Adsense

Mostrar mensagens com a etiqueta Violência familiar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Violência familiar. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de outubro de 2019

30ª Vítima de Violência Doméstica




Por
Maria José da Silveira Núncio
PÚBLICO
7 de Outubro de 2019

Talvez seja melhor desistir. Desistir de escrever sobre as mulheres que vão morrendo às mãos daquele que amaram. Desistir de escrever sobre os preconceitos, os estereótipos, os contextos, as mentalidades, a sociedade... Desistir de me indignar com um sistema que não protege e que, ao invés, torna as vítimas cada vez mais vítimas. Desistir de me revoltar contra o voyeurismo macabro, sensacionalista e imundo que noticia cada nova morte. Desistir de me arrepiar com os aproveitamentos extremados que, em nome das mulheres (e que mulheres?), apelam a uma espécie de “guerra civil do género”.

Desistir de me enervar com as promessas (tantas), as comissões (várias), os grupos de trabalho (redundantes) que, compungidos e compenetrados, emergem a cada morte, como sempre emergiram as carpideiras, nos enterros de aldeia. Desistir de me espantar com a indiferença, que vai tomando conta de uma sociedade, ou seja, que vai tomando conta de nós. Uma indiferença que “normaliza” e que, por normalizar, legitima e valida, num encolher de ombros e num suspiro resignado…
Desistir de me zangar porque há mulheres que são, aqui no meio de nós, clandestinas, refugiadas, fugitivas. Mulheres desapossadas da sua identidade e da sua vida e da sua casa e da sua roupa, tentando refazer os pedaços de si mesmas (e os pedaços dos seus filhos) em casas-abrigo, escondidas do mundo. E são tantos os pedaços em que se desfizeram! E estão mortas, também, estas mulheres, ainda que respirem e se alimentem e durmam (a custo) e, às vezes, mas só mesmo às vezes, até sorriam.

Desistir de me enfurecer com os homicidas e com os agressores, pela sua crueldade cobarde e atávica. Desistir de me enraivecer com a lei, os juízes, os procuradores, os polícias, pela sua ineficiência, e pela sua ineficácia. 

Desistir de me desapontar com os teóricos e especialistas vários, pelo seu desfasamento do real, preocupados em encaixar em modelos explicativos a crueza de vidas sem explicação. Talvez seja melhor desistir, pelo respeito por cada mulher que morreu às mãos de quem amou e por cada mulher que sobrevive, compondo os pedaços da sua existência estilhaçada.
E talvez seja melhor desistir, por respeito a uma memória: a memória de uma mulher que conheci em tempos. Uma mulher explorada sexualmente e maltratada pelo seu chulo (que era, também ou sobretudo, o homem que ela amava). Uma mulher que um dia, com o peito coberto dos hematomas da última tareia, me disse que ali, naquele tronco roxo e amarelado, estava a prova do amor. Estava a prova de que ele a amava… É que, explicou-me essa mulher, apesar de tudo, o “seu homem” tinha o cuidado de nunca lhe bater na cara. E isso, afinal, o que poderia ser, senão amor?

Socióloga
Professora universitária ISCSP-ULisboa

quinta-feira, 7 de março de 2019

VIOLÊNCIA - A PROPÓSITO DE UM DIA... DA MULHER!


Não sou muito adepto de dias disto e daquilo. Simplesmente porque, na esmagadora maioria desses dias, existem causas que já deveriam, há muito, estar plenamente interiorizadas, através de uma cultura inscrita na matriz das condutas humanas. Infelizmente, ainda se sente a necessidade de gritar para que a sociedade acorde e alguns possam perceber a vergonha. O grito ainda se torna mais oportuno quando, pasme-se, até um Juiz elabora acórdãos execráveis, absolutamente desconformes com a ofensa, a morte e com a crescente condenação pública. Quem também assim se comporta, definindo sentenças humilhantes para as vítimas, colocando-se do lado do agressor, enquanto cidadão entendo que não tem condições para analisar processos de violência doméstica e, vou mais longe, todos os demais. Um Juiz não pode, em circunstância alguma, assumir a sua matriz, o seu pensamento sobre as diversas matérias. Em síntese, deve estudar, analisar e cumprir a Lei. Um Juiz não é um legislador. É um cumpridor da Lei. Se não concorda deve dedicar-se a uma qualquer outra tarefa. Mas não é esse aspecto que aqui me traz. Em poucas palavras, ao correr do pensamento, quero deixar uma brevíssima reflexão sobre a violência.


