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sábado, 31 de maio de 2025

Marcelo PR, o primeiro “telepopulista” a sério em Portugal


Por
Alfredo Barroso,
in Facebook,
30/05/2025
estatuadesal



O "beijoqueiro" em acção... Marcelo PR, o primeiro “telepopulista” a sério em Portugal e criador do caos onde irrompeu outro bem mais perigoso…


O 'telepopulismo” irrompeu a toda a força em Portugal com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. Ao pôr em prática aquilo a que chamou «política de afetos» – à falta de melhor criatividade, e de um módico de consistência e de substância políticas –, Marcelo PR tinha absoluta necessidade das televisões para explicar o que era, e para praticar, essa «política de afetos».

Consistia esta, essencialmente, em beijar, abraçar e em tirar ele próprio retratos (as famosas “selfies”) a todo o «bicho careta» que se acercasse dele, a quem passava a mão p’lo pelo e transmitia palavras, expressões teatrais, gestos de carinho, simpatia e solidariedade – e sobretudo de caridade beata – por aí se ficando, assim cumprida plenamente, aliás, superficialmente, a função de mera propaganda política e de satisfação da sua vaidade pessoal.

Marcelo PR fez durar a coisa o tempo suficiente para ser reeleito, ainda que com resultados bem aquém do que ele esperava obter. Mas o que mais o incomodou na primeira vez que decidiu dissolver a Assembleia da República, foi a maioria absoluta obtida pelo PS de António Costa, que lhe retirava o protagonismo. Por isso ameaçou logo – caso inédito e totalmente abusivo – que tal maioria só duraria enquanto Costa fosse Primeiro-ministro, ameaça que “caiu como sopa no mel” quando uma matrona PGR, para esquecer, aceitou referir que Costa também vinha ao caso, ainda que “à vol d’oiseau”, numa “investigação” em curso do Ministério Público.

Depois de balbuciar alguns protestos, dizendo que se demitia, mas que o PR devia convidar outro socialista pra o substituir, Costa “raspou-se” com grande ligeireza, para ir constituir em Bruxelas um triunvirato com duas fanáticas belicistas que muitíssimo mal têm feito à União Europeia, mergulhada numa guerra indireta contra a Federação Russa, na qual está empenhado um “clown”, o ucraniano Volodymyr Zelensky, político narcisista e oportunista altamente suspeito de corrupção (ver “Pandora Papers”) e grande protetor dos grupos armados neonazis entretanto incorporados no seu exército.

Cá pela pátria ficou Marcelo PR a “protagonizar”, como ele tanto gosta e já tardava. Mas bem depressa se pôs a dissolver, por mais duas vezes, a Assembleia da República, pondo o seu partido, o PPD-PSD, no poder, todavia disfarçado de AD e com um governo minoritário, e ao mesmo tempo dando um enorme impulso a um partido de extrema-direita, o CHEGA, que logrou obter 50 deputados em 2024, e 60 deputados em 2025, sob a liderança de um “telepopulista”, André Ventura, sem dúvida muito mais eficaz politicamente, e bastante mais perigoso, do que Marcelo PR...

quinta-feira, 22 de maio de 2025

O discurso da infâmia


Por
Nuno Morna, 
in Facebook, 19/05/2025), 
Revisão da Estátua

Num domingo à noite, febril, deitado de lado, com o coração aos gritos e a televisão ligada no volume errado.



Ontem à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espetáculo monológico onde o palhaço também era domador, diretor, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele.

André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigada de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.

Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.

O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos.

Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.

O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão, e chama a isso arrumação.
Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfeção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.


E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas votaram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens.

Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.

E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar”. Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade.

Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.

Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “Toma, faz tu melhor”. E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.

O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exato momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.

Este discurso, o de 18 de maio, de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar.

E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.

E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.

Post scriptum: 
Estarei sempre do outro lado da barricada. Com todos os que são, efetivamente, pessoas de bem, não os que se dizem, mas os que o demonstram, com os que amam a liberdade sem adjetivos e a democracia sem asteriscos. No combate a todos os radicalismos, venham eles mascarados de justiça ou de ordem, de povo ou de nação.

No combate aos que aparecem para dividir, para semear o ódio, para apagar a pluralidade, para transformar o medo em política. No combate, sempre, à intolerância, a intolerância dos gritos e a dos silêncios cúmplices. Quero viver com a noção de que "Combati o bom combate", (2 Timóteo 4:7). Da minha parte, não esperem outra coisa. Nem agora, nem nunca.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O IMI não é um imposto, é uma absurda renda municipal


Artigo 65º da Constituição da República: "1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar".



Os que puderam, os da designada classe média e média alta, aventuraram-se e não esperaram que fosse o Estado a resolver aquele direito. Procuraram a banca, contratualizaram por 15, 20, 30 e até 40 anos o pagamento dos empréstimos com juros, hoje, manifestamente pornográficos. Muitos compraram o solo, pagaram impostos, construíram e, todos os meses, têm um quantitativo a reservar que faz mossa nos limitados orçamentos familiares. Não obstante isso, de terem pago tudo, projectos, licenciamentos, encargos de construção, manutenção, etc., aparece o Estado, sorrateiramente, e zás, toma lá mais este imposto. Isto é, milhares ou mesmo milhões, fizeram um esforço, trabalharam muito, fizeram das tripas coração, privaram-se de muita coisa e, lá do alto, o olho atento e saqueador do governo, o olho abutre, cai sobre os cidadãos esmifrando-os ainda mais. Fará algum sentido, pagar uma renda ao Estado sobre um património que constitui um direito básico?

"Portugal, diz-nos o Economista João Rodrigues dos Santos, parece ter-se tornado especialista em prolongar a agonia fiscal dos seus cidadãos. O mais recente relatório do Instituto Económico Molinari e os cálculos da consultora Ernst & Young revelam que, em 2023, os portugueses precisaram de seis meses e treze dias de trabalho apenas para suportar os encargos fiscais. Mais de metade do ano para pagar o vasto espectro fiscal português." 

O IMI é dos impostos que considero absoluta e radicalmente indecoroso. Se a vida da maioria das famílias já é muito complexa, com esta "actualização" de 9,75% em 2025, tudo ficará pior. É que não se trata, na esmagadora maioria dos casos, de um qualquer luxo ou de uma segunda ou terceira habitação, trata-se, apenas, de uma necessidade básica prevista no quadro dos direitos constitucionais económicos, sociais e culturais. 


Por exagero, é como ir ao supermercado, colocar no carrinho de compras uma série de produtos essenciais, pagar o IVA e, depois, em função do valor anual de compras, voltar a pagar um qualquer imposto. Isto é, voltar a pagar aquilo que já foi pago e com imposto! O IMI deixou assim de ser um imposto, mas uma descarada renda. Grosso modo, quem pagar € 500,00 de imposto, mensalmente, sabe que tem uma renda de € 41,60! Paga para habitar o que é seu, contrariamente ao direito consignado na Constituição da República.

Com muito boa vontade e uma incomensurável tolerância, posso aceitar o estabelecimento de uma moderada contribuição municipal, sobretudo se forem explicados e sensíveis os retornos dessa contribuição. Da forma como tudo acontece, não, constitui um roubo, um descaramento, uma pirataria legal. Os valores que hoje estão em causa são obscenos. Pedir a uma família que tem um orçamento limitado, que aceite de sorriso largo o IMI, é de mandar os seus mentores a um lugar que eu cá sei! Não há memória de tanta "espoliação pública legal", um saque diário perpetrado por governantes insensíveis. 

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

A propósito da Spinumviva e de Cavaco Silva: "Por qué no te callas?"


Talvez seja por uma necessidade de protagonismo, de se manter com a cabeça fora de água, talvez! Há pessoas assim, que não têm noção que, tendo um percurso considerado meritório para alguns, absolutamente detestável para outros, não conseguem perceber que tudo tem o seu tempo e que eles já tiveram o seu. Continuam com aquele desejo de estar sentado na primeira fila, como se a sua presença e sobretudo a palavra tivessem um significativo peso na opinião pública. Falo do Professor Cavaco Silva. Pior, ainda, é que aparece sempre com um certo espírito destrutivo, com lições de moral que não pegam, quando o seu passado exigiria recato. Aos 86 anos, com uma vida de décadas preenchida pelo exercício da política, sempre que aparece, a memória traz-me o Rei Juan Carlos I de Espanha, quando se dirigiu ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, durante a XVII Conferência Ibero-Americana, realizada na cidade de Santiago do Chile, em 10 de novembro de 2007: "Por qué no te callas?"



