quarta-feira, 8 de abril de 2020

Isto não é uma guerra


Por
Daniel Oliveira
Expresso - 08.04.2020

Passeando a minha cadela pelo centro de Lisboa, onde vivo, subindo e descendo as avenidas desertas, partilhando com todo o mundo a mesma insuportável solidão, vendo gente de máscara, reunindo-me com familiares por skype e olhando para os números estratosféricos da tragédia social que se adivinha, entro num dos muitos filmes distópicos que vi. Pressinto, pressentimos quase todos, a grandeza fundadora deste momento.

Ele será recordado como o momento em que muitas coisas mudaram. De pormenores do nosso quotidiano ao desenvolvimento tecnológico das empresas, da vigilância social ao peso do Estado, dos serviços de saúde aos poderes da polícia, da política à economia, da cultura às relações sociais. Uma experiência como esta – mais de 3,3 mil milhões de humanos enfiados em casa durante semanas – seguida de uma crise económica de dimensões que ainda mal conseguimos adivinhar, marca mesmo a História. Provoca ruturas.
É por pressentimos a grandeza fundadora deste momento que devemos ser cuidadosos com as verdades que fundamos quando o nomeamos. Ainda mais quando nos domina o medo, adubo poderoso de todas as tragédias. Isto não é uma “guerra”. Muitos estiveram dispostos a morrer contra o ódio hitleriano. Aqui estamos apenas dispostos a viver, mesmo que isso implique abdicarmos de alguns valores.

E é por isso que devemos ser cuidadosos com as verdades que fundamos quando nomeamos este momento. Ainda mais quando nos domina o medo, adubo poderoso de todas as tragédias. As palavras são sempre importantes, mas em tempos de enorme incerteza, em que não conseguimos nomear o que temos pela frente, elas transformam-se na própria realidade. E uma palavra tenebrosa tem saído da boca de políticos e jornalistas: “guerra.” Tudo o resto são declinações do vocabulário bélico: linha da frente, soldados, baixas, inimigo... Até as figuras que são usadas como modelo de liderança vêm desse imaginário.

Claro que isto não é uma guerra. O inimigo não é dotado de consciência ou agenda. Ele não chegará a ser derrotado, apenas integrado. Muitos estiveram dispostos a morrer contra o ódio hitleriano. Aqui estamos apenas dispostos a viver, mesmo que isso implique abdicarmos de alguns valores.
A questão não é o rigor da palavra, é o poder da palavra. Esta metáfora tem tudo para ganhar formas sinistras. Porque a própria pandemia tem um tremendo poder metafórico. O vírus estrangeiro vence-se fechando fronteiras, isolando humanos no seu núcleo familiar, cortando todos os contactos físicos de afeto e apelando à disciplina militar de toda a sociedade que se impõe a si mesma uma férrea contenção nas suas liberdades mais íntimas. Como todas as campanhas higienistas, parece um programa político. Esta “guerra” não se vence com bravura, mas com uma contenção social autorrepressiva, onde todos nos vigiamos, recusando a aproximação e reprovando o convívio social. Não me ocorre nada mais perigoso para nos pormos com metáforas. E temo que, saído do medo coletivo e quando se avizinha uma terrível crise, surja a incurável tendência da humanidade para a tirania sempre que sente que o chão lhe foge dos pés. É por isso que a palavra “guerra” tem de ser banida. Seria trágico que fosse ela a palavra fundadora do novo tempo.
E ela não tem de ser usada. Há imagens bem mais interessantes e construtivas, que também têm estado presentes neste momento. Imagens que sublinham a interajuda entre vizinhos, os serviços públicos como elemento central da coesão social de um país, a disciplina autoimposta por solidariedade com o outro, o apoio a outros países que lidam com a pandemia. Da solidariedade humana quando a natureza nos põe em perigo.

Mas ainda mais absurdo do que falar de “guerra” é falar de “economia de guerra”. Isto é exatamente o oposto à economia de guerra. Nessa, a produção de armamento substitui o resto da capacidade produtiva e, não raras vezes, garante crescimento económico e emprego. Agora, as pessoas foram obrigadas a fecharem-se em casa e a pararem de consumir e produzir. 

Depois de uma guerra, vem a necessidade de reconstruir cidades e infraestruturas. São momentos de grande incentivo económico. Nos próximos anos, não haverá nada para reconstruir. Se a comparação com a guerra cria um pessimismo excessivo, a comparação com a economia de guerra alimenta um otimismo deslocado.
Claro que a “guerra” é apenas uma figura de estilo. Mas depois do vírus e das suas vítimas, sobrarão duas coisas: uma brutal crise económica e política e as palavras que darão sentido a este momento extraordinário. E que serão tão poderosas como as memórias pessoais. Porque são elas que moldam a memória coletiva. Pode ser a interajuda comunitária ou redescoberta de necessidade de termos um Estado com funções sociais. Ou pode ser a “guerra”. E a “guerra” calha muito bem a um vírus que reforça todos os fantasmas deste tempo: o medo do outro, a desmaterialização do afeto e o paradoxo de nos globalizarmos através do isolamento doméstico. “Fico em casa” seria o lema ideal para a heroica submissão do povo à tirania.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Utopia, ou a crise da crise


Por
06 Abril 2020

Esta Europa não serve. Não há uma aproximação mínima de interesses entre os seus pares, embora a sua máquina burocrática vá servindo os interesses de alguns poucos países. 

Os ‘coronabonds’ 

1. O primeiro desafio que se coloca aos países, no momento actual (e por quanto tempo?) é o combate ao coronavírus, sem dúvida o maior dos flagelos das últimas décadas, pós-Segunda Guerra Mundial. 
Está em causa tudo: a vida humana, o emprego, as empresas, o modo de vida de cada um, em família, em sociedade, a própria sociedade democrática e a economia em toda a linha. 
Poucos países terão capacidade para combater e sobreviver sozinhos a esta pandemia, e regressar rapidamente à situação económica em que se encontravam, dado o elevado grau de paralisação e destruição em curso das economias, nomeadamente pela via dos despedimentos, paragem e fecho de empresas. 
Até os Estados Unidos estão a receber apoio da China ou, por outras palavras, para não ferir susceptibilidades, estão a ser abastecidos pela China em equipamento e material de combate, porque não o têm e não conseguiram abastecer-se junto de outro parceiro comercial. 

2. Só a União Europeia despreza o combate a esta pandemia, ao não reunir de forma articulada na base de uma estratégia do interesse comum, os seus recursos materiais, humanos e financeiros, porque de união cada vez sobra menos… E não reúne as elevadas potencialidades por discordâncias internas de orientação no processo de combate ao vírus e no posterior reerguer das economias. 

Sempre que urge definir estratégias, posições conjuntas de actuação e mudança, a União Europeia deixa de existir. Perante situações graves e de fundo, como aconteceu com a crise 2008/2009, abrem-se as hostilidades entre os países membros quanto às soluções. A grande hostilidade do momento centra-se nos eurobonds ou, em versão mais minimizada, os coronabonds. 

Uma Europa não solidária 

3. Esta Europa não dá. De solidária nada tem.
Foi incapaz de responder a um pedido desesperado de apoio da Itália perante o seu desnorte face ao coronavírus. E havia países com condições próprias para responder e outros pelo menos simbolicamente, sendo que a União Europeia (UE) como um todo também não agiu. Um sinal gravíssimo de falta de coesão e de solidariedade. 

No momento actual, com as economias já em elevado grau de paralisação, temos como pano de fundo uma recessão económica evidente. Só não sabemos a sua profundidade. Ninguém está em condições de saber avaliar. 

Sabemos que os custos do combate à pandemia são muito elevados e os apoios à economia terão de ser pesadíssimos para que o circuito produtivo não se destrua e possibilite a cada cidadão sair da crise, em condições de retomar a sua vida num patamar próximo daquele em que estava. 
Basta olhar para os custos na manutenção dos empregos sem produção real – mas necessários, para se ter uma ideia desse montante. 
Estes custos são investimentos de manutenção do aparelho produtivo, logístico e distributivo das economias, onde a manutenção do emprego assume um papel crucial como meio de evitar a sua degradação e possibilitar a rápida entrada em funcionamento pós crise. 

4. E sabem qual é “o esboço de resposta” da UE, no momento actual? 
Dois grupos antagónicos de países com comandantes próprios a digladiar-se na arena comunitária. Um grupo a apontar para cada país ir à sua vida e tratar dos seus problemas, e o outro a apostar em eurobonds, ou mais limitadamente, em coronabonds. 

Nas situações de crise é sempre este o figurino constatado. Face a isto, o melhor lugar de reunião das diferentes instâncias comunitárias, agora não devido à quarentena, seria de facto marcarem de antemão a arena onde se digladiariam livremente. 
Esta Europa não serve. Nunca vai servir. Não há uma aproximação mínima de interesses entre os seus pares, embora a sua máquina burocrática e pesada vá servindo os interesses de alguns poucos países. 
Porque não romper com a situação? 

5. É melhor começar a pensar em separar/partir. Apontar para duas/três Europas. 
Cada vez vejo menos razão para se andar a perder tanto tempo em reuniões e a manter um aparelho dispendioso que não responde nas horas críticas. A gastar tempo e dinheiro com as burocracias de Bruxelas. 

