quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

CORRUPÇÃO, ATÉ NOS ÓRGÃOS DE SOBERANIA...


É evidente que não se pode tomar a parte pelo todo, mas o que se está a passar causa preocupação e até descrença e revolta. O fenómeno da corrupção existe, é verdade, um pouco por todo o Mundo. Nesta leva, aqui por perto, um Juiz, um Desembargador, um Procurador do Ministério Público, Advogados, banqueiros, secretários de Estado sob indícios de utilização abusiva de cartões de crédito, um Reitor de uma universidade privada por desvio de três milhões de euros, funcionários, roubo e falsificação de cheques na Segurança Social, políticos, entre outros, do topo da hierarquia, grandes empresários, dirigentes de clubes desportivos, eu sei lá, gente que deveria ser referência para a sociedade, afinal, alegadamente, pelo vil metal, corrompem ou deixam corromper-se. A Justiça o dirá. Se disser. A quem estamos entregues! É que não se trata de assuntos de somenos importância, antes denunciam redes de interesses diversos, muitos milhões em jogo, em um claro salve-se quem puder. E o que é mais relevante e preocupante é que nem os representantes da Justiça estão fora desta apetência pelo dinheiro fácil, embora, até sentença transitada em julgado, todos sejam considerados "inocentes".


Alguns dirão que sempre foi assim, que estranho seria que entre homens e mulheres a corrupção não existisse. Ávidos pelo bem-estar rápido, resultado do dinheirinho arrecadado de forma ilícita, por debaixo da mesa, corruptos e corruptores não olham a meios para atingir os seus fins. Mesmo sabendo que, hoje, pelo jornalismo de investigação e pela denúncia, fácil se torna serem descobertos. 
A vergonha pública que é um Procurador sentar-se à frente de um seu colega para explicar as manobras eventualmente criminosas; a vergonha de um Juiz Desembargador assistir a inspectores da Polícia Judiciária procederem a buscas na sua própria casa, acompanhados de um colega juiz que, talvez, trate por tu. Portanto, só por aqui, como acreditar nas instituições, porque as instituições são, também, as pessoas que lá desempenham funções, neste caso, nas constitucionalmente consideradas por Órgãos de Soberania? Como acreditar em certos Acórdãos, quando, sublinho, alegadamente, segundo a comunicação social, alguns são "comprados". Este é um quadro preocupante e devastador. Deixa a marca da desilusão ao vermos tais figuras a chafurdar na lama da indecência. E se isto é assim na montra o que não irá no armazém, questionará qualquer cidadão. 
A porcaria anda por aí espalhada. Tudo é objecto de transação. Tudo se vende e tudo se compra. Até a consciência, a verticalidade e a honestidade. Uma vergonha que nos deveria, colectivamente, fazer levantar a voz.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O NAVIO POLÍTICO DA GOVERNAÇÃO ESTÁ A METER ÁGUA, MUITA ÁGUA E A ASSEMBLEIA NÃO É UMA ESCOLINHA...


A Senhora secretária do Ambiente e Recursos Naturais, Drª Susana Prada, munida de uma garrafa de vidro, presumo, cheia de água, foi à Assembleia Legislativa entregá-la ao presidente do primeiro órgão de governo próprio. Motivo: simbolicamente, sensibilizar os deputados a não beberem água adquirida em garrafas de plástico. Resposta do presidente da Assembleia: "Não se vai fazer discriminação aqui dentro. O que vai acontecer agora é que há a opção dos senhores deputados consumirem também água da torneira (...) a água que melhor entenderem”. Pois, sempre foi assim, logo uma visita em vão!


Parece-me que a equipa responsável pela política ambiental e dos recursos naturais tem pouco a fazer. O mesmo direi do presidente da Assembleia. A ideia que fiquei foi a de um número político para a comunicação social. 
Justificava-se, desde há muito, e justifica-se, sim, uma grande e CONTINUADA acção de consciencialização e promoção da nossa água (o Dr. Raimundo Quintal fartou-se de falar disso), que há muito deveria ter sido iniciada, relativamente ao grau de pureza provada em contínuas análises laboratoriais, quando comparada com águas engarrafadas (um logro); justificava-se, desde há muito, e justifica-se dar a conhecer, por conseguinte, que a água fornecida à população, é segura e mais controlada que as engarrafadas, clarificando, em simultâneo, as consequências negativas da água e do plástico quando expostos ao calor e ou variações de temperatura; mais, ainda, justifica-se, desde há muito, a sensibilização para a gravidade ambiental do plástico, os custos de reciclagem e até no que concerne ao preço para o consumidor. Esperava, desde há muito, e espero que trilhem de forma consistente o caminho da sensibilização. 
Ora, eu que deste sector apenas domino o básico que qualquer cidadão deve conhecer, portanto, com todas as limitações técnicas e científicas da minha parte, fico pasmado que aquelas, entre outras, sejam preocupações (óbvias) com um atraso de dezenas de anos. Se, porventura, a secretária fizesse, no quadro de uma estruturada preocupação de longo prazo, um périplo pelas grandes empresas nacionais que engarrafam e ou distribuem água, sensibilizando-as para o vidro em detrimento do plástico, no mínimo, julgo que se trataria de uma acção meritória merecedora de aplauso, embora, por um lado, tal deva competir ao Ministério do Ambiente, por outro, quando se sabe que a complexidade dos interesses económicos em jogo (indústria milionária) muito dificilmente venha substituir o plástico pelo vidro. E como resolver outras situações, a de todos os outros líquidos ou não, fornecidos em recipientes de plástico, desde refrigerantes, a óleos passando pelos detergentes? 
Daqui, concluo, que no quadro da Autonomia política e administrativa, a ida à Assembleia, não para apresentar LEGISLAÇÃO regional, limitadora da utilização do plástico, mas apenas para entregar uma garrafa de vidro solicitando que os senhores deputados não bebam água proveniente de garrafas de plástico, mesmo considerando o simbolismo da iniciativa, acaba por ser pobre, politicamente, muito pobre. E a prova está na declaração do presidente da Assembleia: "não se vai fazer discriminação aqui dentro". E pertencem ao mesmo partido político!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 27 de janeiro de 2018

TOTÓS QUE LADRAM E ATRASADOS MENTAIS


Não posso deixar passar em vão um texto que, lamentavelmente, fala de totós e indivíduos que ladram. Sobretudo quando parte de uma pessoa com responsabilidades políticas. Ser chefe de gabinete, ou qualquer outra coisa na Administração Pública, implica decoro, reserva, discrição, não utilização de uma rede social para dirigir ataques, directos ou indirectos, a outros de quem se discorda no plano político. É mau, é feio, é desprestigiante. Compromete quem dirige tais dislates, como coloca em causa a hierarquia superior. 


