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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

No reino do anormal


Já tem uns anos, trinta, por aí, por dever académico fui aluno do Professor Salvato Trigo na cadeira de Estratégias da Comunicação Social. Numa das suas sessões referiu: "A Comunicação Social anda sempre à procura do anormal". Aonde esta frase me levou, contextualizando-a com a realidade de então, e até onde ainda me leva a partir daquilo que os meus sentidos percepcionam!



De facto, pouco interessa a história pessoal, a respeitabilidade e idoneidade de quem produz uma declaração, pois o que mor das vezes conta não é a intenção ou a leitura primeira, aquela que o autor quis transmitir, mas o sensacionalismo, o acto mórbido e perverso de quanto mais sangue melhor. Descoberto o filão, dizem, porque o povo gosta e as audiências justificam, crucifica-se o autor até que novas situações despertem a curiosidade, sobrepondo-se à anterior. E o frenético ritmo na busca da "anormalidade" permanece.
É evidente que, no contexto em que escrevo estas linhas, se isolarmos a declaração, dir-se-á que foi de todo infeliz o que o Senhor Presidente da República disse a propósito dos actos de pedofilia no seio da Igreja Católica em Portugal. Porém, creio que a sua intenção e o próprio tom da comunicação, traiçoeiramente, as palavras sugeriram outras interpretações. Abusivas, digo eu. É óbvio que bastaria a existência de um só caso para ser grave. E o Presidente reconhece isso mesmo. E estou à vontade, até no plano político para o dizer, porque nunca votei no cidadão Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Respeito-o como o mais alto Magistrado da Nação.
Do que o Senhor Presidente da República pode ser visado, é da sua "incontinência verbal", aliás, como já o disseram alguns comentadores, ao manifestar-se sobre tudo e em todas as ocasiões. E lá diz o provérbio que "tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia lá deixa a asa". O Presidente deixou-a, na ânsia do comentário, porém é ininteligível que das suas palavras se infira qualquer desculpabilização dos actos que envergonham a Igreja. Nesse aspecto, tenhamos presente que até o Papa foi claro: "são actos vergonhosos (...) perante os quais a tolerância é zero".

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Gato & Rato


Por 
Angela Silva, 
in Expresso, 
04/07/2020

Esta é a saga de um professor e de um aluno que, após 40 anos de encontros e desencontros, coincidiram no topo do Estado. Adoram jogar, competem entre si, mas já não vivem um sem o outro. A covid, as presidenciais (e o faro) tornaram-nos cúmplices. Até ver...

Tom e Jerry é uma velha série de curtas-metragens sobre dois simpáticos animais, um gato e um rato, para quem a vida é um eterno jogo, uma divertida rivalidade e um histórico sucesso de bilheteira. A coabitação entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa não foge muito a este guião. Não são propriamente rivais nem consta que se queiram comer um ao outro (estão, aliás, a viver uma superlativa lua de mel sob o signo da covid e com os cálculos para a reeleição de Marcelo em pano de fundo). Mas, como acontece com o gato e o rato, o destino dos dois está ligado, e Tom e Jerry também viveram tempos pacíficos. Em 1971, Hanna e Barbera, que 30 anos antes tinham criado a série, associaram-se com a MGM Television para fazer uma nova temporada em que Tom e Jerry regressavam como amigos. Não tiveram o mesmo sucesso — aparentemente, o público preferia-os como adversários, exatamente como acontece com a direita portuguesa, que odeia ver Marcelo aninhado em Costa. Mas a dupla resistiu.

Por cá, que a dupla política do momento continua a assinar uma marca poderosa são as sondagens que o dizem. Ninguém tira aos dois homens fortes do regime entre 60% e 70% de popularidade. E os protagonistas não brincam em serviço quando se trata de zelar pela marca ao milímetro, como prova o facto de nem um nem outro ter querido falar com o Expresso sobre os quase 40 anos em que por várias vezes se cruzaram, primeiro na vida académica, depois na vida política. Um só falava se o outro falasse; um talvez falasse, o outro não queria; um não queria, o outro talvez quisesse. Mas estava tudo combinado — não falava nenhum.

A situação não está para brincadeiras. António Costa está em alta, mas o controlo da epidemia escorrega-lhe das mãos e o que tem pela frente pode a qualquer momento virar-lhe o jogo. Marcelo vai a votos daqui a seis meses e, porque precisa da esquerda, deixou-se agarrar por um momento felino de Costa, que ficará para a história como o 13 de maio na Autoeuropa. Após cinco anos de coabitação no topo do Estado em que houve de tudo — convergiram, divergiram, chocaram de frente, desconfiaram um do outro, amuaram, espicaçaram-se em público e acabaram de mãos dadas —, Presidente da República e primeiro-ministro sentem-se reféns um do outro.

Costa porque precisa do apoio do Presidente, que chega ao povo para almofadar as sequelas do terramoto económico e social que aí está. E Marcelo porque, com a direita a valer 30%, precisa dos votos socialistas para somar com folga os 51% necessários. Mas, como entre os dois o jogo nunca pára, mais do que pôr as mãos no fogo pela trama que se segue é aconselhável esperar pelas cenas dos próximos capítulos. Até porque o tempo opera sempre alterações nos personagens. Na saga cinéfila, Jerry (o rato) permaneceu bastante estável, mas a personalidade de Tom mudou consideravelmente. No início, andava sobre quatro patas e comportava-se sempre ao ataque, mas com o tempo passou a andar sobre duas patas e a ter um registo mais humano, ao ponto de sentir culpa por alguns comportamentos contra Jerry. Há episódios em que o gato chega até a parecer deprimido. E embora nestes cinco anos Marcelo e Costa tenham alternado nos dois papéis — nos fogos de 2017, o Presidente foi o gato que engoliu o rato, mas na gestão da pandemia foi o primeiro-ministro quem soube agarrar o parceiro —, a verdade é que Marcelo Rebelo de Sousa entrou em cena com a expectativa de ser o felino e foi ele quem mais surpreendeu o público por, em vez de comer o rato, se ter em alguns momentos deixado comer por ele.

Diogo Lacerda Machado, grande amigo e confidente de António Costa, exibe, aliás, confiança na prevalência do suposto rato desta história, que, como se tem visto, é tão ou mais jogador do que o Presidente da República. “Marcelo já não consegue surpreender o António”, arrisca Diogo, convicto de que António percebeu que o Presidente já não tem a mesma jovialidade e que “isso também lhe diminui a imprevisibilidade”. Com uma ressalva: “Desde que Marcelo não volte à juventude depois dos 70...” Quem trabalha com o Presidente em Belém aconselha prudência, porque “Marcelo já não toca às campainhas [coisa que fazia na juventude], mas se for preciso ainda abana a cama da avó para simular um terramoto [que o próprio confessou ao biógrafo Vítor Matos que adorava fazer na infância]”. Nas sagas de sucesso, todo o cuidado é pouco. E Marcelo e Costa andam há 40 anos a surpreender-se um ao outro.

Ironicamente, a 5 de março de 2021, a Warner Bros. projeta o lançamento de um novo filme sobre a eterna aventura do gato e do rato. E quatro dias depois, em Lisboa, tomará posse o próximo Presidente da República, que, tudo indica, será um reeleito Marcelo Rebelo de Sousa. Também para os dois (ele e Costa) será o início de uma nova aventura, agora com o picante inerente a um segundo mandato presidencial, que a tradição diz ser sempre mais interventivo mas que, desta vez, tem condimentos acessórios: uma crise sem precedentes que leva o primeiro-ministro a contar com um Presidente amigo na gestão de uma das mais dramáticas páginas da história recente.