De Cavaco lembro-me de ter recusado uma pensão vitalícia ao Capitão de Abril Salgueiro Maia, mas ter concordado com uma pensão a dois ex-inspectores de PIDE; lembro-me, ainda, de ter dado um severo golpe nos sectores das pescas e da agricultura e, mais tarde, enquanto Presidente da República, ter dito que Portugal devia apostar nestas atividades, quando foi ele que as matou. E tenho presente o facto de não se ter curvado perante a morte do Nobel da Literatura José Saramago. E era Presidente da República. 

A propósito desta figura que um dia disse que "nunca se enganava e raramente tinha dúvidas", regressei a um texto que publiquei a 10 de Outubro de 2013, na sequência de um notável trabalho do Jornalista Filipe Santos Costa, divulgado na revista do Expresso, de 18 de Maio de 2013, pág. 37/41, sob o título: Quando Paulo Portas escrevia que Cavaco "merecia um estalo". Guardei-o e ontem voltei a lê-lo. Deixo, com a devida vénia ao Expresso e ao jornalista, uma passagem onde se refere a Cavaco Silva: "Egocêntrico", "arrogante", "vaidoso", "teimoso", "ambicioso", mais dado a teimosias do que a convicções. Pensa que a direita tem de o venerar. Tem dias de imitação de ditador. É um homem ordinário".

E de Carlos Esperança, relembro, por outro lado, um seu texto: ele "remói ódios e cogita vinganças" (...) O homem que foi catedrático por decreto, benevolência do Prof. Alfredo de Sousa, PM por intriga dentro do PSD, e PR por arranjo, na vivenda de Ricardo Salgado, esqueceu o passado obscuro para dizer que há "deterioração da qualidade da nossa democracia" (...) "A democracia em Portugal está amordaçada", (...) aquele que um dia inventou escutas para combater o PM, que nunca lhe perdoou perder o vencimento de PR, quando o Governo decidiu a não acumulação de ordenados e pensões, e estas eram mais avultadas, tropeça na gramática, na ética e na cultura, mas não se esquece de bolçar o ódio à democracia. Para ele os adversários são inimigos. (...) Quem permutou a modesta vivenda Mariani por um terreno para construção, onde já se erigia a luxuosa vivenda Gaivota Azul, na praia da Coelha, recebeu mais valias de ações não cotadas da SLN/BPN, dava faltas injustificadas na universidade pública e aulas na privada, faltas que o ministro Deus Pinheiro relevou, esqueceu os negócios que fez, os meios de pagamento que usou e coisas essenciais que o deixaram sob suspeita de ser contemplado pela generosidade de Oliveira e Costa (...)".

Tudo isto que aqui trago tem a ver com um seu recente artigo sobre aquilo que considerou como a "Devassa da vida privada", relativamente aos negócios do candidato Luís Montenegro. A Tal Spinumviva. Cruzei a sua posição com o artigo de João Miguel Tavares, (Público) onde o articulista fez o contraponto: 

"(...) Os negócios activos de um primeiro-ministro em funções não são vida privada. Isto é uma avaliação ridícula; é conversa de laranjinha fanático; e fica muito mal ao mesmo Cavaco Silva que em tempos achou Oliveira e Costa, Duarte Lima e Dias Loureiro políticos espectaculares, fazer esta defesa totalmente descabelada daquilo que foi um comportamento eticamente inadmissível por parte de Luís Montenegro no caso Spinumviva — mesmo que consideremos que esse comportamento não justifica a queda do Governo. Não é só André Ventura que desprestigia as instituições. O artigo de Cavaco fez o mesmo".


Em Setembro de 2023, o jornalista Luís Osório, referindo-se a Cavaco Silva, escreveu:

"É uma pessoa pouco recomendável (...) voltou a aparecer. Às vezes, um livro. Outras vezes, um ajuste de contas. Contra pessoas, contra a esquerda, contra a má moeda, contra qualquer política menos ele próprio – o homem não se cansa de ajustar contas com o seu ressentimento (…) Para diabolizar António Costa. Para espetar uma faca no pobre Rui Rio. Para dar prova de vida. (...) "O homem que beneficiou de alguns privilégios conhecidos, mas que continua a pairar como se lhe devêssemos alguma coisa, como se lhe tivéssemos de ir comer à mão. (…) O homem que não fez nenhuma declaração aquando da morte de José Saramago, nem uma palavra. Uma vergonha, uma canalhice. Porque Cavaco era Presidente da República"!

Finalmente, há uma carta do Economista Carlos Paz que caracteriza bem esta figura. Deixo aqui o endereço:

Ilustração: Google Imagens

terça-feira, 6 de maio de 2025

Empresas europeias defendem retoma da importação de gás russo


Por

As empresas da UE defendem soluções alternativas e menos caras para recuperar a sua dinâmica competitiva. Olham para a dependência real do GNL dos EUA como um risco acrescido.



1. Algumas revistas e jornais europeus têm vindo a alertar com insistência para a dependência excessiva do gás dos EUA, situação gerada com a guerra da Ucrânia (Fev2022), onde a Europa começou a substituir o fornecimento, via gasodutos, de gás russo bem mais barato, pelo GNL (gás natural liquefeito) oriundos do Qatar e, em especial dos EUA, a preços bem mais elevados.

Como várias vezes se alertou, aqui, a Europa, devido a sanções económicas mal concebidas, mais idóneo seria dizer-se de seguidismo, porque se limitou a seguir, sem pensamento próprio, as decisões políticas do governo Biden (EUA), salta de uma dependência energética para outra, sem benefícios alguns. Bem, pelo contrário, com perdas avultadas e efeitos gravosos nos custos das empresas e despesas das famílias. Não podemos esquecer. O preço médio da energia na UE mais que triplicou em termos relativos.

As consequências não se fizeram esperar. Elevada perda de competitividade das empresas europeias, deslocalização [diferenciada, segundo os países-membros, consoante a sua incidência nas indústrias química e metalurgia, sectores energia-intensivos] para outros países com custos baixos de energia, efeitos no bem-estar das famílias, pela redução dos níveis de aquecimento e do uso do ar condicionado, provocando um número de mortes significativo na Europa (umas centenas de milhares) e, ainda, aumento da poluição devido à reanimação das centrais a carvão.

2. A problemática energética foi, desde o início, um dos maiores problemas, levantado pelas empresas do sector químico e petroquímico à Comissão Europeia, aquando da aplicação das primeiras sanções económicas à Rússia, onde a redução da compra de hidrocarbonetos era um dos focos-chave, alegando, o que era óbvio, os efeitos na economia.

A UE não levou em conta a posição das empresas, antes atrelou-se à linha política dos EUA que reunia condições bem diferentes da Europa para seguir aquela política: produção de gás, efeito reduzido no preço e ainda o mercado europeu de gás que se lhes abria.

Algo está a mudar…

3. Perante as consequências por demais evidentes, está a assistir-se a uma viragem firme, traduzida em opinião pública. O que vai daí resultar? Muitas incertezas, quase todas dependentes do desfecho a prazo da guerra da Ucrânia.

Escreve a revista Transitions & Énergies de 19/04/2025: “Para não perder o que resta de sua competitividade industrial e não depender exclusivamente de seus suprimentos de gás dos Estados Unidos e do Catar, os atores econômicos e políticos europeus (tradução brasileira), estão agora considerando abertamente que o gás russo pode ser um mal necessário de alguma forma. Não seria de forma alguma uma questão de se aproximar do regime de Vladimir Putin e importar quantidades de gás comparáveis às que existiam até 2021. Mas, no caso de uma paz aceitável entre a Ucrânia e a Rússia, isso significaria diversificar as fontes de fornecimento de gás natural aos países da União. Resta apenas conseguir chegar a acordo sobre uma estratégia a nível europeu que combine segurança energética e credibilidade geopolítica”.

As empresas da UE defendem soluções alternativas e menos caras para recuperar a sua dinâmica competitiva. Olham para a dependência real do GNL dos EUA como um risco acrescido pelo eventual uso indevido de Trump na sua errância no jogo das tarifas aduaneiras. E, neste contexto, apontam que, embora numa proporção diferente, da de antes da guerra, é de retomar o abastecimento russo.

Escreve a revista citada que, há um mês, em conversa, Patrick Pouyanné, CEO da Total Energies, explicou: “Eu não ficaria surpreso se dois dos quatro gasodutos (fossem) colocados de volta em serviço, não quatro em quatro”. Para Patrick Pouyanné, a indústria europeia não tem chance de ser competitiva, sem um certo nível de fornecimento de gás russo, por meio de gasodutos, que permita que ele seja pago a preços muito mais baixos do que o GNL.

