sexta-feira, 5 de setembro de 2014

POLITIZEM A EDUCAÇÃO, NÃO A PARTIDARIZEM


O tempo de Verão proporciona diálogos que, nos restantes meses do ano quase se tornam, eu não diria impossíveis, mas pouco regulares e sobretudo distendidos. Agosto, por exemplo, é excelente para cruzarmo-nos sem pressas e falarmos de tudo, ou quase tudo. Também sobre as nossas angústias. Há dias cruzei-me com um colega que já não via há algum tempo. Ficámos ali a conversar sobre um texto que aqui publiquei. Ele que é professor há muitos anos, excelente professor, acrescento, por simpatia felicitou-me por um texto que aqui publiquei, e esse foi o mote para a conversa. Se eu tivesse que aqui fazer uma síntese da nossa conversa, não iria além desta frase: "este grupinho que está a administrar a educação na Madeira é o pior desde 1976". Atenção que esta síntese nada tem a ver com as pessoas enquanto tal. Tem a ver com  os POLÍTICOS que estiveram à frente dos processos. São aspectos distintos, embora, muitas vezes, por maldade, assista-se à tendência de conjugá-los como uma única entidade. Uma coisa são os senhores x e y, pessoas respeitáveis, outra as posturas políticas desses senhores x e y. E eu com a Educação não "brinco" aos partidos. A Educação é assunto demasiado sério para ser partidarizada. E é aqui que nós, eu e o meu amigo, nos situamos. 


Porque a EDUCAÇÃO é e tem de ser POLITIZADA. Temos mais e melhor sistema educativo de acordo com as opções que são políticas. Porém, o que tem acontecido é a partidarização do sistema. O sistema fechou-se sobre si próprio, enclausurando-se na sua torre de marfim; o sistema fez ouvidos de mercador à realidade denunciada pelo movimento sindical e fugiu de qualquer actualização; o sistema olhou para os grandes pensadores e autores como empecilhos do rumo que definiram, que configura uma Escola fundada nos princípios da Revolução Industrial; inexplicavelmente, o sistema burocratizou as escolas multiplicando papéis e mais papéis que não servem para nada, a não ser para encherem o arquivo morto; dividiu a classe docente com uma patética avaliação do desempenho docente, fundamentalmente de raiz classificativa e não formativa; o sistema reduziu, por necessidade de controlo e submissão, a autonomia, gestão e administração dos estabelecimentos de educação e ensino; impingiu os exames no 1º e  2º ciclos substituindo a avaliação contínua pelo "treino" de Português e de Matemática, como se o alicerce da formação, sobre o qual deveria assentar o futuro "conhecimento poderoso", pudesse ficar por aí... eu sei lá, fiquei eu e o meu amigo a divagar sobre o que deveria ter sido feito e não foi. Falámos da cultura, exclamando: por onde ela anda! Falámos dos problemas sociais que tornam  a escola local de refugiu e abrigo.
É muito bom, dizia-me, falar de alguns sistemas que são referência, mas na prática continuarem com velhas orientações. Atalhei para dizer-lhe que é interessante ver algumas pessoas organizarem seminários e conferências, mas uma lástima ver essas pessoas organizadoras, depois, abdicarem do conhecimento e enveredarem pela rotina, ao jeito de... se sempre foi assim, porque raio temos de fazer diferente?
Li, com muito agrado, um poema de Alice Gomes, colocado pelo Dr. Francisco Sidónio Figueira na sua página de facebook. Deixo-o aqui, pelo seu interesse e pelo facto de ter sido escrito em 1946. Há 68 anos! Aprendamos com Alice Gomes.   

NA IDADE DOS PORQUÊS

Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.

Alice Gomes (1946)

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