Para já, há um pacto firmado nas ‘barbas’ do país. Costa não apoiará outro candidato a Belém e os socialistas ajudarão a engrossar a esperada reeleição do atual Presidente; e o atual Presidente não faltará no apoio ao Governo, apesar dos riscos de desgaste se a crise da covid começar a queimar o poder político. Consciente de que pisa gelo fino, Marcelo preveniu-se com uma declaração justificativa no Expresso — “Não se espere que o Presidente crie uma crise política ou um afrontamento com o Governo durante uma pandemia em que existe um esforço comum.” Mas o PR conhece a astúcia do parceiro e sabe que António Costa foi hábil quando, há meses, lhe ofereceu a dianteira e lhe sugeriu que fosse ele a falar no final das reuniões com especialistas que, semana após semana, vão dando pistas para a gestão da crise. A última deu para o torto, Costa atirou culpas para os técnicos pelo desnorte dos políticos que não conseguem controlar os contágios na Grande Lisboa, e Marcelo, que preocupa os amigos porque “já se atravessou demais”, teve de fazer as honras da casa. Subitamente, o mundo político parecia de pernas para o ar — o primeiro-ministro a reconhecer que há problemas e o Presidente da República a deitar água na fervura. A atual temporada, confirma-se, é de compromisso. Mas nada de precipitações, porque a história desta dupla é um filme animado.
Cúmplice Quando chegou a Belém, Marcelo confiou que Costa seria moderado e, sem uma alternativa à direita, jogou na estabilidade. O PM confessou que Marcelo “ajudou muito” MÁRIO CRUZ/LUSA

“AINDA HOJE 
ACHO QUE FOI O COSTA”

“António Costa diverte-se com Marcelo Rebelo de Sousa desde a Faculdade”, recorda Diogo Lacerda Machado, que foi colega do primeiro-ministro em Direito e lembra-se do fascínio dele pelas aulas do professor mais popular da clássica Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. “Marcelo era divertido, e o António adorava as aulas.” Só se queixava de que ele falava a mil e era difícil tirar notas, mas que importância tinha isso quando tudo o resto era lucro. Aulas nada chatas, ambiente bem-disposto e um convívio raro entre professor e alunos, com direito a jantares na Churrasqueira do Campo Grande, na Portugália da Almirante Reis ou no David da Buraca, muitas vezes com prolongamento para discotecas.

Extrovertido e excêntrico, Marcelo chegou a alinhar com os alunos em incursões no Plateau e no Kremlin, como relata Vítor Matos na biografia “Marcelo Rebelo de Sousa”. Mas por detrás da boa relação professor-aluno, que chegou a levar Marcelo a dar um raro 17 a Costa em Direito Público Comparado, e do clima de galhofa que ambos curtiam, havia um cimento especial: um e outro adoravam política, e Marcelo foi rápido a farejar um futuro promissor ao então ativista na Associação de Estudantes, que após uma primeira aliança com o PCP acabou por conseguir, com raros dotes de oratória e de negociação, levar o PS ao poder na Faculdade.

No último ano do curso, em 1985, a relação estreitou-se ainda mais. Costa foi um dos três alunos eleitos para a Comissão de Finalistas que iria organizar a viagem de fim de curso. E passou a ter reuniões com o presidente do Conselho Diretivo, que era Marcelo Rebelo de Sousa. Lacerda Machado integrava o grupo e diz que “era visível que Marcelo olhava para o António de forma diferente. Aos outros, ele achava graça, mas o António distinguia-se por ser top nas cadeiras políticas, e era evidente que ele dava-lhe mais atenção”.

Era de tal maneira que, quando precisaram de pedir ajuda para angariar fundos para a viagem de finalistas, os outros apertaram com António: “Tu é que pedes, que ele a ti dá.” E Marcelo deu-lhes uma ideia: aparecerem num jantar de antigos alunos da Faculdade e levarem um caixote na mão para os contributos. Os três fizeram-se ao caminho, tiveram sorte, mas quando foram desafiados pelos ex-alunos para se sentarem à mesa Diogo conta que olhou para o lado e António Costa já lá não estava: “Ele pediu e pirou-se.” Disse que tinha atividades inadiáveis da JS (Juventude Socialista). A política estava sempre primeiro.

Quatro anos após terminar Direito, é já na política pura que António Costa volta a cruzar-se com Marcelo Rebelo de Sousa. Muito ligado a Jorge Sampaio, em cujo escritório de advogados estagiara, Costa é chamado para dirigir a campanha do então líder socialista à presidência da Câmara Municipal de Lisboa e vê-se subitamente envolvido num duelo político com Marcelo Rebelo de Sousa, que se candidatou pelo PSD. Todas as sondagens davam a derrota ao professor, e a desconfiança minou a campanha que marcaria o primeiro embate político entre ‘o gato e o rato’. “A minha taxa de notoriedade era dramática e foram precisas várias ações de campanha espetaculares para chamar a atenção dos lisboetas” reconheceu recentemente Marcelo ao “Observador”. E foi o desespero de querer combater os 80% que os estudos de opinião davam ao candidato de Costa que o levou ao célebre mergulho no poluído Tejo, a andar a conduzir um táxi ou a passar uma horas pendurado num carro de recolha de lixo.

Conhecedor da postura ‘fora da caixa’ do antigo professor, António Costa aconselhou Sampaio a demarcar-se dos números mediáticos do adversário e a assumir uma atitude madura. “O Rebelo de Sousa é um rapaz divertido, mas eu não ando a brincar com Lisboa e com os lisboetas”, atirou-lhe Jorge Sampaio no frente a frente televisivo que deixou Marcelo no tapete. O resto foi o que se viu: Sampaio ganhou com 49% e Marcelo ficou sete pontos atrás. Nas ruas de Lisboa, os cartazes do candidato do PSD onde começara por se ler “Marcelo” exibiam há semanas duas letras a mais — “TV Marcelo”, marca de uma empresa de reparações. Alguém tinha jogado na descredibilização do candidato da direita, e o visado não tem dúvidas: “As maiores maldades que a campanha de Jorge Sampaio me fez, atribuo-as a ele [António Costa]”, relatou o próprio a Bernardo Ferrão e a Cristina Figueiredo no livro “Os Caminhos de António Costa para Chegar ao Poder”. “Ainda hoje acho que foi o Costa. Ele foi muito útil ao Sampaio, que era um bocado ingénuo”, confessou. Já ao atual primeiro-ministro, se há coisa de que Marcelo nunca o acusou foi de ingenuidade.

“ELE TAMBÉM NÃO É UM GÉNIO”

Exatamente por isso, a jogada de Costa para chegar ao poder após ter perdido as eleições em 2015 não surpreendeu o comentador televisivo Marcelo Rebelo de Sousa. Por esses anos, eles falavam muito, Marcelo era simpático com Costa, mas nem por isso achou que a tarefa fosse fácil. Pelo contrário, chegou a dizer que “só um génio” ganharia as eleições para o PS após o terramoto José Sócrates e que “ele [Costa] também não é um génio”. Outra coisa é ser arguto, e aí Marcelo nunca teve dúvidas. Mal lhe ouviu o discurso de derrota na noite eleitoral, percebeu o ‘golpe’ e antecipou: “Ele deve ter na cabeça um Governo minoritário com o apoio dos outros partidos.”

Luís Marques Mendes diz que “Marcelo sabe que o António Costa é um político muito talentoso e foi das primeiras pessoas a perceber que aquela solução de Governo iria acontecer”. E porque argúcia com argúcia se paga, se tinha chegado a hora de ambos coincidirem no poder, para quê perder tempo? No domingo seguinte, o país já não teve direito ao comentário dominical do professor, porque os seus calendários foram subitamente acelerados. Na quinta-feira, decide precipitar o anúncio de que será candidato a Belém e convoca a comunicação social para o dia seguinte. Na sexta-feira de manhã sabe-se que vai anunciar à tarde a candidatura. E assim Marcelo escapou de dizer o que pensava da ‘geringonça’, com a qual sabia estar condenado a entender-se. Calculismo, ziguezagues, imprevisibilidade e surpresa nunca faltarão neste enredo.

QUANDO MARCELO LEVOU ANTÓNIO A MENTIR

“Seria mau que este Governo não durasse quatro anos. A estabilidade é um bem que não pode ser desbaratado.” A frase é de Marcelo e podia ter sido dita em novembro de 2015, quando o Governo minoritário de António Costa tomou posse. Mas é de 1996, quando Marcelo liderava o PSD na oposição e Costa era secretário de Estado do Governo de Guterres. É importante porque mostra como, apesar da célebre fama de instável e conspirativo, Marcelo Rebelo de Sousa, entre abrir uma guerra e comprar a paz, normalmente escolhe a segunda.

Foi assim em 2016, quando o ambiente político era de cortar à faca e o Presidente, mal chega a Belém, não hesita em pôr-se ao lado do primeiro-ministro, apostado em ajudar a descrispar o ambiente cá dentro (a começar pelo sistema financeiro, que voltava a fazer tocar as campainhas) e a legitimar a imagem da ‘geringonça’ lá fora. Já tinha sido assim 20 anos antes, quando Marcelo chegou a líder do PSD e garantiu a António Guterres que não lhe derrubaria o Governo minoritário e que até estaria empenhado em viabilizar-lhe os quatro Orçamentos do Estado. Foi aí que Marcelo e António Costa voltaram a cruzar-se, e desta vez, com um no poder e outro na liderança da oposição, viram-se obrigados ao diálogo e à negociação. Mas nem por isso as jogadas e diatribes deixaram de ser imagem de marca.

