sábado, 30 de abril de 2016

EM ABRIL ELA VOLTA SEMPRE

Viver com Abril…                             
 Lutar por Abril…
Morrer em Abril…

 



                        







A lousa fria  austera
Onde nasce o cravo
E cresce a gerbera
Não é campa                                                                 

É a rampa
De regresso
Na próxima Primavera
                                                                 
                                                                  


27.Abr.16
Martins Júnior

sexta-feira, 29 de abril de 2016

POLÍTICA DE SAÚDE: SE A SAÚDE É CARA EXPERIMENTEM A DOENÇA


Facto
Manchete da edição de hoje do DN-Madeira:
"Utentes da saúde vão ver o que gastam. A partir de Maio, à saída do hospital e dos centros de saúde, os madeirenses vão receber uma factura virtual, meramente informativa, com os custos reais do atendimento. O utente não paga nada, mas fica a saber tudo o que custou ao Orçamento Regional"
Pergunta:
A saúde não é um direito constitucional? (Artigo 64º da CR: 1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover).


Ora bem, uma coisa é a necessária educação e responsabilidade do utente na utilização dos serviços (aspecto fundamental), o extremo rigor na gestão e na administração do sistema; outra, é o utente ficar com a sensação que a sua utilização constituiu uma dádiva do governo e uma dentada no Orçamento Regional. Fica-se com a ideia de que o utente tem de penitenciar-se por ter adoecido! 
Os impostos, directos e indirectos, que se pagam destinam-se, exactamente, para cobrir, entre outros, os encargos no âmbito dos "direitos sociais". Ademais, os portugueses trabalham quase seis meses para pagar impostos. Certo? 
Independentemente desse aspecto, adaptando o que alguém disse sobre o estado da educação, "se a saúde é cara, experimentem a doença". Portanto, julgo que tal decisão não tem sequer valor pedagógico. Da mesma forma que, em contraponto, à saída de um hospital ou centro de saúde, o utente não irá receber, em conjunto com a factura virtual, a listagem dos milhares que esperam e desesperam por consultas, exames complementares e cirurgias. Ou, então, o que deveriam pagar e não pagam aos médicos, enfermeiros e restantes profissionais de saúde.
Por este andar, em breve, na escola, os pais e encarregados de educação passarão a receber o valor diário dos encargos. Por aí fora. Finalmente, pergunto, para que serve esta decisão, se os custos do sistema de saúde constam do ORÇAMENTO REGIONAL? Quando o Orçamento constitui o domínio em que deve assentar "o direito à informação do utente"?
Apenas uma opinião.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

LÍLIA BERNARDES A GRANDE MULHER E JORNALISTA QUE FOI CONSIDERADA "INIMIGA DA MADEIRA"


Custa-me imenso cumprir o dever social de marcar presença em cerimónias de despedida, sobretudo naquelas que identificamos como partida para a "última morada". Mais, ainda, quando conheço o ser humano em presença, naquilo que o caracteriza, por ter sentido, ao longo da vida, empatia, uma profunda amizade, alicerçada em inquestionáveis princípios e valores. Mesmo quando os encontros não são de grande frequência, quantos de nós já não olhámos para alguém e não nos apercebemos, embora à distância, a sua proximidade na comunhão desse leque de princípios e valores que estruturam a nossa identidade. Trago comigo um telefonema de um colega e Amigo que vive em Alcobaça. Depois das palavras iniciais, disparou: "era só para saber se estavas bem!". Que bom sentir a amizade! Em uma frase tão curta senti, naquele momento, a beleza da vida, o encanto da vivência e da convivência. 


Na despedida da Lília Bernardes, que hoje foi a sepultar, perpassou-me aquela frase, "era só para saber se estavas bem" e penitenciei-me por não ter sido mais próximo. Falta-nos, muitas vezes, essa cultura de termos os amigos  por perto, sempre no primeiro plano das preocupações. Na voragem dos dias, dos afazeres, profissionais e outros, vamos deixando para depois, quando esse depois, em um ápice, deixa de existir. A Lília Bernardes merecia de todos nós essa atenção primeira e não teve por parte de muita gente. Olho para trás, para o seu percurso de vida e, particularmente, para as suas preocupações de família que tantas vezes me falou e entristece-me ter presente os enxovalhos públicos de que foi vítima e os processos na Justiça, apenas porque a sua coluna de jornalista e de Mulher nunca foi de plasticina. Lília, em uma entrevista a João Dias, um dia, sublinhou: "(...) A minha postura perante do Dr. Jardim é muito clara: eu sou paga para lhe fazer perguntas e ele é pago para me dar respostas". Só que ele e muitos outros não gostavam das perguntas. Esse foi o problema que, aliás, profissionalmente, magoou, mas não a deixou vergar, simplesmente porque era seu entendimento: "(...) Se Alberto João Jardim sair do poder não tenho nada para chorar nem para festejar". Nem mais. Há, portanto, gente que perdendo a noção que a vida é finita, dos políticos aos CTT, passando pela comunicação social escrita e televisiva, que hoje deveria curvar-se perante a sua morte e, publicamente, pedir desculpa. São vários ao longo do seu percurso. Porque a Lília não era "inimiga da Madeira". Bem pelo contrário. 
Olho para trás, ainda, e vejo a lutadora, com problemas até ao céu da boca, mas que ainda encontrou tempo para se licenciar, o que exprime uma constante busca pelo conhecimento. A Lília foi uma Mulher lutadora. A sua mãe, julgo com 94 anos, a sua filha e a sua irmã faziam parte da sua preocupação diária. Nunca se queixava das suas maleitas, soube, ainda hoje, que nem à filha confidenciava. Uma Mulher lutadora e sofredora no silêncio dos dias. A Lília seria uma avó presente dentro de poucas semanas. Quis as circunstâncias que não deliciasse esse momento sublime e doce. Que a criança nasça e transporte os princípios e valores da avó. 
Faço minhas as palavras do Dr. Carlos Farinha, da Polícia Judiciária, que ainda ontem sublinhou: "(...) Tenho muita pena de não poder dizer que há muitas Lílias neste país."
Até um dia, Amiga.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

A LÍLIA BERNARDES FALECEU


Palavras para quê?
Morreu uma Amiga.
Morreu aquela que, de quando em vez, me telefonava para desabar ou para trocarmos uma opinião.
Morreu aquela que se dedicou ao jornalismo e fez da sua profissão uma bandeira de luta pela verdade.
Morreu aquela que foi, durante anos, ofendida, enxovalhada pelos poderes públicos e sacrificada na sua vida pessoal.
Morreu a Lília. Eu que tanto dela gostava! Que descanse em paz.

terça-feira, 26 de abril de 2016

O QUE FAZER PARA QUE AS ESCOLAS DEIXEM DE SER CATEDRAIS DO TÉDIO. O ENSINO COMO UMA LINHA DE MONTAGEM.


O jornal Público através da sua jornalista Clara Viana apresentou, ontem, um trabalho que merece ser lido. Não é que traga algo substancialmente novo, mas vem colocar, uma vez mais, o dedo na ferida de um sistema educativo que há muito sangra. As escolas, por mais voltas que tentem dar, criando estratégias e projectos, são hoje, claramente, "Catedrais do Tédio". Uma expressão feliz que sentencia uma ideia final: "As escolas têm de aprender a ensinar no século XXI, sob pena de se tornarem dispensáveis". Dizendo de outra forma, ou mudam ou serão mudadas. este contexto, pergunto: e os professores estarão atentos ao que se está a passar?


