sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Associação Santana Cidade Solitária - Um sentido desabafo!


Anteontem tive um dia de fortíssima emoção. Pela primeira vez, a Luísa, minha irmã, comemorou o seu aniversário natalício (87º) no Lar da Associação Santana Cidade Solitária. Circunstâncias da minha vida, que me levaram a viver no Porto durante o último ano e meio, aliadas ao agravamento do estado cognitivo, auditivo, visual que condicionaram a sua autonomia, fizeram com que não restasse outra alternativa. E ontem senti, bem fundo, pelas circunstâncias, o que é a prática da solidariedade e o que é, mesmo que profissionalmente, dar-se aos outros. Aliás, sempre que entro naquela porta, um sentimento perpassa por mim: que ali tudo é feito para que a palavra solidão fique nas margens, porque os que lá trabalham, a todo o momento, espalham amor, mimos, compreensão, tolerância, distribuem sorrisos e tratam as pessoas sem infantilizações absurdas. Tratam-nas como pessoas seniores, respeitando as diferenças, dando quase a entender que elas fazem parte das suas famílias.

A emoção tomou conta de mim, confesso, porque os anos passam, a vida é finita e eu, tal como todos nós, estou na fila de espera pelo momento de uma qualquer opção. É difícil a previsão do amanhã. Gostaria de não dar maçada a ninguém e de ser tratado com a dignidade que ali se respira. 
Faz-me muito mal sentir que existe um mundo cruel, desequilibrado, de múltiplos sofrimentos, um mundo que descarta homens e mulheres, que as esmaga com salários baixos, depois, com pensões de miséria, em contraponto com a ganância do ter, tornando-os números da sofisticada engrenagem económica e financeira, que não respeita prioridades; mas também é bom e faz-me sentir feliz quando dou conta que existe gente boa, estruturalmente bem formada, que sabe olhar para os outros e que vive os seus dramas. Eu sei que há muitos, profissionais e voluntários, que, de forma anónima, se distribuem por tantas instituições, facultando-lhes alma e atenuando dores sem fim. Bem hajam!

Não conheço a vida, vivência e convivência de outros espaços congéneres. Circunscrevo-me ao que assisto no Lar da Associação Santana Cidade Solidária. Às vezes afasto-me um pouco e fico a vaguear o olhar por todo o espaço, quase residente a residente. Reflicto sobre as suas possíveis histórias, na dureza que terá marcado as suas vidas, nas crónicas debilidades físicas, cognitivas e outras, no desenraizamento dos espaços, dos familiares e vizinhos, outrora vividos e sentidos, até nas rotinas da instituição, serena e tendencialmente sempre iguais. Passeio o meu olhar pelas dezenas de colaboradores da instituição, todos ali animados em servir e proporcionar bem-estar e conforto. Fico a pensar no apaixonado esforço dos seus dirigentes, no estica estica entre as receitas e as despesas, no corre corre atrás de qualquer coisa que acomode encargos sem fim. 

Os residentes contribuem, mensalmente, com a sua pensão, mas ficam, ainda, com € 35,00 em cofre para despesas pessoais. Usufruem de seis refeições diárias e da excelência de um quarto com casa de banho privativa, para além do apoio na higiene diária. Também passeiam, fazem visitas e, por vezes, almoçam em um restaurante. E os dirigentes conseguem, colmatando um Estado muito parco nas responsabilidades constitucionais que lhe incumbe na defesa dos muitos outonos de vida! A Segurança Social, que é Nacional, um dos pilares da democracia, deveria manifestar um outro olhar e presença efectiva. O dinheiro é necessário, ele existe, porém, esvai-se em tantas opções não prioritárias. Sabemos bem.
Só mais um dado complementar e que me impressiona: aquela associação não circunscreve a sua actividade ao lar de idosos. Este é, apenas, uma valência que acopla o centro de dia. Por isso, deixa-me curvado perante tantas e significativas funções que passam pela loja social, a lavandaria social, as dezenas de refeições entregues, diariamente, no domicílio, para pessoas em dificuldade, as consultas externas, o pólo de emprego, a formação, eu sei lá até onde vão! Até se responsabilizam pela vinda ao Funchal para uma qualquer consulta externa.
É esta doação à causa dos e pelos outros que me enche em um turbilhão de emoções. Aquela festa de aniversário, com mais de cinquenta convivas, entre residentes e centro de dia, foi, com toda a certeza, apesar das circunstâncias, a melhor, porque mais emotiva, de todas ao longo da vida da Luísa.
Que gente boa! Obrigado.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A ECONOMIA DA MADEIRA CRESCE HÁ 73 MESES CONSECUTIVOS! PARA QUEM?


FACTO

Li no CM:
"Maioria dos madeirenses declara rendimentos abaixo dos € 10.000,00 - Rendimento bruto declarado em 2017, atingiu os 1.9 milhões (...) há 33.170 contribuintes entre os rendimentos mais baixos (menos de € 5.000,00 (...) A Madeira é a terceira região mais desigual, isto é, o rendimento dos 20% mais ricos é 3,1 vezes superior ao dos 20% mais pobres".

COMENTÁRIO

Por que será?
Significam os números que se vive em uma Região "rica" mas cheia de "pobres"?
Há muito que a "pobreza foi inaugurada"!

Ilustração: Google Imagens/JM

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Chicão: a retórica “sexy” do “carro vassoura da mudança


Por
Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 
27/01/2020

A melhor forma de saber quem é Francisco Rodrigues dos Santos é ouvir o que dizia antes de ser candidato à liderança do CDS. E não é preciso recuar muito. Apesar de ser evidente que já era essa a sua ambição, ainda há um ano garantia que não estava no seu horizonte próximo o que aconteceu este domingo. Dizia que não tinha pressa. Entrevistei-o para o meu podcast há cerca de um ano. Tenho de dizer que ia com boas referências e fiquei surpreendido. Encontrei um gerador automático de citações, que pode impressionar pessoas com poucas leituras mas não revelou um conservador sólido. O problema não é ser demasiado jovem. Paulo Portas também o era. É ser demasiado jovem e estar muitíssimo longe de ser Paulo Portas.

 
Francisco Rodrigues dos Santos é aquele tipo de políticos que é muito eficaz a falar para dentro da sua própria bolha. Sempre que vocifera contra a direita “apaixonada pela esquerda” anima a cultura tribal e gregária da militância, dando uma ilusão de força que dificilmente funciona para fora. Nem mesmo neste tempo em que cavar trincheiras parece ser a única forma que sobra de fazer política. A enorme vaia a António Pires de Lima, comum em partidos que se enfiam na sua autossuficiência, é o retrato daquilo de que se alimenta o jovem e impreparado Chicão. Cultura que ele alimenta, mesmo que por uns tempos vá fazer a rábula da união de um partido que se adapta sempre aos seus líderes.
Mas a grande acusação que Francisco Rodrigues dos Santos tem a fazer ao seu próprio campo político é a de se ter transformado no “carro vassoura da mudança”. Para lá da retórica e do permanente apelo ao sectarismo identitário, o que fará Chicão para que isso deixe de acontecer? Baseio-me na entrevista que lhe fiz e que, recordo, tem apenas um ano.

