terça-feira, 31 de julho de 2018

OH SANTA HIPOCRISIA!


Uma breve nota em abstracto: um cidadão recebe, por exemplo, uma herança. Ou adquire, pelo seu trabalho, um imóvel. Antes disso, pela sua formação pessoal, adquirida ao longo de anos de leituras e observações que estruturaram o seu carácter, no quadro dos seus direitos de cidadania, faz uma opção política claramente à esquerda. E por aí se mantém na defesa dos valores que acredita. Regresso à herança. Investe, acrescenta, melhora, recupera e o mercado, o tal "deus mercado" tão ao gosto da direita política, atribui um valor. Aí, cai o Carmo e a Trindade. Então o sujeito é de esquerda e é rico? Então ele não deveria ser ou fazer como S. Francisco de Assis, que era riquíssimo, se despojou de todos os bens e optou por uma vida de reclusão, pobreza e de dedicação aos outros?


Tenho andado a pensar nisto. Sobre a dicotomia riqueza e convicções políticas. Estou à vontade para falar dessa dicotomia porque vivi do meu trabalho e agora vivo da pensão de aposentação de professor. Não tenho outras fontes de rendimento e a única herança que recebi foi a da educação dada pelos meus pais. Ah, e quando vejo alguém que dizem ser abastado, não cobiço, não invejo e digo, simplesmente, "que Deus lhe acrescente". Se essa riqueza foi conseguida pelo trabalho, pela inovação, pela criatividade, inteligência e sentido de risco, por meios LÍCITOS repito, lícitos, não através de qualquer esquema de corrupção, se paga os seus impostos, se cria postos de trabalho, não explora os seus colaboradores, quero lá saber que tenha dinheiro? Irrita-me é quando roubam. No tempo da troika senti-me roubado. Aí reajo como todos os portugueses o fizeram. Reajo, também, quando olho para casos de alegadas corrupções narradas pela comunicação social, para aquela gentinha que faliu bancos, um deles, até, "legalmente", dispõe hoje de uma pensão de reforma de € 167.000,00 mensais, reajo às riquezas muito mal explicadas, reajo às redes de interesses instalados e tráfico de influências que multiplicam fortunas num ápice, quando olho para os que utilizam paraísos fiscais, aí não tenho contemplações. Fico furibundo, porque não aceito a desonestidade! 
Ora, isto é totalmente diferente de um qualquer sujeito que defende convicções políticas, convencionalmente ditas de esquerda e, por uma razão ou outra, acrescenta, repito, de forma lícita, valor ao seu património. Um político, de esquerda, não faz votos de pobreza. Tal como os da direita. Há casos de gente rica que é extremamente solidária com os outros, como na esquerda há pessoas que, de forma discreta, praticam essa solidariedade. Neste plano, questiono-me, o que é essa história de ser moralmente reprovável, ser político e possuir algum património? Ambos têm o dever da honestidade, com a lei e consigo próprios. Isso sim. Tudo o resto, sinceramente, não me preocupa. O nosso sistema é capitalista, baseia-se no dinheiro, ou este aspecto só interessa em determinados momentos e funciona apenas para alguns? O que me deixa perplexo é ver os situados à direita assumirem lugares de comentadores-gestores da consciência colectiva, administradores e consultores de várias empresas em simultâneo, fazerem-se pagar de forma “pornográfica” apenas pela presença em reuniões; deputados com manifestos interesses fora do parlamento e que, uns e outros, tenham a lata de apontar o dedo, esquecendo-se que quando fecham a mão e levantam o indicador, ficam com três dedos a apontar para eles próprios. Oh santa hipocrisia! 
Os santinhos, os cheios de virtudes, aqueles que se sentem ética e moralmente intocáveis, os sem espelho lá por casa, os que, semanalmente, batem no peito, “por minha culpa… minha tão grande culpa”, os sôfregos por dinheiro, talvez devessem ler a narrativa bíblica da "parábola dos talentos". Embora esta tenha várias interpretações. Ora, eu sei que este meu posicionamento pode ser discutível. Aceito. Mas é o que penso sobre um tema que tanta celeuma tem levantado. 
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

"VENDILHÕES"? QUEM SÃO? ONDE ESTÁ A "TRAMPA"?


Quarenta e dois anos depois, escutar uma intervenção daquelas, é de sentir pena. É o tipo de discurso político que exprime decadência, pela falta de conteúdo, pelo tom exageradamente comicieiro, de quem já nada tem para transmitir, sobretudo pelas palavras ditas, completamente ofensivas da dignidade das pessoas. É difícil entender, depois de tantos anos, que alguns políticos considerem mais de metade dos seus conterrâneos, burros, gente acéfala, enfim, pessoas que são "vendilhões da autonomia". É triste ver o ponto que o exercício da política chegou. Já não existe classificação possível para tanto disparate intencionalmente cometido. São todos santinhos de altar, os outros uns diabinhos...


"De um lado estamos nós, os autonomistas sociais-democratas, aqueles que desenvolveram a Madeira no passado e que continuam a desenvolver a Madeira no presente, aqueles que põem a Madeira acima do partido, a Madeira acima dos nossos egos, a Madeira acima de tudo" (...) do outro lado, "estão os comunistas e os socialistas feitos com o centralismo de Lisboa, os vendilhões da autonomia". Pela síntese do discurso, de uma assentada, a Madeira ficou (continua) dividida entre bons e maus, entre honestos e desonestos, credíveis e desacreditados, os bem-vindos e os desprezíveis, os que trabalham e os que nada fazem. É inaceitável que jovens e menos jovens, oiçam declarações chocantes da boca do presidente do governo. Quando se trata o adversário político, por exemplo, de "socialistas da trampa", pergunto se esta linguagem pertence a pessoas defensoras da dignidade dos outros e que se respeitam a si próprias? Ainda por cima, quando nutrem simpatia pelo movimento monárquico, pelo que sei, educadas para princípios, valores e relacionamento como povo distintivos, relativamente aos outros regimes -  assumem os defensores da "causa real". A não ser que se julgue possuidor de poder absoluto e faça uma distinção entre o povo e a nobreza. 
Ora, os madeirenses que têm uma opinião diferente não "cantam para enganar", não se opõem às políticas para "chegar ao poder" (...) "para entregar os méritos dos madeirenses a Lisboa e isto voltar para o passado e ser o Terreiro do Paço a mandar na Madeira". Têm , apenas, uma opinião diferente porque são DEMOCRATAS e a Constituição da República assim lhes permite. Aliás, sei que incomoda, mas têm o direito de perguntar quem foram, em concreto, na Região Autónoma, os "vendilhões da Autonomia"? Quem gerou uma situação de gravíssimo desequilíbrio financeiro que todos estamos a pagar? Foram os "socialistas da trampa", os comunistas, os democratas-cristãos, todos os restantes partidos de oposição, ou aqueles que estão no poder, ininterruptamente, há 42 anos? Seja como for, o que está aqui em causa é a linguagem. E essa é imperdoável. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

