quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O colapso climático contado pelo capitalismo europeu


Por estatuadesal
João Camargo, 
in Expresso Diário, 
22/09/2020

A apresentação do Estado da União da presidente da Comissão Europeia na semana passada, apesar de aclamada por muitos euroingénuos, não provocou em Portugal grandes reacções. De quem esperava um plano, o famoso “European Green Deal”, que respondesse à crise climática, apareceu o que é costume: optimismo tecnológico irrestrito, ilusionismo e contas erradas. Cantar vitória no campo da crise climática quando as contas são cortar 55% das emissões de 1999 até 2030 é rejeitar a ciência.



Não é seguramente fácil ter de fazer o diagnóstico calamitoso da economia capitalista europeia (mundial na verdade), da degradação ambiental, social e política e, ainda assim, anunciar uma sucessão de iniciativas que vão ultrapassar estas as dificuldades e fazer florescer o lucro de privados sem destruir os estados sociais, quem trabalha e o ambiente do qual dependemos. No entanto, foi esse jogo de luzes que Ursula von de Leyden teve que montar na semana passada, para prometer aquela que foi chamada de “ambiciosa” agenda para o pós-COVID europeu. Sendo um longo discurso, muito de interessante foi dito, como o pedido em 2020 que todos os Estados passem a ter salários mínimos, a esperança que no futuro os Estados cumpram leis (apesar das várias experiências fascizantes) ou a promessa da União dos Mercados de Capitais e a União Bancária para transformar a União Europeia no casino capitalista agora, quando os Estados terão de resgatar a quase totalidade da actividade económica. Cada vez mais o discurso público político europeu é expressão de alienação absoluta, mas é de destacar a audácia do pensamento irracional no que diz respeito ao combate às alterações climáticas.

Segundo van der Leyden, “temos mais provas de que o é bom para o clima é bom para os negócios e é bom para nós todos”. A frase, uma sucessão de absurdos, é a formulação necessária para conseguir chegar ao fim do discurso historicamente alienado. É uma frase que faz tanto sentido como dizer que “temos mais provas de que o que é bom para um condenado à morte é bom para um carrasco e para a multidão que assiste à execução”.

A presidente da Comissão afirmou que o Negócio Verde Europeu é o plano para a transformação necessária para ter mais espaços verdes, ar limpo e saúde mental e física. No entanto, o aprofundar da explicação tornou bastante claro que, em termos climáticos, o plano não responde sequer ao previsto no Acordo de Paris: travar o aumento de temperatura abaixo de 2ªC, idealmente nos 1,5ºC, até 2100. As contas são relativamente simples: segundo relatório de 2018 do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas, é necessário cortar 50% das emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030, comparando com o ano de 2018. O que nos propõe então van der Leyden?

- Neutralidade de carbono até 2050. Porquê focar em cortar emissões, quando se pode criar um pacote em que os sumidouros de carbono aparecem magicamente para “anular” as emissões (através da tecnologia de captura e armazenamento de carbono que não funciona, de plantações florestais por todo o lado como se os incêndios não cubrissem cada vez maiores áreas e até - isto foi mesmo dito no discurso - a construção civil tornar-se num sumidouro de carbono), e até 2050, porque as datas não contam para nada e 2050 é mais bonito que 2030.

- Cortar 55% das emissões de gases com efeito de estufa na União Europeia até 2030. Este parecia ser o grande trunfo, e até parece à primeira vista ser mais ambicioso do que a ciência exige. No entanto, há malabarismo. A UE promete cortar 55% das emissões usando como ano base 1990 e não 2018 ou 2020. Como as emissões internas baixaram 25% desde 1990, o truque só serve para enganar quem quer ser enganado. Usar percentagens em vez de valores concretos de emissões é uma excelente maneira de criar as confusões necessárias para não travar o colapso. Em 2030 a União Europeia deve poder emitir perto de 0,9MT de dióxido de carbono equivalente, mas a proposta de van der Leyden é emitir 2,5MT, uma erro de 170% e a composição química da atmosfera não terá flexibilidade política para negociações. Além disso, se justiça histórica significasse alguma coisa para a Comissão Europeia, teriam de ser cortadas muito mais do que os 50%, já que a responsabilidade histórica da Europa pela emissão de gases com efeito de estufa é muito superior à da grande maioria dos países do mundo.

- Que o combate às alterações climáticas se torne um hub para todos os entusiasmos tecnopositivistas (partilhados pelo governo português), com tecnologias como o hidrogénio a ser apresentadas como panaceias de que é possível manter o capitalismo e travar o colapso climático. Como apogeu, descobrimos que uma fatia do dinheiro do Negócio Verde Europeu, cujo principal objectivo é a descarbonização, irá para o gás, outro combustível fóssil que recebe uma linha de crédito público para acelerar ainda mais a corrida para o precipício.

A Comissão Europeia confirma uma vez mais que usa a acção climática como ferramenta de propaganda política para agradar a progressistas distraídos e cativar novos empreendedores e investidores. As meias medidas na crise climática são inúteis e, uma vez mais, a Comissão Europeia mostra como as instituições da elite do capitalismo mundial são o maior entrave à acção climática e à justiça social que podem travar o colapso climático. Por isso mesmo, importa recordar que dia 25 de Setembro as greves climáticas voltarão às ruas por todo o mundo, contestando esta impotência e contrapondo a sua força social, que no dia 5 de Outubro, em Portugal, os Anticorpos organizam uma acção de desobediência civil de massas e que, em Novembro será assinado na Escócia e por todo o mundo o Acordo de Glasgow, que pretende levar o movimento global pela justiça climática para uma nova etapa organizativa. Outra história tem de ser contada.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Não deixem aos populistas a conversa sobre a corrupção…


José Pacheco Pereira, 
in Público, 
19/09/2020

Não se mistura “honra” com mundos muito pouco honrados. Por isso é que a participação do primeiro-ministro, do presidente da Câmara de Lisboa e de vários deputados num acto de promiscuidade com o poder fáctico do futebol é muito grave, porque significa indiferença face à corrupção, numa altura crítica do seu combate. Como não se retractaram, ficam com uma mancha.


… porque senão eles tornam-na num ataque contra a democracia, usando como pretexto a corrupção, que lhes é verdadeiramente indiferente. Mais do que nunca, temos que ter uma conversação rigorosa, dura, intransigente, mesmo impiedosa, sobre a corrupção. Por vários motivos: um, estrutural, porque a corrupção é endémica em Portugal; outro, de circunstância: porque vem aí da Europa o alimento da corrupção, milhares de milhões de euros. Já se vêem os bandos de pombos atrás do milho. Por último, porque nada mais fragiliza a democracia nos dias de hoje do que a corrupção num debate público envenenado pelas redes sociais, com a crise de toda a informação de qualidade, mediada e séria a ser substituída pelo clamor populista e pela crise colectiva da “educação para a cidadania” dos seus cultores...

Comecemos pelo carácter estrutural da corrupção em Portugal nos dias de hoje. O que é que se pode dizer quando temos enredados na justiça, arguidos, acusados, indiciados, toda a panóplia de graus de indiciação, um antigo primeiro-ministro, vários ex-ministros, vários secretários de Estado, autarcas, dirigentes da administração pública, militares de altas patentes, responsáveis policiais, juízes, procuradores, dirigentes desportivos de grandes clubes, empresários, gestores de topo, deputados, banqueiros, personalidades do jet-set, génios das tecnologias, uma multidão de medalhados, doutorados, homenageados, por aí adiante. Quem é que escapa? 

O que aconteceu é que toda esta gente se encontrou uma ou mil vezes perante uma tentação a que não resistiu, ou que acolheu de braços tão abertos, que nem chega a ser tentação, felizes pelas oportunidades de ganhar dinheiro ilegalmente, de fugir aos impostos, de vender ou comprar um favor, de roubar com colarinho branquíssimo, de usar os seus conhecimentos nas altas esferas e os melhores conselheiros no mercado, para defraudar os “parvos” dos outros. Tiveram oportunidades, e criaram oportunidades, e é a facilidade com que isto aconteceu, e a fila enorme de gente importante que foi lá buscar o seu quinhão, que mostra que não é um problema de meia dúzia de corruptos, mas do “meio” que facilita o crime, ou seja, é estrutural e não conjuntural. Eles vivem no “meio” e são o “meio”.

Hoje isto é dinamite para a democracia. Já houve alturas em que não foi assim, ou não foi tão grave assim. Hoje, é. Os populistas usam a corrupção para atacar a democracia divulgando o mito de que regimes de ditadura como o de Salazar-Caetano não tinham corrupção. Completamente falso, e isso seria evidente se se tirasse a tampa da censura. Mas os políticos sérios em democracia ajudam a demagogia dos populistas a ter sucesso pela flacidez com que numa sociedade estruturalmente corrupta defrontam a corrupção. O problema da corrupção não vem da democracia, daí que o seu principal agente não seja sequer a chamada “classe política”, mas vem da sociedade, das debilidades do nosso tecido social, de uma burocracia assente em favores, da desigualdade de acesso ao poder e informação, e das várias promiscuidades entre poderes fácticos, como o contínuo que vai da construção civil aos clubes desportivos e terminando no poder político. 

O problema é que os promíscuos não estão sozinhos, porque, se se pensa que o alarido populista significa verdadeira recusa deste tipo de actos, estão bem enganados. Como os culpados lembraram, faziam habitualmente este tipo de tráficos sem qualquer protesto, como se fosse normal e era reconhecido como normal. Até porque, como diz o ditado, o peixe apodrece pela cabeça e por isso, de cima a baixo, o sistema de cunhas, tráficos de influência, patrocinato e favores mergulha até ao fundo e, numa sociedade com este tipo de convívio com a pequena, a média e a grande corrupção, nunca haverá verdadeiro repúdio da corrupção a não ser nas bocas de café, agora transpostas para as redes sociais. 