Na economia, apesar de ensaiar uma música contra o neoliberalismo, defende o que o CDS sempre defendeu. Com exceção da defesa do Salário Mínimo Nacional, no que diverge de uma posição pontual da Juventude Popular que nunca foi acompanhada pelo partido, é defensor de leis laborais mais flexíveis, da entrada do ensino privado na rede pública que garante o ensino gratuito e até vê com bons olhos uma taxa plana de IRS que baixe radicalmente os impostos para os mais ricos, o que nunca poderia deixar de ter um efeito no Estado Social. Nesta matéria, nada o distingue das posições políticas dos seus adversário internos e do resto da direita. É até mais liberal do que Assunção Cristas e não menos do que Adolfo Mesquita Nunes.

Quando se chega à Europa, Francisco Rodrigues dos Santos volta ao mesmo artifício. A sua retórica é crítica do federalismo, sempre carregada de cores fortes e muitos adjetivos barrocos. Mas quando se vai ao concreto, define-se como uma terceira via entre o federalismo de Lucas Pires e o euroceticismo de Manuel Monteiro. Bem espremido, a posição exata do CDS de há muito tempo.
Chegado à ética política, é forte a falar do clientelismo. Mas, quando confrontado com o cadastro do seu partido, defende-o. Nem o caso da nomeação de Celeste Cardona para a Caixa Geral de Depósitos, totalmente deslocada para o seu currículo, foi capaz de criticar. Os grandes é que pecaram e os militantes do CDS colocados em lugares do Estado distinguiram-se pelo mérito. Nada de novo, portanto. Clientelismo mau é o dos outros.
Mas o mais importante é mesmo aquilo a que chamamos costumes. Até porque Francisco Rodrigues dos Santos recusa que o que separa a esquerda e a direita se resuma à “balança que mede o peso do Estado na economia, a mais ou menos impostos ou meramente numa folha de excel”. Quando olhamos para o embrulho ficamos assustados. As expressões que usa são fortes. A começar na utilização do termo “ideologia de género”, popularizado pelos sectores ultraconservadores e de extrema-direita e que, na entrevista que lhe fiz, percebi que ele julgava ser uma autodefinição da própria esquerda.

Não se entusiasmem, no entanto, os ultraconservadores. Mais uma vez, Chicão compra o verbo, não o ato. É contra o aborto mas não tem qualquer intenção de mudar a lei que o despenalizou. Porque é um conservador e as coisas estão bem como estão. É contra a instituição legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo mas não pretende alterar uma vírgula na lei vigente. E até defende a descriminalização do consumo de droga, a que o CDS se opôs.

Tirando esta exceção, Francisco Rodrigues dos Santos é muito firme na condenação do que se fez mas totalmente demissionário na possibilidade de o desfazer. Sobretudo nas questões de costumes, que aparentemente o diferenciariam das correntes mais liberais do partido (na economia são totalmente confluentes). Discorda de Adolfo Mesquita Nunes em muitas coisas mas, aparentemente, isso não terá qualquer consequência prática, porque não vale a pena tocar no que já mudou. Está resolvido, disse. O que quer dizer que a expressão “carro vassoura da mudança” lhe assenta como uma luva. Mais a ele do que a outros: pelo menos os liberais do CDS concordam com aquilo que não querem mudar e querem mudar aquilo de que discordam.

“Não seremos políticos que aparentam uma grande firmeza nas suas palavras e revelam uma imensa fraqueza quando têm de enfrentar as consequências dessas mesmas palavras”, disse o novo líder do CDS no seu discurso de Aveiro. Foi isso mesmo que encontrei na entrevista que lhe fiz. Da crítica à moleza dos seus opositores internos, tudo se lhe aplica. Sobra a retórica que os congressistas terão achado “sexy". E até o discurso conservador meteu na gaveta quando sentiu que isso lhe poderia retirar votos no congresso.

E porque é assim o novo líder do CDS? Porque Chicão é daqueles políticos que prefere apanhar o ar que se respira em cada tempo em vez de ser ele a definir esse tempo. E o ar do tempo, na direita, faz-se de uma retórica cada vez mais forçadamente radicalizada para travar uma extrema-direita que assim se vê legitimada. Mas o novo líder do CDS, apesar dos tons contrastantes do seu discurso, não tem um rumo estratégico para o CDS. Apenas aproveitou uma profunda crise do partido, repetiu as frases da moda no seu campo político e nem sabe ao certo como ser consequente com elas. O discurso conservador de Chicão é como o discurso revolucionário do PCP: não vale nada para além da estética. Como se percebeu no seu discurso inaugural, o vazio de novidades programáticas para o país é preenchido por chavões e decibéis que simulem uma mudança gritada.
O extremismo retórico de Chicão tem, no entanto, consequências. A facilidade com que abre a porta à proximidade a fenómenos como Bolsonaro, tratando-o como “desbocado” mas “desempoeirado” (ouvir mesma entrevista), e a dificuldade que tem de se distanciar de figuras como Salvini, denuncia até onde pode ir o seu oportunismo político. O objetivo é óbvio: vir a combater o crescimento político do Chega. Chicão partilha com Ventura algum radicalismo discursivo, com diferenças que não desprezo. Mas, acima de tudo, partilha uma enorme facilidade em radicalizar o discurso muito para além das suas convicções profundas, como fica evidente quando se tenta espremer qualquer consequência das suas posições. Só que tem, sobre o seu novo concorrente, uma enorme dificuldade: carrega um partido com contradições e uma história que o impedem de ser consequente. É verdade que o CDS é plástico. Tende a moldar-se às novas lideranças e isso explica a forma como é ciclicamente abandonado por camadas de pessoal político. Mas, ainda assim, há uma tradição que dá ao CDS um peso que não lhe permitirá ser um Chega soft.
Mal sai do discurso sem contraditório para animar uma sala de indefetíveis, Chicão é uma imitação frágil do que já existe, cheia de adversativas confusas e posições de princípio inconsequentes, que não servirão para travar nada. Quanto muito, servem para segurar o pouquíssimo que resta ao CDS e que esteve neste congresso, totalmente alheado do resto do país. Serve para o CDS se acantonar numa identidade que nunca foi a sua. De resto, sobra a personalidade de um líder sem currículo, sem consistência e sem palco no Parlamento. E com uma direção que junta o refugo não utilizado por Portas, o regresso dos mortos vivos de Monteiro e as viúvas de Ribeiro e Castro. Tudo em versão estagiária.
A sua eleição revela um CDS impressionável com jogos pirotécnicos, abandonado por aqueles que lhe davam massa crítica e desesperadamente à procura de um buraco onde se sinta confortavelmente pequeno. Um buraco que, ainda por cima, já está ocupado.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Credibilidade ao nível do chão


Análise da semana em Dnotícias
26 JAN 2020 

1.A semana foi fértil em acontecimentos políticos. A maioria por motivos que não enobrecem a causa pública. Vejamos.


