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domingo, 30 de dezembro de 2018

HAVERÁ MOTIVOS PARA UMA ACÇÃO DE GRAÇAS?


Não faz o meu jeito retirar frases do contexto que as encerra. É perigoso, desonesto para além de induzir os leitores em erro. Portanto, não vou pegar nas palavras do Senhor Bispo Carrilho e conduzi-las ao meu moinho de escrita. O que está em causa é mais profundo, é a Mensagem de quase nulo significado. E tanto que há para dizer, do ponto de vista social, económico, financeiro e cultural de forma contextualizada com a Palavra. Fixei esta frase: "(...) importa, sem dúvida, conservar e renovar no seu verdadeiro espírito e significado as belas tradições natalícias (...)". Pois, em abstracto, qualquer pessoa concordará, mas não podia e não deveria ter ficado por aí e por mais algumas coisitas de somenos importância. Lamento dizê-lo, mas já não consigo aceitar generalidades, muito menos banalidades das hierarquias políticas e religiosas. Continuo a querer aprender! Quando repetem, das duas uma, ou não têm nada para dizer ou tentam esconder alguma coisa. Porque não interessa, certamente.


Devia o Senhor Bispo António Carrilho ter lido os últimos dois textos do Senhor Padre José Martins Júnior, publicados no blogue "senso&consenso" e aí encontraria o fio condutor de uma intervenção com a qualidade necessária aos tempos conturbados que estamos a viver. Deliciei-me a ler tais textos e, certamente, a muitos teria sido importante escutar a Palavra cheia de Mensagem. Eis um excerto: "(...) É de ver e pasmar a atenção dos mirones para as originalidades e ‘originalidezes’ de cada espécime de presépio, do mais rude ao mais pintado. E ninguém se lembra de interpelar aquela Criança, para fazer a única e necessária pergunta: “Que vens fazer aqui, Menino?.. Que é que te fez nascer por estas bandas?... Qual é o teu projecto de vida”?. (...)" E a partir daqui tanto, mas tanto teria para dizer aos fiéis. 
O Senhor Bispo prefere a repetição que, de uma forma exemplar, o DN-Madeira, tem já algum tempo, publicou, comparando, julgo que dez anos de homilias, de onde concluiu que elas são "repetitivas". Percebo que não tenha tempo nem queira ler o Padre José Martins Júnior. Nem esse nem o Padre José Luís, nem outros que com exímia coragem e frontalidade escrevem e falam do exemplo de Cristo. Ainda por cima, o Padre da Ribeira Seca continua, com a "benção" do Senhor Bispo António Carrilho, vergonhosamente suspenso "a divinis". Percebo a dificuldade de pedir o perdão reconciliador, mas se a tal Justiça Divina existe, o Senhor Bispo Carrilho e os que o antecederam têm continhas a ajustar. E percebo também o porquê de, subtilmente, naquela frase inicial que deu o mote a este texto, ter falado em "conservar e renovar". Repito, não quero descontextualizar, mas, eu diria que, politicamente, fugiu-lhe a língua para a sua verdade: manter os que vieram em nome da "renovação" e, por isso, subliminarmente, que Deus os "conserve". As palavras são traiçoeiras e exprimem, muitas vezes, aquilo que trazemos em pensamento. As palavras não são neutras. 

Seja como for, amanhã, no Te-Deum de Acção de Graças, com os eleitos perfilados frente ao altar, agradeça, Senhor Bispo, aos governantes, o facto deste povo catalogado de "superior", constituir a segunda região mais pobre do País. Agradeça-lhes um Sistema de Saúde que mantém 60.000 actos médicos em lista de espera (DN de hoje). Agradeça-lhes o facto da Madeira apresentar taxas que nos envergonham no abandono e insucesso escolar (65% da população da Madeira, com 15 ou mais anos, tem apenas até o 9º ano de escolaridade). Agradeça-lhes o facto de, passados tantos anos, não ser possível pagar, através do Orçamento Regional, um complemento de pensão a quem dispõe de prestações geradoras de pobreza. Agradeça-lhes terem produzido gente que enriqueceu à custa da Autonomia e da degradação dos direitos de quem trabalha. Agradeça-lhes a existência de quase 30% de pobres. Agradeça-lhes a produção em massa de gente deprimida. Fale disso e, por favor, não fale de fé e caridade! Até porque Cristo não tem nada a ver com os desmandos políticos. 

Ilustração: Google Imagens.

NOTA
Endereços dos artigos do Padre José Martins Júnior:
http://sensoconsenso.blogspot.com/2018/12/natal-da-decepcao.html
http://sensoconsenso.blogspot.com/2018/12/devotos-destruidores-de-todos-os.html

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

BISPOS TEODORO E CARRILHO CONFESSEM-SE E PEÇAM PERDÃO


A história da suspensão "a divinis" do Padre José Martins Júnior é conhecidíssima. É uma história que envergonha, desde logo, os três bispos após o 25 de Abril (Santana, Teodoro e Carrilho) e, por extensão, a própria Igreja da Madeira. Há, neste processo, um silêncio cúmplice de muita gente, em um evidente favor ao poder político, que acaba por ser desprestigiante para uma Igreja que fala e fala de amor e de misericórdia. Ora bem, digo eu, marimbem-se para as questões do Direito Canónico, e se, em tempo útil, o padre Martins não reclamou para as instituições superiores aquela não sustentada pena eclesiástica, imposta por um bispo em fúria, tenham a coragem de o julgar (o inalienável direito ao contraditório) ou verguem-se e peçam perdão pelas atitudes tomadas nos anos 70. Só é grande quem é humilde e isto vale para pessoas ou instituições. É execrável que andem há quarenta anos a triturá-lo, contra a vontade do povo da Ribeira Seca, a perseguir um Homem de enorme sensibilidade e humanidade. Tomara que muitos líderes seguissem o seu exemplo. Ainda ontem ouvi uma entrevista com o especialista em assuntos religiosos, Manuel Vilas Boas, jornalista da TSF que, a determinada altura, enalteceu: o Padre José Martins Júnior "colocou-se no sítio certo... ao lado do povo".


Parabéns à SIC pelo programa "Vidas Suspensas", uma oportunidade de todo o país conhecer a história e o pensamento de um Homem da Igreja, vítima do poder subterrâneo e submisso dessa Igreja, como disse Vilas Boas, "que não tem a mesma sensibilidade" para estar junto do povo. E é verdade. É sensível um genérico desajustamento entre a Palavra e a prática. 
É claro que, do meu ponto de vista, o Padre Martins Júnior não tem a sua vida suspensa. É um Homem culto, característica que falta a muitos da hierarquia católica. Está consciente dos valores que o guiam e da missão que abraçou e desenvolve. O Povo gosta dele. Quem está no lado errado são aqueles que deram o primeiro passo, que atiraram a primeira pedra, negaram a Verdade, rasgaram a História e contrariaram a Palavra, por egoísmo e serviço ao poder político-partidário. Com isso ganharam umas migalhas. Parafraseando José Martins Júnior, a hierarquia reza, não pensa!
Martins Júnior foi suspenso porque "era comunista", alegou o bispo Santana. E que fosse! O bispo Santana referiu que até "sabia o número dele" no PCP! Ao ponto que chegou a mesquinhez. Martins Júnior é, sim, e tais bispos sabem, um Homem da solidariedade que serve a Igreja, que serviu o País na guerra colonial, serviu a Região enquanto autarca e deputado e até serviu o sistema educativo. Um Homem que não se deixou acorrentar aos tortuosos caminhos de um poder político castrador do pensamento. É um Homem de pensamento LIVRE. E isso teve e tem os seus custos.
Mas se fosse um homem vinculado a um partido político de direita, aí sim, teria sido abençoado e colocado no altar dos interesses da Igreja. Tudo isto deixa-me triste pelo Amigo, mas sobretudo pela triste imagem que a Igreja oferece. Aos bispos Teodoro e Carrilho, confessem-se, não se refugiem no Direito Canónico, peçam perdão, tal como o Papa Francisco o fez por outros motivos e circunstâncias. Respeitem mais de 50 anos de sacerdócio do Padre Martins Júnior. O Bispo António Carrilho deveria ter presente que muitos têm consciência das suas palavras relativas ao Bispo Francisco Santana, quando falou das suas qualidades humanas e da sua "lucidez e coragem" por ter defendido "intrepidamente as suas ovelhas" (05/03/2011). Está tudo dito. Se o problema nunca foi resolvido foi por conivência e plena aceitação dos interesses político-partidários. 
Da minha parte fica aqui a confissão: estou cada vez mais próximo da Palavra de Cristo e cada vez mais distante dos homens que a violam. Porque uma coisa é ter Cristo como orientador dos princípios de vida; outra, é ser um católico vítima de uma instituição que se vende aos bocados. E por aí não vou.

