quinta-feira, 17 de maio de 2012

ENTRE A AGONIA DO PODER E A SUBMISSÃO


A propósito de umas declarações do D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal: "(...) A Madeira já teve, também, nos longínquos anos de 1849/1858, um Bispo chamado Manuel Martins. Este de sobrenome Manso. Reza a História que governou o bispado madeirense no meio de graves convulsões clericais e sociais. Precisamente um quadro que, embora dissimuladamente, hoje se constata. Ora, a Região não precisa de mais um manso. Precisa de um que cante fora do coro, que desafine pelas suas tomadas de posição, que liberte o povo para a Palavra consequente, desamarrada do jogo dos interesses políticos e da subserviência resultante do subsídio, aliás, como muitos, por esse mundo fora, o têm feito e que, por isso, embora criticados pela hierarquia, são merecedores do reconhecimento e veneração públicas. É difícil, então eu não sei! Mas também sei que a esperança de que fala Dom Manuel Martins, "a todos os níveis e em todos os setores", políticos, sociais, económicos, culturais e até religiosos, constrói-se através da mudança de hábitos, da criatividade, da defesa da honestidade, da educação, da cultura, do abanar das consciências adormecidas e de chamar, educada e solenemente, nos momentos certos, os bois pelos nomes. A esperança nesta terra passa, também, por aí. Carrilhar é preciso!" 


Tudo isto cheira mal... ora se cheira!
Há duas figuras na Região que deveriam sair de cena. Por razões e âmbitos diferentes, é certo, mas que, no fundo, constituem a face e a coroa de todo este processo, pois conjugam-se, articulam-se, entendem-se e submetem-se. Uma das figuras é o presidente do governo regional da Madeira e toda a corte que lhe estende o tapete laranja. Trata-se, aliás, de uma posição que já aqui escrevi bastas vezes. Só que, todos os dias cresce o descontentamento, diariamente, tomamos conhecimento do seu absoluto descontrolo político através das desgarradas declarações e da sua incapacidade para governar esta Região a braços com crescentes dificuldades. Nas últimas 24 horas dois dados vieram provar, uma vez mais, a sua fragilidade política: por um lado, a taxa de desemprego, sempre a crescer, o seu significado na estabilidade social da Região, consequência da sucessão de erros estratégicos e de uma claríssima ausência de respostas políticas adequadas; por outro, concomitantemente, a desautorização do governo da República que mandou pagar, primeiro à banca, os calotes do governo e não às pequenas e médias empresas conforme tinha sido anunciado pelo governo regional, relativamente à primeira tranche do programa de assistência financeira à Região.  
Ora, entre outros, podem ser dois os significados a retirar desta orientação vinda de fora: por um lado, a confirmação da total perda de Autonomia. O Dr. Jardim, não sendo politicamente confiável, tem os seus créditos políticos ao nível zero, isto é, não risca nada na República, não é respeitado, pelo que, parece ser interpretado como um mero presidente de Junta, com o devido respeito que nutro pelos presidentes de junta de freguesia. E neste pressuposto, completamente de rastos, sem autonomia seja lá para o que for, porque tudo depende da saúde financeira da Região, arrasta-se pelos cantos da Região, em declarações nos adros e nas inaugurações que vão rareando, de disparate em disparate, de dedo no gatilho, aos tiros contra tudo e todos, sem a mínima noção da nula eficácia das palavras. Pelo meio, porque é presidente do PSD-Madeira, mostra-se incapaz de pôr ordem naquele seu grupo parlamentar, que até com votos de pesar e com total mau gosto, ainda ontem demonstrou a sua fragilidade. Ora, a Madeira não precisa de um político destes que a prejudica na imagem e na solução dos problemas. Deve sair de cena, porque cada dia que se passa o tormento é maior.
Por aqui, eu diria que isto ainda funciona por três motivos essenciais: porque há um tecido empresarial que continua a fazer das tripas coração, mantendo, assim, os patamares mínimos de empregabilidade; em segundo lugar, porque, felizmente, temos uma Segurança Social Nacional que paga todo o tipo de subsídios; finalmente, porque há mais instituições de solidariedade social do que freguesias a matar a fome a muita gente. Do Orçamento da Região nada de substancial para encargos dessa natureza.
A segunda figura a sair de cena, pelo seu silêncio cúmplice, deveria ser o Senhor D. António Carrilho. Li, na edição de hoje do DN, uma carta do leitor assinada por João Vieira. Sublinho o essencial a propósito do Jornal da Madeira: "(...) Senhor Bispo que pena nos mete ou melhor que dó nos mete vê-lo completamente vergado a este Poder. É nas páginas do Jornal, é ao fim de semana nos adros da Igreja… Tenha por favor um pingo de decência em nome da Igreja a que todos pertencemos. Não consegue fazer frente e defender a Igreja? Demita-se! (...)".
Ora, eu também lamento, porque a Madeira Católica precisava de um abanão através da PALAVRA. Apenas através da Palavra contextualizada. Foi, por isso, que em tempos escrevi: "(...) cada dia que se passa começa a ser sufocante a atitude de uma Igreja, virada para si própria e, por isso mesmo, muito pouco libertadora. Quando aqui chegou, lembro-me, com um sorriso de orelha a orelha, a almoçar no Café Apolo. Simbolicamente, aquela atitude significou, para mim, um Homem da Igreja junto do seu Povo, um passo na abertura, um rompimento com o ar por vezes bafiento da sacristia e com as fronteiras impostas, um Bispo atento, pouco ralado com os políticos mas obstinado com os dramas sociais e, por isso mesmo, junto da comunidade dos pastores que servem a Igreja. Ingenuidade da minha parte (....)". Lembro-me, também, nessa altura, ter escrito um artigo de opinião, no DN-Madeira, onde, metaforicamente, dizia: "Carrilhar, é preciso!".
Nesse artigo de opinião, Senhor D. António Carrilho, a páginas tantas, desenvolvi, a propósito de umas declarações do D. Manuel Martins, Bispo Emérito de Setúbal: "(...) A Madeira já teve, também, nos longínquos anos de 1849/1858, um Bispo chamado Manuel Martins. Este de sobrenome Manso. Reza a História que governou o bispado madeirense no meio de graves convulsões clericais e sociais. Precisamente um quadro que, embora dissimuladamente, hoje se constata. Ora, a Região não precisa de mais um manso. Precisa de um que cante fora do coro, que desafine pelas suas tomadas de posição, que liberte o povo para a Palavra consequente desamarrada do jogo dos interesses políticos e da subserviência resultante do subsídio, aliás, como muitos, por esse mundo fora, o têm feito e que, por isso, embora criticados pela hierarquia, são merecedores do reconhecimento e veneração públicas. É difícil, então eu não sei! Mas também sei que a esperança de que fala Dom Manuel Martins, "a todos os níveis e em todos os setores", políticos, sociais, económicos, culturais e até religiosos, constrói-se através da mudança de hábitos, da criatividade, da defesa da honestidade, da educação, da cultura, do abanar das consciências adormecidas e de chamar, educada e solenemente, nos momentos certos, os bois pelos nomes. A esperança nesta terra passa, também, por aí. Carrilhar é preciso!.
O tempo e no Templo, salvo meritórias exceções, já não há quem aguente a lengalenga, o repetitivo, a ausência de coragem para tocar nas feridas sociais, a incapacidade para, delicadamente mas sem rodeios, meter o dedo onde sangra, fazendo sentir que há muito por fazer e que esta sociedade pobre tem o direito ao amor, à educação, à saúde, ao trabalho e ao bem-estar físico, psíquico e social. Repito, por isso, "carrilhar é preciso" ou, então, em alternativa, o pedido de transferência para outros espaços de intervenção da Igreja. Lamento ter de o dizer.
Ilustração: Google Imagens.