“Não há como competir com o gás russo com GNL de qualquer lugar”, disse Pouyanné e, recentemente, acrescentou à agência Reuters: “Temos que diversificar nossas fontes de abastecimento, pegar muitas estradas e não depender de uma ou duas delas… A Europa nunca mais voltará a importar 150 mil milhões de metros cúbicos da Rússia como fazia antes da guerra … mas apostaria talvez em 70 mil milhões de metros cúbicos”.

Registamos este depoimento, mas muitos mais dirigentes de grandes, médias e pequenas empresas defendem esta opinião.

Passado este tempo, existe um reconhecimento de que as sanções económicas pelo menos no tocante ao gás foram um erro colossal. Agora, até já se pode exprimir esta opinião, sem se ser “molestado” de pró-Putin. Agora, são os políticos europeus defensores destas posições tão abertamente contestadas, que se sentem incomodados por haver tantos a dar voz e a se oporem ao tipo de sanções, orientadas, então, pelos interesses americanos.

O apagão ibérico

Nos países da União, a situação continua complexa. As necessidades de gás natural não desaparecerão por magia. A estratégia alemã de transição energética (Energiewende), que privilegia as energias renováveis intermitentes (eólica e solar), continua a dominar e persiste as tentativas de a impor a todos os países da UE pelas instituições europeias.

Admite-se, de forma generalizada, que estas energias intermitentes (sozinhas e em dimensão exagerada) não são solução idónea (independentemente dos erros de gestão da rede que houve) e terão contribuído de diversas maneiras (produção e sobretensão nas redes de alta tensão) para o apagão ibérico.

Hoje, na EU, há uma maioria de países a favor da energia nuclear, só que os serviços da Comissão Europeia continuam a reboque da posição alemã e com muitos apoios de Comissários em exercício a dificultarem avanços ponderados.

Com as perspectivas de elevados consumos de electricidade, no curto e médio prazos, designadamente pelo surgimento das várias actividades económicas ligadas à IA, a União Europeia corre sérios riscos de perder mais uma vez a oportunidade de estruturar uma política energética dinâmica e, daqui a uma dezena de anos, vir a aparecer um novo relatório Draghi a constatar que a Europa, afinal, se afundou no contexto mundial porque, depois de numerosos alertas, continuou a persistir no erro sem encontrar o caminho certo para a energia.

A UE não consegue chegar a entendimento neste domínio-base. Os jogos e interesses dos lóbis são muitos e contraditórios e anulam-se e quem perde está à vista. As vítimas dos apagões e das perdas de competitividade na Europa.

O apagão ibérico deu-nos uma amostra (triste) bem clara dos erros de fundo da União Europeia na energia. A ciência existe. A política é que baloiça e os interesses se digladiam.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Debates e notas!

 

Nos recentes debates políticos, uma grande parte das vezes, face ao que dizem os painéis de comentadores, fico com a ideia que eu e eles não vimos o mesmo debate. Não apenas sobre o que dizem, mas pelas famigeradas notas que atribuem. Ainda não percebi se, para uns, a escala é de 0 a 10, para outros, é de 0 a 20! No mesmo debate e painel, um pode atribuir a nota 5 e outro 15 ou mais. Uma disparidade que, depois, converte-se em comentários diametralmente opostos.



É evidente que todos, por mais que afirmem a sua independência, transportam culturas, histórias de vida, percepções, autores de livros que leram, crenças, estilos, posicionamentos políticos (também votam) e até, o medo de ser rejeitado em função de para quem trabalham. E tudo isso acaba por ter influência quando seguem um debate e se pronunciam sobre o que assistiram. Sei que é assim, porém, isto deixa-me, eu não diria com uma certa angústia, mas ligeiramente irritado, porque, repito, fico a pensar se assisti às mesmas respostas.

O problema é que, aos olhos dos menos bem informados, essas notas e apreciações acabam por afectar e moldar posteriores decisões individuais. Hoje, a influência que exercem em redor do debate político já não é, sequer, subtil ou invisível, é descarada e está a tornar-se numa poderosa força que, no essencial, visa gerar a dúvida ou mesmo transportar a consciência para aquilo que desejam que o povo seja e não aquilo que as convicções e apreciações individuais ditam. Matam o sentido crítico e perde-se a autonomia de pensamento, sobretudo se esta não está alicerçada em princípios e valores estruturados. Concomitantemente, a consequência conduz a um nocivo efeito de rebanho, pela insistência e pela persuasão. 

É óbvio que ninguém está imune a influências de todos os tipos, daí que, neste contexto, especificamente ao jornalista ou ao comentador, não lhe peço a verdade, mas que seja honesto com a sua verdade. O problema está nas pontas soltas que deixam pelo caminho, nos pequenos deslizes, no tom de voz, na comunicação facial e postural, nas atitudes, nos enquadramentos e narrativas inquinados, onde se percebe, com relativa facilidade, onde querem chegar e ao serviço de quem estão. Preferia que assim não fosse, apenas, genericamente, autênticos e honestos na comunicação verbal e não verbal.

E quanto às notas... deixem isso para os espectadores e leitores, face à tamanha discrepância entre uns e outros.

Ilustração: Google Imagens.     

terça-feira, 29 de abril de 2025

Memórias




Onde há tanto tema para explorar, analisar e comentar, numa lista que tenho aqui à minha frente, onde germinam atitudes obscuras, comportamentos abstrusos, deselegâncias, declarações insensatas, impreparações sem fim, contradições, hipocrisias, ausência de memória, desonestidades, fingimentos, oportunismos, conluios, apego a pequenos e grandes poderes, por aí fora... obviamente que, não desviando o olhar e o pensamento sobre o que nos rodeia, prefiro, nesta Primavera de limitada esperança, seguir Immanuel Kant que apreciou a estética das flores, com o argumento que "a sua beleza provoca uma experiência estética que transcende a mera percepção sensorial, levando a uma reflexão mais profunda sobre a vida e a existência" - Renata Carvalho.

De facto, elas provocam essa séria e bela reflexão "sobre a vida e a existência", exactamente o contrário do que olhamos em redor e nos constrange.

Imagem: Arquivo próprio / Parque de flores em Keukenhof.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Do diário da Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira


Por
Carlos Esperança, 
in Facebook, 24/04/2025
estatuadesal 

A minha mãe adora o 25 de Abril e eu também. O meu pai detesta-o. Se a democracia fosse futebol, cá em casa a democracia ganhava 2-1.




Ontem a minha mãe estava possessa. Ouviu o Ventura a fazer promessas, como se as pudesse cumprir, e disse que há mais gente estúpida do que ela pensava e que esse aldrabão de feira parece um encantador de burros.

Como o meu pai andava com o táxi a dizer mal dos taxistas do Bangladesh e de todos os imigrantes, ficámos à conversa depois de jantar. A minha mãe não detesta só o Ventura, está desiludida com o Costa, irritada com o Montenegro e furiosa com o Marcelo.

Ó Diana – dizia –, vê a falta que o Costa faz cá e a inutilidade que é ele na União Europeia, onde bastavam a Von der Leyen e a Kaja Kallas para fazerem asneiras e serem humilhadas pelo desmiolado Trump!

Em Portugal a vergonha desceu à rua e o 25 de Abril está de regresso ao 28 de maio. O país está entregue ao Bando dos Quatro que emigram para Roma em gozo de férias de nojo pela morte do Papa, um homem decente que junta no funeral a escória da política e o refugo dos católicos, os que diziam cobras e lagartos do pontificado e fingem agora ser fervorosos admiradores de quem defendeu a paz e os pobres.

Em Portugal, durante o funeral do Papa, o país fica entregue aos bichos. A substituir o PR fica o Pacheco de Amorim, ex-terrorista do MDLP ou outro vice-presidente da AR; em vez do PM o Miranda Sarmento - porque até o MNE, o indizível Rangel, foi como acólito do PR, PAR e PM para perfazer o Bando dos Quatro, saborosa expressão de humor e raiva da minha mãe numa alusão a um grupo de radicais da China de Mao.

De facto, quando um ministro, em nome do governo que se ausenta para o estrangeiro no dia 25 de Abril, diz que «(…) o Governo cancelou toda a agenda festiva e adiou as celebrações relativas ao 25 de Abril», até eu percebo que não estamos num país de gente séria, estamos nas mãos de traidores, que trocam a Pátria por uma missa em Roma.

E, como se não bastasse, o ministro das Finanças de um governo em gestão, que já gastou a folga orçamental herdada, prepara-se agora para, segundo alega, em conluio com o PS, endividar o País em mais 1,5% do PIB para a Defesa, isto é, para armas.

