sábado, 29 de agosto de 2015

ENCONTRO DAS COMUNIDADES MADEIRENSES


Não concedo o benefício da dúvida, tantas foram as promessas ao longo de quarenta anos. Os emigrantes têm dado jeito para deles se falar, para reunir e manter uma agenda de preocupações, todavia, por aí ficam as boas intenções e as palavras circunstancialmente ditas. Aliás, pergunto, quantos congressos foram realizados, quantas actas escritas e rubricadas, quantas visitas o presidente do governo da Madeira empreendeu às comunidades (até para se despedir...), quantos jantares e discursos foram realizados com mil e uma promessas, quantos secretários andaram pelas comunidades visitando clubes, associações de caridade, academias, paróquias e participando em festas populares? Resultado? Zero respostas aos problemas. À luz da História, do meu ponto de vista, este encontro realizado no Funchal, surge desenquadrado de uma política. Primeiro, deveria ser conhecida, assumida e divulgada a política deste governo para os madeirenses emigrados; depois, a definição de uma calendarização de acções onde, encontros deste tipo se justificam.  


Depois de 40 anos do mesmo partido político a governar a Madeira, onde tantas audições foram realizadas, vem o actual presidente do governo dizer que "(...) este encontro visa, em primeiro lugar, vos ouvir" (...) porque é importante "ouvir as vossas opiniões e sobretudo as vossas sugestões no que diz respeito ao futuro da Região e a sua relação com as nossas comunidades". E o secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus não ficou atrás, garantindo "a política do Governo para as comunidades será definida em função do resultado das conclusões do encontro e dos próximos eventos" (DN-Madeira, edição de hoje). Pergunto, e todos os dossiês que estão para trás? Valem zero? Esta é a realidade, tudo o resto são palavras de circunstância.
E se assim escrevo é, também, por algum conhecimento. Em missão política tive a oportunidade de visitar a Venezuela (duas vezes) e a África do Sul. Em uma das visitas  à Venezuela acompanhei o Dr. Mota Torres, ao tempo presidente do Partido Socialista. Visitámos, entre outras cidades, Caracas, Maracay e Valência. Que viagem essa tão importante e tão sentida que foi. Fizemos a habitual ronda institucional, mas sobretudo procurámos integrarmo-nos na realidade dos emigrantes através de Joel Mendonça, um bem sucedido empresário natural da Ribeira Brava. Estivemos com o embaixador, com o Cônsul (auscultando preocupações) e com candidatos à Presidência da República (em defesa da comunidade), no acto ganho por Hugo Chaves. Numa segunda visita vivi o drama de Vargas (ao Senhor Padre Alexandre Mendonça, em nome do Grupo Parlamentar do PS, entreguei a ajuda de três mil contos), estive com autarcas nascidos na Madeira, ouvi a angústia dos professores na sua luta pelo ensino do Português, a quem faltavam livros e materiais. Em ambos os países almocei e jantei com figuras da cultura e do associativismo que reclamavam um simples apoio, por exemplo, ao nível da formação técnica do folclore madeirense e escutei a aflição e o medo constante dos empresários. No regresso dessas viagens elaborei relatórios, fi-los chegar a quem tinha o dever político de accionar as preocupações enunciadas. Tive uma longa reunião com o Secretário de Estado das Comunidades, o qual, depois de ler um dos relatórios disse-me: "o que aqui está escrito é carninha do lombo". Significava isto que o designado trabalho de casa tinha sido feito. Fiz-lhe ver que, na África do Sul, tinha proferido um discurso na Casa da Madeira de Joanesburgo, no Dia da Região, 01 de Julho, com mais de trezentas pessoas, e que nos tínhamos comprometido em levar aos governos da Região e da República os seus anseios. Significava isto: mexa-se! Pedi livros às escolas e aos professores que recebem, todos os anos, exemplares de manuais. Enchi dois grandes caixotes, com os volumes para cada entidade que ensinava o português e o PS-M fê-los chegar àqueles dois países através da "mala diplomática". Do governo regional: zero!
Durante quase dois anos, semanalmente, julgo que à Quinta-feira, gravei uma crónica entre dez e quinze minutos, para o programa "Café da Noite", o programa dirigido pelo emigrante madeirense José Luís Silva e que era o de maior audiência entre os emigrantes de toda a África do Sul. De que valeu? questiono-me, hoje. Apenas a minha consciência e a do Dr. Mota Torres estão com o sentimento do dever cumprido. Aliás, os emigrantes sabem que não contam com nada nem para nada. Da Madeira, nos últimos anos, apenas vi o aproveitamento de uma iniciativa nacional designada por "Portugal no Coração". Os emigrantes idosos, mal desembarcavam no aeroporto eram motivo de comunicação social em um claro aproveitamento político, pago pela República. A grande obra, conjugada com a República, junto dos emigrantes, essa ficou toda por fazer. E digo mais: que vozes se levantaram contra a violência traduzida em mortes e contra a situação de centenas ou milhares de emigrantes madeirenses pobres que vivem da caridade das instituições? Que iniciativas estratégicas foram implementadas para atrair investimento na Região? Que acções de colaboração foram desenvolvidas ao nível da nossa cultura, indo ao encontro das segundas e terceiras gerações? Zero.
Fico por aqui porque me invade um sentimento de tristeza face a tanto folclore realizado (encontros e congressos) mas sem um fio condutor e uma consequência visível. E conto-vos uma brevíssima história que espelha o abandono. Estávamos em Valência onde fomos recebidos no Centro Social Madeirense. À hora de almoço esperava-nos toda a direcção. Vieram os discursos e à despedida, um dos directores olhou-nos e disse de forma amiga mas directa: "não façam como muitos que aqui vêm mamar um almocinho e depois nada feito"! 
Eu apenas conheço dois países de emigração. E os outros? Ao final de 40 anos vêm falar que agora é que é? Folclore, apenas folclore político. Treta.
Ilustração: Google Imagens.

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