quinta-feira, 12 de junho de 2014

NÃO EXISTE POLÍTICA EDUCATIVA, SENHOR REPRESENTANTE


O Senhor Representante da República para a Madeira, Juiz Conselheiro Ireneu Barreto, manifestou-se preocupado com o nível de iliteracia no nosso país e na Região, e daí pediu a ajuda dos professores para o combate a esta situação “decisiva para o sucesso das novas gerações”. Senhor Representante, uma vez mais, errou o alvo. Não tem de pedir aos professores, mas exigir dos governantes. Nesta terra, onde representa a República (!), deveria insurgir-se contra duas figuras institucionais: primeiro, a Secretaria Regional da Educação; segundo, se quisesse ser mais incisivo, o Ministério da Educação. Os professores, Senhor Representante, têm sido peças descartáveis no processo, não são responsáveis pelo caos social, pela pobreza, pela ausência de políticas de família e pela mentalidade criada que tresanda. Os professores não são responsáveis pelos currículos e pelos programas bem como pelo excessivo número de alunos por escola e por turma. Eles não são responsáveis pelos orçamentos, pela ausência de financiamento dos projectos educativos e não podem ser responsabilizados pela existência de sistemas (educativo, económico, financeiro, social e cultural) que geram abandono e insucesso. Mais lhe digo: os professores não são responsáveis por terem deslocado o centro das preocupações educativas para o professor e não para o aluno: tome-se em consideração a pouca-vergonha da avaliação de desempenho dos docentes, a ausência de uma verdadeira autonomia nos estabelecimentos de educação e ensino e a infernal e estúpida burocracia que não serve para nada. Visite uma escola e pergunte-lhes. 


Os professores não são responsáveis pela matriz do sistema educativo que, no essencial, se perfila na Sociedade Industrial. É fácil perceber as palavras da doutorada em Educação, Rosanna Barros, quando sublinha o facto da “matriz da governação supranacional estar a funcionar” (…) “porque predomina uma agenda redutora, que tem tido a preocupação de destruir aquilo que, apesar de tudo, tem dado mostras de trazer dinâmica”. Eles, Senhor Representante, cumprem tarefas e andam apavorados. Não são responsáveis pela paranóia dos exames no 4º, 6º e 9º anos e que, pelo andar da carruagem, se estenderão às crianças do 2º ano, em detrimento de uma avaliação contínua exigente, abrangente, estruturada, séria e rigorosa. Só que isto implica uma outra Escola ou como escreveu o Catedrático Domingos Fernandes: “(…) só fará sentido pensar em melhoria do ensino e das aprendizagens se houver uma visão sofisticada, elaborada, integrada e global para a Educação”. 
O Senhor sublinhou e bem que “(...) A iliteracia não se resume à incapacidade para interpretar textos. A iliteracia abrange outras realidades, como a incapacidade para compreender o mundo político (…) ou a incapacidade de entender a sociedade em que vivemos”. Certo. Mas, o Senhor Representante, por momentos, já pensou que, por perversa que seja, essa (iliteracia) foi uma intenção política de quem governa? Que uma coisa foi colocar os meninos na escola de acordo com as responsabilidades constitucionais; investir nas infra-estruturas no quadro das preocupações inauguracionistas e eleitoralistas; outra, dar capacidade para que a Escola seja Escola, transmissora de um “conhecimento poderoso” que está muito para além do Português e da Matemática. Como salientou o Filósofo e Catedrático Fernando Savater (in Carta à Ministra), existe, Senhor Representante, um “perverso propósito de converter os jovens em dóceis robots ao serviço da omnipotência castradora do poder estabelecido”. Não encontro melhor síntese.
É por isso que, passados quase quarenta anos, os resultados globais são preocupantes, embora, por paradoxal que pareça, tenhamos a geração mais bem preparada de sempre. E esse mérito, há que não esquecê-lo, fica a se dever aos professores. Sabe, Senhor Representante, Paulo Freire acertou na mouche quando disse que “a Educação sozinha não transforma a sociedade, mas sem educação a sociedade não muda”. Ora, é disto que estamos a falar, da não existência de “educação transformadora” porque os governos não querem. A transformação não se dá por culpa, desleixo ou ineficácia dos professores. O estado da Educação é consequência de uma outra iliteracia que transborda do ministério e deste governo regional. Há uma incultura em estado puro tal como sublinhou, por outras palavras, o Professor Sérgio Niza, figura inspiradora da pedagogia: “O ministério da Educação é de uma ignorância que faz medo”. Imagine, Senhor Representante, o governo regional que, por norma, apenas adapta o que é ditado pelo ministro! Fixe isto: só na aparência os professores gozam de autonomia, porque tudo ou quase tudo está centralizado e tudo ou quase tudo é mitigado. De resto, se a iliteracia pior não é, tal deve-se ao facto de milhares de professores, sofrendo, andarem anos com a casa às costas, manifestarem uma infinita tolerância quando são roubados, no salário e na progressão da carreira, e, ainda assim, manterem uma suprema paixão pelo acto de ensinar.
Ilustração: Google Imagens.

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