Uma das coisas que faz o populismo é centrar as suas acusações à corrupção “deles” e isolá-la como alvo principal, deixando de lado o meio em que ela é partilhada com “forças de segurança”, “agentes económicos”, “empresários de sucesso”, magistrados, protagonistas de um mundo em que o populismo não toca. Já viram alguma especial indignação com a corrupção nos grandes clubes quando não é o “nosso”? Como se as pessoas que vociferam nos cafés e nas redes não tivessem uma ideia de onde vem e para onde vão os muitos milhões e milhões que custam os jogadores. 

Isto significa que não se pode fazer nada? Bem pelo contrário, pode até fazer-se muito, mas de um modo geral não é o que habitualmente se faz na resposta pavloviana à pressão populista. O populismo é contraproducente para combater a corrupção; pelo contrário, até a reforça. Não é aumentar as penas, não é diminuir as garantias do Estado de direito, não é oscilar entre a complacência e a intransigência. É pensar de uma ponta a outra a administração, das autarquias aos ministérios, é cortar radicalmente os milhares de pequenos poderes discricionários que por aí existem, obrigar a que sejam transparentes e escrutináveis muitos processos que nada justifica não serem públicos. Agora que vêm aí vários barris de dinheiro, é vital que tal se faça. 

Mas é também dar o exemplo de que não se mistura “honra” com mundos muito pouco honrados. Por isso é que a participação do primeiro-ministro, do presidente da Câmara de Lisboa e de vários deputados num acto de promiscuidade com o poder fáctico do futebol é muito grave, porque significa indiferença face à corrupção, numa altura crítica do seu combate. Como não se retractaram, ficam com uma mancha.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

É precisa uma cidade para formar um cidadão


Por estatuadesal
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário, 
17/09/2020

A absurda polémica em torno das aulas de Cidadania e Desenvolvimento começou com um pai que decidiu que os filhos não iriam a aulas que a lei define como obrigatórias, inventando uma objeção de consciência que não está em lado nenhum. Como estava previsto na lei, os alunos reprovariam por faltas injustificadas. No entanto, e ao contrário do que foi dito, o Ministério, por considerar que os dois alunos menores não podiam ser prejudicados por uma decisão imposta pelos pais, propôs um plano de recuperação mínimo para que os alunos não ficassem retidos.



Este artigo do secretário de Estado explica que plano era esse, para ficar clara a aldrabice que nos andaram a vender: elaboração de trabalhos escritos e orais sobre a diferença entre as características da infância, da adolescência e da idade adulta; Educação Ambiental e Literacia Financeira; Direitos Humanos (especificamente Direitos da Criança); sustentabilidade; educação alimentar; atividade física; e igualdade de género, com uma reflexão sobre representações, preconceito e discriminação, centrando-se na capacidade de exposição e argumentação das ideias dos alunos. O pai recusou, porque, usando os seus filhos como armas, o seu objetivo era sobrepor-se à lei.

O debate que se gerou baseia-se em dois equívocos. O primeiro parece equiparar a cidadania à religião. A religião é opcional e cabe ao Estado defender a liberdade de culto. A cidadania é um dever e cabe ao Estado usar os instrumentos ao seu dispor (a escola é um deles) para a promover. O segundo equívoco julga que o Estado democrático é neutro. Não é. Ele promove, com base na sua legitimidade democrática, um conjunto de valores essenciais. Não é neutro em relação à homofobia, ao machismo e ao racismo, por exemplo. Porque não é neutro em relação a valores como a igualdade e a tolerância. Não se baseia numa “ideologia”, mas na Constituição da República Portuguesa e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de que Portugal é signatário. Há quem não goste, mas o Estado não se torna neutro por não gostarem. É o preço de viver em democracia. Em ditadura, de que algumas destas pessoas são saudosas, é muito pior: o Estado não precisa de outra legitimidade para além da vontade de quem manda.

Também não gosto da forma como a história do colonialismo português é ensinado nas escolas. Penso ser demasiado benevolente com o nosso passado coletivo e que isso tem efeitos no presente. Continuarei a bater-me para que esse consenso seja alterado. Mas não me considero no direito de decidir que esta cadeira passa a ser facultativas para os meus filhos. Porque não é assim que as coisas funcionam em sociedade. E se um criacionista recusar as aulas de biologia? E se um qualquer grupo cultural ou religioso exigir que a escolaridade obrigatória deixe de incluir as raparigas e fizer objeção de consciência? A escola respeita os pais, mas nem é um mero prolongamento da sua vontade nem os filhos são propriedade deles. Se assim fosse, a escolaridade obrigatória seria intolerável. Os pais decidiam se valia a pena. Ela, com os respetivos currículos, é imposta, queiram ou não queiram os pais que os seus filhos os aprendam.

Li, numa rede social, um comentário elucidativo deste tempo. Uma pessoa partilhava um trabalho do Expresso em que se explicava em que consistia esta disciplina e como funcionava. O artigo era factual. Uma outra pessoas respondia que não seguissem a imprensa tendenciosa, que havia coisas muito mais pormenorizadas no YouTube. O eurodeputado Nuno Melo até garantiu que uma aula de educação física tinha sido interrompida por uma palestra para explicar aos alunos 67 tipos de sexualidade, incluindo atração por objetos inanimados. Quando lhe foi pedido que dissesse onde e quando tal tinha acontecido, recusou-se a esclarecer. E é este o problema: anda tudo a contar meias-verdades, meias-mentiras ou mentiras completas sobre este tema. E de repente acontece uma coisa extraordinária: com milhares de crianças nas aulas de cidadania e desenvolvimento, as pessoas falam do assunto como se estivessem a falar de uma realidade distante, que lhes chega por via das redes sociais.

São estes os domínios obrigatórios para todos os ciclos de ensino das aulas de cidadania: direitos humanos, igualdade de género, interculturalidade, desenvolvimento sustentável, educação ambiental e saúde. São estes os domínios obrigatórios para os ciclos de ensino básico: sexualidade, media, instituição e participação democrática, literacia financeira e educação para o consumo, risco e segurança rodoviária. Os domínios opcionais são empreendedorismo, mundo do trabalho, segurança, defesa e paz e voluntariado.

São estes os domínios que realmente preocupam os conservadores que querem que a cidadania seja facultativa: igualdade de género e sexualidade. São os mesmos assuntos que os preocupam sempre, pelos quais são, aliás, obcecados. Quanto ao primeiro caso, terão de mudar a Constituição: a discriminação por género ou orientação sexual, assim como étnica e outras, é combatida pelo Estado português. E a escola tem o dever constitucional de promover a igualdade. Quanto à segunda, pedem-nos que sejam eles a não tratar do assunto. E quando vem um referendo ao aborto, passam a pedir que o Estado prenda as suas filhas se o fizerem e que não se deve legalizar, deve-se ensinar... para depois não quererem que se ensine. Exigem que a sua negligência seja política de Estado.

Acontece que a ignorância neste tema produz vítimas. As primeiras são os seus filhos, negligenciados por ignorância, medo ou convicção dos pais, numa área fundamental da sua formação enquanto pessoas. As segundas são os frutos dessa negligência, crianças que surgem numa fase demasiado precoce da vida dos seus pais adolescentes. As terceiras são muitos milhares de jovens que sofrem na pele a discriminação, o sentimento de culpa, a indizível dor de se sentirem anormais por serem aquilo que são. As quartas somos todos nós, que temos de lidar, enquanto sociedade, com gravidez adolescentes, abortos legais ou ilegais e gente profundamente traumatizada. A escola não educa, dizem eles. Mas enganam-se. Educa cidadãos e seres humanos.

É preciso uma aldeia para educar um filho, diz-se. E para o defender também. Eu acrescentaria que é preciso uma cidade para formar um cidadão. Na forma como nos organizamos, essa aldeia ou cidade é a escola. Não substitui os pais, mas participa na preparação da vida dos seus filhos em comunidade. Desde que há escola que assim é, não vai mudar agora. O que muda é o que se ensina, porque mudou a sociedade.

Tendo perdido o domínio que tinham desta função, exercido antes pela Igreja ou pelo Estado autoritário, os ultraconservadores propõem uma impossibilidade: que a sociedade seja composta por núcleos familiares isolados que não partilham deveres, direitos e valores mínimos de convivência. Esses valores, que incluem os da igualdade, estão definidos na Constituição. Cada um manterá as suas convicções e as passará aos filhos, mas a sua aprendizagem na escola não é facultativa.

O que é milagroso? Que, em pleno regresso às aulas depois de meio ano com as escolas fechadas, estas pessoas tenham conseguido que o tema dominasse o debate público durante quinze dias. Um tema que preocupa um nicho da sociedade portuguesa. Por isso, demorei este tempo a tratar do assunto. Não fazer a vontade a políticos despertados por atenção que, dizendo-se representante das preocupações do português comum, vivem, nestes tempos difíceis, a léguas das verdadeiras angústias dos pais.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

VICENTE, ‘IN MEMORIAM’


Por estatuadesal
Clara Ferreira Alves, 
in Expresso, 
12/09/2020

A conversa começaria assim. Vicente, tenho de escrever sobre uma pessoa que morreu de quem gosto muito. Sabes como é, a chatice dessa espécie de obituário doloroso, a morte do amigo, do colega, da pessoa que fez parte da nossa vida durante anos, tão perto como família, uma das pessoas com quem crescemos e aprendemos.



