terça-feira, 11 de agosto de 2015

O PODER DE INCLUIR E DE EXCLUIR


A Madeira tem todas as condições para ser um exemplo nacional e europeu em termos educativos. Sendo as regiões ultraperiféricas consideradas laboratórios experimentais, não entendo que resultados se esperam daqui. Não são estes os valores europeus. Não é esta a inclusão que tanto se aclama. Menos entendo esta necessidade de implementar projectos sem consultar a única parceira científica da região, a Universidade da Madeira. Qual o sustento científico deste projecto? Os encarregados de educação foram ouvidos nesta questão? Autorizaram que os filhos sejam ratos de laboratório? Querem que os seus filhos cresçam numa lógica social que distingue cidadãos de primeira e cidadãos de segunda categoria? É isto a educação democrática?

“(…) sabendo ler e escrever, nascem-lhe ambições (…). Largam a enxada, desinteressam-se da terra (…). Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esquecem as letras e voltam à enxada. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75 por cento de analfabetos.” (Almeida e Castro)


Foi nisto que pensei quando, pela comunicação social, soube que há um projecto-piloto que prevê a distinção entre turmas de bons e de maus alunos na Região Autónoma da Madeira. Pretende-se provar exactamente o quê? As opiniões divergem sobre este experimentalismo educativo. A minha é mais uma.
Não surgiu até agora por parte da Secretaria Regional de Educação qualquer tipo de desmentido. Bastava algo simples: “não há lugar para a reprodução social nas escolas da Madeira.” Mas não. Não foi um engano. Foi assumida a ideia de escola como instrumento de poder. Um poder que tanto pode escravizar como emancipar.
Um poder que tanto serve à submissão como à autonomia. E quem tem o poder também tem o poder de incluir ou excluir (Silva, T.).
A escola democrática parece servir apenas ao espírito da lei portuguesa e europeia e nada mais ambicionando, numa posição tão retrógrada que envergonha o próprio senso comum. E voltei a me lembrar da enxada. Na ênfase colocada no “carácter sensorial e concreto do pensamento das ordens mais baixas em oposição às qualidades intelectuais, verbais e abstractas do pensamento das classes superiores” (Goodson, I.).
Onde é que começa e acaba o valor do bem e do mal? É preciso ser cego para não perceber que os valores são interpretações. Se se tiver a quantificação e a célebre necessidade de disciplinas nucleares então é muito mais fácil medir as cabeças dos nossos alunos (como se as médias medissem a inteligência de alguém).
Eu não quero esclarecimentos, ou a simples assunção de que foi tudo um erro de comunicação. Esta medida relembra posições de outros tempos, que cheiram de longe a putrefação política. Temo que o darwinismo social seja marcado por uma meritocracia que, longe de premiar, faz uma clara cisão com os ideais de Abril.
Sem qualquer pudor a diversificação de modelos educativos tem servido para categorizar alunos, professores, programas, currículos e escolas. Tudo isto sempre foi feito de forma mais ou menos oculta. Mas quando é o poder político a assumir a estratificação educativa o problema assume proporções maiores e socialmente desastrosas.
A Madeira tem todas as condições para ser um exemplo nacional e europeu em termos educativos. Sendo as regiões ultraperiféricas consideradas laboratórios experimentais, não entendo que resultados se esperam daqui. Não são estes os valores europeus. Não é esta a inclusão que tanto se aclama. Menos entendo esta necessidade de implementar projectos sem consultar a única parceira científica da região, a Universidade da Madeira. Qual o sustento científico deste projecto? Os encarregados de educação foram ouvidos nesta questão? Autorizaram que os filhos sejam ratos de laboratório? Querem que os seus filhos cresçam numa lógica social que distingue cidadãos de primeira e cidadãos de segunda categoria? É isto a educação democrática?
Depois de meia dúzia de meses de governação, a única medida visível deste Governo em matéria de educação peca de forma grosseira. Não basta ganhar eleições. É preciso bem mais.
Embrenhados numa ideologia de direita, alguns decisores políticos caminham por trilhos que nos devem preocupar a todos. A história tende a repetir-se. Será possível que os filhos de Abril sejam mais salazaristas que Salazar? De uma coisa não tenho dúvidas: por muito que discordasse de Jardim tenho a certeza que nunca permitiria destes experimentalismos pedagógicos que preconizam um sistema de castas.
NOTA
A Professora Doutora Liliana Rodrigues é membro da Comissão de Cultura e Educação no Parlamento Europeu. Este texto foi publicado na edição de hoje do DN-Madeira e aqui reproduzido, com a devida vénia, pela importância da sua análise.

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