Ora, toda a organização da nossa sociedade assenta na VIOLÊNCIA. Da escola ao mundo laboral passando por muitos ambientes familiares. Em tempos li um texto extremamente interessante sob o título: "Escola violenta ou a violência da escola?" De facto, começa aí o drama. É na escola que a violência começa a ganhar contornos, pela forma como está organizada, pela competição que não significa aprendizagem e conhecimento, pela meritocracia que não significa sabedoria e, ainda, por quererem convivialidade sem atenderem aos factores estruturantes da formação do carácter. Se a família não ajuda, logo, a escola tem o dever de ajudar a resolver os desvios comportamentais. Há dias, nas páginas do DN, perguntava o Pediatra Dr. Mário Cordeiro: "(...) Onde está a música, a arte, a pintura, a escultura, a ética, os debates e dilemas sobre o bem e o mal, o voluntariado, a cidadania? Onde? (...)" O que existe é "matéria" para despejar e alunos transformados em engolidores da mesma! A cultura da violência está lá.
Depois, é o mundo laboral, dos baixos salários, da precariedade, da pobreza, do trabalho e salários por objectivos, das várias toxicodependências, é a cultura da violência de uma sociedade que discute, intencionalmente, o supérfluo e não o mais importante. Uma sociedade que está em guerra silenciosa em tantos sectores, guerra que potencia a expressão concreta da violência. Apenas um exemplo comezinho: ainda ontem, o que é habitual, vários canais serviram, à mesma hora, a cultura do futebol que se traduz, hoje, por uma cultura de violência de palavras e actos! É o futebol "jogo, humor e festa" substituído pela doutrina do ódio e da trapaça.
Estamos a formar, directa ou indirectamente, por irresponsabilidade política transversal e multidisciplinar, permitam-me a palavra, "monstros", não havendo quem decida actuar na prevenção. O forte continua a ditar a submissão do mais fraco; o homem, grosso modo, a subordinação da mulher, desde a diferença nos salários até à responsabilidade familiar.
É pavoroso o que se está a passar nesta sociedade doente, muito doente, que mata, que persegue, que apresenta distúrbios de variadíssima ordem e onde tentam resolver com pensos rápidos manifestações que têm uma dolorosa e profunda raiz histórica.
Finalmente, perante este quadro genérico, não se me afigura estranho que o "Dia da Mulher" também sirva para espectáculos de streap-tease, como se o respeito, a liberdade e a igualdade passassem por aí. Tudo a necessitar de uma escola que ajude a saber dizer NÃO. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de dezembro de 2017

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - OS DADOS PÚBLICOS NÃO DEMONSTRAM A VERGONHOSA REALIDADE



Em um momento de grande reflexão sobre a "violência doméstica", deixo aqui a intervenção da Eurodeputada Liliana Rodrigues ao programa "Madeira Viva" da RTP-Madeira, para além de um texto publicado no DN-Madeira.

NOTA

Texto publicado no DN-Madeira e aqui reproduzido.

Para Guida Vieira, “foi um ano negro para a Madeira em todos os sentidos”.