O Vicente faria uma daquelas caras com um sobrolho levantado, o lábio de baixo descaído numa espécie de desgosto, levaria a mão à cabeça e apercebendo-se que o cabelo se tinha ausentado, tiraria os óculos e limpá-los-ia com toda a consciência, como quem lava um vidro de uma janela para ver melhor. Eh pá, eu sei, é uma chatice. Mas não puxes ao sentimental, conta uma história cómica, o homem parece que tinha o seu feitio, fez coisas importantes. Das coisas importantes falam, conta as histórias. Não pendas para o trágico. E eu responderia, como é que vou pender para o trágico se ele de trágico não tinha nada? Era um homem muito divertido.

Era um homem livre. E um grande jornalista, um grande diretor. E toda a gente gostava dele, apesar das discussões épicas sobre miudezas, sobre coisas sem importância. Havia um entendimento secreto, simples. A falta de qualidade deve ser rejeitada, e um jornalista tem de trabalhar em duas frentes: escrever e pensar com o rigor moral da liberdade. Era assim que o Vicente Jorge Silva trabalhava e aplicava a si mesmo as regras da exigência.

No dia em que a Revista do Expresso fechava, durante toda a noite, vinha uma hora em que o Vicente se abrigava no gabinete e berrava, vou escrever a minha cronaca. Crónáca. Assim. E enredado em escrúpulos gramaticais e lexicais, fumando um cigarro a que chamava o paf paf, paysage audiovisuel français, vá-se lá saber porquê, remoía com alguns de nós o tema da coisa. Ou remoía antes ou remoía depois, quando a crónáca estava escrita, mas não pronta. Era a hora da consulta popular, com meia dúzia de jornalistas que faziam o corpo da Revista do Expresso que o Vicente fundara com eles, ou do 1º Caderno, geralmente da Política. A crónica do V.J.S. abria a Revista e era maturada longamente e em coletivo. O coletivo justificava-se pelo facto de toda a Revista ser feita em coletivo, com um grupo de gente que vivia mais tempo na Duque de Palmela, e nos restaurantes da Duque de Palmela, incluindo o Pabe onde Francisco Balsemão tinha a mesa dele, a maior de todas, do que em casa.

A sede do Expresso era uma casa da democracia por duas razões. Porque quem era quem na democracia passava por lá, e tanto nos cruzávamos com um general no corredor como com um futuro ou passado primeiro-ministro, como a democracia interna do jornal era violentamente democrática. Toda a gente tinha uma opinião e toda a gente a dizia alto. Não existia a menor reverência perante o poder, pelo contrário. O único critério para ter opinião era ter qualidade. Ora, o Vicente era o vigilante de serviço, um astuto conhecedor da mediocridade e do oportunismo que verberava. Na Revista, a sua sede, o coletivo era constituído por um grupo de pessoas que se portava como uma família e o Vicente era o patriarca. Um patriarca bondoso, qualidade que ele tentava esconder com medo de o acharem macio e dúctil. Chamava-nos tontaços.

Ligeiramente surdo, gritava mais que toda a gente. Conheci-o antes, na casa de Mário Soares, em Nafarros. Era tudo o que eu achava que deve ser um jornalista. Via-se que afinava pela cartilha do Ben Bradlee no “Washington Post” do Watergate, a denúncia corajosa da corrupção e da amoralidade na política. Soares achava-lhe graça, gostava dele e nunca deixou de gostar mesmo quando foi picado por ele. Mas o que o distinguia era o amor pelo cinema e a literatura, pela cultura francesa e pela italiana, pelos cinemas esconsos da Rive Gauche de Paris onde comia e bebia filmes e pelas livrarias recheadas de debates e polémicas intelectuais que seguia com devoção. Nos anos 80, o mundo era um processo de descoberta da liberdade depois do 25 de Abril, mas o que tornava o V.J.S. diferente era o cosmopolitismo, tão diferente da escola de jornalismo ao tempo em Portugal, vetusta discípula de “O Século” e do “Diário de Notícias”. Esta escola tinha códigos e dogmas que a Revista rejeitou. Sem o Vicente, teria sido impossível estilhaçar o jornalismo canónico. E sem o cosmopolitismo do Vicente, teria sido impossível reunir aquele grupo selvagem de pessoas que não obedeciam a nada nem a coisa nenhuma. Com ele e com o António Mega Ferreira, outro cosmopolita, uma nova escola estava a ser inventada. Dela sairiam o “Público” e “O Independente”, e muita gente ilustre.

A fundação do “Público” teve momentos cortantes, quem foi e quem ficou. Eu fiquei, por lealdade ao jornal e a Balsemão e porque os textos que gostava de escrever não me pareciam de jornal diário. Trabalhara em dois diários e o ritmo era infernal e curto, partia-se sempre atrasado. Foi o que disse ao Vicente. Não foi fácil entremear a rivalidade com a amizade. Ele tinha um sonho, realizar um filme, uma longa-metragem, e o “Público” iria interpor-se entre o sonho e a realidade. O filme acabaria por vencer, quando se cansou do fecho diário e quando o “Público” estava estabilizado. A amizade ficou. Almoçávamos em ocasiões importantes. Quando ele resolveu ser deputado pelo PS. Vicente, vais aborrecer-te. Quando ele fez o “Porto Santo”. Vicente, não interessa nada se é ou não um sucesso, é um filme maravilhoso, tudo o que sempre quiseste fazer como cineasta. E quando ele conheceu a última mulher, Rosana, com quem ficou casado para sempre. Vicente, nunca te vi tão feliz. Tão harmonioso. Eh pá, que palavra foleira.

Creio que apesar de ter estado na origem dos grandes empreendimentos jornalísticos da segunda metade do século XX português, o Vicente se orgulhava mais do que tudo da família, a mulher e os três filhos. A mãe do primeiro filho morrera, uma mágoa da qual falava pouco. Ao herdar uma casa (um apartamento minúsculo) do Vicente quando ele se casou pela segunda vez, percebi que havia memórias que tinham ficado para trás. Fotografias. E o Vicente era descendente de uma família de fotógrafos da Madeira, a fotografia era para ele tanto ou mais importante do que a palavra e foi por causa disto que ele foi tão bom editor.

A morte dele é um bocado da nossa morte, ele foi um bocado da nossa vida. Era um tipo divertido. Realmente divertido. Lembro uma imitação que o Vicente fez do Eduardo Prado Coelho. Era a segunda eleição Mitterrand e encontrámo-nos todos em Paris. A Maria João Avillez, o Vicente, eu. No Marais, em casa do Eduardo Prado Coelho, conselheiro cultural. Casado com a Tereza Coelho, nessa altura da Revista, depois do “Público”. Um grupo de amigos aos berros no serão cheio de vitualhas, ninguém cozinhava, que todos tínhamos comprado e comido até fartar. Uma vozearia argumentativa e feliz, palavra foleira. O Eduardo despede-nos na porta com a frase, pelas quatro de manhã, e agora vou comer uma sandes de fiambre. O Vicente e eu, a caminho de um táxi, dobrámo-nos a rir. O Vicente a imitar “o Eduardinho”, de quem gostava muito, pespegado no meio da rua. E agora vou comer uma sandes de fiambre. Ficou a nossa piada particular. E agora vou comer uma sandes de fiambre. Lembro o E.P.C., lembro-me disto. Lembro o Vicente. Não consigo chorar.

sábado, 12 de setembro de 2020

Deslizes reprováveis


Pode ser legítimo, pode constituir um exercício de liberdade individual, mas não me parece correcto. Não é não me parece, constituem, isso sim, dois monumentais deslizes com efeitos políticos desagradáveis para o próprio e para o partido do qual é secretário-geral. O primeiro, deu-se naquele momento na Auto-Europa, onde, subtilmente, mostrou o seu apoio ao actual Presidente da República, esquecendo-se que as bases do seu partido têm, obviamente, uma palavra a dizer. O segundo, foi o  de permitir que o seu nome figurasse entre os nomes da Comissão de Honra da candidatura do Senhor Luís Filipe Vieira à presidência do Sport Lisboa e Benfica. Ambos os casos constituem deslizes reprováveis.



Começo pelo Benfica. Desde criança, talvez motivado pelas vitórias europeias nos anos 60, nutro simpatia pelo Benfica. Sou um daqueles que se o Benfica ganhar, tudo bem; mas se perder, também tudo bem! Simpatia é uma coisa, outra é viver doentiamente os resultados. Quero lá saber! Comigo, além fronteiras, o mesmo se passa com o Real Madrid. Sou sócio há 70 anos do Marítimo, com quotas pagas, mas há 40 que não entro no estádio. Ora, o Dr. António Costa pode ser fervoroso sócio do Benfica, mas não se pode esquecer que é Primeiro-Ministro. E não se pode esquecer que há processos que decorrem nos Tribunais que, alegadamente, não só não deixam bem vista a Magistratura, como pessoas activas no clube. Só por isto deveria ter o cuidado de não se envolver. 

Depois, a questão da Presidência da República. Não foi um apoio explícito, mas foi interpretado como tal. Os partidos não têm dono, mas às vezes parece-me que sim. O Dr. Marcelo R. Sousa foi, sem margem para qualquer dúvida, uma lufada de ar fresco depois de dez anos do Professor Cavaco Silva. Eu votei no Professor Sampaio da Nóvoa (independente) e voltaria a fazê-lo, embora, deste mandato do Professor Marcelo sejam poucas as situações que desaprovei. Gosto de um Presidente que esteja no meio do povo, mas aprecio, também, um certo recato, porque gosto de sentir que a Presidência constitui uma reserva de todos nós. Pessoalmente, o presidente não tem nem deve estar em todas as situações e muito menos falar de tudo. Porém, não deixo de sublinhar que, globalmente, fez ou está a fazer um bom mandato.

