro conquistada, não a Temer o presidente do Brasil, não a Nuzman o presidente do Comité Olímpico Brasileiro, não ao Comité Olímpico Brasileiro ou até ao Brasil, mas “às crianças da Cidade de Deus”. Nem mais.
O desporto e o Olimpismo, como diria Marcelo, também devem ser envolvidos em afetividades. Por exemplo, a afetividade que levou o judoca português Sergiu Oleinic, antes de partir para o Rio de Janeiro, a afirmar querer conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos a fim de retribuir aos portugueses tudo o que recebeu desde que chegou da Moldávia, o seu país natal. Não conseguiu. Que importa? O desporto não se faz só de vitórias. Faz-se de sentimentos, de solidariedades e de boas intenções.
A este respeito, a comunicação social também informou que a judoca Joana Ramos saiu do “tatami” desfeita em lágrimas e disse: "Dei tudo para honrar o meu país". O que aconteceu foi que a Joana Ramos perdeu com a chinesa Yingnan Ma, 5ª do ranking e, mesmo assim, acabou por ficar num extraordinário nono lugar. Parabéns. Não tem de se lamentar nem de se desculpar. Perante ninguém e, muito menos, dos portugueses que só podem estar orgulhosos dela. Se assim o entender, como o fez a Rafaela Silva, até pode dedicar o seu extraordinário e honroso nono lugar a quem lhe seja mais querido. Afetividades.
Os atletas nos países democráticos não podem ser colocados numa situação de pressão psicológica tal que se consideram na obrigação de se desculpar quando os resultados desportivos não são os mais desejados. Não podemos aceitar a institucionalização de uma cultura desportiva idêntica à da Coreia do Norte em que o halterofilista Om Yun-Chol, por não ter ficado em primeiro lugar, apressou-se a pedir desculpas ao querido líder Kim Jong Un. Aceitar tal, é pôr de lado todos os valores morais que devem presidir ao Movimento Olímpico.
A Joana Ramos foi extraordinária e é assim que ela se deve sentir.
Por isso, receio que, a partir de um inapropriado “nacional olimpismo” cujo objetivo é transformar o desporto num “desígnio nacional”, se possam estar a fazer, mesmo que inconscientemente, autênticas “lavagens ao cérebro” aos atletas. Mas receio ainda mais que o Presidente da República, profundamente mal aconselhado, também esteja a contribuir para uma cultura coletiva de alienação pelo desporto nunca sequer vista ao tempo do antigo regime. 
Em matéria de desporto, não são admissíveis políticas públicas que:
- Coloquem os atletas, tal qual serviço militar, a competirem ao serviço da pátria.
- Conduzam os atletas a terem de demonstrar o seu patriotismo através da conquista de resultados desportivos.
- Cultivem rituais exorcistas que obrigam os atletas a, publicamente, penitenciarem-se pelos resultados desportivos menos conseguidos.
- Permitam a apropriação pelo Estado, ou por qualquer outro organismo público ou privado, dos resultados desportivos dos atletas.
- Promovam um histerismo patrioteiro coletivo, alienando os portugueses dos seus verdadeiros problemas, bem como dos do País.
- Desencadeiem uma inversão de valores relativamente àquilo que verdadeiramente é importante para os portugueses e o País.
Nos Jogos Olímpicos podem-se até ganhar muitas medalhas. Elas têm um extraordinário significado pessoal. Contudo, não é por isso que as políticas públicas deixam de estar profundamente erradas. E, entre nós, de há vários anos a esta parte, as políticas públicas em matéria de desporto estão profundamente erradas. Em termos potenciais, têm todos os ingredientes para que o desporto possa vir a causar graves problemas.
Mas o maior problema é que os dirigentes políticos, obcecados pelo imediatismo, estão profundamente enganados. Deviam começar por perceber que não têm de responder pelas medalhas olímpicas, têm é de responder pelas políticas públicas que, em matéria de desporto, são capazes de desencadear ao serviço da generalidade dos portugueses entre eles os que desejam evoluir na via do alto rendimento, desde que demonstrem condições para isso.
Este artigo do Professor Gustavo Pires
deveria ser lido por atletas, dirigentes, treinadores e jornalistas
Quando se anuncia a possibilidade de poderem vir a ser conquistadas seis medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2106) devia também ser explicado como é que isso é possível. Como é possível, ao cabo de oito anos de profunda crise económica, financeira e social, poderem, eventualmente, ser conquistadas seis medalhas olímpicas. Como é que tal é possível quando em Londres (2012) foi obtida uma única medalha; em Pequim (2008) duas medalhas; em Atenas (2004) três medalhas; e em Sydney (2000) duas medalhas? 