Tal como estão, "as escolas tornam-se, para inúmeras crianças e adolescentes, verdadeiras catedrais do tédio”, alerta Ilídia Cabral, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, com vários trabalhos realizados sobre o insucesso escolar no ensino básico e secundário. E isto acontece, frisa, porque se “ensina hoje como se ensinava há 200 anos”, seguindo uma estrutura construída com o advento da Revolução Industrial e que se traduz num “modelo de organização escolar padronizado, de inspiração fabril, do tipo linha de montagem, que permitiu às escolas darem o mesmo a todos”. Porém, prossegue esta investigadora, os alunos de hoje são bem diferentes do que eram há dois séculos. “São alunos cada vez mais heterogéneos, com acesso quase imediato a inúmeras fontes de informação, nativos digitais para quem as metodologias de ensino tendencialmente expositivas e fragmentadoras do conhecimento se revelam, muitas vezes, totalmente desadequadas e muito pouco apelativas”, diz. E é assim que o tempo escolar se “torna, em muitos casos, um tempo vazio de significado para os alunos, por se encontrar completamente afastado da sua realidade, dos seus interesses e das suas necessidades”.
Leio, ainda, nesse trabalho: "Em vez de estarmos sempre a ouvir um professor, devíamos ter autonomia para também descobrirmos por nós próprios", assume Nelson Rebelo, de 16 anos. Outra: "(...) Estou um pouco desanimada”, desabafa Daniela Guilherme a propósito da sua experiência escolar. “Não temos voz nas aulas e devíamos ter. É uma das formas de expressão mais importantes, mas nós só escrevemos. Existe muito pouco diálogo entre alunos e professores e a confiança é assim quase nula”. Regresso a uma pergunta: os políticos não têm esta percepção? Que o modelo está completamente esgotado, uma vez que potencia o abandono e o insucesso? São cegos e surdos perante o que tantos investigadores e autores dizem?
Há, todavia, um aspecto que me agrada, é que, com alguma regularidade, a comunicação social está a trazer para o centro do debate as questões de política educativa. E isso, embora com muitos anos de atraso, é muito bom.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

domingo, 24 de abril de 2016

39 MILHÕES PARA ESTRADAS E TÚNEIS INACABADOS


FACTO:
39 milhões de euros para estradas e túneis inacabados. GR retoma obras nas variantes S. Vicente-Boaventura e P. Sol-Calheta (DN-Madeira 24.04.2016).
A PERGUNTA(S):
Embora a origem dos financiamentos seja distinta, que pensará a população da Região da Madeira quando é assumido que a Saúde está em um caos? Quando o sistema está em polvorosa pela falta do essencial?


O desenvolvimento guia-se por uma série de princípios, entre outros, o da prioridade estrutural, o da transformação graduada, o da interacção,o da integração, o da flexibilidade, o da auto-sustentação, o da optimização dos meios e o da participação. Saberá o governo o que significa isto? Perceberá a diferença que a admissão destes pressupostos fazem no planeamento? Pela práxis política duvido que saiba. E se domina, não os cumpre. 
A Região passou alguns anos sem a concretização de tais obras. Alguém sentiu essa necessidade? Alguém sentiu a necessidade de uma solução para a marina do Lugar de Baixo? Mas essa mesma população, disso estou certo, sente a necessidade de um sistema de saúde consistente, gerido, obviamente, com rigor, mas entendido como prioritário; tal como sente a necessidade de um sistema educativo que dê respostas claras aos desafios do futuro; tal como sente a necessidade de respostas na empregabilidade e nos direitos sociais. Prioridades, por onde andam!
Finalmente, onde está a coerência, pergunto, quando, na mesma semana, mandam parar a continuação da Cota 500 (decisão acertada), mas aceleram na concretização de obras que poderiam e deveriam esperar em função de outras prioridades. Difícil de entender.
Nota
Segundo o DN, o governo "quer aliviar o elevado fluxo de trânsito existente actualmente na marginal da Madalena do Mar". Eu que ali passo com muita regularidade, nunca assisti a qualquer congestionamento de trânsito. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 23 de abril de 2016

PARA QUE SERVEM OS TPC


Da capa da penúltima revista Visão: “crescem os apelos e movimentos contra os trabalhos para casa. Aversão à escola, maior desigualdade e conflitos familiares alimentam críticas”. No interior, leio: “(…) Há anos que ouvimos o psicólogo Eduardo Sá falar da falta que faz um sindicato das crianças” (…) onde uma das “primeiras iniciativas fosse, exactamente, a greve aos TPC”. Uma metáfora por considerar que os mais novos já trabalham de mais nas horas que passam na escola, conclui a jornalista Teresa Campos. Mais adiante: “(…) Maria José Araújo, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Universidade do Porto, classifica os TPC de excessivos, repetitivos e inúteis, pois as “crianças aprendem muito mais quando estão a brincar”. Por seu turno, Mário Cordeiro, prestigiado pediatra, assume: “(…) Queixamo-nos que a família se reúne pouco e, depois, vemos o trabalho e a escola invadirem a intimidade e a privacidade das crianças”. Daí a pergunta: “Valerá a pena, pela noite dentro, as crianças estarem a ser torturadas, com os pais aos gritos e acabarem por serem eles, pais, a fazerem os trabalhos, criando-se um clima familiar horrível, desgastante para todos, antes da hora de dormir? (…) Desengane-se quem pensa que os seus cavalinhos de corrida chegarão à meta mais depressa à custa de TPC. Pelo contrário”. José Morgado, professor de Psicologia da Educação, sentencia: “Quem defende os TPC é a população que foi escolarizada dessa forma e associa uma coisa à outra. Pensam que por ir ao médico este tem de receitar análises. Depois espantam-se que os jovens gostem cada vez menos da escola”.


Há muitos anos que este é um assunto incontornável, o que me conduziu a estudá-lo, lendo e ouvindo especialistas, finalmente, propondo adequada legislação na Assembleia Legislativa da Madeira, chumbada, claro. Hoje, mais bem consolidado o meu conhecimento, teria ido muito mais longe do que então. Em um texto que publiquei em 2011 assumi: os TPC, sobretudo no primeiro ciclo, não se justificam numa escola devidamente organizada. Uma criança que entra na escola às nove horas da manhã e, muitas vezes, dela sai ao final da tarde, a questão que se coloca é o que lá andou a fazer durante o dia. Se os mentores políticos da escola que temos lessem um pouco mais sobre “desenvolvimento e aprendizagem”, se reflectissem sobre a problemática da “criança e do jogo” em um sentido lato, certamente que outros seriam os seus posicionamentos, até porque, mais escola não significa melhor escola (…) e não é queimando etapas do desenvolvimento (somos o animal com maior tempo de infância) que se atingirão melhores resultados finais, isto é, seres disponíveis para a conquista do mundo. Ainda desse texto: (…) Ontem segui uma peça, no Telejornal da RTP 1, sobre os designados Trabalhos para Casa (TPC). Em síntese, retrataram uma escola do 1º ciclo do Ensino Básico onde não são marcados trabalhos para casa e, ao fim de semana, os livros e cadernos ficam no cacifo da escola. Dizia um professor que a escola estava organizada no sentido do estudo acompanhado pelo que se tornava dispensável retirar tempo ao tempo de lazer e de jogo próprio da criança”.
Ora, passados cinco anos, o tema continua na ordem do dia. Ainda bem, porque de tanto se debater talvez alguma coisa se altere. Não conheço muitos exemplos na Madeira, mas um, recentemente, deixou-me feliz. Na Escola Básica 123 do Curral das Freiras que há alguns anos situava-se nos últimos lugares (1207º) do ranking nacional de escolas, saltou, no último, para as da frente, com a melhor média entre os estabelecimentos públicos no exame nacional de 9.º ano. O interessante é que “tem 300 alunos, não tem campainha, nem trabalhos de casa e os horários das aulas batem certo com os do autocarro”. Uma escola onde 92% dos alunos beneficiam da Acção Social Educativa – Jornal Público. Facto que prova que não são os TPC que resolvem o problema, mas outras e inteligentes opções organizacionais e pedagógicas.
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Opinião, da minha autoria, publicada, hoje, no Funchal Notícias

sexta-feira, 22 de abril de 2016

SÓ FALTA QUESTIONAR-SE SE ALGUMA VEZ FOI PRESIDENTE DO GOVERNO!