Vamos ser claros. O que conta entre os quatro oponentes do primeiro grupo/cada um por si é a Alemanha. Embora se diga que hesita, nada disso é assim. Até a presidente da Comissão Europeia, a simpática alemã Sra. Von der Leyen, foi pouco feliz no trato à Itália de que se desculpou, para não falar no “carroceiro” ministro das Finanças holandês. Mas dos dirigentes holandeses é de esperar tudo. Há um ditado popular –“está-lhe na massa do sangue” – quando não se encontra explicação para os comportamentos de uma pessoa. As afirmações soezes contra os países do Sul dos dirigentes políticos holandeses encaixam-se bem nesse ditado. 

Tudo isto são exemplos, embora de graduação diferente. 

6. Se é verdade, como já li, que nove países podem lançar os eurobonds ou coronabonds, mesmo sem a Alemanha, porque não avançam com esse desafio? Seria um grande teste e um abanão profundo a toda a estrutura da União Europeia.
Nove países subscreveram a ideia da mutualização da dívida dos países membros através da emissão dos eurobonds. Li também que mais quatro aderiram, e atenção que três desses nove países subscritores são grandes economias da União, logo a seguir à Alemanha: França, Itália e Espanha. 

O que está em cima da mesa – os eurobonds – não é uma solução mirífica, mas é um avanço. Os eurobonds permitiriam a redução dos custos de financiamento dos Estados, mas não evitariam o aumento da dívida. Havia também que alongar o tempo de amortização das dívidas, por exemplo uns 50 anos, de forma a dar folga aos países que se vão endividar para facilmente sairmos do decréscimo de produção em que o coronavírus colocou os países. 

7. Como nada disto vai acontecer, os países que têm de fazer gastos avultadíssimos vão sair muito fragilizados do combate ao vírus e ter de caminhar sozinhos e enfrentar constrangimentos criados pelos tratados da UE. 
A receita da União Europeia a prazo é bem conhecida – a austeridade, com corte nos rendimentos das pessoas e desemprego. Os países muito empobrecidos e os de economia mais frágil, como Portugal, sairão em situação crítica. Vão ter de voltar atrás, apesar de algumas medidas positivas tomadas, para tornar a subir a escadaria até que chegue outra crise e mais uma vez sem apoio desta UE. 
Importa rejeitar esta receita prevista e procurar desde já uma alternativa. 

Porque não começar a construir uma outra União de Países Europeus, desenhada e negociada na base de uma estratégia económica com objectivos muito claros de desenvolvimento a longo prazo, acordada entre os países aderentes, com um sistema financeiro bem estruturado – onde não terão lugar vários países, como a Alemanha, que estão sempre na oposição, mas têm usado a União Europeia em proveito próprio?! 

Está na hora de pressionar a saída da União desses países que, apesar de estarem em minoria, boicotam, sistematicamente, o andamento da União Europeia em prol do seu desenvolvimento conjunto. 
Utopia… talvez, mas uma forma entre outras de romper com a situação degradante em que a União Europeia se encontra. 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

domingo, 5 de abril de 2020

E se houvesse menos Estado?


Por
Joaquim Vassalo Abreu, 
04/04/2020

Desde logo não teriamos o SNS que temos! A Saúde e o acesso aos cuidados médicos seriam assim tipo EUA: tem direito (proporcional) quem melhores seguros tem e quem não tem…pois…


Só que há aqui um pequeno pormenor que eu reputo de “pormaior”: Nenhum deles contempla Epidemias ou Pandemias! Como ficaríamos então?
Do mesmo modo quando nos queriam impôr que as nossas Reformas fossem pagas num sistema variável, uma parte indexada aos nossos descontos para a Segurança Social e outra a Fundos e coisas mais…Como estariam elas agora, seus Liberais de pacotilha?
Nos incêndios: seriam todos os Bombeiros profissionais? Quem lhes pagaria? O Estado? O Estado que dizem que falhou? Mas com eles…Mas, com “menos estado”, quem se aventuraria a atear quinhentos fogos num só dia para depois virem dizer que o “ Estado falhou”?
Agora, por exemplo: as Reformas indexadas a Fundos diversos, nesta época e noutras ocasiões de autêntico “crash” , como ficariam? 
E os subsídios de a Desemprego ou Assistência Social, seriam à Americana?
E a Saúde perante esta Pandemia? À “la” Brasileira Bolsonariana?
“Menos Estado” sempre apregoaram apelando ao Estado quando mais necessitaram…é um clássico, grandes e eméritos “ Liberais” de pacotilha…
Mas não me esqueço de 2015 quando Passos apregoava a recuperação económica, esquecendo dramaticamente a situação da Banca, cuja resolução enviou para debaixo do tapete (Novo Banco, Banif, Montepio, Caixa Geral de Depósitos), numa irresponsabilidade sem nome.
Mas fazendo o que sempre outros fizeram é verdade, deixando sempre a responsabilidade para os vindouros, esses “ filhos da mãe dos vindouros”, como arremessou furiosamente o ZÉ Mário no FMI, defendeu, em pleno debate com António Costa, um corte nas Pensões de 600 milhões nas Reformas…
Deviam corar de vergonha, mas isso é atributo que nunca possuíram esses “Liberais” de pacotilha!
Felizmente que, logo a seguir, veio alguém que tudo enfrentou mas com Estado e absoluto sentido do mesmo, e que a tudo ocorreu e conseguiu equilibrar o que para eles, esses “Liberais de pacotilha”, remédio não tinha ! Coisa que o “menos estado” nunca faria! Mas endereçaria para os mesmos de sempre o seu ónus: os Contribuintes…Mas baixando salários e pensões, a sua única imaginativa solução!
Mas há que recordar para ser justo e honesto: Mas que faria agora o “Menos Estado” perante uma situação destas, a desta Pandemia, ainda por cima “democrática” pois não escolhe entre ricos e pobres, famosos e incógnitos, crentes ou não crentes, gordos e magros, magnatas ou refugiados, do sul ou do norte…? Que faria, afinal?

Cobraria milhares de EUROS por um teste como na sua sacrossanta América, onde nem os Seguros isso asseguram? Já sei: mandá-los-iam para o Público, o do “menos Estado” que, perante falta de receitas e dotações, seria depois apelidado de ineficaz…e de falhado! “ Liberais de pacotilha, fariseus de “Trampa”.

Eu sugiro, finalmente, que os Marques Mendes, os Paulo Portas, os José Júdice, os Gomes Ferreira e todos os que se apelidam “Liberais” nesta vida, esse enorme saco de gatos onde nenhum assume ser realmente gato e antes se acham onças, formem um governo…assumam responsabilidades…dêem o peito às balas, passem da retórica à prática e façam em definitivo o exame final, aquele do qual, não tenham dúvidas, não sairão com outro título, agora já não de “Liberais de pacotilha” , mas de “ Liberais da “Trampa”! Nada de mais justo…
Mas esqueçam e ao mesmo tempo recordem: “Esta vida“, como dizia Che Guevara, “não é para moles”! Mas é para Poetas, digo eu!
Pois como escreveu PABLO NERUDA: “Entretanto trepam os homens pelo sistema solar… Ficam pegadas de sapatos na Lua… Tudo se esforça por mudar, menos os velhos sistemas… A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais… Teias de aranha mais duras que os ferros das máquinas… No entanto, há gente que acredita numa mudança, que praticou a mudança, que fez triunfar a mudança, que fez florescer a mudança… Caramba!… A Primavera é inexorável!
Sim, a Primavera é inexorável!

sábado, 4 de abril de 2020

Novos tempos: O General Ramalho Eanes e o amor puro


Um texto do Padre José Luís Rodrigues, publicado na sua página facebook e que, pela importância da sua reflexão, aqui transcrevo. Obrigado.

1. Ouvi com toda atenção a entrevista do General Ramalho Eanes na RTP1 a Fátima Campos Ferreira. Não vou comentar a estatura moral, a referência extraordinária de um dos melhores portugueses que conheço, muito menos vou atrever-me comentar tanta coisa que ele nos falou sobre o mundo, a humanidade, a Europa e o nosso país e do muito que deverá ser feito na ocasião que nós todos embevecidos almejamos, o fim da tormenta do tsunami coronavírus. Foi bem claro o apelo veemente à conversão da humanidade e o que reacende em nós a esperança de que esta não seja uma oportunidade perdida.

2. Muito bonito e comovente o seu desprendimento à vida. Reparem na dureza das palavras, caso esteja em falta algum ventilador, nós os velhos de mais de 80 anos (o General tem 85 anos) devemos dispensá-lo para alguém mais jovem que tenha filhos para criar. É duro e não tenho dúvidas que o General Ramos Eanes tomaria essa decisão. A sua história confirma esta estatura e coragem moral.