Depois, o exercício da política, quer no poder quer na oposição, exige o salutar contraponto, porém com elegância e fundamento, com as armas da palavra e não da ofensa. De resto, a Região passou trinta e tal anos sujeita a formas discursivas excessivamente agressivas, intolerantes, malévolas e geradoras de medo. Copiar esses formatos quase significa que os interiorizaram, de tal forma que os repetem sem pensar. Quase como assumir que esta é a minha vez! Liminarmente, rejeito, e sinto-me profundamente incomodado quando os impropérios saem da boca de uma pessoa antes oposição. Vou mais longe, porque, repito, a minha consciência dita que não devo silenciar-me. O Partido Socialista da Madeira, com responsabilidades em várias autarquias, não pode assumir um comportamento igual a outros sem filtro. Uma coisa é ser contundente, outra é ser malcriado. Para mim é inaceitável. Fui autarca e passei pela Assembleia, nunca me senti totó, tampouco ladrei ou chamei outros de atrasados mentais. Nem alguma vez considerei os meus adversários políticos dessa maneira. Tão grave para fora quanto um outro designa, para dentro, os próprios camaradas de partido de "canalhas e nojentos". INTOLERÁVEL. Porque me sinto envergonhado, embora nada tenha a ver com a pessoa em questão, mas porque a minha opção política é clara, peço desculpa a todos quantos se sentiram ofendidos.


NOTA COMPLEMENTAR

Da mesma forma que é intolerável o vice-presidente do governo, no recente debate sobre o novo hospital, acusar o Primeiro-Ministro António Costa de "vigarice". Isto em uma altura que o diálogo e a diplomacia deveriam constituir a essência da adultez política.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A PALAVRA DO MOMENTO: ESTRATÉGIA


Por estes dias, por razões várias, muito se tem falado de estratégia. O termo banalizou-se na boca de alguns, porventura levados pelo significado mais superficial e não pela extensão do mesmo. Eu diria, talvez, mais pela aparência e ou subjectividade de alguns dados do que pelo estudo e definição de um caminho. A evolução do comportamento das organizações determinou que de uma situação estável no início do século passado, tornou-se reactivo, centralizado, lento e ineficiente aí por meados dos anos trinta e, logo depois, a gestão estratégica foi evoluindo no sentido do desenvolvimento de uma posição concorrencial nos espaços de competência, da capacidade de manobra e posição de força em função da turbulência do ambiente, isto é, do "mercado das ideias", mas também pela necessidade de garantir uma capacidade de reserva, uma vez que é tão importante o ataque como o domínio da arte da retirada.


O que por aí leio não bate certo com aquilo que nos trouxe, entre muitos outros, Alfred Chandler, Peter Drucker, Henry Mintzberg, Ansof , Chiavenato ou Michel Godet. Ser pensador estratégico (desde T'ai Kung - 900 aC, Sun Tzu - 500 aC entre tantos e tantos até aos dias de hoje) e homem de acção tem muito que se lhe diga, porque atravessa toda a História. Da arte da guerra até ao âmbito gestionário.
No aspecto que, em abstracto e em síntese, aqui me trás, quando em causa está um pensamento prospectivo sobre o futuro, seja ele qual for, consubstanciado no apelo à imaginação e ao sonho em função da dinâmica social, na capacidade de prever e de ousar, de escolher, apreciar e de considerar os elementos da equipa, de saber imaginar os movimentos possíveis em várias jogadas, tudo isto implica um acrescentado conhecimento para que se possa falar de uma eficaz atitude estratégica. Só depois vem o planeamento com os seus, pelo menos dez princípios: o da integração, o da coerência, participação, equilíbrio, globalidade, prioridade estrutural, transformação graduada, interacção, flexibilidade e optimização dos meios. Por aí fora. Portanto, a estratégia não corresponde e não pode corresponder à boa vontade inscrita em meia dúzia de folhas A4, com enfeitadas palavras, mais ou menos programáticas, falhando nos extensos pressupostos que enformam o domínio dos factores básicos. Não basta, repito, boa vontade, mas conhecimento assertivo, uma experiência acumulada e permanente correcção dos erros antes cometidos.
Significa, portanto, que tais domínios só estão ao alcance de quem os estuda, pacientemente, tal qual um jogador frente a um tabuleiro de xadrez, até porque qualquer decisão deve ser, sempre, estruturante, isto é, deve comprometer, profundamente, o futuro. As jogadas não pensadas provocam danos. O sucesso não é possível apenas com a boa vontade de amadores. Não se consegue com aprendizes de feiticeiro. Não se consegue com ausência de qualidade. É por isso que algumas organizações têm êxito e outras não. Uma organização, seja de que tipo for, da empresarial à política, carece de pessoas qualificadas, desde os líderes, no vértice estratégico, à linha hierárquica descendente até ao patamar operacional. Se assim não acontecer, a organização tende, naturalmente, a falhar na sua vocação e missão, a falhar nos objectivos ou metas, nas próprias estratégias, nas políticas e nos procedimentos. De resto, complementarmente, quando as organizações não se viram para fora, antes desenvolvem uma cultura virada para dentro, em função de interesses muito específicos e particulares, não há estratégia que as valham. A estratégia nasce da criatividade, da inovação, transporta uma visão de longo prazo, construída passo a passo, pelo que estes aspectos, determinantes, não se coadunam com pessoas impreparadas.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 21 de janeiro de 2018

ONDE SE FALA DE COSTA(S) LARGAS E DE BICICLETAS BT(T)