O jornalista Élvio Passos (DN-Madeira) publicou, na edição de hoje, uma peça que a todos nos deveria fazer reflectir: a designada "Cota 500". Ficou-se a saber que de "uma obra fundamental para a melhoria da qualidade de vida" (2009 - Dr. Miguel Albuquerque) nas zonas altas do Funchal, que permitia, até, "a coesão social" (!), passou a obra dispensável. Refere a peça que "(...) a primeira fase da obra, com uma extensão de 1.300 metros, custou 42 milhões de euros (mais do que 32 mil euros por cada metro linear) foi apresentada por Santos Costa, então secretário do Equipamento Social, como obra que iria "revolucionar as acessibilidades no Funchal". Entretanto, foram gastos quatro milhões de euros em expropriações, alguns para parcelas da última fase, que fica pelo caminho". Razão invocada para o cancelamento da obra: "Face às disponibilidades financeiras e às prioridades definidas, não se perspectiva a execução da totalidade da referida obra." Este o facto noticiado.


Estou completamente à vontade sobre esta obra porque, enquanto vereador da Câmara, opus-me a qualquer parecer positivo, uma vez que tal obra iria, no futuro, ao invés de uma necessária e urgente requalificação integrada a norte do Funchal, exercer uma natural pressão urbanística nas zonas mais altas que de todo deveria ser evitada. O então Presidente da Câmara, Miguel Albuquerque, não considerou, nem os encargos da obra nem as razões mais substantivas que a desaconselhavam, e optou por considerá-la de "fundamental". E assim, hoje, segundo a peça do DN, confrontamo-nos com 1.300 metros de percurso e o abandono  da "segunda fase da via que teria um custo a rondar os 60 milhões de euros, deveria prolongar-se por aproximadamente 2.500 metros e incluir 5 túneis, 4 viadutos e 3 rotundas". 
Curiosamente, esta semana, a propósito de um processo designado (de forma infeliz) por "Cuba Livre", o ex-presidente do governo, Dr. Alberto João Jardim, face à acusação dos crimes de abuso de poder, violação de normas de execução orçamental e prevaricação, terá garantido "nada ter a ver com os esquemas que permitiram esconder 1.100 milhões de euros de dívidas nas contas do seu executivo" (aqui). Portanto, dir-se-á que não teve nada a ver com a Cota 500, com a marina do Lugar de Baixo ou com o "cais 8", onde os comandantes dos navios não querem atracar, entre tantas obras inacabadas ou megalómanas em função das reais necessidades. Só falta questionar-se se alguma vez foi presidente do governo! Da mesma forma que o actual presidente do governo, Dr. Miguel Albuquerque, encolhe os ombros à dívida superior a 100 milhões de euros deixada  na Câmara do Funchal e que os actuais dignitários tentam liquidar. E foi eleito.
O que mais me preocupa é que tudo isto continue a passar impune aos olhos e na decisão do povo no momento do voto. Impune, veremos, na Justiça, muito embora a Procuradora Auristela Pereira (Lisboa), em um primeiro momento, tivesse decidido pelo arquivamento do processo, apesar de deixar claro que os membros do Governo Regional cometeram “uma série de ilegalidades”, “agiram de modo ilegítimo”, “violando uma série de princípios relativos à elaboração do orçamento”, reconhecendo, também, que “a actuação dos arguidos é censurável”. Embora a Procuradora tivesse entendido que tal actuação não possa merecer castigo penal à luz dos requisitos exigidos pela lei, a magistrada apontou a possibilidade de penalizar os responsáveis “no âmbito do direito administrativo e em sede de responsabilidade financeira" (aqui). A abertura de instrução torna-se, portanto, uma incógnita. Veremos.
O que é lamentável é que um cidadão incumpridor, ao nível empresarial ou pessoal, se confronte com problemas até ao céu da boca, mas quando se trata de políticos que assumem a responsabilidade de bem governar aquilo que constitui o esforço da comunidade através dos impostos, não sejam culpabilizados pelos desvios no rigor e respeito pelas prioridades. Pelo contrário, à porta do Tribunal, limitam-se a citar "Finis Patriae" de Guerra Junqueiro, a "A Eneida" de Virgílio e "Os Lusíadas" de Camões. 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A POLÍTICA EDUCATIVA PARECE NÃO INTERESSAR AOS MADEIRENSES


Não apenas a política educativa, é certo, mas tenho a sensação que este sector, absolutamente determinante na construção do nosso futuro colectivo, por ausência de conhecimento ou por um simples encolher de ombros, não merece grande preocupação por parte dos órgãos fiscalizadores de natureza institucional. Tampouco por parte das diversas comunidades educativas e pela população em geral. Salvo raríssimas excepções, constato uma falta de debate e de preocupação, quando em causa estão processos complexos que vão determinar, a prazo, o êxito dos agora mais jovens. 


Indiscutivelmente que há professores preocupados e mal seria que tal não acontecesse em mais de seis mil docentes que trabalham na Região. Há Conselhos Directivos de estabelecimentos de educação e ensino que fazem valer os seus pontos de vista. Da mesma forma que, aqui ou ali, se constatam opções pedagógicas de relevante interesse e contra a corrente. É verdade que sim. Todavia, são poucos, muito poucos, aqueles que, publicamente, assumem o debate como pressuposto vital para a melhoria da educação em geral e do sistema educativo em particular. E há tanto para reflectir e para propor! Os silêncios, tenhamos consciência, são sempre péssimos, pois traduzem-se em um deixa andar de consequências muito negativas. Quando os profissionais de um sector, seja qual for, se resignam às circunstâncias, não podem esperar que as suas preocupações sejam audíveis, discutidas e, eventualmente implementadas. Vale, portanto, zero, desabafar no pequeno grupo de amigos, criticar formatos, exprimir angústias ou viver no silêncio doloroso a inquietude que oprime. Devemos soltar o pensamento e não confinar-se a uma espécie de "o meu está feito", cumpri o horário, "dei as aulas" e por aqui fico! Mais, não me parece vantajoso para ninguém, esse alívio de consciência que se consubstancia no cumprimento das horas de formação obrigatória, na entrega dos certificados de presença e mais não me peçam porque as mudanças não dependem de mim! 
Há um princípio do desenvolvimento que aprendi e que me acompanha: "ou as pessoas participam ou os processos morrem". Este princípio deveria ser estimulado e deveria acompanhar as nossas vidas, sob pena de laborarmos no campo das lamúrias e não no espaço da transformação. É a democracia e o desenvolvimento que assim exigem.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"ALUNOS COM HISTÓRIA" E SERÁ QUE "PODEMOS MEDIR O SUCESSO ESCOLAR"?