Disse que pediu a Bruxelas para contrair mais 1,5% do PIB numa dívida que não conta para o Orçamento do Estado. Perguntei à minha mãe como era isso. Irritada, não comigo, nunca se zanga comigo, ela disse que era um expediente para esconder a dívida, até termos de pagar o capital e os juros. Nem sequer é uma dívida da UE, é só nossa.

E à custa de quem – perguntei eu? – De todos nós, respondeu ela. Vão às pensões e aos benefícios sociais. Mas o Nuno Melo disse que uma coisa não tinha a ver com a outra… - retorqui eu. E li, no sorriso triste da minha mãe, o desprezo por tal energúmeno e a dimensão da mentira.

E acrescentou ela: - Se tivéssemos um PR com um módico de dignidade, alertaria o Governo que nos impôs para o descaramento de tomar decisões com o PS sem saber se os dois têm a maioria em relação aos restantes. E acrescentou: - Ó Diana, que legitimidade têm de decidir despesas que oneram as gerações futuras sem as discutirem antes das eleições?

Que a Alemanha, queira gastar 500 mil milhões de euros, é lá com ela, embora esteja na origem das duas grandes guerras mundiais e esquecida da proibição de se rearmar, mas que a UE queira gastar 800 mil milhões também é connosco. Não digo que sou contra o armamento da UE, mas é preciso que se saiba para quê, para nos defendermos de quem e que sacrifícios estamos dispostos a fazer, incluindo o de morrer na Gronelândia ou em qualquer área da UE que vier a ser invadida.

A minha mãe diz que somos vítimas de bullying e que há uma campanha de intoxicação em curso para evitar que discutamos o que interessa aos portugueses para que interesses alheios possam prosperar.

Estou a pensar que amanhã não poremos cravos vermelhos na jarra da sala, por causa do meu pai e, antes que na rua comece a ser tão perigoso como dar vivas à República ou dizer mal do Salazar no tempo dos meus falecidos avós, eu e a minha mãe, só as duas, vamos da Musgueira ao desfile da Av. da Liberdade para gritarmos a plenos pulmões…

Viva o 25 de Abril! Sempre!

Musgueira, 24 de abril de 2025 – Diana

quinta-feira, 24 de abril de 2025

25 de Abril e a Senhora Presidenta da Câmara do Funchal


Para alguns parece que já nada mais há a acrescentar. Pressuponho que partem da convicção, pessoal e partidária, que a Revolução aconteceu há meio século e, portanto, não existem perigos de retrocesso político e de regime. Quão enganada está a Senhora Presidenta da Câmara Municipal do Funchal (estará?), quando impede uma cerimónia municipal evocativa porque, "(...) não se trata de um momento para intervenções políticas (...)". Bom, certamente, é "cozinhá-lo" em ambiente fechado, "declamando", sem margem para a diversidade da opinião.



Então, qual será o momento adequado? Quando, olhamos em redor, da escala internacional à local, e vemos o mundo dissolvido em políticas extremistas de interesses múltiplos, ódios e populismos que esmagam os povos, onde a pobreza se tornou paisagem, onde a inversão de prioridades oferece-nos um sinal claro de corrupções de variadíssima ordem, quando, até, o falecido Papa Francisco chamou à atenção para esta "Economia que mata", quando a ganância do ter se sobrepõe ao ser, quando a cidade está frágil, nas mãos de interesses de grandes senhorios que cavam assimetrias e geram velocidades distintas de desenvolvimento (qualidade), enfim, perante um quadro muito pouco auspicioso, pergunto, qual será o momento adequado?

Não se assinala o dia que celebra "o direito de falar, ouvir e de ser escutado" (aqui está o paradoxo da presidenta da câmara), apenas com iniciativas no âmbito do "Vivacidade". Ambas são compagináveis. O direito de falar, ouvir e de ser escutado, nunca poderá ser motivo de censura, porque a Senhora Presidenta entende que este "não é um momento para intervenções políticas". Pelo contrário, é mister dos políticos, representantes do povo, que falem com convicção, honestidade, seriedade e conhecimento, que apontem caminhos para a cidade, pois só por aí podemos celebrar o Abril da Esperança pelo qual tantos lutaram, foram presos, torturados, deportados, morreram às mãos do anterior regime, quer no país, quer na vergonhosa guerra colonial.

Os tempos são outros e os problemas também, é certo. Mas só com a palavra, por mais que soe a repetição e cause incómodos, as instituições poderão caminhar e defender novos equilíbrios, fazendo crescer e desenvolver uma cidade que não fique pela singularidade do anfiteatro do Funchal, mostrado pelo cartão-postal. Para além do discurso político, em qualquer patamar de intervenção, digo-lhe, Senhora Presidenta, está na altura de resistir e de regressarem novas canções que exerçam influência. Ademais, se a democracia causa embaraços, parafraseando alguém, não queiram "experimentar a ditadura"!

Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Trump sonha com as Terras Raras


Por

“Enquanto Donald Trump se preocupa em saber em que equipa jogam as pessoas transgénero, os chineses transformam as suas fábricas com a ajuda da IA”. Citando Thomas Friedman, o futuro está na China.



Entre as múltiplas obsessões de Trump não podiam faltar as Terras Raras. Em local que “cheire” a Terras Raras, lá aparece de dedo em riste porque, na sua opinião, os EUA correm riscos, se as Terras Raras escaparem da sua alçada. E, sendo assim, têm de ser nossas, diz, “a bem ou a mal”!

É assim, na Gronelândia, Canadá, Ucrânia. … O que nos vale, parece, em nenhuma das Ilhas dos Açores há cheiro a Terras Raras ou, então, o cheiro sulfuroso vulcânico encobre. Mas quem sabe, se um dia destes não aparece por lá, “em visita de cortesia”, J.D. Vance e a mulher! (aeroportos para o avião “presidencial” não faltam).

Desconhecia-se este pânico enorme, tão assanhado, de Trump pelas Terras Raras chinesas! Que descontrolo, ilusão e desconhecimento. A luta pela hegemonia global perturba-lhe o pensamento.

A aposta da China

1. A China há muitos anos fez as suas escolhas estratégicas e uma foi, sem dúvida, a aposta nas Terras Raras.

Não nos podemos esquecer da célebre frase de Deng Xiaoping (1992): “o Médio Oriente tem petróleo, nós temos terras raras”. E esta frase, na realidade, tornou-se um desígnio: a China preparou-se. Investiu muito nas frentes mais diversas: equipamentos para mineração, investigação, tecnologia, formação, patentes, redes de distribuição, constituição e dinamização de empresas altamente competitivas e especializadas e acordos de cooperação com empresas estrangeiras e países diversos.

Segundo a informação disponível, este processo teve os seus acidentes de percurso, não foi construído só de sucessos. Mas, a China acabou por consolidar um caminho invejável, com um registo de ganhos acumulados em dinâmicas inovadoras, atingindo e permanecendo no comando deste cluster de actividades, a nível mundial, de forma firme e difícil de destronar.

Pequim com as suas múltiplas patentes e domínio das tecnologias goza de um quase monopólio mundial, acabando por transformar cerca de 90 por cento das Terras Raras, quando só dispõe de 55% a 60% dos recursos mundiais.

Assim, não é fácil a empresas não chinesas, a não ser em estreita cooperação, explorarem a parte da industrialização das Terras Raras, ou seja, a extracção do minério e a sua transformação em concentrados e respectivo refinamento.

Muitas empresas estrangeiras têm acordos de longa duração com as suas congéneres da China para a transformação e refinação das Terras Raras, ou seja, para transformar estes minerais estratégicos em peças a serem aplicadas nos produtos finais como semicondutores, aeroespacial, equipamentos militares, automóvel eléctrico, equipamentos para a energia solar e eólica…, o que lhe acrescenta ainda mais poder em toda esta longa fileira de produção e mercados.

Mais uma vez anoto: estes 17 minerais estratégicos, conhecidos por Terras Raras, são mais ou menos abundantes no subsolo do Planeta Terra. A questão-chave do cluster reside no domínio das tecnologias das diferentes fases do processo de fabrico. E é aí que se concentra o poderio económico de Pequim.

Existência de Terras Raras no planeta

2. Os Serviços Geológicos dos Estados Unidos (US Geological Survey) estimam que, no ano de 2024, as reservas mundiais de Pedras Raras andariam à volta de 110 milhões de toneladas, sendo os 12 países mais importantes e, por esta ordem, a China, Brasil, India, Austrália, Rússia, Vietname, EUA, Gronelândia, Tanzânia, África do Sul, Canadá e Tailândia.

