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domingo, 23 de agosto de 2015

EDUCAÇÃO: "BRANCO MAIS BRANCO NÃO HÁ"


Cheirou-me a "Tide" e à publicidade associada. O secretário da Educação desdobra-se para mostrar um tecido limpinho face à borrada. Mas, tudo bem, não entro por aí, simplesmente porque a questão da formação de turmas é muito mais complexa do que a versão oficial. Não basta dizer que "a intervenção que está a ser preparada tem bases técnicas, científicas e pedagógicas robustas" (...) e que relativamente à diversidade e extensão das posições críticas surgidas, "foi tudo muito revelador sobre o posicionamento dos seus autores quanto à problemática da Educação". Respondo: na Universidade aprende-se que todos têm razão, só que têm de justificar, cientificamente, a defesa das suas posições. O que não é fácil, pois obriga a compaginar muitos estudos. A ciência não se compadece de convicções.


Pessoalmente, preferiria que o secretário da Educação nada apresentasse nos primeiros dois anos de mandato e que, depois de estudar e sobretudo ouvir todos os parceiros, da universidade aos sindicatos, pudesse apresentar um documento sério, estruturado em todas as frentes de análise, que pudesse alimentar um pacto político para a Educação. Seria o seu melhor contributo enquanto governante. Preferiria que ele muito viajasse para conhecer outros sistemas e outros pensamentos estruturantes. Até porque a Secretaria, da forma como está estruturada, funciona sem secretário. Porque o que a Madeira precisa não é de quem "despache" rotineiramente, mas de quem pense a Educação a quinze, vinte, trinta anos. A Madeira não precisa de um modelo, mas de um paradigma. E sendo assim, as iniciativas isoladas, desconexas, distantes do conhecimento já produzido por pensadores sociais, investigadores e centenas de autores, a caminho algum conduzem. Quanto muito destinam-se a mexer nas margens permanecendo o miolo igual. Com resultados semelhantes aos dos indicadores de hoje.
Li as duas páginas do DN-Madeira e voltei a ler o essencial. Duas importantes páginas porque nelas os jornalistas acabaram por demonstrar a fragilidade dos processos conceptuais deste governo para a Educação. A versão oficial está ali escarrapachada e, portanto, quem leu ficou a conhecer o pensamento ou ausência dele. Por isso, sublinho que foi importante, inclusive, ironicamente, conclusão minha, os jornalistas terem titulado: "bons e maus alunos é conceito ultrapassado". Para o secretário pode ser conceito ultrapassado à luz do "tide", todavia, para o pensamento político não é. O sector educativo é muito mais complexo do que se julga. A questão das turmas é, apenas, um tema à luz da complexidade do sistema. Foi a constituição das turmas que veio para debate público, como poderia ter sido a questão da co-educação. Há quem defenda rapazes para um lado, raparigas para outro! Ora, o que me preocupa é outra coisa, é a não existência de uma grande ideia (pensamento político) para o sistema. E essa grande ideia não se resolve com políticas de "penso rápido" ou com trololós para entreter. É preciso discutir a profundidade, tudo que está a montante e não a espuma. É preciso colocar em cima da mesa, entre uma infinidade de temas, a organização social e laboral, a estrutura da família, a pobreza, a acção social educativa, os encargos familiares com a educação, a rede estruturante dos estabelecimentos de educação e ensino, a sua arquitectura, os currículos, os programas, os conceitos de turma, de aula, de avaliação, a aprendizagem por fenómenos, a compaginação entre a oferta educativa escolar pública e a oferta educativa fora da escola, as relações entre o público e o privado, o Estatuto da Carreira Docente, a formação dos assistentes operacionais, os Artigos 164º e 165º da Constituição da República, a autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, o financiamento da Educação, o ensino profissional/vocacional, a formação inicial, complementar e especializada dos docentes, enfim, infindáveis temas, e é por isso que, sustento, que o melhor que o secretário regional podia fazer era viajar, conhecer, estudar e colocar em debate todo o sistema. E neste aspecto, a Universidade da Madeira e o seu Departamento de Ciências da Educação parece-me determinante ao contrário de ignorá-lo. Seria uma aposta no futuro. Ou melhor, a total ruptura que o sistema precisa. Eu aplaudiria.
Já tem algum tempo, na minha troca de correspondência com o meu Amigo Professor Doutor Manuel Sérgio, ele avisava-me: "(...) Chegou, portanto, a altura de (...) avançar com ciência e consciência". E num outro encontro, quando dialogávamos sobre desporto e sociedade, numa aproximação à Educação disse-me, do alto da sua sabedoria traduzida em palavras que todos compreendem: “se a sociedade está errada a Educação não pode estar certa”. Ora bem, discutir coisas menores pouco interessa, apenas explicita o pensamento, também menor, do exercício da política. Daí que, parabéns ao DIÁRIO, porque tudo ficou mais claro. O "tide" funcionou.
Ilustração: Google Imagens.

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