segunda-feira, 29 de julho de 2013

ESCOLA A TEMPO INTEIRO - A FALTA DE CORAGEM PARA REORGANIZAR A SOCIEDADE


"(...) Muitas crianças portuguesas, entre os seis e os dez anos, trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas. "A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta a investigadora Maria José Araújo. Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 e 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora. Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária". O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado. "A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer. Trata-se sobretudo da forma como as actividades são estruturadas, já que mesmo as actividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização. "O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de actividade lectiva, é preciso descansar e brincar. As outras actividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende. Actualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância".


Ontem caiu-me na caixa de correio electrónica um comentário a um artigo publicado no DN-Madeira. Um comentário assinado por Diane Ribeiro e que tem a ver com a escola que temos e a que deveríamos ter. Um comentário que fala das crianças, do tempo de escola e do tempo lúdico. Trata-se de um texto importante, com muitas citações, sobretudo da investigadora Maria José Araújo e do pediatra Mário Cordeiro que, de certa forma, corroboram posições que aqui tenho vindo a desenvolver. Lembro-me, por exemplo, quando pela a Assembleia Legislativa passei, um diploma que apresentei, em 2010, sob o título: "Regime Jurídico do Sistema Educativo Regional (...)", onde estas e outras preocupações foram enquadradas e... chumbadas. A minha posição de princípio, frontalmente contra as "Escolas a Tempo Inteiro", pela necessidade de reorganização de toda a sociedade e de todo o sistema educativo, encontram, aqui motivos de continuada reflexão. Sem mais delongas, aqui deixo o texto de tal comentário, em comunhão de pensamento com o Professor José Pacheco: "(...) Se eu tivesse o poder que os poderosos têm, contribuiria para a reconfiguração e humanização das escolas, para uma profunda mudança na formação dos professores, que contribuísse para a reelaboração cultural, a dignificação e o prestígio da profissão. Mas, em primeiro lugar, pugnaria pela desburocratização do sistema".
"(...) Muitas crianças portuguesas, entre os seis e os dez anos, trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas. "A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta Maria José Araújo, investigadora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 e 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora, em declarações à agência Lusa. Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária". O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado. "A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer.
Trata-se sobretudo da forma como as actividades são estruturadas, já que mesmo as actividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização. "O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de actividade lectiva, é preciso descansar e brincar. As outras actividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende. Actualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância". Repetir em casa o que se fez na escola, prolongando o tempo de trabalho escolar, é um dos erros que se tem vulgarizado, defende. "Os TPC [trabalhos para casa] são muitas vezes repetitivos e inúteis. Meninos de seis e sete anos andarem a repetir letras e fichas, com o argumento de que eles gostam e precisam, devia ser proibido, como acontece já nalguns países", sustenta Maria José Araújo. Contudo, a investigadora diz que é necessário distinguir entre estudar e fazer TPC: "Estudar é importantíssimo e deve ser ensinado e incentivado. Deve ser mostrado isso às crianças. Mas estudar tem de ter a adesão voluntária de quem o faz. Já os TPC repetitivos podem ajudar a mecanizar, mas afastam a criança do sentido e do valor do conhecimento."
Para Maria José Araújo, os TPC, a existirem, devem ser feitos na escola, eventualmente no apoio ao estudo e nada mais, até porque "representam muito em termos de tempo que ocupam, mas muito pouco em termos de estímulos cognitivos". "Na verdade, se os TPC, tal como os conhecemos, ajudassem as crianças a ter sucesso escolar já se teria notado", indica, sugerindo que se deve antes ajudar as crianças a compreender o significado do conhecimento e das diferentes formas de aprendizagem. "Saber não é só repetir e há muitos educadores que apostam mais nesta versão", defende. Também para o pediatra Mário Cordeiro, a escola, onde os meninos permanecem tanto tempo, tem a obrigação de ensinar "sem invadir o espaço-casa, onde as crianças devem estar sem pressões". "Os TPC diários, na versão "mais do mesmo", são uma invasão da privacidade, na pior hora possível para a família e quando o aluno não tem capacidade de resposta, origina stress familiar e pessoal. Deviam ser abolidos", defende Mário Cordeiro. A crise aumenta pressão sobre as crianças para serem "alguém no futuro". A crise está a fazer com que pais e professores aumentem a pressão que exercem sobre as crianças para serem "alguém no futuro", sufocando-as com exigência e contribuindo para desencadear perturbações obsessivo-compulsivas, constata a investigadora Maria José Araújo.  
"A maioria das crianças tem imensos trabalhos para casa (TPC) para fazer depois do horário escolar e sentem-se sufocadas com a pressão dos pais, da escola, mas também dos centros de estudo e do ATL (actividades de tempos livres), que não compreendem que depois das aulas elas precisam de brincar. Com a crise, a pressão está a aumentar imenso", afirma à agência Lusa a investigadora com experiência de trabalho com crianças nesta área. Maria José Araújo considera que é necessário reflectir sobre a angústia dos pais, sobre o que significa a excelência e o sucesso, já que as crianças são diferentes e têm ritmos de vida que devem ser respeitados. A ideia de que se as crianças trabalharem muito hoje vão ser alguém no futuro não tem, no contexto actual, grande sustentação, além de se ter tornado numa pressão social, refere. "O discurso é todo à volta do sucesso, sem se explicar muito bem de que sucesso estamos a falar. E isto exerce uma pressão enorme. Os pais pressionam os filhos, os professores pressionam os alunos e a sociedade pressiona as crianças", diz. Segundo a especialista, alguns pediatras e psicólogos têm mostrado muita preocupação com esta situação, relatando atitudes de cansaço e angústia nas crianças e comportamentos de grande mal-estar que desencadeiam stress ou depressão. "O receio alimentado pelo espectro do desemprego e pela incerteza económica tem aumentado brutalmente. E aumenta a pressão sobre os pais, que exercem mais pressão sobre as crianças", nota Maria José Araújo. O pediatra Mário Cordeiro defende que o objectivo do sistema de ensino não deve ser "começar a formar cavalos de corrida para a retoma económica". "O objectivo deve ser ensinar, dar informação que permita formar conhecimento, transmitir sabedoria, dar instruções práticas para situações concretas, desenvolver a capacidade de pensar, raciocinar, reflectir, dialogar", declarou. O sistema, diz Mário Cordeiro, deveria tentar que cada aluno sinta brio e vontade de ser melhor e não, como nos quadros de honra e rankings, o melhor de todos.
Ilustração: Google Imagens.

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