Só que, politicamente, o contrato com o Povo foi de cinco anos e manda a Democracia que, em Janeiro, tenhamos de escolher o nosso próximo Presidente. Seja quem for. Eu voto no perfil de um candidato, em alguém que tenha uma história pessoal para contar, voto nas características que o candidato reúne de inteligência, leitura e experiência internacional, capacidade de diálogo, respeitabilidade, serenidade, independência e honestidade. Neste momento, não voto, sequer, por ser candidato apoiado por este ou por aquele partido. Voto na pessoa.

De regresso ao Dr. António Costa, por respeito aos seus camaradas de partido e ao povo em geral, "dar com o cotovelo" no Professor Marcelo Rebelo de Sousa, tem explicação política, lá isso tem, mas "não vou por aí". Felizmente, no quadro das minhas referências políticas (ideológicas, também), sociais e culturais, há outras opções. Até porque não existem insubstituíveis, por maior agrado que tenham gerado.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Ana Gomes, candidata à Presidência da República


A frase, pela sua oportunidade, profundidade e contexto político:


"Não devo nem posso desertar deste combate pela Democracia"

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

A abjeção de eterno retorno


Fernanda Câncio, 
in Diário de Notícias, 
05/09/2020

Desde 1984, quando se decretou que devia haver educação sexual na escola, que periodicamente surge um escândalo fabricado seguido de manifesto para que tal não suceda. Nunca tínhamos era visto um ex presidente e um ex PM subscreverem a ideia de que a discriminação só se combate se os pais deixarem.



Em 2004, decidiu-se em França que na escola pública os alunos menores não podem comparecer ostentando símbolos religiosos. Anunciada sobretudo como uma proibição do véu muçulmano, a decisão incidiu sobre todas as formas de traje afetas à religião. Nem as meninas muçulmanas podem cobrir o cabelo com véu ou lenço - muito menos usar burqa ou niqab -, nem os rapazes judeus usar quipá, nem os cristãos exibir crucifixos. A lei foi apresentada como uma defesa da igualdade de género e da liberdade das crianças - "a sociedade francesa não pode aceitar atentados à liberdade dos sexos e ao seu convívio", lia-se no relatório de "sábios" que lhe deu origem -, e está em vigor até hoje.

Estranhamente, nunca vimos os habituais paladinos portugueses da "objeção de consciência" dos encarregados de educação face às imposições da escola pública fazerem referência a esta compressão da vontade e das convicções dos encarregados de educação, quanto mais contestá-la ou apresentá-la como "marxismo cultural", "ideologia de género" ou "politicamente correto".

Do mesmo modo, não vimos nenhuma dessas vozes rasgar as vestes quando em 2017 o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos deu razão à Suíça no processo que os pais islâmicos de duas meninas de 11 e nove anos ali tinham levado devido à multa de cerca de 1300 euros que lhes fora aplicada por recusarem que estas participassem nas aulas - obrigatórias - de natação.

Argumentou o tribunal que o interesse das crianças de terem acesso a uma educação completa deve prevalecer face ao desejo dos pais de terem as suas filhas isentas das aulas de natação. A disciplina de educação física, da qual a natação faz parte, é vista pelos juízes como tendo um especial papel no desenvolvimento e saúde das crianças, observando o acórdão que "a escola desempenha um papel fundamental no processo de integração social das crianças" e que "o interesse dos estudantes em participar dessas aulas não é apenas nadar ou fazer exercícios físicos, mas, sobretudo, participar dessas atividades com todos os outros alunos, sem qualquer exceção quanto à origem da criança ou às convicções religiosas ou filosóficas dos pais."

Convém talvez frisar que o motivo pelo qual algumas famílias muçulmanas - há muitos muçulmanos que não concordam com isso - querem que as filhas cubram o cabelo e de um modo geral permaneçam "cobertas", não participando em aulas de educação física ou natação, é a ideia de que existe uma diferença fundamental entre os sexos, com papéis de género muito definidos, e que as raparigas devem ser educadas de forma diferente e "protegidas" dos rapazes. Quem pensa assim considera ser seu direito inalienável impor essa perspetiva não só às suas filhas como à comunidade escolar, com o que tal implica de exemplo de discriminação - porque crê que as suas crenças religiosas estão acima de tudo. Como se viu, o TEDH rejeitou tal perspetiva, tornando claro que vê o direito das crianças à igualdade, à saúde e ao desenvolvimento pessoal como sobrelevando as convicções dos pais e considera que os interesses dos menores não são sempre melhor representados pelos progenitores, não sendo estes donos dos filhos. Afinal, aquela multa imposta pelo Estado suíço é uma pena pelo dano que infligiram às filhas - aos seus direitos humanos.

Sabemos que este tribunal nunca teve de apreciar um caso em que em vez de educação física esteja em causa uma disciplina que visa especificamente familiarizar os alunos com os princípios da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, e contribuir para que sejam cidadãos informados e responsáveis, como se passa com a disciplina portuguesa de Cidadania e Desenvolvimento. Mas em face da decisão citada parece pouco provável que aceitasse o mesmo tipo de argumentos daqueles pais para recusar uma disciplina que visa evitar comportamentos de risco, sensibilizar para as questões ambientais, promover a igualdade de género e a não discriminação e contribuir para o conhecimento pelas crianças e jovens dos seus direitos e deveres.

Falo, claro, do pai de Famalicão que quer ver a sua "objeção de consciência" à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento reconhecida na justiça depois de impedir os dois filhos de a frequentar e vê-los chumbar por faltas não justificadas por esse motivo. O caso, no qual a justiça portuguesa deverá ter em consideração a decisão de 2017 do TEDH, será interessante de seguir. Até porque veremos pela primeira vez tratada nos tribunais uma questão que está sempre a regressar à discussão pública, trazida sempre pelos mesmos - agora com o oportunista apoio de outros - e poderemos finalmente ouvir os argumentos dos que se lhe opõem tão desesperadamente.

Trata-se, como esclarece o progenitor em causa, Artur Mesquita Guimarães, da educação sexual. Porque é que tanto o apavora que a escola fale disso não diz; afirma apenas que é "competência dos pais". Também o manifesto que surgiu esta semana contra a obrigatoriedade da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento repete a ladainha: "No programa da referida disciplina inclui-se ensinamento sobre matéria de opinião íntima pessoal, moral e religiosa. Esta matéria tem sido publicamente anunciada em vista a libertar os alunos de "preconceitos e estereótipos" relativos à questão de género, e alterar "costumes, atitudes e valores" em matéria de sexualidade, assuntos que pertencem à responsabilidade educativa da família e não do Estado."

Mete sexo? É com os pais. Não surpreende ver sob estas palavras as assinaturas de prelados e reconhecidos fundamentalistas católicos, como não surpreenderia ver a de fundamentalistas muçulmanos - os pais das meninas suíças impedidas de nadar assinariam de cruz. Mas encontrar ali um ex-presidente da República (Cavaco), um ex PGR e juiz do Supremo (Souto de Moura) e um ex primeiro-ministro (Passos), todos da democracia e portanto da obediência à Constituição em vigor e à legislação europeia, não pode deixar de chocar.

É que, como se lê na muito resoluta resolução do Conselho de Ministros chefiado por Passos que em 2013 aprovou o V Plano Nacional para a Igualdade, Género, Cidadania e Não-discriminação 2014-2017, "é tarefa fundamental do Estado promover a igualdade entre mulheres e homens, sendo princípio fundamental da Constituição da República Portuguesa e estruturante do Estado de direito democrático a não-discriminação em função do sexo ou da orientação sexual."

Princípio fundamental e estruturante mas opcional, será? Parece que não: "A prossecução de políticas ativas de igualdade entre mulheres e homens é um dever inequívoco de qualquer governo e uma obrigação de todos aqueles e aquelas que asseguram o serviço público em geral."

Para tal, a resolução, cuja leitura se recomenda a todos e particularmente ao ex-primeiro-ministro que a assinou, privilegia "ações na área da educação enquanto pilar das políticas para a igualdade", nomeadamente "a produção do Guião de Educação, Género e Cidadania destinado ao ensino secundário (...) e que a igualdade de género constitua um eixo estruturante das orientações a produzir para a educação pré-escolar e para o ensino básico e secundário." Mais: reconhecendo que "tradicionalmente a sociedade portuguesa tem revelado alguma permissividade face às discriminações, no que diz respeito à orientação sexual e à identidade de género", anuncia-se como objetivo estratégico "prevenir e combater todas as formas de discriminação em função da orientação sexual e da identidade de género e promover a sensibilização de toda a sociedade portuguesa para esta problemática."

Poderá Passos, como poderão Cavaco o ex-ministro da Educação David Justino, também signatário do manifesto - e que em 2004, enquanto titular da pasta, defendeu que a educação sexual deveria fazer parte, incluída "num conjunto de questões ligadas à educação para a saúde e cidadania", de uma disciplina obrigatória ao longo de sete anos -, alegar que mudou de ideias. Que afinal as discriminações não devem ser combatidas pelo Estado, que a legislação europeia deve ser ignorada, que a defesa da igualdade na escola é só se os pais quiserem e que se a sociedade portuguesa é permissiva face à exclusão de pessoas, incluindo crianças, por causa da sua identidade de género e orientação sexual, ou se os estereótipos de género continuam a penalizar muito as meninas e mulheres - como a resolução citada reconhece - olha, azar.

