segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A ESCOLA QUE NÃO VIVI: A DO CANALHEDO, MALFEITORES E DA BANDIDAGEM


"O senhor está bem para se juntar com o Roberto Almada e com toda a restante esquerda ideológica que é incapaz de admitir o óbvio: "malfeitores" dentro das salas de aulas deitam a perder quem quer estudar! Entenda!!  Eu não vou resolver os males da sociedade aceitando colocar na mesma sala de aula os meus filhos com o canalhedo do Bairro da Nogueira!! E o senhor? Quer pôr os seus netos numa com a bandidagem do Estreito? Então não seja hipócrita, desculpe lá (...)". Recebi este comentário e publiquei-o apesar de "anónimo". Refere-se à questão das turmas por nível sobre as quais tenho vindo a assumir uma posição contrária à proposta do secretário regional da Educação. Então, vamos lá ao meu comentário, ao comentário. 



Assume-se como "anónimo". Para um diálogo decente, educado e frutuoso seria de bom tom dar a cara, assumir-se, não ofender e dizer o que pensa. Assim se constrói a democracia e o respeito. Posto isto, saiba que das gentes a que pertenço, o nosso povo, não encontro jovens "malfeitores". Fui docente durante quarenta anos e só durante oito, intercalados, estive ausente da escola por ter assumido o lugar de deputado. Mas, ainda assim, o meu principal sector de preocupação e de intervenção foi a Educação. Estudei muito, li muito, reuni com muitos professores e sindicatos e elaborei projectos de decreto legislativo regional. Pelas escolas por onde passei,  creia, não vislumbrei a existência do tal "canalhedo" de que fala, nem a ideia de "bandidagem" me ficou. As crianças não são malfeitoras, gente canalha, muito menos bandida. São crianças e jovens, com significativas diferenças culturais, com origens diversas no plano económico, financeiro, cultural e social, muitas com graves lacunas de socialização, isso sim. Que existem comportamentos inapropriados, obviamente que existem, desde os oriundos de ambientes sociais que nos constrangem, passando pelas famílias desestruturadas, até aos alunos cujos pais ou encarregados de educação se situam em patamares sociais que poderiam pressupor dedicação ao estudo e exemplar comportamento na relação com os professores, colegas e funcionários. Até nas escolas privadas e de grande selectividade existem comportamentos inapropriados. Encontrei de tudo ao longo da minha vida, inclusive, crianças que chegavam à escola com fome ou que roubavam para ter dinheiro para o "passe social". Uma vez, uma, a meio da manhã, prostrada a um canto, depois de alguma delicada insistência da minha parte, disse-me que o seu pequeno almoço tinha sido "um pouco de arroz que tinha ficado de ontem à noite". Não é que o arroz não seja alimentício, mas normal não é! Evidencia carências. Então, a questão que sempre coloquei e que se deve colocar é semelhante à do ovo e da galinha: onde está a causa dos comportamentos? E daí, os designados comportamentos inapropriados são causa ou consequência? E de onde provém, então, o desinteresse pelo estudo, quando todas as crianças desejam explorar, perguntar e aprender? Mais, ainda: é a criança ou o jovem que não quer aprender e, por isso, perturba, ou é o sistema educativo que está completamente desajustado, nos planos organizacional, curricular e programático? O que é que está em causa: é uma actuação na causa dos problemas, na família e na mentalidade em geral ou trazer para dentro da escola a reprodução do que de pior tem a sociedade: a segmentação, os egoísmos, a competição feroz, a elitização, a separação entre exploradores e explorados, na escola, entre bons e maus? Meu caro "anónimo", a Escola não é isso, é muito mais. E o que aqui escrevo não tem nada a ver com "esquerda ideológica", tem sim a ver com estudos realizados, com a investigação produzida e com o bom senso. Não se trata de "hipocrisia" mas da defesa de um outro paradigma para que a Escola se constitua como um lugar de prazer e de interesse pelo conhecimento. Não precisamos, sequer, de descobrir seja o que for. Leia, por favor, o artigo que ontem aqui transcrevi da Professora Doutora Jesus Maria da Universidade da Madeira. Leia e, depois, diga-me, se mantém a sua posição. 
Pela sua importância, pela enésima vez, reproduzo aqui uma frase do meu Professor de Psicopedagogia, dita no final dos anos 60, mas sempre actual: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente?" Uma grande parte do problema reside aí, na inadequação de uma escola que não responde ao tempo que estamos a viver. E isso não é problema da generalidade dos professores, mas dos sucessivos governos. Sabe, a Escola não é apenas disciplinas, aulas, manuais, toques de entrada e de saída, testes e notas. É muito mais do que isso. A Escola não é um quartel! O problema é que temos um secretário que evidencia dificuldade em perceber que o lugar que, circunstancialmente, ocupa, visa um resultado a dez, quinze, vinte anos e que, portanto, de nada valem os "tirinhos" que podem cair bem no pensamento de algumas pessoas menos bem informadas, mas sem efeitos consistentes no futuro. Valem zero. O problema também está aí, nos políticos que têm liderado a nossa terra e nos ministros que, infelizmente, temos tido a má sorte de os aturar. Fico por aqui.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado pelo seu comentário - ao meu.
Não me vou alongar apenas lhe direi que o senhor conseguiu a proeza de não responder à pergunta NEVRÁLGICA do meu comentário, que sintetizo outra vez: o senhor aceitaria, de bom agrado, de espirito livre e caridade instalada - leia pf novamente...." de bom agrado, de espirito livre e caridade instalada" (!!!) - colocar os seus netos numa turma com 3 ou 4 reguilas do bairro da nogueira (para amansar a designação mais adequada para certo tipo de gente nada recomendável )?? Diga de peito aberto: "Sim, aceito! Sem reservas!".
Se me disser essa frase, talvez consiga então vislumbrar ou até compreender a sua posição genuína e, em consequência, lhe desejar os maiores sucessos nesse experimentalismo; em relação aos seus netos, que não teriam então culpa nenhuma de ter um avô com o coração tão grande, espero ao menos que o respetivo Pai pense um pouco mais como eu - resgatando-os a tempo dessa experiência naif.
Eu, como não conseguirei nunca atingir esse estado de grandeza moral, aceito apenas que os meus impostos sejam sempre bem aplicados e canalizados para acudir, resgatar e prevenir o bem estar presente e futuro de todos os meus concidadãos - incluindo os presidiários. Mas à distância de mim e dos meus - que, a tempo, resolvemos trilhar outro caminho.
Boa tarde.