Aquele que deveria ser sido um dos momentos altos da actividade parlamentar e governativa ficou marcado, logo no arranque, por uma revelação que só deveria ter sido feita – a ser verdadeira – em situação excepcional e para defesa da honra. 

Trazer conversas privadas, sejam elas quais forem, para a arena política é descer ao nível torpe e mesquinho. Revela muito sobre quem o faz. Inquinar o debate do Orçamento para 2020 com uma conversa, que um jura ter acontecido e o outro desmente, só serviu para alimentar o circo político que tão maus resultados tem gerado na mobilização eleitoral. 

No episódio que opôs Lopes da Fonseca a Paulo Cafôfo os dois ficaram francamente mal no retrato. O primeiro pelos motivos atrás referidos. O segundo porque demorou 24 horas a dar explicações sobre uma questão levantada por um deputado no plenário. Por que razão demorou a responder? E porque o fez fora do hemiciclo? Se Lopes da Fonseca mentiu por que motivo não foi desmascarado de imediato, à frente de todos, na sede própria? Nem que fosse para defender a honra aquele que vai ser o próximo líder dos socialistas madeirenses tinha a obrigação de ter esclarecido, ali, a inadvertida revelação. Erro de palmatória de Paulo Cafôfo ou, então, chegou mesmo a sugerir um mega governo, com envergadura suficiente para albergar as clientelas do PS e do CDS... Este episódio foi indigno do parlamento, numa semana em que ficámos a saber que o Governo Regional já fez mais de 250 nomeações políticas, em apenas três meses. E há mais na forja. Ainda existem militantes à espera de uma colocação. Mesmo para os que continuam a lidar mal com a liberdade de expressão, os números não mentem e revelam que uma das prioridades desta coligação é disponibilizar jobs for the boys. Ou haverá algum lugar da administração pública ocupado por um não militante social-democrata ou centrista?

2. Se o CDS quisesse ter realmente uma voz preponderante na saúde teria indicado logo Mário Pereira para titular da pasta, fazendo depender a viabilização de um acordo de governo a essa condição. Tal como aconteceu com a presidência do parlamento. Seria o mais natural, sabendo que o sector fora eleito como uma das bandeiras políticas do partido nas anteriores legislaturas, com as ideias e propostas do agora director clínico a servirem de base programática. Isso não aconteceu e no meio do turbilhão de nomeações atabalhoadas, a médica Filomena Gonçalves foi obliterada pelo sistema, desnecessariamente.

Será interessante ver, agora, a coabitação de Mário Pereira com Pedro Ramos, com quem tantas divergências teve num passado recente. A escolha do primeiro não foi uma decisão do segundo. Foi-lhe imposta pelo presidente do Governo, após um encontro com o líder do CDS, “agastado” por não ter os seus ‘boys’ instalados no Serviço de Saúde.

Veremos o que vai mudar na saúde e se o médico ortopedista vai pôr em marcha a sua estratégia, mesmo que ela colida com a vontade de Pedro Ramos e de todos os “poderes instalados” no hospital, como advertiu há não muito tempo. A coesão funcional e política desta coligação passa por aqui.
P.S.: Pedro Ramos desmentiu, no debate do Orçamento da Região, os números revelados pelo DIÁRIO sobre as cirurgias em lista de espera (21.400). Desafiado a revelar os verdadeiros dados oficiais, recuou e nada disse, porque sabe que, de facto, houve um aumento em relação ao ano anterior. Os doentes não são números, mas estes são determinantes para se aferir a dinâmica e o sucesso de políticas e serviços.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

NÃO DEVE SER VERDADE...


Guio-me, apenas, por factos e, desde logo, sublinho, que pouca relevância atribuo que seja este ou aquele "director clínico" no SESARAM. Esse é um assunto entre pares, de reconhecimento profissional e relacional, cuja esfera não domino, nem minimamente!

Mas porque defendo que com a Saúde não se brinca e talvez, por assim alguns não entenderem, o sistema, todos os dias, transmite a existência de um permanente jogo, eu diria, um péssimo "divertimento" de natureza partidária, há muito que me é preocupante que os assuntos deste importante sector tenham uma matriz marcadamente partidária. Uma coisa é discutir o programa de governo para a legislatura ou o orçamento e o plano anual, as opções políticas a que tais documentos se subordinam; outra, bem diferente, é a administração e gestão concreta, no seu dia-a-dia, onde a causa primeira é o utente do serviço regional. 
Neste pressuposto, o sistema não deveria pois ficar refém de jogos partidários, dependente da contabilidade dos votos, ao jeito de "tens a minha vénia política se me deres isto e aquilo". Porque, quando o utente passa a vítima dos interesses partidários, obviamente que o sistema, tendencialmente, entra em uma espiral de contra-sensos e de jogos de sombras de difícil retorno. Acaba sempre por transmitir a existência de uma intensa actividade de bastidores onde subsiste uma silenciosa engenharia de golpes e de contragolpes, com perdas de tempo para o que é essencial.
Vou ao facto: através de um extenso artigo que li, assinado pelo Dr. França Gomes, publicado na edição do DIÁRIO de 05 de Dezembro de 2019 - "E agora Mário Pereira?" - entretanto compaginado com os avanços e recuos de natureza partidária, no essencial, em redor de quem assume a direcção clínica do SESARAM, tal leva-me a dizer que a "brincadeira" está a ser levada longe demais. O mínimo que o Dr. França Gomes assumiu nesse texto foi: 

"(...) Não sei se farás parte da História e francamente borrifo-me nisso, mas penso que se isso acontecer, será do lado negro!". 

Esta posição, em um artigo todo ele frontal e duríssimo na esfera do relacionamento, poderia ou deveria conduzir ao recuo do Dr. Mário Pereira (ex-deputado do CDS) relativamente à sua indicação para líder da referida direcção clínica. Até porque não sei se o artigo em causa corresponde a uma posição isolada ou se ele traz no seu bojo um escudo de protecção de outras figuras do partido maioritário da coligação. Apenas achei estranho, por não ser normal, entre médicos, uma tão frontal e cáustica posição.
Mas não, pelo que foi tornado público, o Dr. Mário Pereira aceitou o lugar. Terá vencido a razão da força partidária ou a força da razão dos argumentos? Não sei. Só quem está por dentro poderá ter uma opinião mais próxima da realidade.
Parece-me, no entanto, conjugada toda a teia já tecida, que se poderá estar em presença de um inevitável ajuste de contas. Na política, diz-se, que a "vingança serve-se fria". Por um lado, a ideia política que resta é a de salvar as aparências de uma coligação muito frágil na desproporção entre forças que a integram; por outro, um contra-ataque ao jeito de "não perdes pela demora", onde nem será necessário escrever um artigo subordinado ao título "E agora França Gomes?".
Que fique claro que tenho com os dois um relacionamento muito cordial.
Ilustração: Google Imagens.