NOTA

Ver texto do Padre Martins Júnior no seu blogue senso&consenso.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"QUANDO SE DESCARTA UM PADRE"


Há uma palavra que me acompanha: solidariedade. O grito do Senhor Padre José Luis Rodrigues, por momentos, levou-me ao museu nacional de Oslo onde apreciei a obra do pintor norueguês Edvard Munch. Chamou-lhe "O Grito". Uma obra expressionista que testemunha a angústia do ser humano. O texto que li é também um sentido GRITO perante a ausência de solidariedade. No centro está o Padre Giselo Andrade, aquele que assumiu a paternidade de uma menina, hoje, "literalmente escorraçado por uma autoridade sem tino e sem bom senso". Vive de um "mísero salário que a Diocese lhe concede todos os meses" sem nenhuma "função eclesiástica digna como exige a sua condição de sacerdote da Igreja Católica". O GRITO vai mais longe e atinge os que o abandonaram e ostracizam, colocando a "autoridade máxima à frente do "bullying clerical" contra o padre Giselo para que fosse torrando em lume brando".

Sublinha o seu texto: "(...) o padre Giselo continua descartado, porque procriou, fez ver a luz a uma criança com os olhos da cor do céu. Com isso rebentou o ódio, a vingança e a inveja clerical, que são venenos terríveis dentro das hierarquias. Pois, fez um «pecado mortal» para a hipocrisia dominante da Igreja e da sociedade em geral, que soma séculos de abusos sexuais, prepotência, abuso de poder e o reincidente farisaísmo que impõe leis e mais leis para os outros cumprirem, ostracizando multidões de fiéis que tiveram que carregar fardos pesados impostos por aqueles que nem com a ponta do dedo lhe tocavam. Mas, certo é que o padre Giselo continuará de fora, descartado, porque o «bulling clerical» continua, até ver se aguenta e desiste da feliz dignidade com que assumiu os seus actos, quiçá também um dos gestos, entre outros com certeza, dos mais corajosos destes cinco séculos da história da Igreja da Madeira... É coisa pouca para uma grande parte, mas um passo enorme que devia fazer pensar toda a comunidade católica da Madeira, se tivéssemos uma Igreja iluminada pela luz do Evangelho e com maturidade suficiente para pensar sem preconceitos." 
Comungo, integralmente, das preocupações do Padre José Luis Rodrigues, do seu enorme sentido de SOLIDARIEDADE e da chamada de atenção para o interior de uma Igreja agarrada que está a preconceitos e a discursos bafientos que nada têm a ver com a Palavra. Afinal, questiono-me, que Bispo tem a Diocese do Funchal, incapaz de cumprir o amor solidário de Jesus? Que Bispo é este que apenas fala de "caridade" e de "fé" e passa ao largo dos verdadeiros problemas da sociedade? Que Bispo é este, sem estrutura mental, para ultrapassar entre outros casos, tanto a paternidade do Padre Giselo, como a vergonhosa suspensão ad divinis do Padre Martins Júnior? Que moral tem o Senhor Bispo para subir ao púlpito e pregar a bondade do Evangelho, quando tem uma prática contrária à Palavra? 
É mesmo para um sonoro GRITO. Parabéns Padre José Luís pelo exemplo de frontalidade, dignidade e SOLIDARIEDADE. Senhor Bispo, leia 50 vezes o grito do Padre José Luís.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

UMA DEMORA QUE PREOCUPA... PELA MULTIPLICAÇÃO DE LEITURAS POSSÍVEIS!


FACTO

Há muito que terminou o tempo do Senhor Bispo António Carrilho enquanto líder da Diocese do Funchal. Pela idade, já deveria ter sido substituído. Pediram-lhe que ficasse mais um ano e esse prazo também já foi ultrapassado. 

PERGUNTAS
E COMENTÁRIO

Pergunta-se, então, o que levará "Roma" a mantê-lo nas funções de Bispo da Diocese do Funchal? Enigmático! 
O que parece é que não é fácil, analisando vários contextos, sobretudo os de ordem política onde se enquadra o passado, nomear um novo responsável pela Igreja na Madeira. Um aspecto é evidente: a Diocese está parada. Melhor dizendo: funciona no plano administrativo e, com muitas dificuldades, nos rituais, mas distante da dinâmica da Palavra que seria importante para a vitalidade da instituição no tempo que vivemos. Não basta citar, quando convém, claro, o Papa Francisco. Exige-se, hoje, uma Igreja política e não partidária. Que esteja atenta aos sinais e seja frontal, coerente com a Palavra. Uma Igreja sem medo.
Deduzo que exista muito conflito silencioso e, porventura, muita efervescência e angústia nos bastidores da linha hierárquica. Daí que, duas outras perguntas me bailem frente aos meus olhos observadores: será porque o ciclo eleitoral legislativo regional está a chegar ao fim e desejam, primeiro, saber para que lado o povo se decide? Será que não existe nenhum padre madeirense, jovem, experiente, de mentalidade aberta, não conservadora, frontal, respeitado e rigoroso, capaz de romper com a ausência de dinamismo e com aquele discurso tantas vezes retrógrado, arcaico, intolerante e hipócrita, que já poucos entendem e aderem? Será que não existe nenhum padre de cultura que não se divorcie da sociedade? Será que há constrangedores "esqueletos no armário"? 
Finalmente, qual será a posição dos Cardeais portugueses D. Manuel Clemente e D. António Marto e, ainda, do Núncio Apostólico (representante diplomático da Santa Sé), Arcebispo Rino Passigato? Os silêncios são, muitas vezes, ensurdecedores.

NOTA

Para ajudar na compreensão da(s) pergunta(s) política(s), deixo aqui um comentário do Engº Duarte Caldeira, a propósito de um texto que publiquei na minha página do facebook: "Recordo-me que quando fui eleito líder parlamentar do PS na Assembleia Regional, fui recebido pelo Bispo de então. Da conversa surgiu uma frase de D. Teodoro Faria que nunca mais esquecerei: "Se eu fosse bispo nos Açores, estaria do lado de Carlos César" (era este o Presidente do Governo Regional dos Açores, na altura). Parece-me que esta frase diz tudo: a Igreja está sempre ao lado do poder! Quero aqui e agora salientar aqueles sacerdotes que tiveram a coragem de não seguirem as ideias dos Bispos que têm governado a Diocese da Madeira depois da Revolução dos Cravos, colocando-se sempre ao serviço do povo madeirense. Para todos esses, o meu respeito e muita consideração.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de junho de 2018

AS CONSTANTES BOLAS PARA FORA DO SENHOR BISPO ANTÓNIO CARRILHO


Reflecti muito antes de escrever estas breves linhas. Simplesmente porque não quero ser mal interpretado. Decidi correr o risco, porque as considerações que farei têm a ver com a profundidade da Mensagem de Cristo. Não com o Homem Bispo. Têm a ver com a Mensagem que me foi transmitida. Apenas isso. E porquê? Pelo meu entendimento que não basta colar-se, apenas, a uma parte do discurso da extraordinária figura que é, o Papa Francisco, mas ir à totalidade do seu pensamento. É muito curto e limitado falar aos cristãos da importância em "acolher, comungar, celebrar e adorar" e que não se pode esquecer os doentes e os pobres que precisam de uma presença amiga, ou de uma palavra de conforto, os presos, os idosos, as famílias com maiores problemas, os jovens e as crianças - fonte DN-Madeira, sobre as solenidades do Corpo de Deus. Essas são palavras de circunstância, requentadas, tipo timex, porque "não adiantam nem atrasam".


A Mensagem de Cristo, traduzida no discurso do Papa Francisco, implicaria que o Bispo Carrilho falasse das causas, porque são essas que entroncam nos "(...) direitos humanos que são violados não só pelo terrorismo, a repressão, os assassinatos, mas também pela existência de extrema pobreza e estruturas económicas injustas, que originam as grandes desigualdades (...) pelo que, assume, ainda, Francisco, "é preciso servir aos frágeis ao invés de se servir deles". E sendo assim, continua, ao Cristão torna-se necessário "envolver-se na política, uma obrigação. Nós cristãos não podemos fazer de Pilatos e lavar as mãos, não podemos!". Neste contexto, a verdade é que o Senhor Bispo António Carrilho, desde sempre, lavou as mãos, exprimindo grandes dificuldades em chamar os bois pelo nome! É que a melhoria das condições sociais das famílias, em geral, e, particularmente, dos pobres, dos jovens, das crianças, dos idosos, não melhoram com palavras de conforto, com "amor e gratidão" ou com "fé e caridade", melhoram, sim, com atitudes de natureza política. 