3. Porém, devemos salientar que melhor seria existirem ventiladores para o idoso e para o jovem. E eu gostava muito de ter ouvido esta denúncia do nosso prestigiado General da actualidade. Não é aceitável esta crua eutanásia, se nos lembrarmos da leviandade nos cortes públicos nos sistemas de saúde nestes vários anos que nos precederam. A tragédia maior que o Covid 19 revelou é que, mesmo entre os mais ricos, ninguém está minimamente preparado para acolher vítimas em momentos de tragédia. Serve para pensarmos e não sermos tão irresponsáveis na hora de eleger os nossos representantes políticos. O encolher de ombros e o desinteresse pela participação cívica provavelmente encontrará neste tempo de Covid 19 algum ânimo para se redimir e fazer mudar comportamentos.

4. Voltemos à entrevista. Pretendo destacar para comentar um pouco duas frases que me chamaram à atenção, dado que fazem parte da minha área de ação. Primeira, «A espiritualidade não está no local de culto, está em cada um de nós e na relação de nós com os outros». Segunda, «Cristo é amor puro, ou seja, estar com os outros em todo o lado e qualquer lado de uma maneira solidária».
5. A quarentena do Covid 19 está a ser um grande desafio para a Igreja Católica e para todos os cristãos. Obviamente, que terão que mudar imensas coisas, embora tenha dificuldade em prever quais… Esta que falou o General parece-me óbvia, só lamento ser apenas ele a dizer, a espiritualidade não está restrita ou confinada aos espaços do culto, mas em cada pessoa, quando edifica a sua vida em função da verdade e da justiça para o bem de todos.

6. O confinamento colocou a vida religiosa também em casa. Estamos a fazer jus à expressão tão cara noutros tempos «a família é a Igreja doméstica». É verdade que os cristãos precisam dos sacramentos de forma presencial, mas não esqueçamos, o nosso corpo já é o templo do Espírito Santo, nós somos o corpo de Cristo (São Paulo) Santo Agostinho dizia que cada cristão é outro Cristo. Por isso, aqui se procura dizer tudo em tão poucas palavras.

7. Toda a vida cristã tem uma Sacramentalidade que não depende dos sacramentos em si mesmos. Por isso, no templo espiritual e glória de Deus Vivo que é cada pessoa, pode ser possível a prática religiosa sem intermediários e sem que necessariamente exista um espaço predeterminado para o culto. Poderão dizer, então as igrejas edifícios não servem para nada? – Ninguém diz isso. Serve este espaço igreja edifício para ser o lugar do encontro das várias espiritualidades que cada pessoa transporta, encontro da fraternidade que nós designamos comunidade, lugar da sensibilização para a dimensão família que é a humanidade inteira e lugar da experiência da paz que cada um deve tomar como alimento para levar para a realidade concreta do seu dia adia. Não descurando a dimensão do sagrado e da (re)ligação ritual ao transcendente que a humanidade sempre procurar estabelecer desde a sua origem.
8. A outra frase é a de Cristo, que se revela ser bastante clara e tão reveladora do que é o Cristianismo. A religião cristã é a descoberta de uma pessoa Divina e Humana, Jesus Cristo, que nos mostrou o que é e como é o «amor puro», que pode estar ao alcance de todos nós, basta perceber sempre e não apenas nesta travessia do deserto chamada Covid 19, «estamos todos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho» (Papa Francisco). Ser cristão é pensar nisto, é procurar viver isto. A espiritualidade cristã, vivida por cada um ou na comunidade reunião, se não desperta esta luz, perdeu o rumo e não está centrada no essencial, que é o Evangelho do Cristo de «amor puro». JLR

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Eu conheço um País..."


Não é que me tire do sério, mas irrita-me. Quando oiço, o que é recorrente, sobretudo no discurso político, "este país" ou o "rectângulo", confesso que tais verbalizações me deixam com alguma brotoeja pelos evidentes sinais de desconsideração e aviltamento. Porque este, para o bem e para o mal, é o nosso país e quanto ao "rectângulo", todos os outros têm configurações mais ou menos geométricas, facto que me leva a pensar que subsiste um sentido extremamente depreciativo  e provocador quando alguém por aí escreve ou fala.


Todos os países, sem excepção, têm as suas potencialidades a par de muitas fragilidades. Olhe-se para os Estados Unidos, com todo o seu poder, como navega nas águas turvas e agitadas no combate à epidemia. Em contraponto, olhemos para a nossa diáspora e tenhamos presente quantos homens e mulheres foram capazes de construir o sucesso em vários sectores de actividade; para o largo conjunto de jovens cientistas espalhados por centros de investigação de topo; olhemos para as artes em geral e para o desporto, em particular, e que orgulho sentimos ao constatarmos o valor dos desempenhos. Mas olhemos, ainda, para toda a nossa História de quase 900 anos, sobre o que fomos e o que fizemos. Ou então, em 45 anos de democracia, a transformação que operámos no país. Sempre bem? Não. Muitas vezes de forma desesperantemente criticável. Por aqui tempos houve de espezinhamento, obviamente que sim. É a nossa História e que deve ser conhecida. Sem pedras no sapato, sem a sensação do coitadinho, nem como arma de arremesso. O país que somos não merece tais epítetos, nem as regiões autónomas, especificamente, podem ser depreciativamente tratadas como "aqueles dos rochedos". 
Ademais, medíocres existem em todos os lugares, aqui e lá; corruptos, idem; gente sem pensamento, obviamente; riquezas mal explicadas, em todo o lado; poderes obscuros e governos globalmente imbecis, nem se fala; incultos, a cada passo. Repito, aqui e lá. Porém, este é o nosso país e a nossa Língua a Portuguesa! Por mais que muitas situações nos arreliem, não somos superiores a ninguém. Nem inferiores. Temos tantas fragilidades como competências de topo, o que me leva a concluir: no plano autonómico supramos as debilidades e construamos o Portugal que desejamos. Sem mesquinhez. 

Texto do Jornalista
NICOLAU SANTOS
Publicado na Revista UP da TAP

O texto que a seguir publico, da autoria do jornalista Nicolau Santos, é de Março de 2011. De então para cá muitas coisas se alteraram, obviamente. Porém, no plano global, constitui um excelente retrato síntese do nosso Portugal. 

«Eu conheço um país que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil (80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mil)
Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de dadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas. Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no transplante de rins.
Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos e próteses dentárias fixas para desdentados totais.
Eu conheço um país que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra que é uma das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias (Glint) e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).
Eu conheço um país que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor de energia eólica do mundo, que também está a constuir o maior plano de barragens (dez) a nível europeu (EDP).
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT), que é líder mundial em software de identificação (NDrive), que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da Nasa (Critical)e que tem a melhor
incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra)
Eu conheço um país que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano. E que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti-germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos.
Eu conheço um país que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia de transformadores de energia (Efacec) e que revolucionou o conceito do papel higiénico (Renova).
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas (Via Verde).
Eu conheço um país que revolucionou o sector da distribuição, que ganha prémios pela construção de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).
Eu conheço um país que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos de Pequim, que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos, que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto, que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).
Eu conheço um país que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, João Cutileiro).
O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive ou que se prepara para visitar. Este país é Portugal. Tem tudo o que está escrito acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas, ótima gastronomia. Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL.»

NOTA
A lista é longa e foi complementada neste blogue:
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Este artigo não é sobre a COVID-19, é sobre um crime bárbaro seguido de uma aberração

Por
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário,
31/03/2020


Foi em meados de março, ainda não havia estado de emergência mais já o país estava concentrado na epidemia. Um ucraniano a quem não foi permitida a entrada no país e esperava para embarcar para a Turquia, terá provocado distúrbios no Centro de Instalação Temporária (CIT) do Aeroporto de Lisboa. Faltam algumas peças no puzzle, mas sabe-se que a dada altura foi levado para uma sala de assistência médica por três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Segundo a TVI, os três homens terão espancado o imigrante até à morte, com recurso a pontapés, mesmo quando ele não podia resistir. Foi encontrado no dia 12, em agonia, algemado de barriga para baixo. Segundo a Policia Judiciária, os três suspeitos tentaram ocultar os factos. A autópsia foi conclusiva: o homem foi alvo de agressões que levaram à asfixia e provocaram a sua morte.

A gravidade deste caso é tal que levou à imediata demissão do diretor e subdiretor do SEF de Lisboa (Aeroporto) e à abertura de processos disciplinares aos dois dirigentes e, claro, aos envolvidos. Não fosse a COVID-19, este seria o tema de debate desta semana. O que me faz pensar em todos os abusos que nos estarão a escapar neste momento. Como a democracia pode mesmo estar suspensa por falta de atenção. Muito para lá do que estipula o estado de emergência.
É importante perceber que o CIT é um espaço temporário onde, apesar do nome pomposo, ficam detidas pessoas que não têm qualquer possibilidade de defesa, invisíveis a todos e sem tempo ou conhecimentos para fazer valer os seus direitos. A Provedora de Justiça chamou-lhe “no man’s land contemporâneo”. Aquelas pessoas estão muito mais desprotegidas do que qualquer prisioneiro. Esses conseguem ter contacto com o exterior e com advogados. Estes imigrantes nem reclusos são. E, em violação das regras das Nações Unidas, até crianças ali são detidas, em condições totalmente desadequadas para menores. Se isto é assim em tempos normais, imaginem agora, com a arbitrariedade tolerada por quase todos e para quase todos. Imaginem o que estes três inspetores podem já ter feito a outros imigrantes.