O dominó angolano ainda mal começou a cair


Por 
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
21/01/2020

O dominó começou a cair e nunca foi difícil adivinhar que viria o tempo. Durante quase quarenta anos à frente de Angola, o presidente José Eduardo dos Santos constituiu uma oligarquia que se alimentou fartamente dos recursos nacionais, mas o inevitável esgotamento do consulado, as contradições entre cleptocratas ou a pressão popular para a democracia acabaram por se impor. João Lourenço teve de afirmar o seu poder protegendo-se do clã Dos Santos, a desesperante falta de recursos em tempos de petróleo barato obrigou ao esforço de recuperação de capitais, o povo exigia medidas contra o saque e, assim, o dominó desabou. Mas, ao desfazer-se, desencadeou uma curiosa valsa de justificações em Portugal.

Com aquele gosto florentino que tem aprimorado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, falando de si próprio na terceira pessoa, na boa tradição literária de um treinador de futebol, explicou que “talvez agora se perceba melhor a insistência do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal - desde pelo menos dezembro de 2015 - de manter o melhor relacionamento possível com as autoridades angolanas; de manter o nível de relacionamento entre os dois Estados no mais alto dos patamares”. Maravilha da diplomacia, este “melhor relacionamento possível” foi estabelecido desde finais de 2015 mas não antes, ou seja, desde a nomeação do próprio, com a “autoridade angolana” do “mais alto dos patamares”, ou seja o próprio José Eduardo dos Santos, eventualmente na presunção futurista de que aquele seria substituído por alguém que o pusesse em causa. Nisto, o governante só peca por um menosprezo injusto pelos que estiveram nas Necessidades antes dele e que, aliás, fizeram exatamente o mesmo, o “melhor relacionamento possível” com esse “mais alto dos patamares”.
Esse “relacionamento” resume-se a uma guarda pretoriana que foi recrutada em Portugal para proteger os assaltantes de Angola. Os banqueiros (no BCP, no BPI), os empresários (Amorim primeiro que todos, depois a Sonae, José de Mello e tantos outros) e os governos multiplicaram-se em vénias para atrair esses capitais e as suas alianças. O Banco de Portugal fechou os olhos às investidas de personalidades “politicamente expostas” e, salvo ter evitado na 25ª hora que Isabel dos Santos viesse a ser administradora do BIC, não opôs qualquer reserva a nenhuma das suas outras funções nem sequer à compra em saldo deste último banco.
Assim, protegida por alguma imprensa que a apresentava como a rainha do glamour, por uma câmara municipal que oferecia ao marido a medalha de ouro da cidade a troco de uma inútil promessa de um museu, pelo deslumbramento dos políticos e pela ganância dos capitais, Isabel dos Santos instalou uma rede de conivências em Portugal, com que pretendeu abrir caminhos para o reconhecimento internacional.
É cruel lembrar, mas não deixa de ser verdade, que estas aplicações do dinheiro extorquido de Angola eram barradas noutros países europeus. Nada que demovesse um ex-presidente do PSD, ex-ministros de várias cores, um ex-governador do Banco de Portugal, um ex-deputado do PS e tantos outros de trabalharem para esta rede de interesses da constelação Dos Santos e, em particular, de Isabel. Ser pago em dinheiro angolano passou a ser uma das etiquetas de muita da elite portuguesa.

E tudo se sabia. Pepetela, que conhecia cada uma dos personagens desta clique, retratou-as em vários romances em que apresenta a sua desilusão e raiva contra a corrupção e o seu regime. Rafael Marques denunciou durante anos muitos destes esquemas, com dados detalhados. O livro que Jorge Costa, João Teixeira Lopes e eu publicámos em 2014, “Os Donos Angolanos de Portugal”, resumindo muito do que nos anos anteriores já tínhamos investigado e escrito sobre a cleptocracia luandense e os seus aliados portugueses, chegou a milhares de pessoas em Angola e por cá. Incluímos nomes e gráficos com as ligações das diversas empresas. Contamos a história e revelamos de onde vinha o dinheiro. O general Kangamba alegou o direito de resposta e respondeu-me na imprensa portuguesa, não era de menos o que dele contamos no livro, as investigações judiciais internacionais sobre redes de prostituição ou automóveis com malas de dinheiro a circular pela Europa.

O “Jornal de Angola” dedicou-nos editoriais e insultos. Luaty Beirão e os seus camaradas puseram todas as denúncias na rua. Como Rafael Marques, foram presos, enquanto no Parlamento português, confrontados com votos pela liberdade de imprensa e de opinião contra a repressão pelo regime de Luanda, o PS, o PSD, o CDS e o PCP alinhavam na recusa sobranceira, com José Eduardo dos Santos ninguém se mete.
Nos congressos do MPLA desfilava uma procissão de políticos portugueses a tecer loas ao cônsul. Mesmo sendo membro da Internacional Socialista e parceiro do PS, o partido do poder procurava aliados em quase todos os quadrantes. Em 2016, de 17 a 20 de agosto, em mais um congresso de consagração de Dos Santos (e no período em que o nosso atual ministro já cuidava do “melhor relacionamento possível” com o “mais alto dos patamares”), o PS fez-se representar pela secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, e pelo presidente, Carlos César, que enfaticamente brindou os anfitriões com um “o MPLA e o PS têm trilhado um caminho comum, um continuado diálogo político e uma colaboração concreta em áreas de interesse mútuo, incluindo no âmbito da nossa família política no seio da Internacional Socialista. Estou convencido que esse caminho de proximidade será cada vez mais produtivo e a nossa presença neste congresso e a nossa saudação neste congresso é justamente para aqui testemunhar a garantia desse caminho novo de proximidade, de afetividade, de colaboração e de luta comum”.
Diz o DN, que assistiu ao congresso, que César acrescentou que “o líder do MPLA e Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, é uma figura referencial da história angolana e da emancipação africana”. Helder Amaral, em nome do CDS (Paulo Portas estava também, mas como “convidado pessoal”, e não falou), explicou que o seu partido estaria mais próximo do MPLA, com “muitos mais pontos em comum”, desejando “fortalecer essa relação”. Dois vice-presidentes do PSD, Teresa Leal Coelho e Marco António Costa, abrilhantaram a cerimónia, bem como Rui Fernandes, membro da comissão política do PCP.
Pois é. O que ninguém pode agora dizer é que não se sabia de nada. Mais se vai descobrir, mas surpresa é que não será. Foi roubo e não foi o mordomo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Isabel dos Santos na “era das colónias”


Por
Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 
20/01/2020

Com Luanda Leaks, a investigação de um consórcio internacional de jornalismo que envolveu 36 meios de comunicação (entre os quais o Expresso e a SIC), com 120 jornalistas de 20 países, completa-se o cerco inevitável a Isabel dos Santos. Inevitável porque o poder mudou em Angola. Entre 1992 e 2019, Isabel dos Santos e o seu marido, Sindika Dokolo, tiveram participações em 423 empresas (e respetivas subsidiárias), das quais 155 eram portuguesas e 99 angolanas. Excluindo as subsidiárias, são 192 empresas, espalhadas por 25 países, de que Isabel dos Santos e Sindika Dokolo são ou foram acionistas. Não se constrói um império destas dimensões, espalhado pelo mundo, sozinha.