Pode Passos, como podem Cavaco e Justino, até defender a "imediata revogação das leis de igualdade de género", à imagem do partido que está a marcar-lhes a agenda. Podem, em inconsciência ou consciência, objetar à Constituição. Podem isso tudo - e nós sentir abjeção.

Jornalista

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Porra, morreu o Vicente! Não é justo.

Por 
Nicolau Santos

Acabo de levar um soco de todo o tamanho. Abri o site do Publico e li: «Morreu Vicente Jorge Silva, primeiro diretor do Público e um jornalista exigente que fez história no jornalismo». Não acredito. Então, Vicente, tu morres-nos assim sem mais nem menos, sem avisar, sem te fazermos um grande jantar e termos uma grande conversa, aos gritos, para tu conseguires ouvir?



O Vicente não foi apenas o primeiro diretor do Público, como titula secamente a notícia (que devia estar a abrir o site, porra! O Vicente é o Vicente, o pai do Público!). Foi o fundador (a ideia é dele) de criar um jornal diário de referência em Portugal, à semelhança dos grandes jornais norte-americanos e europeus. Foi ele que criou o núcleo que o acompanhou desde o início da aventura e foi ele que escolheu Henrique Cayatte para desenhar o jornal mais elegante e de melhor bom gosto do ponto de vista gráfico que alguma vez existiu em Portugal.

Mas foi ele também que tornou o Comércio do Funchal uma referência de liberdade nos tempos do fascismo, ou que criou a Revista do Expresso, outro projeto incontornável do jornalismo em Portugal, pela abertura à Cultura e ao noticiário internacional que trouxe aos leitores. Com o Vicente, Portugal deixou de ser uma paróquia jornalística e entrou na modernidade. O Público foi um projeto que, se fosse escrito em inglês, estaria ao nível do New York Times, do Washington Post ou do Guardian.

Para além do fabuloso jornalista que foi, o Vicente era também uma excelente pessoa, profundamente bom, intrinsecamente saudável. Num processo muito conturbado como foi a sua demissão do Público, tendo-lhe eu sucedido, encontrou-se comigo sem qualquer ressentimento para me dar os seus conselhos e fazer alguns avisos. Ao longo dos anos fomos falando e quando fez uma exposição de fotografia em Lisboa, uma das suas paixões, comprei-lhe um quadro com uma lindíssima foto que está à entrada da minha casa. É o mar na sua imensidão azul escuro ao lusco-fusco e uma pequeníssima luz bruxuleante no meio de um barco pesqueiro, uma foto tirada da janela de sua casa no Funchal com a máquina pouco sofisticada que utilizava.

Outros dirão muito mais porque sabem bem mais do que eu sobre o Vicente. Para mim ele será sempre o melhor jornalista português e uma pessoa que continuarei a admirar na sua genialidade, mas também na sua pureza e nos seus grãos de loucura, como aquele em que recusou submeter-se aos ditames de Juan Luís Cébrian, do El País, e terminou abruptamente a reunião, dizendo-lhe: «José Luís, são precisos dois para dançar o tango. E eu não quero dançar o tango contigo». Ou quando, no primeiro trabalho que fiz para a Revista, me perguntou aos gritos (era surdo e, por isso, falava muito alto) «mas quem são estes gajos, o Bagão Félix e o Augusto Mateus? Ninguém os conhece!».

Meu querido Vicente, estou em choque. Nunca mais ouvir-te ou rir-me contigo provoca-me uma tristeza do tamanho do mundo e seguramente para todos os que conviveram contigo. Eras um líder carismático mas, ao mesmo tempo, uma excelente pessoa. Olho pela janela e vejo o Tejo transformado em lágrimas. Até sempre, Vicente.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A culpa é sempre do falecido?


Por estatuadesal
Francisco Louçã
in Expresso,
01/09/2020

Não é ainda público o relatório da Deloitte sobre o BES-Novo Banco (será que haverá uma tentativa de o manter secreto?) mas já surgiu, noite dentro, uma barragem informativa para interpretar as suas conclusões. O primeiro movimento foi o do comunicado do Ministério das Finanças, à 1h37' da manhã, que garante que as perdas “decorreram fundamentalmente de exposições a ativos que tiveram origem no período de atividade do BES”, ou seja, até 2014. Assim, por causa da herança maldita do BES, entre 4 de agosto de 2014 (o dia seguinte à resolução pelo Banco de Portugal e pelo governo Passos Coelho) e 31 de dezembro de 2018 teriam sido gerados 4042 milhões de perdas, que o Novo Banco veio depois a suportar (2300 milhões de euros em operações de crédito, 488 milhões em subsidiárias e 1234 milhões em misteriosos “outros ativos” não especificados). Em resumo, a culpa é do falecido.



Se for esse o teor do relatório, tem um custo, que não é ligeiro: significaria apontar a dedo os promotores de uma fraude encobrindo fraudes anteriores. Convém lembrar que, na resolução, foi garantido que tinha sido feita a separação dos créditos maus e que o Novo Banco estava livre de riscos; que o Banco de Portugal procedeu depois a uma segunda resolução, jurando então que não restava resquício de risco; que as autoridades de supervisão autorizaram e os auditores assinaram as contas, certificando o cálculo das imparidades; que a administração do banco, incluindo António Ramalho, publicitou que não havia nenhum defeito no provisionamento de créditos suspeitos ou arriscados. Ou seja, há seis anos que nos dizem que nunca poderiam surgir novas imparidades nas operações tão cuidadosamente verificadas.

Agora, é-nos dito que as perdas terão sido de 4042 milhões até 2018 porque essas contas eram falsas (espero que ninguém me tente convencer que créditos imobiliários devidamente avaliados se desvalorizaram em catadupa num período de auge especulativo da habitação), um número encantadoramente vizinho dos 3900 milhões que o Estado se comprometeu a pagar na eventualidade, dita impossível, de haver erros naquelas contas tão escrutinadas. Portanto, quem decidiu a resolução tê-lo-ia feito em inconsciência ou, pior, em consciência.

O coro de certezas sobre as contas certificadas cobriu todo o período desde a resolução (2014) até à venda à Lone Star (2016) e prolongou-se até hoje, só tendo sido interrompido quando, cada ano, foram reveladas novas perdas no valor conveniente para assegurar o cheque do Estado, tendo em cada ocasião a administração reiterado que se tratava da última vez. As contas foram sempre de confiança até à véspera de pedir a anualidade, e voltaram a sê-lo no dia seguinte, até à prestação seguinte. Ou seja, as contas foram sempre um embuste.

Diz-nos ainda o Público que o relatório da Deloitte, porventura pressionado pelas investigações jornalísticas, inclui a análise de uma operação de outubro de 2019, a venda da seguradora GNB Vida por 123 milhões de euros. A venda tinha sido aprazada por 190 milhões, quatro meses depois de o banco ter registado nas suas certificadissimas contas 400 milhões como valor deste ativo, e a Greg Lindberg, um financeiro norte-americano então acusado e agora condenado por crimes. Não sendo legalmente possível proceder a essa venda pela situação do comprador, o Novo Banco decidiu não anular o contrato, ao contrário do que aconteceu com outros negócios comparáveis na Europa, e esperar por um novo interessado, a Apax, que curiosamente tem sede no mesmo escritório de Lindberg em Londres e a quem fez um segundo generoso desconto, desta vez de mais 67 milhões, tendo ainda financiado esta operação. Essa perda foi, naturalmente, paga pelo Estado. Mas tudo foi aceite, era essa a natureza do contrato com a Lone Star.

A 14 de maio deste ano, na sequência da quezília entre Centeno e Costa sobre se devia ter sido feito o pagamento ao Novo Banco antes da auditoria, o primeiro-ministro, cedendo ao ministro, emitiu um comunicado em que se afirmava que “ficou também confirmado que as contas do Novo Banco relativas ao exercício de 2019, para além da supervisão do Banco Central Europeu, foram ainda auditadas previamente à concessão deste empréstimo”. E listava ainda as auditorias que garantiriam a correção das contas: “em primeiro lugar, pela Ernst & Young, auditora oficial do banco; em segundo lugar, pela Comissão de Acompanhamento do mecanismo de capital contingente do Novo Banco, composta pelo Dr. José Bracinha Vieira e pelo Dr. José Rodrigues de Jesus; e ainda pelo agente verificador designado pelo Fundo de Resolução, Oliver Wyman”.

A lista impressiona e, no entanto, nenhum destes auditores e autoridades terá cuidado da venda de um ativo de centenas de milhões de euros a um criminoso, com quase 70% de desconto, com prejuízo pago pelo contribuinte. Assim, quando à 1h37' desta madrugada o ministério nos revela que um relatório ainda secreto remeteria toda a culpa para o avô do Novo Banco e, porventura, para a desatenção dos auditores no passado distante, esquece com ligeireza algumas operações que decorreram durante o seu turno e, sobretudo, a incúria que permitiu que uma mentira tão repetida e tão evidente fosse aceite com a maior naturalidade.

Não é difícil concluir que o país foi enganado durante os seis anos desde a resolução e que nem houve muito esforço para disfarçar a trapaça.

domingo, 30 de agosto de 2020

Memória - Verão camarário muito quente de 1994

O Dnotícias recordou e bem que, há 26 anos, o Professor Virgílio Pereira demitiu-se da presidência da Câmara Municipal do Funchal, em litígio com o presidente do governo, Dr. Alberto João Jardim. Não vou aqui narrar todos os contornos da história. No essencial, a Câmara, na sequência dos mandatos do Senhor João Dantas (PSD), devia, permitam-me a expressão, "uma pipa de massa". O Professor Virgílio era então Deputado no Parlamento Europeu e aceitou o convite para encabeçar a candidatura à liderança do executivo camarário. Consta que a dívida, sendo significativa, contou com o compromisso do Dr. Jardim de que seria saldada, se não na totalidade, pelo menos em uma grande parte, o que permitiria, no caso de vitória eleitoral, o Professor Virgílio Pereira governar a autarquia com estabilidade.


