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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

UMA CARTA DE CARLOS PAZ AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA


"(...) O Senhor AINDA VIVE À MINHA CUSTA e, mais ainda, vai, para sempre, CONTINUAR A VIVER À MINHA CUSTA. Sou, assim, sua ENTIDADE PATRONAL. Neste contexto, eu e todos os outros que O SUSTENTÁMOS TODA A VIDA, temos o direito de o chamar à responsabilidade: a) Se não é capaz de mais nada de relevante, então: DEMITA-SE e desapareça; b) Se sente que é capaz de fazer alguma coisa, então: DEMITA O GOVERNO; c) Se tiver uma réstia de vergonha, então: DEMITA O GOVERNO e, a seguir, DEMITA-SE. (...)"


Carlos Paz é Professor Universitário. Há tempos publiquei uma carta, muito frontal, ao ex-ministro das Finanças, Victor  Gaspar. O meu Amigo Dr. João Ladeira fez-me chegar este texto publicado no blogue do Professor Carlos Paz. Aqui fica.
Meu caro Ilustre Prof. CAVACO SILVA, 
Tomo a liberdade de me dirigir a V. Exa. através deste meio (o FACEBOOK), uma vez que o Senhor toma a liberdade de se dirigir a mim da mesma forma. É, aliás, a única maneira que tem utilizado para conversar comigo (ou com qualquer dos outros Portugueses, quer tenham ou não, sido seus eleitores). Falando de “eleitores”, começo por recordar a V. Exa. que nunca votei em si, para nenhum dos cargos que o Senhor tem ocupado, praticamente de forma consecutiva, nos últimos 30 anos em Portugal (Ministro das Finanças, Primeiro Ministro, Primeiro Ministro, Primeiro Ministro, Presidente da República, Presidente da República). No entanto, apesar de nunca ter votado em si, reconheço que o Senhor: 1) Se candidatou de livre e espontânea vontade, não tendo sido para isso coagido de qualquer forma e foi eleito pela maioria dos eleitores que se dignaram a comparecer no ato eleitoral; 2) Tomou posse, uma vez mais, de livre vontade, numa cerimónia que foi PAGA POR MIM (e por todos os outros que AINDA TINHAM, nessa altura, a boa ventura de ter um emprego para pagar os seus impostos); 3) RESIDE NUMA CASA QUE É PAGA POR MIM (e por todos os outros que AINDA TÊM a boa ventura de ter um emprego para pagar os seus impostos); 4) TEM TODAS AS SUAS DESPESAS CORRENTES PAGAS POR MIM (e pelos mesmos); 5) TEM TRÊS REFORMAS CUMULATIVAS (duas suas e uma da Exma. Sra. Dª Maria) que são PAGAS por um sistema previdencial que é alimentado POR MIM (e pelos mesmos); 6) Quando, finalmente, resolver retirar-se da vida política ativa, vai ter uma QUARTA REFORMA (pomposamente designada por subvenção vitalícia) que será PAGA POR MIM (e por todos os outros que, nessa altura, AINDA TIVEREM a boa ventura de ter um emprego para pagar os seus impostos). Neste contexto, é uma verdade absoluta que o Senhor VIVE À MINHA CUSTA (bem como toda a sua família direta e indireta). Mais: TEM VIVIDO À MINHA CUSTA quase TODA A SUA VIDA. E, não me conteste já, lembrando que algures na sua “vida profissional”: a) Trabalhou para o Banco de Portugal; b) Deu aulas na Universidade. Ambos sabemos que NADA DISSO É VERDADE. BANCO DE PORTUGAL: O Senhor recebia o ordenado do Banco de Portugal, mas fugia de lá, invariavelmente “com gripe”, de cada vez que era preciso trabalhar. Principalmente, se bem se lembra (eu lembro-me bem), aquando das primeiras visitas do FMI no início dos anos 80, em que o Senhor se fingiu doente para que a sua imagem como “futuro político” não ficasse manchada pela associação ao processo de austeridade da época. Ainda hoje a Teresa não percebe como é que o pomposamente designado chefe do gabinete de estudos NUNCA esteve disponível para o FMI (ao longo de MUITOS meses – grande gripe essa). Foi aliás esse movimento que lhe permitiu, CONTINUANDO A RECEBER UM ORDENADO PAGO POR MIM (e sem se dignar sequer a passar por lá), preparar o ataque palaciano à Liderança do PSD, que o levou com uma grande dose de intriga e traição aos seus, aos vários lugares que tem vindo a ocupar (GASTANDO O MEU DINHEIRO). 
AULAS NA UNIVERSIDADE: O Senhor recebia o ordenado da Universidade (PAGO POR MIM). Isso é verdade. Quanto ao ter sido Professor, a história, como sabe melhor que ninguém, está muito mal contada. O Senhor constava dos quadros da Universidade, mas nunca por lá aparecia, exceto para RECEBER O ORDENADO, PAGO POR MIM. O escândalo era de tal forma que até o nosso comum conhecido JOÃO DE DEUS PINHEIRO, como Reitor, já não tinha qualquer hipótese de tapar as suas TRAPALHADAS. É verdade que o Senhor depois o acabou por o presentear com um lugar de Ministro dos Negócios Estrangeiros, para o qual o João tinha imensa apetência, mas nenhuma competência ou preparação. Fica assim claro que o Senhor, de facto, NUNCA trabalhou, poucas vezes se dignou a aparecer nos locais onde recebia o ORDENADO PAGO POR MIM e devotou toda a vida à sua causa pessoal: triunfar na política. Mas, fica também claro, que o Senhor AINDA VIVE À MINHA CUSTA e, mais ainda, vai, para sempre, CONTINUAR A VIVER À MINHA CUSTA. Sou, assim, sua ENTIDADE PATRONAL. Neste contexto, eu e todos os outros que O SUSTENTÁMOS TODA A VIDA, temos o direito de o chamar à responsabilidade: a) Se não é capaz de mais nada de relevante, então: DEMITA-SE e desapareça; b) Se sente que é capaz de fazer alguma coisa, então: DEMITA O GOVERNO; c) Se tiver uma réstia de vergonha, então: DEMITA O GOVERNO e, a seguir, DEMITA-SE. Aproveito para lhe enviar, em nome da sua entidade patronal (eu e os outros PAGADORES DE IMPOSTOS), votos de um bom fim-de-semana.
Respeitosamente, 
Carlos Paz
Ilustração:  Google Imagens.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

A propósito da Spinumviva e de Cavaco Silva: "Por qué no te callas?"


Talvez seja por uma necessidade de protagonismo, de se manter com a cabeça fora de água, talvez! Há pessoas assim, que não têm noção que, tendo um percurso considerado meritório para alguns, absolutamente detestável para outros, não conseguem perceber que tudo tem o seu tempo e que eles já tiveram o seu. Continuam com aquele desejo de estar sentado na primeira fila, como se a sua presença e sobretudo a palavra tivessem um significativo peso na opinião pública. Falo do Professor Cavaco Silva. Pior, ainda, é que aparece sempre com um certo espírito destrutivo, com lições de moral que não pegam, quando o seu passado exigiria recato. Aos 86 anos, com uma vida de décadas preenchida pelo exercício da política, sempre que aparece, a memória traz-me o Rei Juan Carlos I de Espanha, quando se dirigiu ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, durante a XVII Conferência Ibero-Americana, realizada na cidade de Santiago do Chile, em 10 de novembro de 2007: "Por qué no te callas?"



De Cavaco lembro-me de ter recusado uma pensão vitalícia ao Capitão de Abril Salgueiro Maia, mas ter concordado com uma pensão a dois ex-inspectores de PIDE; lembro-me, ainda, de ter dado um severo golpe nos sectores das pescas e da agricultura e, mais tarde, enquanto Presidente da República, ter dito que Portugal devia apostar nestas atividades, quando foi ele que as matou. E tenho presente o facto de não se ter curvado perante a morte do Nobel da Literatura José Saramago. E era Presidente da República. 

A propósito desta figura que um dia disse que "nunca se enganava e raramente tinha dúvidas", regressei a um texto que publiquei a 10 de Outubro de 2013, na sequência de um notável trabalho do Jornalista Filipe Santos Costa, divulgado na revista do Expresso, de 18 de Maio de 2013, pág. 37/41, sob o título: Quando Paulo Portas escrevia que Cavaco "merecia um estalo". Guardei-o e ontem voltei a lê-lo. Deixo, com a devida vénia ao Expresso e ao jornalista, uma passagem onde se refere a Cavaco Silva: "Egocêntrico", "arrogante", "vaidoso", "teimoso", "ambicioso", mais dado a teimosias do que a convicções. Pensa que a direita tem de o venerar. Tem dias de imitação de ditador. É um homem ordinário".

E de Carlos Esperança, relembro, por outro lado, um seu texto: ele "remói ódios e cogita vinganças" (...) O homem que foi catedrático por decreto, benevolência do Prof. Alfredo de Sousa, PM por intriga dentro do PSD, e PR por arranjo, na vivenda de Ricardo Salgado, esqueceu o passado obscuro para dizer que há "deterioração da qualidade da nossa democracia" (...) "A democracia em Portugal está amordaçada", (...) aquele que um dia inventou escutas para combater o PM, que nunca lhe perdoou perder o vencimento de PR, quando o Governo decidiu a não acumulação de ordenados e pensões, e estas eram mais avultadas, tropeça na gramática, na ética e na cultura, mas não se esquece de bolçar o ódio à democracia. Para ele os adversários são inimigos. (...) Quem permutou a modesta vivenda Mariani por um terreno para construção, onde já se erigia a luxuosa vivenda Gaivota Azul, na praia da Coelha, recebeu mais valias de ações não cotadas da SLN/BPN, dava faltas injustificadas na universidade pública e aulas na privada, faltas que o ministro Deus Pinheiro relevou, esqueceu os negócios que fez, os meios de pagamento que usou e coisas essenciais que o deixaram sob suspeita de ser contemplado pela generosidade de Oliveira e Costa (...)".

Tudo isto que aqui trago tem a ver com um seu recente artigo sobre aquilo que considerou como a "Devassa da vida privada", relativamente aos negócios do candidato Luís Montenegro. A Tal Spinumviva. Cruzei a sua posição com o artigo de João Miguel Tavares, (Público) onde o articulista fez o contraponto: 

"(...) Os negócios activos de um primeiro-ministro em funções não são vida privada. Isto é uma avaliação ridícula; é conversa de laranjinha fanático; e fica muito mal ao mesmo Cavaco Silva que em tempos achou Oliveira e Costa, Duarte Lima e Dias Loureiro políticos espectaculares, fazer esta defesa totalmente descabelada daquilo que foi um comportamento eticamente inadmissível por parte de Luís Montenegro no caso Spinumviva — mesmo que consideremos que esse comportamento não justifica a queda do Governo. Não é só André Ventura que desprestigia as instituições. O artigo de Cavaco fez o mesmo".


Em Setembro de 2023, o jornalista Luís Osório, referindo-se a Cavaco Silva, escreveu:

"É uma pessoa pouco recomendável (...) voltou a aparecer. Às vezes, um livro. Outras vezes, um ajuste de contas. Contra pessoas, contra a esquerda, contra a má moeda, contra qualquer política menos ele próprio – o homem não se cansa de ajustar contas com o seu ressentimento (…) Para diabolizar António Costa. Para espetar uma faca no pobre Rui Rio. Para dar prova de vida. (...) "O homem que beneficiou de alguns privilégios conhecidos, mas que continua a pairar como se lhe devêssemos alguma coisa, como se lhe tivéssemos de ir comer à mão. (…) O homem que não fez nenhuma declaração aquando da morte de José Saramago, nem uma palavra. Uma vergonha, uma canalhice. Porque Cavaco era Presidente da República"!

Finalmente, há uma carta do Economista Carlos Paz que caracteriza bem esta figura. Deixo aqui o endereço:

Ilustração: Google Imagens

quinta-feira, 11 de março de 2021

Uma figura difícil de entender


Para muitos trata-se, certamente, de uma figura política que marcou Portugal pela positiva. Para outros, onde me incluo, de uma personagem que mais valia que tivesse ficado pela sua profissão. Não nutro por ele a mínima simpatia política. O mesmo acontece com alguns outros com um passado muito pouco claro. Pela contrária, outros, ainda, apesar de não corresponderem às minhas convicções, respeito e considero. Por exemplo, nunca votei no Professor Marcelo Rebelo de Sousa, mas respeito-o como o meu Presidente, porque, pelo menos até agora, tem desempenhado o cargo de mais alto Magistrado da Nação, com impressionante rigor e proximidade. Fez esquecer, completamente, o outro!



E o outro é o Professor Doutor Cavaco Silva, ex-presidente da República, enquanto político, sublinho, por quem não nutro qualquer consideração. Aliás, a partir do que li (e escrevi) ao longo dos anos, confirmado na sua prática política, sempre algo nebulosa, por vezes, até irritantemente, biliosa, ao jeito de "(...) não faças o que eu faço", fico perplexo e bastas vezes interrogo-me, de como foi possível manter-se trinta anos na política, sempre com o aval do povo. Nos sufrágios eleitorais, obviamente, o povo é soberano, porém, isso não significa que possua todos os dados sobre os políticos em que vota. Acho, por isso, piada no Carlão no seu "Assobia para o lado":
 
"(...) A maioria não está necessáriamente certa
Questiona o que te dizem, mantém-te alerta (...)"

Presumo que ele, Cavaco, se aguentou exactamente por isso. Porque, digo eu com algum grau de subjectividade, admito, poucos se questionaram sobre a figura que, afirmando-se "não político", por ela andou trinta e tal anos em cargos de poder. Como se fosse possível no exercício do poder figuras não políticas. O paradoxo chegou a esse ponto.

A 10 de Outubro de 2013 publiquei um texto na sequência de um notável trabalho do Jornalista Filipe Santos Costa, divulgado na revista do Expresso, de 18 de Maio de 2013, pág. 37/41, sob o título: Quando Paulo Portas escrevia que Cavaco "merecia um estalo". Guardei-o e ontem voltei a lê-lo. Deixo, com a devida vénia ao Expresso e ao jornalista, uma passagem que se refere a Cavaco Silva.

"Cavaco Silva. "Egocêntrico", "arrogante", "vaidoso", "teimoso", "ambicioso", mais dado a teimosias do que a convicções. Pensa que a direita tem de o venerar. Tem dias de imitação de ditador. É um homem ordinário".

É esta figura, que Portas descreveu, que um dia disse: "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas". Paulo Portas, enquanto jornalista, é capaz de ter razão. Porque, ainda hoje, escrevo por esta razão, esquecendo-se que é Conselheiro de Estado, depois de ter sido Presidente da República, deselegantemente, não se apresentou para cumprimentar Marcelo Rebelo de Sousa após a cerimónia de tomada de posse. A sua ausência só pode ter sido intencional. Porque o ex-Presidente tem gabinete, tem assessores, tem carro e motorista e, portanto, tem quem lhe faça a agenda. E naquele dia, naquela manhã, naquela cerimónia, não apenas por uma questão protocolar, mas por dever e exemplo, Cavaco Silva não podia ausentar-se. 