UM RIO DE EQUÍVOCOS


"A Madeira tem sido desde sempre um bom exemplo de governação" (...) "aquilo que se passa na Saúde é um bom exemplo", disse o Dr. Rui Rio na entrevista de ontem ao DN-Madeira. De imediato lembrei-me do Dr. Álvaro Cunhal no decorrer de uma entrevista com o socialista Dr. Mário Soares: "olhe que não, olhe que não"! Eu sei que, no plano partidário, não era expectável que dissesse outra coisa. Só que a realidade é bem diferente. Terá o Dr. Rui Rio presente que a Região atingiu os 6.3 mil milhões de dívida (cerca de quatro vezes o orçamento anual da Madeira)? Saberá que as obras megalómanas, desajustadas da realidade da Região, colocaram-na em uma situação de insustentabilidade financeira? Terá presente o que foi o "aspirador" de dinheiros públicos chamado Jornal da Madeira, destinado à propaganda? Conhecerá os tristes números da pobreza (30%) constantes em vários estudos? Dominará os números do desemprego? Terá noção do número de consultas e de cirurgias em atraso, falta de medicamentos e de material? Terá presente, embora com maioria absoluta, a instabilidade governativa, consubstanciada no facto de vários secretários terem sido substituídos? E que esta legislatura já conta com três secretários da Saúde? Terá presente os arrepiantes números do insucesso, abandono escolar e qualificação profissional? Conhecerá, em toda a extensão, o que significou a intolerância, o afastamento e o vilipêndio público de tantos ilustres profissionais de vários sectores, apenas porque discordaram das posições do governo? Tem noção dos sérios constrangimentos na vida, na vivência e na convivência democráticas, associado ao medo de falar abertamente, gerado com enorme subtileza no seio da população? Dominará a indisfarçável proximidade, desde sempre, entre a Igreja e o poder? Não tem, pois não! Daí que se justifique ter dito que a Madeira é, "desde sempre um bom exemplo de governação". 


Não é que não tivessem sido construídas infraestruturas importantes. Eu diria mesmo, muito relevantes. Houve decisões e opções acertadas, sobre as quais não me restam quaisquer dúvidas da sua importância. É óbvio que sim. Era o que faltava, depois de tantos milhões que entraram na Região não fosse sensível a existência de obras públicas. Mas o Dr. Rui Rio certamente que sabe que "onde há dinheiro empreiteiros não faltam"! E sabe que, com o mesmo dinheiro, mas com outras prioridades estruturais, consegue-se muito mais no sentido de uma sociedade mais justa e equilibrada. E também sabe que se as obras não aparecessem, deixaria de ser "um caso de política para ser um caso de polícia". Ainda assim, saberá, com certeza que sabe, que mais de mil milhões foram escondidos do radar das finanças públicas, facto que deu origem ao tal processo designado por "cuba livre". Por aí, estamos conversados sobre o "bom exemplo de governação". 
Mais, ainda, o Dr. Rui Rio não se atreveria, na cidade do Porto, onde foi presidente da Câmara Municipal, a apoiar, de forma diferenciada, as juntas de freguesia e o associativismo, secundarizando todos os de cor política diferente; pelo que é público não entrou no "negócio" da bola, conjugado com o exercício da política, nos termos da promiscuidade e desperdício por aqui existente; não se atreveria a tratar de forma diferente o tecido empresarial, ajudando a criar preferências e "monopólios" subtil e intencionalmente arquitectados; não sei, julgo que não, se violou os vários instrumentos de planeamento e adiado ou suspendido outros em função dos interesses de alguns; embora discordando e reivindicando, não tenho presente que tivesse entrado pela violência do discurso, agredindo com palavras os presidentes das outras autarquias, os governos e até o Presidente da República.
Se tudo o que lá atrás aflorei constitui, na Madeira, globalmente e desde sempre, um "bom exemplo de governação", então já não sei o que aprendi ao longo da vida. E o filme que vi durante 42 anos foi de mera ficção e não dei conta! 
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

TUDO NORMAL E NINGUÉM É RESPONSABILIZADO


Sinto que foram, uma vez mais, aos meus impostos e que levaram um pouco da minha contribuição. Todos os madeirenses e portosantenses deverão estar a sentir que estão a mexer nos seus bolsos. Segundo o DIÁRIO, em uma peça do jornalista Élvio Passos, clarinha como água da nascente, ficámos a saber que a Região terá de pagar três milhões de Euros de indemnização por obras não realizadas. A empresa do Senhor Avelino Farinha (AFAVIAS), assistente no processo, porque se sente lesada, irá assim receber esse valor. O cartoon da edição de ontem, com refinado humor, transmitia a verdade: "A Região vai pagar por ter obras a menos; antes pagava por trabalhos a mais". Tiro certeiro, porque equivale dizer que o contribuinte está sempre a pagar!

Novo Savoy. Uma agressão à paisagem e ao sentido de escala.

Não me interessa, para já, saber os pormenores. Interessa-me o lado político da questão. Quando as obras foram projectadas e autorizadas pelo governo regional, o mínimo exigível era determinar dois aspectos essenciais: primeiro, se a obra se justificava, respeitando o princípio da prioridade estrutural; segundo, se tinha enquadramento financeiro, entre outros, baseado nos recursos internos e externos. É o mínimo que qualquer cidadão eleitor deve exigir. Ora, se não respeita a prioridade e ainda o contribuinte é chamado a pagar uma obra que ficou por ser concretizada, então aí o problema é político. Os governantes podem apresentar as justificações que entenderem, por exemplo, que o problema residiu nos "atrasos na entrega dos terrenos expropriados, livres e desocupados" (é espantoso!), porém, serão sempre desculpas esfarrapadas, por ausência de rigor, aqui sim, rigor na administração dos bens públicos. Mandar executar sem todas as garantias, na lógica que "a História fala de obras e não de dívidas" é pressupor que "vivemos em França no tempo dos reis" ou então "contar com o ovo no da da galinha". Quem vier depois que a(s) pague! Esse foi e continua a ser o problema que tem uma génese eleitoralista. 
Novo Savoy. Para o empresário, "amigos, amigos, negócios à parte".
Daí que, para mim, seja estranho que não exista investigação séria sobre estes assuntos lesivos do interesse dos cidadãos. São três milhões! De "cantinho do Céu" dou comigo a pensar se não passámos para um "cantinho da impunidade". Não acredito que não existam pontas soltas que conduzam a investigações sérias. É-me difícil aceitar sinais exteriores de riquezas mal explicadas. Agora, do ponto de vista político, aí, a história deveria ser outra. Independentemente de uma penalização nas urnas (então não é o povo quem mais ordena?) a Assembleia Legislativa da Madeira deveria criar uma Comissão de Inquérito para estudo, não apenas da situação agora conhecida, mas de tudo quanto foi pago em indemnizações, pareceres jurídicos, enfim, de tudo, tudo, quanto foi gasto por incúria e que tanta falta faz em vários sectores. Mas isso não vai acontecer, pois aqui tudo tem tendência a ser normal e ninguém é responsabilizado. Por exemplo, "esconder facturas" parece que constituiu um acto normal. Tanto assim é que, apesar de três milhões voarem, estiveram todos no designado "pau-de-fileira" no novo hotel Savoy, sorridentes, com discursos elogiosos ao Senhor Avelino Farinha, petiscando ou jantando, como se as relações fossem absolutamente normais. Nem o governo se sentiu constrangido, nem o empresário, que ganhou fortuna com a tal "Madeira Nova", perdoa a indemnização que a lei lhe confere. Depois, não deixa de ser curioso, não sentindo vergonha dos rabinhos de palha da sua gestão, diariamente, o governo regional atira-se ao governo da República como forma de esbater as suas insuficiências. Com algum humor, é caso para dizer que estão a precisar de "pau", não de fileira!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 21 de julho de 2018

CHOQUE ECONÓMICO II - A CARROÇA NÃO ANDA À FRENTE DOS BOIS


Por
Artigo publicado na edição de ontem do DN-MADEIRA.