O compromisso não foi concretizado e as situações começaram a azedar, logo no início do mandato, até ao ponto do Dr. Jardim ter afirmado que "bom (presidente) é aquele que governa bem e faz obras mesmo sem dinheiro”. O disparo político, intencional ou não, foi feito no areal do Porto Santo. E o Professor Virgílio deu, serenamente, a resposta própria de um político com coluna: se é assim, demito-me já. E em Setembro isso aconteceu.

À contar da esquerda na foto em baixo: Dr. Jorge Martins, Arquitecto João Conceição, André Escórcio, Dr. Miguel Albuquerque, Armindo Abreu, Professor Virgílio Pereira e Arquitecta Elisabete.

O Professor Virgílio (PSD) e eu, pelo PS, estivemos envolvidos em uma longa campanha eleitoral em 1993. Nunca antes vista em eleições anteriores, asseguram-me. Foi taco-a-taco durante vários meses. Interessante foi o facto, logo que o Dr. Jardim teve conhecimento que eu seria o candidato pelo PS, ter dito que já poderia ir de férias descansado. Mais tarde, depois de um debate que a RTP-M promoveu, conduzido pelo ex-jornalista José Manuel Rodrigues, hoje presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, um  outro jornalista confidenciou-me que o líder do PSD estava a fazer "horas extraordinárias" pela candidatura do meu adversário político. Na realidade, fiquei com o sentimento que tinha valido a pena ter estudado, profundamente, todos os dossiers da cidade. Lembro-me de ter realizado 63 reuniões preparatórias com as forças vivas da cidade, com a ajuda da notável equipa que me rodeou. O Professor Virgílio Pereira, julgo eu, acreditou que a sua experiência seria suficiente para ultrapassar um iniciado àquele nível de debate político. Daí que, posteriormente, tivesse assumido: "a minha postura (no debate) talvez não tenha sido a mais correcta; deveria ter exigido o volte-face durante o debate e não consegui" (Dn. pág. 7 de 22.07.1993).

"Vamos bater-nos com galhardia e depois de tudo isto continuaremos amigos"
- Professor Virgílio Pereira


Recordo que uns dias antes o jornalista Luís Calisto (Dn) tinha-nos juntado no Pico dos Barcelos para um encontro. Foi, como disse o Luís Calisto, o aquecimento, que decorreu com absoluta cordialidade. Recordo esse momento com muito agrado, pela forma como discutimos alguns problemas, com algumas alfinetadas pelo meio, obviamente que sim, mas com respeito de ambas as partes. Afinal ele era um Senhor Deputado do Parlamento Europeu e eu um cidadão convidado pelo meu Amigo Dr. Mota Torres, presidente do PS-Madeira, e cuja experiência política activa resumia-se a quatro anos na Assembleia Municipal do Funchal. 

Nas contas finais perdi a eleição, por pouco, após uma "esfrega" de vários meses com um enorme entusiasmo. Depois, aconteceu a sua demissão pelas razões que, inicialmente, equacionei em traços gerais. O curioso de tudo isto, é que o Professor, fazendo jus ao que chegou a transmitir, publicamente, isto é, a sua oposição a "qualquer democracia musculada", quando decidiu demitir-se, teve a elevação de chamar-me ao seu gabinete, na Câmara, enquanto líder da oposição, para uma longa conversa. Disse-me que ia demitir-se e que não tinha outra alternativa. Fiz-lhe ver que compreendia, mas que não seria oportuno. A cidade apresentava um quadro degradado de "alto a baixo" (slogan da sua campanha) e que só com determinação, responsabilidade e respeito pela oposição, poderia ser ensaiada uma mudança consistente. Uma crise política não seria recomendável, quando estávamos com oito meses de mandato. Foi irredutível e e, aí chegado, disse-lhe que, então, seria melhor clarificar a posição eleitoral através de eleições. Respondeu-me: essa luta não me diz respeito, certo é que vou embora. Não houve novas eleições e o Dr. Miguel Albuquerque assumiu o lugar de presidente.

Apreciei a sua postura de homem e de político. As picardias da campanha e mesmo a minha postura à mesa da vereação tinham ficado definitivamente enterradas. Por isso, mantivemos uma irrepreensível cordialidade sempre que nos encontrávamos e nos encontramos. Tenho apreço pelo Professor Virgílio Pereira. Temos, politicamente, posições divergentes em vários assuntos. Ainda bem. Mas sempre vi nele um Homem politicamente decente, que nada tinha e tem a ver com certos comportamentos que uma verdadeira Democracia exige. É um social-democrata convicto, em síntese, uma figura que sempre se opôs àquilo que ele na altura designava por "democracia musculada". Por isso teve os seus dissabores partidários. 

Apesar de não convivermos, tenho presente as suas palavras no Pico dos Barcelos: "vamos bater-nos com galhardia e, depois de tudo isto, continuaremos amigos".

O Dnotícias lembrou o conturbado Verão de 1994. Foi bom recordá-lo, pois isso fez-me, também, trazer à memória um tempo que me "apaixonei" pela política séria, com princípios e com valores. Foi com o meu Amigo Dr. Mota Torres e, mais tarde, com outras figuras, que consolidei essa ideia que o exercício da política só faz sentido quando norteado por eles. Hoje, não tenho partido, mas continuo fiel aos princípios e aos valores políticos, económicos, sociais e culturais.


Esta a equipa, que considero notável e a quem muito devo, que se candidatou à Câmara Municipal do Funchal: no primeiro plano, Engº Arlindo Oliveira, André Escórcio, Arquitecta Elisabete; no segundo plano, também da esquerda para a direita: Drª Isabel Freitas, Dr. Manuel Caetano, Dr. Sales Caldeira, Dr. José António Cardoso, Dr. Carlos Varela e Dr. Gualberto Soares. Uma equipa que, pelas suas formações académicas, daria total resposta a todos os sectores da autarquia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

GOSTARIA DE VER ALGUMAS PERSONAGENS COMO CANDIDATOS, NEM QUE FOSSE A UMA JUNTA DE FREGUESIA!


FACTO 
" Costa usa dinheiros públicos em função de interesses partidários" - Dr. Jaime Filipe Ramos, líder parlamentar do PSD-M na Assembleia Legislativa da Madeira. Fonte: 1ª pág. do Dnotícias.

COMENTÁRIO 


“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade“, frase atribuída a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazi. O senhor Deputado, como é vulgar dizer-se, tem muitos anos a "virar frangos"! Desde cedo, nos corredores da aprendizagem política, compreendeu que virar o bico ao prego, esquecendo-se dos próprios comportamentos, que uma determinada situação, repetida até à exaustão, acaba por ter dois efeitos: primeiro, esquecer os próprios comportamentos do partido a que pertence; segundo, mediaticamente, centrar no adversário político a sua própria história comportamental. 
Não sei se o Primeiro-ministro utiliza os dinheiros públicos para interesse partidário. Se o faz está errado. Aliás, há entidades fiscalizadoras e denunciadoras, pelo que, se aquela declaração tem fundamento, enquanto Deputado, deve denunciá-las nos lugares certos. É assim que a Democracia deve funcionar em defesa de todos.
O que me deixa perplexo é a não existência de um espelho sobre aquilo que é prática continuada na Região, desde sempre, no quadro da sua Autonomia. Pergunto: o que são as festas de quase todos os frutos, hortícolas e não só, com palcos e discursos de propaganda? Quem os paga? O que têm sido as festarolas aquando das inaugurações? Quem as paga e algumas vezes a troco de quê? O que tem sido o controlo do poder desde clubes, associações até às casas do povo? O que tem sido o controlo da Administração Pública? O que tem sido o prémio aos fiéis e uma certa perseguição aos que não comungam da mesma mesa? O que têm sido, pelo que se lê, alguns "concursos" feitos à medida?
Torna-se insustentável quando as pessoas não assumem os seus próprios erros. Quando tudo é sempre culpa dos outros. Isto, quando nós, seres humanos, estamos sujeitos ao erro e condenados a aprender com eles. Mas, na política, há quem, humildemente, não consiga assumir esse princípio, antes prefira jogar para os outros as próprias insuficiências e comportamentos.
Tão grave quanto isto, é o facto dos que assim falam, julgo eu, portadores de um conhecimento que escapa aos demais, não terem a coragem política de se assumirem como candidatos a qualquer coisa, mesmo que seja a uma Junta de Freguesia, para avaliarem o seu peso eleitoral, isto é, o que pensam os eleitores sobre as suas atitudes. Jogam sempre na sombra dos outros e martelam e martelam... Não há paciência, seja lá por quem for.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

A (des)Ordem


Ana Rita Má, 
in Facebook, 
24/08/2020)

Por respeito aos nossos velhos tão maltratados em lares, muitas vezes pagos a peso de ouro, eu nem queria pronunciar-me sobre a triste novela que envolve um dos principais rostos da oposição a este governo desde há largos meses e o primeiro-ministro. E depois, vejo as várias associações de médicos virem entretanto a terreno clamar por respeito porque António Costa acusou de cobardolas alguns médicos designados para dar apoio num desses lares. E é aqui que já não me contenho. Bem sei, tenho mau feitio. Ou ainda acabo a passar por chefe de claque do governo do Costa, sabe-se lá!