Mas como escreveu Carlos Esperança, Cavaco "remói ódios e cogita vinganças" (...) O homem que foi catedrático por decreto, benevolência do Prof. Alfredo de Sousa, PM por intriga dentro do PSD, e PR por arranjo, na vivenda de Ricardo Salgado, esqueceu o passado obscuro para dizer que há “deterioração da qualidade da nossa democracia” (...) “A democracia em Portugal está amordaçada”, (...) aquele que um dia inventou escutas para combater o PM, que nunca lhe perdoou perder o vencimento de PR, quando o Governo decidiu a não acumulação de ordenados e pensões, e estas eram mais avultadas, tropeça na gramática, na ética e na cultura, mas não se esquece de bolçar o ódio à democracia. Para ele os adversários são inimigos. (...) Quem permutou a modesta vivenda Mariani por um terreno para construção, onde já se erigia a luxuosa vivenda Gaivota Azul, na praia da Coelha, recebeu mais valias de ações não cotadas da SLN/BPN, dava faltas injustificadas na universidade pública e aulas na privada, faltas que o ministro Deus Pinheiro relevou, esqueceu os negócios que fez, os meios de pagamento que usou e coisas essenciais que o deixaram sob suspeita de ser contemplado pela generosidade de Oliveira e Costa (...)".

Do Professor Cavaco Silva, fica-me, apenas, a sua declaração durante a visita aos Açores: "(...) "Ontem eu reparava no sorriso das vacas. Estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante." E uma outra: "Tudo somado, o que irei receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas (...)".

Ora bem, deixo, finalmente, uma passagem de um texto de Miguel Sousa Tavares: "(...) Bem pode Cavaco Silva desfilar o rol de grandes do mundo que conheceu em vinte anos no topo da política portuguesa: nenhum desses grandes o recordará nem que seja num pé de página de memórias e a nossa história não guardará dele mais do que o registo de uma grandiloquente decepção".

Nota 1
Escrevi este texto com os sons, o poema e a voz de Mariza:

"Há gente que fica na história
Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir" (...) -  "Chuva"

Nota 2
Vale a pena (re)ler a carta aberta do Professor Universitário Carlos Paz:
https://comqueentao.blogspot.com/2014/02/uma-carta-de-carlos-paz-ao-presidente.html

Ilustração: Google Imagens

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"VAI À MERDA JOÃO"


Carta Aberta a um MENTECAPTO 
(João César das Neves)

Recebi uma mensagem com esta carta que publico  na íntegra. Ela  circula pela NET. Tinha conhecimento mas não a tinha lido. Aliás, já aqui me tinha posicionado e comentado as desprezíveis declarações do Economista João César das Neves. A carta de Carlos Paz vem confirmar o que, na altura, me ocorreu.


Meu Caro João,
Ouvi-te brevemente nos noticiários da TSF no fim-de-semana e não acreditei no que estava a ouvir. Confesso que pensei que fossem “excertos”, fora de contexto, de alguém a tentar destruir o (pouco) prestígio de Economista (que ainda te resta). Mas depois tive a enorme surpresa: fui ler, no Diário de Notícias a tua entrevista (ou deverei dizer: o arrazoado de DISPARATES que resolveste vomitar para os microfones de quem teve a suprema paciência de te ouvir). E, afinal, disseste mesmo aquilo que disseste, CONVICTO e em contexto.
Tu não fazes a menor ideia do que é a vida fora da redoma protegida em que vives:
- Não sabes o que é ser pobre;
- Não sabes o que é ter fome;
- Não sabes o que é ter a certeza de não ter um futuro.
Pior que isso, João, não sabes, NEM QUERES SABER!
Limitas-te a vomitar ódio sobre TODOS aqueles que não pertencem ao teu meio. Sobes aquele teu tom de voz nasalado (aqui para nós que ninguém nos ouve: um bocado amaricado) para despejares a tua IGNORÂNCIA arvorada em ciência.
Que de Economia NADA sabes, isso já tinha sido provado ao longo dos MUITOS anos em que foste assessor do teu amigo Aníbal e o ajudaste a tomar as BRILHANTES decisões de DESTRUIR o Aparelho Produtivo Nacional (Indústria, Agricultura e Pescas).
És tu (com ele) um dos PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS de sermos um País SEM FUTURO.
De Economia NADA sabes e, pelos vistos, da VIDA REAL, sabes ainda MENOS!
João, disseste coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “A MAIOR PARTE dos Pensionistas estão a fingir que são Pobres!”
Estarás tu bom da cabeça, João?
Mais de 85% das Pensões pagas em Portugal são INFERIORES a 500 Euros por mês (bem sei que que algumas delas são cumulativas – pessoas que recebem mais que uma “pensão” - , mas também sei que, mesmo assim, 65% dos Pensionistas recebe MENOS de 500 Euros por mês).
Pior, João, TU TAMBÉM sabes. E, mesmo assim, tens a LATA de dizer que a MAIORIA está a FINGIR que é Pobre?
Estarás tu bom da cabeça, João?
João, disseste mais coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “Subir o salário mínimo é ESTRAGAR a vida aos Pobres!”
Estarás tu bom da cabeça, João?
Na tua opinião, “obrigar os empregadores a pagar um salário maior” (as palavras são exactamente as tuas) estraga a vida aos desempregados não qualificados. O teu raciocínio: se o empregador tiver de pagar 500 euros por mês em vez de 485, prefere contratar um Licenciado (quiçá um Mestre ou um Doutor) do que um iletrado. Isto é um ABSURDO tão grande que nem é possível comentar!
Estarás tu bom da cabeça, João?
João, disseste outras coisas absolutamente INCRÍVEIS, como por exemplo: “Ainda não se pediram sacrifícios aos Portugueses!”
Estarás tu bom da cabeça, João?
Ainda não se pediram sacrifícios?!?
Em que País vives tu, João?
Um milhão de desempregados;
Mais de 10 mil a partirem TODOS os meses para o Estrangeiro;
Empresas a falirem TODOS os dias;
Casas entregues aos Bancos TODOS os dias;
Famílias a racionarem a comida, os cuidados de saúde, as despesas escolares e, mesmo assim, a ACUMULAREM dívidas a TODA a espécie de Fornecedores.
Em que País vives tu, João?
Estarás tu bom da cabeça, João?
Mas, João, a meio da famosa entrevista, deixaste cair a máscara: “Vamos ter de REDUZIR Salários!”
Pronto! Assim dá para perceber. Foi só para isso que lá foste despejar os DISPARATES todos que despejaste.
Tinhas de TRANSMITIR O RECADO daqueles que TE PAGAM: “há que reduzir os salários!”.
Afinal estás bom da cabeça, João.
Disseste TUDO aquilo perfeitamente pensado. Cumpriste aquilo para que te pagam os teus amigos da Opus Dei (a que pertences), dos Bancos (que assessoras), das Grandes Corporações (que te pagam Consultorias).
Foste lá para transmitir o recado: “há que reduzir salários!”.
Assim já se percebe a figura de mentecapto a que te prestaste.
E, assim, já mereces uma resposta:
- Vai à MERDA, João!
Um Abraço,
Carlos Paz
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

PARABÉNS, CARLOS PEREIRA


Na política há duas palavras que me fazem sair do sério: interesses e ingratidão. Os partidos políticos estão muito à mercê de ambas. O jogo nos bastidores, as artimanhas meticulosamente construídas, os interesses em afastar e matar politicamente quem, eventualmente, faz sombra ou, simplesmente, de quem não se gosta, toda a engrenagem que se encontra por detrás do palco, mais complexo que um tabuleiro com peças de xadrez, que conduz a muitos venderem a sua consciência aos bocados, porque estão em causa interesses empresariais e ou obediências por favores ou posições atribuídas, tudo isto me repugna. Da mesma forma a ingratidão, como consequência. Quem não se vende, os intelectualmente sabedores e honestos, aqueles que pautam a vida pelo rigor e pelo conhecimento, que não têm medo de enfrentar o futuro, porque conhecem o terreno e os escolhos, que não andam com o  nariz colado ao joelho, que constroem e deixam a sua marca alicerçada na qualidade que rejeita os medíocres e interesseiros, estes são, implacavelmente, afastados. Como vulgarmente se diz, fazem-lhe a folha, devagarinho, com tempo, semeando e regando a mentira, criando o ambiente até o golpe final.

O último dos preferidos pelo povo é que ganhou. Por que será?

Na "primeira oitava" do recente congresso socialista, não posso conter as palavras em favor de um Amigo que muito estimo e considero. Não apenas no plano político. Mesmo distante da Região, segui o desenrolar dos trabalhos. E tenho que o dizer: parabéns, Amigo Carlos Pereira. 
Dirijo-me a si. Sabe, Carlos, tão bem quanto eu, que "não ofende quem quer, mas quem pode", não é assim? Pois, a consciência do trabalho realizado, a luta pela não ingerência nas questões internas e regionais do partido, a ausência de qualquer referência, com substância elogiosa ao anterior presidente e restante direcção do PS-M, (absolutamente deselegante, mas percebo, ora se percebo que não foi um deslize!) no decorrer da intervenção de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS Nacional, sei lá, braço direito ou esquerdo de António Costa, toda esta mixórdia conduz-me à leitura, Amigo Carlos, que tudo foi pensado ao pormenor. António Costa não teve coragem de vir ao Congresso. Ele lá saberá as razões políticas do que terá gizado com outras conivências. 

E tudo isto porquê? Pelo facto do Carlos, em 2015, ter assumido um claro NÃO à oportunista candidatura de Bernardo Trindade como cabeça de lista pela Madeira. A autonomia estatutária venceu a decisão unilateral de António Costa. O Carlos sabe que nesse momento assinou o documento da guerra e não um tratado de paz. E a bomba deflagrou agora. Há muito que ela vinha a caminho à velocidade dos interesses e do "afastamento" pela via "democrática". 

Retomo o meu pensamento. Esse foi o momento-chave da "condenação" de Carlos Pereira, de sempre um dos mais brilhantes parlamentares da Madeira. Manobraram, sentaram-se à porta e esperaram que o funeral passasse. E já passou! Seria bom que alguns tomassem consciência de um outro provérbio bem português: "o acerto de hoje é o erro de amanhã". 
Frequentemente, interrogo-me, se não será estranho que um dos melhores, o mais bem preparado em assuntos de economia e finanças, de onde depende tudo ou quase tudo, presença quase diária na comunicação social pelo seu sentido propositivo e sustentado técnica e politicamente, aquele que trouxe o PS de uma situação muito complexa para um patamar de credibilidade e notoriedade política e social, seja afastado e até, pasmo, pedido por uma alminha pequenina, a sua expulsão do partido. Isto leva-me a pensar na pequenez desde as alminhas de paróquia até aos engravatados, tidos por referências sebastiânicas e que agora surgem entre o denso nevoeiro. Que não se esqueçam, uns e outros, a figura triste que fizeram (que estão a fazer) e que "onde comem, deixam migalhas". E são esses sobejos que permitem diversas leituras, desde o porquê de agora surgirem até ao que lhes move(u). O tempo, grande mestre que é (o PS-M tem a obrigação de ganhar em 2019), estou certo, devolverá ao Dr. Carlos Pereira a dignidade e o reconhecimento político pelo trabalho realizado que abriu portas à vontade de mudança. Dignidade e reconhecimento que o povo reconheceu (vide sondagem), independentemente dos enquadramentos políticos de quem se pronunciou. Saiba o António Costa, a Ana Catarina e outros que "há mais marés que marinheiros". 

NOTA

A minha crítica ao Dr. António Costa enquadra-se enquanto secretário-geral do PS. Nada tem a ver com o trabalho que está a realizar enquanto Primeiro-Ministro em prol de Portugal.

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 29 de março de 2014

DEIXEM-ME TRABALHAR


Tenho por princípio o respeito pelas instituições. Ainda para mais quando resultam de actos democráticos. Outra coisa é nutrir respeito pelas pessoas que ocupam certos lugares e cuja actividade acabamos por olhar de forma enviesada. É o caso desta figurinha, do meu ponto de vista responsável por tudo quanto aconteceu nos últimos anos em Portugal. Há pessoas que se atiram, por exemplo, a José Sócrates com uma tal agressividade política que até arrepia. Como se ele tivesse sido culpado pelos desmandos internacionais, nascidos fora de Portugal, e que arrastaram quase toda a Europa para a maior crise dos últimos oitenta anos. Esquecem-se o que de bom foi feito, caso concreto,  a redução de um défice de 6,83% do PIB para menos de 3% apenas em uma legislatura, com crescimento económico e reforço dos apoios sociais. Esquecem-se da abertura às exportações com múltiplas visitas e protocolos que agora estão a resultar. Esquecem-se da luta pelas energias limpas, pela não dependência externa ao nível dos combustíveis. Esquecem-se da renovação do parque escolar e da obrigatoriedade do 12º ano. Esquecem-se das questões da igualdade e do salário mínimo nacional. Esquecem-se do PEC IV que teria evitado a troika (olhe-se para o caso espanhol). Esquecem-se que houve um político que chegou a ter o País com 9% de défice, e pimba, toca a desancar como se Sócrates fosse o culpado dos "madoff's" do nosso tempo. 



Entretanto, há uma figura, este aqui ao lado, que foi primeiro-ministro durante dez anos e que chegou a ter um défice nas contas públicas superior a 9%, que pouco se ralou com a Agricultura e com as Pescas, que nomeou cinco ministros da Educação em dez anos, responsável, portanto, pelas altas taxas de abandono e insucesso, que teve e certamente continua a ter amigos não recomendáveis, vários que deixaram um rasto de alegada corrupção ainda sob investigação, um político que, hoje, se comporta como membro do governo, que vê o desastre e não actua, que vê a pobreza e assobia para o lado, que vê o desemprego e não chama à atenção, que tem à sua frente milhões, desde as forças militares a outras, descontentes, em permanente manifestação de desagrado e deixa correr o marfim, que assiste à pouca-vergonha do assalto aos reformados e pensionistas e perante tudo isto e muito mais, continua por aí a dizer o óbvio, tipo timex, "que não adianta nem atrasa". 
Mas Sócrates foi o culpado e continuará a ser o culpado! Interessa que assim seja, pois tem de existir um bode expiatório. Obviamente que não estou aqui a ressalvar erros de governação, quem não os teve ou tem! Gosto, sim, é de aferir os comportamentos políticos pelos pratos da balança, E o que fica da propaganda é que Cavaco não tem nada a ver com o que se passa. Um santo! Por isso mesmo, fui reler a carta de Carlos Paz que pode ser aqui lida.
E, já agora, sobre Sócrates, deixo a posição de Óscar Mascarenhas sob a ridícula entrevista (pressupostamente, tratava-se de um comentário aos assuntos da semana) de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates: "O "baile" de José Sócrates a José Rodrigues dos Santos...
Regra número não sei quantos do jornalismo: Nunca faças perguntas encomendadas pelo teu chefe/patrão ou pela tua prosápia, sem antes estudares bem os dossiês e o entrevistado. O José Rodrigues dos Santos, se tiver caráter, deve colocar no seu currículo a mais humilhante figura que fez esta noite quando tentou "atrapalhar" José Sócrates, prestando-lhe o favor de demonstrar que o entrevistado está em forma e em condição de defrontar todos na política dos nossos dia. Foi um "baile" que José Rodrigues dos Santos levou, a ponto de José Sócrates lhe dizer, a terminar, por outras palavras: "Para a próxima, preparem-no melhor." Se fosse comigo, ou fazia dos pés um berbequim para me enterrar ali mesmo, ou levantava-me, com "fair-play", e pedia desculpas ao entrevistado pelo frete ao patrão que não tinha conseguido fazer... (Se eu fosse de fazer fretes ao patrão...) Que lástima, José Rodrigues dos Santos! Quis mostrar como se faz à Cristina Esteves - que já interrompia Sócrates a despropósito, não lhe ficando nada bem o papel - e ainda fez pior. Espero que o catedrático de jornalismo passe o vídeo nas aulas e ensine: "Nunca façam esta figura que eu fiz."
Mas, repito, Sócrates continua a ser o culpado. Porque interessa que assim seja.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O PAPA FRANCISCO E A CONFUSÃO NA CABEÇA DE JOÃO CÉSAR DAS NEVES


Com que então... há "um aproveitamento ideológico da visão do Papa", nos debates económicos, ideológicos e políticos? Este economista João César das Neves é espantoso. Posiciona-se como se o Papa não fosse um Homem político como o foi Jesus Cristo. Todos nós, quando nos posicionamos, somos políticos. Como se tudo à nossa volta não tivesse natureza política. Como se tudo o que o Papa Francisco assume já não tivesse sido dito por tantos na nossa História, sobretudo por aqueles que não se encontram, aqui sim, ideologicamente, colados ao Dr. João César das Neves. Se as abordagens do Papa têm como único objectivo "anunciar uma forma diferente de fazer economia", com base na doutrina social da Igreja, que mal existe que outros assumam, claramente, que até o Papa isso defende? Compromete-o no plano ideológico? Deixa-o com algum ciúme, Dr. César?