A Madeira tem um extraordinário histórico na captação de Investimento Directo Estrangeiro. Foi pioneira na operacionalização da instalação de um mecanismo regional, com aprovação europeia, para uma fiscalidade favorável de modo a atrair capital externo, com objectivo de apoiar o crescimento económico e aumentar a criação de emprego. Este mecanismo, conhecido como Zona França da Madeira, está a ser escrutinado pela Comissão Europeia, não tanto por causa do seu valor mas mais porque foram negligenciados premissas de transparência e de apresentação de resultados em prol do desenvolvimento regional, como tenho alertado há muitos anos.


Mas vamos ao essencial. Com um bocadinho de reflexão, mas também de aprendizagem com o passado e, sobretudo, com visão estratégica, o caminho da atracção de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) para a Madeira não seria uma discussão, algo apatetada, de mais agência menos agência. Pelo que sabemos, ela já existe, até mais do que uma. Mas, alguém já notou a diferença?! Claro que não, porque essa não é a questão!
Em primeiro lugar, há uma certa sensação que os poucos que determinam, ou pensam vir a determinar, as políticas económicas não compreendem bem a dimensão da importância do investimento na economia e em particular do investimento externo. Sendo o investimento uma das principais determinantes da procura interna, sem ele não há crescimento económico sustentável ou criação de emprego. Mas, numa região com dificuldades de geração de recursos, o Investimento do Exterior é a boa notícia que precisamos para financiar a economia regional. Surge aqui a primeira grande razão para levar a sério uma estratégia de atração de IDE. Mas há mais. O IDE contribui decisivamente para a expansão do mercado regional, permitindo abrir outras oportunidades a empresários locais, desde que convenientemente enquadrados. Este investimento, além disso, permite não só mais inovação que, normalmente, acompanha o investimento externo, mas também mais rapidez na produção dos seus efeitos, tendo em conta que muitas das etapas, absolutamente decisivas para introduzir a inovação no mercado, já foram ultrapassadas por esse investimento. Finalmente, o IDE permite ajudar decisivamente a diversificar a economia regional, desde que englobado numa clara estratégia de diversificação. Algo que devia ser um desígnio da Região, mas que não tem saído dos discursos e do papel! É com estes ingredientes que temos de contar e são por eles que o IDE é tão relevante.
Sendo assim, julgo que agora é mais fácil de perceber por que razão mais agência menos agência não resolve nem acrescenta absolutamente nada à problemática.
O mais surpreendente, apenas para quem não esteja atento e tenha chegado apenas agora ao debate, é que à RAM não faltam estruturas para a dinamização do IDE. De resto, como referi no início, há mais de 30 anos que temos uma em funcionamento, ainda por cima com o privilégio de estar associada a 1000 milhões de euros de benefícios fiscais por ano para atrair empresas e capital do exterior. A SDM, empresa privada que tem uma concessão da Região baseada em isenções fiscais para a promoção do desenvolvimento da Madeira, existe há mais de três décadas e é, efectivamente, uma agência para o investimento estrangeiro. Recentemente, o próprio governo regional criou outra agência para captar investimento externo. Portanto, é melhor passar à frente e falar a sério sobre o assunto.
Apesar do pioneirismo da Madeira na dinamização de uma Zona Franca, que qualquer região portuguesa gostaria de ter no seu espaço territorial, os resultados obtidos merecem reflexão e exigem enquadrar este projecto na necessidade de um novo paradigma de atracção de IDE, contando com o contributo dos benefícios da Zona Franca, mas noutros moldes. Não me reterei no balanço de trinta anos de CINM. Balanço esse que as autoridades já deviam ter efectuado e, ao mesmo tempo, promovido um sólido e descomprometido debate para discutir o que fazer daqui para a frente. Prefiro, agora, concentrar-me no futuro e responder a questões concretas nesta matéria de IDE.
O que deve mudar?! O que se deve manter?! O que deve ser adicionado ou integrado?!
Responderei a estas questões no próximo artigo.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

GRUPO PARLAMENTAR EM "VISITAS DE ESTUDO"


O tempo é de cerveja e refrigerantes qb. Eu sei! Mas em uma Região com imensos problemas por equacionar, estudar e resolver, parece-me constituir uma inversão de prioridades o grupo parlamentar da maioria na Assembleia Legislativa da Madeira, deslocar-se à Empresa de Cervejas da Madeira. Depois, ainda passaram pela Empresa Insular de Moinhos, enquanto o presidente do governo visitava a empresa "António Nóbrega" e uma unidade hoteleira. Para além das fotografias, retive duas declarações: para crescer, a Madeira "tem que encontrar lá fora o mercado que falta cá dentro" (Dr. Eduardo Jesus) e que a "autonomia está sob ataque, está sob pressão, sob cerco" (Dr. Miguel Albuquerque). Ao final da tarde, um amigo telefonou-me e desabafou: "então esta gente não sabe que, por falta de planeamento, a região tem uma oferta para cerca de um milhão de pessoas e que somos cerca de 250.000? E porque é que se chegou a este ponto? Então, a Autonomia está cercada? Quem montou o cerco, os que aqui não têm responsabilidades políticas ou aqueles que governam há 42 anos?"


Ora bem, de facto, as palavras do presidente, como por aí se diz, são do tipo "timex", não adiantam nem atrasam. Qualquer pessoa, minimamente informada, já percebeu, no plano meramente político, a colagem mal feita a posições que marcaram décadas de jardinismo. Foi sempre preciso encontrar um inimigo externo para esconder os insucessos internos e, por essa via, algumas vezes, receber mais uns milhões. Esse foi chão que deu algumas uvas. Hoje, já ninguém vai nisso. Existem regras, prazos, processos administrativos, o que não quer dizer que aquilo que pertence à Região não deva, atempadamente, ser transferido. Não é, portanto, falando de cercos, ataques e pressões que os problemas se resolvem. Se perguntarmos aos madeirenses e portosantenses talvez designem isso por "delírios". Que, no Verão, são perigosos!
O cerco, parece-me de dedução óbvia, é, portanto, interno. De manhã falam da necessidade de procurar mercados externos para a rendibilidade empresarial. À tarde, de cerco à Autonomia. Aspecto que não deixa de ser curioso, quando o Dr. Eduardo Jesus foi secretário da Economia e, pelo que julgo saber, há dois anos que não são lançados avisos de concurso no âmbito do sistema de incentivos no que concerne à internacionalização, muito menos, no eixo "valorizar"; à tarde, ao contrário de uma resposta a tais necessidades, através da apresentação de um pacote de medidas, o presidente fala, de forma repetitiva, de um imaginário cerco estrangulador. Como exportar, com que incentivos e sobre a pouca-vergonha do que se passa nos portos, nem uma palavra. Deixo aqui um exemplo: ainda há dias, em uma grande superfície continental, vi banana da Madeira a € 2,49/kg e, ao lado, banana não sei de onde a € 0,89/kg, com a agravante da madeirense, infelizmente, ter muito mau aspecto. Pelo menos aquela que estava à venda. Isto para dizer que não basta visitar empresas, cumprir o número político mediático e manifestar alegados desconfortos nas relações institucionais, mas assumir posições assertivas no plano da governação. Já chateia aquela cantilena dos "malfeitores" de Lisboa. Os madeirenses e portosantenses precisam de respostas para os problemas, como resolvê-los, custe o que custar e doa a quem doer, porque, com paleio, ainda por cima gasto, sabem que nada será resolvido. O pequeno comércio, refiro-me aos empresários do comércio tradicional, aguardam respostas para os sérios problemas que desde há muito enfrentam. E esses não exportam! Depois, existe aqui uma insanável contradição política: em um dia, a economia cresce, cresce e nunca terá estado tão bem; no outro, as lamúrias em redor de cercos, ataques e pressões! Esquisito.