A Madeira foi a região do país com o maior número de mulheres assassinadas este ano em contexto familiar, totalizando cinco dos 18 casos registados pelos Observatório das Mulheres Assassinadas (OMA), revelam dados avançados à agência Lusa.
Em declarações à agência Lusa, Guida Vieira, da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR)da Madeira, revelou que há mais quatro casos que não foram noticiados, o que faz subir para nove o número de mulheres assassinadas na Madeira, que registou este ano o maior número de sempre relativamente a estas situações.
“Foram assassinadas de maneiras bárbaras e nós ainda temos outros números que não foram publicados pela comunicação social” e, como tal, o Observatório das Mulheres Assassinadas não pode pronunciar-se sobre esses casos porque se baseia nos crimes noticiados na imprensa, explicou a também conselheira para a igualdade no concelho do Funchal.
Portanto, há cinco casos oficiais e quatro não oficiais porque “os seus agressores não foram identificados”, disse Guida Vieira, sublinhando ter conhecimento de que estas quatro mortes estão relacionadas com “processos de violência doméstica graves”.
“Isto quer dizer que os dados públicos não são a realidade”, adiantou, anunciando que a UMAR Madeira vai fazer hoje uma declaração pública para alertar para a necessidade de ser feito “um trabalho de investigação”, no sentido de perceber “porque é que estes crimes não são divulgados e o autor não é identificado”.
Em relação aos casos divulgados pelo observatório, Guida Vieira adiantou que nem todos foram situações de violência doméstica.
“Nós consideramos que foi mesmo violência de género exercida sobre mulheres, porque houve um sobrinho que matou uma tia, um filho que matou a mãe”, adiantou.
Para Guida Vieira, “foi um ano negro para a Madeira em todos os sentidos”.
“Não é porque o tema não tenha sido debatido, que a sociedade não esteja mais aberta, nós achamos que é sobretudo uma questão que tem a ver muita com a mentalidade fechada de ser uma ilha, uma região insular”, sustentou.
“Ainda temos gente muito antiga, há homens que sentem que podem cometer estes crimes atrozes”, disse, frisando que a maior parte das mulheres eram mais velhas.
Para a responsável, é preciso “mudar a mentalidade em relação a esta situação” e apostar num trabalho de prevenção juntos dos mais novos para que esta situação possa mudar.
Segundo dados do relatório, a que a Lusa teve acesso, o concelho de Santana na Ilha da Madeira, registou dois femicídios, seguido dos demais concelhos, cada um com um registo.
O distrito do Porto registou quatro homicídios, enquanto os distritos de Aveiro, Braga, Bragança, Évora, Faro, Leiria e Viana do Castelo registaram um cada um.
Até 20 de novembro, o OMA contabilizou um total de 45 órfãos após femicídio consumado, adianta o documento divulgado a propósito do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres (25 de novembro).

sábado, 28 de maio de 2016

INDICADORES ARREPIANTES (II) - VAMOS LÁ DEBATER, PEDAGOGICAMENTE, O DRAMÁTICO TEMA DA VIOLÊNCIA


Ontem deixei aqui alguns dados extremamente preocupantes sobre a liderança da Região na mortalidade por agressões e, ainda, sobre o consumo excessivo de álcool. Um tema dramático que a todos nos devia deixar angustiados, neste caso, trazido através de uma peça do DN-Madeira. Abri o debate e ninguém o comentou. Sete amigos deixaram um "gosto" pelo texto, que tem, é verdade, implícita uma óbvia condenação. No online do DN nem um comentário, nem um gosto! Quando, por assuntos insignificantes, contam-se às dezenas aqueles que deixam uma opinião. Muitas vezes, até, muito desagradável e que deveriam evitar. Li, por exemplo, ontem, comentários sobre o falecimento de um cidadão que desempenhou funções políticas, que me deixaram arrepiado face à violência das palavras. 


Gostaria, sinceramente, que este assunto despertasse atenção e o comentário sério, profundo e pedagógico. Há muito a dizer sobre esta matéria, de forma aberta. O FB, enquanto rede social, não deve servir, apenas, para publicitar fotografias, frases feitas e replicações de pensamentos inúteis. Recuso-me a pensar que somos uma sociedade com acentuados traços de violência escondida, tampouco que admitimos o que ainda hoje foi público: a notícia que nos dá conta que uma "instituição religiosa islâmica assumiu que deve ser permitido aos homens “bater ligeiramente” nas suas mulheres", para atenuar, no plano legal, o que costumam fazer. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

INDICADORES ARREPIANTES - E SE DISCUTISSEM A TRAGÉDIA COMO ENALTECEM OS ÊXITOS?


Volta e meia aparecem por aí, sobretudo através de políticos da maioria que governa há quarenta anos, a falar que somos pioneiros e líderes nisto e naquilo. São vários os casos de uma alegada pujança organizativa e de iniciativa mobilizadora que os leva a enaltecer feitos que não têm em conta o que acontece em outros espaços do País. É óbvio que qualquer um fica feliz por ver os êxitos deste ou daquele em qualquer sector ou área. Dois exemplos, os mais recentes: a vitória de Micaela Abreu no Got Talent (que voz!) ou, a sétima qualificação olímpica de João Rodrigues (que feito!). E há mais, obviamente que sim. 