Tudo isto é especialmente triste quando o governo decidiu, como medida extraordinária, regularizar a situação de todos os imigrantes que estavam à espera de autorização de residência. Medida que levou Roberto Saviano, o autor de “Gamorra” que vive com um alvo da mafia nas costas, a escrever que “em Lisboa nasce uma nova Europa”. Infelizmente, a velhíssima Europa nunca desiste.

Como se a história não fosse suficientemente macabra, a decisão tomada pelo tribunal é ainda mais extraordinária: a juíza decidiu que os três suspeitos aguardariam o julgamento em casa. Em prisão domiciliária, que é como estamos todos neste momento. O argumento para esta decisão terá sido o de evitar qualquer tipo de infeção nas prisões. Compreendo, mas este caso tem uma gravidade que obrigaria a outro tipo de abordagem, com uma quarentena em estabelecimento prisional, no hospital-prisão ou noutro espaço qualquer. Não estamos a falar de um crime comum, mas de um homicídio de violência extraordinária. Não estamos sequer a falar de criminosos comuns, mas de pessoas que terão matado ao serviço do Estado. O facto dos alegados homicidas serem agentes da autoridade e a vítima ser alguém incapaz de se defender torna o crime muitíssimo mais grave, pondo em causa a segurança do Estado e a confiança nas instituições e na lei.
Há guardas prisionais que entram e saem todos os dias das prisões e sempre houve presos com especial proteção. Ex-polícias, por exemplo. É difícil acreditar que era impossível prender estes três suspeitos de um crime bárbaro, mantendo-os distantes dos restantes reclusos durante o período de quarentena. O que parece é que a juíza tratou este caso como trataria um outro crime qualquer. E isto está longe de ser um crime banal.
O país não aceitaria, e com toda a razão, que três cidadãos com fortíssimas suspeitas de ter espancado a pontapé até à morte um polícia fossem mandados para casa. A gravidade é a mesma, por envolver um homicídio de extrema violência e pôr em causa o respeito dos cidadãos pela autoridade do Estado.
As prisões são uma bomba relógio. Graças às inaceitáveis condições em que estão presos milhares de cidadãos (sim, são cidadãos), esta pandemia pode levar à prda de muitas vidas. Sou obviamente sensível a isso. Mas, perante este perigo, a ministra da Justiça recusou, por agora, libertar alguns reclusos, como recomenda a ONU. Poderíamos estar a falar de presos em fim de pena ou com crimes de menor gravidade. Espanha colocou em casa autores de crimes com penas inferiores a dois anos.
A ministra vai decidir esta semana o que fazer, mas explicou que “é importante considerar a natureza dos crimes praticados” e o “sentimento de insegurança que uma medida destas pode eventualmente causar ao nível da população”. Não me ocorrem muitas coisas mais graves do que três agentes da autoridade pontapearem até à morte um homem indefeso em instalações do Estado. Se estes suspeitos (com fortíssimos indícios, como diz a PJ) estarem em liberdade – que é como estão, realmente, neste momento – não cria alarme social, quer dizer que estamos mesmo preparados para tudo. E isto não é estado de emergência, é estado de anarquia e arbitrariedade. Com a decisão desta juíza, foi dado o pior sinal às autoridades num momento em que aceitámos reforçar-lhes os poderes e limitar as nossas liberdades.

terça-feira, 31 de março de 2020

Estadistas? Não. Humanóides, sim!


Para certos "humanos" pouco valor tem a vida dos outros. Arrepia e dói, bem por dentro, a ausência de sinais de humanidade. O valor da vida diz-lhes muito pouco a avaliar pelas declarações que produzem. Ainda ontem escutei aquilo que não pensava ser possível. Em um sinal de revolta interior, levantei-me e refugiei-me em uma leitura que não tinha acabado. Com um ar pretensamente sereno, Trump, aquele que desvalorizou a epidemia, ao nível de um frustrado capitão de nome Bolsonaro, assumiu que se o número de mortos nos EUA for entre 100.000 e 200.000, tal significará que "nós, no geral, fizemos um trabalho muito bom". É o dólar a falar mais alto relativamente à vida.


Deveria penitenciar-se perante o seu povo pelo facto de ter desvalorizado a pandemia e assumir que, neste momento, tudo estaria a fazer para corrigir o erro primeiro. Lamentavelmente, não foi por aí. E estou a ser tolerante. Porque mesmo que o argumento tivesse sido o da ausência de informação atempada e adequada, o que àquele nível é indesculpável, se tivesse estatura moral, deveria ter renunciado ao mandato, fazendo o "mea culpa" face à tragédia. Mas, enfim... Trump poderia até estar convicto que esta seria mais uma "gripezinha", porém, em circunstância alguma, desvalorizá-la, por respeito à vida do povo que lidera. Comportou-se como um humanóide, bípede, com olhos, nariz e boca, não como um ser racional dotado de inteligência. 

Esta arrepiante pandemia que nos consome, que nos atira para o isolamento e medo, que provoca o pensamento e a necessidade de tudo rever, que nos obriga a colocar em cima da mesa as razões mais substantivas da nossa colossal fragilidade, vale zero para essa espécie de "chefes" políticos, mistura de ignorância com arrogância. 

Ele que deveria suscitar o debate sério e profundo sobre a falência da saúde nos Estados Unidos, reflectida no facto de "30 milhões de pessoas não possuírem seguro médico, e outros 40 milhões só terem acesso a planos deficientes, com a exigência de pagamentos complementares e seguros com custos de tal forma elevados que só podem ser utilizados em situações de extrema gravidade, de acordo com a Kaiser Family Foundation, uma organização dedicada a pesquisar questões de saúde pública", não, preferiu, com total desumanidade, olhar para morte de 100 ou 200 mil concidadãos como se se tratasse de 100 ou 200 dólares na sua recheada carteira de negócios! E há quem o aplauda.

E não é só ele. Um outro imbecil, Jair Bolsonaro, expulso do Exército, portador de um vergonhoso currículo, elevou os decibéis da sua monumental ignorância altifalante para dizer ao mundo que o brasileiro é resistente a infecções, já que "pula no esgoto e nada acontece". Nem percebeu que tal declaração constituía uma afronta à ciência em luta contra o tempo, como colocava a nu as graves assimetrias do seu próprio país! E há quem o aplauda.

Entretanto, porque o momento assusta, sigo as imagens que me entram de forma fria e cruel casa adentro, assisto ao desespero nos hospitais e nos espaços improvisados, a uma morte a cada trinta segundos, a milhares de caixões levados do palco de uma guerra global contra um inimigo invisível e assaltam-me, por isso, tantas perguntas sobre a complexidade das causas da gradativa situação autodestrutiva do Homem, sobre este Homem e a Natureza, sobre a desmedida correria pelo dinheiro, sobre a louca ambição do ter relativamente ao ser, sobre uma economia de sentido único, sobre uma Educação redutora que, intencionalmente, conduz a múltiplas iliteracias, sobre as doentias mentalidades imperialistas, sobre os dados da pobreza mundial em um planeta que oferece riqueza e, no meio de tudo isto, sobre a existência de poderes fabricados, onde os estadistas e os Seres Humanos bons (os verdadeiros líderes) são engolidos pelas máquinas políticas que colocam os medíocres na condução das sociedades.
Não sei se o Mundo mudará depois da pandemia. Tenho muitas e sérias dúvidas. Prevalecerá, certamente, a continuidade do mundo conhecido e esta vivência dramática que estamos a sentir, constituirá um mero episódio, venham ou não a morrer 100, 200, 500 ou mesmo um milhão de seres humanos. O vil metal continuará a dominar.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 28 de março de 2020

Europa, segunda oportunidade


Por
José Sócrates,
in Expresso Diário, 
26/03/2020

1. Como sempre, na aflição, o mercado foge em debandada e só o Estado fica. A utopia neo-liberal de estender a racionalidade do mercado a todas as áreas sociais parece agora sem ponta por onde se lhe pegue. Desapareceram de cena aqueles que durante anos defenderam que deveríamos colocar o limite de três por cento do deficit orçamental na Constituição. Fazer dela um pacto suicida. Só resta o Estado – não há mais ninguém no campo da batalha. E, no entanto, é impossível evitar uma certa sensação de dejá vu.


2. A Europa está agora no centro da pandemia. Pese embora a tragédia dos números nalguns países e as compreensíveis hesitações iniciais, os governos europeus parecem estar a agir com cabeça fria. Primeiro, prioridade à questão sanitária, custe o que custar à economia. A ideia da imunização de grupo que levaria a escolhas utilitárias sobre quem morre e quem vive parece finalmente afastada. Não é mesma coisa, do ponto de vista moral, morrer depois de assistido ou morrer por impossibilidade de ser assistido. Segundo, nesta crise todos os governos (com pequenas diferenças) têm seguido os melhores conselhos da ciência médica. Terceiro e muito importante, tudo isso tem sido feito num clima político de grande responsabilidade, com as oposições a juntarem-se aos governos e suspendendo o conflito partidário. Ele virá, mas não agora, na emergência de saúde. Muito bem.