E o Senhor Bispo sabe bem que só os politicamente partidários do poder ignoram as causas. Os não comprometidos (o Papa Francisco é um deles) tocam nas feridas. Onde sangra metem o dedo para sangrar ainda mais, mexendo nas consciências intencionalmente adormecidas. É isto que espero de um Bispo de Cristo. Que seja político, apartidário e atento!

Mais, ainda, não basta participar nos rituais de Domingo, bater no peito, e, mor das vezes, escutar a "chuva no molhado", isto é, a Palavra descontextualizada da vida. Daí que, a afirmação da Igreja de Cristo não deva, opinião que formei ao longo dos anos, ser tolerante para quem dela se serve. A Palavra deve ser clara, incisiva e nunca receosa. Se esse não for o caminho, emerge a ideia que a Igreja deve favores ao poder ou está servilmente colada ao poder. E não deve ou não deveria dever. Se a pobreza não é mais evidente e dramática, é porque existem muitas paróquias e muitas organizações assistencialistas ligadas à Igreja que esbatem as fomes que o poder político-partidário gerou.
O Padre Doutor Anselmo Borges, sobre os diálogos do Papa Francisco e de Dominique Wolton, in Politique et Société, concluiu: "Um tema que atravessa todo o livro é a política. Francisco pronuncia-se sob múltiplos ângulos. Trump "terá dito de mim que sou um homem político... Agradeci-lhe, porque Aristóteles define a pessoa humana como um animal político, e é uma honra para mim (...). Sobre esses diálogos, Anselmo Borges, salienta a posição do Papa: "A política, a grande política, é uma das formas mais elevadas de amor. Porquê? Porque está orientada para o bem comum de todos" (...) "Há sempre uma relação com a política. Porque a pastoral não pode não ser política, para indicar caminhos e valores do Evangelho."
É de um Bispo assim que a Madeira precisa. Um Bispo sem medo de provocar os instalados, que se abra aos seus párocos e que os incentive, para que os cerca de 75.000 madeirenses (30%) que vivem na pobreza, tenham direito à felicidade. É difícil? Pois é. Mas é por aí que uma Igreja não partidária, mas política, deve seguir. Andar de ombros caídos, no meio de silêncios, vendo mas não vendo, NÃO.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O BISPO ANTÓNIO CARRILHO NÃO DORME DESCANSADO


A entrevista ao Padre Martins Júnior, hoje publicada no DN-Madeira, à medida que a fui lendo, levou-me a ter que gerir um conjunto de emoções, pela profunda Amizade e respeito que nutro por esta figura da Igreja, pelos valores que transporta e transmite e, sobretudo, pela imbecilidade de uma hierarquia que o mantém "suspenso a divinis". Há dezenas de anos que nem o julgam em Tribunal Eclesiástico nem lhe pedem perdão, por essa vergonhosa atitude política, repito, política, perpetrada, há 41 anos, pelo então Bispo Francisco Santana. 


Li o livro "O 25 de Abril em Machico - Centro de Intervenção Popular 1974/75", publicado pelo seu irmão Dr. Bernardo Martins, livro editado na sequência da sua Dissertação de Mestrado e que teve o Professor Doutor Nelson Veríssimo como orientador do trabalho de investigação. Vezes várias voltei atrás para melhor compreender a relação entre factos, profusamente documentados em 715 notas de rodapé para além de inúmeros fac-símile que dão força ao texto e que entusiasmam a leitura. Nesse notável documento histórico fica clara a mentira vendida como verdade sobre os acontecimentos de 1974/75, em Machico. E na entrevista de hoje, Martins Júnior, ao assumir que é "naturalmente revolucionário", homem progressista, favorável a transformações no âmbito político e social, homem do povo e pelo povo, no essencial, acaba por explicar as razões de nunca lhe terem pedido perdão pela atitude, marcadamente política, de o afastarem. De facto, na prática, nunca conseguiram. E se aqui trago o livro, é por considerar que o actual Bispo António Carrilho deveria lê-lo com toda a atenção. Se já o leu, então, a sua cumplicidade política ainda é mais flagrante e grave. Seja como for, não devia, por amor à Igreja, melhor dizendo, aos paroquianos da Ribeira Seca, em particular, e ao povo da Madeira, em geral, onze anos depois de aqui ter chegado, acabar por confirmar aquilo que Martins Júnior, em 2012, assumiu em uma entrevista conduzida pelo jornalista Emanuel Silva: a Igreja não pode continuar a "(...) servir a dois Senhores. Ou se serve a Cristo ou se serve o Poder (...)". Ora, na esteira de Santana, Carrilho também escolheu o poder. Nessa entrevista, há seis anos, nas vésperas das "bodas de ouro de ordenação sacerdotal", tendo o Padre Martins falado ao Bispo António Carrilho na possibilidade da cerimónia realizar-se na Igreja Matriz de Machico, obteve como resposta: "(...) seria muito boa essa ideia mas se lhe entregasse as chaves desta igreja [Ribeira Seca]. Regredi a 1974. Francisco Santana também me disse que entregasse as chaves da igreja. Respondi 'Não'. A igreja está sempre aberta. Até de noite (...)". Esta não é, certamente, a Igreja de Cristo. É a igreja que fez e faz a opção pelo poder político. Lamento.
É, por isso, que a entrevista de hoje, feita com pinças, me trouxe outras memórias, sobretudo o livro e a entrevista de Emanuel Silva que guardo "religiosamente". Não resisto a um outro excerto. Pergunta o jornalista: "O seu 'crime', no início, foi ter sido político. Qual o 'crime' que lhe foi imputado? [Dom Francisco Santana] chamou-me ao Paço Episcopal e disse: "Martins, entrega-me as chaves da igreja da Ribeira Seca. Disse-lhe 'as chaves não são minhas, são do Povo. Mas porquê?'. 'Porque estás inscrito no Partido Comunista Português'. Ele atira-me esta. 'Até sei o teu número' [de inscrição no PCP]. Que artista! Nem a PIDE faria um serviço tão mal feito! Foi isto. Depois, disse que as catequistas da Ribeira Seca não poderiam mais ensinar Catequese. Porque eu tinha feito um catecismo (Deus no meio do Povo). Nesse catecismo eu relevava as figuras bíblicas libertadoras. Ensinava a linguagem bíblica libertadora. Sei que esse catecismo foi parar à mesa do brigadeiro Azeredo". 
Já não falo dos outros, mas deste, do Bispo António Carrilho. Presumo que não deve dormir descansado. "Na paz do Senhor", como vulgarmente se diz, quando tem um problema que indigna todos quantos seguem a Palavra. Trata-se de um comportamento que revolta, mas que confirma uma opção: servir o poder político, primeiro, depois, o Senhor. E sendo assim, questiono-me, como pode o Bispo Carrilho falar de "pecado"?
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de setembro de 2017

A VINHA NOVA DA SENHORA DO AMPARO



A Senhora do Amparo é também padroeira da comunidade entusiasta da Ribeira Seca que, neste fim de semana, eleva-a ao altar das celebrações religiosas e ao patamar das festividades seculares que nestes dias acontecem por toda a Região. Num tempo de vindimas por toda a Ilha, de cheiros intensos a vinho novo, a juventude contagiada por estas energias do fundo da terra mãe se unem aos mais idosos da paróquia, aos seus segredos da escola da vida, à pedagogia da persistência dos valores do trabalho, fazendo-se potenciais ativos da vinha da Senhora do Amparo. Ativos que crescem e que se fazem na vinha já secular da sua padroeira o que, efetivamente, leva-me a questionar qual a apreciação que a Senhora do Amparo tem vindo a fazer ao povo que caminha da Ribeira Seca. Como é que a Senhora avalia esta vinha comunitária? Como é que a mãe das inclusões, a progenitora do Cristo da história, do mestre do perdão e das tolerâncias vê a cruzada mórbida e desprezível que, nestes últimos 50 anos, tem avançado sobre o pensamento livre e crítico desta comunidade aos dogmas que nos foram impostos, em nome de um Deus todo poderoso? Do alto do seu apego a este povo, de seu olhar firme e determinado, como olha para a proibição do fornecimento de hóstias, o corpo do seu filho, a força anímica e espiritual à paróquia da Ribeira Seca? Em que estado de amargura e de revolta vai o coração desta mãe do Amparo, pelo facto de, perto de 50 anos, negarem o sacramento do crisma aos jovens da sua vinha nova, desta paróquia da diocese madeirense? 


