domingo, 7 de dezembro de 2014

"OS PORTUGUESES SOFREM EM SILÊNCIO"


Li no Expresso: "Psicólogos alarmados com tantos bancários nas consultas". Nada que me seja estranho. Existem centenas, porventura milhares de documentos escritos e de declarações que provam a instabilidade emocional de milhões de trabalhadores. E isto vem, com acentuação progressiva, desde os finais dos anos 80. A declaração que li de um bancário, "(...) começamos a receber ameaças de clientes às 08:30 e às 09:30 começam as pressões do chefe a perguntar o que já fizemos" (BES) é, no essencial, semelhante ao que a minha gestora de conta (BES), hoje aposentada, já tem uns anos, me disse: estou farta, cansada, só quero ir embora, porque isto está a dar cabo da minha vida. Falou-me, exactamente, das pressões das chefias ao jeito: "o que é que já vendeu hoje". Referiu, ao Expresso, uma funcionária: "se tenho de abrir dez contas novas até ao meio-dia, a essa hora a chefia pergunta se está feito e, se não está, diz logo se não somos capazes, não servimos para mais nada". São os bancários que se queixam, mas são também os professores (entre outras profissões) onde, em 2013, metade dos quais apresentava sintomas de exaustão (síndrome de Burnout).


Justificam-se, assim, 279.000.000 de doses de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos consumidos, em Portugal, ao longo de 2013. Um valor que é o maior da Europa. E porquê? A resposta, embora no essencial, está no Expresso através do Dr. Álvaro de Carvalho, Director do Programa Nacional de Saúde Mental: "(...) É dada mais prioridade ao trabalho e à economia do que aos afectos. A motivação para a vida pode estar hoje mais comprometida". E sendo assim, como corolário, 22% dos portugueses sofrem de perturbações psiquiátricas, uma das prevalências mais altas do mundo. Não sei as causas, mas ainda ontem foi noticiado que, na Madeira, se verificou mais um suicídio. Um entre muitos que constituem um drama em Portugal.
Curiosamente, este trabalho publicado no Expresso acontece na mesma semana durante a qual o Primeiro-Ministro, Passos Coelho, sublinhou que, face à crise, "quem se lixou não foi o mexilhão". Ora, uma das provas está aí. Não foi a alta finança que se lixou, não foram os milionários que sofreram e até, pelo aumento dos milionários, parece até que foi ao contrário. Portanto, quem se "lixou" foram os da hierarquia a partir do vértice estratégico até ao centro operacional. E tudo porquê? Porque o que está em causa é essa desmedida ambição pelo lucro de um vértice estratégico que impõe uma produtividade a partir da definição de prévios objectivos individuais. Deixou de estar em causa o rigor e o sentido de pertença à empresa. Pouco interessa aos administradores se existem ou não condições económicas, financeiras, sociais e culturais para a produtividade, para eles o que está em causa é a imposição cega e quantas vezes desumana, através da ameaça de exclusão, mesmo quando o trabalho é realizado com disciplina e rigor. "Os portugueses sofrem em silêncio", assume o responsável pela Saúde Mental, enquanto para uns quantos a dor e o sofrimento não contam.
Ilustração: Google Imagens.

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