O que me é difícil aceitar é a propaganda sem sentido que enaltece de forma desmesurada como se isto, por aqui, fosse uma "fabrica" de talentos e de bem-estar social, consequência de políticas estruturadas nesse sentido. E mais do que isso, esquecendo-se a parte contrária, os indicadores que envergonham. Exemplos? Muitos, também. Desde o abandono escolar e o insucesso nas aprendizagens de consequências amargas no futuro, até à trágica liderança de mulheres mortas por agressão, mortes por dependência do álcool (DN-Madeira), taxa de suicídios e taxa de desemprego, entre outros. Neste quadro ninguém assume responsabilidades pela constante degradação das políticas sociais. 
E a propósito, trago sempre em memória o saudoso jornalista Carlos Pinhão (A Bola) que em uma bem humorada coluna semanal, escreveu qualquer coisa do género: "somos os melhores do futebol europeu sub-17, somos os melhores do Mundo em sub-21, os melhores da Europa sub-18, sub-16, etc. etc., somos os melhores do mundo em sub-desenvolvimento". Pois. Tomemos em consideração isto e cuidemos do que realmente é importante e saudável no sentido de uma sociedade feliz e culta. 
Ler notícia em:
Ilustração: DN-Madeira

segunda-feira, 18 de abril de 2011

SERÁ NECESSÁRIO IR A COIMBRA?


O que andaram os responsáveis políticos da Região, durante 36 anos de governo absoluto, no sentido de tornarem mais saudáveis os ambientes familiares e, por aí, atenuarem esta vergonha social que tem, todos sabemos, uma transversalidade nos estratos sociais? Que Sistema Educativo foi disponibilizado e, portanto, que EDUCAÇÃO e que lastro CULTURAL foram dinamizados no sentido de melhorar os tristes indicadores? E que combate à pobreza e à exclusão social foram operacionalizados? E que políticas económicas foram implementadas ou será que o culpado é o Dr. Keynes?


Protocolos que visam combater a violência doméstica levaram até Coimbra o Secretário Regional dos Assuntos Sociais. Protocolos de cooperação com o Serviço de Violência Familiar do Centro Hospitalar de Coimbra e a Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género, leio no on-line do DN. 
Num ápice passaram ou cruzaram-se à minha frente vários aspectos. Desde logo, embora todo o cruzamento de experiências e o trabalho em rede sejam importantes, a pergunta que fica é se, por aqui, não existe ninguém com capacidade para diagnosticar as causas da violência doméstica e capaz de propor planos e respostas integradas no sentido da sua erradicação? Será necessário ir a Coimbra? Será preciso a Região Autónoma esperar pelas iniciativas da Secretaria de Estado?
À pergunta seguiram-se outras: afinal, qual a consistência das políticas de família na Região? O que andaram os responsáveis políticos da Região, durante 36 anos de governo absoluto, no sentido de tornarem mais saudáveis os ambientes familiares e, por aí, atenuarem esta vergonha, esta histórica chaga social que tem, todos sabemos, uma transversalidade nos estratos sociais? Que Sistema Educativo foi disponibilizado e, portanto, que EDUCAÇÃO e que lastro CULTURAL foram dinamizados no sentido de melhorar os tristes indicadores que têm conduzido à própria morte das vítimas? E que combate à pobreza e à exclusão social foram operacionalizados? E que políticas económicas foram implementadas ou será que o culpado é o Dr. Keynes?
E às perguntas, estas, entre muitas outras, lembrei-me do que ouvi, pela televisão, em pleno Hospital do Funchal, ainda na passada semana, por ocasião da inauguração de um melhoramento no serviço de gastrenterologia. Ouvi o presidente do governo regional dizer que estava desaconselhado a beber bebidas alcoólicas, mas que não seria o caso de todos, numa alusão directa, para não dizer incentivo, bebam mas um pouco menos. Se não foi exactamente isto, andou por aí a declaração do presidente.
Ora, nem a brincar deveria ter falado desta situação, quando ele sabe que cerca de 30% da população tem problemas de consumo excessivo e que as associações andam aí numa roda viva para travar tais malefícios. E sabendo ele que o álcool constitui, não o único, mas um dos principais problemas da violência familiar. Enquanto isto, o Secretário vai até Coimbra "beber" a receita, via protocolo, como se o problema por aí se resolvesse. Não se resolve por essa via. Atenua-se ou erradica-se com investimento na educação, na cultura, na economia, na libertação das pessoas, actuando nas raízes sociais com políticas de acompanhamento das famílias, com diagnóstico e intervenção precoce, proibindo a venda a menores de 21 anos, com políticas que suscitem a denúncia e com a criminalização dos actos, com o acompanhamento das vítimas e dos agressores, enfim, sentando à mesma mesa os vários actores políticos e especialistas que, directa ou indirectamente, estão envolvidos. Será preciso ir a Coimbra? Que andam aqui a fazer há 36 anos?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ARREPIANTE