Escrevo com a liberdade de pensamento que me assiste. Entendo que respeitar a democracia é uma coisa, reflectir sobre o futuro é outra. E essa leitura posso e devo fazê-la. É-me legítima. Os militantes do PS-Madeira votaram no senhor Emanuel Câmara. Fizeram a sua escolha. Está feita e ponto final. Diferente da minha. Oxalá esteja eu completamente enganado, mas estes resultados, infelizmente, não auguram nada de bom. Continuo a defender que o político mais bem preparado para governar foi, internamente, preterido. A Madeira precisava de um político de qualidade no sentido do pleno domínio de todos os dossiês da governação, coisa que, obviamente, não se aprende de um dia para o outro, nem com blá, blá, sobretudo no concernente a dossiês determinantes, caso concreto, da Economia e Finanças, verdadeiro calcanhar de Aquiles da Região. Fazer projectos no papel, estou a falar da elaboração de "moções" é uma coisa, possuir inteligência política para os implementar é outra. Aliás, os vencedores sabem-no bem, que o exercício da política séria e consequente não se consegue, apenas, com largos sorrisos e "soundbytes" de circunstância.


Não quero saber das razões mais substantivas, das maquiavelices ou da opacidade de todo o percurso que, aliás, foi público e notório. Há muito que é assim, que o subterrâneo funciona. Foram perceptíveis algumas passagens na comunicação social. Percebeu-se que houve e que há "costa's" largas neste processo e, como hei-de dizer, bicicletas todo o terreno, de marca BT(T) a funcionar de acordo com inegáveis interesses pessoais e até com pontinhas de vingança relativamente a etapas anteriores. Mas isso é passado. De que vale chorar sobre o leite derramado, questiono-me. Porém, não esqueço as históricas habilidades no bas-fond. Fala-se, agora, de uma tal estratégia ganhadora e que, doravante, isto será sempre a abrir! Oxalá não fique a restar a continuidade dos estratagemas. Por aí será muito difícil atingir seja que objectivo for. É preciso qualidade, muita qualidade técnica e política para marcar a diferença. E a propósito, enaltece a edição de hoje do DN-Madeira: Carlos Pereira "fez crescer o PS-Madeira e deu-lhe credibilidade. E tanto assim foi que tornou a liderança apetecida. Perdeu mas deixa a fasquia alta (...)".  
Quem, um dia, se predispuser a fazer a História, do Surdo à Alfândega, certamente que terá de escrever sobre acções ardilosas e armadilhadas que agora atingiu o seu apogeu. Não tenho paciência para chafurdar nas maquiavelices, mas  preocupa-me o futuro. O meu Amigo Arquitecto Luís Vilhena escreveu que nas recentes eleições ficou claro que "o PS Madeira não estava preparado para o Carlos. E apesar de todos reconhecerem a sua competência, era-lhes muito difícil engolir isso". Eu penso que sim. Essa foi a posição de toque à qual se juntou a luta pela continuidade de um emprego na política. Por conseguinte, qual estratégia! 
Seja como for, depois desta vitória do senhor Emanuel Câmara, bom seria que mudasse de opinião (penso, também, que é tarde) apresentando-se, em 2019, com a tal estratégia ganhadora, como cabeça de lista e candidato a presidente do governo. E que o Dr. Paulo Cafôfo regressasse à sua predisposição inicial, isto é, a de governar a cidade do Funchal, o melhor possível, até ao final do mandato, com possibilidades de renovar o mandato. Diz o provérbio "quem tudo quer, tudo perde". E a tal "estratégia" pode conduzir a dois pássaros a voar. Cuidado. 
Jamais voltarei a escrever sobre este tema. Se, em Outubro de 2019, não tiver razão, oxalá não tenha, obviamente, que aqui virei exultar a vitória do meu partido político. Para já, com toda a minha sinceridade, deixei aqui o que penso. Que sejam felizes!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 20 de janeiro de 2018

NÃO É CONVERSA DA OPOSIÇÃO É DA ORDEM DOS MÉDICOS


"HÁ UM SECRETÁRIO QUE DEVE LIDERAR OU ENTÃO MUDE-SE O SECRETÁRIO"


A entrevista do Dr. António Pedro Freitas, líder da Ordem dos Médicos na Madeira é de uma frontalidade pouco habitual. Daí que lhe enderece os meus parabéns. Nas vésperas de um debate na Assembleia Legislativa da Madeira sobre questões do Sistema de Saúde, a radiografia do sistema, publicada pelo DN-Madeira, coloca o governo regional e, particularmente, o secretário da Saúde, em maus lençóis. Fala de um sistema bicéfalo, de clima de intimidação e ambiente pesado e amordaçado, de maus indicadores, de manobras estatísticas, portanto, manipuladas, de perda de idoneidade formativa, de um sistema refém das mesmas ideias e do mesmo modo de pensar e agir, de marasmo e indiferença, que a culpa é sempre dos outros ou morre solteira, enfim, sendo assim e pelo que li, estão explicados, entre outros, dois factos: primeiro, este mandato regista (já) três secretários e substantivas alterações no quadro da administração e direcção clínica; segundo, a verdade dos vários trabalhos publicados pelo DN-Madeira, denunciando o caos no sistema pelas mais variadas razões. Não se trata de perseguição, mas da realidade.
Uma entrevista do jornalista Élvio Passos, a ler com atenção, mais que não seja para que percebamos o estado de saúde da Saúde na Região. A situação a que chegou, que é transversal a todo os sectores do governo, demonstra que há uma absoluta necessidade de mudar de políticos e de políticas.

A entrevista pode ser lida AQUI
Ilustração: DN-Madeira

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

RUI RIO DAQUI A DOIS ANOS? VÁ PARA A SALA DE ESPERA DO DIABO


In Expresso Diário, 17/01/2018



Por Daniel Oliveira, 

Fazer previsões a dois anos de distância é absurdo. Muita coisa pode acontecer a um governo que ainda está a meio do mandato. E muita coisa pode acontecer nos meses anteriores às eleições. Há, no entanto, algumas coisas que sabemos pela experiência das últimas décadas. Que só ao fim de muito tempo, por cansaço acumulado, governos caem em tempos de recuperação de rendimento e emprego. Vivemos muito embrenhados nos casos mediáticos, mas continuam a ser as condições materiais de vida dos cidadãos que determinam, antes de tudo, o seu voto. Mesmo o PSD e o CDS, que conseguiram um dos piores resultados da direita nacional nas últimas eleições, só ficaram (coligados) à frente do PS porque no ano anterior reduziram drasticamente as medidas de austeridade, permitindo um alívio nas carteiras dos portugueses.