Curioso verificar que os 4 países de origem dos BRICS constam desta lista e a África do Sul que veio a integrar o grupo um pouco depois também. E até o Vietname que tem mostrado interesse em aliar-se e marcou presença na última Cimeira (Kazan/Rússia, Novembro2024) do grupo dos países BRICS+ detém uma posição significativa nas reservas mundiais. O que significa que a China anda bem acompanhada neste domínio.

Posição da Ucrânia

3. A Ucrânia apenas terá 5% das reservas das Terras Raras mundiais. Não consta da lista dos 12 países principais.

Cerca de 50% desses minérios estão em territórios ocupados pela Federação da Rússia, nomeadamente em Donbass e Crimeia, pelo que vários especialistas questionam a pressão de Trump, quanto ao acordo dos minerais das Terras Raras, ainda mais sabendo-se, dizem esses mesmos estudiosos, que as últimas estimativas das reservas são reportadas ao período soviético, podendo haver margens de erro significativas de avaliação, pois, entretanto, as metodologias modificaram-se.

A acrescentar, refira-se, que a Ucrânia não tem qualquer mina em exploração, nem experiência de mineração, nem na fileira. Tudo, no ponto zero, agravado com falta de mão de obra com um mínimo de experiência, um grande obstáculo para investimentos neste domínio.

No entanto, a Rússia terá mostrado alguma abertura de cooperação com os EUA e, como aqui já se escreveu, poderá recorrer a algum apoio técnico da China, certamente em condições bem negociadas, pois como sabemos Pequim vedou completamente a exportação de tecnologias nestes domínios.

A complexidade é grande, tanto mais quando nada está definido em termos da guerra. Assim sendo, este acordo das Terras Raras parece, por enquanto, um negócio prematuro e absurdo. Para além disso, mesmo que este acordo avance já não terá qualquer efeito no “reinado Trump”, dado o período longo, que uma exploração mineira exige a arrancar.

Reacção da China às tarifas de Trump

A China tem respondido quase de imediato às sucessivas alterações das taxas sobre as importações dos EUA, aplicando condições similares e condicionando as exportações de 7 metais das Terras Raras o que vai complicar a produção de semicondutores nos EUA se perdurar além de dois meses. Pequim impôs sanções a algumas empresas norte-americanas e uma acção judicial na OMC.

A comunicação social

O futuro está na China, escreve o colunista Thomas Friedman, do New York Times, laureado com três prémios Pulitzer. Diz este jornalista: “enquanto Donald Trump se preocupa em saber em que equipa jogam as pessoas transgénero, os chineses transformam as suas fábricas com a ajuda da IA”.

A revista The Economist escreveu: “How America could contribute to China’s growth”, ou seja, como os EUA poderão devolver à China a sua grandeza de antes, em referência ao slogan da campanha de Donald Trump. O The Economist anotava ainda que as tarifas do presidente Trump vão esmagar os seus rivais ocidentais, dando o domínio aos chineses dos mercados da viatura eléctrica e drones.

O New York Times, por seu lado, sublinhava que a empresa Huawei instalou 100.000 locais de recarga rápida para os veículos eléctricos chineses, em 2024, enquanto os EUA apenas conseguiram instalar 214 novos, no mesmo período, com 7,5 mil milhões de dólares.

Muitos outros órgãos de informação, em todo o mundo, se referem às tarifas Trump, apontando para uma recessão económica profunda, se não houver recuos.

Até a Directora Geral do FMI, Kristalina Georgieva, demonstrou preocupação em relação às “tarifas de reciprocidade”, falando de “riscos significativos” para a economia mundial.

Mas, se alguma conclusão não abusiva se poderá retirar, com riscos embora, é que o maior importador mundial (EUA) está em perda contra o maior exportador (China), nesta luta pela hegemonia global, porque Pequim deu um salto tecnologicamente gigante, levando estudiosos como Sophie Boisseau du Rocher e Christian Lechervy a afirmarem (2025) que “as multinacionais virão para o Leste Asiático para aprender, não para ensinar ou transferir“.

De facto, em curso, está a substituição do modelo ocidental de desenvolvimento por um novo, centrado na Ásia.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Uma Europa “a sair” da história?


Por
Economista

Que saídas para esta guerra económica? Na Ásia, a comunicação social fala na recomposição de novas alianças: Coreia do Sul, Japão e China em aproximação para responder a Trump. O que se seguirá?



Os EUA e a União Europeia leram a bússola do tempo, de olhos trocados. Os EUA, apanhados de surpresa pela descolagem económica, tecnológica e diplomática da China, [finais1990/inícios 2000], resultante das reformas transformacionais, introduzidas por Deng Xiaoping, a partir de 1978, tentam mudar de rumo para não perderem o pé no xadrez da governação mundial. Assim, redireccionam e recentram poderosos meios e recursos económicos, políticos, diplomáticos e militares na Ásia, numa estratégia de enfrentamento da China. Conter os avanços de Pequim tornou-se o foco central da política externa americana.

A UE, por seu lado, não soube captar os sinais de declínio em que, a partir daí, entrou o seu relacionamento com os EUA, pelas mesmas razões que levaram à mudança do foco internacional dos interesses americanos em termos de geografia e conteúdo.

EUA versus China

1. A grande contenda EUA/China começa aqui. Na Ásia, nem tudo tem sido desfavorável aos EUA, o que significa que a China não viu a vida facilitada. Forças de um lado e do outro reorganizam-se para um combate duradouro pelo controlo do Mundo. Até que ponto a constituição e o desenvolvimento dos BRICS vieram trazer um certo conforto à China, no âmbito desta rivalidade, é uma outra matéria a merecer acompanhamento.

Esta descolagem, uma vez “descoberta”, tem atravessado as Presidências americanas, desde George W. Bush a que não se pode deixar de imputar os fracassos das guerras do Afeganistão e Iraque, mas o chamado “epicentro” asiático não deixou de perpassar as presidências de Clinton, Obama, Trump1, Joe Biden e agora Trump2. Os ritmos é que variaram, segundo a personalidade dos presidentes e seus assessores, mas o foco da guerra à China mantém-se vivo.

A Europa sai do mapa americano

2. Neste contexto, a Europa perdeu para os EUA o interesse estratégico que detinha na Segunda Guerra Mundial e no período da guerra fria. A Europa perdeu espaço nos planos das Presidências americanas, pois nada de novo acrescenta aos desígnios dos EUA no mundo.

A Europa não apreendeu, durante muito tempo, esta alteração da realidade. Não se ajustou a estas novas ambições de confronto. Ficou parada no tempo, sob domínios importantes, com realce para a esfera da defesa.

Foi continuando a construir e mal a sua economia, fazendo “umas flores”, aqui e ali, nas COP com o “plano verde europeu”, hoje, em vias de abandono, rejeitado pela maioria dos países membros, designadamente devido a metas irrealistas e, não indo ao fundo dos problemas, como na energia, em que deixou enredar-se pela Alemanha, está a pagar essa visão errada, com o afundamento de sectores económicos-base como as indústrias químicas e metalúrgicas e agora o automóvel, arrastando a União Europeia no seu todo para o abismo.

A Europa falhou. Não soube definir os seus fundamentos económicos e, neste momento, com um radical na governação do outro lado do Atlântico, enfrenta um futuro muito incerto porque a mudança de foco para a Ásia tornou-se mais brusca, desferindo um corte radical nas relações transatlânticas e grandes incertezas/turbulências na economia mundial provocadas pelas taxas aduaneiras e eventual não pagamento de títulos do tesouro americanos na mão de estrangeiros, visando sobretudo a China … mas a que a Europa não sairá ilesa.

A desorientação na UE aprofunda-se e surgem os delírios sem nexo, como o de rearmar a Europa para se defender de quê…? Certamente “de tropas russas” nas ruas de Londres! É o máximo do ridículo e do desconhecimento da História. A Rússia nunca invadiu a Europa, sendo aquela várias vezes invadida.

Uma Europa 2.0?

3. A União Europeia deixou de ter o pé em terra. Cimeiras, mais cimeiras, a reboque de Macron e Starmer, com os dirigentes máximos europeus, presentes, mas em situação de marginalidade, ao lado de um secretário-geral da NATO, um cargo que ninguém sabe o que vale, pessoa pouco credível, pelo menos, para Portugal, embora os políticos portugueses, de fraca memória, já tenham esquecido o palavreado ofensivo de Mark Rutte, para com o nosso País.