A primeira parte da investigação concentrou-se na forma como, pouco tempo antes de saber que iria ser destituída da presidência da Sonangol, cargo para o qual foi nomeada pelo seu pai, a mulher mais rica de África canalizou mais de cem milhões de dólares da petrolífera pública para o seu labirinto de empresas.
Não vou recontar aqui como enriqueceu Isabel dos Santos. Até porque o choque de muitos parece ignorar como nasce a maior parte das riquezas no advento do capitalismo em cada país. Das vilanias necessárias para construir novos ricos que, passadas algumas gerações, constituem respeitáveis famílias de negócios que acreditam no mito fundador da sua fortuna baseado no trabalho e no mérito. Deixo isso para outro texto. Agora fico-me pelo cinismo.
Como sabem, Isabel dos Santos começou a reforçar a sua posição em Portugal pela mão de Américo Amorim. Na construção do seu império por terras lusas, que passou por telecomunicações, banca, energia, mobilidade e quase todos os sectores fundamentais da nossa economia, contou com a colaboração ativa dos principais políticos e homens de negócios deste país. Na lavagem da sua imagem e do dinheiro que roubou aos angolanos contou com a participação de agências de comunicação portuguesas, jornalistas portugueses e principais escritórios de advogados portugueses. E é por isso que, à medida que as investigações forem avançando, todo o mundo continuará a tropeçar em nomes portugueses. Foi uma parte razoável da nossa elite a colaborar e a ajudar a silenciar denúncias.
Se era difícil não saber quem era e o que fazia Ricardo Salgado, com Isabel dos Santos qualquer tentativa de surpresa causará risota geral. Isabel dos Santos nunca foi dissimulada. Até porque, ao contrário de Salgado, o seu dinheiro era demasiado fresco para esconder o rasto. Todos sabiam de onde vinha. E quando digo todos não me refiro àqueles que com ela colaboraram ou podiam colaborar. Digo mesmo todos. Do empregado de café ao banqueiro. Quem, em Portugal, colaborou com o assalto organizado pela família dos Santos sabia o que fazia e até sabia que todos nós sabíamos o que fazia.
Onde isso é possível, porque a opinião pública pode ter sido surpreendida por esta história – que é a história da acumulação primitiva de capital em sociedades em transição para o capitalismo –, aqueles que antes partilhavam os corredores do poder com Isabel dos Santos vão dedicar-se ao costumeiro festival de cinismo. Já começou. A consultora PricewaterhouseCoopers (PwC) fez saber que vai deixar de trabalhar com empresas controladas pela família do ex-Presidente de Angola, anunciando uma investigação interna. E o Fórum de Davos desconvidou-a. Esperam-se mais comunicados indignados com o crime hediondo cometido por Isabel dos Santos: deixou-se apanhar.
Em Portugal, a coisa vai ser mais difícil. Foi tudo demasiado descarado, demasiado evidente, demasiado transparente. A cumplicidade com o assalto aos bens angolanos foi política de Estado, estratégia empresarial, quase um imperativo patriótico. De novo. O que me leva a sorrir quando leio um tweet em que Isabel dos Santos escreve que o preconceito perante a sua riqueza, nascida do seu “caráter”, “inteligência”, “educação”, “capacidade de trabalho” e “perseverança”, faz recordar “a era das colónias”. É possível que Isabel dos Santos não perceba que, com a sua ganância, é um simples peão do mais velho dos neocolonialismos. Mecanismo pelo qual o capitalismo internacional, com especial participação das antigas potências coloniais, encontra líderes corruptos locais para que eles continuem a transferir a riqueza de países com matérias primas abundantes para o exterior, perpetuando a pobreza dos seus povos e a exploração externa dos seus recursos.
Não, não estou a dizer que a culpa é nossa. Até porque o “nós” e “eles”, os angolanos e os portugueses, não têm aqui lugar. Isabel dos Santos não representa nenhuma colónia, assim como os portugueses comuns não representam nenhum colonizador. Ela e os seus comparsas portugueses, respeitáveis advogados, capitães da indústria e políticos cheios de sentido de Estado, representam a mesma relação colonial de sempre entre quem rouba e quem é roubado. E há “colonialismos” internos, cá e lá. Isabel dos Santos tratou do assalto, outros trataram de colocar o fruto do seu roubo na economia legítima. Não espero que venham assumir as suas responsabilidades. Estarão já à procura de outro fura-vidas para o negócio poder continuar. “As usual.”

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O balão vai rebentar!


Preocupante. Ou talvez mais do que isso, porque tem traços de escândalo, a sequência de "acontecimentos" que a praça política vai brindando o povo. Parece que andam todos aos papéis, a governar a vidinha ou a "varrer os armários". Chegou a um ponto que nada parece causar incómodo, porque se perdeu a vergonha, a dignidade, o bom senso e diria mais, o sentido de responsabilidade do acto de governar ou de ser verdadeira oposição. É evidente uma transversal falência da qualidade política, uma inversão de prioridades e uma subversão de princípios e de valores. Há um registo de normal anormalidade, feito de palavras ocas e vergonhas sem fim, como se a comunidade fosse toda ela acéfala, incapaz cruzar os dados entre o que é dito e o que se passa nos corredores do poder e no daqueles que o desejam. Enfim, há um vazio de consequências bem previsíveis. Vai dar "erro"!