As últimas duas edições do DN-Madeira trouxeram-nos dois artigos de opinião que, sinceramente, me escorregam garganta abaixo como mel. O primeiro subordinado ao título "Alunos com história"; o segundo, sob a forma interrogativa, "Podemos medir o sucesso escolar?". A autoria pertence, respectivamente, ao Dr. Rui Caetano, Presidente do Conselho Directivo da Escola B+S Gonçalves Zarco, e à Drª Catarina Homem Costa, Psicóloga Clínica. Dois textos que se compaginam, que voltam a trazer para o primeiro plano do debate do sistema educativo, aquilo que deve merecer reflexão e não as questões marginais, repetitivas, ocas, de circunstância e sem sentido. 


Rui Caetano começa por salientar que os "alunos chegam às escolas com uma história de vida e mesmo que nos custe aceitar, apesar de não justificarem tudo, não devemos desvalorizá-las" porque "(...) a génese destas problemáticas não tem nada a ver com as escolas, vêm de fora para dentro. Talvez por esta razão, de modo inconsciente, olhamos para este grupo de alunos sem nos lembrarmos dos seus contextos pessoais e, como é natural, exigimos deles o mesmo ser, estar e aprender dos outros que assumem atitudes dentro dos parâmetros normais da idade. (...) Muitos destes alunos são personagens de histórias de vida complexas, algumas de um dramatismo comovente, membros de famílias desestruturadas, com carências de habitação condigna e subsistência básica. Alguns nasceram em berços de conflitos, deram os primeiros passos abraçados ao cheiro forte do álcool, das drogas ou sobreviveram em atmosferas de promiscuidade. Foram crescendo em ambientes de agressões físicas e psicológicas contínuas, sempre agarrados ao estômago vazio, formando a sua personalidade distantes de um colo afetivo. (...)". São vidas tenras, mas sofridas, cheias de vivências que privilegiam o vazio de expetativas, de sonhos e de utopias, onde a escola nunca é assumida como uma prioridade, embora, paradoxalmente, a procurem como o único porto de abrigo". Mais palavras para quê?
E assim surge, naturalmente, a pergunta da Psicóloga Clínica Catarina Homem Costa: "podemos medir o sucesso escolar?". Inicia o seu texto: "Entrada no 3º período. Começam as preocupações com as notas num processo enlouquecedor de medir as crianças por meio de números, médias, comparando-as com os colegas, distribuindo culpas, procurando soluções mágicas (como explicações intensivas ou medicamentos milagrosos). Parece que todos os problemas e soluções se resumem aos números da pauta. Parte-se do pressuposto que o objetivo na infância é ser bom aluno, como se a vida se medisse pelos se resultados escolares. Mas será que o sucesso mede em números? Serão esses números preditores de conquistas e bons desempenhos? Um aluno de 5 é mais inteligente que um de 2? Terá um melhor futuro? Será mais feliz?. Termina, sublinhando: "(...) Tantos alunos “nota 5” a quem o facto de não ter sucesso nas outras áreas impede de avançar, de se relacionar com o mundo, de criar relações. Tantas crianças “medíocres” ou com insucesso que farão diferença positiva no mundo e naqueles que as rodeiam. O que é então uma criança bem sucedida? Por que damos tanta importância aos números e desvalorizamos outras competências? Temos um sistema de ensino que cada vez valoriza mais os números… e menos as pessoas".
Dois artigos que deveriam ser lidos várias vezes, em voz alta, por secretários, directores regionais e por toda a comunidade educativa. Dois textos que, uma vez mais, deveriam implicar uma profunda reflexão no plano social, da escola organizacional que deveríamos ter e do sistema educativo pelo qual deveríamos pautar a formação das crianças e jovens. Fico com uma enorme pena que existindo, nesta Região, uma Universidade, profissionais de várias áreas, no activo, que pensam as causas do abandono e do insucesso, enfim, profissionais que não tratam nem a Educação nem o Sistema Educativo tendo por base a repetição do passado, sejam pura e simplesmente ignorados. Leiam em voz alta. Ainda hoje li uma notícia que dá conta de um "batalhão" de pessoas de fora da Região que aí virá debitar o que muitos cá dentro dominam. Para quê? Será que santos da casa não fazem milagres? Leiam em voz alta!
NOTA
Os textos poderão ser lidos nestes endereços:
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/582093-alunos-com-a-sua-historia
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/582296-podemos-medir-o-sucesso-escolar
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 19 de abril de 2016

DISCORDO DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO


Discordo, em absoluto, do Ministro da Educação. Tiago Brandão Rodrigues, "quer alargar o ensino pré-escolar para as crianças de quatro anos de idade e, a partir de 2018/2019, para as de três anos", isto no pressuposto que "(...) a frequência de crianças no ensino pré-escolar é estimuladora de percursos escolares com maior sucesso". Errado. Tanto assim é que a "escola a tempo inteiro" e um pré-escolar com uma clara vocação escolarizadora dos tempos que deveriam ser destinados ao lazer e ao jogo, próprio das diferentes idades, não redundou em melhoria dos resultados finais. O eixo "Qualificar os Portugueses", do Programa Nacional de Reformas (PNR), não passa por aí. Melhor escola e, consequentemente, melhor preparação, não exige mais escola. 


Correcto, com uma visão de futuro, a partir do que tantos investigadores de diferentes áreas assumem, seria cuidar, a diversos  níveis, da pobreza na sociedade, aquela  que se esconde a montante da escola. Correcto seria mudar o figurino organizacional da escola. Correcto seria não confundir currículos e programas com as necessidades das etapas do crescimento, do desenvolvimento motor e cognitivo. Correcto seria a reorganização dos tempos de trabalho, possibilitando mais tempo para a família. Correcto seria, paulatinamente, gerar a mudança  de mentalidade e o gosto pelo conhecimento. Correcto é não querer apanhar frutos muito antes do seu amadurecimento. 
Por este andar, o pré-escolar chegará aos dois anos de idade em uma espécie de leilão semelhante ao "quem dá mais". Com este formato a criança deixa, definitivamente, de estar no centro das preocupações, mas sim o trabalho dos pais que passa a ocupar, cada vez mais, importância vital. Enquanto os pais trabalham horas a fio, muitos com horários disparatados e de sensível exploração, os meninos ficam enclausurados e seguros, pressupostamente, a aprender, cada vez mais cedo, as regras de uma vida imposta e de contranatura. Hoje, as crianças já "trabalham", isto é, já se encontram ocupadas 40 a 50 horas por semana, entre a escola, as actividades fora da escola e os malditos "trabalhos para casa". Aos trabalhadores exige-se menos. É espantoso. Portanto, por isto e muito mais que tenho vindo a escrever, discordo, Senhor Ministro, porque tais medidas, ao contrário do que pensa, a prazo, a factura será enorme.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

CONFERÊNCIAS DO CASINO


A iniciativa "Conferências do Casino" tem, obviamente, um enorme mérito. Quanto mais se discutir, neste caso, a Educação e o Sistema Educativo, melhor para o futuro de todos nós. Só através deste pressuposto poder-se-á romper o círculo vicioso da pobreza. E só assim pode a região almejar empresas mais consistentes, competitivas, de boa e estável empregabilidade, crescimento e desenvolvimento económico. É óbvio e não será necessário um grande conhecimento do sector educativo para entender isso. Portanto, parabéns ao Diário pela iniciativa. Mas uma coisa é a iniciativa, outra o que lá foi dito. Confesso que não tive a oportunidade de assistir, uma vez que, à mesma hora, encontrava-me envolvido em um debate do Gabinete Estratégico do PS-Madeira sobre o interesse ou não de um Representante da República na Madeira. Mas li o trabalho apresentado pelo DN que, julgo eu, traduziu a síntese dos aspectos mais relevantes assumidos pelos protagonistas desta primeira sessão das "Conferências do Casino". Se o objectivo foi gerar, à semelhança das Conferências do Casino (1871) a afirmação de um movimento de ideias que venha a contribuir para que os governantes não continuem surdos à investigação sobre os caminhos da sociedade, digo eu, então, que tal não me parece que tenha sido conseguido. É pena.