3 comentários:

António Trancoso disse...

Caro André Escórcio
No tempo do Apolo, Sua Eminência Reverendíssima,Príncipe da Igreja,Pastor do Povo de Deus, ainda não tinha colocado os tampões.subsídios nos Consagrados ouvidos...
Porventura, acha que ouvirá as suas sensatas e urgentes palavras?!...

Anónimo disse...

Senhor Professor,
Dom Carrilho é Bispo da Igreja, Dom Carrilho é parecido com um Bispo de Roma, mas com quem Dom Carrilho não pode reclamar lembrança é com um Bispo do Povo!
Os Bispos da Igreja e de Roma são guardiães caninos do catolicismo, os Bispos do Povo, fiéis Apóstolos do Cristianismo; os primeiros velam pela instituição, os segundos pelo sentimento.
Dom Carrilho é um Tridentino. Faz parte da vasta côrte de funcionários católicos cujo labor obscurantista predestinou as Nações e os Povos submetidos - a um secular infortúnio!
Cumprimentos.
Vico D´Aubignac

João André Escórcio disse...

Obrigado pelos vossos comentários.
Lamento o conservadorismo de Dom António, a submissão e não o comportamento por uma Igreja cuja Palavra constituisse motivo, tal como salientei, para a promoção do amor, da solidariedade, da fraternidade, da educação, da saúde, do trabalho e do bem-estar físico, psíquico e social. Isto é, uma Igreja que soubesse colocar o poder em sentido.
Desejo-vos um bom fim de semana.