Uma nota final

O Presidente da Assembleia Legislativa é líder do primeiro órgão de governo próprio. Obviamente que pertence a um partido e é eleito entre os seus pares. A partir daí deve assumir uma posição institucional de algum distanciamento partidário. Não é um deputado qualquer! É o presidente da Assembleia. Deveria, por isso, abster-se de qualquer representação parlamentar, como aconteceu ontem, cuja fotografia do DN deu conta da sua presença na Empresa de Cervejas da Madeira. Não lhe fica bem e não fica bem à instituição que preside. A natureza do cargo obriga-o a uma certa reserva. Não estou a falar de umas jornadas parlamentares, mas de uma visita do grupo parlamentar a empresas. É substancialmente diferente. O seu antecessor foi exímio nessa matéria.
Ilustração: Google Imagens/DN

quinta-feira, 19 de julho de 2018

"E O BURRO SOU EU?" *





Por
Publicado na edição de hoje do DN-Madeira





Um Burro foi desafiado a ajudar um fidalgo. O fidalgo estava então no início de uma longa “travessia no deserto”, mas trazia em si a esperança num futuro melhor. Prometeu que haveria lugar para todos e que a tirania iria terminar. O Burro acreditou assim que o futuro seria mesmo melhor. O Burro continuou a sua vida, livre e sem donos, sempre disponível. Com o seu trabalho metódico, corajoso e persistente, com todos os seus esforços, foi ganhando o respeito, amizade e consideração do fidalgo. Com isso ganhou também a desconfiança e a inveja de alguns fidalgos menores. Ignorou esses sinais e continuou a fazer o melhor que podia e sabia. 

Conforme o Burro trabalhava e mostrava resultados, as terras recuperavam e mostravam a fertilidade perdida. O povo juntava-se cada vez mais ao sonho de terem todos um futuro melhor. Dos porcos, feios e maus, desses ninguém queria saber ou ouvir. Depois, com a maioria do povo, acabou-se com a tirania e deu-se a esperança a todos aqueles que nunca a tinham tido ou a tinham perdido. 
Foi um tempo de muito orgulho e satisfação para o Burro. O seu trabalho era agora reconhecido por todos e o seu amigo fidalgo era o novo Senhor. Iam ser todos livres e felizes, tal qual o Burro sempre tinha desejado para o seu povo. 
O tempo foi passando e o Burro foi ficando esquecido: os bodes velhos eram agora as novas companhias do fidalgo. O Burro não se sentiu atingido, esperou que o seu tempo chegasse e seguiu a sua vida. O fidalgo andava agora com os porcos, feios e maus de sempre, com novas cabras loucas e hienas de sorriso fácil, mas o Burro, na sua inocência e caridade cristã, entendia que todos os seres merecem pena e o direito à sua triste vida. O Burro continuava a ser o mesmo Burro de sempre. 
O Burro foi então convidado para visitar a sua obra. Em vez de ver o seu amigo fidalgo, foi recebido por um Porco, um daqueles feios e maus que agora era uma das novas figuras de peso. O Porco mostrou tudo, como se tivesse sido ele a ter feito o trabalho do Burro. 
O Porco tinha apenas mandado construir um poço que estava sempre seco. O Burro, ao passar por aquele buraco, coberto uma armadilha, acabou por cair desamparado. A queda foi forte, mas o Burro logo se recompôs. Mas o poço era demasiado profundo. 
Sozinho, o Burro gritou bem alto para que o fidalgo o ouvisse e o ajudasse. Mas o Porco tinha feito tudo sem o seu conhecimento, mas todos à volta do fidalgo estavam comprometidos, inclusive um Burro velho. 
Foi depois recrutado um trio para se prestar a tudo. A mandar, uma ovelha, daquelas que ocupam muito espaço por onde passam, mas pouco fazem. A grande ovelha só tinha de se fingir de morta perante os problemas, ficar calada, fingir-se importante e repetir as palavras do Porco. Arranjou-se uma serpente para agradar os porcos e ainda uma mula, um híbrido, algo que não é nem cavalo nem asno, para fazer o papel de Burro e transmitir uma imagem pública de normalidade. Todos dispostos a agradar e servir os porcos, feios e maus desta vida nojenta e pouco digna, sendo que a cabra de leite tinha a particularidade de ser muito sensível ao facto de ser tratada por todos apenas por “cobra”. 

Com o “circo” montado, o Porco teve a fantástica ideia para calar definitivamente o Burro e tapar o poço seco. Chamou-lhe o “Enterro do Burro”! 

O povo foi assistindo incrédulo, calado e com medo. Então o Burro não era amigo do fidalgo? Que tinha feito o Burro para ser enterrado vivo? “Algo muito grave”, diziam alguns ratos das adufas! Outros galos tontos inventavam as estórias mais baixas e falsas, culpando o Burro e elogiando o Porco. Os abutres acéfalos, desejosos de se alimentar da carcaça do Burro, esperavam salivantes. Os cães de fila escrevinhavam umas mentiradas contra o Burro, mas ninguém lia e lhes dava crédito. As cabras loucas e as hienas esquivas obedeciam ao Porco, repetindo anonimamente as mentiras, na esperança que assim passassem a verdades. 
Era tudo uma grande mentira: o Burro só tinha cometido o “delito” de ter opinião, ser livre e fazer o que lhe apetecia. Era por isso que tinha que ser eliminado, para que fosse silenciado e servisse de exemplo para todos os outros! 
O Burro desconhecia a sua real e infeliz situação. Estava só e abandonado, os seus amigos não apareciam, ninguém o procurava e o Porco tinha desaparecido. 
Até que tudo mudou! Do fundo do poço, começou a ouvir vozes conhecidas. O Burro pensou que iria ser salvo. Tentou manter a calma e esperou serenamente pela ajuda. O Burro sentiu então terra e pequenas pedras a cair em cima de si. Depois, aconteceu-lhe o mesmo mais vezes. Percebeu: não o iam salvar, mas antes enterrar vivo! 
O Burro sofreu e chorou, chorou de raiva em silêncio e sem lágrimas, para que não percebessem o seu sofrimento. Num momento fúria, o Burro bateu com as suas patas no chão! Fê-lo imaginando que estava a espezinhar os que o tentavam matar. Esse momento de fúria foi também um momento de lucidez: cada vez que batia com as patas e se abanava, a terra que estava em cima de si caía para o fundo do poço e ele conseguia elevar-se mais. 
O Burro descobrira a solução: a terra que jogavam era a mesma que o iria ajudar a ficar cada vez mais perto da superfície. Continuou em silêncio, no escuro, até que já conseguia saltar para fora do poço. Aí deu um magnífico salto por cima de todos aqueles que o queriam matar e correu. Correu muito, livre, não olhou para trás e seguiu com a sua vida. O Burro voltara a ser livre, independente e feliz.
* Luiz Felipe Scolari

quarta-feira, 18 de julho de 2018

RESPEITO SENHORAS(ES) DEPUTADOS


Ontem acompanhei uma grande parte a audição parlamentar, na Assembleia da República (AR), com a presença do ex-Ministro Dr. Manuel Pinho. À noite uma entrevista com o seu advogado. Ora bem, três aspectos de princípio: primeiro, só é respeitado quem se dá ao respeito; segundo, quando alguém assume um compromisso deve cumpri-lo; terceiro, em circunstância alguma os deputados devem assumir uma atitude inquisitorial. 