Até parece que caminhamos para uma Europa 2.0, alargada a recém-saídos (Reino Unido) e a potenciais novos membros tipo Canadá. Será a “Europa do Rearmamento”? Estas cimeiras “de coligação de voluntários” andam a discutir incongruências e inconsequências, “sem pés, nem cabeça”, só para se manterem em palco. Meras encenações perigosas. Que forças querem construir, forças de intermediação de quê?! Ainda não estão negociados acordos de paz e, quando aí se chegar, serão as forças de paz compostas por forças militares não neutras?!

Forças de paz só com intervenção da ONU. Acho que pelos corredores das diversas instituições internacionais, deverá haver muito comentário e sorrisos sarcásticos sobre o pretenso frenesim que percorre os dirigentes europeus. O próprio Zelensky anda à deriva, mas não pode voltar as costas aos europeus. A sua participação neste desarrazoado de Cimeiras não contribui positivamente para as negociações em que a Ucrânia é chamada a participar.

Acentua-se o fosso entre os Estados-membros da UE

4. A divisão entre os países-membros da União Europeia (UE) está a aprofundar-se em todo este processo, minando o ambiente já de si pouco conforme, até porque, para algumas das cimeiras, nem todos os países foram convidados, apenas “os amigos” de Macron e Starmer.

Na realidade, assiste-se a países com posições de extrema-direita, próximas das correntes trumpistas e em cumplicidade com Musk, caso Meloni, primeira-ministra de Itália, apostados numa postura de negociação e um outro grupo bem maioritário que admite avançar para o armamento, a posição oficial da Comissão europeia e do Conselho para o qual Ursula von der Leyen desencantou uns 800.000 milhões de euros, sem identificar onde os vai arranjar, sem qualquer programação.

Mas, neste segundo grupo, há muitas visões sobre as percentagens do PIB nas despesas com a defesa. Há os que se vangloriam (poucos) com a sua aproximação dos 5% exigidos por Trump, mas um grande número de países-membros não vai por aí. Países como a Áustria, Irlanda, Malta, Espanha, Bélgica, Eslovénia, Luxemburgo e talvez Portugal não estarão dispostos a percorrer esse caminho. Onde vão desencantar tanto financiamento? Em que despesas vão cortar?

A Europa está cada vez mais isolada de Trump e Putin, do centro das decisões, também pelas posições que tomou e estas cimeiras só ampliam a marginalização. O caminho de negociações a três, separados, será muito em ziguezague. A UE vai ser chamada, em alguma fase, nem que seja para colocar uma assinatura!

Só espero que as negociações não se arrastem tempo em demasia, embora as perspectivas não se apresentem risonhas, nomeadamente porque as “decisões erráticas” da presidência Trump, sobretudo no campo da economia, estão a prosseguir, podendo arrastar uma crise profunda, a nível mundial. Que saídas para esta guerra económica, pois é de uma guerra real que se trata.

Na Ásia, a comunicação social fala na recomposição de novas alianças: Coreia do Sul, Japão e China em aproximação para responder a Trump? A acontecer, algo que envolverá muita imprevisibilidade. Mas talvez seja um caminho a explorar pela diplomacia.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Para que a memória não se apague


A avaliar pelas primeiras conclusões, talvez se possa dizer que se tratou de dinheiro perdido nessa pressuposta investigação sobre a pobreza regional. Com que então "onde há muito turismo há mais pobreza"! Esta uma conclusão sumária do padre Agostinho Jardim Moreira, vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza e responsável por um estudo realizado na Região, para perceber as razões mais substantivas dos quase 30% de pobres na Madeira. Segundo li esta manhã, "(...) foram 21 meses de trabalho intenso para que este ambicioso estudo pudesse aplicar os instrumentos de investigação previstos e devolver à sociedade e aos parceiros da RAM um melhor conhecimento sobre a pobreza neste território". Intenso trabalho, sublinho!



Ora bem, não era necessário um estudo externo sobre este drama. Bastaria que os governantes tivessem memória, fossem verdadeiros, deixassem a hipocrisia política e utilizassem os meios ao seu dispor para acompanhar, estudar e desenvolver políticas estruturantes de combate a este flagelo social. Repito, tivessem memória. Infelizmente, nada retiveram ao longo do tempo.

Há quinze anos assisti a uma conferência do Doutor Alfredo Bruto da Costa (1938/2016) que esteve na Região para abordar as questões da pobreza. Anotei que, num estudo nacional, realizado entre 1995 e 2000, nesse intervalo de seis anos, o investigador tinha concluído, reparem bem, que 80% dos madeirenses tinham passado durante dois ou mais anos por uma situação de pobreza; que 30% viviam em pobreza regular, dos quais 15% em pobreza persistente. Sublinhou, então, que a "armadilha da pobreza era a armadilha das desigualdades" e que "(...) tudo o que fosse combate à pobreza mantendo o padrão da desigualdade" não tinha sentido, pois apenas mantinha tranquila uma parte da consciência política. Disse mais: que não se pode cair no círculo vicioso de que "os pobres são pobres porque são pobres", antes "os pobres são pobres porque os ricos são ricos". O investigador que, para além de notável académico foi Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, instituição ligada à Igreja Católica, teve a resposta do PSD, enxovalhando-o e apelidando-o de comunista, gonçalvista e de outros epítetos. 

E porquê? Porque havia que manter a ilusão da prosperidade da "obra pública" como se a negação da pobreza pudesse ser medida em função das toneladas de cimento ou pelo número de viaturas em circulação. Tenho presente, na Assembleia Legislativa, as palavras de um secretário dos Assuntos sociais: que a pobreza na Madeira rondaria os 4%, mais tarde corrigida pelo presidente do governo de então para um valor entre os 8 e os 10%. O secretário chegou a enaltecer que a Madeira tinha menos pobres que a Suécia (9%). Espantoso, não é?

Depois, também tenho presente, a luta do Dr. Bernardo Martins, no plenário e em sede de Comissão dos Assuntos Sociais da Assembleia, em Julho de 2011, através da apresentação de um Projecto de Resolução, que estipulava o ano 2012 como o Ano Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social. Esse projecto foi chumbado pelo PSD, da mesma forma que, durante anos, o governo, através dos seus deputados, tudo fez para bloquear a criação do Banco Alimentar Contra a Fome (propostas do PCP e do PS). Eu conheço a trama porque, juntamente com o Dr. Bernardo Martins, tive uma reunião, em Lisboa, com a Drª Isabel Jonet, Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares. Inclusive, Bernardo Martins, face à intransigência do governo da Madeira, já em 2010 tinha proposto um estudo sobre a realidade da pobreza na Madeira. Em vão, infelizmente. E também tenho presente que o ex-Presidente do Conselho Directivo do Centro de Segurança Social da Madeira, Dr. Roque Martins, foi demitido por ter dito a verdade factual sobre a pobreza na Região. 

O estudo agora apresentado surge, assim, com muitos anos de atraso e sejam quais forem as conclusões e as propostas daí resultantes, tenho por certo que a hipocrisia política perdurará mais algum tempo. O governo não me parece que seja portador de uma ideia estruturante nas várias áreas e domínios. Há uma mentalidade que subsiste. Ainda em Outubro de 2023, a actual presidente da Câmara do Funchal, Drª Cristina Pedra, este é um mero exemplo, recusou a existência de pobreza extrema na Madeira dizendo que o País e a Madeira, "estão bem longe da tristeza que é a falta de rendimento" (...) na Madeira não é preciso roubar para comer" (...) porque "há uma rede integrada de associações e entidades" que garantem refeições em lugares condignos. (Dnotícias, página 13, 21.10.2023).

Com aquelas declarações, a Drª Cristina Pedra clarificou o seu posicionamento que constitui o pensamento vigente: desde que haja uma rede que, digo eu, esconda a pobreza extrema ou não, desde que se disponibilizem uns apoios financeiros, desde que o associativismo possibilite umas salas, mesas, cadeiras e umas refeições, tudo com dignidade, o drama da pobreza fica resolvido ou atenuado e a consciência política tranquilizada. Ora, em circunstância alguma, devemos adoçar as asperezas da vida e a dignidade do ser humano. As questões sociais devem ser encaradas com a máxima frontalidade e de forma nua e crua. E nunca foram.