Obviamente que as instituições, públicas ou privadas, são livres de o convidarem para conferências, seja a que pretexto for. A muitos custa, obviamente, ter de ouvir ou ler autênticos disparates. Um economista que declarou, já tem algum tempo, que "é criminoso subir o salário mínimo", que "é óbvio que os cortes têm de regressar" (...) é já óbvio que a austeridade terá de ser retomada (Maio/2016), ou, então, que "a maior parte dos pensionistas não são pobres, fingem" e, neste pressuposto, aumentar o salário mínimo “é estragar a vida aos pobres", pergunto, se alguém com este currículo discursivo tem credibilidade, quando há Prémios Nobel a dizerem exactamente o contrário? 
Eu não vou tecer mais considerações sobre as Neves perenes deste César "imperador do conhecimento", apenas vou deixar uma carta publicada em Novembro de 2013 por Carlos Paz, também economista: 
Carta Aberta a um MENTECAPTO: 
Meu Caro João,
Ouvi-te brevemente nos noticiários da TSF no fim-de-semana e não acreditei no que estava a ouvir.
Confesso que pensei que fossem “excertos”, fora de contexto, de alguém a tentar destruir o (pouco) prestígio de Economista (que ainda te resta).
Mas depois tive a enorme surpresa: fui ler, no Diário de Notícias a tua entrevista (ou deverei dizer: o arrazoado de DISPARATES que resolveste vomitar para os microfones de quem teve a suprema paciência de te ouvir). E, afinal, disseste mesmo aquilo que disseste, CONVICTO e em contexto.
Tu não fazes a menor ideia do que é a vida fora da redoma protegida em que vives:
- Não sabes o que é ser pobre;
- Não sabes o que é ter fome;
- Não sabes o que é ter a certeza de não ter um futuro.
Pior que isso, João, não sabes, NEM QUERES SABER!
Limitas-te a vomitar ódio sobre TODOS aqueles que não pertencem ao teu meio. Sobes aquele teu tom de voz nasalado (aqui para nós que ninguém nos ouve: um bocado amaricado) para despejares a tua IGNORÂNCIA arvorada em ciência.
Que de Economia NADA sabes, isso já tinha sido provado ao longo dos MUITOS anos em que foste assessor do teu amigo Aníbal e o ajudaste a tomar as BRILHANTES decisões de DESTRUIR o Aparelho Produtivo Nacional (Indústria, Agricultura e Pescas).
És tu (com ele) um dos PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS de sermos um País SEM FUTURO.
De Economia NADA sabes e, pelos vistos, da VIDA REAL, sabes ainda MENOS! (...)"
Regresso ao princípio, a João César das Neves e ao Papa Francisco, porque César disse que existe "um aproveitamento ideológico da visão do Papa", quando no seu ponto de vista "o Papa não está a falar de economia, ele não pretende falar de economia, aliás diz que é alérgico à economia, o objectivo dele é anunciar Jesus Cristo, é a anunciar uma maneira diferente de fazer economia". Que paradoxo de um "académico"! Então, "anunciar uma maneira diferente de fazer economia" não corresponde a posicionar-se sobre a economia, sobre essa economia que nos trouxe "à miséria humana" (palavras suas e contextualizadas) e aos porquês das vagas de "imigrantes, refugiados, pobreza e escravatura" (palavras suas e contextualizadas)?.
Irrita-me este senhor que critica quem fale ou se aproveite das posições do Papa Francisco, quando é o próprio Papa a dizer que "esta economia mata". Não há paciência para este Professor de Economia! Parafraseando a máxima do Professor Abel Salazar, Patrono do Instituto de Ciências Biomédicas, embora em um contexto médico: "Economista que só sabe de Economia nem de Economia sabe."
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

DE UM EX-PRESIDENTE E ACTUAL CONSELHEIRO DE ESTADO ESPERA(VA)-SE MELHOR


Regressei à base e estou a tentar acompanhar os acontecimentos. Alguns pouco me interessam porque são histórias repetidas até à exaustão; outros, merecem uma reflexão mais séria, quando os protagonistas são figuras de Estado. Neste quadro de preocupações, detive-me na recente intervenção partidária do ex-Presidente da República Doutor Cavaco Silva. Afinal, nada de novo saiu daquela boca. De um Conselheiro de Estado e que pelo exercício da política esteve mais de trinta anos, ressaltou, uma vez mais, um discurso desadequado e de certa forma odiento, aliás, na linha que constitui a sua marca. Respeito quem assim não o caracterize, mas para uma figura de Estado, pelo menos esta é a minha opinião, espera(va)-se visão, sensatez e distanciamento, sem perda de acutilância com palavras e expressões ponderadas. Não foi isso que li. O ex-Presidente foi de gosto amargo! Lamentável.




Entre vários documentos publicados, li um texto no site Estátua de Sal (Cavaco Silva - uma assombração) que aqui deixo para reflexão. E deixo-o simplesmente porque o ex-Presidente não é aquilo que alguns tentam vender. Ele está, no plano político, ao nível de outros que por aí andam a infernizar a vida de todos nós. De um político que foi o mais alto Magistrado da Nação espera(va)-se melhor. Mas é o que temos.

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"Ontem, para fazer esquecer a melhoria da perspetiva da notação da dívida soberana pela agência americana Moody’s, surgida na véspera, apareceu a liderar a oposição de direita o rancoroso Professor Aníbal.
Substituiu Marcelo, convicto de que, à semelhança das águas residuais, que podem ser recicladas, os ativos tóxicos podem ser branqueados.
Aníbal Cavaco Silva, catedrático de Literatura pela Universidade de Goa, Grande Colar da Ordem da Liberdade por desvario de Marcelo, não se livrará do passado onde teve a sorte de as intrigas de Marcelo e as assinaturas falsas o fazerem, na Figueira da Foz, presidente do PSD contra o democrata João Salgueiro.
Marcelo, Júdice e Santana Lopes fizeram-no PM; Marcelo, Durão Barroso e Ricardo Salgado, ingratamente abandonado, prepararam na vivenda do último a sua candidatura vitoriosa a PR.
Mas não se julgue que o político videirinho foi apenas um salazarista beneficiado com a democracia, a que pretendeu abolir, conluiado com Passos Coelho, os feriados identitários do País, 5 de Outubro e 1.º de Dezembro.
Com o reiterado absentismo na Universidade Nova, para dar aulas na Católica, obrigou o reitor, Alfredo de Sousa, que o fizera catedrático, a levantar-lhe o processo disciplinar que o despediria por faltas injustificadas. Teve a sorte de ter como ministro da Educação João de Deus Pinheiro que lhe relevou as faltas e receberia em recompensa o Min. dos Negócios Estrangeiros.
O ressentido salazarista não foi apenas venal na docência, “mísero professor” no léxico cavaquista, foi igualmente no negócio das ações da SLN, para ele e filha, e no suspeito negócio da Vivenda Gaivota Azul, na Praia da Coelha.
Apesar de exigir que se nasça duas vezes para alguém ser tão sério como ele, há boas razões para pensar que sobra uma. Os seus negócios foram tão nebulosos como as razões do preenchimento da ficha na Pide, com erros de ortografia.
Ontem, o Professor Aníbal veio bolçar o ódio que o devora, depois de ter sido obrigado a dar posse ao primeiro Governo de António Costa, de ter então esbracejado e denunciado à União Europeia o perigo de um PM apoiado pelo PCP e BE. Exigiu que António Costa pedisse a demissão, apareceu nas televisões, rádios e cassetes piratas, e regressou aos sais de fruto enquanto a oposição de direita continuará a ser liderada por Marcelo.
O homem é assim, o salazarista inculto e primário que o marcelista culto, empático e igualmente perverso está a substituir com mais êxito."

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Como complemento, disponibilizo um texto do Engenheiro e Professor Universitário Carlos Paz, publicado em 2014, a que deu o título de "Uma Carta ao Presidente da República". AQUI

domingo, 23 de setembro de 2018

JOÃO CÉSAR DAS NEVES NÃO SABE NADA DE POBREZA, NÃO SABE O QUE É TER FOME!


O economista João César das Neves não sabe nada de pobreza. Ontem, sentenciou: "(...) Aumentar salário mínimo "é estragar vida aos pobres". Não foi a primeira vez que o disse. Repetiu, agora, com ar de absoluta convicção, embrulhando palavras e conceitos, ao jeito de uma caterpílar com parafusos soltos. Seja em que contexto for, por mais que a frase tenha um alegado enquadramento técnico, a frase constitui uma agressão a quem "a cada mês lhe falta mais mês. Pode ter um doutoramento e vários mestrados, pode ser catedrático, pode ter escrito muitos livros, pode ter sido, até, técnico superior do Banco de Portugal, de pobreza nada sabe. Nada sabe de fome. Há frases que não se dizem e muito menos se repetem. Elas transportam uma carga ofensiva de quem tem alguma disponibilidade para enfrentar as responsabilidades da vida, relativamente aos que lutam, diariamente, para poder sobreviver.

Nos tempos da crise ele disse isto!

Não sou economista, mas sou cidadão. Durante muitos anos, percorri ruas, becos, travessas, impasses, bairros sociais, escutei desabafos de pessoas, alguns que me comoveram, profundamente, porque sempre parti do pressuposto: se sou feliz por que razão os outros não têm essa possibilidade? Pressuposto, obviamente, que nos conduz a múltiplas análises de natureza, económica, financeira, cultural e social. Visitas que fiz e que muito me fizeram pensar, cruzar informação e estruturar um pensamento relativamente à pobreza. Pobreza em todos os sentidos. Ora, porque tenho a felicidade de transportar esses sentimentos vividos, não tenho a menor dúvida que o economista João César das Neves é um verdadeiro "pobre".
Tenho presente um caso muito recente. Uma família de três pessoas. O marido, infelizmente, cegou já em idade adulta. Um filho estuda música. A mãe desdobra-se entre um horário de cozinha em uma empresa e um serviço de apoio a uma casa. Os € 200,00 mensais que recebe pelos trabalhos de limpeza, palavras dela, transformaram a sua vida. Quem ganha € 600,00, e há tantos que nem a esse patamar chega, qualquer euro a mais pode fazer disfarçar as carências sentidas, em um país de gritante desigualdade. 
Não possuo dados de 2018, mas, em 2017, estava em situação de pobreza e exclusão 23,3% da população. Eram 25,1% em 2016, 26,6 em 2015, 27,5% em 2014. Quase 2,4 milhões de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social. Porém, para o Professor Doutor João César das Neves, é "estragar a vida dos pobres" o aumento do salário mínimo! É espantoso o que este homem anda a transmitir aos alunos. Se ele tirasse umas semanas e andasse pelo país real, apercebendo-se, na prática, o significado da "pobreza monetária" calculada em função dos rendimentos das famílias e o conceito de "privação material", medido pela incapacidade "de pagar a tempo e horas rendas e outras despesas, ou pela incapacidade de ter uma refeição de carne, peixe ou equivalente, de dois em dois dias", provavelmente seria comedido nas suas declarações. 
Não sei, apenas pressuponho, que aquele economista não sabe, porque não sente na carteira, o que é pobreza monetária e a privação material, uma vez que, um Professor Catedrático tem como salário entre € 4.664,97 e € 5.401,54 conforme os escalões em que se situe. Não está em causa o salário do Catedrático, para mim o que está em causa é quem aufere € 580,00 e que tem de pagar casa, energia, água, alimentação, comunicações, vestir, calçar, filhos e outras despesas com prestações, etc.. Portanto, João César das Neves, não sabe nada de pobreza. O problema é que lhe dão palco para ofender as pessoas.
Eu não vou tecer mais considerações sobre as Neves perenes deste César "imperador do conhecimento", apenas vou deixar aqui uma carta publicada, em Novembro de 2013, por Carlos Paz, também economista, a propósito da "maior parte dos pensionistas não serem pobres, fingem". 

Carta Aberta a um MENTECAPTO: 

Meu Caro João,
Ouvi-te brevemente nos noticiários da TSF no fim-de-semana e não acreditei no que estava a ouvir.
Confesso que pensei que fossem “excertos”, fora de contexto, de alguém a tentar destruir o (pouco) prestígio de Economista (que ainda te resta).
Mas depois tive a enorme surpresa: fui ler, no Diário de Notícias a tua entrevista (ou deverei dizer: o arrazoado de DISPARATES que resolveste vomitar para os microfones de quem teve a suprema paciência de te ouvir). E, afinal, disseste mesmo aquilo que disseste, CONVICTO e em contexto.
Tu não fazes a menor ideia do que é a vida fora da redoma protegida em que vives:
- Não sabes o que é ser pobre;
- Não sabes o que é ter fome;
- Não sabes o que é ter a certeza de não ter um futuro.
Pior que isso, João, não sabes, NEM QUERES SABER!
Limitas-te a vomitar ódio sobre TODOS aqueles que não pertencem ao teu meio. Sobes aquele teu tom de voz nasalado (aqui para nós que ninguém nos ouve: um bocado amaricado) para despejares a tua IGNORÂNCIA arvorada em ciência.
Que de Economia NADA sabes, isso já tinha sido provado ao longo dos MUITOS anos em que foste assessor do teu amigo Aníbal e o ajudaste a tomar as BRILHANTES decisões de DESTRUIR o Aparelho Produtivo Nacional (Indústria, Agricultura e Pescas).
És tu (com ele) um dos PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS de sermos um País SEM FUTURO.
De Economia NADA sabes e, pelos vistos, da VIDA REAL, sabes ainda MENOS! (...)"
Regresso ao princípio, a João César das Neves e ao Papa Francisco, porque César disse que existe "um aproveitamento ideológico da visão do Papa", quando no seu ponto de vista "o Papa não está a falar de economia, ele não pretende falar de economia, aliás diz que é alérgico à economia, o objectivo dele é anunciar Jesus Cristo, é a anunciar uma maneira diferente de fazer economia". Que paradoxo de um "académico"! Então, "anunciar uma maneira diferente de fazer economia" não corresponde a posicionar-se sobre a economia, sobre essa economia que nos trouxe "à miséria humana" (palavras suas e contextualizadas) e aos porquês das vagas de "imigrantes, refugiados, pobreza e escravatura" (palavras suas e contextualizadas)?.
Irrita-me este senhor que critica quem fale ou se aproveite das posições do Papa Francisco, quando é o próprio Papa a dizer que "esta economia mata". Não há paciência para este Professor de Economia! Parafraseando a máxima do Professor Abel Salazar, Patrono do Instituto de Ciências Biomédicas, embora em um contexto médico: "Economista que só sabe de Economia nem de Economia sabe."
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

ECONOMISTA QUE SÓ SABE DE ECONOMIA... NEM DE ECONOMIA SABE!