A investigação e, depois, a Justiça que resolvam as alegadas situações que, dizem, o Dr. Manuel Pinho estará envolvido. Por um lado, se nem arguido é e, por outro, foi definido, antecipadamente, o âmbito da audição parlamentar que excluía, por exemplo, as relações profissionais ou não com o ex-BES, logo, os deputados da Comissão deveriam ter cingido as perguntas ao quadro acertado entre as partes e que foram consideradas de interesse pelos grupos parlamentares (política de energia). Aliás, desde há muito que se sabe que o Dr. Manuel Pinho, no âmbito da sua estratégia de defesa, assumiu ser ouvido pela Assembleia da República, só depois de prestar esclarecimentos no Ministério Público.
Alguns deputados não quiseram saber do acordo, confirmado pelo presidente da Comissão, e em uma atitude desprestigiante, aproveitaram a transmissão em directo para, através de uma bateria de perguntas, enxovalhá-lo na praça pública. Ele a nenhuma respondeu e, quanto a mim, fez bem. Mandaria a dignidade que se se circunscrevessem ao acordado (energia e, fundamentalmente, a EDP). Mas o que mais me entristece não é isso. O que não suporto é, sobretudo, a atitude inquisitorial e de superioridade como as perguntas são colocadas. A Assembleia não se substitui à Justiça e mesmo aí, respeitando a separação de poderes, há condutas a respeitar. Não são os políticos que dizem, sistematicamente, "à política o que é da política e à Justiça o que é da Justiça"? Portanto, seja em que quadro for, não faz sentido que alguns deputados aproveitem para amesquinhar, ofender e, sub-repticiamente, fazer um julgamento antes da Justiça. Não aceito isto.
Não sei se o ex-ministro está ou não envolvido em negócios pouco éticos ou mesmo ilícitos. Se está, a Justiça concluirá, certamente. O que se pede aos deputados é respeito pelas pessoas e que, no decorrer de audições ou de comissões de inquérito, não se arvorem em justiceiros. Todas as perguntas podem e devem ser feitas, mas com enquadramentos que respeitem a dignidade de uns e de outros.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

FRASE INFELIZ


"(...) Enchem aviões como chouriços e tratam os passageiros com menos piedade que os nazis nos comboios para Auschwitz. (...)"


Sempre que escrevo, leio e releio os textos. Muitas vezes até dou o texto a ler antes de publicá-lo. Há frases e sentidos que saem sem que correspondam àquilo que desejamos expressar. O Dr. Miguel Sousa, Deputado do PSD e Vice-Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, certamente que não (re)leu o que escreveu no seu último artigo no DN-Madeira. Pode-se criticar a TAP, e devemos criticá-la pela forma incorreta como tem tratado a Região Autónoma da Madeira, não apenas nos cancelamentos, atrasos, nas escandalosas tarifas praticadas, mas também no tratamento proporcionado aos seus clientes. A TAP e todos os seus administradores, pagos a peso de ouro, merecem uma severa crítica. Porém, há limites. Auschwitz foi o maior campo de concentração nazi, um campo de morte e de extermínio para cerca de 1.300.000 de pessoas. Por aqui fico, porque tenho, desde há muitos anos, uma relação cordial com o autor do artigo.    

domingo, 15 de julho de 2018

TAXA MISERÁVEL


Sempre que se fala em taxas a tendência é para torcer o nariz, principalmente se formos nós a pagar. Recentemente voltaram à ordem do dia as taxas turísticas, mas outras, à conta de existirem há muito tempo, já nem fazem parte do nosso léxico (embora continuemos a pagá-las). Alguém ainda para para pensar na taxa de contribuição audiovisual e na taxa de exploração que pagamos junto com a conta da eletricidade? Lembram-se das taxas moderadoras na saúde, da tarifa de conservação de coletores e da tarifa de resíduos sólidos na conta da água, ou da taxa sobre os sacos de plástico no supermercado? Já agora, sabia que pagamos IVA sobre algumas destas taxas? Aliás, até pagamos IVA sobre outros impostos, como o Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP). Na perspetiva do pagador, alheado da sua função e/ou interesse público, o ideal seria que estas taxas deixassem de existir ou, pelo menos, fossem mais baixas.


Apesar da má impressão que a maior parte de nós nutre sobre as taxas, há algumas que todos gostaríamos que fossem bem mais altas do que são. É o caso da taxa de natalidade, da taxa de escolarização, da taxa de cobertura dos médicos de família, ou da taxa de emprego. Mas há uma que é mesmo muito miserável: a taxa de reciclagem. Em 2016, a taxa de reciclagem na Madeira foi de apenas 8,8%. Como referencial para comparação registe-se que, em média, os países europeus reciclam 46% dos seus resíduos sólidos urbanos, sendo em Portugal mais de 30%. Apesar da Madeira ter sido, há algum tempo, uma referência nacional na recolha seletiva, tendo atingido em 2008 uma taxa de 22% em reciclagem, está hoje pior do que há 20 anos. As metas de reciclagem definidas a nível europeu apontam para uma taxa de reciclagem de 50% até 2020, e taxas acima dos 50%, desde 2009, para materiais como o vidro, metal e papel/cartão. A Madeira só está próxima de cumprir estas metas ao nível do vidro, para os restantes indicadores está a uma distância cada vez maior. Por outro lado, a União Europeia propõe que as metas de reciclagem para 2030 sejam ainda mais ambiciosas, com 65% dos resíduos sólidos urbanos a serem reciclados e 75% dos resíduos de embalagens. Estamos muito longe da Europa e do próprio país. 

Mesmo ao nível dos resíduos de embalagem, Portugal já recupera para reciclagem 60% do vidro, 70% do papel/cartão, 64% do metal e 42% do plástico. A Madeira encaminha para reciclagem 52% do vidro que produz, mas apenas 12% do papel/cartão e 5% do plástico e metal. 

Para além das metas europeias, a Madeira também estabeleceu os seus próprios objetivos de reciclagem através do Plano Estratégico de Resíduos da Região Autónoma da Madeira (PERRAM). Este Plano previa que, em 2016, 35% dos resíduos estivessem a ser reciclados, nem aos 10% conseguimos chegar. Também estabelecia uma taxa de reciclagem de 55% para o vidro, 35% para o papel/cartão, 65% para o metal e 15% para o plástico, mas, exceto o vidro, estamos a uma enorme distância dessas metas.
Em 2004, quando foi inaugurada a estação de incineração na Meia Serra, atualmente o destino final para a grande maioria dos nossos lixos, entrou também em funcionamento uma estação de compostagem para reciclar resíduos putrescíveis. Em sintonia com a entrada em funcionamento dessa importante infraestrutura (a estação de compostagem), o Plano Estratégico de Resíduos previa que, em 2016, a Região Autónoma da Madeira estivesse a reciclar 40% dos seus orgânicos. No entanto, há mais de meia dúzia de anos que essa estação está fechada e, em consequência disso, a reciclagem de orgânicos é hoje igual a zero.

NOTA:
Artigo de HÉLDER SPÍNOLA - publicado na edição de hoje do DN-Madeira.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

UM NOVO BISPO OU UM BISPO NOVO?