A resposta é simples. Diversos estudos, produzidos por académicos e por centros de estudos de grandes empresas, concluíram que, em países pouco desenvolvidos ou numa profunda crise de desenvolvimento, é tão só necessário um pequeno incremento financeiro em determinadas modalidades do Programa Olímpico para que daí possam, com grande probabilidade, advir resultados nas competições internacionais. Em conformidade, sabendo-se que as verbas para o desporto têm vindo a diminuir, conclui-se que o financiamento do alto rendimento e da preparação olímpica foi reforçado à custa de verbas que, naturalmente, deviam ser aplicadas na promoção e generalização da prática desportiva. Acresce ainda que, num país com graves problemas no âmbito do desemprego jovem, infelizmente, a opção desportiva passou a apresentar-se como uma saída de vida para muitas vidas sem saída nenhuma à vista. E como a formação académica dos atletas é, em grande percentagem, de nível superior, a tarefa da preparação olímpica acaba por ficar facilitada. Porquê? Em termos de analogia, diremos que, tendo-se constatado que, nos cenários de guerra, quanto melhor era a formação académica dos soldados melhor eles suportavam as dificílimas condições de combate, assim também, nos cenários de alto rendimento desportivo, quanto mais elevada for a formação académica dos atletas, melhor eles suportam as cada vez mais exigentes condições das diversas variáveis do treino dirigido para o alto rendimento desportivo. Em conformidade, os resultados desportivos extraordinários conseguidos nos três últimos anos, se em termos individuais só podem ser objeto de admiração, em termos sociais devem ser observados tendo em atenção a conjugação virtuosa de um certo número de variáveis profundamente negativas. 
O que está a acontecer é que, à margem não só da Constituição da República Portuguesa como da própria Carta Olímpica, estão a ser aplicados recursos para o alto rendimento que, em termos de equidade social, deviam estar a ser aplicados na promoção da prática desportiva de base, sobretudo entre as populações com maiores carências. Segundo os últimos dados do “Eurobarometer”, 64% dos portugueses afirmam não ter qualquer prática desportiva ou simples atividade física o que significa uma das piores taxas da Europa. E este resultado, desde 2009, tem vindo a piorar. Em consequência, os dirigentes das Federações Desportivas, enquanto assistem impotentes, por um lado, à incrível longevidade de muitos atletas de alto rendimento e, por outro lado, ao definhar do número de praticantes das suas modalidades desportivas, ensaiam ultrapassar tal problema que hoje assume contornos no domínio da moral pública, com a obtenção de medalhas olímpicas que, ao “alegrarem o povo”, alimentam a comunicação social e acabam por mascar o problema. Infelizmente, hoje, o “espírito olímpico” está condicionado aos ditames da política e do dinheiro. Só vale quem rende lugares de pódio e o desespero da Joana Ramos representa bem o estado de espírito em que os atletas podem estar a ser colocados. Ora, o desporto não é isto. O desporto, na sua seriedade, deve ser um constante estado de alegria e não de angústias existenciais.
Por isso, seria bom que os dirigentes desportivos e políticos voltassem ao pensamento de Pierre de Coubertin que, nos tempos que correm, cada vez se revela mais atual. Dizia ele: "o importante na vida, não é o triunfo, mas o combate; o essencial não é ter vencido, mas ter bem combatido. Espalhar estes preceitos é preparar uma humanidade mais valente, mais forte, portanto, mais escrupulosa e mais generosa". Nesta perspetiva, não faz qualquer sentido que um atleta de gabarito, depois de ter participado num competição justa nobre e leal venha pedir desculpa a quem quer que seja por não ter atingido os resultados almejados.
Esta divisa ficou-se a dever a Ethelbert Talbot, bispo da Pensilvânia (EUA), que a proferiu num sermão dirigido aos atletas que participavam nos Jogos de Londres (1908). Disse ele: “o importante nos JO não é ganhar mas sim participar, tal como o essencial na vida não é conquistar mas lutar bem”. Coubertin referiu-se à metáfora do Bispo Talbot no discurso proferido a 24 de julho, aquando do banquete de encerramento dos JO de Londres (1908). 
E porque é que tanto o Bispo Talbot como Pierre de Coubertin fizeram tal proclamação?
Para explicar aos atletas ingleses e americanos que participavam nos Jogos Olímpicos de Londres (1908) que a luta chauvinista em que se envolveram nas competições desportivas, para além de não ter qualquer sentido, estava profundamente errada. 
Os Jogos Olímpicos são muito mais do que a vitória desportiva pelo que os atletas não têm de se sentir culpados quando, na ausência dos favores da deusa Nike, não conseguem a almejada vitória.
Nunca existirão vencedores sem que exista um espírito de participação que deve ser conseguido por meio de políticas públicas em que o alto rendimento, através do “efeito de ídolo”, esteja integrado na base do Sistema Desportivo.
Políticas públicas que permitem que os atletas sejam submetidos, por quem quer que seja, a autênticas “lavagens ao cérebro”, levando-os, na sua ingenuidade, a assumir responsabilidades que não lhes competem, mesmo que se ganhem muitas medalhas olímpicas, não são dignas de países democráticos. 
Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