Lamentavelmente, uma vez mais, ficou claro que não temos Presidente da República. Em Belém temos um faz-de-conta envolvido em uma capa irritante aos olhos e à palavra. Confesso que não o suporto e questiono-me como foi possível o povo deixar-se enganar, pela segunda vez, elegendo-o para a mais alta função do Estado? As suas últimas declarações em Oliveira de Azeméis mereceram o repúdio da generalidade dos jornalistas e comentadores. Dois aspectos ressaltaram: por um lado, a assunção, embora não verbalizada, que não é político sendo, paradoxalmente, a sua função POLÍTICA; segundo, a sua leitura enviesada e menor da ECONOMIA. Parafraseando o médico e Professor Abel Salazar, patrono do Instituto de Ciências Biomédicas, "Economista que só sabe de Economia nem de Economia sabe". O Professor falou para os médicos, eu reporto-me ao economista Cavaco Silva. Mas a melhor caracterização é aquela que o Professor Carlos Paz elaborou no seu blogue e que merece ser (re)lida (aqui). Cavaco é o homem que um dia disse: "eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas".


O Presidente fala de acordo com a oportunidade e sempre em defesa própria. É um político timex, nem adianta nem atrasa. Por isso, as suas declarações, são de mau gosto quando fala que Portugal dispensa "as intrigas, as agressividades, as crispações, os insultos entre agentes políticos, que promovem o crescimento económico" quando está em causa "a criação de emprego e a conquista de novos mercados". Ele não percebe que ao defender-se do baixo índice de popularidade que desfruta, a culpa é única e exclusivamente dele. E desde há muito tempo. "Não há nenhuma comparação entre as dificuldades de hoje e as facilidades que Cavaco encontrou nos seus dez anos de governação e que desperdiçou lamentavelmente", disse Miguel Sousa Tavares/Expresso. Concordo. Se, nos dez anos que liderou o governo, tivesse arquitectado e lançado um Portugal com futuro, hoje, teríamos uma situação completamente diferente. Mas essas são outras contas.
Cavaco é, notoriamente, um político sem visão, no desempenho político é estruturalmente fraco e, no plano das relações inter políticos é uma pessoa de maus fígados. Tenho presente o seu discurso na noite eleitoral e que mereceu o seguinte texto de Henrique Sousa: "Um discurso ressabiado e vingativo, coisa nunca vista em noite eleitoral, a ajustar contas com todos os outros cinco candidatos, acusados de terem descido como nunca à “vil baixeza” de uma campanha feita de “ataques” e “calúnias” à sua pessoa – ele, o candidato da “dignidade” que venceu -, e desafiando a comunicação social a revelar os que estariam por detrás da montagem dessa operação de calúnias. Nem sequer esqueceu a demagogia barata, já usada na campanha, de se afirmar como o primeiro candidato a vencer umas eleições sem usar cartazes. Mas claro que se “esqueceu” de explicar aos portugueses por que foi a sua campanha a mais cara, comparativamente com as dos restantes candidatos. Ou seja, Cavaco Silva atirou a pedra e mostrou a mão quando os outros candidatos já não se podiam sequer defender, feitos os discursos finais para as televisões e encerrados os seus “tempos de antena”. Isto depois de ter passado toda a campanha a recusar esclarecer como devia, por razões reforçadas sendo candidato a um cargo político unipessoal, os factosindiciadores das suas ligações perigosas. Que diferença da dignidade manifestada no discurso de Manuel Alegre em que este assumiu a sua derrota política, mas também com clareza o seu compromisso combatente pelo Estado Social!"
Cavaco é assim, politicamente oco, ideologicamente situado numa direita desrespeitadora dos valores sociais, que tem um discurso de frases ou conceitos feitos e muitas vezes contraditórios, que tenta apanhar a onda, mas, sobretudo, distante de uma necessária independência que se exige a um Presidente da República. Às vezes mais parece um membro do governo. Dou razão a Mário Soares quando afirmou: "(...) A Constituição manda que o Presidente aceite a Constituição, respeite a Constituição e faça o que deve. Ora, não é o que está a acontecer" (...) "Naturalmente eu acho que o Presidente da República devia demitir-se porque está numa situação impossível". Enfim, que 2016 fosse já amanhã.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 22 de novembro de 2025

“A sensação do dever cumprido”: vida e obra do Dr. João da Cruz Nunes


Por
Henrique Sampaio
Publicado no Funchal Notícias
21/11/2025

Nota
Um notável contributo para a História. Parabéns Amigo Henrique Sampaio

Ficaram conhecidos como os «Padres do Pombal» e marcaram profundamente uma época da Igreja na Madeira. Desempenharam um importante papel na afirmação pessoal e social de uma geração de jovens e adultos durante a década de 60 e a 1ª metade dos anos 70 do século XX. Acabaram ostracizados pelo bispo de então, Francisco Santana e como alvo privilegiado do bombismo flamista e do partido que tomou conta do poder político na Região.



A comunidade dos «Padres do Pombal» – assim designada por os seus membros terem habitado uma casa localizada no nº 24 da Rua do Pombal, na cidade do Funchal – foi inicialmente constituída por três sacerdotes: os drs. João da Cruz Nunes e João Arnaldo Rufino da Silva, e Gabriel Lino Cabral. Mais tarde, no início da década de 70, juntar-se-lhes-ia o padre Francisco Sidónio Figueira, regressado de Roma, onde estudara Psicologia, no Ateneu Pontifício Salesiano.

Nessa casa alugada, os três padres acabaram por criar, a partir de 18 de Agosto de 1966, um espaço de partilha, de solidariedade, de entrega aos outros, patente em pequenos gestos: a simples conversa, o ouvir música, a refeição em comum. Uma porta sempre aberta e por onde entraram muitos outros sacerdotes e inúmeros leigos, empenhados ou não na construção de um mundo mais justo e fraterno. Um local visitado por outros sacerdotes do Continente ou dos Açores que se deslocavam à Madeira e até por gente que, no pós -25 de Abril de 1974, viria a ocupar lugar de destaque na governação regional, como era o caso, por exemplo, de Luís Dantas – chefe de gabinete de Alberto João Jardim – que acompanhava sua mulher, Alexandra Dantas, colega do dr. Cruz no Liceu do Funchal.

Num texto produzido a partir da intervenção num jantar/debate de uma tertúlia de Madeirenses em Lisboa, um dos seus membros, o dr. Cruz, como era conhecido, descreve “o Pombal” como “o local de encontro, de partilha e de reflexão sobre temas de carácter teológico, eclesial e social, tendo como objectivo a organização de uma acção pastoral diferente, inovadora, adequada aos novos tempos e mais eficiente na formação e transformação dos membros da própria Igreja”. Em declarações reproduzidas no livro “Jardim, a grande fraude, uma radiografia da «Madeira Nova»”, o dr. Cruz afirmou: “Trabalhamos fora e dentro da Igreja. Fomos crescendo. Chegamos a ser à volta de 20 padres que se comprometeram e assinaram documentos e foram até falar com o bispo por causa da pastoral”.

Martins Júnior, que foi contemporâneo de todos eles, numa publicação no seu blog «Senso @Consenso», datada de 21 de Julho de 2016, dois dias após o falecimento do dr. Rufino da Silva – Lino Cabral falecera já em 6 de Julho de 2000 -, designou-os como “«Quatro Cavaleiros do Apocalipse» da segunda metade do século XX na Madeira. Homens de cultura, verticais na sua personalidade de «antes quebrar que torcer», numa incondicional entrega à transformação das mentalidades anquilosadas da ilha, modelos de comportamento cívico e eclesial. Pedagogos e mestres exímios, cada qual na sua área”.
Em comum, os aludidos padres tinham o facto de desempenharem funções de assistentes de movimentos de apostolado católicos. Lino Cabral, era, há já alguns anos, o assistente de todos os organismos agrários (rurais) da Acção Católica – começara por suceder ao Padre Agostinho Jardim Gonçalves como assistente da JACF, quando este, em Setembro de 1960, foi chamado a exercer as funções de assistente nacional da JOCF -, o mesmo sucedendo com o dr. Rufino da Silva, como assistente dos escuteiros, enquanto que Sidónio Figueira foi assistente da LEC (Liga Escolar Católica), por nomeação do então bispo da diocese, D. João Saraiva. Por sua vez, o dr. João da Cruz regressara de Lisboa a 13 de Fevereiro de 1966, onde fora defender a tese de licenciatura em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um trabalho com o título «Os falares da Calheta, Arco da Calheta, Paul do Mar e Jardim do Mar», esta última a freguesia de onde era natural. Partilhavam ainda o facto de serem todos professores. Rufino da Silva era professor de Música nos dois Seminários diocesanos e no Conservatório de Música da Madeira. Lino Cabral leccionava Religião e Moral na Escola Industrial e Comercial do Funchal (hoje Escola Secundária Francisco Franco) e Sidónio Figueira dava aulas de Português, inicialmente na referida Escola e mais tarde no Liceu (hoje Escola Secundária Jaime Moniz). Já João da Cruz era também docente de Português, mas igualmente de Francês, tendo começado no Liceu e posteriormente na Escola Preparatória da Calheta – e tinham sido ainda professores do Seminário.


Inicialmente, João da Cruz esteve para ser colocado no Liceu como professor de Religião e Moral, o que não aconteceu por oposição do então reitor, André Cymbron, tendo o novo bispo do Funchal, D. João Saraiva o nomeado assistente diocesano da JECF (Juventude Escolar Católica Feminina) e responsável pelo Centro Académico do Funchal, um organismo então dividido em dois espaços (masculino e feminino), ambos localizados na Rua dos Ferreiros, no Funchal. Escassos meses volvidos, o bispo questionou-o se preferia trabalhar com a LEC que abrangia o sector dos professores ou com os organismos operários da Acção Católica. E o dr. Cruz assume a opção pelos «mais pobres» e torna-se assistente diocesano dos quatro organismos operários: JOC e JOCF e LOC e LOCF. Uma escolha que decorre da convivência mantida em Lisboa com um outro padre madeirense, Jardim Gonçalves que, no final dos anos sessenta, rumara à capital portuguesa para assumir o lugar de assistente nacional da JOCF, mais tarde da LOC e da LOCF e de assistente europeu do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos e que, posteriormente, seria nomeado pela Santa Sé o 1º Assistente Geral do MMTC, com sede em Bruxelas, cargo que desempenhou durante largos anos. Na dedicatória do livro que reproduz a aludida tese de licenciatura, o dr. Cruz não deixa margem para dúvidas (passo a citar): «Ao padre Jardim, amigo de sempre, que me ajudou a descobrir valores existenciais e a ganhar amor à classe operária» (fim de citação).

A Acção Católica, criada em 1933 pelo Papa Pio XI, chegaria a Portugal em Novembro desse ano, pela mão do então Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, instalando-se vagarosamente na Madeira a partir do final de 1936. Nos seus primórdios assumiu-se, sobretudo, como um espaço de reflexão litúrgico-religioso e de prática caritativa, assistencialista, patente designadamente na efectivação de campanhas de angariação de fundos visando possibilitar a retirada de seis famílias que viviam em furnas no Toco, no Funchal, ou na colaboração prestada na recolha de fundos para a criação da Universidade Católica de Lisboa, ou na dimensão litúrgica-religiosa, a celebração, na 1ª sexta-feira de cada mês, de uma missa, na Sé Catedral, destinada à juventude operária, a que se seguia um pequeno-almoço oferecido aos participantes, na sede da JOC, sita à Rua do Bispo, 27.

É na sequência da participação de algumas dezenas de militantes, no 1º Congresso Nacional da JOC/F, realizado em Lisboa em 1955, e dois anos depois no Congresso Internacional em Roma, que se dá a abertura a novos horizontes e a introdução de uma maior dinâmica por parte dos movimentos, masculinos e femininos, suscitando uma outra atenção para a realidade social em que viviam as famílias operárias, desprovidas em grande parte de condições de vida e de trabalho minimamente dignas, contrastando com a emergente afirmação da Doutrina Social da Igreja que o Concílio Vaticano II haveria de consagrar em plenitude.

É também por esta altura (1956) que, por iniciativa do então bispo da diocese do Funchal, António Manuel Pereira Ribeiro, se dá a expansão da A. C. no meio rural madeirense, tendo sido incumbido de constituir as direcções diocesanas da JAC e da JACF o Pe. Jardim Gonçalves.

Um ano antes (1959), de ser nomeado assistente nacional da JOCF, Jardim Gonçalves organizou no Funchal um Encontro de Estudos dos diferentes movimentos da A. C. existentes na Madeira, cujas conclusões apontavam para a existência de um vasto conjunto de problemas que afectavam seriamente a vida das populações rurais e urbanas: desde o injusto (feudal e desumano) regime de colonia; inexistência de luz eléctrica em inúmeras localidades; escassez de água potável, de vias rodoviárias, de transportes e de saneamento básico; graves carências habitacionais, de acesso à saúde, à educação e a uma alimentação saudável, aliadas a um elevado consumo de álcool, em particular de vinho.

No decorrer do Concílio Vaticano II (iniciado em 11 de Outubro de 1962), é criado em Portugal o CCO (Centro de Cultura Operária), designação adoptada à semelhança do «Centre de Culture Ouvrière» de França (hoje, Culture et Libertè) – tinha como missão “elevar a cultura geral dos trabalhadores e prepará-los doutrinária e tecnicamente para o desempenho consciente das múltiplas tarefas que se exigem aos operários conscientes da sua missão e das suas responsabilidades” e beneficiou de apoio internacional, no qual o Pe. Jardim Gonçalves, em resultado das funções exercidas no Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos, desempenhou um papel essencial.

À semelhança do ocorrido a nível nacional, a realização do Concílio com o seu «aggiornamento» despoletou a adopção por parte dos diferentes organismos da A. C. na Madeira de uma nova dinâmica, sem dúvida mais interventiva e mais atenta à sociedade envolvente, caracterizada pela existência de inúmeras carências e de profundas injustiças, em muitos casos bem mais graves do que as verificadas no território continental.

Num texto incluído no livro «A Madeira na História – Escritos sobre a Pré -Autonomia», João da Cruz caracteriza deste modo esses tempos: “A taxa de analfabetismo era elevadíssima, a educação confinava-se muito ao ambiente familiar e à catequese, o atraso grassava nas várias camadas da população, incapaz de reagir ao clima de medo, intolerância e dependência que se respirava. Estava-se sempre à espera que os mais importantes, os detentores do poder se dignassem olhar para os mais pobres e desfavorecidos. A dependência económica, social e cultural, o sentimento de impotência, a marca da escravidão, constituíam como que um estigma inerente à natureza das pessoas.