Não sei se o Papa Francisco domina o que por aqui se passa há quarenta longos anos. Se conhece ou não as colagens e subserviências ao poder político. Se é bem ou mal informado pela Nunciatura Apostólica em Portugal. Eu que tenho uma muito particular afeição por Francisco, o Papa "que veio do fim do Mundo", duvido que esteja bem informado. Duvido, não, melhor dizendo, não sei. Certo é que andam à procura de um novo Bispo para a Diocese do Funchal. Pessoalmente, preferia um Bispo novo! Um Homem sincero, humilde, frontal, feliz naquilo que faz, um Homem de cultura, um irmão em Cristo que não se venda nem se cole aos interesses dos mais poderosos. Que se distancie e que não tenha medo. 


É de desconfiar quando um político declara, caso concreto do anterior Presidente do Governo Regional, Dr. Alberto João Jardim, em entrevista publicada em uma edição do Semanário ECCLESIA, dedicada à Igreja Católica na Madeira: "(...) Costumo dizer que tive muita sorte, trabalhei com três grandes bispos: D. Francisco Santana, D. Teodoro de Faria e D. António Carrilho. Foram bispos certos na altura certa". Então não foram, digo eu! É evidente que sim, pois todos eles lhe estenderam a passadeira vermelha. Chegou a ser popular a ideia que os sucessivos governos regionais tinham uma secretaria regional dos Assuntos Religiosos. Ao longo de 42 anos, o poder político dançou o bailhinho com todos eles, a troco de muitos apoios financeiros para novos templos e não só, ah, e muitos silêncios cúmplices! Entre várias situações que mancharam a Diocese, a indigna história de massacre psicológico ao Padre Martins Júnior, suspenso, inexplicavelmente, "a divinis", diz bem do que têm sido os "bispos (políticos) certos na altura certa". E quanto às homilias, pedindo não pedindo, o poder apenas "solicitou" o discurso da muita fé e caridade.  
Ora, em um quadro destes prefiro um Bispo novo, desempoeirado, não alinhado com ambientes bafientos e servis, que seja mais Cristo do que católico, um Bispo capaz de unir uma Diocese onde, pelo menos parece, cada um anda para seu lado, um Homem que seja motivador e contraponto da realidade da Vida, que não tenha medo das palavras e que através da Palavra coloque em sentido quem usa e abusa do Paço. Disse o Dr. Alberto João Jardim sobre o Bispo Santana: foi "um grande combatente político" (...) "eu não me envergonho de dizer que, de certo modo, sou um produto de D. Francisco Santana" (...) seguimos caminhos paralelos, com valores semelhantes (...)". Estas são declarações sintomáticas da promiscuidade entre a Igreja e o poder político. A Madeira precisa, então, de um Bispo novo, vanguardista, nascido do povo e nunca uma figura predestinada para mais do mesmo. Porque a Mensagem de Cristo precisa de ser assumida na plenitude e essa não interessa aos homens do poder político. Esses, bem batem com a mão no peito, quando sentados na primeira fila das Missas!
Eu tenho a opção por uma figura. E quem me lê, neste momento, terá pensado nisso?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

DA FALTA DE LÍDERES


Acompanho, com muita preocupação, o exercício da política regional. Quem governa, desde há muito, evidencia sinais de inconsistência, oferece a imagem de uma equipa de segundo escalão tal a fragilidade que transmite nos diversos sectores. Políticos que correm atrás dos problemas ao evidenciarem, diariamente, uma preocupação mais pela imagem e propaganda do que pela transmissão de um caminho estruturado com sentido prospectivo e de Estado. A regra básica, nota-se, claramente, é vender fumo. E isso é evidente no discurso, nas declarações de circunstâncias, feito de repetidas "bocas", frases feitas, algumas doentiamente agressivas, para consumo imediato e mediático, e não como resultado de um pensamento sobre o onde se está, onde se deseja chegar e com que meios. Chutam para longe as suas responsabilidades ou agarram-se a aspectos de menor importância, algumas vezes dependentes de aspectos burocráticos de outras instâncias, para tentar esbater as suas próprias incapacidades, em outras, perseguindo aqueles que se guiam pela sua cabeça. Em poucas palavras, não existem pensadores, líderes portadores de sonho, pessoas com sabedoria face às quais o cidadão possa confiar.


Há dias segui uma entrevista. Não consegui aguentar a baralhada e preferi deixar para o dia seguinte. Felizmente a tecnologia permite-nos regressar à visualização. Depois de 44 anos de uma música política inaudível, o mínimo que espero, eu que estou a meses dos setenta anos de vida, é que me tragam uma réstia de esperança alicerçada na diferença. Pelo futuro dos mais jovens. Mais do mesmo, parecido ou, na ausência conceptual relativamente a todos os sectores da governação, melhor é não escutar! Mais fumo, NÃO, obrigado. E apesar das questões andarem à volta do anormal, aspectos que não interessam, porque são de somenos importância, absolutamente marginais, é sempre possível, qual metáfora, a quem responde mandar a bola para o lado contrário do "guarda-redes". Estou cansado de conversa de chacha. Se uns fizeram a "renovação" para repetir o passado, outros, aproveitaram um comboio que vinha em bom andamento, provaram-no os estudos de opinião, para se sentarem, na ilusão dos benefícios de uma primeira classe. Repito, faltam-nos líderes, faltam-nos VLM (verdadeiros líderes da mudança) gente com qualidade, respeitados política e socialmente. E os que existem são derrubados e espezinhados. Uma vergonha que a História um dia escalpelizará.
Mas este não é, apenas, um problema da Madeira e do País. Tocam-nos pela proximidade, é certo. Mas, convenhamos, a crise é  geral. É europeia e até mundial. Quando um Trump chega à presidência dos Estados Unidos, Erdogan na Hungria, Maduro na Venezuela, Rodrigo Duterte nas Filipinas, Kim Jong-un na Coreia do Norte, entre tantos e tantos casos em todos os continentes, quando olhamos para a triste realidade de alguns líderes das ex-colónias portuguesas, quando atravessamos um olhar atento sobre a teia de interesses políticos, económicos, financeiros e religiosos, quando vemos a corrupção invadir na ânsia da riqueza fácil, em alguns casos às escâncaras, em outras de forma mais sofisticada, quando se olha para o comportamento vergonhoso da generalidade da banca, quando se vê 80% da riqueza mundial nas mãos de 1%, sinónimo de arrepiante desigualdade, quando existe um perverso encontro anual de Bilderberg, quando existem grupos restritos de 5, de 7 e de 20 países que tudo impõem, quando milhares morrem ao fugir da guerra, da pobreza, da ausência de princípios de humanidade básica, quando se olha para o médio oriente, quando se olha para os campos de refugiados, quando se edificam muros de vergonha, quando a Organização das Nações Unidas não é respeitada, quando a União Europeia denuncia gravíssimas fragilidades, quando assistimos a palavras vãs na actuação política que resolvam os dramas sociais, quando as armas substituem a ausência de diplomacia assertiva, quando nos nossos dias assistimos à arrepiante situação de, no país edificado sob o signo do sonho e da Liberdade, sejam quais forem as razões, criminosamente, separarem os filhos dos pais, quando florescem graves movimentos populistas, quando atravessamos uma fase de absurda incógnita para milhões de jovens, quando a política está submetida aos interesses económicos, quando... quando... quando..., é de concluir que nos faltam referências que, pelo seu saber e idoneidade possam, democraticamente, colocar em sentido os oportunistas, aventureiros e vendedores de banha da cobra!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 8 de julho de 2018

UM AVIÃO, UM NAVIO E UM HELICÓPTERO!


Nota prévia: durante muitos anos colaborei e assumi responsabilidades em várias direcções do PS-Madeira. Tenho plena consciência dos erros cometidos em matéria de comunicação. Foram tempos marcados pela vontade de fazer, mas também de muito amadorismo em função dos limitados recursos, sobretudo financeiros.