Vamos trabalhando, voluntariamente, para tentar salvar uma ou outra criança, quando temos a certeza que não nos chega às mãos nem um ínfima parte das que precisam de ajuda e mesmo que chegassem não haveria forma de ajudá-las. É isto que estamos a construir: uma nova geração castigada pelo alcoolismo dos pais, pela violência doméstica e pela desresponsabilização das instituições.



A propósito de um texto que aqui publiquei sobre a "violência doméstica", recebi um comentário do meu Amigo Dr. Paulo Barata. Pela sua importância entendi publicá-lo e comentá-lo.
"Posso  garantir-lhe que a violência doméstica na Madeira é uma realidade assustadora. Mas há outra violência que me preocupa mais de perto, até porque sou membro da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo do Funchal, é a negligência a que é condenada tanta criança e adolescente nesta nossa cidade. Esses números eu tenho e não são "secretos". Como sabe, os maiores parceiros da Comissão de Protecção são os professores. No entanto, também nesta área, muitos destes seus colegas deixam as crianças ficar mal. Na semana passada veio um professor falar comigo porque numa escola do Funchal suspeitavam que uma aluna tinha sido violada. Para espanto deste professor sério e responsável, os comentários dos seus colegas na reunião que debateram o que fazer, andaram à volta de "ela também não é boa da cabeça..."; "Elas provocam...." e "não temos nada a ver com o que se passa fora da escola...", a conclusão é que não deveriam comunicar às entidades competentes para que o caso fosse averiguado. Arrepiante.
A montante temos famílias irresponsáveis e professores que não se querem "chatear" e que impedem que os (muitos) bons professores possam trabalhar e ajudar os jovens e, a jusante, temos a CMF que não tem dinheiro para apoiar a Comissão. Vamos trabalhando, voluntariamente, para tentar salvar uma ou outra criança, quando temos a certeza que não nos chega às mãos nem um ínfima parte das que precisam de ajuda e mesmo que chegassem não haveria forma de ajudá-las. É isto que estamos a construir: uma nova geração castigada pelo alcoolismo dos pais, pela violência doméstica e pela desresponsabilização das instituições. Que futuro podemos esperar? Abraço."Não disponho de números, mas sei que o problema é muito grave. E o que mais me constrange é o silêncio, é o varrer para debaixo do tapete, é o encolher de ombros e é, na Assembleia, sentir a desvalorização destes assuntos por parte da maioria, sempre com aquela lengalenga que as instituições têm tudo sob controlo e que a resposta é eficaz. Mal sabem que entre o que está no papel, nos alegados documentos orientadores e a realidade, a diferença é abissal. Enquanto preferirem o cimento à Protecção do Homem, enquanto falarem da família enquanto pilar da sociedade e não derem um passo no sentido da sua emancipação e protecção, obviamente que o resultado será sempre o de um trabalho inglório.
Ilustração: Google Imagens.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: 40 VÍTIMAS POR ANO


O ciclo da violência doméstica caracteriza-se pela sua continuidade no tempo, isto é, pela sua repetição sucessiva ao longo de meses ou anos, podendo ser cada vez menores as fases da tensão e de apaziguamento e cada vez maior e mais intensa a fase do ataque violento.