"(...) Não é de migalhas que os excluídos precisam. A esmagadora maioria precisa de um pensamento económico estruturado que torne mais igual o que é estruturalmente assimétrico e dependente; a esmagadora maioria dos pobres não precisa quem lhes venham dizer que "têm de tomar a cana em suas mãos e pescar", quando o pensamento político rouba-lhes as canas, as linhas, os anzóis e o próprio isco em benefício de alguns que conhecem bem os corporativismos, os subtis "monopólios", as "fortunas mal explicadas", os interesses partidários e, sobretudo, as teias e os labirintos dos vários poderes; a esmagadora maioria precisa de uma escola para a vida e não de uma escola que, sorrateiramente, promova a triagem fazendo-os desistir; a esmagadora maioria precisa de salários decentes que evitem a rua, a mão estendida à caridade (palavra que me irrita), a vergonha e o assistencialismo que cresce à vista desarmada; a esmagadora maioria precisa de uma cultura e mentalidade que a escola e a família não disponibilizam; a esmagadora maioria necessita de políticos que não olhem para a eleição seguinte, mas para a geração seguinte". - in blogue, da minha responsabilidade: www.comqueentao.blogspot.com (21.10.2023).


Respeito e muita consideração nutro pelas mais diversas instituições que combatem a pobreza, de dia e de noite, respeito o notável trabalho das paróquias que matam a fome e esbatem casos muito sérios de carências várias, mas entendo também que não é pela via do penso rápido da "caridade" que os problemas se resolvem. É pela via política, com deliberações que "dêem o peixe mas também a cana", em simultâneo, como salientou o Professor Alfredo Bruto da Costa. A "caridade" deve ser o fim da linha, o ataque às margens, para quem mergulhou tão fundo que experimenta dificuldades em se erguer. A caridade não resolve, a prazo, problema algum, apenas se destina a esbater os erros dos políticos. 

Disse Amartya Sen, Nobel da Economia em 1998: "Um Homem com fome não é um Homem livre". Será que interessam as múltiplas fomes?

Ilustração: Google Imagens/Dnoticias

sexta-feira, 28 de março de 2025

A Gronelândia, quem diria, em tamanha animação com Trump!


Por

O problema de fundo é mesmo uma questão de geopolítica. Para Trump tudo se resolve mercantilizando. Compra-se, vende-se. Parece que o sucesso não vai bater-lhe à porta, pois não há vendedor.



Terras raras e geoestratégia

Donald Trump, logo após os resultados eleitorais, antes ainda da posse em Janeiro de 2025, torna pública a posição que assumira durante a sua primeira Presidência, em 2019, manifestando de novo a vontade de comprar a Gronelândia, uma ilha do Ártico, a maior do Mundo, com uma dimensão equivalente a quatro Franças e, uma população residente à volta de 56 000 pessoas. E avança com a “fanfarronice”, que lhe é típica e que, em bom português, se traduz por: “se não for a bem, vai a mal”.

Esta declaração, que já repetiu várias vezes, descarregou, em Copenhaga, a capital da Dinamarca e em Nuuk, a da Gronelândia, uma enorme repulsa, tendo o então líder político da Ilha, Mute Egede, reagido da seguinte forma: “A Gronelândia é nossa. Não estamos à venda e nunca estaremos.”

Recentemente, a 11 de Março, houve eleições na Ilha. Quem as ganhou foi o partido da oposição de centro-direita, que conta conduzir o território no caminho da independência, de forma calma e suave. O segundo partido, mais votado, tem uma posição relativamente alinhada nesta matéria, pelo que é natural entenderem-se para a constituição dum novo governo. A coligação partidária de Mute Agede (ecologista e social-democrata) saiu do governo e ocupa agora a terceira e quarta posição no Parlamento.

Mais pormenor menos pormenor, a independência constituiu tema importante nestas eleições na maior Ilha do Mundo, território autónomo do Reino da Dinamarca desde 1979, saída da União Europeia, muito antes do Brexit, por opção própria em 1985, após três anos de enfadonhas negociações. Se um território destes, com uma economia tão diminuta, levou três anos para resolver a sua situação com a União Europeia, difícil será imaginar o cabo dos trabalhos de um Brexit ou de um outro qualquer país que, porventura, venha a atravessar-se no caminho, apesar da “vaga de desburocratização”, recentemente prometida pela presidente da Comissão.

O modelo de desenvolvimento futuro

O que divide, efectivamente, a Gronelândia é o modelo de desenvolvimento futuro, no âmbito de uma independência. Tamanhos parecem ser os recursos naturais, dos minerais ao petróleo, à pesca, à agricultura (embora de potencialidades reduzidas) e até mesmo a natureza/turismo. Grande aparenta ser a riqueza potencial, mas não se vislumbra por ali um largo entendimento quanto às formas de a materializar. E, segundo um estudo de opinião, a exploração de minérios ainda passaria, mas nunca a exploração de urânio que lhe está associada.

Terras raras e petróleo existem. Talvez não na quantidade que se pensa. Alguns analistas interrogam-se sobre o porquê de tanto interesse dos EUA, da Europa e da China nas terras raras da Gronelândia, para não enveredarem por locais mais seguros como Brasil, Canadá, os próprios EUA ou ainda países de África, onde as reservas identificadas são maiores e de melhor acessibilidade. Até porque na Gronelândia, a exploração destes recursos não é pacífica, sobretudo no tocante aos efeitos ambientais, dadas as características do território.

Não são ainda conhecidos os efeitos da exploração dos minérios nos glaciares. Há quem aponte para cenários muito complexos e imprevisíveis no Oceano Atlântico e mares do Ártico.

Apesar destas incertezas todas, a animação e ambição pelas terras raras da Gronelândia fervem por muitos lados, por razões bem diferentes. No caso da China, para manter o seu domínio mundial. Nos restantes e, designadamente EUA e UE, para “cortar” o cordão umbilical de sua dependência da China.

Na realidade, como se viu no artigo anterior, a China tem uma posição dominante, a nível mundial, sobretudo de natureza tecnológica, (mineração, refinação e transformação), difícil de igualar e tem vindo a sedimentar terreno no tratamento que confere aos países produtores de terras raras, porque se relaciona com eles em termos cordatos, de satisfação para as duas partes e não numa óptica de exploração tipo colonial.

Em 2024, o governo da Gronelândia estabeleceu uma estrutura regulatória “exigente” para a mineração, com padrões ambientais de tipo ocidental, sujeitando os investimentos a estas regras. O estabelecimento destas normas veio trazer dificuldades sobretudo à China, não na qualidade dos projectos, mas nos apêndices burocráticos. Com tudo isto, beneficia sobretudo a União Europeia, o que também é natural, dada a Gronelândia ser um território autónomo da Dinamarca, país da UE.

Mas, uma linha perpassa a grande maioria da população, a defesa do ambiente, e uma grande consciência de que, apesar dos avanços nas tecnologias da mineração das terras raras, um elevado grau de poluição persiste na sua exploração e, dadas todas as pressões, quer dos EUA, quer da Europa para afastar a China (apesar de deter a tecnologia mais avançada) permanece relutância da população por esta linha de desenvolvimento. Contudo, tem havido umas experiências aqui e ali e estão identificadas duas zonas onde se localizam as maiores reservas da Ilha.

As pescas e o turismo

Tem ganho algum peso um outro modelo de desenvolvimento assente nas pescas, turismo e na agricultura embora reduzida, devido às condições climáticas. Assinale-se que as exportações da Gronelândia são fortemente tributárias da pesca que representam 90% e contribuem para 25% do PIB da Ilha, que soma um pouco mais de 2 mil milhões de dólares.

A posição geoestratégica

Donald Trump entende que a Gronelândia é fundamental à segurança dos EUA que já dispõe de uma base militar na Ilha. Por outro lado, a rota pelo mar do Norte já está livre de gelo durante 10 meses/ano e com uma previsão de 100% a 25 anos.

A China tem cobiçado esta rota, associando-a à sua nova rota da seda. Aqui reside o grande problema. Primeiro, a China nem é um país do Ártico e, segundo, há uma grande vontade dos EUA e também da Europa de afastar a China para bem longe.

O problema de fundo é mesmo uma questão de geopolítica, de influência no futuro. Para Trump tudo se resolve mercantilizando. Compra-se, vende-se. Parece que o sucesso não vai bater-lhe à porta, pois não há vendedor.

O potencial sucesso de Trump começa a entrar em fase acinzentada, pelo menos, no que toca à economia mundial ou mesmo nos EUA, que até já levou a OCDE a baixar as perspectivas económicas no seu relatório intercalar de Março 2025, devido aos aumentos de constrangimentos da sua política económica nas trocas comerciais e nas incertezas dos investidores e consumidores. O relatório intercalar até contém uma simulação dos efeitos no PIB de um aumento médio das taxas aduaneiras de 10% sobre as economias e um dos países mais atingidos é os EUA (2º), só atrás do México (1º).