LONDRES 2012 - OU MUDAMOS OU NÃO SAÍMOS DA CEPA TORTA


Colocam-se quatro questões centrais: desde logo, se a opção é pelo Desporto Educativo Escolar ou, teimosamente, o País continuará na Educação Física tradicional, embora com algumas pinturas de fresco, mas assente em pressupostos que a história do processo já demonstrou se encontrar completamente desadequado dos novos tempos; em segundo lugar o que se pretende do sector federado, mormente, se a sua actividade se centra no desenvolvimento da qualidade ou, por razões várias, continua apostado na quantidade; em terceiro lugar, que níveis de formação técnico-científica são necessários; finalmente, quais as prioridades, tipos e montantes dos apoios, escalonados no tempo, e que sistema de controlo acompanha o processo.

Terminou a primeira parte dos Jogos Olímpicos de Londres. Seguem-se os Jogos Paralímpicos (de 29 de Agosto a 9 de Setembro de 2012) aliás, também do máximo interesse. Desta primeira ronda, a mais visível e mais universal, para Portugal fica o registo de uma presença no pódium (medalha de prata) e um conjunto de importantes diplomas em função de outras tantas presenças em finais. Não vou aqui fazer um balanço à prestação dos portugueses, pois isso implicaria conhecer todo o processo, apenas pretendo tecer algumas considerações de natureza causal para um certo sabor amargo que os Jogos continuam, infelizmente, a trazer a todos nós. Não porque os Jogos se esgotem na luta pelas medalhas, mas porque, globalmente, há uma causa (ou mais) que subjaz a um certo desencanto. Porque faz parte do nosso orgulho enquanto povo sentirmo-nos representados ao mais alto nível e ali vermos subir a bandeira de todos nós ao som do Hino, projectado que fica o significado daquele esforço traduzido em glória. Estar entre os melhores constitui uma sensação indiscritível, para os atletas, para os treinadores, para os dirigentes e para todos nós, mas atingir o pódium é sublime. Compreende-se.
Mas em função do desencanto, a questão que se coloca é a de determinar, afinal, qual a caminho seguro que pode conduzir à glória: se através de um conjunto de opções estratégicas, onde cabe uma rigorosa definição de prioridades assentes em correctas estruturas de apoio, ou, na desorganização, do tipo "seja o que Deus quiser", esperando que alguma coisa acabe por cair na rede. A primeira, penso ser pacífico, é a opção que qualquer governo sensato deve procurar implementar. A presença nos Jogos, independentemente das medalhas, faz-se a doze, dezasseis anos. Entre três a quatro ciclos olímpicos. Não se pode chegar ao ano dos Jogos com a certeza que não os merecemos. Ora, é a partir da resposta à pergunta "onde queremos chegar" que devemos responder a duas outras perguntas: "onde estou" e que "caminho tenho de percorrer para lá chegar". O planeamento torna-se, assim, a chave do sucesso. Não que esse percurso conduza, inevitavelmente, às medalhas, mas é o sentido que deve ser percorrido para que as hipóteses de glória sejam maiores.
E aqui colocam-se quatro questões centrais: desde logo, se a opção é pelo Desporto Educativo Escolar ou, teimosamente, o País continuará na Educação Física tradicional, embora com algumas pinturas de fresco, mas assente em pressupostos que a história do processo já demonstrou se encontrar completamente desadequado dos novos tempos; em segundo lugar o que se pretende do sector federado, mormente, se a sua actividade se centra no desenvolvimento da qualidade ou, por razões várias, continua apostado na quantidade; em terceiro lugar, que níveis de formação técnico-científica são necessários; finalmente, quais as prioridades, tipos e montantes dos apoios, escalonados no tempo, e que sistema de controlo acompanha o processo.
Tudo isto tem, obviamente, muito que se lhe diga em termos conceptuais e organizacionais, mas este não é o momento para os desenvolver. Uma coisa é certa, na improvisação e manutenção dos erros, não poderão ser esperados no futuro outros resultados que não os do passado. Isto é, mais diploma menos diploma, mais medalha menos medalha. Ora, quando a Educação Desportiva curricular não existe e o Desporto Escolar é atirado para um lugar cada vez mais secundário, impossibilitando a descoberta de talentos, obviamente que, daqui a quatro anos, voltaremos chorar, não pela emoção do pódium, da bandeira e do hino, mas por aquilo que não fizemos.
É o próprio Presidente do Comité Olímpico, Comandante Vicente Moura que assume: "O sistema desportivo está obsoleto (...) há uma incapacidade em criar os meios para pôr a juventude e os portugueses a praticarem desporto". Lamentou que existam pouco mais de 400.000 federados em Portugal, muitos dos quais "nem praticam desporto", e disse que se está em "fim de ciclo" e voltou a defender uma "mudança de paradigma", para que os resultados desportivos não continuem a definhar, com reflexos disso mesmo no Rio de Janeiro. Entre as várias propostas, defendeu uma reformulação do Projeto de Esperanças Olímpicas, com bolsas pagas diretamente aos atletas e não às federações, que o COP pague diretamente as verbas aos treinadores, para evitar situações como a que se verifica com Mark Emke no remo, que haja maior controlo da ação das federações, com critérios mais exigentes para a atribuição de apoios, a implementação de um Programa de Deteção de Talentos, uma política mais efetiva do IPDJ no apoio ao "desporto de base" e uma efetiva promoção do desporto escolar (Lusa).A cerimónia de encerramento de ontem à noite demonstrou, aliás, as nossas fragilidades, depois de nove séculos de História. Podemos ser um território pequeno mas, certamente, podíamos ser muito melhores do que somos.
Ilustração: RTP hd - em directo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

