terça-feira, 17 de setembro de 2013

QUE DEUS NOS AJUDE... PEDEM OS PROFESSORES!


Inicia-se, hoje, o novo ano lectivo escolar. Tenho falado com vários professores e a síntese que faço é que transborda apreensão. Não encontrei um face ao qual tivesse ficado com o sentimento de um regresso desejado. Sabem o que lhes espera: dificuldades acrescidas a todos os níveis, burocracia, estabelecimentos de educação e de ensino sem dinheiro, crescente aumento de problemas sociais para gerir e esbater, indisciplina e até alguns focos de violência. Sinto os professores exaustos, sem esperança e confrontados entre o que aprenderam na formação universitária, a experiência adquirida ao longo da vida profissional e a teimosia de uns cérebros políticos que de Educação sabem tanto como eu de astronomia! Uma vergonha o que se está a passar. Esta manhã, a "via-sacra" do secretário começa às nove e, sucessivamente, passará por quatro estações, leia-se escolas, e terminará, imagine-se, no Lombo do Atouguia, numa Missa mandada celebrar pela Delegação Escolar da Calheta. Não sei se a Missa traz consigo uma imagem de frontal ironia dos professores, ao jeito de celebração pelo funeral da Educação, ou se se trata de um acto no sentido "que Deus nos ajude!"

E os professores vão nisto?

Julgo que deve ser pela última razão. Creio que os professores, subrepticiamente, não fariam tamanha maldade. Que Deus nos ajude a nos safarmos desta secretaria e deste secretário, destas políticas desastrosas, desta burocracia que inferniza o mais sereno dos professores, desta falta de dinheiro que coloca à míngua os estabelecimentos de educação e de ensino, destas políticas que colocam professores no desemprego, destas políticas que bloqueiam carreiras anos e anos sucessivos, mandando à fava aquilo que foi a miragem da Autonomia Político-Administrativa da Região e, neste quadro, da autonomia, gestão e administração dos estabelecimentos de educação e ensino, desta secretaria que paga a conta-gotas dívidas que tem aos professores. A Missa talvez se justifique, por fé, a que "Deus nos ajude" e que lance o perdão sobre políticos que tornam a vida dos docentes insuportável. Ora, se este foi o pensamento primeiro da Delegação Escolar, pois bem, a presença do secretário torna-se fundamental, para ouvir e redimir-se dos pecados políticos da sua secretaria. Acho, até, que a Missa deve ser solene e cantada e, já agora, no acto penitencial, o secretário "reconheça e confesse os seus pecados em arrependimento sincero". Mais ainda, que na Missa, o rito penitencial se estenda ao Ministro da Educação, dizendo, bem alto e com fervor, o que Paulo Baldaia, da TSF, sublinhou há dias: "A escola pública é uma questão estrutural da vida em sociedade. Expliquemos isso ao ministro, para ele deixar de brincar com coisas sérias." 
Bom, estou a ir longe demais, porque a Igreja não deve ser pomo de chacota. Mas há gente que se põe a jeito. Só tenho uma dúvida, ou se calhar não tenho: esta Missa, no início do ano lectivo escolar, seguida de um jantar por apenas € 2,00 (para ajudar a paróquia), terá alguma coisa a ver com o processo eleitoral autárquico? Oh senhor secretário, por favor, tenha vergonha, nem esse é um acto educativo, pois transporta a mais séria e profunda hipocrisia, o cinismo refinado, o aproveitamento de um acto religioso, seguido de jantar, não para libertar as pessoas, mas para as condicionar. Seja como for, pelo início do ano escolar ou pelas autárquicas, trata-se de um atrevimento. Pergunto: e os professores vão nisto! Os meus Colegas vão nisto?
Ilustração: Google Imagens.

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