Tudo indica que “o sucesso” de Trump não passa pelo exibicionismo. Mas numa maior prudência e bom senso, o que nos parece, fora do seu modelo de gerir a política. Contudo, não há dúvidas. Algo de fundo está em mudança e a União Europeu, sobretudo, anda aos papéis, porque ainda não descobriu como, nem onde se posicionar.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Das Eleições: Regionais e Nacionais


Por
Henrique Sampaio
Funchal Notícias

1.Tendo em conta as duas sondagens que foram conhecidas a escassos dias do acto eleitoral, percebeu-se logo que a grande questão, a incógnita, era saber se o partido mexicano local obteria ou não maioria absoluta.



Numa terra com as características da Região, nada já constitui surpresa. A rede tentacular montada há 49 longos anos e uma sociedade marcadamente conservadora e subserviente, só ruirá quando ocorrer um cataclismo. Foi isso que sucedeu em 2013, quando, nas eleições autárquicas desse ano, o polvo laranja só resistiu em 4 das 11 câmaras municipais. Tudo porque, na sequência da aplicação do famigerado PAEF (Plano de Ajustamento Económico e Financeiro), os madeirenses e portosantenses viram as suas condições de vida e de trabalho serem fortemente degradadas. Foi, de resto, essa conjuntura que levou o auto-intitulado “único importante” a sair de cena. Consciente de que, a manter-se no poder, nas eleições desse ano de 2915, muito provavelmente, e na melhor das hipóteses, não garantiria a maioria absoluta e teria de negociar, o que como é sabido não faz parte do seu adn político caudilhista.

Entretanto, nas eleições regionais seguintes, de 2019, o maior partido da oposição, o PS, convenceu-se de que chegara a sua hora. À pressa, substituiu o então líder, Carlos Pereira, e foi buscar à autarquia funchalense, o seu messias, Paulo Cafôfo. O desfecho é por demais conhecido: não só não ganhou essas eleições como, dois anos depois, perdeu a principal autarquia local. E, de seguida, Cafôfo foi de ziguezague em ziguezague. Demitiu-se da liderança partidária e anunciou o regresso ao ensino, para, escassos meses volvidos, embarcar para o palácio das Necessidades, e daí, de novo, para a chefia do partido. Um autêntico saltimbanco.

E, se dúvidas houvesse, sobre a existência de um eventual efeito Cafôfo, os resultados das eleições de Maio passado revelaram que o mesmo já se desfizera. Daí que insistir na sua candidatura (passados dez meses) e esperar por um desfecho diferente, por uma espécie de milagre das rosas, era, como se veio a comprovar, manifestamente utópico e suicidário. Com efeito, conseguiu a proeza de ser ultrapassado pelo JPP, como 2ª força política com representação parlamentar. Repetiu-se, aliás, o que já sucedera nas referidas eleições de 2015, na ocasião com o CDS, numa candidatura protagonizada, registe-se, pelo “apparatchik” que reclama o mérito de ter sido o patrono de Paulo Cafôfo.

Devo confessar que não sei se o PS-M tem conserto (lá diz o ditado, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita). Agora, não tenho dúvidas que para ganhar credibilidade política urge romper com a clique instalada em redor da actual liderança. Ou seja, são precisos novos protagonistas, o que significa deixar de dar palco a gentinha há demasiado tempo instalada, até porque também fazem parte dos perdedores, para já não falar de personagens inenarráveis, como o ex-autarca de Água de Pena que continua como par(a)lamentar! Uma urgência que não pode esperar, na medida em que a actual liderança não dispõe de quaisquer condições políticas para conduzir os processos eleitorais que se avizinham. Tornou-se, aliás, factor de chacota. Ontem mesmo, no seu blogue (“Duas ou três coisas”), o embaixador Francisco Seixas da Costa escrevia: “O cabeça de lista do PS pela Madeira teve a sua 10ª derrota. Perder 10 vezes não é uma coisa por aí além; bem pior seria 20 vezes, não é? E assim até pode entrar no Guiness! Mas ao PS nunca ocorreu tentar outro nome? É uma ideia «fora da caixa», eu sei!, mas pensem nela!”.

Por outro lado, e ao contrário do que muita gente alega, também não me surpreendo por Miguel Albuquerque, apesar de constituído arguido, ter voltado a ganhar as eleições, ficando à beira da maioria absoluta. Para os mais distraídos ou esquecidos, recordo que, em 2010, Isaltino Morais foi condenado a dois anos de prisão por fraude fiscal e branqueamento de capitais (a célebre conta na Suíça), e, liberto da prisão, candidatou-se de novo à Câmara Municipal de Oeiras, tendo voltado a ganhar as eleições, com maioria absoluta. No entendimento da denominada vox populi, a explicação sustentar-se-á numa espécie de argumento: “rouba, mas faz”. E não deixa de ser sintomático que, tendo o líder nacional do PSD à época, Marques Mendes, lhe retirado a confiança política, o mesmo se prepare para recandidatar-se à referida autarquia, contando desta feita com o apoio do mesmo PSD.

Voltando à temática regional, não restem dúvidas de que, tal como no passado, o CDS disponibilizar-se-á para garantir as condições de estabilidade governativa, muito provavelmente com a moeda de troca já conhecida: a presidência do parlamento. Por muitas declarações solenes que faça o seu líder é esse o objectivo que o move, pouco se importando em saber se no futuro próximo o CDS desaparecerá do mapa eleitoral. E, já agora, que também não subsistam quaisquer dúvidas: um partido, como o PPD/PSD, em que, para evitar a perda do poder, todos os meios são lícitos, se o resultado eleitoral tivesse sido outro, seria, se necessário, encontrada uma solução, nem que fosse preciso afastar o actual líder, se, entretanto, falhassem as possibilidades de entendimento com outros partidos, com base na presente liderança. No plano nacional, a avaliar pela mais recente sondagem divulgada pelo semanário Expresso (edição da passada sexta-feira, dia 20 do mês em curso), as questões de natureza ética que envolvem o primeiro-ministro, Luís Montenegro poderão não ser determinantes no desfecho do resultado das eleições legislativas nacionais antecipadas de 18 de Maio próximo.
 
Umas eleições que, ao contrário das regionais, foram precipitadas pelo próprio Luís Montenegro que preferiu submeter-se a novo sufrágio, em lugar de dar explicações em sede parlamentar.

Desengane-se, porém, quem pense que a questão ética se resolve nas urnas. Quem assim procede está a ajudar a disseminar ainda mais o populismo que se foi instalando, também, entre nós.

O que, certamente, estará a deixar deveras satisfeito o novo D. Sebastião, o almirante Henrique Gouveia e Melo. Que vem sendo apresentado como uma espécie de regenerador da Pátria. E, ou muito me engano, ou mais tarde ou mais cedo, haveremos de o ver a abençoar a criação de um novo partido, tentando reeditar o que Ramalho Eanes não conseguiu com o PRD, esperançado naturalmente noutro resultado.

Em todo o caso, em nada favorecerá esse desiderato, ver pela enésima vez a gritar contra o sistema, uma figura como AJJ que personifica ele próprio esse mesmo sistema, a que, de resto, atribuiu a designação de “máfia no bom sentido”!

Num ano, em que o calendário já contemplava eleições autárquicas e presidenciais no início do próximo, impor aos portugueses uma outra ida às urnas não abona a favor da tão reclamada estabilidade governativa, até porque nada garante que o actual cenário parlamentar se venha a alterar significativamente. Montenegro e o PSD devem ter concluído que fazê-lo agora configura menos riscos eleitorais do que tal suceder no próximo ano, na sequência de uma provável rejeição do Orçamento de Estado. Entenderão que o dinheiro que foram distribuindo por diferentes sectores profissionais (professores, médicos, forças policiais, oficiais de justiça, etc.) terá um efeito favorável no eleitorado. Poderão é estar simultaneamente a desvalorizar os graves problemas, por exemplo, no acesso à saúde que prometeram solucionar em dois meses e que, longe de melhorar, se agravaram, e a bomba relógio que constitui o sector da habitação com os dramas subjacentes que comporta. Sem esquecer todo o noticiário que, como se tem constatado, irá continuar a vir a público em torno da empresa Spinumviva.

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Post-Scriptum: 
1) Esclarecimento: Em 2015, no rescaldo das eleições regionais desse ano, comuniquei ao secretário-geral do PS, António Costa, as razões que me levavam a abandonar a filiação partidária. Poderia tê-lo feito publicamente, mas remeti-me ao silêncio. A leitura que expresso no presente texto, está amadurecida há largo tempo. Se não a transmiti antes, fui apenas para não ser acusado de ter contribuído para o descalabro eleitoral de domingo passado.

2) Gaza: Israel continua impunemente a praticar em território palestiniano crimes de guerra, que configuram comportamentos próprios de um estado pária. É preciso pôr fim a esta barbárie!