Marcelo tratou de mostrar que é possível compatibilizar uma postura de estabilidade política com uma aguerrida estratégia de oposição (o que ele gostaria de ver hoje em Rui Rio). E durante três anos infernizou a vida ao guterrismo. António Costa tutelava os Assuntos Parlamentares, uma pasta que o obrigava a coordenar a relação com os partidos no Parlamento e com o PSD em particular. Tanto mais que a agenda política da época envolvia uma panóplia de assuntos que exigiam negociação entre os dois maiores partidos, a começar pela revisão constitucional e a acabar nos dois referendos, à regionalização e ao aborto, que Marcelo impôs, que acabaria por ganhar e que funcionaram como condição para viabilizar os Orçamentos de Guterres.

Marques Mendes, que como líder parlamentar de Marcelo teve um papel central nessas negocia­ções, garante que António Costa nunca foi nesta fase um interlocutor direto de Marcelo Rebelo de Sousa. O líder do PSD “tratava diretamente dos dossiês mais importantes com António Guterres e com António Vitorino”, que era o ministro da Presidência. Mas quando Vitorino saiu do Governo e Costa subiu a ministro, viu reforçado o seu papel, e há um episódio que marcará para a história o dia em que a estratégia do jogador Marcelo levou o jogador Costa a mentir.

Estava-se em 1997, o PSD já tinha aprovado um Orçamento, e Marcelo percebe que politicamente é urgente conseguir ganhos de causa. É quando convence Guterres de que para aprovar o OE seguinte precisa de dar a entender que tinha o PS nas mãos. E para isso os socialistas teriam de deixar cair uma medida emblemática e mostrar que o tinham feito para satisfazer uma exigência do maior partido da oposição. De um dia para o outro, novos cartazes do PSD invadiram o país — “Pena máxima para coleta mínima” —, ameaçando provocar uma crise se o Governo não desistisse de avançar com a coleta mínima para o IRC e o IRS dos trabalhadores independentes que, teoricamente, Guterres se preparava para aplicar.

Eis senão quando o jornal “Semanário” obtém a notícia de que o Governo vai deixar cair a coleta mínima e já estará tudo combinado entre Guterres e Marcelo. O jornal tem fontes dos dois lados que confirmam a história, mas ninguém dá a cara, e o editor de Política, Paulo Baldaia, diz que é preciso confrontar o Governo. “O Filipe Santos Costa, que escreveu a história, e o Raul Vaz, que era diretor, tinham informações que sustentavam a notícia”, recorda Baldaia. Mas o assunto não foi pacífico e decidiram pedir uma reação ao gabinete do primeiro-ministro. A resposta chegou num telefonema de António Costa para o editor: “Estou a ligar-lhe a pedido do primeiro-ministro e o que tenho para lhe dizer é em on. O Governo tudo fará para avançar com a coleta mínima.”

O jornal recua na manchete, que estava para ser “Governo deixa cair coleta mínima” e passou a ser “Governo garante que coleta mínima é para avançar”, relata o jornalista. Mas a notícia manteve o essencial da informação recolhida, segundo a qual fontes dos dois lados garantiam haver um pré-acordo entre Marcelo e Guterres para deixar cair a medida. O jornal sai num sábado, e na segunda-feira o diretor é convidado para ir no dia seguinte a São Bento tomar um café com o primeiro-ministro. António Guterres explica-lhe que pediu a António Costa para dizer o que disse porque “tinha de ser” (o negócio com Marcelo assim previa). E no sábado seguinte, o semanário fez manchete com a frase “Governo mentiu”. A coleta mínima nunca chegou a existir. Vinte anos depois, na campanha para as legislativas e já no papel de candidato a primeiro-ministro, António Costa previne-se e assume que um dia mentiu a um jornalista. Só não disse que na origem da mentira esteve um arranjo político entre o Governo de que fazia parte e o seu velho professor Marcelo Rebelo de Sousa.

UMA CONVERSA DELIRANTE

A memória dos dois está cheia de histórias que são avisos, e uma delas marcou António Costa para sempre. A duas semanas das autárquicas de 2001, que levariam António Guterres a deixar a liderança do PS após uma derrota devastadora, António Costa é ministro da Justiça, está no bar de um hotel do Porto com Diogo Lacerda Machado, que era seu secretário de Estado, e veem entrar Marcelo Rebelo de Sousa, que tinha ido cheirar a campanha.

“António”, gritou-lhe Marcelo. “Professor”, respondeu-lhe Costa. E a conversa durou até às quatro da manhã. Lacerda Machado recorda o discurso delirante do ex-líder do PSD, que na altura já tinha sido substituído por Durão Barroso e que, contra todas as previsões, antecipava “uma vitória estrondosa” do Partido Socialista. “Ai, sim?”, questionou Costa, incrédulo. “Sim, não tenho dúvidas”, respondeu-lhe o professor, que parecia sonhar com um pesado desaire para Durão, o homem que o substituíra no PSD e que ele não teria desistido de apear. “O PSD vai sofrer uma derrota arrasadora e vai haver uma reviravolta no partido”, continuava Marcelo, “e António Guterres vai sair reforçadíssimo”, relata Lacerda Machado ter ouvido. Incrédulos, ministro e secretário de Estado recolheram aos quartos já de madrugada com a sensação de que Marcelo confundia o desejo com a realidade. E não se enganaram: o PS teve a sua maior derrota autárquica de sempre e Durão Barroso não tardaria a chegar a primeiro-ministro.

À coca conhecem-se bem e vivem num misto de confiança e desconfiança mútua. Costa sente que Marcelo já não o consegue surpreender. Mas o segundo mandato do PR ainda cria suspense em São Bento CAMPISO ROCHA

Por estas e por outras — que ao longo dos anos permitiram aos dois homens conhecer-se bem —, mal percebeu que Marcelo Rebelo de Sousa se ia candidatar a Presidente da República, António Costa tratou de se preparar para o que aí vinha. Marcelo ia ganhar e era vital garantir uma boa onda na relação entre ambos desde o início. Sampaio da Nóvoa, que Costa chegara a acalentar, ficou subitamente sem rede. A socialista Maria de Belém arriscou um resultado miserável, mas deu jeito a Costa, que assim pôde dizer que havendo dois candidatos naquela área não apoiaria nenhum. E assim, com o primeiro-ministro a facilitar a vida a Marcelo, começou em beleza a última e mais motivadora etapa desta longa corrida a dois.

Marcelo Rebelo de Sousa é eleito em janeiro de 2016, arranja uma maneira simpática de agradar à esquerda — “O povo é quem mais ordena”, escreveu no discurso de posse —, e quatro dias depois António Costa convida-o para ir jantar a São Bento. Um primeiro encontro a sós com direito a novidade: embora Cavaco Silva ainda fosse o Presidente da República (a posse de Marcelo seria daí a dois meses), Costa disponibilizou os ministros para se começarem a reunir com o futuro chefe de Estado. E, nesse interregno, Marcelo recebeu quase todos os ministros no Palácio de Queluz, onde montou um gabinete provisório. “Eles fizeram tudo para começar com o pé direito”, diz um dos colaboradores da Casa Civil do Presidente. Com um acrescento: “Eles conhecem-se, gostam-se e temem-se.” Numa dupla que sabia ir disputar protagonismo, todo o cuidado era pouco.

“SOBRANCEIRO”, “NÃO ATENDO”

O arranque foi uma lua de mel, como provam as célebres imagens do primeiro 10 de Junho em Paris. Estão os dois no palco, começa a chover, e António Costa protege Marcelo sob um guarda-chuva para dois. A serenata à chuva é idílica, mas em redor do palco emigrantes portugueses lesados do BES pedem ajuda: “Ajude-nos, senhor Presidente!” Diogo Torres, autor do livro “Marcelo & Costa”, conta que uma assessora do primeiro-ministro “decidiu falar com quem pedia a intervenção de Marcelo”. “Você sabe que ele é amigo do Ricardo Salgado, não sabe?”, terá perguntado. Se aconteceu, Marcelo e Costa não ouviram. Mas os últimos cinco anos não foram sempre Paris.