No esteio do seu alto, a meia encosta deste vale bordado de azul e mar, de que forma analisa a fé dos homens ao proibi-la de entrar na seu santuário, na sua casa, pela ocasião da sua última peregrinação ao povo crente da Madeira? Enfim, desta forma, não possível conceber que o coração da igreja madeirense bata no todo para o mesmo lado! Porém, a Ribeira Seca com mais de três séculos de vivências partilhadas com a Senhora do Amparo, continua a cuidar e a renovar a sua vinha, rendendo-lhe os frutos do seu trabalho, da sua criatividade em marcha e da sua instruída contemplação. Nesta festa do povo e da sua padroeira, avós, pais e filhos, numa simbiose multicolor dos seus trajes e das suas marchas, farão as honras da casa com seus cantares e coreografias de dinâmicas de luta e de trabalho de tempos ainda bem presentes na memoria coletiva, registadas no nosso cancioneiro, o guardião da história das lutas da comunidade pela afirmação da sua personalidade aberta à critica e à construção da cidade das ideias. Três gerações que em uníssono darão o melhor de si à caracterização genuína das nossas festas com aromas campesinos e cheiros a vinho novo, a fermento de vida nova, que nos manterá em viagem como verdadeiros sentinelas da vinha nova, até a alvorada festiva das próximas festas de verão. Caso se sinta um verdadeiro operário desta vinha da Senhora do Amparo, deixo-lhe este convite, para um fim de semana culturalmente diferente, passado num ambiente da verdadeira festa, feita com a contribuição monetária e com os braços inquebrantáveis do povo. Concluo, com a certeza, que a noite deste sábado será toda ela cheia de animação a cargo das nossas romagens e, no domingo, a meio da tarde, a palavra litúrgica de quem sabe de vinha nova (Pe. Dr. Anselmo Borges e Pe. Martins Júnior) subirão ao altar da catedral do Amparo, ficando a noite para o artista madeirense Ruben Aguiar. Fica então este fraterno convite.

NOTA
Carta do Leitor, assinada por José D'Olim, publicada na edição de hoje do DN-Madeira. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A RENÚNCIA


Pois, chegou a hora da renúncia. Sua Excelência Reverendíssima o Bispo do Funchal (deveria ser da Diocese da Madeira, ou não?) fica dependente da vontade do Papa Francisco. Sinceramente, gostaria que o Papa aceitasse a renúncia. Seria bom para a Madeira. Na esteira de Francisco, os cristãos desta Região precisam que a Palavra também aqui chegue, acutilante, sem rococós, sem lengalengas gastas e desprovidas de sentido, capaz de colocar o dedo onde socialmente sangra. Sempre que oiço Francisco renova-se-me a ESPERANÇA e sempre que oiço Carrilho invade-me a tristeza, a decepção, o desapontamento. 


Quando o Senhor Bispo aqui chegou lembro-me de ter escrito um artigo no DN-Madeira sob o título "Carrilhar é preciso". Passados dez anos, olho de trás para a frente e sintetizo: o comboio da Palavra descarrilhou. Completamente. Como bem disse o Bispo Manuel Martins "há uma diferença entre os que acreditam no que dizem e os que são meros funcionários da Igreja.' O Bispo Carrilho foi um funcionário, nunca o Homem da Palavra que não precisa de estender o tapete ao poder político (por omissão) para credibilizá-la e expandi-la enquanto necessidade de uma sociedade onde continuam a persistir mais direitos que justiça social.
Os problemas não se resolvem com fé e caridade, palavras sempre presentes no discurso do Bispo Carrilho. Porque isso corresponde à manutenção do círculo vicioso da pobreza. Os dramas sociais, na esteira do Papa Francisco, têm causas e essas só se atenuam ou resolvem com a PALAVRA contextualizada, com um Bispo presente onde o povo está, na rua, nos becos, impasses, veredas, nos bairros e no associativismo, transportando o EXEMPLO, com a acutilância política de Cristo que foi um político de primeira água. E há tanto "vendilhão" por aí! 
Foram dez anos de toca e foge, de silêncios cúmplices, dez anos virados para dentro e não para o povo de um Cristo que morre pela libertação. Este Povo precisa da Palavra NÃO partidária mas, seguramente, política. Porque o silêncio, em função das circunstâncias regionais, é, claramente, partidário. Prova disso é a suspensão "a divinis" do Padre José Martins Júnior. Nem mandou julgá-lo em Tribunal Eclesiástico nem lhe pediu perdão. Absolutamente revoltante, pelo menos para mim que sigo uma Mensagem de paz, justiça, amor e tolerância, todas estas palavras na sua dimensão maior.
Boa Páscoa, Senhor Bispo, sem ovos, coelhos e chocolates, mas com um novo olhar sobre a realidade que não deve quedar-se pelos rituais.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

QUE MAIS NOS IRÁ ACONTECER


Um texto do Padre José Luis Rodrigues, acutilante, com as palavras certas e com a força interior que a muitos falta.

"Já não sei o que pensar perante tanta incompetência e tanta trapalhada em todos os quadrantes da sociedade madeirense. Ora vejamos.


1. Estamos a ser governados ou, melhor, desgovernados, por um desgoverno que destrói património secular como se nada fosse. «Quem a ferro mata, a ferro morre».
2. Há uma Cáritas que se desviou do seu verdadeiro espírito, organismo absolutamente ligado à Igreja, Diocese do Funchal, para ser um organismo do desgoverno Regional (lembram?), mas como o desgoverno já não está tão interessado que a Cáritas continue a ser um dos seus braços, porque tem em vista outras instâncias, outros lóbis e outros tachistas da caridade, desviou-se desta Cáritas. Esta por sua vez, agora prova o veneno amargo da traição por se ter desviado do seu verdadeiro espírito e do seu «dono». «Deus não castiga nem com pau nem com pedra, mas com o seu divino poder».
3. As trapalhadas gerais na educação, na saúde, no desrespeito pelo nosso património secular, a caridade envolta no maior descrédito e a contribuir para a péssima imagem da Igreja da Madeira, são situações demasiado preocupantes e levam-nos à conclusão que estamos perante um bando de incompetentes e inábeis à frente dos organismos que a sociedade madeirense precisa para o seu funcionamento. «Se as fezes (m… para os mais entendidos popularmente falando) valessem dinheiro, os pobres nasciam sem ânus».
4. Tudo isto resulta que não aprendemos nada com as tragédias, com os maus exemplos, com as asneiras que perseguem a Madeira há tanto tempo. «Não é o tempo que abana as canas, mas o vento».
5. Precisamos de tempos novos onde se possa renovar a esperança. Não sei como isso será possível, apenas sei que não pode de forma nenhuma ser com os actuais protagonistas a todos os níveis, tanto político e também ao nível das lideranças religiosas. «A esperança é a última coisa a morrer».
6. Que Deus nos ajude. Estamos bem precisados, porque não pode valer tudo, «até tirar olhos», como acontece neste fatídico tempo em que vivemos.
NOTA
Texto do Padre José Luis Rodrigues publicado no seu blogue "O Banquete da Palavra". Aqui

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CRISTO PEDE LIBERTAÇÃO, NÃO SUBJUGAÇÃO!


E tanto que havia para dizer, mas fez-se silêncio. Palavras de circunstância, tantas vezes repetidas que quase as adivinhamos. Segui a Homilia do Senhor Bispo do Funchal por ocasião da Missa a Nossa Senhora do Monte, Padroeira dos madeirenses. Uma palavra: desilusão. Uma Homilia sem força, sem emoção, sem coragem, cheia de lugares comuns, completamente alheia às circunstâncias do momento. 


Tornou-se moda trazer à colação o Papa Francisco, mas, pergunto, com que pertinência e com que efeito? O Senhor Bispo, mesmo não querendo comprometer-se com nada, até percebo, tinha o dever e obrigação de tocar nas feridas sociais que sangram, através da Palavra incisiva e coerente com a Igreja a que pertence. Não gosto que passem entre os pingos da chuva sem se molharem, ou entre as cinzas que caem sem se sujarem. Os madeirenses precisam de ouvir, interpretar e consciencializar-se que a Vida não é subjugação, que a Vida não é sofrimento permanente e que não se resolvem os problemas da Vida apenas com fé e caridade. Cristo, pelo que me transmitiram, não pede sofrimento, não pede obediência cega a governantes e não pede que se bata no peito para logo de seguida cometer erros que a todos afecta. Pede LIBERTAÇÃO. E isso, Senhor Bispo, não escutei. Infelizmente, apenas ficou o ritual. O que é muito pouco ou nada.

domingo, 3 de julho de 2016

SENHOR BISPO ANTÓNIO CARRILHO, ACONSELHO-O A LER O BLOGUE SENSO&CONSENSO


O Senhor Bispo do Funchal, D. António Carrilho, proferiu por ocasião do Dia da Região, uma homilia de cujas palavras o DN-Madeira destacou e de forma oportuna: "(...) um dia que recorda o nosso passado e celebra o que hoje somos, com gratidão e respeito por todos aqueles que o construíram", destacando, ainda, que este é “um dia que coloca diante de nós o presente, sem ilusões e sem medos, com as suas dúvidas e as suas esperanças, um presente que nos interpela a uma vontade forte de construir um futuro cada vez mais digno de homens e mulheres livres, que somos chamados a ser".