Não há, com os dados que conhecemos, nada que aponte para a derrota do PS e do conjunto da esquerda nas próximas eleições. Mesmo os incêndios tiveram, se olharmos para as sondagens e para as eleições autárquicas depois de Pedrógão (mas antes de outubro), pouco efeito no sentido de voto. E é difícil um governo passar por maior tragédia do que aquelas. Quanto à degradação da qualidade dos serviços públicos, que se agudiza desde o início do século, pouco se pode fazer dentro dos constrangimentos europeus que a maioria do país aceita. Andamos apenas a adiar o colapso. Dificilmente algum governo conseguirá fazer o milagre de continuar a ter um superavit primário e não rapar no fundo do tacho do Serviço Nacional de Saúde e do Estado Social.
O que pode acontecer à “geringonça” é interno à “geringonça” e será, mais do que o PSD, determinante para a divisão de votos. Se as pessoas perceberem que Bloco de Esquerda e PCP estão empenhados, de forma ativamente crítica, numa solução à esquerda, os três partidos partilharão os resultados de um mandato globalmente positivos. Se os sinais de rutura forem claros ou mesmo explícitos, o PS terá condições para conquistar uma maioria absoluta.
Compreendo o raciocínio que Rui Rio, de forma um pouco cândida, tentou explicar a Pedro Santana Lopes: se o PSD disser que não viabiliza um governo minoritário de António Costa os eleitores de centro-direita tenderão a votar útil no PS, para que ele governe sozinho. Ele não disse que eram os de centro-direita, mas digo eu. Porque, como indicam todos os estudos de opinião, a esmagadora maioria dos eleitores tradicionais dos três partidos da “geringonça” estão satisfeitos com esta solução. Mesmo os eleitores socialistas parecem, depois da experiência de Sócrates, confiar mais num PS dependente de outros partidos do que numa maioria absoluta. E os eleitores do BE e do PCP, mesmo que gostassem de ver este governo ir mais longe, preferem ver os partidos em que votaram a determinar aspetos fundamentais da governação do que a ouvi-los apenas a protestar, na oposição.
Na realidade, a “geringonça” agrada, segundo todas as sondagens, a mais pessoas do que aquelas que votaram nos três partidos que a construíram. Ignorar isto é construir castelos no ar. Claro que se a economia e o emprego correrem mal tudo isto muda. Mas, com os dados que temos, o discurso baseado na ideia de “libertar o governo das garras da extrema-esquerda” dirige-se aos convertidos. Não tem qualquer efeito num eleitorado de centro que não se sente no meio de um processo revolucionário. O país não vive nas redes sociais nem é representado pelos colunistas.
Os apelos ao bloco central também não têm qualquer futuro. Bem sei que muitos se convenceram que António Costa fez nascer a “geringonça” por mero taticismo. Também foi isso. Todos os momentos históricos misturam estratégia e tática, premeditação e conjuntura. Mas quando Costa deu este passo, que tudo indica que já tinha sido discutido com o PCP antes das eleições, olhou para o futuro. Percebeu que com dois partidos médios à sua esquerda as maiorias absolutas iam ser cada vez mais excecionais. Sem quebrar o tabu ficaria eternamente dependente da direita para governar. E Costa, que é tudo menos falho de instinto político, sabe o que está a acontecer aos partidos socialistas e social-democratas que se mantiveram num bloco central anacrónico: estão a morrer. Do PASOK ao SPD, passando pelos socialistas holandeses. É por isso que o PSOE se recusa a qualquer entendimento com o PP e o Labour virou à esquerda. Mesmo o SPD resiste até ao limite na renovação do acordo com a CDU. António Costa não descobriu a pólvora. O bloco central só não foi dinamitado onde não havia qualquer alternativa. Só se fosse louco é que Costa preferia depender do PSD, tendo de lhe ceder e deixando livre o espaço de crescimento à sua esquerda. Só haverá um governo socialista dependente do PSD se BE e PCP o quiserem. E se o derem a entender antes das eleições até é provável que ofereçam uma maioria absoluta ao PS. Com os dados que temos hoje, esse é um filão sem futuro.
Não sei se Rui Rio trabalha para os próximos dois anos ou tem uma visão que ultrapassa as próximas eleições. Se o seu prazo de validade são as próximas legislativas, não há grandes razões para o PSD estar otimista. Resta-lhe a mesma estratégia de Passos: esperar que as coisas corram mal na economia. E, desta vez, tentar que os portugueses não notem a sua esperança. Se, pelo contrário, pensa para depois de 2019, tem tempo para se construir como alternativa.
Se não se perder em diatribes liberais que agradam a meia dúzia de colunistas, Rui Rio pode representar com eficácia a direita nacional. Basta acrescentar ao programa que a direita tem há anos (fazendo dele menos alarde ideológico do que Passos Coelho) um vago patriotismo simbólico. E, como estilo de liderança, alimentar um distanciamento altivo em relação ao burburinho mediático, que lhe é natural e o distingue de Marcelo. Rui Rio tem tudo para ser melhor cavaquista do que Cavaco. Tem o perfil ético que sempre faltou ao anterior Presidente da República e partilha com ele o gosto pelo exercício um pouco mais musculado do poder. Mas precisa de pelo menos seis anos para receber o poder como quase todos os últimos primeiros-ministros o receberam: por cansaço ou falhanço de quem está no governo. A questão é se resiste a tão longa travessia do deserto. Se é para daqui a dois, apenas mudou o turno dos que fazem política na sala de espera do diabo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

QUANDO PROTESTAR SIGNIFICA APOIAR


Um texto do Padre José Martins Júnior
Publicado no seu blogue http://sensoconsenso.blogspot.pt/