Posto isto, eu que me encontro completamente distante da actividade política, confrontei-me com painel de oito metros por três, com um avião, um navio e um helicóptero, fotos sublinhadas com "O PSD cumpre". Olhei, tentei decifrar a mensagem, e, sinceramente, abanei a cabeça em sinal de negação. Que cartaz mais imbecil. Que amadorismo ou que ânsia de demonstrar qualquer coisa que só vai na cabeça de alguns! Relativamente ao avião, não se percebe se se relaciona com as ligações com o Porto Santo (já existiam), com o cargueiro (já existia) ou com a mobilidade (um problema inicialmente criado pelo governo regional e que continua); o navio, para as ligações a Portimão, tem uma contratualização para os meses de Verão, com algumas tarifas nada agradáveis, sobre as quais fica a ideia de proteccionismo e, depois, volta ao mesmo; o helicóptero para combate a fogos florestais, depois de tantos e tantos anos de completa negação por parte do governo regional, foi preciso um grande empenhamento, na Assembleia da República, através do Deputado Carlos Pereira (PS), que originou um estudo que veio a determinar a possibilidade da sua utilização. 
Há pessoas que ainda pensam que a generalidade dos madeirenses e portosantenses, facilmente engole "gato por lebre". Já não é assim e há provas disso. Parece existir uma ânsia de apresentar serviço, com declarações políticas que não ficam bem ao presidente do governo. Esta, por exemplo: "(...) Pode haver muita conversa fiada, muitas selfies, muita maquilhagem e hiprocrisia, muito risinho e muito beijinho, mas é bom as pessoas pensarem bem quem é que cumpre aquilo que promete e quem é que assume compromissos e concretiza, porque o resto não traz nada de novo”. Senti-me regressar aos meus tempos de amador!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 3 de julho de 2018

SABER OCUPAR O SEU LUGAR. ENIGMÁTICO? NEM POR ISSO!


Li, porque me chegou, uma daquelas frases que, sem contextualização, vão caindo nas páginas do facebook. A síntese é de Cláudia Peixoto que não sei quem é: "Antes de correr, aprenda a andar. Tudo na vida tem sua hora. Tartarugas também chegam lá!". Nada de especial, fixei-me, apenas, na básica metáfora do "antes de correr, aprenda a andar". O problema está exactamente aí, no contexto político e não só, convenhamos, vermos gente a querer correr sem saber andar. Ou com um andar muito desajeitado! Para esses, desde já, bom seria terem consciência que a hora não chegará e a tartaruga viverá de miragens. Porque lhes falta cultura, inteligência e visão. 


Porque a vida é muito mais que a leitura apressada de umas sebentas. Porém, até à queda, não deixam de influenciar, de impor vontades acéfalas, de demonstrar um inimaginável desejo de poder, em exponencial ambição em função do tempo que por ali andam. E os seus chefes, por outras razões, muito fraquinhos no espaço emocional e da administração da "coisa pública", ziguezagueantes, até com picos de mau humor, inebriados, deixam-se ofuscar, porque são mais lentos e incapazes que a tartaruga. Mergulham então e deixam-se enlear no bas-fond das traições, onde se multiplicam incomensuráveis interesses, cumplicidades, abstractos jogos de xadrez onde as peças, algumas importantes, vão soçobrando, porque o xeque-mate das ambições dos requintadamente sentados no sofá, assim exige. E, em um quadro de desespero e sôfregas ânsias, de euros que contam, de ovos no dito e poleiros que se pretendem, os estrategos até se dão ao luxo de utilizar pontas de lança inexperientes, os que abrem caminho à sua tropa. Vivem o momento de relativa importância, às vezes de peito cheio, mas são apenas peões, não percebendo que são utilizados na treta palaciana e que nunca serão uma coisa para qual não nasceram. Vivem da aparência das circunstâncias, do poderzito de quem está atrás do balcão ou tem umas quaisquer chaves na mão, onde o ter, mesmo que pouco, vale mais que o ser. Quanto mais pequeno o território mais se nota a sua presença, havendo verbos que os caracterizam: infernizar, mentir, excluir, aldrabar e ganhar. Um dia, tudo termina e alguém dita: acabaste! Não aprendeste a andar e, portanto, não sabes correr. Volta para a tua "profissão" se ainda sabes fazer alguma coisa!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

ORDEM DOS MÉDICOS NA MADEIRA - PARABÉNS DR. ANTÓNIO PEDRO DEU UMA LIÇÃO DE CIDADANIA


Algum cidadão livre quer lá saber que o Dr. Pedro Ramos, secretário da Saúde, seja fervoroso adepto, militante ou simpatizante do PSD? Pessoalmente, quero lá saber se o secretário participa em encontros do PSD ou em outras organizações? A Saúde tem de estar em primeiríssimo lugar e qualquer político, mesmo que partidário, não é detentor da verdade absoluta. Metam isso na cabeça. Neste pressuposto, por que raio, todos os outros, representantes de instituições independentes mas parceiras, não podem ou não devem participar nas iniciativas partidárias ou não, conotadas ou não com os vários domínios do espectro político-partidário? Qual é o problema? Depois de 42 anos de democracia não será uma menoridade política e cultural confundir situações de responsabilidade institucional governativa, quer técnica quer política, com qualquer participação no quadro, até, dos direitos de cidadania? Que mal é que há nisso? Perder-se-á a respeitabilidade, a independência e as convicções pessoais, apenas pelo facto de aceitarem uma participação cívica, seja em que enquadramento for? As pessoas que pertencem a instituições independentes, aquelas que não dependem, nem directa nem indirectamente do governo, estarão "proibidas" de aparecer em fóruns, seminários, jornadas, só pelo facto, como se diz, depreciativamente, porque o "senhor governo" não gosta?


Daí que tenha total razão o Dr. António Pedro Freitas, presidente da secção regional da Ordem dos Médicos, quando sublinha na entrevista ao DN-Madeira, que "Estão a confundir a pessoa com o cargo". E com humor salientou: "Está ali um senhor (foto do Nélio Mendonça) que foi presidente da OM, era partidário e tem até o nome no hospital. Nunca ninguém se lembrou de o criticar". 

"Eu reservo-me o direito pessoal de fazer o que quiser da minha vida pessoal", complementou.

Ora bem, disse de forma directa, assertiva e sem papas na língua. A Madeira precisa de gente assim, que assuma, publicamente, que, no plano político, não têm receios de ninguém. Que legitimidade tem um qualquer secretário para, subtilmente, impôr a regra do silêncio, ainda por cima, face a uma instituição independente? Não tem, porque, felizmente, SOMOS LIVRES e ninguém deverá mexer na consciência individual. Outra coisa é representar uma instituição de natureza independente e, nesse quadro, vinculá-la partidariamente. Embora isso, ao longo de anos, tenha assistido e continuo a assistir, de forma camuflada, é certo, mas perceptível. É o que se passa com quase todo o associativismo cultural e desportivo, com as casas do povo, as misericórdias, enfim, exemplos não faltam.
Uma nota final. Sou militante de um partido e, há dias, recebi um convite de um outro partido político para participar em um fórum de debate sobre a Autonomia. Senti orgulho nesse convite. Não participei apenas porque estou fora da Região. Quero lá saber se o partido onde ainda milito fique desconfortável! Sou democrata e ponto final. Deixem-se disso. Parece que alguns ainda não perceberam os efeitos do tempo da mordaça!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 1 de julho de 2018

NO DIA DA AUTONOMIA


Tenho uma grande consideração e Amizade pelo José Manuel Rodrigues. Ao longo de muitos anos, muitos mesmo, sempre soubemos colocar de parte as questões de base ideológica para nos centrarmos no essencial. Desde os tempos da televisão, ele um excelente profissional do  jornalismo e eu um mero colaborador. Foi também assim na Assembleia Legislativa, no debate político, onde nunca faltou a elegância no trato. Hoje, mesmo que só nos cruzemos de tempos em tempos, sabemos que essa amizade é inquebrantável. É neste quadro que escrevo, democrático e dialéctico, como se estivéssemos sentados algures, olhando entre o mar e a serra desta nossa terra, conversando sobre preocupações de ordem política.