A violência doméstica é um dos sinais de uma sociedade profundamente doente. Uma média de 40 homicídios por ano, mais de três por mês, constitui um quadro horrível, arrepiante e dramático. Se olharmos para os dados dos Tribunais, das sentenças transitadas em julgado, verifica-se que, nos últimos três anos, verificaram-se 42 homicídios, em 2007, 36 em 2008, 43 em 2009. Em 2010, outras 43, segundo a comunicação social, perderam a vida às mãos de assassinos. O que dizer desta situação?
É evidente que se trata de um problema universal. Li, há dias que, só no Brasil, A UNICEF estima que, diariamente, 18.000 crianças e adolescentes sejam espancados. Muitos morrem. Nos adultos, a situação, um pouco por todo o lado, constrange, desde a violência verbal, a violência física à violência psicológica.
Leio no sítio da APAV: 
"A violência doméstica funciona como um sistema circular – o chamado ciclo da violência doméstica – que apresenta, regra geral, três fases:
1. Fase de aumento da tensão: as tensões quotidianas acumuladas pelo/a agressor/a que este/a não sabe/consegue resolver, criam um ambiente de perigo iminente para a vítima que é, muitas vezes, culpabilizada por tais tensões. Sob qualquer pretexto o/a agressor/a direcciona todas as suas tensões sobre a vítima. E os pretextos, que podem ser muito simples, são usualmente situações do quotidiano, como exemplo, acusar a vítima de não ter cozinhado ou cozinhado com sal a mais, de ter chegado tarde a casa ou a um encontro, de ter amantes, etc.
2. Fase do ataque violento: o/a agressor/a maltrata, física e psicologicamente a vítima (homem ou mulher), que procura defender-se, esperando que o/a agressor/a pare e não avance com mais violência. Este ataque pode ser de grande intensidade, podendo a vítima por vezes ficar em estando bastante grave, necessitando de tratamento médico, ao qual o/a agressor/a nem sempre lhe dá acesso imediato.
3. Fase do apaziguamento ou da lua-de-mel: o/a agressor/a, depois da tensão ter sido direccionada sobre a vítima, sob a forma de violência, manifesta-lhe arrependimento e promete que não vai voltar a ser violento/a.
Pode invocar motivos para que a vítima desculpabilize o comportamento violento, como por exemplo, ter corrido mal o dia, ter-se embriagado ou consumido drogas; pode ainda invocar o comportamento da vítima como motivo para o seu descontrolo. Para reforçar o seu pedido de desculpas pode tratá-la(o) com delicadeza e tentar seduzi-la(o), fazendo-a(o) acreditar que, de facto, foi essa a última vez que ele/a se descontrolou.
Este ciclo é vivido pela vítima numa constante de medo, esperança e amor. Medo, em virtude da violência de que é alvo; esperança, porque acredita no arrependimento e nos pedidos de desculpa que têm lugar depois da violência; amor, porque apesar da violência, podem existir momentos positivos no relacionamento.
O ciclo da violência doméstica caracteriza-se pela sua continuidade no tempo, isto é, pela sua repetição sucessiva ao longo de meses ou anos, podendo ser cada vez menores as fases da tensão e de apaziguamento e cada vez maior e mais intensa a fase do ataque violento. Em situações limite, o culminar destes episódios poderá ser o homicídio".
Gostava de saber e que fossem públicos os números específicos na Região da Madeira no quadro da violência doméstica. E que a estes números juntassem os suicídios e outros homicídios. Estou certo que, especificamente aqui, temos uma sociedade muito doente. Mas muito pouco se fala disso. Não compreendo, ou, se calhar, compreendo! 
Ilustração: Google Imagens. 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

RESPONSABILIDADES


Pergunto, se as instituições cuja missão e vocação é a de acompanhar a desestruturação familiar, os desvios comportamentais e os casos de violência conhecida ou denunciada, não são co-responsáveis pelo que acontece? A questão fica aí, apenas como reflexão, nesta sociedade que pouco se rala com o homem e a mulher que vivem ao nosso lado, onde a distância não conta!