“Sobranceria.” Foi esta a palavra escolhida pelo Presidente da República quando numa reunião com assessores no Palácio de Belém, algures em 2018, se referiu ao primeiro-ministro. Vivia-se o rescaldo da fase mais negra na relação entre ambos, os trágicos fogos do verão de 2017, quando mais de 100 pessoas morreram no interior do país, somados ao assalto ao paiol de Tancos que o Presidente não gostou de ver o Governo desvalorizar, e, aí sim, a relação tremeu. Pela primeira vez, conta quem acompanhou de perto António Costa, “ele sentiu que Marcelo pisou o risco da deslealdade”, quando fez um discurso arrasador em que assumiu falhas do Estado, exigiu um pedido de desculpas e despediu a ministra da Administração Interna em direto. Mas desleal porquê? Porque “o Presidente estava a par de tudo, o António tinha sido claro com ele, e ele sabia que o primeiro-ministro já preparava uma remodelação”. A versão de Belém é outra: “O Presidente logo nos fogos de junho exigiu consequências políticas e o primeiro-ministro nada fez. Em outubro, quando se somam mais de 100 mortos, o Presidente perdeu a paciência e decidiu que nem mais um dia”, contam na sua Casa Civil.

Certo é que o PS fez tocar as campainhas do mal-estar instalado, e o jornal oficial do partido publica um artigo do jornalista Simões Ilharco a acusar o Presidente de ter exorbitado “claramente os seus poderes constitucionais”. No site do Ministério da Administração Interna, a revista de imprensa sugere a leitura do blogue “O Jumento”, onde Marcelo Rebelo de Sousa era apelidado de “manhoso” e eleito como “o jumento do dia”. E o “Público” escreve que o Governo recebeu “com choque” o discurso presidencial. Mas Marcelo responde à letra: “Chocado está o país.”

A avaliação de António Costa como alguém que tende a desvalorizar o que corre pior foi o que levou o Presidente a falar de “sobranceria” na tal reunião em Belém. Mas as pedras na relação entre ambos não se ficam por aí. “Há sempre alguma desconfiança”, diz quem os conhece bem. “Eles entendem-se, acham-se graça, sabem jogar juntos, mas desconfiam um do outro.” E foi por desconfiança que o Presidente da República ficou furioso quando, dias antes de sair a acusação sobre o assalto a Tancos, viu multiplicarem-se notícias de que ele estava a par de toda a trama ilegalmente montada para recuperar o armamento, sem que alguém do Governo saísse em sua defesa. Ausente do país, Marcelo abriu uma exceção e falou da política interna para mostrar que estava indignado — “O Presidente da República não é um criminoso.”

O clima de tensão foi tal que, quando António Costa lhe ligou para esclarecer o assunto, Marcelo não o atendeu. Ao lado do Presidente, o ministro dos Negócios Estrangeiros insistiu: “Senhor Presidente, o primeiro-ministro tentou falar-lhe.” Mas Marcelo fez-se de surdo. Depois de andar dois anos a impedir que Tancos fosse esquecido, não aceitava que o tentassem salpicar. “É verdade que o Presidente não lhe atendeu o telefone?”, perguntaram os jornalistas a António Costa. “Olhe, ofereço-lhe uma rosa”, disfarçou o primeiro-ministro, quando Tancos lhe invadiu a última campanha eleitoral.

O VERDADEIRO BLOCO CENTRAL

Marcelo e Costa não são de amuar. Quando divergem, encontram saídas (foi assim com vários diplomas do Governo que, para não serem vetados, foram negociados entre Belém e São Bento); se há uma situação de conflito, telefonam um ao outro e esclarecem; e quando não concordam tentam combinar como vão gerir o desacordo. Foi assim no início da pandemia, quando o Presidente, depois de se ter confinado em casa deixando o palco a António Costa, quis avançar para o estado de emergência contra a vontade do primeiro-ministro. Viveram dois dias de alta tensão, estiveram quase a embater de frente, mas acabaram por se articular, e Marcelo combinou com Costa que ele poderia anunciar o que aí vinha. “É este o método que seguem sistematicamente”, garantem em Belém. O que não evita uma permanente disputa de protagonismo.

Marcelo faz um discurso a prevenir para os riscos de populismos? Costa diz que “há discursos que parecem pintura abstrata”. Costa resiste ao estado de emergência? Marcelo diz que, “como toda a gente já percebeu, essa foi a decisão acertada”. Cada um tenta levar a taça. Mas, mais do que de confronto, esta é uma relação de dependência. “O destino dos dois está ligado”, assumem na Casa Civil do Presidente, onde as frustrações da direita, que acusa Marcelo de andar há cinco anos com António Costa ao colo, são retribuídas. “Era do interesse do país garantir a estabilidade política e financeira, e o Presidente nunca poderia provocar uma crise sem haver uma alternativa. E em boa verdade nunca a teve.” Para Marques Mendes, que conhece bem Marcelo, não é expectável que ele mude muito num segundo mandato, mesmo que a direita recupere, por razões que se prendem com a própria personalidade do Presidente.

“Não estou a vê-lo nunca a ser oposição ao Governo”, diz o conselheiro de Estado. Sobretudo quando o país precisa de convergência de esforços e “quando se percebe que os portugueses gostam deste bloco central institucional”. Mas um dos segredos desta dupla é que, no fundo, no fundo, eles não estão muito distantes ideologicamente.

Marcelo Rebelo de Sousa é um social-democrata e António Costa é um socialista moderado. Tão moderado que, ‘geringonça’ à parte, escolheu para lhe gerir as Finanças alguém que se ajustou facilmente ao cargo de presidente do austero Eurogrupo. Marcelo motiva-se com este criativo jogo político de António Costa. E António Costa, que adora puzzles e que na juventude era viciado no “Risco” (um jogo de estratégia), não imagina um Presidente mais estimulante. “Eles já não vivem um sem o outro”, conclui o melhor amigo do primeiro-ministro. Por muito que isso inclua diatribes, rasteiras e desconfianças ou, quem sabe, uma descolagem de Marcelo para, algures no segundo mandato, ajudar nos bastidores a influenciar uma liderança política alternativa à do seu velho aluno. A direita está triste. Mas não desistiu de contar com ele.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

SUBSERVIÊNCIA A MAIS


Apesar de considerar excessiva a exposição pública, mas ele é assim, o Senhor Presidente da República tem-me surpreendido pela positiva. Até ver. Inevitavelmente, o desgaste acontecerá, até porque o nosso sistema político não tem cunho presidencialista. Mas isso é para depois. Para já, o Doutor Marcelo Rebelo de Sousa tem desempenhado o cargo com significativo agrado da população. O índice de popularidade disso nos dá inequívoca conta. 


A visita que está a realizar à Alemanha, obviamente que a compreendo. Somos muito pequeninos no contexto europeu, temos uma voz muito trémula nas diversas instituições, daí a ronda, quase com uma corda no pescoço, para pedir que não nos sancionem por défice excessivo. Logo junto da Chanceler Merkel, aquela que tem como ministro das Finanças um tal Wolfgang Schäuble, impiedoso e intencionalmente esquecido dos anos consecutivos que a Alemanha apresentou défice acima dos 3%. Neste quadro, custa-me, sinceramente, enquanto português, sentir que todos nós fomos (e somos) implacavelmente martirizados com uma estúpida austeridade, condenada por tantos economistas, inclusive, Prémios Nobel, e apesar disso, tenhamos de pedir à Alemanha, "pela influência que tem no seio da União Europeia, que compreenda os esforços e os sacrifícios feitos por Portugal para cumprir os compromissos europeus, reiterando que a aplicação de sanções devido ao défice excessivo seria "injusta", sublinhou o Presidente da República. 
Mais, ainda, embora em contextos diferentes, mas para quem não tem memória curta, deve saber que a "27 de Fevereiro de 1953, se celebrou em Londres, com representantes de 26 países, um acordo que concedeu o PERDÃO de metade da dívida da Alemanha pós-guerra. Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estavam a Espanha, Grécia e Irlanda. A dívida total foi avaliada em 32 mil milhões de marcos representando cerca de 150% das exportações da Alemanha em 1950". E hoje oiço o Senhor Presidente da República, após reunião com a Chanceler, dizer que a Senhora manifestou uma grande "compreensão" pelo pedido português. Repito, custa-me aceitar esta subserviência quando se sabe que foi a própria Alemanha que muito lucrou com esta crise "fabricada" externamente. Que cada um retire as suas conclusões, porque, sendo óbvio que teremos de pagar a dívida que assumimos, não nos deveríamos prestar a situações como a de hoje.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 9 de março de 2016

FINALMENTE... LIVRES DE CAVACO SILVA


Parecia que não chegava a hora de Cavaco Silva deixar Belém. Terminou o que nunca deveria ter começado. Parte e não deixa saudades enquanto Presidente. Aliás, a generalidade da comunicação social é peremptória na análise extremamente negativa destes dez anos, de um político que não soube gerar qualquer empatia e respeito do povo. Andou sempre na berlinda, com aquele ar austero, mas, politicamente bacoco. Lembrar as peripécias destes dois mandatos é pura perda de tempo, já que os níveis de baixíssima popularidade falam por si. 


