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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

HÁ "LENTES" QUE AUMENTAM E LENTES QUE DIMINUEM


Há tempos, em amena cavaqueira com um Amigo de longa data, falávamos de política educativa e, a páginas tantas, referindo-se a "investigadores", disse-me: conheci um sujeito que quando a ele se referiam sublinhavam, com um ar respeitoso, o facto de ser "Lente" (título dado aos professores da Universidade de Coimbra). Só que, concluía o meu Amigo, há lentes de aumentar e lentes de diminuir. Porque, tal figura, dizia-me, dizia coisas que não se enquadravam no conhecimento. Retorqui: o que falta é lentes por aí, até pagos, directa ou indirectamente, para fazerem o favor em nome da ciência.


Porquê esta história? Porque, hoje, foi apresentado um estudo, segundo li, da autoria de Margaret Raymond, investigadora do Centro de Investigação em Resultados Educativos da norte-americana Universidade de Stanford. O estudo propõe "um modelo denominado Sistema de Garantia de Desempenho Educativo, que assenta na ideia de que as políticas na área da Educação devem privilegiar métodos quantitativos, de medição de dados estatísticos, para determinar e avaliar a qualidade do trabalho desenvolvido pelas escolas". Isto é, entre outros aspectos, quanto mais exames melhor! “Saber como os alunos estão a progredir relativamente aos padrões dos níveis primário e secundário pode ajudar os educadores e o Ministério a canalizar os apoios educativos para onde são mais necessários. Saber como está o desempenho dos professores e administradores pode ajudar a identificar os professores e as escolas com melhor desempenho, que poderão, então, servir como exemplo ou mentores para os outros. Estas informações também ajudarão os educadores a tomar as medidas necessárias para melhorar as suas capacidades profissionais”, defende o estudo. Mais, ainda: o documento considera, baseando-se em trabalhos anteriores, que não é evidente que a redução do número de alunos por turma tenha efeitos práticos nos resultados escolares (...) refere “a necessidade de reduzir o corpo docente” em Portugal (...) e sublinha que o corpo docente tem custos para o orçamento da Educação e para os resultados dos alunos, pois dedicar 80% da verba disponível para pagar salários a professores (contra 63% na média da OCDE) tem “um impacto dramático sobre os esforços para melhorar os resultados educativos dos alunos em Portugal”.
Não vou fazer mais comentários até porque a minha posição é diametralmente oposta e fundamentada. O citado documento está inserido no Mês da Educação, promovido ao longo de Outubro, com várias iniciativas pelo país, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS). Não comento porque me parece um SERMÃO DE ENCOMENDA do Ministério da Educação. A seu tempo se saberá. Deixo apenas aqui, parte de um texto de uma outra investigadora (já por mim referida) que é a antítese da primeira. Trata-se de um estudo elaborado por Deborah Stipek, também docente da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, que trabalhou o seu estudo ao longo de 35 anos. As referências a esse estudo foram publicadas na revista A Página da Educação, pelo Professor José Pacheco. A autora denuncia o facto de os jovens serem treinados para obterem bons desempenhos em testes e afirma que é aberrante uma educação centrada em resultados mensuráveis e em rankings. E acrescenta que a preparação para exames sufoca a formação de uma personalidade madura e equilibrada. (...) Questiona o Professor José Pacheco: Irá o senhor ministro contrariar dados científicos? E prossegue: (...) Deborah sublinha o facto de o sistema de exames produzir especialistas em provas enquanto prejudicam vidas que poderiam ser promissoras. Em suma, sublinha o Professor José Pacheco, "um ambiente escolar competitivo, voltado para testes e exames é prejudicial à aprendizagem. E quem o afirma é a revista Science que tem por título "Educação não é uma corrida". Escutemos a pesquisadora: "O sistema actual baseado no desempenho em testes, pode prejudicar muito a formação de grandes pensadores. Esta forma de ensino promove um verdadeiro extermínio de grandes mentes. A maneira como a educação é organizada na actualidade faz com que potenciais vencedores do Prémio Nobel sejam perdidos mesmo antes da educação básica, já que o modelo de ensino massacra qualquer outro interesse que não seja o cobrado nos exames. É importante desenvolver talentos. Isso sim tem um papel importante no futuro de alguém". "(...) A maioria dos grandes pensadores que deixaram um legado para a humanidade seguiram caminhos muito diferentes do convencionalmente estabelecido".
Os leitores que avaliem as posições das duas investigadoras. Eu já avaliei: a primeira parece-me, claramente, de ENCOMENDA. Há, de facto, tal como me dizia o meu Amigo, lentes de aumentar e lentes que diminuem!
Ilustração: Google Imagens.

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