Onde se meteu o Papa Francisco?! Os sábios da Antiga Grécia responderiam sem hesitar: o homem meteu-se entre “Cila e Caribdis”, duas divindades mitológicas, personificadas em monstros, rochedos e sorvedouros das embarcações, tal como o nosso “Adamastor” no Cabo das Tormentas, depois transformado em Cabo da Boa Esperança. Tudo está acontecendo nesta corajosa viagem ao Chile e ao Peru. Aliás, o argentino Bergoglio pisa um chão que é seu, que bem o conhece – a América Latina, um nó de paradoxos - e, por isso, mediu bem os riscos que corria. Facto insólito e único foi o protesto de uma multidão de mulheres e homens, empunhando cartazes contra o Vaticano, directamente contra o Papa, pela indiferença com que olhava para os escandalosos abusos de menores por parte do clero. Mesmo após o comovente pedido de desculpas em plena cerimónia litúrgica, diante de milhares de participantes, a população não se desmobilizou, pelo contrário redobrou a sua raiva. Facto único entre todas os países que o Papa visitou até hoje!


Mas o mais enigmático e assustador é o seguinte: toda aquela faixa da América Latina foi evangelizada, durante séculos, pelos missionários da Igreja Católica, os espanhóis. E o paradoxo não é menos desconcertante: em todos os outros países, de matriz constitucional não cristã nem católica – muçulmanos, budistas, inclusive ateus confessos - o Papa foi sempre ovacionado. E, pasme-se, é num território, secularmente católico, que ele é protestado, invectivado e verbalmente agredido!
Como terá reagido Francisco a estes clamorosos protestos? Mal, dirão uns. Magoado, segundo outros. Pessimamente, comentarão outros ainda, perante os gritos ululantes dos manifestantes, “Ficou tão feio fazer aquilo” . opinarão os ‘piedosos’ beatos.
Desculpar-me-ão, mas hoje estou contracorrente. Eu acho que o Papa ficou mil vezes agradecido, porque intimamente e externamente reforçado nos seus planos de acção. Justificando: tenho repetidamente afirmado que as transformações na Igreja não podem ser obra do poder hierárquico. As hierarquias não querem ser incomodados nem, muito menos, apeadas dos seus cadeirais de conforto e poder. Por isso que a sua iniciativa inovadora é uma falácia, senão mesmo um perigoso embuste. A evolução das sociedades, para ser perfeita e segura, tem de partir dos seus próprios constituintes, o povo, a comunidade. Bastas vezes tenho aqui citado o pensamento de um grande intelectual cristão: “A Igreja não precisa de um líder extraordinário, excepcionalmente iluminado. Isso vai contra o plano de J.Cristo na história”. Para não tirar ao Povo cristão o seu poder de iniciativa, interventivo e eficaz. 
Não há sombra de dúvida de que este Papa tem sido um acérrimo fautor de mudança no Vaticano, um autêntico revolucionário nesta área, mormente quanto às estruturas caducas da Cúria Romana. Para uns – os cardeais – ele tem de ser condenado por heresia. Para outros – os verdadeiros obreiros do Evangelho – ele já deveria ter ido mais longe. É neste último registo que se situa Francisco. Ele quer ir muito mais além. Mas com quem conta ele nesta cruzada renovadora? Os cardeais, os bispos, os clérigos? Nem pensar. Ele só pode contar com as bases, o Povo que constitui a massa e o fermento da Vida. Sem o apoio das comunidades de base, ele não pode sozinho abrir caminho. Precisa da nossa palavra e da
nossa acção. No último número da revista Philosophie, razão tinha o editor em formular a pergunta: “Porquoi est-il si diffile de changer”?
Da presente nota justificativa, concluo que os protestos da multidão –“Entregue à Justiça os pastores, bispos e padres, abusadores das crianças” – terão desagradado à ala dos velhos cardeais de cruzes de ouro ao peito, mas agradaram fortemente ao Papa Francisco que, no seu íntimo, decerto sentia e quereria dizer, emocionado; “Gritai, gritai mais forte, dai-me estímulo para agir”. Aliás, ele acaba de dizê-lo, agora à noite, na missa para os jovens: “ O vosso país, o mundo, a Igreja precisa que vocês a interpelem”!
Em jeito de resposta à pergunta da revista citada, a analista Catherine Malabou, após monitorizar as três causas do fenómeno – o hábito, o medo, a dificuldade – aconselha assim o filho e, nele, a todos nós “É preciso perder o medo de partir. E porque somos plásticos, ágeis, nada nos há-de quebrar, saberemos adaptar-nos e estar à altura do momento”.
Para aí o Papa nos convida e nos convoca!

17.Ja.18
Martins Júnior

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

SERIA PREFERÍVEL, MENOS VISITAS, MENOS PALAVRAS E MAIS GOVERNO


Será que a Madeira ainda tem presidente do governo? A governar não se dá por ele. A máquina parece que funciona mesmo sem o líder e sem alguns outros secretários. O sistema está montado, diariamente, cada um oleia a dita, umas palavrinhas aqui e outras ali, uma afinada orquestra na Assembleia e o número fica feito. É pouco. Às vezes tenho a percepção de uma permanente campanha eleitoral. Uns beijinhos aos velhinhos, umas idas às "casas do povo", uma presença em momentos mais ou menos festivos, convívios e umas inócuas palavrinhas de circunstância é o que está a dar. O Senhor Presidente da República parece ter tido influência. Só que ele não governa, acompanha, sugere e critica quando entende que o deve fazer. O daqui, nas funções que desempenha, só faltam umas selfies, tem tantos dossiês que o deveriam preocupar, porém, a imagem que fica é a de pouco ter a ver com isso. O vice-presidente e os secretários que resolvam.