Ao ler a reportagem fiquei com a sensação que o Diário abriu o jogo e os convidados, qual metáfora, de baliza escancarada, ao invés de fazerem golos, acabaram por enviar bolas à trave e bolas claramente para fora. Sublinho isto porque a questão da educação e do sistema educativo, constituindo um processo com vertentes múltiplas e complexas, não se esgota na escola. Tem início na família, nos diversos constrangimentos geradores de pobreza, mentalidade, abandono e insucesso, os quais entram escola adentro, invadindo-a com esse conjunto de circunstâncias negativas. A questão central é, portanto, perceber e determinar como romper este círculo vicioso de forma integrada. E pasmo quando o secretário da Educação coloca o acento tónico na "empregabilidade que está relacionada com os resultados da educação". Pergunto, com a educação (qual educação?) ou com o sistema educativo compaginado com todos os outros sistemas? Disse mais, que não tem uma "varinha de condão". Digo eu, ao contrário do que sublinhou, que tem e que todos os antecessores tiveram esse poder da "varinha", mas não quiseram ou não souberam operacionalizar as mudanças transversais necessárias ao desenvolvimento. 
Mudanças que não se circunscrevem ao "desajustamento existente entre a oferta formativa dos estabelecimentos de ensino e as necessidades do mercado de trabalho", como terá sublinhado Rui Bettencourt, director territorial e líder de projectos do Conselho Regional d’Île de France. O sistema educativo, caro Senhor, não prepara para as empresas e para muito trabalho escravo que por aí anda, antes prepara para a vida que é multifacetada. E assim sendo, constitui um erro político grosseiro o secretário pretender ajustar o sistema educativo às necessidades do mercado, com o tal "currículo formativo perfeito". Estes posicionamentos revelam alguma falta de esclarecimento sobre a compaginação entre as questões da Educação e as do Sistema Educativo. E a prova está no posicionamento de "Jaime Morais Sarmento, director de Recursos Humanos do Grupo Pestana que garantiu que muitos não estão preparados para aquelas que são as necessidades reais das empresas (...) e que caberá também aos estabelecimentos de ensino dotar os seus estudantes das ferramentas e noções necessárias para colmatar essa questão". Parece-me óbvio, uma vez mais, o desacerto conceptual sobre esta delicada matéria. 
Se a sociedade está mal, meus senhores, a escola não pode estar melhor. O que realmente gostaria de ter lido, sobretudo por parte do secretário, era o seu projecto para o sistema educativo, em simultâneo, com as preocupações do governo para a educação que é muito mais do que a Escola. Simplesmente porque, pergunto, de que vale falar do fim de linha, quando os factores que estão a montante (económicos, financeiros, sociais e culturais) são, sistematicamente, ignorados, porém determinantes no êxito do sistema? Ora, se o sistema repete o passado, e se a organização social permanece nesse passado, o que podemos esperar no futuro? Apenas os mesmos resultados de ontem e de hoje. Em conclusão, é o sistema educativo que exige mudanças, a par de um profundo trabalho que terá de ser realizado a montante da escola. Um trabalho que, face à sua complexidade, é para muitos anos. Mas que terá de ser feito.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 17 de abril de 2016

PAPA FRANCISCO EM LESBOS



Segui as imagens da presenta do Papa Francisco em Lesbos (Grécia), de onde regressou a Roma acompanhado de "três famílias de refugiados da Síria, doze pessoas no total, incluindo seis crianças". Deu um exemplo de solidariedade e de “coragem” face à “colossal crise humanitária”. Mas o que mais me comoveu até às lágrimas foram as imagens do desespero de adultos e de crianças, algumas ajoelhadas aos pés de Francisco, absolutamente emocionado, como se estivesse a questionar: porquê isto? Deus, por onde andarás?
Foi mais um sinal ao Mundo, particularmente, para esta Europa dos muros e do descalabro político, económico, social e cultural, onde apenas conta o dinheiro e, muito raramente, a política de solidariedade entre os povos e de irmandade entre as nações.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 16 de abril de 2016

REPRESENTANTE DA REPÚBLICA: PARA QUE SERVE?


“(…) A descentralização não aliena a qualidade de português, mas dá à região descentralizada foros de se governar por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades das diversas regiões”. Em Outubro de 1922, Pestana Reis escreveu no Diário de Notícias: “(…) No dia em que for decretada a completa autonomia, ter-se-á descoberto a Madeira pela segunda vez”. Estes dois excertos de textos entre muitos que pertencem à nossa História de povo insulano e que só os historiadores, e não eu, estão em condições de integrar e de conjugar com muitos outros factos, traduzem, quando a mim, uma mensagem que Portugal crescerá e será dignificado quanto maior for o respeito que nutrir pelos povos insulanos. E neste quadro, onde “não se aliena a qualidade de português”, saliento e pergunto, passados mais de cem anos, que razões conduzem a que tenhamos uma autonomia política e administrativa que se apresenta vestida de smoking, mas descalça?


