sexta-feira, 16 de agosto de 2013

UM BISPO DESCARRILADO - SE JARDIM É CULPADO, CARRILHO É CÚMPLICE


Não me parece difícil caracterizar o Senhor Bispo António Carrilho. Chegou, de sorriso largo, almoçou umas vezes no meio do Povo, no simpático Café Apolo e, rapidamente, o sorriso deu lugar a uma atitude fechada e preocupante. Aprendeu depressa o que os "poderosos" exigiam do seu múnus. É, hoje, um Bispo claramente descarrilado. A atitude perante o Padre José Luís Rodrigues envergonha a Diocese e espelha a sua dependência do poder político. Trata-se de uma situação de certa forma chocante, talvez porque Jardim não gosta das posições do Padre José Luís e, vai daí, o Bispo prefira ignorá-lo. O Senhor Bispo António Carrilho deveria situar-se acima, muito acima da pouca-vergonha do poder de alguns senhores. Deveria mostrar-se partidariamente independente, cortando os históricos cordões umbilicais e entregando-se à sua Missão, com poucas palavras de uma retórica que já não passa e mais actos consentâneos com a Palavra de Cristo. Ganharia o reconhecimento de todos, dos crentes e não crentes. Antes prefere o silêncio que compromete e a atitude que ofende os próprios católicos, portadores de uma ampla visão da importância da Igreja que não se confina ao discurso bafiento da caridadezinha!


Padre José Luís Rodrigues
Pároco de S. Roque e S. José (Funchal)