O problema é que os secretários demonstram andar aos papéis. Atente-se no sector da Saúde, onde, lamentavelmente, pelas mais variadas razões, é notícia menos agradável, quase todos os dias; atente-se no sector da Educação que, tal como um reloginho abre e fecha a horas, repete e repete os erros, sem qualquer rasgo de inovação e de pensamento estruturante portador de futuro; atente-se nos Assuntos Sociais, cuja Senhora Secretária, sempre sorridente, anda por aí a cumprimentar com o chapéu alheio (a Segurança Social é Nacional), desdobrando-se em visitas, todavia, sem uma visão da importância deste vital sector, mormente ao nível das políticas de família, do trabalho com dignidade, da pobreza, da habitação, por aí fora. Teci considerações sobre estes três pilares da governação, e os outros? Que dizer da Economia e das Finanças, por exemplo? Basta estar atento ao que dizem os empresários e a tudo aquilo que é motivo de peças jornalísticas e até de "cartas dos leitores". 
Não escrevo apenas pelo sentido crítico face ao meu posicionamento político-partidário. Faço-o enquanto cidadão, pela constatação dos factos, até porque esta cor política está há 42 anos no poder com maioria absoluta. Era tempo para a Madeira ser outra, não nas estradas e outros equipamentos, o mais fácil de concretizar (desde que haja dinheiro, empreiteiros não faltam), mas no equilíbrio e justiça social, nos diversos sectores estruturantes, na abertura ao mundo, na mentalidade e na capacidade de trazer o futuro ao presente. A Madeira continua com uma Autonomia de papel, com um Estatuto que se fica pelas palavras, é preciso dizê-lo, do ponto de vista institucional, de quase um Estado dentro do Estado, com muita gente em serviços, alguns absolutamente dispensáveis e onde uma clique que se apoderou dos sectores estratégicos faculta a ideia de que tudo é realizado pelo bem-estar do povo. A prova está aí, nos desequilíbrios, nos gastos supérfluos, no não atendimento das prioridades, na gritante e muitas vezes escondida pobreza, na despesa pública e no preocupante desordenamento territorial. Hoje, questiono, ninguém é capaz de prognosticar a Madeira a dez, quinze, vinte anos! Simplesmente pela ausência de rigoroso planeamento. A Administração da coisa pública é feita ao dia, à semana e ao mês. Com alguma benevolência, de orçamento em orçamento, porém desarticulado de um objectivo maior. Preocupante.
E enquanto isto acontece, a agenda dos governantes e do grupo parlamentar da maioria continua preenchida com uma ida ali, outra ao virar da esquina, umas palavras de circunstância, umas decisões em plenário sobretudo para apoios associativos, porém, aquilo que se me afigura determinante muito pouco acontece. Ora bem, seria preferível menos visitas, menos palavras e mais governo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A DEMOCRACIA EXIGE DEBATE


O fermento da DEMOCRACIA é a participação. Ou participamos ou os processos morrem! Quando se participa, obviamente, discute-se, debatendo. É a luta entre contrários que mobiliza o pensamento e a definição de percursos para um objectivo. Foi isto que Abril trouxe: a liberdade de exteriorizar, de pensar diferente, de inovar e de criar os pressupostos do desenvolvimento. Uma participação sem debate equivale a um jogo sem bola e balizas. Cada um fica no seu campo, mesmo que o árbitro, de nome pomposo COC, tenha dado início à contenda. Portanto, não debater a coisa pública talvez signifique, igualmente, negar todos os espaços onde ele acontece, desde a Assembleia Legislativa até à mais recôndita Assembleia de Freguesia. 


É ininteligível por uma outra razão que me preocupa. Os partidos políticos constituem instituições da sociedade. Nascem e vivem por necessidades organizacionais de administração e gestão da sociedade. Daí que não devam ser núcleos fechados, impenetráveis e sem qualquer vínculo à sociedade. Cada vez mais devem ser estruturas abertas e disciplinadas em redor dos seus princípios orientadores. E porque representam a diversidade do pensamento dos cidadãos, logo, a estes interessa-lhes conhecer as pessoas e os projectos que entendem por necessários. Sem esse cordão umbilical alimentador de expectativas, a eficácia das instituições perde ou tende a não fazerem sentido. 
Portanto, um partido político é muito mais do que a soma dos seus militantes. Se, por um lado, por estatuto, compete aos seus membros eleger os respectivos órgãos, por outro, o que pensam e querem para a sociedade ultrapassa, largamente, o âmbito interno. Ao que vêm e os seus projectos deve ser do conhecimento de todos, porque todos são, tarde ou cedo, eleitores. A DEMOCRACIA implica esta abertura e transparência sobre as três grandes perguntas: onde estamos, onde querermos chegar e que passos pretendemos dar para lá chegar. Fintar este processo não me parece sensato. Meter-se na toca é inexplicável à luz do cidadão  atento. Ora, situados neste nível de exigência, o debate não pode ser de "roupa suja" ou de mesa de café, mas de conhecimento sobre o que preocupa a sociedade e o seu futuro. Desenhá-lo e explicá-lo à frente de todos no concernente à Economia, às Finanças, à Educação, à Saúde, aos Assuntos Sociais, ao Ambiente, à Agricultura e Pescas, por aí fora, constitui, assim, uma condição primeira para que os eleitores percebam e, eventualmente, adiram. As campanhas eleitorais começam por aí, o resto são quinze dias de "folclore"!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

DESIGUALDADE NO SÉCULO XXI

(Kaushik Basu, in Jornal de Negócios, 07/01/2017)

Depois de um ano medíocre e desonesto, reminiscente da "década medíocre e desonesta" sobre a qual W.H. Auden escreveu no seu poema "1 de Setembro de 1939", as "inteligentes esperanças" do mundo estão a dar lugar ao reconhecimento de que muitos problemas graves devem ser abordados. E, entre os mais severos, com as mais graves implicações de longo prazo e até mesmo existenciais, está a desigualdade económica.