Começo por dizer-lhe que, hoje, li a entrevista do jornalista Jorge de Sousa ao Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira. De tantas vezes ter escutado a mesma cantilena nas respostas dadas, equivalente a um choradinho de uma qualquer letra considerada pimba, digo-lhe que passei ao lado. Uffa... chegou ao fim! Já a sua crónica de ontem, como tantas vezes acontece, li com agrado e reflecti. Em tais crónicas, algumas vezes discordo, em outras, genericamente, concordo com o essencial. Só que a de ontem, por via de, hoje, ser DIA DA REGIÃO, motivou-me para estas linhas em jeito de diálogo à distância. 
Assume o meu Amigo: "(...) A primeira batalha que temos que travar é conseguir que todos os madeirenses voltem a acreditar na Autonomia". É interessante esta frase, porque conduz à pergunta: quem a desacreditou, quando, ao longo de quanto tempo e porquê? Aspecto que o Presidente da Assembleia, sabendo, ora se sabe, mas que, na dita entrevista, fugiu a sete pés! 

É, por isso, que podemos rever a Constituição, como o meu Amigo diz, "para que o Parlamento regional possa legislar sobre todas as matérias que não estejam na reserva absoluta da Assembleia da República", para mim uma questão pacífica, mas só possível, note, quando forem completamente esbatidas essas grotescas historietas do "contencioso das autonomias" e a governação regional for orientada por homens e mulheres de enorme notoriedade e credibilidade política, com bom senso e que pela sua atitude e exemplo consigam estabelecer os laços de respeito e de confiança mútua. A "dura luta com o poder central", refere, terá de preceder uma luta, digo eu, pela existência local de pessoas que sejam referências impolutas. Faltam-nos referências, como sabe. Descemos ao grau zero onde se cruzam centenas de interesses menores. 

Os tempos, Caríssimo José Manuel Rodrigues são substancialmente diferentes daqueles face aos quais podíamos dizer "que nada nos é dado de mão beijada". Não devemos entrar por aí, é perda de tempo, porque o quadro de hoje baseia-se na negociação e na CONFIANÇA. E quando temos políticos que, primeiro, atiram um arsenal de bombas políticas da Madeira para a República, mas depois enfiam o rabinho entre as pernas quando descem em Lisboa, obviamente que, desse comportamento, só se pode esperar, em consequência, relacionamentos difíceis, de circunstância, meramente institucionais e ineficazes.
Mas vamos a outros aspectos que elencou na sua crónica. Todas as leis são elaborados para um determinado momento, daí que me pareça pacífica a revisão da Lei de Finanças das Regiões Autónomas. Mas, atenção, Amigo José Manuel, não me parece minimamente razoável que seja a República a tudo pagar, no quadro da "cobertura total dos custos de insularidade", quando se mantém, por outro lado, a mentalidade do regabofe que foi apanágio durante dezenas de anos, onde se misturaram investimentos de carácter prioritário com outros que poderiam aguardar. Um facto que conduziu a Região, apesar dos impostos aqui cobrados aqui ficarem, a uma dívida superior a seis mil milhões de Euros. Um sistema fiscal próprio, em sede constitucional, já poderia ter dado passos significativos não fosse a constante agressividade, embora, a dúvida que me assiste é se tal liberdade (justa em termos teóricos) teria esbatido a loucura da obra pública, a concomitante dívida e a atenuação dos níveis de pobreza. Tenho dúvidas, até porque, lembra-se de uma vez termos falado que o homem assumiu que "com dinheiro fazia inaugurações e com inaugurações ganhava eleições". A lógica  de funcionamento continua a ser, grosso modo, a mesma.
O meu distinto Amigo José Manuel fala da questão política do hospital que, não esqueçamos, vem desde antes de 2001. Lembro-me, em 2004, o ex-presidente do governo ter dito que, se fosse eleito, gostaria de inaugurá-lo até 2008. Se o disse é porque existiam condições para tal. Ou, então, constituiu uma fraude tal promessa eleitoral. Mais tarde, em sede própria, houve quem desvalorizasse tal necessidade e hoje, passados dezoito anos, está no ponto próximo do zero. Isto, meu Caro, no tempo das vacas gordas, ainda distante da angústia da crise internacional que arrastou tantos países para uma gravíssima austeridade. Entretanto, sabe que cresceram obras de somenos importância que continuaram a servir as eleições seguintes e não as gerações seguintes. 
E já agora uma outra. Diz na sua crónica: "(...) A República deve assumir os custos com a Saúde e a Educação na Madeira na mesma proporção que suporta estes setores no todo nacional (...)". Dois aspectos: primeiro, estou de acordo que, no actual quadro constitucional, existem limitações (Artigos 164º  e 165º - Matérias de reserva Absoluta e Relativa) o que não significa que a Região não possa dispor de uma organização estrutural diferente e com resultados que não envergonhem. Os recentes dados da PORDATA são arrepiantes da falência do sistema educativo. E isso nada tem a ver com mais dinheiro e com mais escola, mas sim com questões organizacionais e pedagógicas, portanto, com melhor escola. Há muito que defendo um País com três sistema educativos autónomos. Só que para aí se chegar não basta jogar dinheiro em cima dos problemas, mas inteligência, capacidade de visão e de organização. Na Saúde, a mesma coisa, embora os contextos sejam diferentes.
Isto leva-me a dizer, complementarmente, que não precisamos, do ponto de vista organizacional, de um Estado dentro do Estado. Temos uma estrutura orgânica de governo próprio que consome milhões de euros sem necessidade. Começa pelo primeiro órgão de governo próprio, onde não se justificam tantos lugares de deputados; passa pela estrutura de governo com uma Administração extremamente pesada e vai até às autarquias (necessária uma revisão administrativa do território) e pelas centenas de instituições que consomem o que têm e o que não têm. Tudo isto tem de ser discutido, com seriedade e, paulatinamente, terão de ser dados os passos necessários à sua necessária correcção. Acho que devemos começar por aí, quando a Região tem menos cem mil habitantes que o concelho de Sintra.
Finalmente, quando escreve sobre a renegociação da dívida regional, prazos e juros, as políticas de continuidade territorial, direito de voto dos emigrantes, eleição directa para o Parlamento Europeu e "Centro Internacional de Negócios com a negociação com a União Europeia de um regime fiscal atrativo após 2027 (desde que o CINM seja de gestão pública e não privada), julgo que tem razão, mas, uma vez mais, questiono, se existirão referências políticas e desprendimento de interesses capazes de o fazer. Sem chapéu na mão, sublinho!
Caríssimo José Manuel, com amizade, o resto fica para um café ou, talvez melhor, para uma cerveja ,  com os olhos no mar e na serra, porque o tempo, apesar de uma meteorologia algo confusa, é de Verão. Um abraço.
Ilustração: Google Imagens.