“E toda esta situação era cinicamente gerida por um poder político que procurava e encontrava um apoio imprescindível por parte do poder religioso. Era um conluio e promiscuidade escandalosos!”.

A consciência plena destas realidades e o apontar de caminhos para a sua superação foram exemplarmente expressos pelos drs. João da Cruz Nunes e João Arnaldo Rufino da Silva nos depoimentos prestados ao semanário «Comércio do Funchal» no âmbito de um inquérito sobre a “Situação da vida cultural da Madeira” que o «jornal cor-de-rosa» publicou, ao longo de vários meses, em 1967.

João da Cruz Nunes (edição de 27 de Agosto de 1967) assume frontalmente que “a pobreza e o subdesenvolvimento da maior parte da nossa gente põe de lado o acesso ao ensino, à instrução e, portanto, à sua promoção cultural. A estrutura da nossa sociedade não possibilita à maioria da nossa população um despertar para os valores individuais e colectivos. Essa realidade será já de séculos e, remontando aos primórdios da colonização da ilha, compreendemos melhor essa situação”. E, de seguida, afirma: “O povo habituou-se a um género de vida que não lhe permite a iniciativa responsável. O «laisser faire» de hoje já não é de hoje. O regime de colonia (que ainda vigora normalmente!) está na base de toda a economia e sociedade madeirenses”. João da Cruz acrescenta que “a resignação é um grande defeito dos madeirenses”, que “a nossa insularidade coarctou-nos as iniciativas” e que “tudo isto permitiu uma espécie de obscurantismo, um apoio doentio e malfadado na tradição”.

Noutro passo do referido depoimento, o então assistente diocesano dos organismos operários da A. C. considera que “se deveria estudar urgentemente o problema do alcoolismo que creio afectar, profundamente, a capacidade intelectual de muitos madeirenses. A subnutrição de muitos, compensada com o uso do álcool, ou mesmo o próprio vício da bebida, reflecte-se grandemente no rendimento intelectual dos filhos”.

Daí a ênfase que coloca na importância da Cultura que no seu entender “visa a libertação do homem dos obstáculos que impedem a sua realização” e, sublinhando que, “se a «Cultura é o primeiro nome do Desenvolvimento», o conhecimento está acima de tudo – assim toma a prioridade o ensino”, advogando a necessidade da sua “democratização” porque “tem de haver todas as facilidades de acesso ao ensino em todos os graus, à cultura, portanto”, questionando: “como pode a maioria duma sociedade contentar-se com um simples aprender a ler e contar?”. E, ao referir-se à circunstância de “já não são poucas as nações onde a escolaridade obrigatória se prolonga até aos 18 anos”, o dr. Cruz dava nota de uma ambição que a Região, o País, só viriam a concretizar muitas décadas depois!

Nesse mesmo depoimento, João da Cruz alude aos objectivos culturais do trabalho dos organismos operários da A. C., particularmente da JOC, realçando que graças à boa-vontade e generosidade de alguns jovens “têm-se organizado, ora a nível diocesano, ora a nível de secção, cursos para adultos (4ª classe), um curso de língua inglesa e de 1º ciclo liceal, cursos de formação humana, de regras de educação, de leitura e colónias de férias” e termina realçando o papel do já constituído em Lisboa, CCO. Um Centro que, adianta, procura transmitir aos trabalhadores “uma cultura de sentido universal que permita compreender os outros grupos sociais, as outras raças, as outras nações e sobretudo uma cultura comprometida que permita que cada um seja responsável e favoreça a participação dos trabalhadores na vida da sociedade”.

Nesse mesmo ano de 1967, o dr. Cruz participa no Congresso Nacional da LOC francesa, partilhando em Paris o quarto habitado por Jardim Gonçalves, então já uma figura destacada da Igreja portuguesa e não só, pelas funções que desempenhava no plano nacional e internacional.

É ainda em 1967 que uma das principais vertentes da acção do CCO na Madeira dá os primeiros passos, através do ministrar de aulas, em regime pós-laboral, do 1º ciclo do ensino liceal, inicialmente nas instalações do Centro Académico masculino do Funchal.

Esta aposta na promoção educacional e cultural foi determinante para possibilitar a ascensão social de inúmeros jovens (rapazes e raparigas) que, de outro modo, nomeadamente por dificuldades económicas, mas também por começarem cedo a trabalhar, não teriam ido além da 4ª classe. É que essas aulas, para além de serem ministradas à noite, eram gratuitas.

No ano seguinte, esta actividade passou a ter lugar na sede do já existente CCO da Madeira, situada também na Rua do Pombal, no número 13, num espaço cujo aluguer fora tratado por António Alberto Monteiro de Aguiar, militante dos organismos operários da A. C. e que seria o 1º presidente do CCO.
Numa 2ª fase, tiveram lugar no CCO, não só cursos de 4ª classe para adultos, mas também aulas de alfabetização com base nos métodos do pedagogo brasileiro Paulo Freire, dinamizadas, sobretudo, pelo casal Liberato Fernandes e Clarisse Canha que, após o 25 de Abril de 1974, seriam fundadores da União do Povo da Madeira (UPM).

Quer as aulas da 4ª classe quer as do 1º ciclo liceal funcionavam em turmas mistas, ao contrário do que era a prática corrente no ensino durante a vigência do «Estado Novo». Aulas ministradas, não só por militantes e dirigentes dos organismos operários da A. C., mas também por sacerdotes do grupo «Padres do Pombal» ou a eles ligados e ainda por outros cidadãos que colaboravam nas actividades do CCO. Desse grupo constaram nomes como o jornalista José Manuel Barroso, a advogada Maria Emília Sales Caldeira, o casal Arnaldo e Eugénia Capelo (ele empregado bancário, ela professora), as também professoras Zita Nunes e Elisa Brazão, a enfermeira Fernanda Pereira, as funcionárias da Câmara Municipal do Funchal, Conceição Pereira e Trindade Candelária, o ex-seminarista Casimiro Fernandes e os padres João da Cruz, António Ramos da Silva e Sidónio Figueira.

O casal Fátima Pestana e José João Vieira que fizeram parte do grupo inicial de 20 a 30 alunos que receberam preparação para se submeterem, como alunos externos e maiores, ao exame do 1º ciclo liceal (actuais 5º e 6º anos) recordaram-nos que é ao CCO que devem a evolução profissional e social que conseguiram – Fátima que começara, muito jovem, a trabalhar no comércio de vestuário foi, mais tarde, funcionária da secretaria da Escola Jaime Moniz, enquanto o José João seria empregado bancário, tendo iniciado a vida laboral como empregado numa farmácia. O mesmo sucederia com inúmeras outras pessoas que viriam, inclusive, a obter formação superior, como foram os casos, por exemplo, da enfermeira Conceição Remesso, que chegaria a ser chefe do serviço de obstetrícia do Hospital Nélio Mendonça, no Funchal, de Gorete Gonçalves que se formou em ciências da educação ou de Maria da Luz Fernandes em educadora de infância.

Despertar consciências, consciencializar os militantes para a realidade envolvente, procurando empenhá-los na procura da transformação da sociedade em que estavam inseridos foi a outra grande vertente da actividade desenvolvida pelo CCO na Madeira.

É nessa linha que se inscrevem as múltiplas sessões de esclarecimento e de debate promovidas ao longo da sua existência. Em que não existiam temas tabu. Tudo era, poderia ser, objecto de debate, de discussão, de confronto de ideias. Fossem questões mais directamente ligadas à vida da Igreja, como as encíclicas papais ou a Teologia da Libertação, em voga na América Latina, ou à vida política portuguesa, ao regime ditatorial e à guerra colonial, ou tão somente a questões de âmbito económico, social ou cultural.

Um outro instrumento a que os movimentos operários da A. C. e naturalmente também o CCO recorriam, consistia na divulgação da canção de protesto e de intervenção e que, não raras vezes, servia de mote à reflexão política e social.

No texto da sua autoria que integra o livro já citado, «A Madeira na História …», editado em Abril de 2008, o dr. João da Cruz escreve: “(…) audições em comum de discos de música de contestação faziam parte normal do nosso trabalho. Um dos primeiros discos utilizados foi o de Luís Cília, trazido directamente de Paris, no ano de 69. Ao lado deste e matéria de referência fundamental e de reflexão eram os discos do Zeca Afonso, do Adriano e do Manuel Freire. Tudo podia contribuir para a consciencialização social e política dos militantes”.

Em 1970, os organismos operários da A. C. editam, numa impressão a offset, um pequeno livro a que atribuem o nome de «Cancioneiro», uma colectânea contendo os versos de 46 canções populares e de intervenção e 21 de cariz religioso que eram entoadas em assembleias, reuniões de estudo e nas celebrações litúrgicas organizadas pelos referidos movimentos e, algumas delas, também pela JARC (Juventude Agrária Rural Católica).

Trinta e três anos mais tarde, em Abril de 2003, Luís Sidónio de Castro, o último presidente da JOC na Madeira antes da sua dissolução em 1975, procedeu à reedição e num breve prefácio a que deu o título «Para que não se esqueça», sublinhou a importância da “reflexão e crescimento cívico, humano e, também, formação política e social, em que muitos destes versos eram cantados com incontível alegria e entusiasmo, lutando por um mundo melhor e mais justo”. A concluir esse curto texto, Sidónio de Castro escreveu: “Não esquecer esse tempo é também recordar as muitas amizades que se forjaram, os amigos que, por opção, ou por imposição, saíram da sua terra. De entre eles, merece que se destaque o nome do ex-padre Dr. João da Cruz Nunes que, enquanto assistente daqueles organismos da A. C. e, posteriormente, no arranque do Centro de Cultura Operária foi um conselheiro, um orientador, mas, e sobretudo, um AMIGO. Era uma homenagem que faltava”.

Numa outra passagem do seu depoimento, o dr. Cruz refere-se à importância que era dedicada à solidariedade internacional, nestes termos: “Nesta perspectiva de solidariedade internacional, todos os movimentos e acções que visavam a libertação dos povos e oprimidos, independentemente de credos, raças ou nações, constituíam objecto das nossas reflexões. Os movimentos revolucionários da América latina, sobretudo, e os sectores da Igreja conotados com a Teologia da Libertação eram tema de acompanhamento assíduo, e por vezes, eram exemplos apelativos à acção.

“No Brasil, onde vigorava então a ditadura militar, os bispos D. Hélder da Câmara e D. Óscar Fragoso eram das personalidades cujas intervenções mereciam especial atenção. E nos outros países latino-americanos, os exemplos também eram abundantes. Eram os casos de D. Óscar Romero de S. Salvador, Ivan Illich do mosteiro de Cuernavaca, no México e de Camilo Torres na Colômbia. Como era natural naquela época, mereciam toda a atenção as experiências sócio-políticas do Chile, Cuba, Nicarágua, Argentina e Uruguai (e neste caso em especial o movimento dos Tupamaros).

“A nível europeu, os elementos de reflexão eram veiculados através da revista «Concilium» onde predominavam as figuras dos teólogos Yves Congar, Schillebeeckx e Hans Kung. Merecia ainda um acompanhamento especial a experiência dos padres operários em França.

“Propriamente e no que diz respeito à formação e cultura operárias, havia os contactos directos com a JOC Internacional e o MMTC, ambos sediados em Bruxelas e ligados às estruturas nacionais dos mais diversos países do mundo”.

Nesse ano de 1967, o dr. Cruz, em conjunto com os seus colegas e amigos, Rufino da Silva e Paquete de Oliveira, é responsável pela criação de um programa denominado «O Homem e a Vida», cuja transmissão na Estação Rádio da Madeira era da responsabilidade do jornalista Armindo Abreu. Um programa, de periodicidade semanal, e que tinha como objectivo versar “temas da actualidade enquadrados numa linha de pensamento e orientação conciliares” e, cujos textos, não assinados, o “Jornal da Madeira” reproduziu à posterior. Em cada número havia um tema central, tendo sido analisados assuntos diversos, como, por exemplo, a emigração, os meios de comunicação social, o diálogo ecuménico, a morte, a dor e a doença, o desenvolvimento, a cultura, o trabalho ou a deslocação a Fátima do Papa Paulo VI ocorrida em 1967.

A adesão do Padre João da Cruz Nunes à mensagem do Concílio Ecuménico Vaticano II foi plenamente assumida. A 8 de Dezembro de 1965, precisamente no dia em que o Papa Paulo VI decretou o seu encerramento, aos microfones do Posto Emissor do Funchal, no programa «Concílio é Advento», o dr. Cruz pronunciou uma alocução que o «Jornal da Madeira» publicaria na edição do dia seguinte, sob o título “Concílio – Era Nova”. Nela, afirmou: “Para mim e para muitos padres como eu, para muitos católicos que vivem e sentem as aspirações da Igreja, o facto (o Concílio) constituiu um sinal visível, uma prova palpável da assistência Divina do Espírito Santo à Igreja de Cristo.

“Este «aggiornamento», este enfrentar com objectividade e destemidamente, as realidades do mundo presente, dando-lhes uma perspectiva cristã, uma dimensão divina, só pode ser obra de Deus”. E sobre o papel reservado aos cristãos, afirmou: “Aos cristãos pertence assegurar os frutos do Concílio, eles é que hão-de manter essa era nova que se inaugurou (…) A Igreja pede-nos um cristianismo mais objectivo, mais realista, mais completo, mais concreto e mais humano. Tem de haver coerência das ideias com a acção (…) Há intuições evangélicas que não podemos esquecer: a cegueira contra a injustiça triunfante, insensibilidade à miséria, desconhecimento das exigências da fraternidade e das violências do amor”.

Por fim, em jeito de exortação, disse: “Abandonamos-Te, Senhor, de cada vez que recusamos um compromisso, uma responsabilidade, uma tomada de posição. Nada arriscamos. Temos muito egoísmo e falsa pendência. Lavamos demasiado as mãos, à maneira de Pilatos. Desembaraça-nos, Senhor, deste medo, deste mutismo, desta falsa prudência! Ajuda-nos a lutar, a falar, a testemunhar o teu Evangelho. Ajuda-nos a viver como Tu, mesmo se como Tu, tenhamos que ser condenados”.

E foi, à luz, dessa “coerência”, desse “compromisso” com o temporal que o dr. Cruz subscreverá, e com ele outros quatro sacerdotes – Rufino da Silva, Lino Cabral, António Ramos da Silva e José Maria Araújo – a «Carta a um Governador». Acompanharam-nos seis militantes dos organismos operários da A. C., o já referido Monteiro de Aguiar, António Henrique Sampaio, Clarisse Canha, Inês Marques, Magda Gonçalves e Salomé Pereira. Significativamente, constata-se que, de entre os 39 subscritores, 11 faziam parte do denominado grupo de «católicos progressistas» e, na lista de 10 mulheres que aderiram ao documento, 4 integravam esse grupo. Um texto que não se limitava a escalpelizar a realidade do Arquipélago nas suas diferentes áreas, política, económica, social e cultural, como também apontava soluções, a começar pelo assegurar de um efectivo Estatuto de Autonomia, uma vez que o existente era considerado como “quase meramente nominal”.