Senhor Bispo, eu Cristão, interrogo-me: a quem pensa o Senhor Bispo enganar ou confundir? Será que conhece a História de todo o processo? Será que domina os silêncios comprometedores da Igreja que, localmente, dirige, na sua ausência de posições firmes, independentes, concordantes com a Palavra? 
Um Bispo vota, obviamente, segundo as suas convicções políticas, neste aspecto tem o meu mais profundo respeito, mas, diariamente, as suas atitudes públicas devem assumir uma natureza abrangente, com serenidade e convicção, e nunca denunciadoras ou escamoteadoras da Verdade. "Gratidão", Senhor Bispo, por aqueles que semearam, directa ou indirectamente, a pobreza que por aí vai? Ainda anteontem, este é, apenas, um exemplo entre milhares, descendo a Calçada do Pico, doeu-me ver uma jovem bem parecida, acompanhada do seu jovem filho, presumo, também bem parecido, sentados frente à porta da Cáritas, aguardando a sua abertura, para que a fome não seja bem pior. O Senhor Bispo chama a isto caridade, eu designo por pouca-vergonha de sucessivos governos que olharam para as eleições seguintes e não para as gerações seguintes. Ter "gratidão e respeito" por essa gente política? Ter "gratidão e respeito" por todos aqueles que "construíram" esta situação? Não brinque connosco, Senhor Bispo! 
Vou deixar aqui um excerto de um texto do Senhor Padre Marins Júnior, aquele Padre que Vossa Excelência Reverendíssima mantém uma suspensão "a divinis", uma suspensão injustificada e que envergonha qualquer membro da Igreja. Fique com este naco da História e repense o que disse: "(...) Em vésperas de eleições de 76, o bispo desmultiplicou-se, sem tréguas, numa campanha religiosa manifestamente tendenciosa: publicou uma Nota Pastoral, lida em todas as igrejas, alertando os cristãos contra o socialismo, que manhosamente qualificava de “marxista”; promoveu o grande espectáculo da missa do “Corpo de Deus” no estádio dos Barreiros e, no domingo anterior às eleições, faz uma extensa homilia de teor marcadamente separatista, misturando a “barca de Pedro” e Portugal a afundar-se, não hesitando ele, lisboeta, a regionalizar-se madeirense: ”Queridos ouvintes, que me escutais em Portugal e no estrangeiro, podeis ver como nós, Madeirenses, sabemos conviver, sempre que nos deixam ser genuinamente Madeirenses”. (O negrito dos caracteres é tal e qual o mesmo do Jornal da Madeira). A anteceder as eleições de 76, o citado bispo levou o jovem, novo director do Jornal, (AJJ) a todas as paróquias, apresentando-o como o melhor para governar a Madeira. O Padre Tavares Figueira, conhecedor profundo deste período, retratou a situação, com humor mas com inteiro rigor científico, numa entrevista de circulação nacional: "O PPD nasceu numa sacristia e o pai foi o bispo Francisco Santana" (...).
Senhor Bispo António Carrilho, aconselho-o a ler o blogue Senso&Consenso. Enquanto acto de cultura e de penitência.
Ilustração: Google  Imagens.

quinta-feira, 31 de março de 2016

"O QUE NOS VALE É QUE HÁ MAIS CRISTO ALÉM DA MITRA"


O Padre Martins Júnior escreveu um texto no seu blogue Senso&Consenso que, no actual contexto, é notável. É directo e incisivo. Mordaz, até. Porque tem sido uma pessoa ofendida ao longo de muitos anos e, legitimamente, reage. Eu, Cristão, continuo sem perceber, ou se calhar percebo, o silêncio do Bispo do Funchal D. António Carrilho relativamente à suspensão "ad divinis" do Padre Martins. Não faz qualquer sentido que esteja nas tintas para a vergonha perpetrada sobre um membro da Igreja e sobre um povo que o abraça. Já não há paciência para suportar cumplicidades sujas, como se fosse desejável a manutenção de um cordão umbilical entre o Paço Episcopal e o poder político. O Padre Martins Júnior é uma vítima desse poder político e o Senhor Bispo um cúmplice de uma estratégia política há muito montada. Pela enésima vez, oiça Senhor Bispo, se o Padre é culpado de alguma coisa que o julguem em Tribunal Eclesiástico. Apresentem provas, dirimam os factos históricos, absolvam ou condenem, mas acabem com esta treta. E se for absolvido que tenham a HUMILDADE de pedir PERDÃO. Tão simples, na esteira deste Papa Francisco. Sinto-me revoltado quando a Igreja a que pertenço se apresenta, por clara omissão, contrária aos princípios e valores da Palavra. Deixo aqui o texto do Padre Martins Júnior... 


"Não era este o tema que reservei para terça-feira de Páscoa. Creiam, mesmo, que as mãos me pesam mais que noutros dias sobre este teclado de notas alfabéticas. A qual músico e a qual ouvinte agrada tocar ao piano repetidas dissonâncias ou escutar cacofónicas percussões? Por isso, quero ser breve. Desde logo, pela motivação circunstancial que amigos meus me trouxeram acerca de um incidente ocorrido numa das pacatas nortenhas paróquias da Madeira onde foi solicitada a PSP pelo respectivo jovem pároco. Perante a minha quase indiferença em relação à notícia (para mim, mais do mesmo) fiquei amarrado à “provocação” dos meus amigos interpelantes: “Então não reage? Vai fazer o mesmo que a diocese que se esconde sempre nos silêncios cúmplices?”
Aqui vai, pois, uma pequena amostra do que penso e sinto.
A Diocese, no feminino (em francês é masculino, le diocèse) é uma entidade abstracta, sobretudo entre nós, ilhéus. Não tem rosto, duvido que tenha alma, pelo menos, alma evangélica. Quando é chamada à colação, não reage. Usa uma arma secreta: o silêncio dos cemitérios. Entretanto, ela reconhece-se pelo corpo, nas suas estratégicas aparições, nas paradas espectaculares, nos jantares e inaugurações governamentais, nos arraialescos festejos de verão e nos partos litúrgicos pré-natais. De longe dá nas vistas pela anafada cinta vermelha e pelo régio brilho de uma cruz dourada, à imagem e semelhança dos brasonados oficiais do reino.
Falo do que se vê a olho nu. E de mais alguma coisa que vi, sobretudo, nos três últimos titulares madeirenses, de entre os sete que conheci como inquilinos do Paço. Confrange-me -.mas não afecta a minha fé no Cristo Nazareno, anti-sinagoga e anti-diocesano – sim, confrange-me olhar a paisagem. Numa ilha pequena, Madre das Cristandades de outrora, onde nos tempos mais recentes tem reinado a prepotência política, o favoritismo, a mediocridade e o nepotismo, esperava-se (e os madeirenses mereciam) um pastor verdadeiro, cuja mitra fosse cultura e talento e cujo báculo fosse “chicote no templo dos vendilhões” e, por outro lado, arrimo seguro para os mais débeis do seu rebanho, os proscritos dos poderes mundanos. Em vez disso, porém, coube-nos a sorte de uma diocese, corpo sem alma lá dentro. Diocese-Instituição. Há modestas autarquias rurais com melhor e mais responsável sentido de liderança, vigilante e humanista. Talvez até simples associações e colectividades de bairro, porque têm alma e dão o corpo às balas, em defesa da Verdade que professam.
Pelo que acabo de dizer, nada me espanta o “lavar-de-mãos na bacia de Pilatos” por parte da Mitra. Ê mais do mesmo. Um eclesiástico subalterno entende transgredir as mais elementares normas urbanísticas, outro espuma retaliação contra uma instituição centenária e exclui-a da igreja-mãe a que sempre deu colaboração; este chama a polícia, aquele abre-se aos apetites políticos de um governo que lhe faz obras faraónicas, inúteis – e onde está a Diocese? No retiro dos cenóbios ou na paz dos sepulcros. Um bispo toma conta de uma quinta, legado pio para abrigo dos sacerdotes na sua velhice – e que diz o hierarca diocesano? Zero!
Termino já, porque não me conforta nada pôr a secar na via pública o estendal de roupa esfarrapada que não aquece a nudez de ninguém.
Ficaria, porém, incompleta a mensagem aos meus amigos interpelantes deste dia 29, se não citasse a resposta da Diocese – a mesma entidade sem rosto, não se sabe quem responde, se o Chefe ou se o vice - que ofereceu como antídoto e consolo, no caso da paróquia nortenha, uma receita de “misericórdia” perante duas devotas que, a pedido do jovem pároco, a polícia devia expulsar da igreja.. Misericórdia! É o que está na moda neste ano de abrir de portas. Nem me apetece comentar. Seria uma boa deixa para Dante escrever uma outra versão da “divina comédia”, revista e actualizada.
Misericórdia! Não brinquem nem nos tomem por tolos. Terá sido por “misericórdia” que a Diocese deu aval ao Governo Regional para mandar 70 (setenta) polícias atacar e esvaziar a igreja da Ribeira Seca, em 1985?... Foi por “misericórdia” que cortou a essa igreja a venda das hóstias para a Eucaristia?... Foi também por Santa “misericórdia” que não deixou entrar nessa igreja, em 8 de Maio de 2010, a Imagem Peregrina?... E será por que carga “misericordiosa” os bispos da Madeira, há 42 anos, não têm força para administrar o sacramento do Crisma na igreja da Ribeira Seca?..
Misericórdia, Papa Francisco – dizemos nós. Quem tem ouvidos de ouvir, entenda. Quem tem olhos de ver, interprete os factos.
O que nos dá força é que há mais Vida além da Diocese. O que nos vale é que há mais Cristo além da Mitra." 
29.Mar.16
Martins Júnior