Quem governa denuncia que tem os olhos no imediatismo e na salvaguarda de interesses pessoais e de grupo. É esse o sentimento que prolifera junto dos cidadãos. Entre assuntos maiores e outros de menor destaque, basta interpretar os sinais produzidos pela comunicação social e toda a esfera informal. Ao correr do pensamento e sem qualquer sequência temporal, neste mês de Janeiro soube-se que: o governo "quer a totalidade do capital social da SDM para, depois, concessionar a privados a respectiva gestão" (?). Que embrulhada! Entre a montra e o que vai no armazém há uma substancial diferença a explicar; a saga do ferry continua a esconder a verdadeira história guardada nos bastidores; a ininteligível prescrição de 52 milhões de euros de contribuições para a Segurança Social. Como foi possível?; que 450 idosos fazem dos hospitais a sua residência, facto constrangedor por terem deixado resvalar os direitos e a solidariedade até este ponto; a "placa central" que ora é domínio público da autarquia do Funchal, ora do governo. Tem dias o assalto às competências; o Jornal Oficial que dá conta de uma "multidão" de nomeações políticas (250 até agora) para lugares rigorosamente desnecessários; as lutas no interior do sistema de Saúde que não param, com posições divergentes na coligação, demissões e reuniões de tonalidade maquiavélica, textos públicos de intriga palaciana, escritos a duas, quatro ou mais mãos, enquanto centenas aguardam por uma cirurgia ou por uma consulta; registei, também, a cobrança de 22 milhões à Câmara do Funchal, esquecendo-se os mesmos que hoje pressionam, sem dó nem piedade, que deixaram mais de cem milhões de dívidas por pagar e que se negam a assumir contratos-programa para obras necessárias; ontem foi tornado público, a criação de um "Conselho de Economia" que conduz à pergunta: para quê, quando existem várias instituições parceiras e de debate, entre outras, a Associação de Comércio e Indústria e o Conselho Económico e Social da Região. Não chega? Mais. A crítica aos dois novos secretários tem vindo a subir de tom, simplesmente porque, após cem dias de governo, denunciam não ter linhas programáticas orientadoras, ficando a ideia que apenas ali se abrigam por conveniência no equilíbrio político. Perderam o sentido crítico de outros tempos. Ah, o turismo, indústria determinante, apresenta uma queda preocupante com 214.000 dormidas perdidas em onze meses... e tão grave quanto tudo isto é ver gente de peito cheio, atirar-se para fora da Região com aquela peregrina ideia do "inimigo externo", não dando conta que a Região tem órgãos de governo próprio e que já poucos ligam àquela treta. Dei conta, ainda, da continuada e irracional história dos Açores receberem da República um pouco mais que a Madeira, paleio que, intencionalmente, esquece, por um lado, que a transferência de verbas está escudada na Lei das Finanças das Regiões Autónomas, válida para qualquer governo na República, por outro, como se fosse exactamente igual governar duas ilhas relativamente às nove do outro arquipélago. Li, finalmente, sobre o orçamento para 2020, que ele é um "orçamento social", porém, face a tanta pobreza ou risco (cerca de 80.000 madeirenses) os mesmos que defendem esse tal "orçamento social", mostram-se insensíveis para proporcionarem aos mais vulneráveis, a velhíssima reivindicação de um apoio suplementar regional de € 50,00 nas pensões mais baixas. Já agora, como acontece nos Açores. Só mais esta, que tem chancela de milagre, o Marítimo apresentou dois milhões de lucro, mas continua à mesa do orçamento. 
E a vida continua, a novela promete ser interminável e há que alimentá-la, até porque, amanhã, já ninguém se lembra do disparate feito ou dito hoje.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Se se metem com o futebol, levam!


Por
Pacheco Pereira, 
in Público, 
18/01/2020

Se eu olhar para a televisão sem som, o maior criminoso português e europeu é um homem com ar de adolescente tardio, com cabelo espetado para cima, completamente nerd. Vejo esse homem-rapaz algemado, transportado por polícias de várias nacionalidades, com aspecto de ser um enorme risco de segurança, a julgar pelo aparato à sua volta, de um lado para o outro. O ar dele é de desafio e nunca faz aquela cena de esconder a cara. Pelo contrário, parece arrogante ou pelo menos indiferente ao que o rodeia, pelo que ainda mais criminoso me parece. Não me lembro de ver pedófilos, assaltantes, homicidas a serem expostos e “passeados” assim pelas polícias.


Se eu ligar o som, a televisão diz-me que esse homem se chama Rui Pinto e, segundo a última contabilidade (os números são um pouco confusos e estão a mudar todos os dias), cometeu seis crimes de acesso ilegítimo, um de sabotagem informática, 17 de violação de correspondência, 68 de acesso indevido e um de extorsão. É obra, é um hacker de sucesso, tem a carreira no ramo garantida quando sair da prisão, e usa os seus dotes para o crime, mas, que eu saiba, não feriu nem matou ninguém.
Fique claro que eu não tenho dúvida nenhuma de que o homem é um criminoso, mas o seu tratamento contrasta com aquele que é dado aos criminosos de colarinho branco, aos homens que falsificaram documentos, que manipularam registos bancários, que fugiram ao fisco, que lavaram dinheiro, que roubaram o seu país de origem em que milhões vivem na mais abjecta pobreza, que levaram muitas empresas à miséria, trabalhadores ao despedimento e deixaram um rastro de “lesados” que perderam as poupanças de uma vida de trabalho. Muitos desses homens continuam a frequentar a melhor sociedade, passeiam-se pelos salões e o máximo que lhes acontece é estarem em casa em prisão domiciliária com uma pulseira. O contraste é gritante.

É muito simples responder à questão de saber por que razão existe este contraste. O homem meteu as mãos, ou melhor, o computador e o software, no mundo do futebol. Não no futebol popular, não no “clube mais perigoso do mundo”, o Canelas Gaia Futebol Clube, uma emanação da claque dos Super Dragões que, como se sabe, também não é flor que se cheire, mas no mundo do futebol de milhões, de muitos milhões, em que circula a elite dos clubes, dos negócios, dos fundos de investimento, da advocacia, das agências de publicidade, da banca, dos agentes e intermediários detentores de passes de jogadores, etc.

Um mundo em que os crimes de lavagem de dinheiro e as fugas ao fisco, várias manipulações fiscais no limite da legalidade, violações dos próprios códigos de ética das associações de futebol, publicidade disfarçada, acordos de silenciamento, entendimentos secretos para manipular os mercados de jogadores, a utilização generalizada de offshores, a publicitação de valores falsos de transacções de jogadores, são o habitual. Nem tudo são crimes, mas tudo são procedimentos proibidos pelas próprias regras de ética que os clubes aceitaram, incluindo a falta de transparência e a manipulação da opinião pública por jornalistas e comentadores que actuam por conta dos clubes. Foi isso que revelaram e continuam a revelar os chamados “Football Leaks”, com a colaboração dos jornalistas de investigação da imprensa europeia de referência, com a hostilidade e a censura mesmo de muitas autoridades nacionais, que aceitam com facilidade suspeita calar estas denúncias.
Não se pense que estou a minimizar os crimes de Rui Pinto pelo facto de ele ter mexido na lama de ouro e fazer os “grandes” ter de pagar o que tinham escondido ao fisco e mostrar como o “grande” futebol funciona como uma máfia. Não estou. Pinto não o fez pelo amor à “verdade desportiva”, nem por repúdio pelas manigâncias do grande futebol – fê-lo para chantagem e extorsão. Nem sequer sou muito sensível ao facto de que parece que Rui Pinto está a ajudar as autoridades com informações para investigações em curso. Nem muito menos ao proverbial princípio de que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Nada disso.
O que não percebo, ou melhor percebo demasiado bem, é a desproporção de tratamento, a sanha persecutória contra um criminoso cujas vítimas foram outros criminosos, ou gente gananciosa na zona cinzenta da lei, que nunca andariam de algemas, os grandes clubes como o Mónaco, o Real Madrid, o Tottenham, o Manchester City, o Paris Saint Germain, o Sporting, várias federações nacionais de futebol, incluindo a portuguesa, a FIFA e pessoas como Ronaldo, Neymar, Mourinho, e só cito os nomes mais sonantes porque não sei muito de futebol.
A sanha contra Rui Pinto não passa apenas pela justa condenação pelos seus crimes – revela uma enorme duplicidade, a mesma duplicidade que explica a complacência popular face às malfeitorias do futebol e que explica por que razão um jogador pode fugir ao fisco com milhões e, se for do nosso clube ou uma emanação da pátria, ninguém quer saber. Na verdade, ninguém queria nem quer saber das revelações dos “Football Leaks”, recebidas com um encolher de ombros, mas atira-se com violência face ao delator, em particular se a denúncia for do “nosso” clube. O reverso, que explica o cartaz reproduzido acima, é da mesma natureza. É que o populismo habita o futebol, mas não se vê ao espelho. O mal de Rui Pinto foi que, para ganhar uns cobres, deu-lhes um espelho indesejado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A complacência com Trump é um erro monumental