Este envolvimento de sacerdotes e militantes católicos não foi, como era previsível, bem recebido por parte da hierarquia da Igreja Católica na Madeira. Uma posição que contrastou com o silêncio sepulcral que manifestara com o facto de um membro do seu presbitério, o dr. Agostinho Gonçalves Gomes ter ocupado em duas legislaturas (entre 1957 e 1965), o lugar de deputado eleito à Assembleia Nacional pelo distrito do Funchal, nas listas do partido único, a União Nacional. A atestar a cumplicidade do clero da diocese com o regime ditatorial vigente, atente-se no constante na «Confidencial da Direcção-Geral de Segurança, nº 9/71-CI, datada de 28 de Janeiro de 1971: “Tenho a honra de enviar a V. Exª. uma relação dos sacerdotes católicos, suas paróquias, o número de almas da diocese e bem assim a indicação da posição política de cada um em relação ao regime vigente.

“Apurou-se que o número de almas no total das 102 paróquias é de 246.842 e que o total de padres é de 97, dos quais 11 são desafectos, 3 duvidosos e 82 afectos mais ou menos”.

Nestas circunstâncias, constituiu certamente motivo de acrescido desagrado, quer para o regime, quer para a hierarquia religiosa, que, nas vésperas das eleições para a A.N. de 1969 – que contaram com a participação de uma lista apresentada pela oposição democrática -, um grupo de oito padres católicos tenha endereçado uma carta aos «Senhores Candidatos a Deputados», na qual, recorrendo a inúmeras citações dos Evangelhos, de encíclicas papais e de documentos conciliares, declaram: “O Evangelho que anunciámos não é neutralidade mas exigência de partilha, de justiça, de liberdade, de verdade e de paz”, acrescentando que a posição adoptada “é motivada pela obediência e fidelidade ao Evangelho e à Igreja”.

Nessa missiva, os signatários insurgem-se, por um lado, contra a censura vigente, afirmando que “sem uma informação séria e honesta, livre e sem intimidações, não há elementos suficientes para um juízo e, portanto, não poderá cumprir-se o direito elementar de «saber a quem se dá o voto»”, e, por outro, contra “uma sociedade em que o lucro pessoal e individual seja a regra máxima da organização social, económica e política”, proclamando: “A unidade religiosa e a caridade exigem um nivelamento económico-social no ambiente profano em que vivem os cristãos”, sendo, por conseguinte, “inaceitável dizer que o Evangelho pode ser igualmente vivido por ricos e pobres, opressores e oprimidos”.

A carta, datada de 22 de Outubro de 1969 (exactamente seis meses após a «Carta a um Governador») foi subscrita por quatro sacerdotes que também a haviam assinado – drs. João da Cruz e Rufino da Silva, e António Ramos da Silva e José Maria Araújo – e por outros quatro padres a quem estavam atribuídas paróquias, a saber: António Pedro Alves, São João, Ribeira Brava; José Martins Júnior, Ribeira Seca; José Vieira Pereira, Caniçal e Mário Tavares Figueira, São Tiago (Corticeiras), Estreito de Câmara de Lobos.

No rescaldo dessas eleições, a 6 de Novembro de 1969, a Subdelegação da PIDE no Funchal emite o «Relatório Extraordinário nº 16/69,elencando os “indivíduos” que “desenvolveram actividades políticas a favor da oposição democrática”, dele constando os nomes dos citados oito sacerdotes, de mais dois padres – Tomé Célio Sumares e José Manuel Paquete de Oliveira -, dos médicos José Azeredo Pais e Fernando Azeredo Pais, do notário Eduardo Paiva Jardim e do conservador do registo civil, Manuel Gonçalves Amaro – em resposta a direcção nacional da polícia política solicitará a informação das “identidades completas” dos citados “indivíduos”.

Polícia política que, na Madeira, dedicava particular atenção às actividades dos organismos operários e agrários da Acção Católica, procedendo à recolha de material respeitante aos seus planos de trabalho e a encontros de estudo efectuados. Simultaneamente, a partir da «Confidencial nº 50/71-CI (1)», de 23 de Maio de 1971, fica a saber-se que a vigilância policial incide de modo especial em dois padres, João da Cruz Nunes e Agostinho Jardim Gonçalves, apresentado como o «seu principal mentor», «o qual periodicamente se desloca a esta Ilha, promovendo pequenas reuniões entre os elementos eclesiásticos desafectos, os chamados padres “PROGRESSISTAS”». Numa outra «Confidencial» (nº 14/71-C.I.), de 4 de Fevereiro, o chefe da subdelegação do Funchal realça que «de momento o problema que maior tempo e atenção nos absorve, é precisamente o comportamento de uma dezena de sacerdotes, dos quais só um tem paróquia, mas posso asseverar a V. Exª. que não conseguirão êxito algum na acção que pretendem levar a cabo».

Dois anos mais tarde («Confidencial 65/73-DSI-1ª D.I.de 13.3.73»), a referida subdelegação pormenoriza os “motivos” dessa apertada vigilância: «Tenho a honra de informar V. Exª. que foi nomeado professor eventual do Liceu Nacional do Funchal o Padre Dr. João da Cruz Nunes, leccionando a disciplina de Francês a três turmas de 3º ano; 6 de 4º e 5 de 5º ano, masculinas e femininas.

«O referenciado foi subscritor da carta enviada pelos Padres progressistas à Comissão Eleitoral Democrática da Madeira, em Outubro de 1969, cujo conteúdo foi lido na 2ª reunião dos partidários daquela facção política, quando da última campanha eleitoral.

«É Director do Centro de Cultura Popular, local onde promoveu um curso que se destinou a prestar ensinamentos aos indivíduos que pretendiam emigrar legalmente; contudo só apareceu jovens na idade militar, vindo-se a saber que a estes, aconselhava a emigração clandestina, como meio de não cumprirem os seus deveres militares, furtando-se deste modo, a não irem para o Ultramar, ideia esta, que concorda em absoluto, pois não aceita a nossa posição naquela parcela do Território Português.

«Não nos restam dúvidas, que o Padre Cruz é elemento importante no plano político local, dada a sua infiltração nos estabelecimentos de ensino, movimentos católicos e consequentemente nos contactos diários com jovens de todas as idades, lançando o gérmen das suas ideias democratas e progressistas».
As eleições de 1969, pela envolvência que suscitaram, acabarão na Madeira por contribuir para o estabelecimento de uma ligação cada vez mais próxima com o semanário «Comércio do Funchal» por parte de muitos dos activistas do CCO e simultaneamente desencadeiam um salto na intervenção social e cultural deste último. A este propósito, o Dr. Cruz disse-nos que, nos anos subsequentes, o suplemento «Aqui e Agora» do «jornal cor-de-rosa»(4 páginas dedicadas exclusivamente à actualidade regional) foi frequentemente preenchido com textos escritos por militantes operários e com entrevistas e reportagens incidindo sobre as condições de vida e de trabalho das classes trabalhadoras, cuja publicação, não raras vezes, foi impedida pelos serviços de censura, sendo que este maior foco na abordagem da realidade social se ficava sobremaneira a dever ao facto da sua coordenação estar entregue a Liberato Fernandes que, no final da década de 60, fora dirigente nacional da JOC e que, entretanto, passara a integrar a redacção do «C.F.». Uma ligação que se estreitava ainda mais nas noites de 5ª. feira, quando, nas instalações do jornal, um leque alargado de activistas dos movimentos operários da A. C. e do CCO procedia graciosamente ao intercalar, dobragem e etiquetagem de cada número publicado, recebendo como compensação um exemplar do jornal.

O mérito do trabalho desenvolvido pela A. C. no País, e naturalmente também na Madeira, é a todos os níveis inquestionável. Alicerçado fundamentalmente no recurso ao método de «revisão de vida», assente em três níveis: Ver, Julgar e Agir.

No texto do livro, «A Madeira na História …», a que nos temos vindo a reportar, o dr. Cruz descreve-o nestes termos: «As realidades e acontecimentos da vida eram analisados, julgados à luz da fé e do Evangelho e implicavam, finalmente, um compromisso pessoal ou social na acção a realizar pelos militantes. E a acção a desenvolver não se limitava, simplesmente, aos locais de trabalho, mas alargava-se a todos os campos de acção que pudessem ser influenciados por uma visão mais humana da vida operária.

“O objectivo principal visava, permanentemente, a transformação das estruturas sociais que condicionavam a construção duma sociedade mais justa, mais livre e mais solidária. A formação dos militantes e o seu compromisso iam evoluindo, à medida que descobriam os valores humanos e cristãos presentes nas pessoas e na sociedade. E nesta formação estava sempre subjacente a ideia de que «uma vida não reflectida não é uma vida digna de ser vivida»”.

A história da A. C é naturalmente fruto do trabalho desenvolvido por leigos e sacerdotes. O contributo de uns e de outros é indissociável. E não sendo linear esse percurso, é indiscutível que os anos 60 e a 1ª metade de 70 do século XX constituem o período mais marcante da sua actividade na Madeira, muito embora não possa ser ignorado o trabalho percursor desenvolvido pelo Padre Jardim Gonçalves durante os quatro anos (entre 1956 e 1960) em que foi assistente diocesano da JACF. Independentemente de acontecimentos posteriores, de afastamentos mais ou menos dolorosos, há factos que não podem ou não se devem omitir, nomeadamente ignorar ou apagar o papel dos assistentes diocesanos da A. C. operária e rural desses tempos, os padres dr. João da Cruz Nunes e Gabriel Lino Cabral.

Um papel que o madeirense, D. Maurílio de Gouveia, como Arcebispo emérito de Évora – foi assistente diocesano da JOC -, num testemunho inserto no livro «Memórias do Avô» de José Fagundes, não só não valorizou como devota ao esquecimento puro e simples (cito): “Não posso deixar de referir, por imperativo de justiça, o grupo de sacerdotes, chamados assistentes eclesiásticos, que acompanhavam espiritualmente os movimentos. Entre outros, é-me justo salientar: o Padre Manuel Ferreira Cabral, o Padre José Maurício de Freitas, o Padre Baptista da Mata, o Padre Agostinho Figueira de Faria, o Padre Agostinho Jardim Gonçalves e o Padre António Vidal Pereira Dias. Verdadeiros educadores da juventude, estes sacerdotes tornaram-se imprescindíveis na obra realizada” (fim de citação) – uma evocação histórica que termina praticamente no fim da década de 50, como se não tivesse havido continuidade, quiçá porque os seus protagonistas não tivessem o direito a ser designados por “verdadeiros educadores da juventude”…Um testemunho profundamente revelador de um comportamento que se assemelha em muito ao assumido pelos partidos comunistas que votam ao esquecimento quem deles se afastou ou rompeu, acabando por coloca-los numa espécie de «index» histórico.

Bem diferentes foram os testemunhos que ouvimos dos militantes e dirigentes diocesanos dos diversos organismos da A. C. que conviveram de perto com aqueles dois «Padres do Pombal». Que destacam o seu companheirismo e solidariedade sempre presentes e a circunstância de se comportarem como sendo mais um elemento do grupo e não como alguém que ditava ordens e impunha caminhos. Respeitadores da liberdade e do espírito de iniciativa das organizações. Permanentemente disponíveis para ouvir e aconselhar, procurando incutir valores humanos e éticos.

A professora Elisa Brazão, licenciada em História, uma das autoras do livro «Revolta da Madeira -1931», que foi dirigente diocesana da JOCF e professora no CCO, não poupou nas palavras quando nos falou do dr. Cruz: “Uma pessoa excepcional, sabedora, fora-de-série”, “um mestre”. Já José Henrique Pereira, militante jocista e funcionário sindical, destacou “a profunda sensibilidade para os problemas da sociedade, o empenho solidário e humanista” e considerou-o “um homem bom, como já há poucos”, dando como exemplo: “emprestava dinheiro a toda a gente, nunca dizia não”.

Carlos Fino, ex-deputado e dirigente do PS-M e professor da Universidade da Madeira, conheceu o dr. Cruz na 2ª metade da década de 60, quando frequentava o Centro Académico do Funchal. Na altura, estudava no Colégio dos Salesianos, dirigido por sacerdotes, tendo-nos dito que “percebeu, em conversas informais, que se tratava de um sacerdote diferente daqueles que conhecia e lidava no referido colégio. Tinha uma abertura de espírito, uma forma de ser e de estar que contrastava com o pendor tradicional, autoritário que caracterizava os padres que até então conhecera”. Destacou-nos a importância que esse relacionamento teve “no despertar da sua consciência cívica e na valorização de valores de ética com que procurava nortear a sua vida”. Ao ponto de ter sentido uma espécie de “fascínio” que o levou, quando decidiu casar-se, a não aceitar “sê-lo por outra pessoa que não ele”. E na companhia da sua futura mulher, Isabel Correia, diligencia para que o seu casamento seja celebrado, na paróquia de Fátima, no Funchal, pelo dr. Cruz, procedendo, em conjunto, à escolha dos textos litúrgicos que integraram a cerimónia.

Vicente Jorge Silva, o madeirense que atingiu uma posição cimeira no jornalismo português, num curto depoimento que nos facultou, classificou os «Padres do Pombal» como “um exemplo de resistência”, escrevendo: “A velha cumplicidade da hierarquia da Igreja com o regime salazarista – que nem os ventos do Concílio Vaticano II tinham feito vacilar nas suas profundezas – era vivida talvez de modo ainda mais sufocante na atmosfera insular. Daí o significado precioso da resistência de padres madeirenses como Cruz, Rufino, Martins Júnior e outros, rejeitando a subserviência, a submissão – e a negação dos valores essenciais do cristianismo”, tendo feito questão de acrescentar: “Embora eu já na altura fosse agnóstico, isso não me impediu – antes pelo contrário – de admirar esse exemplo”.

Por sua vez, o Padre Martins júnior referiu-se ao dr. Cruz como “discreto, de poucas palavras, sem grandes dotes oratórios, mas a que todos reconheciam capacidade de liderança”. Uma leitura partilhada pelo dr. Francisco Sidónio Figueira que fez questão de nos dizer que “o líder era, de facto, o dr. Cruz”, a quem atribui o principal mérito pelo trabalho realizado pelos denominados «Padres do Pombal», uma comunidade de que também fez parte.

Com a saída, a 28 de Agosto de 1972, de D. João Saraiva da diocese, o seu lugar viria a ser preenchido, até à nomeação do sucessor, pelo cónego dr. Agostinho Gonçalves Gomes, vigário capitular da diocese que fora director do «Jornal da Madeira», entre 6 de Dezembro de 1959 e 21 de Outubro de 1968.

Durante a vacatura diocesana – até 18 de Março de 1974 -, o grupo de padres que se identificou em plenitude com o espírito da doutrina do Concílio Vaticano II alimentou o desejo, a esperança que a diocese do Funchal fosse entregue a um prelado que encarnasse sem reservas esse espírito e que pudesse introduzir uma lufada de ar fresco numa Igreja que permanecia em geral muito fechada sobre si própria , muito pouco atenta e desperta para os sinais dos tempos e em que o conservadorismo era claramente predominante.

É imbuído desse espírito e com esse objectivo que um grupo de padres decide encontrar-se no Santo da Serra, num espaço pertencente à diocese, e partir para a elaboração de um documento que viria a ser entregue no final desse ano de 1972 ao então Núncio Apostólico em Portugal, D. Giuseppe Maria Sensi, em audiência concedida para o efeito.