O nível alarmante de desigualdade económica em todo o mundo foi bem documentado por economistas proeminentes, incluindo Thomas Piketty, François Bourguignon, Branko Milanovic e Joseph E. Stiglitz, e instituições bem conhecidas, incluindo a OXFAM e o Banco Mundial. E é óbvio mesmo num passeio casual nas ruas de Nova Iorque, Nova Deli, Pequim ou Berlim.
Vozes à direita afirmam muitas vezes que essa desigualdade é não apenas justificável, mas também apropriada: a riqueza é uma recompensa justa pelo trabalho árduo, enquanto a pobreza é uma punição da preguiça. Isto é um mito. A realidade é que os pobres, na maioria das vezes, têm de trabalhar muito, geralmente em condições difíceis, só para sobreviver.
Além disso, se uma pessoa rica tem uma ética de trabalho particularmente forte, provavelmente isso é atribuível não apenas à sua predisposição genética, mas também à sua educação, incluindo quaisquer privilégios, valores e oportunidades que os seus ascendentes lhe possam ter proporcionado. Portanto, não há um verdadeiro argumento moral para a riqueza extrema no meio da pobreza generalizada.
Isso não quer dizer que não haja justificação para nenhum nível de desigualdade. Afinal, a desigualdade pode reflectir diferenças nas preferências: algumas pessoas podem considerar a busca da riqueza material mais valiosa do que outras. Além disso, recompensas diferentes criam incentivos para que as pessoas aprendam, trabalhem e inovem, actividades que promovem o crescimento geral e a redução da pobreza.
Mas, a partir de um certo ponto, a desigualdade torna-se tão grave que tem o efeito oposto. E estamos muito além desse ponto.
Muitas pessoas - incluindo muitos dos mais ricos do mundo - reconhecem que a desigualdade severa é inaceitável, tanto moral como economicamente. Mas se o dizem abertamente, são muitas vezes rotulados de hipócritas. Aparentemente, o desejo de diminuir a desigualdade só pode ser considerado credível ou genuíno se as pessoas sacrificarem a própria riqueza.
A verdade, claro, é que a decisão de não renunciar, unilateralmente, da riqueza não desacredita a preferência por uma sociedade mais equitativa. Rotular uma pessoa rica, que é crítica da desigualdade extrema, como hipócrita, equivale a um ataque ad hominem e a uma falácia lógica, destinada a silenciar aqueles cujas vozes podem fazer a diferença.
Felizmente, esta táctica parece estar a perder alguma da sua força. É encorajador ver pessoas ricas que desafiam esses ataques, não só reconhecendo abertamente os danos económicos e sociais provocados pela desigualdade extrema, mas também criticando um sistema que, apesar de lhes permitir prosperar, deixou muitos sem oportunidades.
Em particular, alguns americanos ricos estão a condenar a reforma fiscal da administração Trump, que oferece cortes extraordinários aos que têm maiores rendimentos - pessoas como ele. Como Jack Bogle, fundador do Vanguard Group e beneficiário dos cortes propostos, disse, o plano - que irá certamente acentuar a desigualdade - é uma "abominação moral".
No entanto, reconhecer as falhas nas estruturas actuais é apenas o início. O grande desafio é criar um modelo viável para uma sociedade equitativa. (Foi a ausência de tal modelo que levou muitos movimentos bem intencionados na história a acabar em fracasso). Neste caso, o foco deve ser a expansão dos acordos de participação nos lucros, sem sufocar ou centralizar os incentivos de mercado que são cruciais para impulsionar o crescimento.
Um primeiro passo seria dar a todos os residentes de um país o direito a uma certa parcela dos lucros da economia. Esta ideia foi avançada em várias formas por Marty Weitzman, Hillel Steiner, Richard Freeman e Matt Bruenig. Mas é particularmente vital hoje, à medida que a proporção dos salários no rendimento nacional diminui e a proporção dos lucros e rendas aumenta - uma tendência que o progresso tecnológico está a acelerar.
Há outra dimensão da participação nos lucros que tem recebido pouca atenção, relacionada com os monopólios e concorrência. Com a tecnologia digital moderna, a economia de escala é tão grande que já não faz sentido exigir que, por exemplo, 1.000 empresas produzam versões do mesmo bem, cada uma respondendo a uma milésima parte da procura total.
Uma abordagem mais eficiente seria ter 1.000 empresas, com cada uma a criar uma parte desse bem. Quando se trata de automóveis, por exemplo, uma empresa produziria todas as manetes de mudanças, outra produziria todas as pastilhas de travões, e assim por diante.
A legislação tradicional anti-monopólio e pró-concorrência - que começou em 1890 com a Lei Sherman nos EUA - impede que um sistema tão eficiente se estabeleça. Mas o monopólio da produção não precisa de significar um monopólio dos rendimentos, desde que as participações em cada empresa sejam dispersas. É tempo de uma mudança radical, que substitua as leis tradicionais anti-monopólio por uma legislação que exija uma maior dispersão das participações em cada empresa.
Estas ideias ainda não foram testadas, pelo que seria necessário muito trabalho antes de as pôr em prática. Mas, com o mundo a passar de uma crise para outra, e com a desigualdade a crescer, não nos podemos dar ao luxo de manter o status quo. A menos que enfrentemos o desafio da desigualdade, a coesão social e a própria democracia ficarão ameaçadas.

NOTA
Kaushik Basu, antigo economista-chefe do Banco Mundial, é professor de Economia na Cornell University.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

UM APELO AO BOM SENSO



A TRAGÉDIA DO MONTE E A AUSÊNCIA DE SOLIDARIEDADE


Pediram ao presidente do governo regional, Dr. Miguel Albuquerque, um comentário sobre as investigações em curso à queda da árvore no Monte, a tal que vitimou treze pessoas no Verão passado. Segundo me apercebi o jornalista quis saber o que ele pensava sobre a constituição de arguidos e da eventualidade de ser chamado a depor. Laconicamente, respondeu: "Não tenho nada que comentar. À justiça o que é da justiça, à política o que é da política". Pois, em abstracto, é verdade, em função da separação de poderes, é assim. Só que existe aqui um pormenor: o carvalho em causa, segundo li, é quase secular e o presidente do governo é o mesmo que foi presidente da Câmara do Funchal entre 1994 e 2013. Cerca de quatro anos depois da sua saída, o carvalho tombou e vitimou. Poderia ter tombado no dia seguinte à tomada de posse do actual executivo e aí, certamente, a resposta teria sido a mesma. Quanto às causas, não me pronuncio, até porque nada percebo desse sector de actividade. Agora, de um aspecto estou certo: naquela declaração existe uma lamentável ausência de SOLIDARIEDADE. Poderia ter acontecido no decorrer do mandato do Dr. Miguel Albuquerque, o que me leva a dizer que teve sorte! Não sei se hoje seria presidente do governo.