A reação corporativa destas entidades e de ALGUNS destes profissionais, com principal enfoque para a Ordem dos Médicos é a mesma que faz com que a maior parte das queixas de utentes/doentes nunca dê em porra nenhuma, certo?

Onde andou o dono da Ordem durante alguns anos? Como explica tantos processos enterrados no esquecimento e na impunidade? Quantos médicos incompetentes têm sido responsabilizados por danos severos e tantas vezes a morte causados aos seus doentes? Quantos médicos escalados para estar de serviço em hospitais públicos, nesses mesmos horários estão em clínicas ou consultórios privados? Quantos usam o serviço público, onde ganham competências, como trampolim para negócios privados? Que provas já deu o dono da Ordem dos Médicos sobre o seu empenho em contribuir para um SNS mais competente e mais forte?

E agora, António Costa. Santa ingenuidade! Que incompetência, deixar-se apanhar num desabafo quiçá legítimo, não contra toda uma classe, como nos pretendem fazer crer, mas contra pessoas devidamente identificadas em relatórios. Culpado de muitas outras coisas, não disto.

Quanto à ética no jornalismo, não me pronuncio. A avaliar pelo que se vê e lê, é coisa que anda pelas ruas da amargura. A 'fuga', entretanto, cumpriu os seus propósitos.

Para terminar, duas notas:

Obrigada a todos os médicos e médicas incógnitos, profissionais, competentes, a dar o seu melhor nem sempre com os recursos que lhes são devidos. Ao SNS, que nos cumpre fortalecer e proteger.

Em vez de andarmos a apontar o dedo à árvore, talvez fosse bom olharmos para a floresta. Uma civilização democrática e de bem não pode tratar dos seus velhos como estamos a fazê-lo. E é essa a discussão que importa fazer. Como vamos cuidar dos nossos avós e dos nossos pais? Vamos deixar que sejam os privados a fazê-lo?

Ontem já era tarde.

sábado, 22 de agosto de 2020

Vem aí o fascismo?

 
Por
Miguel Sousa Tavares,
in Expresso,
22/08/2020

1 Nas férias, andei tão distraído quanto convém a quem está de férias, mas não o suficiente para deixar de ler jornais ou seguir notícias, o meu vício mais incurável. Com Lisboa a uma profiláctica distância, lá acompanhei o que de mais palpitante parecia estar a acontecer na capital, esgotada a indignação pública pela morte de umas dezenas de cães e gatos queimados num “centro de acolhimento” para animais vadios, dos vários criados por força da influência do PAN sobre a hipocrisia dos seus pares na Assembleia da República. Tomei assim conhecimento de novas e ocasionais demonstrações de vida da nossa extrema-direita anti-sistema, as fotografias daquela meia dúzia de idiotas a brincar ao Ku Klux Klan e a notícia de umas ameaças de morte enviadas por e-mail a três deputadas e ao dirigente do SOS Racismo, Mamadou Ba. 


Nada de grave, pensei para comigo: a extrema-direita a sério é muito mais do que isto, incomparavelmente mais — mais gente, menos folclore e mais organização, menos ameaças e mais actos. Mas parece que estava enganado. Imediatamente, todos os responsáveis do país foram chamados a pronunciar-se publicamente sobre a “onda de racismo e chauvinismo” que varria Portugal de lés a lés; editorialistas inflamados esgotaram os adjectivos em apelos lancinantes contra a marcha imparável da extrema-direita antidemocrática, contra André Ventura — identificado como o líder oculto-óbvio de toda esta onda — e contra Rui Rio, o seu cúmplice; leitores obedientes encheram os jornais de cartas a proclamarem-se prontos para o combate; movimentos de várias origens e espécies logo convocaram uma manifestação para o Largo de Camões, finda a qual se zangaram uns com os outros; e, dos seus lugares sempre misteriosos, imergiram os inevitáveis abaixo-assinados, eterno asilo intelectual dos simples de espírito e dos esquecidos do público, para garantirem a todos nós, com a credibilidade da sua assinatura, que tudo isto era uma ameaça terrível e tudo isto estava intimamente ligado: racismo, xenofobia, machismo, homofobia, populismo. E, no fim da história, o regresso do fascismo, que é aquilo que, garantem eles, nos espera ao virar da esquina.

Porém, após mais de uma semana passada numa Lisboa quase deserta, magnificamente disponível não apenas para os turistas e os ciclistas, queria descansar os lisboetas que ainda estão de férias e ausentes (e suponho que o mesmo é extrapolável para o resto do país): sosseguem, não vi sinais alguns de tragédia à vista. Não vi negros discriminados, mulheres maltratadas, gays ou lésbicas olhados de viés, imigrantes mandados de volta a casa. Não vi um polícia com ar feroz em cada esquina (aliás, quase não os vi), não vi ninguém com ar de bufo, não vi secções de tipos vestidos de blusões negros e bastões escondidos, não vi medo nos rostos de ninguém, pelo contrário: ou muito me engano, ou vi gente, portuguesa ou estrangeira, com um ar descontraído, tranquilo, feliz, sem pressa, sentados nas esplanadas, nos cafés, nos jardins, caminhando pelas ruas, namorando, conversando, rindo — apesar das máscaras, apesar da pandemia. Digo-vos, com a experiência de quem conheceu o fascismo e várias ditaduras: alguém nos mente. Alguém, sentado numa redacção de jornal ou num gabinete de estudos sociais de numa qualquer universidade, anda a vender-nos um país que não existe nas ruas mas de cuja suposta existência talvez dependa a deles. Mas isto é uma coisa séria. O fascismo, o racismo são coisas sérias. E não se brinca com coisas sérias.

É evidente que há racismo em Portugal ou entre os portugueses, como existe em todos os países ou entre todos os povos. Mas decretar, para valer como verdade inquestionável, como alguns pretendem, que Portugal é um país racista é tão estúpido e tão inútil para ajudar a resolver o problema como jurar o seu contrário. O racismo é um fenómeno muito mais complexo e individual do que a simples educação, classe social ou ideologia permitem explicar. Há gente altamente educada que é racista, assim como há vastas camadas populares racistas, e há gente de esquerda — até mesmo dos que assinam manifestos e vão a manifestações — que é racista sem o assumir ou sem o saber. E há quem não seja racista com os negros e o seja com os ciganos, os árabes ou os asiáticos, assim como há negros que são militantemente racistas com os brancos. Proclamar que toda a polícia é racista ou, como já vi dito, que, no limite, todos os brancos são racistas pelo simples facto de serem brancos são argumentos de terra queimada que apenas servem para extremar os campos e empurrar gente para os braços da extrema-direita. É o mesmo tipo de argumentação, agora tão em moda e em modo quase imperativo, dos que querem reduzir a fabulosa história das navegações portuguesas a “achamentos” do acaso, logo aproveitados para o único fim da exploração das terras descobertas através do trabalho escravo.

Este é o tipo de discurso de que a extrema-direita se alimenta e que alguns lhe servem à medida. Proclamar que quem não reconhece Portugal como um país racista é um negacionista, que quem se atreve a dizer que há problemas causados pelos ciganos dentro e fora das suas comunidades é um populista seguidor de André Ventura, que quem se opõe ao derrube das estátuas dos descobridores ou quer celebrar as datas marcantes do ciclo das Descobertas portuguesas é um defensor do esclavagismo, que quem não gosta do estilo arrogante da deputada Joacine é um chauvinista que a quer mandar para a terra dela, e por aí fora, seguindo o index do histericamente correcto estabelecido e a cada dia acrescentado, tudo isso tem como único efeito útil irritar cada vez mais gente e levar alguma dela a sentir-se tentada a procurar refúgio onde os demagogos lhe dizem que estão os “verdadeiros valores portugueses”. Vamos do 8 ao 80, do mais imbecil patrioteirismo, que nos leva a celebrar como heróis nacionais os que as redes sociais e as revistas enaltecem e o Fisco perdoa, até ao masoquismo patriótico militante, que propõe como código genético para cada português uma herança de crimes espalhados pelos cinco oceanos e ainda por expiar.

Mas vivemos hoje. E, hoje, o que há a fazer contra o racismo é simultaneamente simples e difícil: aplicar as leis que temos, que são adequadas e suficientes, sem desculpas nem hesitações, mas também sem juízos de valor pré­vios; educar, discutir e convencer; ensinar a mais-valia de um país que é ao mesmo tempo de emigração e de acolhimento, para quem a descoberta do “outro” foi sempre um motivo de avanço e nunca de temor; e resistir à tentação suicida de reduzir os adversários ao silêncio e à clandestinidade, que é justamente o que eles querem, em lugar de os expor à luz crua da sua bestialidade e do seu incurável ridículo.

E, quanto ao fascismo, recomendo uma simples passagem pelos livros de História. Até àquele marco que foi o dia 1 de Maio de 1974, quando Portugal inteiro estava na rua, assinalando o momento em que todos os portugueses, sem excepção, passaram a ser oficialmente antifascistas.

2 Umas horas a assistir à Convenção Democrata online deixaram-me profundamente acabrunhado: ou alguma coisa de inesperado acontece até lá ou Donald Trump vai ser reeleito em Novembro, sem precisar sequer de fazer batota. É inacreditável como, após quatro anos de um saltea­dor na Casa Branca, os democratas não conseguiram produzir melhor do que um candidato a Presidente incapaz de mobilizar um moribundo a quem prometesse mais 10 anos de saúde e uma candidata a vice que é mulher e negra, ponto final. A indisfarçável incapacidade demonstrada pelos sucessivos discursos dos notáveis do partido em explicar porque deveria Joe Bidden ser Presidente não deixou lugar a ilusões: já vi enterros mais entusiásticos.