Nesse documento, redigido a várias mãos, nomeadamente através de João da Cruz, Jardim Gonçalves, Paquete de Oliveira e Rufino da Silva, os 34 signatários (23 sacerdotes e 11 leigos) apontavam o perfil que, no seu entender, deveria ter o sucessor do novo bispo de Coimbra.

O semanário «Expresso», na sua edição nº 57 de 2 de Fevereiro de 1974, tentou publicar esse documento de sete páginas sobre o vazio na diocese, mas a censura cortaria grande parte do texto. Contudo, podia ler-se que “a Madeira espera um prelado capaz de imprimir um ritmo novo e dinâmico à Igreja e pôr em prática as directrizes do último Concílio, ainda desconhecidas na sua grande parte, na ilha”.

Como a história haveria de evidenciar, os desejos e esperanças formulados na carta entregue na Nunciatura seriam totalmente defraudados e o novo bispo tudo haveria de fazer para se livrar do citado sector de sacerdotes.

Francisco Santana, o novo bispo da diocese, seria nomeado pela Santa Sé a 18 de Março de 1974 e ordenado, na Sé Patriarcal de Lisboa, a 21 de Abril desse ano, precisamente quatro dias antes do golpe militar que pôs fim ao regime fascista em Portugal. Nesse mesmo dia, o órgão da diocese, publicou uma «Saudação» do novo bispo a “todos os leitores”, em que o mesmo, aludindo à sua relação com o mar (fora director nacional do Apostolado do Mar), declara: “O Santo Padre, em vez de um «Pastor», vai enviar-vos um «Marinheiro»”.

Na homília proferida na ocasião, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, sublinharia que “o esforço pastoral do bispo deve ser princípio e factor de união, de concórdia e de paz”, bem como “respeitar e promover um pluralismo legítimo dentro da Igreja”.

Nesse mesmo dia da ordenação de Francisco Santana, também no «Jornal da Madeira», um dos membros do Cabido diocesano, o cónego Agostinho Figueira de Faria anteveria o que seria o seu mandato episcopal, sentenciando: “Nada sem o bispo, nada contra o bispo. Quem está com o bispo está com a Igreja e com Cristo, portanto. Quem não obedece ao bispo, quem não está com Ele na doutrina, na disciplina, na Pastoral, está contra a Igreja. E, portanto, qualquer que seja o rótulo com que queira acobertar a sua posição e as suas atitudes, já está fora da unidade da Igreja. A conclusão é evidente”.

A 1 de Maio de 1974, dia em que celebrava o seu aniversário, o «J.M.» publicaria um editorial onde evidenciava continuar preso à terminologia do passado: “Fiéis às características próprias deste Jornal, envidámos todos os esforços por servir a causa a que nos propusemos defender, Deus, Pátria e os interesses da nossa terra”. O articulista (texto não assinado), remataria com uma proclamação que o futuro desmentiria em toda a linha: “Jamais daremos guarida em nossas colunas a qualquer gesto, ou palavra que atente contra a dignidade de quem quer que seja, ou contra os princípios cristãos que nos orientam”.

Também a 1 de Maio, na sua 1ª edição não sujeita a «exame prévio», o semanário «C.F.», num artigo sob o título “O oportunismo e comportamento cúmplice da «informação» madeirense” critica violentamente o posicionamento adoptado pelos dois diários locais («DN» e «JM») durante o regime deposto e, referindo-se especificamente ao órgão da diocese, escreve: “Seus últimos e mais influentes directores tiveram fortes ligações com a política do regime fascista: o cónego dr. Agostinho Gonçalves Gomes, deputado à A. Nacional, durante duas legislaturas; o cónego dr. Maurílio de Gouveia, actualmente bispo de Sabiona e auxiliar do Patriarcado de Lisboa, capelão particular do Palácio de São Lourenço, durante o governo ditatorial fascista do coronel Braamcamp Sobral.

“As ligações com os dirigentes da administração local destes últimos dez anos, sobretudo, conseguida e realizada através do movimento dos cursos de cristandade, era pública e notória.

“A bajulice, a mentira, o encómio barato aos governantes do derrubado regime, sucediam-se diariamente”.

Como que em resposta, na edição de 7 de Maio de 1974, «J.M.», através de um seu conhecido jovem redactor, José António Gonçalves acusaria jornalistas do «C.F.» de, em Câmara de Lobos, terem instigado à revolta a população, designadamente contra o posto policial e a secção de finanças – uma reportagem que teve o mérito de evidenciar o que seria o paradigma da “informação” veiculada no pós-25 de Abri pelo órgão da diocese, ao fim e ao cabo muito semelhante à praticada até então.
No dia seguinte, o «Diário de Notícias» local, publicaria uma «comunicação» assinada por 16 sacerdotes da diocese do Funchal, todos eles signatários da já mencionada carta entregue em 1972 ao Núncio Apostólico, manifestando descontentamento com o rumo traçado pelo órgão da diocese. O documento fora inicialmente entregue pelos drs. Cruz e Rufino e pelo padre Mário Tavares ao então director interino do «J.M.», Pe. dr. Abel Augusto da Silva, informando que o mesmo seria também distribuído aos “diferentes órgãos informativos”.

Director interino que, telefonicamente, comunicaria que “ao contrário do inicialmente prometido”, “por motivos posteriores”, “não era possível tal publicação” – a recusa fora ordenada, a partir de Lisboa, por Francisco Santana.

Nessa «comunicação», os signatários declaravam-se “inconformados com a atitude ambígua e irresponsável que a orientação do «J.M.» vem revelando, e porque a consideram em nada servidora dos interesses do povo madeirense”, exigiam que “essa orientação seja modificada imediatamente”. Subscreviam o texto Manuel Marques Luís, Mário Tavares Figueira, Gabriel Lino Cabral, Francisco Sidónio Figueira, José Maria Araújo, João Arnaldo Rufino da Silva, Rafael Maria Andrade, João da Cruz Nunes, João Ferreira, Tomé Célio Sumares, Gabriel Arcanjo de Sá, José Vieira Pereira, José Martins Júnior, José Manuel Paquete de Oliveira, Silvério Aníbal de Matos e Emanuel Eleutério Figueira de Ornelas.

O órgão da diocese, não só recusou a publicação da referida «Comunicação de um grupo de sacerdotes», como no dia seguinte (9 de Maio), publicaria uma resposta, assumida como «Declaração dos trabalhadores», que indigna o grupo de sacerdotes por visar pessoalmente alguns deles, aludindo, designadamente, a “um antigo chefe de redacção e colaboradores do nosso diário, em período de vigência do Governo do Prof. Oliveira Salazar, o que nos dispensa de entrar em considerandos de teor ideológico”, O principal visado era o Padre dr. Paquete de Oliveira que, intermitentemente, entre finais de 1960 e 1966, havia dirigido a redacção do matutino sediado na Rua do Seminário, 22. Mas não só. Uma vez que no período mencionado outros sacerdotes tinham publicado artigos no «J.M.», nomeadamente João da Cruz, Rufino da Silva, Martins Júnior, Eleutério de Ornelas e José Maria Araújo. Mas, o pessoal do «J.M.» responderia ainda directamente às exigências dos sacerdotes, referindo que a modificação da orientação do órgão da diocese “só pode e deve depender única e exclusivamente do Bispo da Diocese, em comunhão com a direcção e connosco”, ao mesmo tempo que declaravam que “não permitirão ingerências do exterior em qualquer dos nossos serviços que não sejam mencionados pelo Bispo do Funchal” e se uniam à volta do director interino, “em estreita e leal colaboração, só com ele dialogando em ordem à confecção do jornal, até decisão em contrário do Bispo da Diocese”.

Francisco Santana, que chegara ao Funchal a 9 de Maio, fizera questão de, como 1ª. acção pastoral, efectuar uma visita às instalações e oficinas do «Jornal da Madeira», tendo na ocasião afirmado: “Embora tenha chegado tarde ao Funchal, não ficaria bem com a minha consciência se não viesse cumprimentar, ainda hoje, todo o pessoal do «J.M.». Quero que seja este o meu primeiro passo para testemunhar a minha amizade e confiança a quem trabalha na Igreja sob a orientação da Igreja. Bem hajam os Redactores, o pessoal das Oficinas e dos Escritórios. A minha admiração ainda pelo seu Director-Interino pela competência e dedicação que tem demonstrado neste período difícil em que vivemos”.

Declarações que não deixavam margem para quaisquer dúvidas: o novo bispo caucionava a postura e orientação que vinha sendo imprimida ao órgão da diocese e, por conseguinte, não partilhava das posições veiculadas pelo grupo de sacerdotes que havia contestado essa mesma orientação. Mais ainda: ficava obviamente claro que é com o respaldo do bispo que os trabalhadores do «J.M.» se envolviam no confronto público com o grupo de contestatários. Uma polémica que prosseguiria nas páginas dos dois diários locais ao longo de vários dias. E, quem no meio desta polémica, assinalando o aniversário do «J.M.», não se esqueceria de felicitar o órgão da diocese, seria o «Voz da Madeira». Numa nota, o semanário dirigido pelo dr. Agostinho Cardoso era peremptório: “Os católicos madeirenses podem ir buscar facilmente às suas páginas, esclarecimento, formação intelectual católica e documentação para o estudo”. De resto, quando no final de Outubro, Francisco Santana revela a nomeação do novo director do «J.M.», precisamente um destacado colaborador do citado semanário, ainda por cima sobrinho do que fora, durante largos anos, uma figura de proa na Madeira do regime deposto, o amigo do almirante Henrique Tenreiro nem sequer disfarçou a orientação que pretendia que o órgão da diocese prosseguisse: o grande objectivo era a politização dos leitores. Uma politização que ficava a cargo de um, até ao fim, adepto confesso da «evolução na continuidade» de Marcelo Caetano. Uma politização que, face ao curriculum de ambos, prelado e director, seria norteada por uma visão marcadamente conservadora e simultaneamente hostil a toda e qualquer corrente que se situasse, ainda que levemente, à esquerda.

Quase em simultâneo, é noticiado que o novo bispo nomeara o cónego Agostinho Gomes, vigário geral da diocese. Uma recondução, uma vez que o antigo deputado da nação vinha exercendo essas funções, na condição de vigário capitular. Uma nomeação cheia de significado e reveladora de que no seio da Igreja diocesana qualquer esperança de renovação estava definitivamente afastada. Tratar-se-ia, tão somente, de uma aposta na continuidade, mas, também, de um sinal de que os tempos para os organismos da A. C. seriam recheados de dificuldades e obstáculos, atendendo a que no passado recente (Fevereiro de 1974), o referido membro do Cabido comunicara à equipa executiva diocesana que, para ele (cónego Agostinho Gomes), “a Acção Católica na Madeira não existe”, “Nunca me foi dada conta da A. C. na Diocese”; “Quando o novo bispo vier que resolva”.

Ora, como se sabe, Francisco Santana encarregar-se-ia de, por diversas formas, demonstrar que não contava com a Acção Católica, ostracizando de modo especial os assistentes diocesanos dos organismos operários e rurais, ao mesmo tempo que recorria a outros meios de apostolado, designadamente ao denominado Movimento dos Jovens Cristãos da Madeira e aos Cursos de Cristandade.

No domingo seguinte (12 de Maio), Francisco Santana dirige a sua Saudação Pastoral “aos habitantes das ilhas da Madeira e Porto Santo e a todos os madeirenses dispersos por todo o mundo”. A mensagem é recheada de recados, dirigidos de modo particular aos sacerdotes que almejavam por uma Igreja renovada, mas também à sociedade em geral. A dado momento, proclamaria: “A Igreja não pode ser conduzida por crianças imaturas ou por gente que coloca a sua vaidade ou os seus interesses mesquinhos, ou os seus ressentimentos, acima da finalidade com que Deus mantém a Igreja no mundo. É o Espírito Santo que conduz a Igreja e quem governa o mundo. É Cristo o único Pastor de todos nós. Saibamos ser fiéis ao Espírito e obedecer ao Pastor”. Nesse mesmo dia, à noite, em nova “Saudação”, desta feita dirigida ao “Presbitério funchalense”, o bispo desfaz todas as dúvidas – se porventura ainda existissem -, relativamente a quem procurava visar com as suas palavras: o denominado grupo de “Padres do Pombal”, apostado na renovação da Igreja, e simultaneamente ter-lhes-á desfeito as ilusões alimentadas com a carta entregue ao Núncio Apostólico em Lisboa.

Debruçando-se sobre o papel dos sacerdotes enquanto “evangelizadores”, afirmou: “É curioso notar que a Igreja hoje, tem falta de padres e ao mesmo tempo tem padres a mais, pois que alguns tudo fazem menos que evangelizar, a tudo se dedicam até à política sem terem a vocação de políticos, aos problemas económicos, sem nada perceberem de economia e até ao ensino confundindo que eram, como ministros da Palavra de Deus, destinados a «ensinar» a mensagem de Deus e não as ciências humanas. Outros, que não nós, são mais competentes nesses assuntos e não necessitam ser padres, para desempenhar essas missões na sociedade”. Francisco Santana faria ainda questão de relevara importância da união do presbitério em torno do Bispo, afirmando: “O Presbitério é o corpo sacerdotal, em íntima união com o Bispo, não isoladamente (torna-se inexistente o Presbitério!), mas em comunhão de amizade, reflexão e acção”.

Como anotou João da Cruz Nunes: “Quando se deu o 25 de Abril, o CCO era, com o «Comércio do Funchal», um dos únicos pontos de encontro e de debate para aqueles que partilhavam de ideias de liberdade e justiça social. E é no CCO que se realizam alguns dos primeiros encontros em liberdade, com vista à criação e organização de movimentos de cidadania e até políticos” (página 279 do livro «A Madeira na História…»).

A professora Adília Andrade, fundadora do Sindicato dos Professores da Madeira, referindo-se a essas reuniões iniciais que culminariam com a formação da Frente Popular Democrática da Madeira (FPDM), disse-nos que, para si, a maior surpresa “foi a presença de muitos jovens operários, caixeiros, empregados de escritório, que orientavam reuniões, intervinham nos debates, argumentavam com conhecimento e desenvoltura, constituindo o verdadeiro núcleo aglutinador do movimento”. Adília Andrade acrescentaria: “O CCO contribuiu para a sua formação cívica, para o exercício de uma cidadania activa e consciente, no reconhecimento do valor social do trabalho e da justiça social. Preparou-os para a vivência numa sociedade democrática”.

A UPM, o outro movimento político em que se envolveriam militantes com ligações ao CCO, nasceria a partir do «Comércio do Funchal». Tratou-se de um movimento que desempenharia um papel de destaque na acção política, subsequente ao 25 de Abril, e que, dois anos depois, se dissolveria para integrar a UDP (União Democrática Popular).

À UPM aderiram, entre outros, os já mencionados Liberato Fernandes, Henrique Sampaio e Clarisse Canha, bem como Assunção Bacanhim e Conceição Pereira, enquanto que à FPDM se associariam, por exemplo, Sidónio de Castro, José Silva, José Manuel Almada, Aldónio Fernandes e Alcides Nóbrega. Mas, a envolvência política de militantes da A. C. e do próprio CCO não se limitou a esses movimentos, tendo atingido um leque partidário abrangente. Com efeito, do núcleo fundador do Partido Socialista na Madeira fizeram parte Arnaldo Capelo, João de Lemos Silva e Luís Marques de Sousa, enquanto Monteiro de Aguiar seria deputado à Assembleia Constituinte e Filipe Mota, deputado eleito à Assembleia Regional em 1976. E entre os deputados do PPD/PSD dessas eleições constavam Augusto Nunes de Sousa, Agostinho Rodrigues e Serafim Vieira.