Obviamente que melhor do que eu, que de questões jurídico-constitucionais sou muito limitado, os convidados desta iniciativa deixaram os seus posicionamentos. Portanto, não venho aqui com a minha opinião nesses domínios. Interessa-me, sobretudo, uma abordagem eminentemente política. E para não entrar em divagações, por óbvia incapacidade minha, resolvi escrever este documento. Permitam-me que o leia.
Começo por uma breve história que já tem uns anos. Antes de prestar provas públicas académicas de defesa de uma investigação, assisti a alguns momentos congéneres para familiarizar-me com o ambiente, o cerimonial e as arguências. Lembro-me de um momento que me marcou. Um catedrático, depois de cumprimentar o candidato, tomando na mão e levantando o trabalho de investigação, olhou o candidato nos olhos e dirigiu-lhe a primeira pergunta: Senhor Dr… para que é que isto serve?
Uma pergunta, disparada à queima-roupa que me causou, na altura, sentado no anfiteatro, um arrepio. Mais serenamente percebi que a questão tanto dava para ir longe na defesa da sua investigação como por ali ficar embaraçado, por não descortinar o posicionamento do arguente face à investigação. É exactamente essa pergunta que, hoje, no plano político, coloco: em um exercício de imaginação, levanto a instituição “Representante da República” e pergunto: para serve? Qual a sua utilidade política? Qual a sua justificação?
Nem o Senhor Presidente da República nem o Senhor Representante aqui estão para justificar a importância da instituição, quando um nomeia e outro aceita no estricto cumprimento da Constituição. Mas posso argumentar, politicamente, para além dos dados constitucionais, sem cair em qualquer leviandade ou ignorância atrevida, no sentido de sublinhar que se trata de uma instituição falha de qualquer sentido político. 
Aliás, a pergunta que julgo se poder colocar, sempre na esteira do tal arguente que questionava “para que serve isto”, prende-se com o verdadeiro sentido da Autonomia da Região. Não se pode falar do Representante da República sem trazer à colação a questão autonómica, pese embora seja possível questionar se, nos tempos que correm, Portugal é verdadeiramente autónomo e, se não é, no quadro das instituições europeias, como equacionar a autonomia das regiões? 
Porém, do ponto de vista histórico, entre políticos abertamente assumidos e outros, corajosos lutadores pela Autonomia, com posições muito firmes sobretudo a partir dos finais do Século XIX e primórdios do Século XX, sempre de forma crescente e convicta das vantagens do processo autonómico, se lhes fosse feita a pergunta, nessa altura, de por aqui dispormos uma espécie de fiscal da nossa actividade política, todos eles certamente diriam, pelo que tenho lido, não, obrigado! Há um texto, publicado na Madeira a 19 de Novembro de 1917, que enaltece: “(…) A descentralização não aliena a qualidade de português, mas dá à região descentralizada foros de se governar por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades das diversas regiões”. Em Outubro de 1922, Pestana Reis escreveu no Diário de Notícias: “(…) No dia em que for decretada a completa autonomia, ter-se-á descoberto a Madeira pela segunda vez” (História da Madeira, Doutor Alberto Vieira, 2001, pág. 278 e seguintes). 
Estes dois excertos de textos entre muitos que pertencem à nossa História de povo insulano e que só os historiadores, e não eu, estão em condições de integrar e de conjugar com muitos outros factos, traduzem, quando a mim, uma mensagem que Portugal crescerá e será dignificado quanto maior for o respeito que nutrir pelos povos insulanos. E neste quadro, onde “não se aliena a qualidade de português”, saliento e pergunto, passados mais de cem anos, que razões conduzem a que tenhamos uma autonomia política e administrativa que se apresenta vestida de smoking, mas descalça? 
Pois, compreendo, houve muitos erros estratégicos, de permeio um estrangulador Estado Novo, uma aurora criada em 1976 que, infelizmente, não foi arquitectada nos melhores propósitos, assistiu-se à febre muito alta da multiplicação das estruturas orgânicas, desnecessários confrontos políticos e a prioridades não respeitadas que terminaram em uma dramática e constrangedora situação financeira. Tudo isso é verdade, mas mesmo assim, com a presença e residência permanente de um Ministro e, mais tarde, de um Representante, com a presença de um big-brother, pergunto, uma vez mais, para que serviu e serve aquela figura? Evitaram-se os exageros, não; evitaram-se os “negócios”, alguns ruinosos, não; evitaram-se desvios na vivência e convivência democráticas, também não. Não serviu para nada. E se a História nos alerta, quarenta anos depois, que o seu papel, o papel de alegado elo de ligação com a República é nulo ou perfeitamente dispensável, entre outros aspectos, no quadro da verificação da constitucionalidade dos diplomas produzidos na Assembleia da Madeira, então é sensato, deduzo eu, que se questione e coloque um ponto final à sua existência. 
Está aqui em causa a palavra Autonomia e em síntese, aqui chegados, das duas, uma: ou a Autonomia é levada a sério, com responsabilidade, por parte de todos os parceiros e interventores políticos ou o próprio sentido autonómico ficará sempre em causa. A Autonomia não necessita de “olheiros” residentes ou de pretensos fiscalizadores da acção legislativa e governativa. Não precisa de alguém, escudado em um palácio, que leia a comunicação social, o Diário das Sessões da Assembleia, receba os representantes dos partidos e todo o associativismo e, finalmente, produza relatórios para conhecimento do Senhor Presidente da República. Não precisa de uma figura que, mesmo no quadro das instituições locais da responsabilidade da República, funcione ao jeito timex, passe a publicidade, que não adianta nem atrasa. Tudo o que depende da República e dos seus Órgãos de Soberania continua, genericamente, na mesma. Não precisa, enquanto Região Autónoma, com Estatuto Político-Administrativo próprio, de alguém que nos controle ou que tenha como missão receber umas pessoas ou, protocolarmente, aparecer aqui ou ali. Precisamos, isso sim, de governos que respeitem e que sejam respeitados, que não se atropelem, que não se ofendam, que não se olhem de forma enviesada, governos sérios e honestos, para que ela, a Região, como sublinhei, “se governe por si mesma, sem tutela de governos que nem sempre estão a par das necessidades” e das prioridades. Até para a República, independentemente do presidente ou do governo em exercício, é deselegante porque traduz uma imagem de manifesta desconfiança e porque traduz aquilo que li em Licínio Lima, embora em um outro contexto: “sejam autónomos naquilo que já decidimos por vós”.
Defendo uma Autonomia com responsabilidade e intransigente rigor o que me leva a defender a existência futura de um país e três sistemas. Não deixamos de ser portugueses pelo facto de procurarmos caminhos diferentes para um mesmo desígnio nacional. Há sectores, áreas e domínios da governação que implicam, óbvia e necessariamente, uma interligação assumida com bom senso. Mas do que não precisamos, de todo, é de uma subordinação a orientações heterónomas que coarctam a nossa capacidade de construirmos uma terra com identidade própria. É na diferença que Portugal se afirmará e não pela via de uma ridícula centralização, por mais subtil que seja.
Finalmente, percorro a Lei Fundamental e o Estatuto do Representante e em nenhum artigo, salvo melhor e mais abalizada opinião, deduzo da sua inquestionável necessidade. Mesmo considerando o actual quadro constitucional, para todas as atribuições do Representante, umas deveriam ser completamente ignoradas, para outras existe alternativa. Por outro lado, não entro no comezinho de saber quanto custa, anualmente, a existência e manutenção dos gabinetes do Representante. Isso parece-me de somenos importância, muito embora, em tempo de sérios constrangimentos, pudesse constituir um sinal de respeito para todos os contribuintes. Para já, fundamental, repito, como olhou o arguente para o candidato, é pegar na instituição, levantá-la e questionar: “para que serve isto?”. E assim regresso a Pestana Reis: “A Madeira precisa de ser pela segunda vez descoberta”. Eu diria, redescoberta no processo autonómico e redescoberta a partir da práxis política. Uma e outra conjugam-se, interligam-se, possibilitam uma argamassa feita de confiança, entre poderes e oposições, e de respeito mútuo no quadro da mesma bandeira. Esse é o grande desafio que não passa, apenas, por uma revisão constitucional, mas por uma política superior, uma mentalidade superior, alicerçada na inteligência e no bom senso. 
Há muito trabalho a ser realizado, até na mudança de mentalidade, de governantes e de governados, antes de uma próxima e desejável revisão constitucional que, entre outras, pondere e reveja todo o “regime político-administrativo da Região”, a sua estrutura orgânica porque não faz sentido que aqui tenhamos um país institucional dentro do país, quando a Região tem menos população que, por exemplo, o concelho de Sintra. Há que repensar as matérias, dificilmente entendidas como “reserva absoluta de competência legislativa” da Assembleia da República, tudo sem dramatismos, sem olhares pesados, desconfiados e sem mãozinhas protectoras. É difícil, eu sei, mas é o caminho. Não é com contas de “deve e haver” dos últimos quinhentos anos que lá se chega, mas com convicção bi-lateral, muita negociação, força e firmeza de todas as partes. Não somos, nunca fomos e não existem povos superiores, mas precisamos, desde há muito, de uma política superior. Resolvido este princípio orientador, pergunto, o que restará à instituição Representante da República? Rigorosamente nada. 
Obrigado.
NOTA
Intervenção, da minha autoria, apresentada, esta manhã, no debate sobre a Reforma do Sistema Político - O Representante da República, organizado pelo Gabinete Estratégico do PS-Madeira.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

SISTEMA REGIONAL DE SAÚDE. QUE PORCA POLÍTICA ESTA!