3. Enquanto isto, na frente da emergência económica, a União Europeia hesita. Sim, o banco central garantiu a indispensável liquidez. No entanto, as indispensáveis medidas de proteção social e de defesa da sobrevivência empresarial são deixadas a cada um dos países que não esqueceram a lição de 2008 e temem ser deixados sós a meio caminho. Sabem que mais tarde serão entregues a um mercado de dívida pública que os visará um a um. Com o relógio a contar, toda a Europa percebe bem que precisará de se endividar para fazer imediatamente chegar dinheiro às pessoas que, por razões sanitárias, estão impedidas de trabalhar. Isso será importante por razões sociais, por razões de confiança institucional e também para preservação da organização económica empresarial essencial à futura recuperação. Todavia, o trauma e a desconfiança resultante da ultima crise financeira está bem presente.

4. A primeira lição da crise anterior tem a ver com a liderança. Um pouco de enquadramento histórico é necessário para explicar o que quero dizer. A construção europeia teve dois ciclos distintos - um antes da queda do muro de Berlim e do desaparecimento do ameaça soviética; um outro depois, com a reunificação alemã e com a mudança do centro de gravidade europeu para leste. A Europa mudou com o alargamento e mudou numa questão central – a liderança.

O primeiro grande teste da Alemanha á frente do projeto europeu veio com a crise financeira de 2008 e com ela veio também o seu primeiro e mais clamoroso falhanço. A desgraça ficou evidente desde o início - nem proteção, nem preocupação com a unidade, nem diálogo. O que se viu foi apontar culpas, frieza institucional e indiferença ao sentimento nacional nos países em maiores dificuldades. De um momento para o outro, sob orientação alemã (ou, talvez melhor dito, sob orientação da direita alemã), a política europeia deixou de falar em emprego, em educação, em tecnologia, em ambiente, em energia renovável, para se concentrar num ajuste de contas histórico da direita contra os seus demónios preferidos – as políticas sociais. A austeridade económica constituiu-se então como única resposta redentora. Primeiro ponto, ela é indiscutível e não tem alternativa - é ditada pela ciência económica. Segundo ponto, ela tem também a sua dimensão moral: é preciso redenção – e redenção reclama castigo e sofrimento. Não deixa de impressionar a maneira como se conseguiu transformar uma típica crise de abuso de liberdade mercantil pelos mercados financeiros (os famosos sub prime) numa crise que aponta como culpados os Estados e o excesso de gasto público. Na verdade, a resposta europeia à crise financeira nunca foi uma política económica, mas um programa ideológico.

5. Todo este desastre só acabou quando, depois de várias catástrofes, o Banco Central Europeu decidiu finalmente fazer o que os alemães não tinham, até aí, deixado fazer – o “quantitative easing”, copiado da política americana, que conteve a desgraça de muitos países expostos (Portugal incluído) e que afastou os riscos contra a moeda única europeia. Aliás, a comparação com a estratégia americana é talvez a melhor fonte de evidência da irracionalidade económica seguida na Europa. Os Estados Unidos estancaram mais rapidamente a crise financeira e recuperaram mais rapidamente o emprego e o crescimento, enquanto a economia europeia, metida num buraco, continuava a usar a austeridade para escavar e enterrando-se cada vez mais.

O resultado desses anos no projeto europeu está ainda bem presente – a periferia ressentida com o centro, o sul desconfiado do norte, os pequenos desiludidos com os grandes. A cizânia não veio de fora, não veio da ameaçadora Rússia, como tantos apregoavam, mas de dentro e motivada por um grave erro de liderança. O desolador balanço desta política económica está ainda por fazer dada a cumplicidade da burocracia europeia (e da esquerda europeia, para ser justo) com a narrativa da austeridade. Mas os estudos sobre o que aconteceu são hoje em dia mais fáceis e a história anda agora mais rápido – não, a crise não veio dos Estados, mas dos mercados; não, não foi o deficit que criou a crise, mas a crise que criou o deficit; e não, não foi a austeridade que acabou com a crise mas o fim da austeridade que acabou com a crise.

6. É preciso falar da crise anterior também para que fique clara a lição número dois: os custos de contenção da crise são inferiores aos custos de reconstrução. Os custos de nada fazer não são apenas económicos, mas sociais e políticos. E desta vez é pior. A crise tem estas duas frentes, a sanitária e a económica, devendo a primeira prevalecer como prioridade. A crise vem agora da economia real e em breve se estenderá ao sistema financeiro. O tempo urge. O que virá a seguir é uma tragédia como penso que ainda não tínhamos visto. Quando se fala de plano Marshall para a recuperação económica futura é preciso que fique claro que nada disso deve desvalorizar a tarefa imediata. Não é possível passar ao lado do que é necessário fazer já - já - para evitar o colapso e o desemprego em massa que se avizinha. Esta semana, por exemplo, o governo dinamarquês comunicou às empresas privadas que vai pagar 75% dos salários dos seus empregados para evitar os despedimentos. Durante três meses o governo paga para os trabalhadores ficarem em casa: 13% do produto anual bruto do País. A ideia é congelar a economia e evitar as rotação de despedimentos e de novas contratações que atrasariam a recuperação futura. A filosofia é simples e resulta da experiência com a crise anterior - se nada for feito agora será mais caro reconstruir depois.

7 Outro exemplo curioso. Costumo passar pelo blog de um economista americano que escreve pouco, mas que, quando o faz, tem sempre alguma coisa a dizer. Escreveu ele a 14 de março : “Considerando a dificuldade de identificar os verdadeiramente necessitados e os problemas inerentes a tentar fazê-lo, enviar um cheque de 1000 dólares a cada americano o mais rápido possível será um bom começo... Há tempos para nos preocuparmos com a subida da dívida estatal. Este não é um deles. Peço atenção para este pormenor – dificuldade de identificar os verdadeiramente necessitados e os problemas inerentes a tentar fazê-lo". Isto é, as medidas devem ser simples por forma a evitar a burocracia e a canga regulamentadora que tantas vezes compromete a sua eficácia. Rapidez, rapidez.

No último ponto do seu pequeno artigo escreveu também que o Presidente Trump deveria calar a boca e deixar quem soubesse alguma coisa do assunto falar em seu nome. Infelizmente, dizia ele, isso não parece que irá acontecer. Na verdade, o governo americano não só ouviu como decidiu fazer exatamente o que foi sugerido. Três dias depois, a 17 de março o Secretário de Estado do Tesouro americano anunciava a decisão de enviar o cheque nas próximas duas semanas. A medida (ou coisa muito parecida) acaba de ser aprovada no Congresso. Julgo que nada haverá de mais parecido com o “helicopter money” de que falava Milton Friedman . Quem diria? Nos Estados Unidos.

8. Regresso ao ponto crítico: a Europa e a liderança. O esforço financeiro que é agora pedido aos Estados europeus não pode ser realizado sem recorrer à dívida publica – a “public blessing” de que falava Alexander Hamilton. Mas os montantes assustam e ninguém quer ser apanhado na emboscada que se começa a montar nos mercados financeiros, esperando as vítimas estatais, que chegarão ao próximo ano com deficits e dívida muito superiores aos que têm agora. O fantasma da última crise está ainda bem presente. A única forma de evitar essa armadilha é assumir essa dívida à escala europeia, havendo várias formas de o fazer.

Não consigo aceitar o que para aí ouço todos os dias nas televisões - convencer Merkel, pressionar Merkel, pedir a Merkel. Toda esta conversa lembra mais a de elites subordinadas do que que de parceiros na construção de um projeto comum. Não se apela à liderança, ela resulta do sentido interior da responsabilidade. Ninguém pode ser obrigado a liderar se não sentir que tem essa obrigação ou essa responsabilidade.

Liderar é convencer, unir - mostrar o caminho. Levantar-se e agir. Eis o que significa liderança. A questão política central e urgente é se enfrentamos esta tempestade juntos ou cada um por si. No final, a pergunta é simples: se a Europa não serve para uma crise destas, para que servirá? O risco que enfrentamos, se bem vejo as coisas, vai um pouco além da questão económica. Ninguém deseja uma Europa de volta à geopolítica das esferas de influência, das Mitteleuropas, e das balanças de poder. A liderança alemã – e a Europa em consequência - tem aqui a sua segunda oportunidade. Francamente, não sei se terá outra. E estou a medir as palavras.

sexta-feira, 27 de março de 2020

A "repugnante" divisão europeia


Em tempo de guerra não se mudam generais, dizia há dias o primeiro-ministro. Ontem foi dia de lamentar que não se mudem ministros. Holandeses neste caso. 