EXPLIQUEM AO PRESIDENTE PARA QUE ELE NÃO DIGA ASNEIRAS


Depois falou do mar: nós temos mar, nós temos bom tempo, penso que, principalmente, na natação, nos desportos náuticos podíamos ter bons resultados. Ora, convinha que alguém dissesse ao presidente do governo que a natação, afora a competição nas designadas "águas abertas", faz-se em piscinas que, curiosamente, na Madeira, não dispõem de gás para o seu funcionamento! Mas naquela preocupação pelo mar, que também nutro, pergunto, que fez ele, durante 36 anos, pelo acesso ao mar e pela prioridade dos desportos náuticos, relativamente às seis dezenas de modalidades praticadas e apoiadas na Região? Que política desportiva teve no sentido de maximizar o principal estádio desportivo (mar) que não tem sequer encargos de manutenção?


Como é que um político que não soube definir os princípios orientadores dos sistemas educativo e desportivo na Madeira pode ter moral para falar de uma "revisão" do movimento olímpico português e de toda a organização do desporto em Portugal? É como se eu desatasse aqui a escrever sobre energia nuclear. Não sei, não escrevo e não falo. Oiço, quanto muito. Ou, então, no caso de querer fazer uma abordagem, teria de realizar um esforço de profundo estudo, mesmo que de forma autodidacta, para poder, minimamente, tecer considerações com credibilidade. Mas o presidente do governo, que levou o sistema educativo (desporto escolar) e o sistema desportivo (associativismo federado) ao nível da indigência e falência, tal como estivesse no café, numa roda de amigos, manda uns palpites e arvora-se em conhecedor da matéria. Não tem emenda, talvez porque parte do princípio que, amanhã, já ninguém se lembra dos disparates ditos hoje. No encontro de ontem com duas centenas de crianças, melhor teria sido sentá-las junto da arara e contar-lhes uma historiazinha de avô para netos!
Mas tais considerações não têm nada de estranho, quantas vezes já falou de futebol, dos jogadores, treinadores e do rendimento da equipa do Marítimo, por exemplo. É um filme visto, só que, agora, em proporções muito maiores, porque são os JO que estão em causa. Vamos lá, sequencialmente, ao essencial das suas infelizes declarações. Disse: Portugal é "um país pequeno" que está "a competir com países de milhões de pessoas", apontando, a este propósito, o facto de a Madeira ter quatro atletas na competição, o que "é um milagre" (...) "quatro olímpicos em 270 mil pessoas, em proporção, dá mais olímpicos do que os Estados Unidos e a Rússia", declarou. Ora, aqui, cometeu dois erros de ignorância básica: primeiro, o facto de um país ser pequeno não significa que não tenha campeões olímpicos. Há várias formas de lá chegar. Podia aqui apresentar muitos exemplos. Deixo apenas um que tenho em memória, pelo facto de ter conhecido um campeão olímpico, nas olimpíadas de Seoul (1988), quando vivi, por dentro, os Jogos, era eu treinador do olímpico Paulo Camacho. Refiro-me ao Suriname, um país com 163.821 km2 e 570.000 habitantes. Nessa olimpíada, Anthony Nesty, do Suriname (naturalizado), nascido em Trinidad e Tobago, converteu-se no primeiro nadador negro a conseguir uma medalla de ouro olímpica, ao ganhar o grande favorito, o norte americano Matt Biondi, na prova dos 100 m. mariposa, prova que Paulo Camacho também competiu numa das séries. Anthony Nesty treinava nos Estados Unidos! Por isso, expliquem ao presidente que, lá vai, há muito, a tese de Coubertin que apontava para uma alargada base de praticantes para ter um campeão. Simplesmente porque uma coisa é o desporto educativo escolar que deve mobilizar muitos (descoberta de talentos), outra, o alto rendimento, cujo percurso é apenas para alguns talentos e sujeito a um rigoroso planeamento ao nível do percurso do atleta; segundo, refiro-me à contradição das suas palavras quando disse que se trata de um "milagre" a Madeira ter quatro atletas nos JO, quando comparado com os Estados Unidos e com a Rússia ao nível das respectivas populações. Desde logo só se pode comparar coisas comparáveis. É ridículo comparar a Madeira com os Estados Unidos ou com a Rússia. Portugal é que pode ser comparado e, ainda assim, tendo em atenção múltiplas variáveis. Repito, é ridículo! Para além disso evidencia que desconhece que cada modalidade desportiva tem regulamentos próprios de acesso e que existem quotas de participação, inclusive, por disciplina. Os Estados Unidos, por exemplo, hipoteticamente, pode dispôr de 20 atletas com os mínimos olímpicos numa modalidade, mas apenas um ou dois são apurados através de provas realizadas dentro do país.
Depois falou do mar: nós temos mar, nós temos bom tempo, penso que, principalmente, na natação, nos desportos náuticos podíamos ter bons resultados. Ora, convinha que alguém dissesse ao presidente do governo que a natação, afora a competição nas designadas "águas abertas", faz-se em piscinas que, curiosamente, na Madeira, não dispõem de gás para o seu funcionamento! Mas naquela preocupação pelo mar, que também nutro, pergunto, que fez ele, durante 36 anos, pelo acesso ao mar e pela prioridade dos desportos náuticos, relativamente às seis dezenas de modalidades praticadas e apoiadas na Região? Que política desportiva teve no sentido de maximizar o principal estádio desportivo (mar) que não tem sequer encargos de manutenção?
E falou, ainda, do apoio aos atletas de alta competição, dizendo que sem esse apoio não era possível ter atletas nos Jogos Olímpicos". Oh ainda presidente, se o João Rodrigues, o Marcos Freitas, o Alberto Paulo, a Helena Rodrigues, o Emanuel Gonçalves (paralímpicos) e Rodolfo Alves (paralímpicos) estivessem à espera daqueles que deveriam ser os verdadeiros, substanciais e atempados apoios regionais, ao longo da sua exigente preparação, estavam hoje em casa! Uma vez mais, expliquem ao presidente do governo quantos anos de atraso o governo tem nas transferências acordadas através de contratos programa (2007?). Expliquem que não existe nenhuma equipa técnico-científica multidisciplinar (regional) de apoio ao alto rendimento. Expliquem, genericamente, qual a participação do Comité Olímpico, dos clubes e das federações em todo o processo de preparação.  Expliquem que uma grande parte dos praticantes de rendimento elevado não dispõe de segurança após o seu percurso de atleta. Expliquem que os resultados ficam a se dever ao seu grande entusiasmo e amor ao que fazem e não a uma política desportiva devidamente concertada. Expliquem para que ele seja rigoroso. Às vezes é melhor estar calado.
Finalmente, disse estar "um pouco triste com a representação portuguesa". Pois, eu não estou um pouco triste, eu estou é desolado com o trapalhada conceptual, a falta de rigor, a ausência de conhecimento do presidente do governo, responsável primeiro pelo desastre que foi a sua política desportiva, quer no sistema educativo quer no desportivo.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

