sexta-feira, 18 de maio de 2012

A POBREZA E A HIPOCRISIA DO GOVERNO REGIONAL


Tudo isto para dizer quanto repudio a hipocrisia. A hipocrisia de só agora, porque a situação é muito grave, porque há sérios relatos de fome, de crianças e idosos em extrema dificuldade, de muitos milhares de desempregados que já não têm direito ao respetivo subsídio, com uma distinta lata política, concretamente, o Secretário dos Assuntos Sociais sublinhar, "que esse plano vem ao encontro do que foram as propostas do PSD, mesmo antes das eleições." A hipocrisia de assumir que a disponibilização de um milhão e meio de euros "vem ao encontro das propostas do PSD, mesmo antes das eleições", quando, na verdade, desde o secretário ao grupo parlamentar sempre conjugaram o verbo esconder (a pobreza) em todos os tempos e modos. A pobreza e a exclusão têm uma história de muitos anos, ganhou espaço por intencional incúria de quem governou.


 
Revolta-me a hipocrisia, a falta de vergonha na cara, a capacidade de alguns aldrabarem o discurso político conforme as circunstâncias, a hipocrisia de não querem ver aquilo que está aos olhos de todos, revolta-me o ar sereno e meio gago com que alguns mentem. Não tem muitos anos, pois foi na última Legislatura (2007/2011) que escutei, na Assembleia Legislativa da Madeira, que a pobreza na Região rondaria os 4%. Disse-o, sem rodeios, o Secretário Regional dos Assuntos Sociais, Dr. Jardim Ramos. Uma taxa absolutamente residual, preocupante, sim, porque são seres humanos, mas de fácil controlo, disse por estas ou por outras palavras. Na altura foi motivo de repúdio por parte de todos os partidos da oposição e lembro-me, a propósito, do Dr. Bernardo Martins ter recuperado a ideia de um estudo para a avaliação dos níveis de pobreza. O PSD-M negou a constituição de uma comissão com esse objetivo, obviamente, porque havia a necessidade política de continuar a esconder a realidade. Mais, dificultaram, ao máximo, o acesso dos deputados às instituições de solidariedade social e a esmagadora maioria dos deputados faltaram a um encontro, organizado pelo Senhor Padre Francisco Conceição Caldeira (Câmara de Lobos) e no qual participou o Doutor Alfredo Bruto da Costa, um dos maiores investigadores desta área. Fiquei magoado, pelo facto do Senhor Bispo Dom António Carrilho, a propósito do Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social nunca ter recebido o Grupo Parlamentar do PS. Mas essa é outra história. Adiante. O ridículo dos 4% deu lugar, depois, a uma "correção" por parte do Presidente do Governo, que veio assumir que a pobreza rondaria os 8 a 10%. Outra hipocrisia, nova mão cheia de areia para os olhos das pessoas, quando vários estudos nacionais, certamente com protocolos de aferição diversos, situavam a pobreza entre 30 a 32% (cerca de 80.000 pessoas), com 15% no quadro da pobreza persistente. Lembro-me, na Assembleia, a luta que desenvolveram contra a presença do Banco Alimentar Contra a Fome e tenho presente, em sede de debate do Plano e Orçamento, todos os chumbos às importantes propostas de alteração orçamental no sentido da criação de condições que pudessem arrancar as pessoas do círculo vicioso da pobreza e da exclusão social. Nem uma poroposta foi aprovada. E não esqueço a vergonhosa programação das iniciativas levadas a efeito, em 2010, bem como o relatório apresentado, relativamente ao Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social.
Ora, a pobreza sempre foi tida por este governo regional como uma fatalidade dos tempos, sempre foi tendencialmente escondida, ignorada e baseada, fundamentalmente, nos apoios concedidos pela Segurança Social Nacional. Basta olhar para os sucessivos Orçamentos da Região e verificar o que lá foi inscrito no sentido do combate a esse flagelo. Zero! Em contrapartida apresentam-se sempre na comunicação social a falar de apoios como se o dinheiro partisse de uma opção regional e, portanto, do Orçamento da Madeira. Cumprimentam com o chapéu alheio e sem que um passo seja dado nesse sentiso. Que fique claro, que nem os funcionários da Segurança Social são pagos pela Região (e bem).
Tudo isto para dizer quanto repudio a hipocrisia. A hipocrisia de só agora, porque a situação é muito grave, porque há sérios relatos de fome, de crianças e idosos em extrema dificuldade, de muitos milhares de desempregados que já não têm direito ao respetivo subsídio, com uma distinta lata política, concretamente, o Secretário dos Assuntos Sociais sublinhar, "que esse plano vem ao encontro do que foram as propostas do PSD, mesmo antes das eleições, e do programa de Governo. Acrescenta que este pacote de medidas é uma forma de encarar de frente um "crescente número de famílias que precisa de apoios", sobretudo nos casos em que são afetadas crianças, idosos e desempregados." A hipocrisia de assumir que a disponibilização de um milhão e meio de euros "vem ao encontro das propostas do PSD, mesmo antes das eleições", quando, na verdade, desde o secretário ao grupo parlamentar sempre conjugaram o verbo esconder (a pobreza) em todos os tempos e modos.
A pobreza e a exclusão têm uma história de muitos anos, ganhou espaço por intencional incúria de quem governou. Um povo pobre, com lacunas no processo educativo e com limitadas competências profissionais é sempre mais fácil manobrá-lo e dele conseguir a manipulação da consciência quando estão em causa os resultados eleitorais.
Caminhamos para uma explosão social apesar dos discursos e das almofadas sociais que, felizmente, vão surgindo. Se existem 75.000 sem instrução, mais de 30% de pobres, 22.000 desempregados, se existe gente a emigrar, se constitui um facto a falência do sistema de saúde, se as pensões e reformas são baixíssimas e, ainda por cima, se roubam o subsídio de insularidade, o subsídio de férias e de Natal, aumentam o IVA o IMI, o IRS, etc., pergunto, se este Plano Regional para a Intervenção Social (PRIS) que assenta em três pilares essenciais: apoios concretos a quem deles precisa, humanização na ajuda às famílias e simplificação de todo o processo, conseguirá atenuar a revolta contra aqueles que trouxeram a população a este ponto de dependência. A hipocrisia, estou certo, será saldada com juros!
Ilustração: Google Imagens.

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