De um palácio cor-de-rosa (Belém) muda-se para uma parte (10%) de um convento dominicano, também cor-de-rosa, em Alcântara. Ele preparou o seu futuro "lar" cujas obras custaram, aos contribuintes, cerca de meio milhão de Euros (Observador).
Não votei no Professor Marcelo Rebelo de Sousa, mas é o presidente eleito. Daí que espere um comportamento político abrangente, isto é, aquilo que tem vindo a dizer que será a sua marca, cumpra com todo o rigor. Portugal precisa de um Presidente que deixe a costela partidária bem longe de Belém, para que possa actuar com isenção, distanciamento partidário, ideológico e com um olhar sensato face à delicadeza do momento aos níveis nacional e europeu. Precisamos de um Presidente atento e moderador, respeitado, coisa que Cavaco Silva nunca soube interpretar. Felicidades ao novo Presidente da República.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 2 de março de 2016

UM VOTO DE CONGRATULAÇÃO PARA QUEM CONSIDEROU A MADEIRA UMA "GRANDE AUTARQUIA"


O CDS/PP apresentou, ontem, na Assembleia Legislativa da Madeira, um "Voto de Congratulação" pela eleição do Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente da República. A páginas tantas do respectivo voto lê-se: "(...) a sua vitória na Região Autónoma da Madeira, com o apoio explícito dos dois maiores partidos, o PSD e do CDS/PP, é também um TRIUNFO DA AUTONOMIA (...)". Obviamente que não coloco em causa a oportunidade do voto. Faz parte do respeito institucional e do respeito pelo vencedor, pelo que compete à Assembleia a dignidade de o cumprimentar. No entanto, outras deveriam ser as palavras porque é necessário ter memória política. Em 2010, o agora eleito Presidente da República, não esqueço as suas palavras, considerou a Madeira uma "grande autarquia" e o presidente do governo regional uma espécie de "líder autárquico em grande". Uma gravíssima desconsideração política em função da dignidade de uma Região Autónoma. Deixo aqui o texto que assinei a 19 de Maio de 2010.


"As recentes declarações do Professor Marcelo Rebelo de Sousa que comparou a Madeira a uma grande autarquia e o seu presidente uma espécie de "líder autárquico em grande", não deixa de constituir uma matéria de alguma relevância e peso político. No programa “Sinais de Fogo” da SIC, o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se à Região Autónoma da Madeira como uma grande autarquia e o seu presidente como um líder autárquico em grande. Declarações que não acompanho não só pela dignidade jurídico-constitucional que uma Região Autónoma assume, como pelo seu próprio contexto histórico, político e organizacional.
Do Professor e habitual comentador político, pela sua formação académica e docência universitária, exactamente no âmbito do Direito, conhecedor do processo autonómico enquanto autor de pareceres encomendados e, provavelmente, pagos pela Assembleia Legislativa da Madeira, era expectável uma posição de rigor e de respeito pela histórica luta do Povo da Madeira. Pelo contrário, a atitude assumida acabou por cifrar-se em uma desconsideração à Autonomia, aos órgãos de governo próprio e, por extensão, a todo o Povo da Madeira.
É evidente que subsiste, também, neste processo, uma cultura que a Região Autónoma da Madeira não soube gerar, no plano Nacional, no sentido do reforço dos princípios e valores que enformam a Autonomia Político-Administrativa. As sucessivas declarações proferidas ao longo dos anos pelos representantes do poder regional têm, lamentavelmente, dado azo a comentários pouco abonatórios que conduziram ao desprestígio da Região, mas que de forma alguma justificam posições como aquelas que foram proferidas.
Quem melhor esteve na interpretação dos princípios em que  a AUTONOMIA se funda, foi o Bastonário dos Advogados portugueses, que assumiu que a Autonomia é “património moral da República”.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

TODOS OS DIAS, MARCELO AFUNDA-SE!


Um dos primeiros gestos como Presidente da República será "para Ronaldo", disse-o Marcelo Rebelo de Sousa em campanha eleitoral na Madeira. É caso para dizer que este candidato, no plano político, não bate bem da bola. Todos sabemos o que representa a marca CR7 no mundo. Todos sabemos o que significa uma breve frase de Ronaldo no que concerne à promoção da sua terra de nascimento. E sabemos, também, o que isso significa para o turismo na Madeira. Mas não é disso que se trata. Poderia até fazê-lo, se lá chegar, claro, o que duvido, mas nunca deveria dizê-lo. Em visita à Madeira, as grandes questões desta terra não se resolvem com a marca CR7. Se assim fosse todos os problemas estariam resolvidos, se em conta tivermos todo o passado deste notável jogador. Ora, neste contexto, o candidato deveria posicionar-se sobre as questões da economia, sobre a pobreza, sobre a gigantesca dívida pública, sobre as questões laborais, a dupla austeridade, mas nada, nem uma palavra sobre os dramas que milhares de famílias estão a passar. Por exagero da minha parte, CR7 resolve!

Sampaio da Nóvoa, Presidente!

No Continente, Marcelo quer Passos e Portas longe da campanha, e conhecem-se as razões, mas aqui aceitou a presença e os contributos de propaganda de Jardim e de Albuquerque. Está no seu direito, obviamente, mas não deixa de ter uma leitura política. Mas não é isso que me preocupa. O que é inquietante é o silêncio de Marcelo perante os muitos e complexos dossiês da região AUTÓNOMA da Madeira, o seu Estatuto Político-Administrativo, sistematicamente violado pelo Tribunal de Contas e pelo Tribunal Constitucional, com muitas implicações constitucionais que mereciam uma cuidada e distanciada reflexão. Na Saúde e na Educação, por exemplo. Não se ficou a saber o que pensa. Vendeu a imagem, com beijinhos e abraços. O Porto Santo e a Madeira mereciam mais de um candidato. Mas isto é Marcelo, no seu habitual passeio entre a chuva sem se molhar, nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário! 
Marcelo é bem o espelho de uma caixa de chocolate, embrulhada em fino papel de celofane, com um belíssimo laçarote, mas fora de prazo. Quem comprar arrisca-se, estou certo disso. Entendo que devemos eleger um Presidente da República de palavra, que cumpra e faça cumprir a Constituição, não um Presidente comprometido com todas as suas costelas partidárias.  
Ilustração: SNAP.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

NA PRESIDÊNCIA UM "GENERAL" QUE NÃO ABDIQUE DE ESTAR COM OS SOLDADOS RASOS


Não tenho o sentimento de medo, mas atormenta-me e muito receio que o povo se deixe ir no paleio de Marcelo Rebelo de Sousa. Um homem quase profissional da política, que vende o seu discurso baseado na sua "experiência" partidária, com sistemáticas, provadas e gravosas contradições. Marcelo não me engana, como Cavaco Silva nunca me enganou ao que vinha. Ainda ontem, em artigo de opinião no DN-Madeira, o Dr. Roque Martins escreveu: "(...) O que existe em Cavaco é má-fé, que é um sentimento racional e significa que a nossa posição está tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. (...) "É pobre a democracia que se mede aos palmos. Como pobre a democracia que, nestes anos de chumbo, teve um Presidente constitucionalmente concatenado. O país destroçado e ele (PR) preocupado. Com o funcionamento regular das instituições quando é o funcionamento irregular das instituições que mais importa. Não é o nosso direito de voto que está em causa, é o sentido que ele retirou aos votos que lhe deram". Marcelo encaixa-se, perfeitamente, nesta análise.