XXXI OLIMPÍADA: RIO DE JANEIRO OU CHICAGO?

Os mega eventos como os Jogos Olímpicos estão cada vez mais em evidência devido ao seu potencial para o desenvolvimento social, económico e ambiental dos países que os organizam e sediam. Os Jogos Olímpicos, em especial, têm uma influência muito grande nas mais diversos países e regiões, não só por estarem relacionados com modalidades desportivas largamente conhecidas e praticadas, mas, também, pelo legado positivo que de uma maneira geral deixam após a sua realização.
No próximo dia 2 acontecerá, durante a realização em Copenhaga, da 121ª sessão da Assembleia Geral do Comité Olimpico Internacional (COI) a decisão relativa à cidade que vai sediar os Jogos Olímpicos da XXXI Olimpíada. Na ocasião, será escolhida a vencedora entre as quatro cidades que atingiram a fase final da competição. São elas: Madrid, Tóquio, Chicago e Rio de Janeiro.
Entre estas cidades, destaca-se o Rio de Janeiro, principalmente no que diz respeito ao entusiasmo dos brasileiros quanto à realização dos Jogos Olímpicos no seu país. E os brasileiros dizem: “enquanto o Rio avança, Chicago está perdendo chão”.
De facto, o que parece certo é que as cidades que, de momento, estão melhor colocadas para ganharem a competição para sediar os Jogos de 2016 são o Rio de Janeiro e Chicago. A posição de destaque destas duas cidades se deve a diferentes razões e não, obviamente, a um entusiasmo generalizado de seus habitantes. Entretanto, muito embora exita uma grande euforia de muitos milhões de pesoas, a realização dos Jogos Olímpicos nestas cidades estão também debaixo de enormes críticas e possuem fortes oposições.
No que concerne às duas candidaturas restantes, Madrid e Tóquio, a questão parece, de alguma maneira, estar arrumada, quer dizer, as hipóteses são muito reduzidas. No entanto, apesar de todas as conjecturas que possam ser realizadas, tudo está em aberto e qualquer uma das cidades pode ser a escolhida.
Mais, aqui.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