A palavra solidariedade é fundamental na política como em todos os domínios da vida. O que, politicamente, o Dr. Miguel Albuquerque quis dizer foi, desenrasca-te e se fores condenado por coisa que, objectivamente, não fizeste, é a vida, meu caro! Esqueceu-se das palavras do provérbio: "Quem o mal deseja a seu vizinho, vem o seu pelo caminho". Nunca se sabe o que nos espera o dia de amanhã, pelo que vem à colação um outro provérbio: "Hoje por mim, amanhã por ti". No centro desta história está, repito, a palavra SOLIDARIEDADE. Parece que a certos políticos interessa a "morte política" dos outros, esquecendo-se que estão no mesmo barco da vida pública e democrática. Seria absolutamente natural que dissesse que, no seu tempo de presidente da autarquia, os serviços tinham zelado pelo espaço e que nada fazia prever aquela tragédia. Teria sido, politicamente, sensato, mas não, preferiu deixar sós, no meio da arena política e judicial, o actual presidente da Câmara, a vereadora do Ambiente e o responsável pelos parques e jardins. Sinceramente, detesto políticos que se comportam assim. 
As tragédias não avisam. Lá vem o dia que acontecem. Ainda há dias, felizmente, apenas com consequências materiais, caiu um tronco de pinheiro no Monte. Poderia ter vitimado duas pessoas. Pergunto: quantas árvores, no Funchal, terão caído no tempo do Dr. Miguel Albuquerque? Por vezes, existe incúria, é verdade, por isso, as investigações são necessárias para apuramento de responsabilidades. Não é isso que está em causa. No centro deste texto está a palavra SOLIDARIEDADE, pessoal e institucional, independentemente do assunto se encontrar em fase de investigação. Não é desta política que precisamos.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

AS RAZÕES DO MEU APOIO A CARLOS PEREIRA


Nunca gostei da trapaça, dos interesseiros jogos de bastidores, dos senhores que estão e não estão, da contagem de espingardas no bas-fond politiqueiro e nunca apreciei quem, da política, faz um emprego para a vida. O exercício da política constitui um serviço público à comunidade. É assim que o interpreto. A defesa das convicções ideológicas devem reger-se por princípios e por valores de acordo com o documento base orientador do partido. Quem o fere, ou por engano lá entrou sem o ler, resta-lhe sair. Mover a guerrilha, não. Por isso, tal como tantos, enquanto me senti útil e quis, servi e não me servi. Dos momentos menos bons, e foram muitos, não guardo qualquer mágoa. Vivi um tempo, envolvi-me, até que chegou o momento de dizer, que o meu tempo se tinha esgotado. Era a vez de outros entrarem na nau e de navegarem, mas atenção, através de instrumentos e não pelas estrelas.


Ora, trabalhei com o Deputado Carlos Pereira. Ele foi vice-presidente de um grupo parlamentar que tive a honra de liderar. Apreciei a sua argúcia, a sua inteligência, a sua forma honesta de estar, a sua capacidade de estudo, a forma como enfrentou, com números, a colossal dívida da Região na ordem dos seis mil milhões, quando o partido do poder negava; acompanhei a sua sagacidade política, a sua capacidade de reagir, quase automaticamente, aos problemas resultantes dos vários dossiês, com argumentos sustentados e inatacáveis; vivi a eloquência do seu discurso político em várias sessões na Assembleia Legislativa da Madeira; ajudei na revisão do seu singular e espantoso livro A Herança, que ajudou a compreender as causas do descalabro das finanças públicas regionais; tenho ainda  presente os sons dos ataques miseráveis que lhe foram sucessivamente feitos e guardo os gestos de total solidariedade em vários momentos. Dirão, alguns, mas serão tudo virtudes? Obviamente que não. Todos nós, humanos, temos, em um dos pratos da balança, aquilo que contra nós pesa. Pessoalmente, não vejo por onde pegar, mas aceito que outras sensibilidades apontem o dedo indicador, muitas vezes esquecendo-se que, quando fecham a mão, apontando, pelo menos três dedos apontam contra si próprios.
Por aquilo que penso e por aquilo que apreciei na luta política com o Deputado Carlos Pereira resta-me apoiá-lo sem qualquer reserva. Com o respeito que nutro por tantos nas várias bancadas do parlamento, do passado ao presente, inclusive, alguns por quem tenho respeito e consideração pessoal, o Dr. Carlos Pereira, para mim, é o mais bem preparado para liderar um partido que deseje ser poder na Região. Como ele, não existe, na nova geração de políticos, alguém capaz de assumir um alto cargo de responsabilidade governativa. Ao contrário de outros que governam, Carlos Pereira está preparado do ponto de vista da economia, das finanças, da política geral, mas também pelos valores que defende para uma sociedade mais justa. O seu currículo é vasto e não se esgota na formação académica e na participação política. Conhece as dificuldades de ser empresário, foi secretário-geral da ACIF, não é Homem de jogos e de trapaça política. Com ele o PS-Madeira cresceu eleitoralmente, portanto, a leitura que dessa onda faço é que o povo está atento e sabe que ele pode vir a ser o próximo presidente do governo regional, quebrando quarenta anos consecutivos de uma só cor na governação. 
Por tudo isto e muito mais, voto CARLOS PEREIRA.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O FOGO DA ESPERANÇA



Foi bonito. Tudo se conjugou: céu limpo, ausência de vento, temperatura amena e 2018 surgiu pleno de cor. Ah, com uma particularidade, a Lua quase cheia, li, corresponde "à plenitude de todas as coisas. A semente germinada que cresceu e chegou ao seu ponto máximo de poder". Oxalá se confirme ao longo destes próximos doze meses.
Fiz algumas fotos e aqui as partilho convosco, apenas com um desejo: saúde... porque o restante, pode vir por acréscimo. Um abraço, Amigos.
Nota: clique sobre a foto para ampliá-la.