Em tempo de crise global, em vésperas de uma recessão económica a que ainda ninguém adivinha a dimensão e em plena pandemia em Portugal, “repugnante” não é palavra que se queira ouvir a um primeiro-ministro. Mas assim foi no final da reunião de ontem do Conselho Europeu.
Wopke Hoekstra, ministro das finanças holandês, terá dito esta semana que “a comissão europeia devia investigar países como Espanha, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com os efeitos da crise provocada pelo novo coronavírus, apesar de a zona euro estar a crescer há sete anos consecutivos”. E António Costa não gostou de ser confrontado com as declarações. "Esse discurso é repugnante. Ninguém está disponível para ouvir o ministro das Finanças holandês a dizer o que disseram em 2009, 2010, 2011. Não foi a Espanha que importou o vírus. O vírus atinge a todos por igual. Se algum país da UE acha que resolve o problema deixando o vírus à solta nos outros países, não percebeu bem o que é a UE", disse. Também não terá percebido bem o coronavírus.
Nota:
Publicado na edição de hoje do Expresso/Curto pelo jornalista Filipe Garcia.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Coronabonds? Já, mas com cuidado


Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
25/03/2020

Com muitos outros economistas de opiniões variadas, de Mark Blyth a Thomas Piketty ou Jean-Paul Fitoussi e Giovanni Dosi, ou outros colegas portugueses, assinei um apelo para a criação urgente de eurobonds para financiar a recuperação económica e criação de emprego depois da pandemia. Neste artigo dou conta das razões para esta solução de emergência, de alternativas possíveis e dos perigos que estão presentes nas escolhas para a arquitetura desta medida, caso venha a ser criada.


Os eurobonds, ou coronabonds como agora são referidos, são a mais facilmente disponível das várias alternativas para evitar o escalonamento do peso da dívida pública que terá de ser emitida para financiar a recuperação. Mas, se tiverem como contrapartida novas medidas de austeridade, podem tornar-se os coveiros da União. A escolha entre os caminhos da recuperação ou da divisão será a mais importante da história da Europa desde o fim da Guerra.

UMA VELHA IDEIA SEMPRE RECUSADA

A primeira proposta de emissão de títulos europeus de dívida terá sido apresentada por Jacques Delors em 1993, era então presidente da Comissão Europeia. A ideia era financiar o orçamento comunitário, usando um instrumento que complementasse as contribuições diretas nacionais e assegurasse a todos os Estados um preço baixo (e igual) desse esforço. A ideia foi rejeitada. É de notar também que Delors liderou a negociação do Tratado de Maastricht, que abriu a via para o euro e que é o primeiro fundamento jurídico invocado pelos opositores aos eurobonds, dado que estabelece uma separação estrita entre a política monetária e a política orçamental. Essa fronteira é o pilar da ortodoxia do euro e os eurobonds desvaneceram-se por muitos anos.

Houve duas décadas depois uma tentativa de relançamento do debate institucional sobre o tema, quando Hollande, então Presidente de França, e Monti, primeiro-ministro de Itália, propuseram essa resposta à crise das dívidas soberanas de 2011. O assunto foi mais uma vez enterrado e as duas razões para a recusa são ilustrativas das dificuldades que a proposta pode vir a enfrentar agora. A primeira é que a Alemanha e os seus satélites beneficiam comparativamente de uma crise financeira e de uma recessão.

De facto, como aconteceu então e está a começar a acontecer agora, num momento de turbulência as emissões de dívida alemã tornam-se um refúgio financeiro e os seus juros descem, enquanto sobem os juros aplicados aos países do sul. Esse movimento de tesoura premeia a Alemanha, significando que os países do sul a estão a financiar. Além disso, segunda razão, maximiza a pressão política para impor medidas de austeridade, como aconteceu entre 2011 e 2013, e estabelece uma hegemonia neoliberal que também reforça a liderança germânica. A diferença de juros, que favorece a Alemanha e penaliza as economias mais frágeis, é-lhe financeiramente vantajosa e é um instrumento invisível de poder absoluto.

Entretanto, os governos alemães fazem as contas e, nisso, não há nenhuma diferença entre Merkel e os social-democratas alemães: eurobonds significa dívida mais barata para os países do sul e um algo mais cara para a Alemanha. Assim, leem essa diferença como uma transferência de fundos entre países, o que consideram inaceitável política e eleitoralmente (além de temerem que a AfD ou partes da CDU ou CSU levem a questão ao Tribunal Constitucional alemão e consigam uma interdição baseada na jurisprudência e na interpretação ortodoxa que sempre foi favorecida no país). Foi por isto que os eurobonds foram sempre recusados.

Todas estas razões se mantêm hoje e não foram alteradas. Só que a pandemia e a recessão que desencadeia atuam como um revelador: o sistema de troca desigual que sempre favoreceu a Alemanha é a prova de que não vivemos numa verdadeira União e, em momentos de crise, a nudez dessa mentira ameaça fazer desabar o seu edifício. O poder alemão e predomínio das políticas neoliberais foi e é um obstáculo a uma União Europeia.

UMA UNIÃO DEVERIA ADOTAR MEDIDAS CONTRA A RECESSÃO

Mesmo assim, podia não ter sido tão constrangedor. O improviso e a despreparação de Lagarde e de Von der Leyen na primeira resposta à pandemia ficaram patentes, até mais do que a pessoa mais pessimista poderia temer. No seu momento épico, Lagarde desencadeou um ataque à dívida italiana, logo o epicentro europeu de todos os riscos (a crise sanitária, o risco da dívida pública monumental, o risco político com Salvini à frente das sondagens). Terá pedido desculpa. E, para tentar corrigir a sua primeira atuação, o BCE somou ao programa de 150 mil milhões de euros mais outro de 750 mil milhões. É pouco mais do programa que o governo alemão anunciou para o seu país, o que indica a desproporção e falta de meios. A Comissão anunciou 37 mil milhões, resgatados de programas avulsos, ao mesmo tempo que discute tranquilamente a redução do orçamento comunitário, em particular dos fundos de coesão, para os próximos sete anos.

O problema dos programas anunciados é que se trata de linhas de crédito, o que entrega o poder discricionário de decisão sobre a recuperação de empresas à banca, e de compras de ativos no mercado secundário, medida concebida antes de mais para sustentar as bolsas.

Mesmo que os efeitos de curto prazo nos juros da dívida pública reduzam ligeiramente o impacto imediato sobre as economias mais vulneráveis (os juros da dívida a dez anos de Portugal desceram um pouco depois de uma forte subida, mantendo-se em todo o caso em níveis quatro vezes superiores aos de há duas semanas, e algo semelhante se passa com Itália e Espanha), nenhuma destas medidas responde ao aumento do défice que vai ser necessário na segunda metade de 2020. Ora, Lagarde, como antes já o tinha feito Draghi, alerta para os limites da política monetária expansiva e pede crescimento do esforço orçamental de todos os países. É a voz do desespero. Sabe que o BCE não consegue o efeito pretendido só com mais uma injeção de liquidez financeira, por via do quantitative easing. É preciso um monumental esforço orçamental.

Por isso e desta vez, perante o desastre, a Comissão aceitou suspender a obrigação do limite de défice a 3%. Era indispensável. Os défices serão muito maiores, se houver resposta adequada: o custo de reforçar o sistema de saúde, o pagamento de apoios sociais, os subsídios a empresas e o investimento, ao mesmo tempo que a redução do PIB e das receitas fiscais e contributivas, tudo determinará um défice grande. É o que é necessário. Mas já vimos esta solução na última recessão, não vimos? Em 2009, depois do crash financeiro (o Lehman Brothers faliu em setembro de 2008) e com uma recessão profunda, Merkel e Sarkozy, com a Comissão Europeia, convidaram os países europeus a uma expansão orçamental imediata. Quase todos o fizeram. E depois veio a fatura. Quando se tratou de pagar essas medidas anti-crise, os juros da dívida dispararam e os mesmos que queriam mais despesa agregada impuseram cortes orçamentais duros. Tinha chegado a austeridade.

Fica então o problema principal de cada euro gasto em liquidez para os bancos, subsídios de desemprego, linhas de crédito garantido para PMEs, pagamento de salários pela segurança social ou investimento: como é que os países vão financiar esse défice? Com emissão de dívida. A que preço? É aqui que entrariam os coronabonds.

OFERECER RIOS DE MEL?

O BCE e as autoridades europeias poderiam certamente adotar outras medidas. Uma que tem sido proposta é o “dinheiro de helicóptero”, a solução avançada um dia, paradoxalmente, por um liberal de extrema-direita, Milton Friedman, para responder a uma recessão: fazer uma transferência única para cada pessoa, de modo a sustentar a procura agregada. Trump está a fazer isso, pagando 1200 dólares a cada adulto, visto que se apercebeu tarde mas se assustou com a crítica ao seu desprezo irresponsável e, sobretudo, tem eleições dentro de meses. É um alívio possível para uma emergência, mas tem dois problemas.

O primeiro é que, nas circunstâncias presentes, não basta para resolver as dificuldades essenciais, dado que este não é só um problema de procura, é também uma crise dos sistemas produtivos, que provocará um auge do desemprego e novas quedas do investimento, com o risco de deflação. Um momentâneo empurrão à procura não salva a economia e o emprego.