AINDA A PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NOS JOGOS OLÍMPICOS

Escreve o meu Amigo Doutor Gustavo Pires na última edição de O Desporto Madeira:
"(...) com uma taxa de participação desportiva de 22% e aceitando como razoável a lei da centésima milionésima parte, Portugal só deveria ter levado a Pequim cerca de 22 atletas. Levou 77. Quer dizer, nesta perspectiva, houve um desperdício de recursos na alta competição que, de acordo com a lei dos rendimentos decrescentes, deviam ter sido utilizados no desenvolvimento da base do sistema, a fim de melhorar o padrão de competição interno, numa lógica de 4 a 10 praticantes de elite por dez mil praticantes de base. Como tal situação, desde há muitos anos a esta parte, nunca aconteceu, agora, nem temos praticantes de base nem temos praticantes de elite. (...) O COP, durante os últimos anos, teve mais olhos que barriga e os governos viveram na ilusão que quatro ou cinco medalhas escondiam a completa ausência de políticas públicas no desporto".
É óbvio que, enquanto as políticas desportivas forem aquelas que temos, jamais poderemos almejar a resultados que dignifiquem a bandeira portuguesa. O comentário do Professor Gustavo Pires encaixa, por outro lado, na política desportiva regional, onde as preocupações no âmbito do alto rendimento não encontram uma consistente base de apoio. Por aqui, os dados são estes: 16.000 no sector federado e apenas 3.500 no sector educativo escolar. Não há alto rendimento que subsista a números como estes.
Há quase trinta anos que se fala disto e quem tem a responsabilidade política, infelizmente, não aprende!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

COMITÉ OLÍMPICO PORTUGUÊS

Conheço, desde os finais dos anos 70, o Comandante Vicente Moura, Presidente do Comité Olímpico de Portugal e Chefe da Missão Portuguesa aos Jogos Olímpicos. Estivemos juntos em muitos momentos, quer na qualidade de Presidente da Federação Portuguesa de Natação quer na de Presidente do Comité Olímpico. Foi ele, por amizade, que, em 1988, no decorrer dos Jogos de Seoul (Coreia) me foi esperar ao aeroporto e me integrou na Missão. Mantivemos ao longo dos anos uma cordialidade que enalteço.
Não ponho em causa a sua dedicação ao desporto, a sua postura elegante no relacionamento, mas tudo tem o seu tempo e, tal como a frase que consubstancia a orientação deste blogue, o tempo do Comandante, com o devido respeito, também já terminou. Depois de ter afirmado que se retiraria não faz qualquer sentido, coincidente com a vitória de Nelson Évora, deixar uma porta aberta à continuidade. Não lhe fica bem. Os actos renovadores trazem vitalidade no contexto das organizações. E, no movimento olímpico português, há muito para fazer no sentido de Portugal não quedar-se por presenças quase simbólicas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

PARABÉNS JOÃO RODRIGUES

A vida de um desportista não se confina a uma medalha olímpica. É por isso que não estou desiludido, aliás, muito antes dos Jogos terem começado, fiz a defesa desse princípio. A medalha acontece e está sujeita a múltiplas variáveis. À dimensão da política desportiva madeirense temos sim de olhar para toda a vida desportiva do praticante e, nesse aspecto, o nosso João Rodrigues é medalha de ouro: cinco olimpíadas, múltiplos títulos conquistados, um curso de engenharia, humildade de campeão e simpatia no relacionamento são aspectos que marcarão a vida deste desportista de eleição.
Certamente que o João Rodrigues desejava chegar ao pódio. Seria a cereja no bolo que, meticulosamente, preparou durante muitos anos. Mas talvez mais do que ele, porque sabe o que é a competição de alto nível competitivo, alguns que por aí andam, brincando ao desenvolvimento do desporto, desejassem tirar a fotografia ao seu lado. Ficaram frustrados. O João Rodrigues certamente que não. A figura que é, a educação que tem, o sentido da responsabilidade que transmite e a consciência tranquila do dever cumprido, obviamente, que o fazem dormir descansado. Outros, do quadrante político, talvez não!
João Rodrigues merece, por isso, o mais alto lugar no pódio dos melhores desportistas madeirenses de sempre. Os outros, que tiveram e têm a responsabilidade do desenvolvimento do desporto (a política desportiva não pode quedar-se por uma instituição que recebe cartas e emite cheques), questionem-se e respondam a quatro perguntas muito simples:
1ª Quem substituirá João Rodrigues?
2ª Quantas velas e quantos praticantes de prancha à vela a Madeira tem? Trinta, cinquenta, sessenta?
3ª O que fizeram durante todo este tempo para promover o mar (principal instalação desportiva da Madeira) e para mudar o desporto que se faz na Escola?
4ª E que trabalho realizaram para promover a modalidade através do João Rodrigues?
O Engº João Rodrigues, repito, dorme descansado; muitos outros, certamente, têm pesadelos constantes.