Não segui o debate, daí que me socorra da peça jornalística do DN. No decorrer do debate sobre Saúde, a deputada do PSD, Vânia de Jesus, olhou, apontou e disparou contra toda a política do Sistema Regional de Saúde até à chegada do governo liderado pelo Dr. Miguel Albuquerque: quando o actual governo tomou posse, há um ano, a situação era de quase caos. Falta de medicamentos, de pessoal, organização deficiente, insatisfação dos profissionais de saúde, grande dívida do SESARAM e pressão dos credores, foi a radiografia apresentada. Disse a verdade que, aliás, permanece em crescendo, passado um ano de governação. Só que a verdade da deputada cruza-se com uma claríssima falta de vergonha e de pudor, quando, por um lado, foi a mesma família política que liderou o processo nos últimos 40 anos e, por outro, naquela mesma Assembleia Legislativa, o sistema regional de saúde foi sempre trazido à colação como o melhor de Portugal, com rasgados elogios em contraponto às análises de todos os partidos da oposição. Que porca política esta!


Obviamente que picado pela falta de solidariedade política, o anterior secretário, Dr. Francisco Jardim Ramos veio a terreiro chamando-a de "renovadinha" e de pretender "escamotear o falhanço completo que a renovação tem constituído no campo da saúde, através da sofismável crítica ao sistema de saúde que vigorou até aí, obnubilando que se tratou do mesmo partido que suportava o Governo de então e cuja memória histórica e luta em prol da população da Madeira devia honrar" (...) que o que Jardinismo "deixou à Região e à sua população foi um sistema de saúde modelar e amplamente elogiado, quer no país, quer no estrangeiro" (...) que o "resultado está à vista. Uma completa ausência de estratégia política e uma total desorganização funcional ditadas por razões meramente economicistas e orçamentais e por uma inversão de valores de organização, onde os conselhos de administração mandam mais que os secretários e onde falta sobretudo o rumo e o norte político".
Enfim, ontem, foi um fartote de palavras como há quarenta anos não se via por estas bandas, espelhando um sério mal-estar nas hostes social-democratas, entre pessoas que negam o seu passado de apoio incondicional e a nova lógica de funcionamento onde parece tudo prevalecer para garantia dos lugares que ocupam e do poder que almejam. Que porca política esta!
Ai se isto se passasse com um partido da oposição? Tenho memória e lembro-me do passado de destruição dos partidos de oposição quando algumas desinteligências internas aconteciam. Os leitores que por aqui passarem que façam as suas leituras.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

PROFESSOR É A ÚNICA PROFISSÃO EM QUE O ESTÁGIO É FEITO ANTES DE TIRAR O CURSO. FAZEM 12 ANOS A OUVIR AULAS, ENTRAM NA FACULDADE, OUVEM AULAS E VÃO DAR AULAS"


"(...) Mais exames não vão melhorar o sistema porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. Mais exames para quê? Os exames não avaliam nada. (...) Injeta-se nas escolas áreas que não faz sentido algum. Por exemplo, criar uma aula de área de projeto? Projeto é o projeto da escola, é o projeto educativo. Educação para a cidadania? Nós não ensinamos para a cidadania, nós educamos na cidadania. Cidadania não é uma hora por semana, é todo o tempo de escola. Andamos a brincar com coisas sérias. Está tudo errado. 


(...) A reprovação é a prova de que realmente a escola não funciona como deveria. Muitas vezes se diz que os professores são exigentes quando reprovam. A pergunta que eu faço é: se a escola melhor é a que mais alunos reprova, o melhor hospital é o que mais doentes mata? Quando as pessoas nem sequer refletem sobre isso… Quanto às classes de apoio, planos de recuperação, isso é tudo um enfeite que não resulta, porque aquilo que não se ensina em oito meses, não é em um mês de plano com mais do mesmo que se vai ensinar. Não é com mais horas de aula que se vai ensinar mais, é com outro tipo de aprendizagem".
NOTA
Excertos de uma entrevista ao Professor José Pacheco, conduzida pela jornalista Marlene Carriço, que pode ser lida AQUI

terça-feira, 12 de abril de 2016

HOJE VOU ENTRAR EM CONTRADIÇÃO COMIGO MESMO


Poucas palavras para não desvirtuar o título. E também para fazer esse higiénico mergulho, difícil e necessário, dentro do cérebro até tocar o nosso consciente latente activo - se é que o podemos localizar – e aí conquistarmos o espaço do pensamento livre. Descodificando o preâmbulo, refiro-me à tumultuosa agitação das ondas comunicacionais que, à superfície, gravitam em nosso redor e nos estrangulam sem darmos por isso. Nunca foi tão activa, obsessiva e opressiva a informação que, de fora, bombardeia olhos, orelhas e neurónios. E com tal subtileza que nem chegamos a levar as mãos à cabeça para abrigá-la de tamanho furacão. Pelo contrário. A pretexto de actualização de dados, somos nós que lhe franqueamos as portas e as janelas. E se ela não vem à hora certa (que é toda a hora) lá vamos a correr atrás da gritaria, nos jornais, nas TV’s, nas rádios, nos face’s, até mesmo na bisbilhotice caseira dos comentadores de cordel. Recordando o hino da extinta (em 1974) Mocidade Portuguesa do regime fascista que formatou na escola da ditadura os jovens de então, nossos pais e avós, também cantamos de braços abertos: “Lá vamos cantando e rindo, levados – levados, sim”.