Ao longo dos tempos, o poder político e religioso “vendeu” a narrativa que a ocupação do Seminário da Encarnação fora instigada pelo dr. João da Cruz Nunes. A verdade é que esse edifício, encontrava-se devoluto há já algum tempo e o ano lectivo no Liceu do Funchal não se iniciara ainda por as suas instalações não comportarem o acréscimo no afluxo de alunos verificado. Por outro lado, decorriam, também há meses, negociações entre a Junta Geral e a diocese para o aluguer do espaço. E esta, ao mesmo tempo, que afirmava necessitar do mesmo para um conjunto variado de actividades, dizia-se disponível para vender o edifício do Seminário Menor. Ou seja, queria fazer um negócio financeiramente mais vantajoso do que o aludido aluguer, enquanto a Junta Geral alegava que não dispunha de verbas para tal. O “crime” do dr. João da Cruz resultava do facto de ser professor do Liceu e, simultaneamente, membro da sua Comissão de Gestão, qualidade que o levava a não se furtar, ao contrário de outros, à assunção de responsabilidades na tomada de decisões. Mas, ao contrário do maldosamente veiculado num arrazoado publicado pelo bispo emérito Teodoro de Faria («JM» de 6/10/2024), a ocupação daquele edifício foi deliberada num plenário de alunos do Liceu. De resto, uma diocese que pautasse a sua conduta por um mínimo de verdade e de transparência deveria ter tido a dignidade de pedir desculpas públicas por, durante mais de 20 anos, ter deixado ao total e completo abandono o citado prédio, até, finalmente, 50 anos depois, ter procedido ao negócio que sempre ambicionou efectuar!

A partir desse momento, o dr. Cruz tornou-se um alvo a abater. Basta consultar o órgão da diocese desse período e ter tido conhecimento da hostilidade que lhe era movida por uma recém-criada Associação de Pais e Encarregados de Educação do Liceu, onde pontificavam destacados elementos do PPD de então, como António Aragão de Freitas, António Gil Silva e Acácio Augusto Matias.

O comportamento do bispo face aos acontecimentos do Seminário e à decisão imediatamente posterior de afastamento do Padre Martins Júnior da paróquia da Ribeira Seca,, motivaram a divulgação, a 12 de Novembro de 1974, de uma tomada de posição por parte de “um grupo de padres e leigos cristãos católicos”, entre os quais João da Cruz Nunes, no qual esclareciam: “Para nós, a Igreja é fundamentalmente um serviço do povo, um espaço de liberdade onde, à luz do Evangelho, se podem descobrir os verdadeiros caminhos de libertação. E neste serviço do povo, importa saber constantemente discutir quais as prioridades que se impõem.

“Todos nós estamos a viver uma situação de emergência, para cuja solução temos de contribuir, independentemente de credos políticos ou religiosos. E não é deixando aos outros os seus problemas e pensando só nos nossos, que vamos construir um país e uma sociedade diferentes. Até porque os problemas são comuns, todos somos intervenientes e ninguém deles pode abster-se, refugiando-se numa posição cómoda e alienante. Os problemas do povo têm de ser os problemas e as preocupações da Igreja, se ela quiser, realmente, ser sinal de vida.

“A situação do ensino é das mais graves do nosso país e, como tal, também da nossa ilha. Para obstar a tal situação, fizeram-se negociações com vista à cedência do Seminário Menor. No entanto, criou-se uma situação de impasse, chegou o ano lectivo, as aulas não começaram e os estudantes, os mais directamente interessados na questão, resolveram, por si mesmos, ocupar o referido edifício.

“Não roubaram nem quiseram tirar nada, mas simplesmente pressionaram uma situação que, finalmente, veio a ser resolvida a seu favor e que muito mais cedo e sem atritos nem certos excessos, poderia ter sido solucionada, se de facto tivesse havido boa vontade.

“Os acontecimentos foram deturpados, sensacionalizados, servindo até de exploração do sentimento religioso do povo. Gerou-se uma situação que reputamos de grave. As implicações, não se podem prever claramente. Nasceu um clima de tensão e de divisão entre o povo e entre os próprios católicos”.
E, sobre o novo foco de conflito no seio da Igreja diocesana, entre o bispo e o pároco e paroquianos da Ribeira Seca, o referido grupo assumia: “Não podemos também deixar de denunciar o processo seguido em relação ao Pe. Martins e ao povo da Ribeira Seca. Ninguém deve ser castigado, sem primeiro ser ouvido. E sobretudo o povo tem sempre uma palavra a dizer.

“Para nós, não é assim que se vive o cristianismo. A nossa esperança está numa Igreja, verdadeira luz do mundo, libertadora dos povos e fiel seguidora do Evangelho”.

A Comissão de Gestão do Liceu do Funchal, eleita a 6 de Junho de 1974 – presidida pelo dr. Jorge Atouguia – demitir-se-á no início de Março de 1975 e, entretanto, o dr. Cruz pede a transferência para a Escola Preparatória da Calheta. Contudo, a hostilidade para com o grupo dos “Padres do Pombal”, não só não desvanece, como acentua-se. Atingirá, aliás, foros só freudianamente explicáveis, ao ponto do jornalista Luís Calisto, no livro «Achas da Autonomia» (página 97) ter escrito esta preciosidade: “Das suas análises diárias, Jardim (AJJ) retira a ilação de que a promiscuidade que vê na esquerda não é casual. «Está visto que eles têm um comando unificado, que só pode ser a casa do Pombal». O então líder refere-se à residência na rua do Pombal dos padres católicos afectos à FPDM, convencendo-se de que «ali há padres mais influentes na coordenação das acções da esquerda do que o próprio Paquete de Oliveira». Em determinada fase, não existem dúvidas que façam hesitar Jardim: há reuniões naquela casa em que os representantes das três principais formações de esquerda (apontadas por AJJ como sendo o PS, o PCP e a UDP) recebem ordens integradas num plano de actuação conjunta. «Temos então ali o quartel-general da revolução», alegra-se com a descoberta, «pois bem, esse começa a ser o objectivo de guerra prioritário!»” – o antigo redactor da «Voz da Madeira» que pela vida fora vangloriou-se, bastas vezes, dos ensinamentos obtidos aquando do serviço militar na secção de acção psicológica, lançaria mão, como é sabido, de outras teorias da conspiração, não menos hilariantes, como a que envolveria uma tríade composta por Bush, Maçonaria e Trilateral. Ou seja, começaram cedo os delírios. No caso em apreço, por pouco não ocorreu uma tragédia…

Analogamente, o cónego Agostinho Figueira de Faria que em 1968 proibira a leitura do «Comércio do Funchal» pelos alunos do Seminário Maior referia-se à casa dos «Padres do Pombal» como sendo “um covil de comunistas”.

A 1 de Janeiro de 1975, o «DN» local publicaria com destaque, na sua 1ª. página, um artigo da autoria de João da Cruz Nunes. Um texto onde o dr. Cruz – como era conhecido entre os leigos que com ele mantinham um contacto próximo – explanava que o conceito de paz é muito mais do que simplesmente ausência de guerra, e, simultaneamente, identificava o longo caminho que faltava (falta) percorrer para edificar uma sociedade assente na justiça e na igualdade entre os homens. Um texto, cujo conteúdo, revelava também porque é que o então ainda assistente dos organismos operários da A. C. constituía um incómodo para os sectores mais retrógrados da sociedade madeirense, ao ponto de ser alvo de dois atentados bombistas – o 1º, a 11 de Novembro desse ano de 1975, visando a casa onde morava com mais três sacerdotes católicos e o 2º, a 14 de Janeiro de 1976 que provocaria a destruição do seu automóvel, um Volkswagen.

Sob o título, «Construir a Paz – Construir o Mundo», o artigo do ainda sacerdote, poderia perfeitamente ser redigido hoje, uma vez que se trata de uma análise que permanece actualíssima. A dado passo, escreve: “Paz e luta. Dois conceitos aparentemente contraditórios e, na realidade, inseparáveis. Porque a paz, para muitos, pode ser sinónimo de ausência de guerra, (des)ordem estabelecida, descanso, quietude e despreocupação, satisfação, enfim, de instintos e egoísmos estéreis e desumanos.

“Mas, para além deste conceito puramente estético e individualista, ela é sobretudo o resultado dum compromisso assumido com os homens, um sentimento verdadeiro de satisfação pelo dever cumprido, uma dinâmica que faz projectar o homem no caminho do futuro (…)

“Todos parecem aspirar à Paz, viver obcecados por ela, pelo menos nestes dias de Ano Bom. Mas. Todos quere-la-ão efectivamente? (…)”.

E, em jeito de resposta, afirma: “Ainda se levantam, de todos os lados, os obstáculos que impedem a sua implantação, no meio dos homens. As estruturas capitalistas que possibilitam a exploração do homem pelo homem ainda vigoram activamente; a opressão e a mentira continuam; a alienação, seja ela de carácter religioso ou social, domina; as diversas classes estão solidamente estratificadas; os colonialismos, neocolonialismos e o imperialismo é que dominam o mundo. Para evitar a guerra e aguentar a «paz» lança-se mão dos armamentos e utiliza-se o equilíbrio do terror como força dissuasiva. Mas que paz?

“A nossa sociedade ainda separa, naturalmente, as pessoas – ricos e pobres, sábios e ignorantes, exploradores e explorados. O sentido de classe está ainda profundamente arreigado em muita gente. Os privilégios ainda são ciosamente guardados. O segregacionismo ainda é religiosamente cultivado. E estamos numa sociedade ocidental e que se arroga de cristã!

“Mas afinal quem é próximo? Certamente só quem está próximo e junto aos outros. Em tal perspectiva, todas as segregações, separações e divisões classistas não podem ter sentido. E, como tal, só haverá próximo, efectivamente, quando deixar de haver separações e classes sociais (…)

“Construir a PAZ é forçar as barreiras que a ela se opõem, lutar solidariamente com os explorados e oprimidos, com os que aspiram ansiosamente pela igualdade entre os homens.

“Construir a PAZ é estar contra o egoísmo estéril que só pensa nos seus interesses e nas suas satisfações pessoais, consumindo, loucamente, os bens duma sociedade de luxo; é criar condicionalismos que possibilitem uma implantação efectiva da paz; e defender o homem na sua dignidade e nos seus direitos, contra as formas de opressão e exploração.

“A paz é progresso e, por isso, para que ela se realize, têm de entrar em linha de conta todos os recursos do homem e da natureza. O crescimento, a libertação e a dignificação do Homem são condições essenciais à conquista da Paz. O aproveitamento de todas as capacidades humanas, a transformação profunda e, por vezes radical, de sistemas e determinados esquemas mentais, a fraternidade dos povos em luta pela libertação, a solidariedade dos oprimidos, o esforço de todos os que, pelo seu trabalho, fazem progredir o mundo, tudo são elementos basilares para a formação da nova História e da nova sociedade”.

Tal como fizera com a entrevista do Padre Jardim Gonçalves, publicada no «Diário de Notícias» local a 26 de Maio de 1974, o bispo da diocese reagiria publicamente a este artigo do dr. João da Cruz. Fê-lo, na homília proferida na Sé Catedral, nesse dia 1de Janeiro, omitindo, porém, uma vez mais, o seu autor, embora não ficassem dúvidas a quem se referia, uma vez que repetiria, textualmente, expressões, frases constantes do texto em questão.

Segundo o relato do órgão da diocese, o prelado abordara “a construção do Mundo através da Paz, na concepção cristã de «Paz-Aliança» e em contraste com a «paz-luta» da dialéctica materialista”, afirmando: “Alguns querem uma Paz feita só de luta, uma luta cega, materialista, sem a visão de Deus, a Aliança com Deus, luta essa que acabará por destruir os próprios homens e nunca fabricará a Paz. Dizem que a Paz e a luta são conceitos inseparáveis, mas trata-se de uma visão dialéctica da vida e da sociedade.

“Para o cristão, porém, a paz não é só ausência de guerra, não é somente a ordem ou a desordem, estabelecidas; paz não é o descanso, como não é a quietude, a despreocupação ou a satisfação dos instintos ou ainda dos egoísmos estéreis desumanos. Paz é dinamismo! É alguma coisa diferente de uma simples luta. Ser cristão não é só ter um próximo igual a nós. Ser cristão e ser homem de paz é ter Deus como nosso próximo e com Ele estabelecer uma Aliança séria, sincera e profunda. Deus é Deus-Aliança e assim podemos dizer que a Paz é Progresso e o Progresso é Reconciliação”.

Francisco Santana tornar-se-ia conhecido por catalogar todos os sacerdotes da diocese que, de algum modo, adoptavam posições ou possuíam uma visão progressista do papel da Igreja na sociedade, com o epíteto de marxistas. Fazia parte da sua cartilha de “anti-comunista primário”. Uma das “vítimas” desta obsessão foi Sidónio Figueira, que o antístite pressionaria inúmeras vezes a que confessasse que era marxista – Sidónio Figueira tinha leccionado na Escola de Enfermagem do Funchal e, confrontado com um teste em que uma aluna admitia o recurso à interrupção voluntária da gravidez, não o desclassificou, considerando que do seu ponto de vista a posição fora solidamente sustentada, o que bastou para que também não escapasse ao rótulo de marxista.

Quando, no final de Novembro de 1974, o Núncio Apostólico em Lisboa reporta a recepção de uma carta em que “a quase totalidade dos sacerdotes e religiosos” da diocese do Funchal tomam “a iniciativa de confirmar a fidelidade e união à Igreja, concretizando-a no momento presente, numa inequívoca declaração de apoio e comunhão com o seu Bispo”, a notícia não gera surpresa, atendendo à análise que a PIDE/DGS fizera relativamente à fidelidade da maioria desses sacerdotes ao antigo regime.

À conta dessa fidelidade e com a passagem ao estado laical de um conjunto de sacerdotes, nomeadamente João da Cruz, Rufino da Silva, Lino Cabral, Sidónio Figueira e Paquete de Oliveira, Francisco Santana ficaria com o caminho bem mais livre para contribuir, sobremaneira, para a entrega “abençoada” do poder ao partido “com as setas viradas para o céu” – no seio do presbitério a resistência activa a essa escandalosa promiscuidade ficaria limitada, praticamente em exclusivo, a Martins Júnior e a Mário Tavares.

Olhando retrospectivamente para esse período de vida comum, João da Cruz no texto intitulado «Os Movimentos da Acção Católica Operária e a Autonomia» (livro «A Madeira na História …») expressou um sentimento partilhado, certamente, por tantos outros: “E, agora, olhando para trás, não sinto o que se passou como passado, porque o passado não é tanto aquilo que passou, mas o que fica, o que permanece. E o que permanece é a consciência da realização dum trabalho que permitiu a tantos e tantas tomarem conta de si, perderem o medo ancestral, libertarem-se da situação de escravidão e de se terem tornado mais solidários, mais dignos e mais humanos.

“E sobretudo a sensação do dever cumprido e, por isso, de sentir-me bem comigo próprio”.

* O presente artigo foi elaborado a partir de um livro em preparação e escrito de acordo com a antiga ortografia.