O Padre José Luís Rodrigues escreveu um livro: "Para que Serve Acreditar? O que a fé não deve ser". Enviou, como é absolutamente natural, um exemplar ao Papa Francisco. A resposta chegou: "(...) O Sumo Pontífice acolhe com paternal benevolência, a gentil oferta que lhe fez do seu livro", refere monsenhor Peter Wells, assessor do Papa, que prossegue com referências elogiosas ao livro e ao tema que aborda. Além da resposta, recebida na passada segunda-feira, com referências específicas ao trabalho do padre José Luís Rodrigues, também foram enviadas duas fotos do Papa Francisco (DN-Madeira). Enfim, o agradecimento e reconhecimento pela obra publicada veio de Roma, enquanto o silêncio foi a nota infelizmente dominante de quem está à frente da Igreja na Diocese do Funchal. Lamentável. Razão tem o Padre José Luís Rodrigues: "Não poderia ter-me chegado em mãos tão nobre elogio e tão insigne opinião autorizada sobre o humilde livro que escrevi e lancei para o público" (...) "Enquanto andarmos cheios de inveja e com desconfianças, a nossa Igreja (Diocese do Funchal) e a sociedade madeirense não avançam, ao contrário, andam para trás".
D. António Carrilho
Bispo do Funchal
Não me parece difícil caracterizar o Senhor Bispo António Carrilho. Chegou, de sorriso largo, almoçou umas vezes no meio do Povo, no simpático Café Apolo e, rapidamente, o sorriso deu lugar a uma atitude fechada e preocupante. Aprendeu depressa o que os "poderosos" exigiam do seu múnus. É, hoje, um Bispo claramente descarrilado. Esta atitude perante o Padre José Luís Rodrigues envergonha a Diocese e espelha a sua dependência do poder político. Trata-se de uma situação de certa forma chocante, talvez porque Jardim não gosta das posições do Padre José Luís e, vai daí, o Bispo prefira ignorá-lo. 
O  Senhor Bispo António Carrilho deveria situar-se acima, muito acima da pouca-vergonha do poder de alguns senhores. Deveria mostrar-se partidariamente independente, cortando os históricos cordões umbilicais e entregando-se à sua Missão, com poucas palavras de uma retórica que não passa e mais actos consentâneos com a Palavra de Cristo. Ganharia o reconhecimento de todos, dos crentes e não crentes. Antes prefere o silêncio que compromete e a atitude que ofende os próprios católicos portadores de uma ampla visão da importância da Igreja que não se confina ao discurso bafiento da caridadezinha como fatalidade!
A este propósito, em Junho de 2007, quando o Senhor Bispo António Carrilho chegou à Madeira, escrevi um texto, publicado no DN (29.06.2007) o qual subordinei ao título: "Carrilhar é preciso". Nessa opinião salientei uma passagem do Bispo Emérito de Setúbal D. Manuel Martins: "há uma diferença entre os que acreditam no que dizem e os que são meros funcionários da Igreja". Nem mais. Volto aqui a deixar esse texto, seis anos depois, simplesmente porque assisto ao descarrilamento da sociedade sem que alguém, com responsabilidades, vendo a pobreza, a miséria e o esbanjamento, mexa uma palha para colocar nos carris o desnorte político que por aí vai. Se Jardim é culpado, o Bispo Carrilho é cúmplice. 
"Terão passado despercebidas, ou talvez não, as sábias palavras de Dom Manuel da Silva Martins, Bispo Emérito de Setúbal: "(...) as alternâncias são sempre boas. Por muito boa que seja a pessoa que está, a partir de determinada altura alternar é bom. Já tive essa experiência na minha vida. Fui professor, saí, entrou outro, foi óptimo; fui vigário-geral, saí, entrou outro, foi óptimo; fui bispo em Setúbal, saí, entrou outro, foi óptimo. A alternância é magnífica a todos os níveis e em todos os sectores porque traz novidade, dá esperança, imprime outro ritmo de vida". Concordo, em absoluto. Não sei se, por detrás das palavras, Dom Manuel, recentemente condecorado com a Grã Cruz da Ordem de Cristo, pelos relevantes serviços prestados ao País, palavras aquelas ditas num determinado contexto, quis também deixar um subtil alerta à Igreja, aos políticos e à população da Madeira. Talvez. Estou em crer que houve ali uma espécie de bilhar às três tabelas. Até pela sua inteligência, argúcia, luta na defesa de princípios e valores, o Bispo vermelho como o apelidaram, porque nunca teve papas na língua, cidadão honorário de várias cidades e, entre outros, nome de uma escola de ensino secundário, do alto dos seus oitenta anos, com toda a experiência de vida e dos comportamentos dos homens, é bem possível que tivesse querido deixar essa mensagem colateral de "esperança" que poderá, no futuro, imprimir "outro ritmo de vida" aos madeirenses.
Dom Manuel Martins é um pastor da Igreja católica que me fascina pela clareza do raciocínio, pela doação, simplicidade, humildade e lição de vida ao serviço dos mais carentes, ofendidos e marginalizados. Outros, não reconhecidos pela Nação, porventura ficam na história insulana da pequenez dos favores e dos cúmplices silêncios junto do poder temporal, instituído, Deus bem sabe como, repetindo mofas ladainhas que já poucos as compram. Como bem disse Dom Manuel Martins há uma diferença entre os que acreditam no que dizem e os que são meros funcionários da Igreja. Na Madeira temos tido, infelizmente, personagens dessas que, digamos, cumprem, rigorosamente, o horário. Isto porque, quando se tratou e trata de tocar frontal e persistentemente nas feridas sociais que sangram; de conhecer esta laranja, aparentemente limpa e sumarenta mas amarga e corroída por dentro que, dia-a-dia, estraga todo o cesto; de despir as vestes clericais e meter-se nessa Madeira profunda que nasce à nossa ilharga com a tal mensagem de esperança; de sair do Paço ou do adro por lealdade e fidelidade à Palavra; de afrontar os poderes, pequenos ou grandes, colocando, serenamente, no seu verdadeiro lugar os jogadores do xadrez político, público e privado, que batem a mão no peito mas, por arrogância, luxúria, avareza e gula fazem xeque-mate à bondade e humildade de um povo... fugiram e fogem como o diabo da cruz. Convenhamos que o comportamento desejável e necessário na condução dos Homens neste conturbado tempo, um tempo do ter antes do ser, um tempo de falsas verdades, não tem sido apanágio de algumas figuras quando compaginadas com a atitude independente e marcadamente humanista do Bispo Emérito de Setúbal. 
D. Manuel Martins
Bispo Emérito de Setúbal
A Madeira já teve, também, nos longínquos anos de 1849/1858, um Bispo chamado Manuel Martins. Este de sobrenome Manso. Reza a História que governou o bispado madeirense no meio de graves convulsões clericais e sociais. Precisamente um quadro que, embora dissimuladamente, hoje se constata. Ora, a Região não precisa de mais um manso. Precisa de um que cante fora do coro, que desafine pelas suas tomadas de posição, que liberte o povo para a Palavra consequente desamarrada do jogo dos interesses políticos e da subserviência resultante do subsídio, aliás, como muitos, por esse mundo fora, o têm feito e que, por isso, embora criticados pela hierarquia, são merecedores do reconhecimento e veneração públicas. É difícil, então eu não sei! Mas também sei que a esperança de que fala Dom Manuel Martins, "a todos os níveis e em todos os sectores", políticos, sociais, económicos, culturais e até religiosos, constrói-se através da mudança de hábitos, da criatividade, da defesa da honestidade, da educação, da cultura, do abanar das consciências adormecidas e de chamar, educada e solenemente, nos momentos certos, os bois pelos nomes. A esperança nesta terra passa, também, por aí. Carrilar é preciso!"
O problema é que não há maneira!
Ilustração: Google Imagens.

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