Por
José Pacheco Pereira, 
in Público, 
11/01/2020

Volto a Trump, a única coisa relevante que há hoje para discutir. É pouco mediático num país que é muito indiferente às questões internacionais, não dá títulos saborosos como os pequenos “casos” nacionais, cansa e parece monotemático, mas é decisivo para o nosso futuro. O que fizer ou não fizer Trump, e o que nós lhe permitimos, vai decidir as próximas décadas. E cada vez parece mais uma obrigação ética travar o combate para o deter, porque estamos num desses momentos da história, em que esta se acelera, e, como na maldição, se torna “interessante”. Pensam que isto é um exagero e Trump um epifenómeno? Puro engano. Vejam só que ele já fez.

O que é perigoso na actual discussão é que mais uma vez se verifica algo que vi toda a vida: quando alguém tem força, essa mesma força é interiorizada como razão, como explicação, como realismo e dá-se uma falência crítica e perde-se clareza. E mais do que tudo com Trump é preciso ver claro. Os poderosos têm seguidores pelas vantagens de estar ao lado do poder, mas o efeito mais insidioso é a impregnação do pensamento e da crítica mesmo daqueles que se lhes opõem.
Leia-se o que se escreveu esta semana em Portugal. Vejo com espanto a facilidade com que o discurso trumpista se interioriza, e como o caos e as contradições resultam em discursos salomónicos, e em benefício da dúvida. Claro que não se pode esquecer que em Portugal há mais “trumpinhos” por aí à solta do que se imagina, quer os que o adoram, mas mais ainda os que precisam dele à direita para equilibrar um mundo que, pensam, se deslocou demasiado para a esquerda.
Não lhe dão palmas em público, mas dentro da cabeça, porque Trump bate nos mesmos inimigos em que eles gostariam de bater. É uma simpatia por afinidade que não ousa dizer o seu nome. Existe em Portugal, no Observador, no i , nalguns blogues muito à direita e que são câmaras de eco em bruto do Observador, mesmo na comunicação social de referência com gente mais preocupada em manter “equilíbrios” e distanciações, quando isso é exactamente o que os trumpistas querem.

O discurso de Trump é simples: há vitórias e vitoriosos e derrotados. Ele Trump teve uma “vitória”, porque os iranianos “cederam” e “recuaram” e assim ele pode obter o efeito útil de ter morto um adversário dos EUA, sem grandes consequências e mostrar força, fazer de Rambo e bater com as mãos no peito como o Tarzan para fins eleitorais. É o discurso habitual de Trump e os mecanismos mediáticos, que ele explora com sucesso, são hoje muito adequados a ver as coisas assim. Talvez, se se parasse para pensar, se perceba que não só esta é uma maneira muito grosseira de ver as coisas — o que se adapta muito bem a Trump e às colunas do sobe e desce, e às redes sociais —, como assenta mais no wishful thinking do que em factos, e não nos fornece uma visão coerente do que se passa. E acrescento não é muito complicado perceber que é uma história muito esfarrapada, ou como agora se diz “uma narrativa” que só se sustenta no peso da força e no ainda maior peso da preguiça mental.

Veja-se só, a título de exemplo, o próprio discurso vencedor de Trump — um discurso que em condições normais deveria arrepiar toda a gente. Mas que “passou” bem, porque pareceu moderado. Trump começa por dizer que os iranianos não atingiram ninguém, porque as contramedidas sofisticadas resultaram, impedindo-os de obter o objectivo de matar soldados americanos. Mais adiante, no mesmo discurso, sugeriu que os iranianos afinal deram uma resposta débil, porque recuaram com medo da resposta americana. Então queriam ou não matar americanos?
Nos dias seguintes, fontes militares disseram que sim, outras fontes acentuaram o recuo a “desescalada”, e a tese predominante é a segunda. Por sua vez, os iranianos mantêm também um discurso contraditório, mas porque lhes é vantajoso. Os iranianos não têm o poder dos EUA, como, aliás, os norte-coreanos. Medidos por essa bitola são sempre o lado mais fraco. Mas face a Trump são mais inteligentes, têm uma estratégia consistente e não dependem da imprensa do dia seguinte para prosseguir os seus objectivos — e não têm eleições para ganhar.
Qual é nos dias de hoje o “seguro de vida” do regime iraniano, como, aliás, do norte-coreano? Ter armas nucleares. Agora que não têm as peias do acordo é o que os iranianos vão fazer a toda a velocidade. Ora Israel e os EUA não o podem permitir, o que significa que terão de atacar o Irão. E como é? Vão só atacar de alto e não colocar “botas no chão”? Só com enormes baixas colaterais, civis. E não há Rússia e China?
O assassinato do general iraniano é uma distracção, neste contexto que radicaliza todas as frentes menores e não ajuda a maior, que Trump ajudou a estragar ao abandonar um acordo nuclear que estava a ser cumprido pelo Irão. Quando digo que o principal risco da política de Trump é ser errática e caótica, é por aqui que se mede. Não houve por isso vitória nenhuma, só encurralamento cada vez maior no caminho de uma guerra generalizada. Trump não quer saber disso para nada, desde que entenda que sai favorecido eleitoralmente. E, como quer ter vantagens sem grandes custos, apela aos países da NATO para lhe darem cobertura e homens e mulheres para não haver muitas baixas americanas. A resposta frouxa da NATO é quase tão perigosa como o caos de Trump.
Infelizmente, isto vai continuar.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Joacine


Enquanto fazia o meu "obrigatório" exercício diário de corrida, entre 30 a 40 minutos, fui seguindo o debate do Orçamento de Estado. Até que foi dada a palavra à Senhora Deputada Joacine Katar Moreira. Ora bem, tenho o maior respeito, seja lá por quem for que, naquele e em outros espaços de representação do povo, seja portador de alguma deficiência ou perturbação. No caso da Drª Joacine Moreira, obviamente, que a sua gaguez, não sendo uma doença, contudo constitui um grave problema na comunicação. Uma vez mais foi-me aflitivo vê-la querer comunicar e constatar as sucessivas hesitações e, por vezes, quase intermináveis bloqueios. 