domingo, 28 de fevereiro de 2016

SENHOR BISPO ANTÓNIO CARRILHO, ENTÃO, COMO É?


Os últimos Papas têm tido a HUMILDADE, por motivos múltiplos, de pedir PERDÃO por erros cometidos pela Igreja. Muitos, até, chocantes para quem segue a Palavra de Cristo. O Papa Francisco, que fabuloso Homem, ainda há dias pediu perdão no México: "(...) Muitas vezes, de modo sistemático e estrutural, seus povos (indígenas) não foram compreendidos e foram excluídos da sociedade. Alguns consideraram inferiores seus valores, sua cultura e suas tradições (...) Que tristeza! Que bem nos traria fazer um exame de consciência e aprender a dizer: Perdão!", manifestou o pontífice.


Dos Bispos, parece-me óbvio, que à escala local, com humildade, é também seu dever pedir perdão pelas atitudes e pelas omissões. É o caso que envolve o Senhor Padre Martins Júnior, suspenso "ad divinis", há quase quarenta anos. Nem o julgam em Tribunal Eclesiástico, nem reabilitam a sua Missão na Paróquia da Ribeira Seca (Machico). Está ali, com os anos a passar, a "cozer em lume brando", em sofrimento emocional intenso.
É tempo, Senhor Bispo, de pedir PERDÃO pelo vergonhoso e inqualificável comportamento POLÍTICO dos seus antecessores. Vive-se o período Quaresmal, que "comemora a ressurreição e a vitória de Cristo depois do sofrimentos e morte", tempo também de reconciliação e, repito, de PERDÃO, com a humildade que caracteriza o Catolicismo Romano. Olhem para o Papa Francisco...
Vale a pena ler a "Acta que o tempo jamais apagará", para que a memória não se apague. É urgente fazer Justiça e é urgente pedir o PERDÃO reconciliador, no quadro do respeito pelas diferenças.
NOTA
Ler a ACTA neste endereço:

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

BISPO CARRILHO EM CONTRACICLO COM O PAPA FRANCISCO


Apenas um desabafo na sequência de algumas leituras de circunstância sobre o Papa Francisco. Pensamento enrola-se em pensamento e lá dei eu a confrontar posturas, a do Papa Francisco com a do Bispo António Carrilho. O Papa consegue encher-me, pela sua visão do Mundo, sobre o inteligente ataque às causas dos problemas, sobre a forma como combate o imobilismo e sobre a sua atitude frontal relativamente aos poderosos da economia que nem poupam o Vaticano. O Papa tem a leitura de um Mundo que sobrevive no caos e que fomenta a desesperança e, por isso mesmo, não deixa escapar uma oportunidade para fazer ouvir a sua voz. Mesmo em tempo de fuga de informação e de documentos que revelam extravagâncias financeiras e corrupção no Vaticano, mantém-se "determinado" a avançar com as reformas da Igreja. "Vamos em frente com serenidade e determinação", assumiu, dando a entender que a Sua missão sobreviverá à teia corrupta.



Já o Bispo Carrilho que, agora, nem tem a sombra (condicionadora) chamada Alberto João Jardim, lidera um processo rotineiro e previsível, absolutamente distante da realidade política, económica e social, como se nada estivesse a acontecer na Diocese de uma terra que necessita ser agitada, tantos são os gravíssimos problemas sociais que enfrenta. São palavras do Papa Francisco "(...) Não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e solidário". Ora, esta preocupação não encontra eco na Madeira, quando deveria constituir a mensagem central. Não é com fé e caridade, Senhor Bispo, que se resolvem os problemas, antes pela assunção e contextualização da Palavra, tal como o Papa Francisco aconselha: "(...) Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, converte-se em uma ONG. E a Igreja não pode ser uma ONG". A questão é saber como é que a Igreja desce à rua, isto é, desce às pessoas, agitando-as nas causas dos seus dramas, gerando o necessário desassossego e colocando em sentido o poder político. "(...) Não tenho ouro nem prata, mas trago comigo o mais valioso: Jesus Cristo", disse Francisco. E se traz Cristo, obviamente, que transporta essa Mensagem profunda, que a muitos incomoda, embora batam repetidamente no peito. Eu desejaria essa inquietação nesta Diocese, na esteira do que sublinha o Papa: "Não deixe que ninguém tire a sua esperança". E há quem nos esteja a roubar a esperança, seguindo os caminhos do silêncio que compromete. Porquê? Porquê? Porque há pedras no sapato, desde a incómoda situação do Jornal da Madeira até às dívidas pela megalomania na construção de novos templos? 
O Bispo Carrilho, com lamento o digo, não é a figura que a Diocese precisa. A Igreja é muito mais que os rituais e orientações bafientas. Ela tem de ser política porque Cristo foi um político de primeira água. Quando o Papa Francisco assume que "(...) os jovens têm que sair e se fazer valer, sair a lutar pelos seus valores", parece-me óbvio que ele não  está a fazer-lhes um convite à emigração. Antes convida-os, serenamente, a deixarem de ser amorfos, a não permitirem que os obriguem a carregar a cruz das suas vidas assentes na pobreza e na marginalidade, enfim, incentiva-os à luz da Palavra que lutem pelo direito à esperança, quando, até, esse conjunto de direitos tem configuração Constitucional. Ora, isto não se faz com lengalengas gastas, previsíveis e com cânticos de embalar, antes se faz tocando nas feridas que sangram, em uma tentativa de corrigir processos porque "a verdadeira riqueza não está nas coisas, mas no coração", disse Francisco. 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

ENTRE FIGURAS ÍNTEGRAS E POLÍTICOS TRAVESTIDOS


A 11 de Agosto de 2012 escrevi um texto sobre os 50 anos de sacerdócio do Padre Martins Junior. Entretanto, passaram-se mais três anos e o Bispo António Carrilho, nomeado para a Diocese do Funchal a 8 de Março de 2007, há oito anos, continua em um ensurdecedor silêncio sobre a vergonhosa suspensão "ad Divinis" do Padre Martins, história muito bem desenvolvida e documentada no livro "Olhares múltiplos sobre um Homem de Causas". Uma suspensão que conta já com quase 40 longos anos. Nem o julgam em Tribunal Eclesiástico nem lhe pedem públicas desculpas pela situação criada que não abona, rigorosamente nada, a favor da Igreja de Cristo. 