Duas notas:
1ª ASSUMIR RESPONSABILIDADES. Leio que o Senhor Presidente da Câmara Municipal do Porto Santo se diz disposto a assumir as suas responsabilidades. Ora bem, eu não falo de responsabilidades criminais, pois essas até me constrangem, porque nunca gostei nem gosto de ver alguém envolvido em situações dessa natureza. Sou assim e ponto final. Porque as pessoas têm família e, porque, no caso em apreço, a da palmeira que caiu e matou, que culpa directa ele teve? Mas esse é um assunto dos Tribunais e como disso nada sei nem me devo imiscuir, não comento. Comento sim, a responsabilidade política, em função do cargo que, por eleição, o Senhor Roberto Silva desempenha. Para mim, essa, é que está em jogo. A responsabilidade de não ter acautelado ou de ter menosprezado uma situação que, previsivelmente, poderia ser grave. E foi. E essa responsabilidade política só deveria ter merecido uma posição clara e inequívoca, no dia seguinte à tragédia: a demissão do lugar que ocupa. Isso significaria, aos olhos de todos, "assumir responsabilidades". Significaria um sinal de assumpção da responsabilidade política que seria, naturalmente, enaltecida por todos. Agora, penso que é tarde, mas está sempre a tempo. Tudo o resto, tudo aquilo que decorre dos problemas colaterais, de natureza judicial, lamento profundamente, repito, porque não gosto de ver pessoas em situação complicada de gerir.
2º VIOLÊNCIA FAMILIAR. Os crimes hodiondos repetem-se. Mata-se por nada. Mata-se por razões absolutamente fúteis, que bem analisadas as situações, perguntar-se-á, porquê? Dir-se-á que se repetem um pouco por todo o lado. Inclusive, crimes em série, que vitimam pessoas que estavam num determinado momento no sítio errado. Mata-se, por aqui, também porque não há o cuidado de acompanhar de perto os sinais de violência, as denúncias e as sinalizações. Todos, vamos tolerando até ao dia da tragédia. Até as instituições passam ao lado, embora cúmplices das situações. Se, no Porto Santo, o Senhor Roberto Silva poderá ser judicilamente visado, pergunto, se as instituições cuja missão e vocação é a de acompanhar a desestruturação familiar, os desvios comportamentais e os casos de violência conhecida ou denunciada, se não são co-responsáveis pelo que acontece? A questão fica aí, apenas como reflexão, nesta sociedade que pouco se rala com o homem e a mulher que vivem ao nosso lado, onde a distância não conta.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 25 de outubro de 2009

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: OS DADOS DA VERGONHA

O trabalho da Jornalista Ana Luísa Correia, publicado hoje no DN, vem confirmar os dados que, de uma forma avulsa, vão sendo publicados na comunicação social. No seu conjunto são os dados da vergonha. A estes, muito certamente, há que juntar centenas, inclusive, a fatia de violência exercida sobre os homens, que não chegam ao conhecimento das instituições, por vergonha e incapacidade de dizer basta. O sofrimento fica-se pelas quatro paredes das habitações, meses e anos a fio. Sofrem os adultos mas sofrem também as crianças e os idosos que crescem ou coabitam em ambientes degradados.
Estes dados podiam e deveriam estar reduzidos ao mínimo ou mesmo erradicados. Desde logo através de rígidas normas de consumo de álcool, por um conjunto de medidas legislativas punitivas, pela existência de políticas de família sérias e profundas, por um consistente trabalho ao nível da educação e formação, pelas políticas de natureza económica geradoras de postos de trabalho remunerados com dignidade, pela responsabilização nas condutas, pelas dinâmicas sociais susceptíveis de estimularem para os princípios, para os valores, para o respeito e para a tolerância, pela libertação do Homem ao nível da sua mentalidade mesquinha e violenta. Isto é possível mas com outras políticas, com uma outra sensibilidade da parte de quem governa.
A melhoria desta terrível situação provocadora de infelicidade não se resolve com a simples criação de espaços de acolhimento (casas de abrigo), embora constituam, reconheço, uma solução de protecção imediata à vítima. O problema resolve-se indo ao fundo da questão, às causas que fazem despoletar os sinais de uma sociedade tendencialmente primária nos comportamentos. A caminho das 1000 queixas registadas por ano, o que significa uma média de denúncias de quase três casos por dia, é tempo das autoridades terem um novo olhar sobre este flagelo, sobre esta incomodante vergonha.
Foto:
Google Imagens.