Gostaria de ver na Presidência o Homem de Estado, o general que não abdique de estar com os soldados rasos. Dispenso, por isso, o homem providencial produto de jornais e revistas; rejeito um "Cavaco a cores" como alguém disse, que esvazie, ainda mais, a função presidencial. Eu quero sentir que ali está o fiel da balança, o bom senso, a respeitabilidade, a confiança, a competência, a sabedoria, a capacidade de diálogo e a persuasão. Mais, ainda, que o Presidente seja uma referência para todos os portugueses. Carecemos de referências como de pão para a boca! Precisamos de um Presidente que dignifique o País nos planos interno e externo, que não se submeta e faça da intriga político-partidária o "modus-operandi" da sua função. Desejo um Presidente de uma só palavra ao longo de todo o tempo e não de palavra conforme. Quero um Presidente que exerça o seu magistério de influência para que a EDUCAÇÃO seja o pilar fundamental do nosso crescimento e desenvolvimento. Estou com o Doutor Raimundo Quintal, Mandatário Regional: "(...) Aderi desde a primeira hora à candidatura do Professor Sampaio da Nóvoa, porque acredito que será capaz de semear a esperança, fazer crescer a dignidade e podar as desigualdades. Aceitei esta missão, porque estou convicto que este é o tempo de dar as mãos, o tempo de agir para que milhares de seres humanos, que têm sobrevivido vergados nestas ilhas, readquirem o direito de viver felizes. Participo neste projeto, porque, como sabiamente escreveu o Papa Francisco na Carta Encíclica LOUVADO SEJAS: “É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”.
Ilustração: Google Imagens

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

MARCELO NEM DISFARÇA O QUE É!


"Eu acho que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje" (...) "se se pode votar, decidir e definir (o Presidente da República) no dia 24", por que deixar para depois? Confesso que este tipo de declaração, conjugada com aqueloutra "(...) daqui a semanas sou presidente da República", enquanto cidadão deixa-me, não digo enervado, mas desapontado com a interpretação que Marcelo Rebelo de Sousa faz da Democracia, 40 anos depois de Abril. Para ele a eleição do mais alto Magistrado da Nação é coisa de somenos importância, é assunto de pescada (antes de o ser já o era), politicamente, transmite a ideia de ser adepto do prato à moda de tempos idos, de Américo Tomaz, por exemplo, cujo acto eleitoral constituía, apenas, uma confirmação do previsto na lei. Marcelo transmite o que lhe vai nas entranhas do seu pensamento e resvala, não se coíbe, é a rifa, tal como sublinhou o candidato Sampaio da Nóvoa "(...) votar em Marcelo é o mesmo que escolher uma rifa. Nunca se sabe o que nos irá calhar em sorte". Podia disfarçar, mas nem isso. Uma certa arrogância tolda-lhe a sensatez que deveria, no mínimo, transmitir. 


Marcelo não aprendeu nada em quarenta anos de democracia. Ou aprendeu tudo! Conhece a idiossincrasia de uma parte do povo que não domina e não sabe cruzar as realidades envolventes, sabe que uma parte do povo não aprende com as experiências passadas e sabe, também, que há interesses instalados ao mais alto nível, que não fazendo campanha directa, dispõem de instrumentos que conduzem ao comportamento que esperam dos eleitores. "(...) Os senhores da aldeia têm a sua própria agenda política e resistem a quaisquer mudanças económicas e sociais que não se ajustem aos seus interesses financeiros. Juntos eles exercem um poder homogeneizante sobre as ideias (...) presidem à circulação de imagens e informações que determinam as crenças e atitudes e, em última instância, o nosso comportamento (...) tornaram-se gestores das mentes" (Ben H. Baddikian). Marcelo sabe disso, é catedrático nos meandros e bas-fond político, daí que não estranhe esta forma de viver e sentir a democracia. Mas está enganado.
Se há uma parte do povo, por razões diversas, educacionais, culturais, entre muitas outras, anda alheada da realidade, uma outra parte é esclarecida e está a ver o jogo. Que entre esta atitude de quem se sente superior aos demais, que transmite sinais de prepotência e de desprezo pelos outros, e um candidato que coloca a democracia acima de tudo, que transmite ideias e deixa ao povo a decisão soberana de, em liberdade, escolher, estou convencido que optará pelo segundo. Se Marcelo Rebelo de Sousa apresenta, na montra, o que tem apresentado, pergunto, o que não esconderá no armazém?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A ENGRENAGEM ESTÁ MONTADA


É certo que o candidato Marcelo Rebelo de Sousa anda a fazer-se de morto. Com desrespeito pelos adversários até já disse que dentro de semanas será presidente. Tenho a sensação que o tiro sair-lhe-á pela culatra, desde que se iniciaram os debates entre candidaturas. O comentador e fazedor de opinião tem sido uma sombra daquela atitude de tudo sabe que o marcou durante anos. Da política ao futebol passando pelos livros, Marcelo demonstrou sempre, eu não diria arrogância, mas a transmissão de uma ideia de homem providencial. Ganhou embalagem, candidatou-se e nem um cartaz na rua que sintetize ao que vem. Nada. Tipo pobrezinho mas honrado, tal como em outros tempos! Agora, nos debates, do discurso a solo para a confrontação das ideias, sinceramente, não consegui até hoje reter, no mínimo, uma. A segunda volta parece-me estar no horizonte mais provável. 


É evidente que compete aos portugueses a eleição do próximo Presidente da República. Eu já fiz a minha opção e, certamente, uma grande parte dos meus concidadãos terão em consciência a sua aposta. O que eu lamento é a ausência de independência de alguma comunicação social. Uns são filhos e outros enteados. A Marcelo abrem-se-lhe as portas, a outros, condiciona-se. São tantos os exemplos. É uma luta que me parece desigual, umas vezes de forma descarada, outras, subtilmente concretizadas. Por exemplo, em tempo de campanha (pré-campanha!) havia alguma necessidade da TVI escutar a opinião do Professor Freitas do Amaral? A este propósito li (aqui) um texto da autoria de Fernando Paulouro Neves: 
"Na engrenagem de propaganda ao candidato Marcelo Rebelo de Sousa, a tvi levou lá o Prof. Freitas do Amaral, a fazer o frete lamentável de elogiar o parceiro. Um tempo de Antena, à semelhança dos que havia antigamente. Não esperava, contudo, assistir a um procedimento pusilânime de Freitas do Amaral, onde, assumindo a postura de inspector pidesco disse desconhecer a vida (privada?política?) do Prof. Sampaio da Nóvoa, chegando ao ponto de insinuar que ele poderia estar em Tancos, no 25 de Novembro. A Pide ou a DGS, que é mais do tempo em que Freitas abençoava a ditadura, não fariam melhor. A "jornalista" poderia ter-lhe dito que até foi publicado, já durante a campanha, uma biografia (não oficial) do Prof. Sampaio da Nóvoa, com a fotografia do candidato na primeira página, que é um trabalho sério do jornalista Fernando Madaíl, como reconheceu, aliás, Pacheco Pereira que sublinhou o facto de isso nem sempre acontecer em biografias que andam por aí (a de Passos Coelho, por exemplo). Nesta campanha eleitoral não têm faltado à comunicação social a fabricação de acontecimentos de favorecimento do super-protegido Marcelo, tratado como um candidato que Deus tivesse enviado à "santa terrinha" (como dizia o Jorge de Sena) para redimir o comportamento político dos indígenas.
Tão indignado como eu, o meu amigo António Russo Dias colocou o seguinte comentário na sua página: "Compreende-se o apoio de Freitas do Amaral a MRS. Ele próprio enumerou algumas razões como a antiguidade da amizade e os laços académicos e profissionais que os unem. "Esqueceu-se" de uma outra: ambos foram entusiásticos apoiantes do fascista Marcelo Caetano. Veremos agora quais serão os apoiantes dos outros nove candidatos que a seráfica locutora entrevistará a seguir".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A INDEPENDÊNCIA DE MARCELO É UMA TRETA


O candidato à Presidência da República Marcelo Rebelo de Sousa, sistematicamente, parece-me olhar ao espelho e questionar: espelho meu, espelho meu, há alguém mais independente do que eu? Apenas fui fundador do PSD, presidente do PSD, deputado do PSD, autarca do PSD, secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros pelo PSD, Ministro dos Assuntos Parlamentares pelo PSD, conselheiro de Estado pelo PSD, professor nas universidades abertas do PSD, enfim, entre tantas funções, alguém poderá colocar em causa a minha independência, perguntará. A verdade, porém, é que assisto ao seu insistente posicionamento como verdadeiro e único independente. Quando não tem nada de independente este assumido neoliberal, tal como a esmagadora maioria dos candidatos não deve assumir uma espécie de virgindade política. Como se isso fosse possível! Obviamente que todos temos as nossas convicções que devem ser respeitadas. Compete-nos, agora, enquanto eleitores, ouvir, perceber a sua mensagem, relacioná-la com tudo o que se encontra à volta, não seguir o caminho dos fazedores de opinião e definir quem melhor assegura a mais alta Magistratura de Portugal. Marcelo independente é, portanto, uma treta.