O segundo problema é mais grave. É o que é colocado pelos defensores do “rendimento básico incondicional”, que tentam relançar agora a sua doutrina, depois de um apagão, sugerindo que tudo se resolve se alguma entidade pagar a cada pessoa um donativo mensal. De facto, a proposta desapareceu do mapa nos últimos anos, dado que a única concretização que reclamava como exemplo era a do Alasca, que distribui rendimentos do petróleo oferecendo 80 dólares por mês a cada pessoa. Ora, nem toda a gente tem petróleo, mas ninguém vive com uma esmola dessas. Assim, a ideia do “rendimento básico” é uma fraude. Promete distribuir dinheiro grátis para permitir a cada pessoa viver confortavelmente, mas os seus promotores recusam-se a dizer quanto e como vão pagar. Por uma boa razão: em Portugal, distribuir 500 euros por mês para cada pessoa custaria mais do que o total das receitas fiscais e, para que essa receita pudesse ser usada para distribuir de tal forma, implicaria despedir todos os médicos, enfermeiros, professores e polícias. Consta que os mais afoitos dos defensores desta ideia tentam salvar-se afirmando que os rios de mel virão do BCE por toda a eternidade.

SOLUÇÕES CONSISTENTES

As soluções mais consistentes para esta crise, são as respostas estruturais às condições de financiamento das dívidas que vão ser contraídas, de modo a tornar possível o esforço orçamental.

A mais imediata seria garantir a compra das emissões de dívida pública de 2020 pelo BCE, até um limite fixado de acordo com a sua chave de capital corrigida pelos montantes dos programas de recuperação económica, ao mesmo tempo que as dívidas soberanas que estão no balanço do BCE seriam convertidas em títulos perpétuos sem juro. Isso seria um canhão poderoso, pois responderia parcialmente ao maior de todos os riscos, impedindo que o financiamento da recuperação dependa dos mercados financeiros. Como se notará, esse risco seria reduzido caso os estados emitissem a sua própria moeda, mas não é hoje o caso.

Dificilmente alguma dessas medidas será adotada. Resta por isso a dos coronabonds, que, em exasperação, tanto Lagarde como Von der Leyen já admitiram. Alguma imprensa internacional sublinhou com entusiasmo que há uns dias Merkel não a rejeitou terminantemente, tendo remetido para um parecer do seu ministro das finanças.

A pressão é grande para uma resposta de monta, e esta é para já a única que está em cima da mesa do Conselho Europeu. É, sobretudo, uma solução alcançável, dado que existem os instrumentos técnicos para a concretizar, através de uma combinação do Mecanismo Europeu de Estabilidade e do Banco Europeu de Investimentos, ou da ação direta do BCE. A vantagem é evidente, dado que baixar os juros das próximas (e importantes) emissões de dívida, reduzindo a pressão dos mercados financeiros, é fundamental para proteger as populações.

OS PERIGOS DE CORONABONDS AUSTERITÁRIOS

Ficam, no entanto, as duas objeções fundamentais dos fundamentalistas neoliberais, em particular os da Alemanha e Holanda, que recusam transferências entre as economias e não abdicam da pressão para medidas liberalizadoras. E é aqui que estão os riscos mais graves: a Comissão e o BCE podem – e é natural que tentem – obter o acordo dos falcões com uma contrapartida, que seria uma nova geração de programas de austeridade. Por isso, já se fala de uma solução especial, algo diferente da dos eurobonds, que conseguiria recursos que os estados possam usar para o esforço orçamental sob a forma de programas de empréstimo para as economias. Assim, não recorreriam a emissão nos mercados financeiros mas, em troca desse crédito, submeter-se-iam a medidas de “ajustamento”. As troikas espreitam de novo na esquina da pandemia.

Se lermos os relatórios dos últimos anos das instituições europeias, mas também das mundiais, como o FMI ou a OCDE, os contornos desses programas são fáceis de adivinhar. Tratar-se-ia de avançar e concluir os processos de liberalização, com a transformação do emprego, o que hoje se chama uberização e antes se dizia precarização, quando ainda não tínhamos chegado a tempos tão radicais. Nesse mapa ideológico, reduzir estruturalmente o salário (ou as pensões) não constitui um problema do lado da procura desde que o autoritarismo social permita impor generosas transferências de impostos, sob a forma de rendas, para os poderes financeiros.

O problema é que estes programas não são fáceis de enunciar ou de aplicar. Eles sempre implicaram reduzir os serviços públicos para mercantilizar uma parte crescente dos bens comuns, em particular na saúde, educação e segurança social. Ora, a crise que vivemos é uma pandemia que revela o custo do pirateamento dos serviços de saúde ao longo da última década. Mesmo com esses cortes, os serviços públicos de saúde são, nesta crise, a única âncora que garante segurança às populações. Propor de novo a sua privatização é algo que para já só é ousado por um Ventura, mas era o caminho que se estava a seguir. É por isso de antecipar que, se os partidos do centro ou da direita clássica ousarem promover uma nova vaga de austeridade e de redução da saúde ou do ensino públicos, vão acelerar os processos de desagregação que prometem evitar.

Não é só um problema do euro, que não sobreviveria a uma saída da Itália. O governo francês parece ser o único a dar-se conta da tempestade perfeita que está a ser criada por uma liderança europeia que ignorou os pedidos de apoio das autoridades italianas e se poderia atrever a usar as novas regras para amesquinhar o país. A União Europeia que conhecemos também dificilmente resistiria a uma resposta à pandemia que promova o desastre social. Por isso, os coronabonds são necessários e o Conselho Europeu e o BCE não terão alternativa melhor que seja imediatamente viável. Podem fazer deles uma solução ou uma bomba de pavio curto.

domingo, 22 de março de 2020

Ler e saber ajudam mais a atravessar esta pandemia


José Pacheco Pereira, 
in Público, 
21/03/2020

As debilidades do nosso país face à crise da pandemia da covid-19 não se encontram apenas no Sistema Nacional de Saúde, ou no tecido económico, nem na falta de testes ou de ventiladores. Há uma mais invisível, que é a falta de preparação de muitos portugueses para poderem ter um olhar mais sabedor, ponderado, consciente, eficaz para o que se está a passar. Essa debilidade está a crescer à medida que há uma substituição de uma cultura de experiência indirecta (que se obtém nos livros, filmes, etc.), na curiosidade e no saber, por uma ignorância atrevida e agressiva com origem nas redes sociais. Uma protege-nos mais na crise, a outra agrava os factores de crise e não nos protege.


Bem sei do clamor que estas frases, que hoje são classificadas de “elitistas”, suscitam: “Com que então, os livros, em vez da vida?” Mas qual vida? A dos dependurados 24 horas no Facebook e noutras redes sociais? Sim, a vida protege-nos, se transportar consigo experiência, dificuldades, sentido das proporções, riqueza, enfim, “vida”. E se tiver em acrescento livros, filmes, músicas, arte e jornais, ainda mais nos protege. Não é remédio absoluto, mas ajuda.
Há um outro clamor, mais intelectual: mas o que é isso da “cultura”? Sim, são questões complexas e ambíguas, mas, para o caso, basta o senso corrente, mesmo que seja um lugar-comum. Em tempos de guerra, não se limpam armas e toda a gente sabe o que é ser “culto”, mesmo que saiba menos o que é ser ignorante. 

Culto, interessado pelo mundo, curioso, atento, respeitador do saber alheio, e não necessariamente apenas do saber académico. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Mas, resumindo e concluindo, três coisas contam nesta pandemia: vida, cultura e dinheiro. Infelizmente, estão todas muito mal distribuídas, em particular a última. Mas, pelo menos na cultura, sempre se pode combater a incultura que cresce perante a cobardia e a inércia de muitos que acham que esta é a “realidade” dos nossos tempos e não há nada a fazer. Há e muito. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

Quem lê, seja por obrigação, por interesse ou por gosto, está mais preparado para olhar para a pandemia, aprendendo sobre ela mais e melhor. Por exemplo, saber o que é um crescimento exponencial, perceber os gráficos, ler um mapa, ter uma noção sobre os comportamentos humanos em situação de tensão, travar o pânico, entender as informações que recebe, saber distinguir o trigo do joio, conhecer minimamente os mecanismos sensacionalistas da comunicação social e deixar as fábricas de conspiração, intriga e falsidades nos esgotos sociais onde pululam. Como agora se diz, literacias. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

E não se trata apenas de conhecimentos científicos sobre as epidemias, sobre as mutações, sobre os mecanismos de contágio, sobre o que é um vírus e como funciona, trata-se de muito mais. Trata-se daquilo em que ler é único, importar experiência indirecta, viver em si o que o mundo dos livros, ficção, poesia, história, transporta. E na literatura e nos filmes também não se trata de procurar apenas ficções que sejam directamente associadas ao tipo de situações que vivemos, como A Peste, de Camus, ou os contos de Edgar Allan Poe (em ambos os casos, livros que têm tido uma grande procura nestes dias), mas muitos outros, seja o 1984, de George Orwell, seja a Montanha Mágica, de Thomas Mann (onde o lugar da tuberculose, o sanatório, funciona como um microcosmos), sejam as memórias e os contos de Tchekov médico, seja, em bom rigor, tudo. A tese é, para usar um exemplo não-pandémico: quem leu Cesário Verde não vê Lisboa da mesma maneira que se não o tivesse lido. E, por muito vaga que seja essa experiência estética, é provável que defenda melhor a sua cidade pelo voto, pela actividade cívica, pela opinião. Como em tudo, não é regra absoluta, mas mais vale ter lido do que ter passado ao largo. Não é remédio absoluto, mas ajuda.