Desconheço, mas presumo que a Deputada em causa tenha feito terapia da fala. E se assim aconteceu, deduzo que a sua perturbação seja muito complexa. De tal forma que, pelo menos para mim, foi sofredor acompanhá-la no desejo de querer expor uma posição e não conseguir. Cheguei ao final e não compreendi o que pretendia transmitir. Confesso que me perdi naquele labirinto à procura de uma saída sempre travada por um bloqueio. 
Eu sei que naquele hemiciclo há gente de palavra fluente mas que apresenta uma disfemia de pensamento que, por vezes, arrepia. São outros tipos de "gaguez"! Articulam palavras, porém, em deriva constante relativamente, aqui sim, às "doenças" do país. São fluentes no discurso, mas sofrem de uma incapacidade crónica de saber olhar para a História e de contextualizar os assuntos para além da visão partidária.
Neste caso concreto, interrogo-me se não haverá solução? Eu penso que sim. Bastaria uma alteração regimental que possibilitasse a leitura por outrem dos seus textos e ou perguntas fundamentais, até porque os tempos de intervenção que dispõe são limitadíssimos. Será assim tão complicado?
Do que assisti, enalteço, pelo menos a avaliar pelas imagens disponibilizadas em directo, a atitude irrepreensível dos membros do governo e de todas as bancadas. Imperou, uma vez mais, o respeito pela diferença.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Vacas sagradas

Por 
Daniel Oliveira, 
in Expresso, 
04/01/2020

Augusto Santos Silva disse que a gestão em Portugal é “fraquíssima”. Todos os estudos o demonstram. Temos os gestores com menor formação da Europa (mais de metade não têm o ensino secundário) e o hábito de colocar os “primos” no Estado resulta de uma cultura nacional, fortemente presente no sector privado, e não de uma idiossincrasia da gestão pública.


Arriscar-me-ia a dizer que a qualidade média dos gestores evoluiu menos do que a qualidade média dos trabalhadores. E também isso ajuda a explicar porque é que as nossas empresas não conseguem absorver o brutal investimento público feito em formação.
O problema é que a afirmação do ministro ignora o contexto. E o contexto é uma realidade económica e monetária que desincentiva as exportações, uma estrutura empresarial composta por pequenas empresas sem massa crítica e gestão realmente profissionalizada e um pequeno grupo de grandes empresas concentrado na prestação de serviços pouco qualificados e protegidos da concorrência. Sobram umas ilhas de excelência que nos dão alguma esperança mas não chegam para contrariar esta realidade. Porque não são os gestores que definem a realidade que temos, é a realidade que molda os gestores que temos. Não é por acaso que os “empreendedores” que merecerem maior admiração mediática são distribuidores e importadores de bens alimentares, administradores de bancos falidos e CEO de empresas em regime de semimonopólio. E, no entanto, os gestores das empresas do PSI-20 ganham 52 vezes mais do que os seus trabalhadores. Em 2014 era só 33 vezes mais, mas a recuperação económica chegou aos gestores sem passar pelos “colaboradores”. Os mesmos que exigem contrapartidas para o aumento de um salário mínimo indigno. Os mesmos que desconhecem qualquer cultura de concertação social — não me esqueço de uma conversa que tive com um importante empresário que se orgulhava de nunca ter falado com um sindicalista. O episódio da funcionária do Pingo Doce da Bela Vista, obrigada a urinar na caixa porque não a deixaram ir à casa de banho, ainda é um lamentável retrato do nosso atraso. Mas, mais uma vez, relações laborais primitivas são um retrato de uma economia pouco qualificada. E se o futuro está no turismo de massas isto não mudará.
O problema da afirmação de Santos Silva é a habitual facilidade em tratar atrasos estruturais do país, com causas complexas e responsabilidades dispersas, como falhas de um grupo específico. Mas não é nada que não tenha sido feito em sentido inverso. Quando Belmiro de Azevedo disse que “o problema é que os atores políticos têm que ser de uma qualidade diferente da média atual” ou Alexandre Soares dos Santos acusou “todos” os políticos de só estarem “a pensar nas eleições” ninguém se indignou por estarem a denegrir injustamente os políticos. O que eles disseram é tão verdade e tão redutor como o que foi dito por Santos Silva. Porque em vez de se concentrarem nas debilidades sociais, económicas e políticas do país preferiram falar de um grupo específico. Num caso, causou polémica e acabou em pedidos de desculpa, no outro foram aplaudidos pelo desassombro. E já nem falo de todas as vezes que se sublinha, sem qualquer sobressalto, a falta de qualificação dos trabalhadores. Ao que parece, os gestores são as novas vacas sagradas.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

PARA A FOTOGRAFIA...


Ou para a propaganda. Talvez as duas coisas. Fico a pensar que perante tantos e graves problemas no sector da Saúde, importante continua a ser a promoção da imagem, mesmo que ela assuma contornos de um certo ridículo. 

Ora bem, nasceram seis crianças no dia 1 de Janeiro, mas esse facto, questiono-me, justificará a presença do secretário regional junto de uma das parturientes? E quantas nasceram no dia 2 e hoje? Trata-se de um facto normal, jamais anormal. Já outros, as listas de espera, os sérios desconfortos entre médicos, enfermeiros e restante pessoal que trabalha para o sistema de saúde, por causarem desassossego, deveriam merecer um outro olhar de séria preocupação. 
Esta forma de estar no exercício da política tem uma história, eu diria, com barbas. São anos e anos de presença em tudo, desde a "festa da cebola" à "festa da lapa". Uma "faz chorar" e a outra tem, neste contexto, a simbologia do "apego ao poder". Portanto, de uma até à outra, lá está sempre um palco para meia-dúzia de palavrinhas de circunstância. É, como diz o povo, o tempo da palavra do "senhor governo". Entrou na rotina, em que os acontecimentos, mesmo os mais vulgares, conduzem logo a uma presença para a fotografia e propaganda.
Na mesma edição que dá conta de seis nascimentos é anunciado o falecimento de onze madeirenses. Ora, nascer e morrer são circunstâncias absolutamente normais, a diferença, como sublinhou Belmiro de Azevedo, "está em um fatinho e um par de sapatos". E não consta que o Senhor secretário tenha ido apresentar condolências!
Apenas um desabafo, sincero, pois entendo que é tempo de trabalhar em assuntos muito sérios. 
Ilustração: Google Imagens.