Eu que sou militante socialista não aposto nos socialistas Henrique Neto e Maria de Belém. Têm esse direito de candidatura, mas com todo o respeito pelos seus percursos de vida, oiço-os e neles não vislumbro a conjugação de capacidades que podem tornar Portugal diferente. Tenho, desde há muito, por Edgar Silva uma grande estima e consideração pessoal, um Homem bom que fica na História da Madeira pela sua vida dedicada à luta pelos que se encontram nas margens da sociedade, porém, neste momento e no contexto da correlação das forças políticas, reconheça-se que não existem condições objectivas para a sua eleição. Prefiro o reforço no candidato que se apresenta abrangente, que transporta princípios e valores sociais, que conhece como nenhum outro as verdadeiras questões da Educação e da Ciência que poderão, a prazo, tornar Portugal um país diferente e competitivo. A questão essencial é esta: ou temos alguém na Presidência com um olhar diferente que provoque um choque nos direitos sociais, mobilizador de qualquer partido que lidere o poder executivo, ou arrastar-nos-emos nesta lengalenga tal como foram estes dez anos perdidos de Cavaco Silva. 
O meu posicionamento por Sampaio da Nóvoa vem de longe. Li muito dos seus contributos para a Educação e Ciência, única forma de romper com a pobreza "que se está a tornar paisagem", conheço a forma clara e muito incisiva como aborda os temas sociais, sei da sua atitude conciliadora através do diálogo, que não é pessoa para olhar para a Constituição da República e entendê-la como um empecilho aos grandes interesses, portanto, emergindo esta candidatura de uma decisão individual e não vinculada a grupos, entendo-a como a que melhor serve Portugal. E isto tudo para dizer que Marcelo Rebelo de Sousa não pode querer passar por aquilo que não é.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

"DAQUI A SEMANAS SOU PRESIDENTE DA REPÚBLICA"


Só por esta declaração de exacerbada presunção os portugueses deveriam dar a resposta adequada. Trata-se de uma frase que tem história, pois só seria possível no tempo do Almirante Américo de Deus Tomás, porque sabia que o povo não era soberano na decisão. Porque, nesse tempo, as eleições eram falseadas, havia sabotagem eleitoral e que, portanto, fosse qual fosse a intenção do povo, os energúmenos da teia política encarregavam-se de ditar o vencedor. Os tempos são diferentes, daí que o candidato Marcelo Rebelo de Sousa deveria poupar-nos a esse julgamento pessoal a partir de meros indícios e onde a humildade não existe.


Não gosto do político Marcelo Rebelo de Sousa. Respeito-o enquanto pessoa pública. Só aí. No plano político considero-o vazio, plástico e superficial. É um político de generalidades, que diz coisas, que ouve este e aquele, produz sínteses e prega(va), semanalmente, a "homília" partidária. É o tipo político sabe tudo, que tem resposta para tudo, mas que nunca vai ao fundo dos temas. Fica-se por ali. Alguém, depois de tantos anos de comentários políticos, conhecerá o seu pensamento relativamente às políticas de educação, de saúde, ambientais, sociais, culturais, económicas, financeiras, política externa, política de emigração ou política europeia? Enfim, faço um esforço para lembrar-me de uma, apenas uma declaração sua que me tivesse agradado e, infelizmente, não encontro. E, julgo eu, não ando assim tão distraído.
Marcelo tem de ser, por tudo isto, chamado para o centro do debate. Tem de ser confrontado, não a solo, mas frente-a-frente com os outros candidatos. Não pode ser levado ao colo por uma comunicação social que se estende ao jeito de tapete presidencial. Os portugueses têm direito ao confronto das ideias, o direito de ouvir os candidatos sobre o pensamento que transportam em todas as matérias determinantes no exercício da mais alta Magistratura do País. A definição do próximo Presidente da República depende dos portugueses e não de quem anda a fazer, paulatinamente, a caminha política onde se deitará nos próximos cinco anos. Portugal não pode ficar refém de interesses que se jogam nos bastidores. O jogo tem de ser aberto, e é através do debate, olhos nos olhos e perante os portugueses que a opção deve ser tomada. Para que não corramos o risco de ter mais um Cavaco na Presidência, embora com estilo diferente.Quem pode aceitar uma frase destas: serei "politicamente imparcial mas SOCIALMENTE parcial".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PRESIDENCIAIS. PORTUGAL PRECISA DE UM PRESIDENTE DISTANTE DO SUBTERRÂNEO DA POLÍTICA


Marcelo Rebelo de Sousa é, no plano político, um produto da comunicação social. Não o conheço, pessoalmente, daí que possa estar a incorrer em um qualquer erro de apreciação. Mas por aquilo que vou seguindo, desde a história (lamentável, mas caracterizadora) da tal vichyssoise servida em Belém (aqui), do Professor Marcelo tenho a ideia de ser, repito, politicamente, uma pessoa que passa os olhos por toda a comunicação social, tem uma boa lista de contactos telefónicos que o informam em detalhe e um razoável poder de verbalização das suas sínteses. Pouco mais do que isso. Foi presidente do PSD sem sucesso e tem andado por aí, nos últimos anos, como comentador de assuntos de natureza política. Deu notas semanais (!) e apresentou centenas de livros, transmitindo uma imagem de uma vastíssima cultura (?).

Professor Doutor Sampaio da Nóvoa

Nele não acredito. E o que me incomoda enquanto cidadão é que alguns querem levá-lo ao colo até Belém. Não tenho presente uma única iniciativa sua que tivesse marcado um tempo. Ademais, a minha posição é cada vez mais clara: precisamos de um Presidente político e jamais partidário. Precisamos de alguém que prime pela novidade, que não tivesse andado nem ande pelos corredores e pelo bas-fond dos partidos. Precisamos de um Presidente que seja o contrário do que tem sido o Professor Cavaco Silva, um político que nunca conseguiu despir a sua capa partidária, demonstrou arrogância e algum indisfarçável ódio por quem o combateu. O momento que atravessamos exige alguém com bom senso, que seja socialmente respeitado, que tenha idoneidade académica, uma grande sensibilidade pelas causas sociais, seja capaz de ouvir e de não ter língua travada neste mundo extremamente conturbado, alguém que não fique deslumbrado e que se venda aos primeiros com quem tiver de tropeçar. A Presidência no Portugal de hoje dispensa, permitam-me a expressão, toda a rataria interesseira que se move no quadro das correias de transmissão dos inúmeros poderes nacionais e externos. É, por tudo isto, que não acredito no Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Considero-o demasiado plástico, ou melhor, feito de uma plasticina que não me agrada. Prefiro a independência de alguém que brota da sociedade, em cujo currículo não exista percursos politicamente duvidosos. 
Há muito que defini a minha posição. Estou com o candidato Professor Sampaio da Nóvoa, por quatro essenciais motivos: provém da academia onde tem um trabalho reconhecido pelos seus pares; sabe e já o denunciou em inúmeras oportunidades, que a Educação e a Ciência são o melhor caminho para Portugal crescer e desenvolver-se; é humilde, sabe ouvir e tem uma enorme sensibilidade social; finalmente, porque aprecio a sua independência. Não é que encontre mal algum nos candidatos que emergem dos partidos, respeito-os, só que, no momento que atravessamos, extremamente complexo, o distanciamento e a capacidade de abrangência parecem-me relevantes. Enfim, se Marcelo, "o humilde servo de Salazar", pensa que tem isto no papo logo à primeira volta, desengane-se! Quero lá saber que prescinda de algumas ditas "mordomias" atribuídas aos Presidentes da República após deixarem o cargo! Essa é das balelas populistas que não colhem. Aliás, sustento que um Presidente, após ter desempenhado a sua função, deve usufruir da dignidade inerente à mais alta Magistratura desempenhada, até porque continuará a ter tarefas de relevância no plano interno e externo. Até por aí, Marcelo não convence.
Ilustração: Google Imagens.   