Permitam-me este desabafo, mas (à maneira de F.Pessoa “trago a cabeça doente de sonhos”) apetece dizer: trago a cabeça doente, escaqueirada de informações. Não sei se convosco o mesmo se passa, mas caio em mim, mergulho no oceano fundo de mim próprio e pergunto: Ainda não te saturaste desse turbilhão em fúria que ronda à tua volta? Bebeste a informação, sim, mas provaste-a suficientemente nas papilas do pensamento crítico? Seleccionaste-a, saboreaste-a, interiorizaste-a naquilo que de verdadeiro e útil te pode enriquecer?
Na praça pública da informação somos, tantas vezes, taxistas de serviço gratuito à espera do primeiro cliente que se nos atira porta adentro sem controlo nem critério. E sem ferir susceptibilidades, chego ao extremo de nos compararmos a vazadouros públicos que aceitam indiscriminadamente todo o lixo que os donos da comunicação entendem despejar em cima do nosso consciente. Que ridícula atracção esta de apanha-bolas em que muita gente se torna no estádio do quotidiano. São os “spots” publicitários, são as subreptícias campanhas políticas, as encenações pseudo-religiosas, os ataques bombistas, os milionáriosoffshores, erotismos mórbidos, enfadonhos comentadores dos futebóis, já sem falar nos escândalos apetitosos aos paladares podridos – tudo nos chutam à cara e nós, bobos da feira, aceitamos e até agradecemos. “Lá vamos… levados, levados sim”.
Sem dúvida, precisamos de estar vigilantes, nada de humano nos deve ser alheio, já nos educava Aristóteles. Mas, como de água para a nossa sede, precisamos de liberdade interior para avaliarmos da química das fontes. Conforme o filósofo francês Michel de Montaigne (1533), não basta uma cabeça abundantemente mobilada; preciso é ter une tête bien rangée, uma cabeça bem arrumada. 
Perdoem-me este expirar nocturno de um estado de alma. Mas acho-o necessário ao equilíbrio neuro-vegetativo do ser humano e ao verdadeiro espírito da cultura. Assistimos hoje àquele paradoxo que o jornal El Paístitulava assim: “A solidão, epidemia da era da comunicação”, em comentário ao livro The Lonely City, da escritora britânica Olivia Laing. E justifica: ”Neste mundo hiperconectado, grande parte da população sente-se só e isolada. Estar presente a todas as horas nas redes sociais, recebendo uma maré cheia de informação permite disfarçar um sentimento real de desamparo que o mundo virtual paradoxalmente acentua”. 
É um tónico que a nossa saúde física e mental não dispensa: mergulhar para dentro de nós mesmos. E aí descobrir tesouros desde sempre escondidos.
Tudo certo. Mas, afinal, feitas bem as contas, acabo por entrar em rotunda contradição. Pela lógica que descrevo, eu não tenho sequer o direito de sobrecarregar os meus amigos nos dias ímpares com este SENSO&CONSENSO...
11.Abr.16
Martins Júnior
NOTA
Artigo publicado no blogue Senso&Consenso assinado pelo Padre Martins Júnior

segunda-feira, 11 de abril de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - ANTES DE FALAR, POR FAVOR, PENSE!


Há governantes que, em um outro espaço territorial, já não o seriam. Porque a Educação é mais escrutinada. Há quem tenha competência para exercer a docência e bem, mas por aí ficar, porque ser governante implica muito mais que o conhecimento específico e científico de uma determinada área. A contrária também é verdadeira: há quem, embora com conhecimento, por razões várias, não se ajeite à função docente, porém, enquanto gestor denuncie visão dos problemas e acrescentada capacidade de mobilização e concretização dos projectos. Perguntará o leitor, mas a que propósito vem este texto? Pois, é que li mais uma daquelas declarações do secretário da Educação da Madeira e fiquei na mesma. Ou não fiquei! Disse: "(...) aquilo que devemos ter presente são as nossas opções em termos de futuro e não as condições que são oferecidas (…)".


Ora, às dificuldades enunciadas e bem pelo presidente do Conselho Executivo da Escola Francisco Barreto, na Fajã de Ovelha, que, segundo o DN, criticou "as reformas do sector educativo e as políticas de natalidade e de emprego existentes", respondeu o secretário com uma posição de certa forma enigmática e de interpretação contraditória. Pergunto, a construção do futuro colectivo não dependerá das "condições que são oferecidas", as de natureza geral e as específicas? É óbvio que sim. Mas podemos ir mais longe, questionando, ainda: quais são as opções portadoras de futuro que o secretário defende? Alguém as conhecerá? Existirá algum plano integrado, envolvendo vários sectores, a partir do qual se possa concluir que, a prazo, os resultados serão diferentes dos de hoje? Eu que sigo a política educativa não vejo moita de onde saia coelho! Um ano de governação e a estrutura do pensamento político mantém-se. "Tudo como dantes, no quartel general em Abrantes" pode ser o aforismo que melhor caracteriza a situação da política educativa na Madeira.
Seria compreensível que o secretário sobrevalorizasse as opções em termos de futuro ao mesmo tempo que pedisse paciência para as circunstâncias, leia-se constrangimentos, do presente, sejam quais forem, mas para isso tinha de ser conhecido o caminho escolhido pelo governo na construção desse futuro. E isso não só não é conhecido, como pelo andar da carruagem durante o último ano, facilmente se depreende que a repetição do passado é preferível a qualquer paulatina mudança. É pena, porque continuam a brincar com o sector educativo. 
Nota
Ler texto do DN neste endereço: 
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/580159/madeira/580187-faja-de-ovelha-lanca-criticas-a-educacao
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de abril de 2016

"GOVERNO DE ANGOLA COMBATE OS POBRES, NÃO A POBREZA"


Rafael Marques, jornalista angolano e considerado activista dos direitos humanos, concedeu uma entrevista à jornalista Sandra Cardoso (DN-Madeira) na qual escalpeliza a situação política angolana. Um texto para ler e, a partir das suas declarações, mergulhar no inferno dos interesses de uma clique angolana que luta pela sua riqueza enquanto o povo definha. Não conheço em toda a sua extensão a pouca-vergonha da governação angolana, mas há muitos e muitos anos que transporto o sentimento de uma ditadura disfarçada.    


Pergunta a jornalista: "Li recentemente uma reportagem sua na morgue de um hospital em Luanda, onde dava conta de uma mortalidade assustadora. A situação social no país degradou-se em relação ao ano passado, por exemplo? Rafael Marques: "Um jornal dava conta de 500 enterros nos cemitérios de Luanda só num dia, eu passei cinco horas e vi 235 corpos a sair da principal morgue de Luanda. Temos neste momento mais mortes do que no Afeganistão, no Iraque e na Síria por dia. Estamos a voltar aos tempos da guerra, que foi muito violenta. Depois de 14 anos de paz e depois de Angola ser projectada como a economia que mais crescia no Mundo durante seis anos, temos uma catástrofe humana. O problema não é para quem vem gastar o dinheiro nas lojas da Avenida da Liberdade, é para pessoas sem acesso a tratamento básico para a malária.
O país precisa mais de ajuda humanitária para acudir à emergência do que monetária? Como se pode dar ajuda humanitária a um país onde o Governo negligencia o seu povo, abandona-o. Tem de haver reformas profundas e aqueles que são responsáveis pela situação têm de ser responsabilizados criminalmente. Sou contra este empréstimo do FMI, que só vem dar legitimidade ao poder. Todos os que vieram esconder o dinheiro em Portugal é que deviam estar a fazer o resgate. O dinheiro é para os angolanos pagarem enquanto quem guardou aqui o dinheiro, um dia vem para Portugal como se nada fosse, como se fossem gente de bem (...)".
Enquanto isto acontece, li, recentemente, no "Negócios" que Isabel dos Santos (filha do Presidente Eduardo dos Santos) ocupa a 408ª posição na lista dos mais ricos do mundo, compilada pela Forbes, este ano. (...) Isabel dos Santos surgiu, pela primeira vez, na lista dos mais ricos do mundo da Forbes em 2013, ocupando a 736ª posição. Doze meses passados e a empresária passou a ocupar a 408ª posição, com uma fortuna avaliada em 3,7 mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros), 1,7 mil milhões de dólares a mais do que no ano passado".
Como é que isto é possível em um país com assimetrias tão evidentes? Percebe-se! 
De uma edição do Jornal de Notícias, de 2013, reproduzo: "(...) Filha do presidente angolano José Eduardo dos Santos, a história de Isabel é considerada "uma janela rara para a mesma e trágica narrativa cleptocrática que estrangula os países ricos em recursos em todo o mundo".
Ilustração: Google Imagens.