3 Para adaptar o antigo, e agora abandonado, Hospital Militar de Belém a hospital de retaguarda para doentes covid, orçamentou-se uma verba de 750 mil euros, apenas para 20 camas. E por essas 20 camas passaram 60 doentes, mas a conta final acabou nos 3 milhões: 46 mil euros por doente ou 150 mil por cama! Que mais irão as nossas Forças Armadas conseguir fazer para se desprestigiar?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

BEM PREGA... "FREI" CALADO!



FACTO

O dia 21 de Agosto é o Dia da Cidade do Funchal. Hoje, o governo regional, perante o programa apresentado, que não contempla qualquer intervenção por parte do governo na cerimónia comemorativa,, em comunicado, diz-se: "chocado" pelo "desrespeito institucional e das regras de sã convivência democrática", pelo facto da Câmara, tentar "amordaçar o governo" com "tiques de despotismo". Fonte: Dnotícias.

COMENTÁRIO

Nunca aceitei que, nos dias das cidades da região e dias dos concelhos, um representante do governo tivesse o direito quase "obrigatório" de usar da palavra. 
Neste caso, o dia é da cidade do Funchal e, por isso, têm direito à palavra, o presidente da Assembleia Municipal (PSD), todos os representantes das forças políticas representadas na Assembleia e, naturalmente, o Presidente da Câmara Municipal. Nada mais. Do meu ponto de vista, o dia do concelho ou da cidade, não deve servir para ajustes de contas entre os dois patamares da política. Para falar da cidade, dos aspectos positivos e negativos, estão lá os partidos políticos, o presidente da Assembleia e o Presidente da Câmara. 
O que me espanta é uma ausência de memória relativamente ao que se passou durante mais de 30 anos no Funchal, no decorrer dos quais, os vários partidos com representação municipal, foram, sucessivamente, impedidos de afirmar as suas preocupações. O direito à palavra era apenas do Presidente da Assembleia Municipal (PSD), do Presidente da Câmara (PSD) e do Presidente do Governo (PSD). 
Ora bem, o senhor vice-presidente do governo tem o direito de ter a sua opinião, da mesma forma que eu, enquanto mero cidadão, tenho a minha. Ele considera que o governo deveria ter espaço para falar; eu considero que não. A democracia é isto mesmo, é a possibilidade de opiniões divergentes.
O que ele não pode, deliberadamente, ocultar, é o facto do partido que politicamente serve, ter usado e abusado das suas maiorias absolutas para impor o silêncio de outros. Aí sim, parece-me ter existido motivos para outros se sentirem "chocados" pelo "desrespeito institucional e das regras de sã convivência democrática", por cuja decisão da Câmara, "amordaçar" a oposição" com "tiques de despotismo".
Mas que fique claro, apesar do meu posicionamento, por mim, tanto se me dá que falem ou deixem de falar. A questão que coloco é a de princípio e de respeito pela autonomia do poder local.

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Mãos limpas ou mãos sujas, vai dar ao mesmo!


Não sei se se poderá designar por "operação mãos limpas", aproveitando a expressão que teve origem em Itália, nos anos 90, e que visou o esclarecimento dos casos de corrupção. "Mãos limpas" ou "Mãos sujas" vai dar ao mesmo, porque a questão essencial assenta no princípio da transparência e da licitude dos actos. Começa a ser enervante e até muito preocupante constatar sinais de comportamentos duvidosos sem que nada aconteça ou seja esclarecido. Não se trata de conversas de café, de historietas contadas na esteira de um eterno maldizer, mas da conjugação de inúmeras situações geradoras de dúvida que, por diversos canais, vão transpirando e criando duas sensações: a primeira, que há madeirenses abençoados e afortunados; a segunda, que a impunidade existe e floresce.



A construção de uma sociedade decente exige clareza, lisura e total distanciamento de todo o tipo de comportamentos, descarados ou tímidos, por parte dos cidadãos, tenham eles as funções que tiverem no corpo social. Esse entendimento está longe de constituir uma leitura global de boa aceitação do estado de funcionamento da democracia. Aliás, é muito mau, pois evidencia a existência de uma sociedade aprisionada pelos esquemas subterrâneos e capturada por poderes múltiplos, quando os cidadãos necessitam de vasculhar sítios da internet de "denúncias anónimas" para, peneirando os textos, tentar perceber o que se passa e que aos olhos escapa. É um mau sinal, pois parece provar que a sociedade não é devidamente escrutinada e a investigação falha. Ora, quando se assiste na comunicação social à concentração do poder financeiro, obviamente que esse é um outro sinal preocupante.

E assim se constrói uma sociedade desigual, de doce exploração, de perda de rendimento, de paz podre, de muitas particularidades, de senhores e de servos, de acumulação de riquezas e concentração do capital, algumas, muito mal explicadas, simultaneamente, de medos e de subtis perseguições aos que tentam levantar a ponta do véu. Portanto, não é estranho que sejam os pobres que fiquem mais pobres e dependentes, os que acabam por pagar os devaneios de um capitalismo selvagem. E assim sendo, sair do estado de pobreza acaba por ser uma miragem!

"Mãos limpas" ou "mãos sujas" pouco importa, repito. Importante, sem qualquer atitude persecutória, seria investigar para separar os honestos dos geradores de desonra. Para enaltecer uns e condenar os outros. Inclusive, os que permitem a agudização deste estado de crescente desconfiança e de miséria que a muitos conduz a estender a mão às migalhas da solidariedade. 

O problema está mais dentro da Região do que fora dela. Vociferar para longe é fumo! O julgamento dos comportamentos inadequados, de um tenebroso regime de teias e de deixa andar, não pode ser remetida, apenas, para os actos eleitorais. É no decorrer dos processos que faz sentido questionar as situações. O que me leva a deixar aos senhores, não sei se os deveria designar por novos colonos, a pergunta formulada por Almeida Garrett, em 1846, nas Viagens na Minha Terra: "E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?" Respondam, analisando. Eu que nada tenho contra quem é rico. Enquanto cidadão apenas interessa-me perceber o percurso: se foi limpinho ou através de condenáveis processos. Tudo isto, por uma sociedade onde seja banida "a desgraça invencível" e mal vistos todos quantos norteiam de forma corrupta a condução na vida.

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 16 de agosto de 2020

A Escola contribuiu para a desigualdade social

 

A estatística aponta para cerca de 32% de pobres, o que equivale, aproximadamente, a 75.000 pobres na Região da Madeira. Ora, os 724 agregados familiares em dificuldade não constituem novidade. Existem muitos milhares que vão vivendo. Não morrem de fome, isso não, sobrevivem conjugando, diariamente, o verbo esticar. Enquanto, entre outras instituições, o Banco Alimentar, a Cáritas, a Cruz Vermelha, as paróquias, a agricultura de sobrevivência e muitas pessoas de enorme coração atenuarem os dramas, a situação manter-se-á disfarçada. Mas eles existem.

Independentemente de não ter sido "construída" e, já agora,"inaugurada" uma sociedade mais justa e equilibrada, o que dependeria do estabelecimento de rigorosas prioridades no exercício da política de investimentos, indo directamente à questão da pobreza, essa, só se resolve(rá), todos o saberão, com um sistema educativo sério, inclusivo e de qualidade. Só através da Educação é possível romper com o círculo vicioso da pobreza. Não existe outra forma. A subsidiodependência, a distribuição de alimentos e as atitudes caritativas, só eternizam o drama. Podem e devem ser pontuais (necessárias) em função de um determinado quadro social, mas nunca deverão constituir a solução. A solução tem um nome: EDUCAÇÃO.

Politicamente, ninguém assume que há fome na Madeira. Nem se assume que este sistema educativo é, conceptualmente, uma fraude. Há fomes diversas, porque não dispusemos, no tempo certo, de estadistas, mas de meros políticos. Foi sempre mais fácil pensar na eleição seguinte do que nas gerações seguintes. E daí a inversão de prioridades que veio acentuar a existência de três grupos sociais: os ricos e muito ricos; uma classe média sucessivamente despojada do essencial, eu diria, espoliada; e um vastíssimo grupo de pobres. Os pobres (75.000) tornaram-se paisagem na Madeira. 

Os ricos ou muito ricos serviram-se no banquete montado na lógica das "obras", fossem importantes ou rigorosamente dispensáveis; sentaram-se à mesa do orçamento e impuseram uma economia ao seu serviço; porque lhes permitiram, saciaram-se, marimbando-se para o resto da sociedade. No meio de um repasto de quase cinco dezenas de anos, de grandes interesses e de muito blá bla, a escola acabou por servir de décor, de cumprimento de um direito constitucional, mas distante de uma formação individual e colectivamente emancipadora. O sistema educativo contribuiu para a desigualdade social. Infelizmente, basta olhar em redor e analisar o grosso da sociedade, sector a sector, área por área, para constatar as graves limitações a múltiplos níveis. 

A ausência de consistentes políticas de família e a insistência nas respostas sociais sem atender às causas dos problemas, conjugado com um sistema educativo assente em uma narrativa balofa, só poderia redundar no fracasso global da sociedade. Quem a estruturou sabia o que estava a edificar, até pela insistência naquela frase que, politicamente, significa(va) exactamente o seu contrário: "os madeirenses são um povo superior". Superior, em quê? Talvez, na pobreza!

A verdadeira História está por ser feita. Não a dos "cinco séculos de exploração", mas as das cinco décadas de escravização da mentalidade.

Ilustração: Google Imagens.