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

"O HUMILDE SERVO DE SALAZAR"


Esta carta deve ser partilhada por o maior número de pessoas, até para conhecer melhor aquele que "pretende ser o futuro Presidente da República".


Senhor Presidente do Conselho,
Excelência
Venho agradecer a Vossa Excelência a amabilidade que teve para comigo ao enviar-me, por intermédio da Senhora D. Jenny, alguns livros de Vossa autoria e por Vossa Excelência rubricados.
Eu, como simples aluno do primeiro ano liceal, acho que é demasiado valiosa para mim a oferta de Vossa Excelência, pois o dever do aluno e filido [sic] da M.P. é tentar melhorar-se e educar-se a si próprio por sucessivas victórias da vontade.
E para certificar a afirmação feita bastam os versos de Fernando Pessoa:
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.
E Senhor Presidente, para terminar esta pequena e modesta carta, desejo a Vossa Excelência muitos anos de vida, para bem da Nação Portuguesa e de todos nós.
Com o mais profundo respeito e a mais sentida gratidão,
subscreve-se o vosso humilde servo,

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa
Lisboa, 7 de Abril de 1960
[Fonte: Torre do Tombo – Arquivo Salazar]

NOTA
Transcrito do FB de Maria Teresa Santos Tavares Góis

domingo, 11 de outubro de 2015

PRESIDENCIAIS. MARCELO, "UM JOGADOR E ÁRBITRO AO MESMO TEMPO".


Quando ouvi o Professor Marcelo dizer: "(...) Cumprirei o meu dever moral de pagar a Portugal o que Portugal me deu", perpassou-me, de imediato que, enquanto cidadão português, a mim nada me deve, nem directa, no plano pessoal, nem indirectamente, no plano dos meus impostos. Sobre esta matéria li um comentário bem humorado do meu Amigo José Manuel Lira Caldeira que aqui reproduzo: "já revistei o rol dos fiados e verifiquei que não me deve nada". Exactamente o que se passa comigo. Ora, o Professor Marcelo tem todo o direito (e ainda bem) de candidatar-se à Presidência da República. Ficou tudo clarificado. Acabou a história de "ser árbitro e jogador ao mesmo tempo" como salientou o Professor Sampaio da Nóvoa, também candidato. Simplesmente porque, por razões éticas e de valores, disse este académico, "não se pode comentar presidenciais quando já se sabe […] que se é candidato”. E Marcelo fê-lo todo o tempo, pelo que razão tem Sampaio da Nóvoa ao sublinhar que "(...) nos últimos meses estávamos a assistir a um jogo que não era muito bonito, do ponto de vista democrático e (...) creio que em democracia o que conta muito é também a ética e os valores. Não se pode fazer de conta (...) não se pode comentar presidenciais quando já se sabe, e isso é uma decisão tomada há muito tempo, que se é candidato".

SAMPAIO DA NÓVOA
uma candidatura que nasce do Povo para o Povo.

O agora candidato Marcelo Rebelo de Sousa usou e abusou da sua condição de comentador da actualidade política. Sentou-se em várias cadeiras, entre outras, a de observador de acontecimentos, a de partidário ao comparecer e tomar posição em iniciativas de campanha eleitoral do PSD/CDS, tal como, recentemente, compareceu à "festa do Avante" do PCP. 
Não vejo mal que, a convite, tivesse intervindo na designada "universidade de Verão" dos jovens social-democratas. Da mesma forma, enquanto independente, Sampaio da Nóvoa, por convite, discursou no Congresso do PS. Quantos, sem qualquer filiação partidária ou mesmo tendo-a, são convidados e pontualmente discursam e apresentam os seus pontos de vista? Faz parte da participação cívica. O caso do Professor Marcelo é completamente diferente, sublinha o Professor Sampaio da Nóvoa, "por razões éticas e morais". Mas, enfim, esses aspectos a ele dizem respeito. Marcelo sente-se bem nesse papel e a mim compete-me, apenas, apreciar este seu jogo calculista de quem há muito demonstra saber colocar as peças visando um hipotético xeque-mate. 
Conheço o Professor Marcelo da televisão. O Professor que sabe tudo: tanto fala de livros, como de bastidores da política, como de futebol. Para tudo tem resposta e, muitas vezes, certezas. Dá-me a ideia que lê todos os jornais, tem uma boa lista de contactos telefónicos, e, ao Domingo, puxa a culatra atrás e aqui vai disto! Também dá notas. Eu, mero observador, quando tenho alguma paciência para escutá-lo, determino também uma nota que nem lhe concederia ir à oral para esclarecer posições. Mas isso sou eu cidadão anónimo. Respeito, porém, outras posições de um certo endeusamento. O que para mim vale sete, para o outro pode valer dez e até mais! Não entro por aí. O que me custa aceitar é ouvir pessoas com responsabilidades políticas e outras darem como facto consumado a eleição para Presidente da República. Ao terminar um ciclo de dez anos de um presidente claramente partidário (Cavaco Silva), parece que nada aprenderam, para repetirem a dose com um outro da mesma família política e que, à luz das posições passadas, não tem condições objectivas para jurar cumprir e fazer cumprir a Constituição. A costela partidária é determinante nos momentos cruciais. Sempre foi assim.
Aliás, no momento que atravessamos, onde a crítica aos partidos políticos, com razão, sublinho, têm vindo a subir de tom, lógico seria ter na Presidência alguém que brote da sociedade, sem vínculos a ninguém, a nenhuma estrutura e que seja portador de um discurso sereno, de defesa dos mais elementares valores humanistas, portanto, que não esteja prisioneiro de grupos com profundas raízes lenhosas. Marcelo está prisioneiro. Sampaio da Nóvoa não está prisioneiro. Marcelo é o "sócio" número 3" do PSD; Nóvoa não tem filiação partidária, portanto, depende, apenas, das suas convicções de homem experiente na vida.
Desde o primeiro momento assumi que votaria no Professor Sampaio da Nóvoa. Mantenho-me fiel à leitura inicial. Agora mais que nunca. E aqui deixo um vídeo da leitura de Paulo Portas sobre Marcelo Rebelo de Sousa. Hoje, certamente, dará, irrevogavelmente, o dito por não dito. Só que esse não é o meu caminho e as palavras estão registadas.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A GRANDE AUTARQUIA


A atitude assumida acabou por cifrar-se em uma desconsideração à Autonomia, aos órgãos de governo próprio e, por extensão, a todo o Povo da Madeira.


As recentes declarações do Professor Marcelo Rebelo de Sousa que comparou a Madeira a uma grande autarquia e o seu presidente uma espécie de "líder autárquico em grande", não deixa de constituir uma matéria de alguma relevância e peso político. No programa “Sinais de Fogo” da SIC, o Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se à Região Autónoma da Madeira como uma grande autarquia e o seu presidente como um líder autárquico em grande. Declarações que não acompanho não só pela dignidade jurídico-constitucional que uma Região Autónoma assume, como pelo seu próprio contexto histórico, político e organizacional.
Do Professor e habitual comentador político, pela sua formação académica e docência universitária, exactamente, no âmbito do Direito, conhecedor do processo autonómico enquanto autor de pareceres encomendados e, provavelmente, pagos pela Assembleia Legislativa da Madeira, era expectável uma posição de rigor e de respeito pela histórica luta do Povo da Madeira. Pelo contrário, a atitude assumida acabou por cifrar-se em uma desconsideração à Autonomia, aos órgãos de governo próprio e, por extensão, a todo o Povo da Madeira.
É evidente que subsiste, também, neste processo, uma cultura que a Região Autónoma da Madeira não soube gerar, no plano Nacional, no sentido do reforço dos princípios e valores que enformam a Autonomia Político-Administrativa. As sucessivas declarações proferidas ao longo dos anos pelos representantes do poder regional têm, lamentavelmente, dado azo a comentários pouco abonatórios que conduziram ao desprestígio da Região, mas que de forma alguma justificam posições como aquelas que foram proferidas.
Melhor esteve na interpretação dos princípios em que se funda a AUTONOMIA foi o Bastonário dos Advogados portugueses, que assumiu que a Autonomia é “património moral da República”.
Ilustração: Google Imagens.