O problema é que estamos a andar para trás, e não se pense que isso é assim tão excepcional na história. Os progressistas acham que se anda sempre para a frente, que a humanidade caminha sempre para o melhor, e o pior é incidental. Não é assim, claro; há momentos da história em que tensões sociais, epidemias, guerras, destroem o saber e o modo de vida. O problema com a ignorância arrogante dos nossos dias começa logo no bloqueio de toda a informação e a sua substituição pela desinformação. 

Os que vivem nas redes sociais acham que os jornais, os influentes, os políticos lhes sonegam a verdade, lhes ocultam os factos, numa conspiração vinda do Grupo de Bilderberg, da Internacional Sionista, do grupo de pedófilos que governa o país, de George Soros, da Nova Ordem Mundial Maçónica, dos sistemas 5G, de Deus para punir a homossexualidade e a generalizada dissolução dos costumes, seja lá do que for. Todos estes exemplos foram tirados das redes sociais. E o que fazem é disseminar falsas afirmações, teorias conspirativas, boatos e rumores, pseudociência, acusações caluniosas, ressentimentos e invejas sociais, que, por sua vez, são consumidas pelos seus semelhantes num eco especular, que, em tempos de crise, tende a criar um imenso ruído. E a reacção a esse ruído é frágil, porque muitos dos que se lhe deveriam opor nas instituições e individualmente têm soçobrado nessa obrigação.
Uma das grandes forças do livro de Edward Gibbon sobre a queda do império romano é descrever o desprezo pelas ruínas de muitos habitantes de Roma que, muitos séculos depois, viviam nos restos dos monumentos imperiais achando que eram empecilhos – os “romanos eram insensíveis às belezas da arte” – e a humilhação de homens como Petrarca pela “supina indiferença” com que eles eram tratados. Chegados a esta crise, confinados a casa, com os restos da ciência, da arte, da literatura, do saber atacados pelos atrevidos ignorantes, ao menos esta “guerra” tem mais sentido. E ajuda a sobreviver.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Salvar o euro, outra vez (ou: de onde vem todo este dinheiro?


Por
Pedro Santos Guerreiro,
in Expresso Diário, 
20/03/2020

Não está nas primeiras páginas nem nas primeiras preocupações, mas este dinheiro todo tem de vir de algum lado. Lembra-se das dívidas soberanas? Dessa imensa abstração a que chamamos “os mercados”? Então lembre-se de outra coisa: é preciso salvar o euro. Outra vez. E isso já começou. Até porque desta vez não são só os “países periféricos”, são todos. Até porque desta vez inclui a Alemanha.


São tantos os anúncios de milhares de milhões daqui e dali que ninguém percebe nada — o desenho concreto torna-se pintura abstrata. Mas veja este número de ontem: 750 mil milhões de euros do BCE. Não pense em quantos aeroportos do Montijo daria para construir (daria para 580, mas também escusa de pensar no novo aeroporto, não vai acontecer agora), pense antes no que isso significa. Significa que as bazucas, os obuses e os canhões estão a sair do paiol não apenas para salvar a economia, mas para salvar o euro. Sim, esse mesmo, o tal que esteve por um fio até ao verão de 2012, durante as intervenções externas.
A crise de 2008 durou dois a três anos a chegar às dívidas soberanas, porque começou no sistema financeiro. Mas esta crise nasce na economia e é diferente, porque é simultaneamente de procura (compra-se menos, por quebra de rendimento e por medo) e de oferta (produz-se menos por paragem das fábricas, distribui-se menos porque as cadeias de abastecimento estão quebradas). Desta vez, o contágio não espera dois ou três anos, como em 2008: está a ser num ápice. Os mercados parecem loucos, os de ações, de obrigações, de matérias-primas e todos os seus derivados.

DE ONDE VEM O DINHEIRO?

De dívida, claro. Mas quem empresta?
Ninguém se atreve a fazer contas ou dizer as contas que faz, porque ninguém sabe quanto tempo durará e ninguém quer assustar outros com a sua própria escandalização. É como atirar uma pedra para um poço de que não se vê o fundo e ficar à espera de ouvi-la esmurrar a água. Mas as recessões mensais são uma escavação inédita. Mas as despesas do Estado com saúde, com segurança social e com a economia (incluindo a quebra de impostos e de contribuições) são uma gazua terra adentro.
É um exercício destravado sem fecho para balanço, com um jorro de défices mensais crescentes sobre um PIB minguante. Os défices de março e abril sobre o PIB hão de ficar para a História como o maior bungee jumping orçamental das nossas vidas. A corda é a dívida, que hoje nos salva e amanhã não nos pode enforcar. É por isso que as autoridades monetárias, europeias e governamentais, têm de perder hoje as regras de controlo sem perderem o controlo das regras. Amanhã pagaremos: a dívida de hoje são os impostos de amanhã. Estes são meses de mandar o défice à vida, mas não de rasgar as folhas seguintes do calendário.
Sim, mas quem empresta? Quem empresta ao Estado que “empresta” às empresas e às pessoas?
Os bancos centrais, que injetam liquidez direta e indiretamente — por exemplo comprando ativos e dando garantias de liquidez.
A União Europeia, que ou age em função do todo ou não é União Europeia. Não tanto através do seu próprio orçamento, que é relativamente pequeno, mas dando garantias e servindo de intermediário, o que implica criar finalmente instrumentos de dívida poderosos como os eurobonds, obrigações europeias para dar potência às impotências nacionais.
Os próprios mercados, pela deslocação das massas de dinheiro que estão a sair de títulos de risco como ações e procuram refúgios. Sim, há perdas gigantes, mas o dinheiro não desaparece todo, circula pelo mundo, quem vende ações investe noutros sítios, como obrigações do tesouro, ouro ou divisas, mesmo se sabemos que há sempre garimpagem por oportunidades de enriquecimento súbito que despontam em alturas de pânico.

SALVAR O EURO

Glossário: comprar ativos, comprar carteiras de crédito, é na prática emprestar dinheiro; flexibilização quantitativa é na prática emitir moeda (coisa que os bancos centrais nunca admitirão); emitir eurobonds é na prática mutualizar o risco, apondo o menor risco coletivo ao maior risco individual.
Os mercados estiveram quase “fechados”. Nos últimos dias houve crise de liquidez nas obrigações, depois das declarações desastrosas de Christine Lagarde, pelas quais pediu depois desculpa, que prejudicaram os países com mais risco, como Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Os juros das dívidas públicas começaram a subir e, sobretudo, a diferença entre os juros destes países e os da Alemanha (os “spreads” das dívidas) aumentaram muito.
As taxas continuam historicamente baixas, mas por exemplo o IGCP (que tem feito um excelente trabalho) quis colocar (pedir emprestado) 1,5 mil milhões de euros há dias e só conseguiu mil milhões. Não é preocupante, é um sinal. Se a zona euro não der cobertura por exemplo a Itália, o país entra em colapso financeiro.
Foi assim que surgiram os 750 mil milhões do BCE, que significam que o banco central quer “aguentar” o mercado, está disposto a comprar dívida para compensar a fuga ou paralisia de investidores. Assim, há uma compensação da quebra de procura, o preço não despenca e continua a haver financiamento. As medidas são extraordinárias, como devem ser: o BCE compra dívida pública (empresta a Estados) mas também de empresas (empresta-lhes dinheiro) e baixa as exigências de garantias colaterais aos bancos (empresta-lhes mais facilmente).
Estas medidas são boas, tanto que “os mercados” desataram a subir desde esta quinta-feira, mesmo se esta arritmia diária segue e continuará a seguir como carrinhos numa montanha russa. E significa que, financiados pelo banco central (na Europa como em todo o mundo ocidental), os Estados têm financiamento para o que precisam: as políticas orçamentais, através da baixa de impostos e do aumento dos seus gastos. E que os bancos não terão falta de liquidez nem serão obrigados a automaticamente aumentar o capital quando perderem ou suspenderem cobranças de créditos a clientes que não podem agora pagá-los.
O BCE já corrigiu o tiro. Falta ainda assumir dívida europeia. Virá o tempo de um “plano Marshall”. E, sobretudo, fazer com que os Estados da UE coordenem as políticas orçamentais e económicas, ou será cada um por si. Os défices de França, de Espanha, de Itália já dispararam, o da Alemanha também subirá. E sim, a Alemanha é uma peça-chave em tudo isto. Pela força económica e pela força política. E porque, como desta vez também a atinge com força, pode tomar decisões coletivas que antes rejeitou.
Estamos ainda no princípio, a pedra atirada ao poço está ainda longe de socar a água. Serão necessárias mais medidas e sobretudo mais coordenação. Se assim não for, podem voltar a mudar o nome à UE, não para voltar a CEE, mas para assumir ser apenas CE: uma Comissão Europeia, mas não uma União. Pior que um Brexit seria ruir por dentro. Seria a ruína.
União Europeia, precisamos de ser mesmo União Europeia. Europa, não precisamos de ti como se fosses outra que não nós. Precisamos que nós sejamos tu e que tu sejas nós.