quarta-feira, 31 de julho de 2013

O RONCAR DOS CARROS FACE AO RONCAR DA CRISE


Não se trata de uma atitude miserabilista, não se trata de uma posição do tipo acabe-se com isto porque há gente com fome, trata-se, antes, de uma posição que, julgo eu, é do mais elementar bom senso, face a um conjunto de necessidades primárias. Pode haver muita gente na estrada ou acampada para ver o rali passar, pode existir algum entusiasmo, porém, quem governa, tem de assumir posições, baseadas no conhecimento da importância do efeito multiplicador dos investimentos. Quando essa consequência não é sensível, melhor é parar, reflectir e corrigir a agulha do investimento público. Não deixo de dizer que me custa aceitar pagamentos em atraso, por muitos milhares em dívida por parte do governo à organização do Vinho Madeira (o que evidencia a limitação em recursos financeiros), um jantar de boas-vindas na Quinta Vigia, enfim, custa-me aceitar estes e outros gastos, repito gastos, não investimentos, quando ao nosso lado, vemos tanta miséria, fome, dívidas e carência de tanta e tanta coisa básica. Mas, enfim, tal como tantas organizações sem sentido e gastos absolutamente supérfluos em várias modalidades desportivas, os carros vão voltar a "roncar" durante muitas horas, para gáudio de uns poucos em função da tristeza de milhares. É o governo que temos.



Esta minha opinião pode encontrar adversários. Encontra, com toda a certeza. Certamente colide com muitos pontos de vista, sobretudo daqueles que gostam do automobilismo, gostam do rali Vinho Madeira, adoram o espectáculo da velocidade e da técnica, apreciam a mecânica e todo o frenesim da dita "festa" que a prova proporciona. Respeito-os. Confesso que não aprecio e não nutro o mínimo de interesse pelo Rali Vinho Madeira. Uma posição que se alicerça, fundamentalmente, no aspecto do transfere para a economia da Madeira. Aliás, há vários estudos (monografias de Licenciatura e dissertações de Mestrado), elaborados com o rigor que se pede a qualquer estudante, e que se encontram, certamente, em arquivo da Universidade da Madeira. Estudos que comprovam que o rali não constitui uma mais valia no quadro da promoção da Região Autónoma. Compaginado com tais estudos, ainda no ano passado, em Março, o Dr. António Trindade, do Grupo Porto Bay, salientou que num inquérito realizado junto de 15.000 clientes, concluiu que o Rali Vinho Madeira não era determinante na escolha dos visitantes hospedados nos hotéis do grupo: 82% dos clientes não sabiam da existência do evento desportivo, sendo que alguns (12%) consideraram-o com impacto negativo na estada. "Isto para responder a uma das perguntas que normalmente questionam. O Rali Vinho Madeira interessa ou não para a Madeira (…) julgo que podemos tirar ilações destes questionários", apontou António Trindade, dizendo que os eventos que não se assumam como prioritários devem ser suspensos.  Mas a verdade é que não são. Continuam a depender, em muito, do dinheiro público, quando, por outro lado, vivemos numa crise sem precedentes.
Não se trata de uma atitude miserabilista, não se trata de uma posição do tipo acabe-se com isto porque há gente com fome, trata-se, antes, de uma posição que, julgo eu, é do mais elementar bom senso, face a um conjunto de necessidades primárias. Pode haver muita gente na estrada ou acampada para ver o rali passar, pode existir algum entusiasmo, porém, quem governa, tem de assumir posições, baseadas no conhecimento da importância do efeito multiplicador dos investimentos. Quando essa consequência não é sensível, melhor é parar, reflectir e corrigir a agulha do investimento público. Não deixo de dizer que me custa aceitar pagamentos em atraso, por muitos milhares em dívida por parte do governo à organização do Vinho Madeira (o que evidencia a limitação em recursos financeiros), um jantar de boas-vindas na Quinta Vigia, enfim, custa-me aceitar estes e outros gastos, repito gastos, não investimentos, quando ao nosso lado, vemos tanta miséria, fome, dívidas e carência de tanta e tanta coisa básica. Mas, enfim, tal como tantas organizações sem sentido e gastos absolutamente supérfluos em várias modalidades desportivas, os carros vão voltar a "roncar" durante muitas horas, para gáudio de uns poucos em função da tristeza de milhares. É o governo que temos.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Também duvido muito dos benefícios para o turismo madeirense resultantes desta prova. É um desporto espalhafatoso e barulhento, que interessa a pouca gente. A maioria dos madeirenses fica em casa à espera que a coisa acabe. Nunca se sabe se a estrada que se tem pela frente esteja ou não aberta ao trânsito. E ainda não vi nenhum turista que não se queixasse dos incómodos para a circulação automóvel.
Mas a situação faz-me lembrar a Roma antiga. Só com uma pequena diferença: em vez de "pão e circo", só temos circo.

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Os estudos que existem, bem fundamentados técnica e cientificamente, provam que o rali não constitui um factor promocional da Madeira. Como se isso não bastasse, o inquérito realizado junto de 15.000 clientes acaba por desmistificar o interesse nesta realização.
É evidente que se pode argumentar que o rali faz parte de um pacote global de promoção da imagem da Madeira. Bom, eu preferiria que a Madeira fosse conhecida pela "Pérola" que, de certa forma, deixou de o ser. Em tantas áreas.
Um abraço.