PEQUIM 2008: O SONHO CHINÊS

Ao contrário daquilo que os ocidentais possam pensar, os Jogos para os chineses são uma coisa séria. São um sonho com mais de cem anos. Em 1907, um programa de Educação Física já colocava três questões fundamentais ao desporto chinês:
1ª Quando é que a China será capaz de enviar atletas vencedores aos Jogos Olímpicos?
2ª Quando é que a China será capaz de enviar equipas vencedoras aos Jogos Olímpicos?
3º Quando é que a China será capaz de organizar os Jogos Olímpicos?
A China enviou pela primeira vez atletas aos Jogos de Los Angeles (1932). A República Popular da China (RPC) enviou pela primeira vez atletas ganhadores aos Jogos da Olimpíada de Los Angeles (1984). Finalmente, a RPC organizou os seus primeiros Jogos Olímpicos em Pequim. A China levou cem anos a cumprir o seu sonho.
(in Forum Olímpico)
Três questões essenciais (para Portugal, pelo menos as duas primeiras) que nunca soubemos fazer. No essencial, onde estamos, onde queremos chegar e que passos temos de dar para lá chegar.
É por isso que temos a Educação Física que temos, o desporto que temos, a organização dos sistemas educativo e desportivo que temos e a mentalidade que temos.

sábado, 16 de agosto de 2008

JOGOS OLÍMPICOS 2008

Impressionou-me a leitura de duas notícias dos Jogos. Por um lado a fantástica vitória do norte-americano Michael Phelps, na prova dos 100 metros mariposa, onde conseguiu a sétima medalha de ouro, ganhando, com um escasso centésimo de segundo (50.58/50.59) o sérvio Mirolad Cavic. Esta vitória junta-se a um conjunto de provas que explicam a notável capacidade deste nadador: 200 e 400 estilos, 200 livres, 200 mariposa e estafetas de 4x 100 e 4x200 livres, todas estas as provas de grande exigência (sujeitas a eliminatórias e finais) e com recordes do Mundo. E dentro de horas poderá realizar o sonho da oitava medalha de ouro se ganhar a estafeta de 4x100 estilos.
Com treze medalhas de ouro em três olimpíadas (Sydney, aos 15 anos, Atenas e Pequim), Phelps supera as nove medalhas douradas conquistadas por Carl Lewis no atletismo (em quatro olimpíadas), Mark Spitz, na natação (em duas Olimpíadas), Paavo Nurmi, também no atletismo (em três Olimpíadas) e Larissa Latynina, na ginástica artística (em três Olimpíadas). Em Atenas, Phelps garantiu seis ouros (100m e 200m mariposa, 200m e 400m estilos e estafetas de 4x100m estilos e 4x200m livres). Fantástico!
Uma outra notícia foi a do abandono da alta competição de Francis Obikwelu, após ser eliminado da prova dos 100 metros, na meia-final, onde se classificou em sexto lugar, com 10,10 segundos. Em declarações à comunicação social, disse: “(...) Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa. Eu estou a ganhar dinheiro porque o povo português está a pagar para eu estar aqui e não consegui chegar à final. Este é o meu trabalho e queria pelo menos dar uma final aos portugueses”, disse. “(...) Agradeço a todos, porque estiveram a ver-me na televisão, e peço desculpa. Eu estou a ganhar dinheiro porque o povo português está a pagar para eu estar aqui e não consegui chegar à final. Este é o meu trabalho e queria pelo menos dar uma final aos portugueses” (...) “Não quero arranjar desculpas. (...) Foi um momento baixo, não consegui melhorar para estar na final".
Esta declaração de humildade, muito rara em Portugal, só confirma que há muito mais neste Obikwelu do que um atleta de eleição. Tudo tem o seu tempo, Obikwelu, com 29 anos, depois de uma carreira notável e com prestígio a defender, sai de cena com uma declaração que toca o coração dos portugueses; Phelps, de 23 anos, ainda com alguns anos para mostrar ao mundo o seu talento, nas declarações à comunicação social é também de uma impressionante e contagiante humildade. Um e outro merecem consideração e respeito pelo que significam para o desporto.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

CERIMÓNIA DE ABERTURA DOS JOGOS

Iniciaram-se os Jogos. Muito sinceramente, eu que não perco uma cerimónia de abertura desde há muitos anos, esperava um pouco mais. Foi um excelente espectáculo, com ritmo, beleza, estética, cultura, história mas, quando comparado com alguns outros momentos, fiquei com a sensação que esta civilização milenar poderia ter ido mais longe. É evidente que este tipo de cerimónias estão cada vez mais condicionadas pelos compromissos de transmissão de imagens e, por isso, os minutos são de ouro. Daí que qualquer organização tenha de fazer grandes opções nos quadros que apresenta. Sei que é assim pelo que muito ficar por apresentar. De qualquer forma, embora excelente, as tradições ancestrais daquele povo (e são muitas) ficaram aquém das minhas expectativas.
Não gostei, isso não, da presença de militares a transportar a bandeira da República Popular da China, na parte final do percurso. Teve e tem uma interpretação que extravasa a dinâmica dos Jogos e da paz. Acho que foi uma subtil demonstração política de força que, do meu ponto de vista, podia e deveria ter sido evitada.
Agora, são as competições. Ninguém deve esperar milagres dos portugueses e muito menos dos madeirenses. Estar entre os melhores já é muito bom. Como dizia, ainda hoje, o Príncipe Filipe de Espanha, "as medalhas estão muito caras" e, portanto, o que tiver de acontecer e se acontecer que a todos nos encha de orgulho.