João André Escórcio disse...

Bom dia. Continuo desconfortável por não saber com quem estou a dialogar. Não me parece correcto. Gosto de tratar as pessoas inclusive pelas suas qualificações. Até porque parece-me seguro das suas convicções. E respeito-as, embora discorde.
A resposta à sua grande preocupação está, exactamente, no título que dei ao meu texto: "A Escola que não vivi: a do canalhedo, malfeitores e da bandidagem". Isto diz tudo. Ora bem, eu julgo que está a partir de um pressuposto errado, isto é, que as escolas são, genericamente, aquilo que julga ser verdadeiro. Não é verdade. Existem, como referi, comportamentos inapropriados e é nessas situações específicas que os professores, com muito empenho, trabalham. Não se trata de "grandeza moral", mas de um facto: as escola, públicas e privadas, não são antros de vergonha que urja "prevenir". Tal como referi, as questões que se colocam são muito mais complexas e são muito bem analisadas no artigo que hoje foi publicado no DN-Madeira (Professora Doutora Liliana Rodrigues, docente universitária e Deputada no Parlamento Europeu). De resto, aquela que se diz ser a geração mais bem preparada de sempre, maioritariamente, passou pela Escola Pública onde, na sua opinião, há uma maioria não recomendável. É um paradoxo, não acha! Até o senhor Secretário da Educação por lá passou e se formou (UMa).
Eu próprio fiz o meu percurso na Escola Pública e nada me aconteceu. Tenho um neto na Escola Pública e tudo funciona com normalidade. E sei que os seus pais, tal como os meus pais o fizeram (com toda a certeza, também os seus), chamam sistematicamente à atenção para os perigos que espreitam a todo o momento, dentro e fora da Escola. E são tantos. Por isso, não se trata de "caridade instalada" mas da defesa do princípio que esta Escola, com todas as insuficiências que possa ter, nunca foi nem é a do "canalhedo, malfeitores e da bandidagem".