Foi o Bispo Francisco Santana que o suspendeu. Por vingança política, sabe-se hoje. Um Bispo mais político e de perfil ideológico que o próprio PPD-Madeira da altura. Em um texto do Dr. Gregório Gouveia, no qual faz a resenha dos acontecimentos, li: "(...) As homilias de D. Francisco Santana promoveram mais polémica política separatista do que, propriamente, a divulgação dos ensinamenros de fé da Igreja Católica Apostólica Romana. Na mensagem de Ano Novo de 1975 foi peremptório ao questionar: “o povo madeirense, agitado durante este último ano por aventureiros manipulados contra a vontade do Povo, estará condenado a ser uma província do novo «ultramar português», para ficar reduzido a uma colónia que pouco ou nada conta para a Mãe Pátria, a não ser para lhe fornecer muito do seu sangue e trabalho?" Neste contexto, o Padre Martins Junior era um homem a abater, pela postura que evidenciava. Francisco Santana perseguiu-o, salienta Gregório Gouveia: "(...) A acção política do padre Martins levou o Bispo, em 5 de Novembro de 1974, a intimá-lo a entregar a chave da Igreja da Ribeira Seca, onde era pároco. Mandou polícias cercarem a igreja durante 18 dias. Os paroquianos não cederam, nem concordaram com a ordem do Bispo. Uma manifestação junto do Paço Episcopal foi a forma mais visível de apoio ao pároco. Francisco Santana não hesita em suspender o padre Martins "ad Divinis" (...)".
E assim a Diocese mantém a situação. O Povo da Ribeira Seca continua de mãos dadas com o Padre Martins, porque intuiu que "o sangue do padre é o povo". Do lado da hierarquia, Francisco Santana há muito faleceu, sucedeu-lhe o Bispo Teodoro Faria e o Bispo António Cavaco Carrilho. E vergonhosa suspensão continua. Repito, nem o julgam nem lhe pedem perdão. Será que o Papa Francisco conhece esta pouca-vergonha?
Em Agosto de 2011, (aqui) o Padre Martins concedeu uma entrevista ao DIÁRIO onde foi muito claro: "(...) Que amarras estão a segurar essa revogação da suspensão? Tenho estado calado durante cinco anos. Prometi-lhe que nunca levaria a comunicação social lá [ao Paço Episcopal] como ele me pediu. Pediu-me que não fizesse declarações públicas. Cumpri escrupulosamente. Terminou o interregno. Acabou-se. Agora vou falar. Esta Igreja que me fez sentar no banco dos réus, num processo que é só do foro eclesiástico. Esta Igreja que pede ao poder político para me sentar no banco dos réus. Ninguém pode servir a dois Senhores. Ou se serve a Cristo ou se serve o Poder. A Igreja é sempre aliada do Poder vigente, mormente na Madeira. Há alguma dúvida? Disse-o ao Sr. Bispo numa das muitas conversas que tenho tido no Paço Episcopal. Disse-lhe uma vez 'Já estou cansado de conhecer estas pedrinhas' [alusão ao empedrado do Paço Episcopal]. Mas, não ata nem desata, não se chega a nada. A população já me disse 'não vá lá mais, não é preciso, não precisamos nada disso para nos salvarmos. Qual é a solução? É a revogação do despacho de D. Francisco Santana ou um julgamento através do Tribunal Eclesiástico? A solução é que me julguem. O Tribunal Eclesiástico é a sede própria. Digam qual foi o meu crime. Fui retirado da Ribeira Seca pelo Sr Bispo Dom Francisco Santana. Digo Dom em tom de ultraje, mesmo para enxovalhar. Um Bispo chamar-se Dom, francamente. São representantes de Cristo mas arrogam-se. Querem ser reis. (...)"
Sinto uma profunda tristeza pelo comportamento de algumas figuras que deveriam ser ÍNTEGRAS. E não são. São políticos travestidos. Lamento.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 11 de março de 2015

JARDIM AGRADECE AJUDA DO BISPO DO FUNCHAL


O ainda presidente do governo regional da Madeira agradeceu, hoje, a ajuda do Senhor Bispo da Diocese do Funchal. Ajuda! Qual ajuda, perguntar-se-á?


É evidente que se percebe o significado da palavra "ajuda". No dia 05 de Maio de 2008 (aqui) escrevi um texto elogioso para com D. António. Aconteceu cerca de um ano após a sua nomeação para liderar a Diocese do Funchal. O texto referia-se a uma homília na Paróquia da Nazaré onde, relativamente à marginalidade jovem, disse que se encontrava "confuso". Nesse texto, depois de uma série de considerações, sublinhei: "(...) D. António Carrilho é evidente que não está confuso. Ele conhece os números do Rendimento Social de Inserção, o número de pensionistas, o número de famílias desestruturadas, o número de jovens licenciados sem emprego, o número de idosos que aguarda um lar ou que está na situação de altas problemáticas, ele sabe o que as paróquias fazem para matar a fome de crianças e adultos e, de resto, o que todas as instituições directa ou indirectamente ligadas à Igreja fazem para esbater as carências sentidas. Eu sei e muitos madeirenses sabem que o hino fala de paz e pão mas que é aqui onde existem as maiores desigualdades, onde a riqueza produzida é distribuída de forma escandalosamente desigual. D. António Carrilho sabe que se vive numa Região onde há mais direitos do que justiça, por isso, toda a comunidade, julgo eu, espera do seu múnus pastoral uma atitude inteligente e firme no combate à sociedade que estamos a construir que só pode gerar "desorientação", "caminhos de marginalidade" e "jovens que vivem mergulhados na droga e na criminalidade".
A 30 de Março de 2013, depois de cinco anos à frente da Diocese, deixei aqui uma outra opinião:
"Não basta dizer que "perante as imagens de sofrimento, o discípulo de Cristo não pode ficar insensível ou indiferente. É necessário, pois, cultivar um coração compassivo, sensível à dos que sofrem". Pois, Senhor Bispo, esse sentimento é o que milhares têm e defendem, mas que resolve? Resolverá alguma coisa? Ora, o Bispo sabe, ora se sabe, que isto não vai com "compaixão", com um sentimento de pesar que nos causam os males alheios, isto vai com atitudes certas de quem tem o poder político nas mãos. Resolve-se com posições firmes, consistentes, humanistas e de respeito pelas prioridades. Porque o meu coração "não é insensível em face dos problemas dos outros" é que escrevo e tento denunciar a pouca-vergonha. Mas eu não tenho púlpito, eu não tenho a chefia da Diocese, eu não possuo a força de uma rede hierárquica capaz de colocar em sentido os responsáveis pelos dramas humanos. E o Senhor Bispo do Funchal, que não deve ser partidário, tem o dever de "(...) ajudar as pessoas a perceberem que elas podem fazer mais do que acham que podem", todavia no sentido da luta pela sua dignidade e não no sentido que deduzi das palavras ditas. Senhor Bispo, com toda a sinceridade, mude o seu discurso, claramente, por omissão, mais partidário do que assente na Palavra de Cristo. Enfrente a realidade e seja VERDADEIRO. É a única coisa que lhe peço, enquanto cristão".
Ora bem, Alberto João Jardim, foi, afinal, agradecer o quê? O silêncio? O facto do Bispo não ser incómodo? Porque a Diocese está armadilhada e controlada pelos subsídios? Isto, enquanto cresce a pobreza e a desigualdade? Fico por aqui. Simplesmente porque a Palavra e o Exemplo de Cristo merecem uma outra resposta.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

APRESENTAÇÃO DE CUMPRIMENTOS TRANSFORMADOS EM MOMENTOS DE PROPAGANDA POLÍTICA


Nem a época natalícia escapa. Tudo serve para afirmar posições políticas, arrotar umas quantas frases que já cansam, porque facilmente se percebe onde os seus mentores querem chegar. Desta vez chocou-me este aproveitamento político sem nível. Uma cerimónia protocolar de Bom Natal, que deveria ser tudo menos de fingimento a roçar a hipocrisia, que deveria ser sincera, portanto, muito para além do quadro institucional, traduziu-se em uma repelente e desenquadrada propaganda política. Se o Natal é aquilo que li e ouvi, pois bem, pode o presidente do governo ir a todas as Missas do Parto, pode curvar-se junto do Bispo António Carrilho, pode dizer o que disse ao Representante da República ou pode, ainda, fazer aquele "espectáculo" na Assembleia Legislativa, que o Povo, aquele povo que sente e vive o Nascimento de Jesus e que segue a Sua Palavra, obviamente que o manda, como soe dizer-se, dar uma volta ao bilhar grande. 