domingo, 3 de agosto de 2008

PAULO CAMACHO NOS JOGOS OLÍMPICOS DE SEOUL (1988)

Em 1988, depois de um percurso verdadeiramente notável, o madeirense Paulo Camacho qualificou-se para os Jogos Olímpicos de Seoul. Faz agora 20 anos. Tive o ensejo de o acompanhar como seu treinador.
Começou muito cedo a praticar natação. Tinha oito anos quando realizou a primeira prova pública. Foi na festa de encerramento de um curso de Verão denominado por “Golfinho de Ouro”. Ganhou a prova que nadou. A partir daí passou a integrar a equipa do C. S. Marítimo tendo, em 1984, passado a representar o Clube Naval do Funchal.
Começou por treinar na piscina do Hotel Savoy (fria) e, depois, na da Escola Francisco Franco (raramente aquecida). Mais tarde, treinou na antiga piscina de Jaime Moniz e chegou a utilizar, muitas vezes, a piscina da Quinta Magnólia e do Complexo da Matur (ambas frias). As condições não eram boas. Eram muito diferentes das de hoje. Muitas vezes treinou em águas com temperaturas entre os 18º e 20º, quando o aconselhável é treinar com 27/28º.
No início treinava duas vezes por semana. Depois, a partir dos dez/onze anos passou a treinar todos os dias. Mais tarde, progressivamente, começou a fazer nove sessões por semana (todos os dias à tarde, mais três vezes por semana de manhã. Dois anos antes dos Jogos Olímpicos de Seoul (1988), treinava todos os dias, duas vezes por dia, percorrendo um total diário entre os 11 e 14 quilómetros. A estes dois treinos (o primeiro às 06.30 da manhã e o segundo às 18.00 horas) juntava-se, três vezes por semana, uma sessão de musculação de uma hora.
Não dispôs de apoios ao nível do regime alimentar. Nunca foram impostas medidas muito restritivas, até porque, na altura, o clube não dispunha de uma equipa multidisciplinar que incluísse um especialista em nutrição. De qualquer forma, cumpria sete a oito refeições por dia, evitando excessos de toda a natureza.Foram necessários dez anos de trabalho para atingir os Jogos.
O seu palmarés é invejável. Em síntese:
Melhor nadador português da geração de 1970.
Único nadador madeirense que percorreu todas as etapas: campeão regional, campeão nacional, Campeonato da Europa de juniores, Campeonato da Europa absoluto, Campeonato do Mundo de piscina curta, Campeonato do Mundo de piscina de 50 mts. e Jogos Olímpicos.
Nadador com o Estatuto de Atleta de Alta Competição Nacional com a categoria Europeia.
Campeão e recordista regional absoluto em doze das catorze provas do programa olímpico.
Campeão Nacional em várias distâncias, com destaque para os 100 mariposa e 200 mts, livres.
Título de nadador mais completo de Portugal na categoria de Juniores (1986 e 1987).
Título de nadador mais completo de Portugal ao nível absoluto (1989/90).
Vencedor absoluto do Torneio Nacional de Fundo na prova dos 1500 metros (1987).
Vencedor no Torneio Multinations, disputado em Antuérpia, em 1988, da prova de 100 mts. mariposa (57,47).
Recordista Nacional de categoria e absoluto dos 100 mariposa.
Participação no Campeonato da Europa de Juniores.
Participação no Campeonato da Europa Absoluto (Shefield – 1993). A marca de admissão (56’49) foi conseguida no Campeonato Nacional Absoluto de 1993.
Participação no I Campeonato do Mundo de piscina curta (Palma de Maiorca – 1993/94).
Participação no VII Campeonato do Mundo de piscina de dimensões olímpicas (Perth – Austrália – Janeiro de 1991). A marca de 56,78 nos 100 mariposa foi conseguida na piscina de Indianápolis, no Open dos Estados Unidos.
Participante nos Jogos Olímpicos de Seoul-88 na prova dos 100 mts. mariposa (57,62)
Participação, em representação de Portugal, em muitos «meeting’s» na Europa, em África, na América do Norte e do Sul.
Medalha de Mérito Desportivo Regional, atribuído pelo Governo da Região Autónoma da Madeira.