Ora bem, o Senhor Representante da República pode ser um convicto social-democrata, pode ser militante ou simpatizante, pode ter uma especial consideração pelo ainda presidente do governo regional desde o tempo de estudante, mas  isso não lhe garante o direito institucional de assumir declarações deste tipo: "(...) Espero que não seja a última vez que nos encontramos numa cerimónia deste tipo, talvez já não como presidente do Governo Regional, mas estou convencido de que o futuro está à sua espera, em cenários diversos e estimulantes e espero que saiba abraçar esses desafios". O lugar institucional de Representante da República, assim creio, implica distanciamento político. Recebeu o falso livrinho político do deve e do haver dos 500 anos. Até nisto a propaganda funcionou ao mais alto nível das instituições políticas. Deveria também ler "Jardim, a Grande Fraude", sugiro. 
Por outro lado, o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, primeiro órgão de governo próprio, na frente de Jardim, afirmou: "(...) A minha primeira nacionalidade é madeirense e só depois portuguesa". Pode o presidente da Assembleia, no respeitável plano pessoal, defender a independência da Madeira ou o conceito de Estado Federado, não deve, no plano institucional, assumir uma declaração que, para além de ser um tiro de pólvora seca nacional, é sobretudo provocadora e motivadora de péssimas relações entre a Madeira e os Órgãos de Soberania. Recordou que o mundo vive "tempos de confusão", com muitos "ismos" que devem ser contrariados. "Tempos de germanismos, de egoísmos, de liberalismo, de oportunismos, de golpismos". Certo. Concordo. Faltou, apenas, juntar os tempos de jardinismo! O que Jardim fez pela Região "está à vista de quem quer ver" e "ninguém pode tirar", acentuou. Pois, ninguém pode tirar a dívida assustadora, as limitações de ordem democrática, a governamentalização da Assembleia, ninguém lhe pode tirar a obstinação por uma Região passada ao ferro uniformizador que esmagou a identidade própria e a diferença, uma Região que deveria ser um exemplo nacional e europeu a todos os níveis e que hoje é vista com desconfiança e, por isso mesmo, desrespeitada.
O Natal tem, para mim, um significado diferente e os  cumprimentos de Natal deveriam trazer no seu bojo, não a política barata, a pataco, o discurso que não vai além da troca de galhardetes, mas o discurso da Palavra e do essencial que possa configurar a ESPERANÇA de um povo que anda à nora! 
Ilustração: Google Imagens.  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"PAPA" JARDIM DIXIT: A IGREJA MADEIRENSE DEVE SER MAIS "ATRACTIVA"


"Papa" Jardim, enalteceu, ontem que a Igreja Católica Madeirense deve ir ao encontro das pessoas, “sem medo” em relação às “grandes questões sociais”. O incentivo do "papa" Jardim penso que é mais "Cerelac ou Nestum" que outra coisa. As palavras são de circunstância e como tal sem valor político. De qualquer forma, espero, agora, que o Bispo António Carrilho, na primeira oportunidade, com o templo cheio, em um daqueles "Te-Deum", onde o governo comparece em força e ocupa a primeira fila, lhe diga, olhos nos olhos, três coisas: primeiro, que apenas obedece a Roma; segundo, que a Igreja já cumpre a sua parte através do notável trabalho de muitas paróquias e instituições de solidariedade social; terceiro, sob a forma de interrogação, que tem feito o governo para resolver, a montante, o desemprego, a fome, a emigração e a desestruturação familiar? Já agora que o "papa" explique a razão pela qual o ex- presidente da Segurança Social da Madeira, Dr. Roque Martins, foi afastado? Teria sido por denunciar, ao tempo, que a pobreza já ultrapassava os 22%? E por que razão andaram, por detrás da cortina, a inviabilizar o Banco Alimentar Contra a Fome? Teria sido para que ninguém soubesse a realidade?


Ora, quando o governo desperdiça tanto dinheiro em opções sem sentido, quando prefere ter um jornal de propaganda em relação ao esbatimento da pobreza, quando a megalomania eleiçoeira os invade em detrimento das prioridades sociais, julgo eu que tem é de ser recriminado publicamente. O problema é que falta coragem ao Bispo e a outros que por aí andam, e, portanto, engolem aquelas declarações e não respondem, elegantemente e de imediato. Parece que têm medo, não sei de quê, mas têm. Porque há templos para pagar e, por enquanto, o "papa" Jardim é importante? Ora, se Cristo por aqui andasse, apontava o dedo a um e a outro. Estou certo disso.
Ilustração:  Google Imagens.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"UMA IGREJA MAIS CRISTÃ E MENOS CATÓLICA"



Estou certo que este não é o dia mais adequado face à solenidade Pascal, mas porque sou cristão não consigo ceder aos meus princípios. Simplesmente porque li o que o chefe da Igreja madeirense referiu na homilia de ontem: "(...) Caros sacerdotes, é necessário e urgente escutar o espírito de Deus que nos ungiu e consagrou para a missão. Ele suscita em nós um desejo sincero de renovação e maior atenção à realidade humana e social do tempo presente" (...) "Queria pedir uma atenção particular à presente conjuntura económica e social na descoberta das carências, necessidades e problemas do povo que vos está confiado. Nesse sentido, seria bom que, juntos, pudéssemos descobrir novos projectos e dar novo vigor àqueles que já existem e às vezes não são suficientemente valorizados". Tiro fora do alvo. Ainda mais, Senhor Bispo? Não fossem as instituições particulares de solidariedade social onde associo o notável trabalho de muitos párocos, que reúnem à sua volta centenas de pessoas que ajudam na solução dos problemas das famílias e teríamos uma catástrofe social. Ao invés, o grande recado não deveria ser para a generalidade dos senhores Padres, mas para um governo regional que não tem em atenção o que se está a passar na comunidade. O tiro do Senhor Bispo foi, repito, para fora do alvo. Ao não querer ser político acabou por sê-lo ao branquear a acção governativa. De resto, não é a primeira vez. A questão da pobreza e dos excluídos, obviamente que o Senhor Bispo sabe, não se resolve com atitudes de caridade, mas indo ao centro do problema e incentivando os poderes criados a terem em atenção as gravíssimas assimetrias sociais. É aí que se encontra o centro do alvo, doa a quem  doer!


A política visa isso mesmo. Não me levem a mal, porque não vou ser politicamente correcto, mas olho para o Papa Francisco e vejo o futuro, alguma esperança; olho para o Bispo Carrilho e vejo nele o passado. Mesmo que tente as peugadas de Francisco, com algumas citações, não chega lá. Eu compreendo a dificuldade. Há muita pedra no sapato, entre outras, três que são públicas e notórias: o Jornal da Madeira, que retira cerca de € 11.000,00 por dia que poderiam ser de apoio aos marginalizados; os défices de várias comissões fabriqueiras que edificaram um excessivo número de templos face ao quadro social em que vivemos; finalmente, a suspensão a divinis, assunto claramente político, que envolve o Padre Martins Junior e que não há maneira de ser resolvido. Nem o julga em Tribunal Eclesiástico nem o reintegra. Está ali, em lume brando, talvez à espera que Jardim saia do poder. São assuntos que impõem enervantes silêncios. Um Bispo deve, na minha opinião, assumir-se pela Palavra e ter essa capacidade de colocar os poderes políticos em sentido. Mas compreendo que assim não seja. Houve alguém que disse que teve sempre os Bispos que interessavam à Madeira. Pois, tal como o "omo", mais branco não há! 
Já tem uns anos, cruzei-me e mantive um diálogo com um Bispo que considero notável. Um Homem que teve o condão de mexer comigo, pelas sábias palavras e conceitos que me transmitiu. Simples, afável, directo, com um sentimento da importância da Igreja no contraponto com o poder político, disse-me, com palavras sem rodeios, aquilo que dizia no púlpito. A páginas tantas foi muito claro quando, olhando-me nos olhos, me disse que os madeirenses e portosantenses precisavam de "um bispo de cultura". Eu percebi a palavra cultura, no contexto em que falávamos, muito para além do significado da palavra. Entendi-a como a capacidade de alguém, que não dependendo de ninguém, sabe cruzar todos os dados, sabe elaborar sínteses e dizer em alto e bom som as fragilidades de que a sociedade padece. Mais tarde, telefonei-lhe no sentido de convidá-lo para um debate. Falámos de questões sociais, da Missão da Igreja, da importância desse encontro para ouvir e participar nos desencontros. Ficou de acertar a data em função da sua disponibilidade. Não chegou a realizar-se, mas tive pena. Nós precisamos disto, de uma "Igreja mais cristã e menos católica", frontal e envolvente, na esteira do que me disse um Padre desta Região, a quem me ligam laços de respeito,  consideração e Amizade, ele também apostado na solidariedade e na Palavra e que não precisa, como tantos outros, de ouvir recados de  apelo à caridade. Ademais, o povo não precisa de lengalengas que a nada conduzem, porque o disco está velho demais para um tempo que precisa de gente que não bata no peito ao Domingo e infernize a vida das pessoas ao longo da semana.
Ilustração: Google Imagens.