segunda-feira, 30 de abril de 2012

1º MAIO - UMA DATA DE LUTO E DE LUTA


E assim se apresentam, com uma distinta lata política, a falar do "clima de estabilidade e de Paz Social que desfrutamos, em tranquilidade e em Justiça Social, elementos essenciais da nossa política laboral, que aposta na dimensão humana e no reconhecimento do Trabalho e do papel dos seus empreendedores". Subvertem, assim, a História, tentam levar a água ao seu moínho de interesses, fazendo esquecer que o 1º de Maio é, sobretudo, uma data de luto e de luta e que os governos não têm rigorosamente de se meter onde não são chamados. Deixem os trabalhadores em paz e deixem a sociedade liberta para dizer, neste dia, o que pensa e sente.


Amanhã celebra-se o DIA DO TRABALHADOR. Choca-me que muitos, de jovens a menos jovens, não saibam, na plenitude, o que significa o 1º de Maio. Tenho presente um inquérito de um órgão de comunicação social junto de jovens, cujas respostas foram aterradoras. Pois bem, mais do que subir à serra com um farnel, se o tempo o permitir e dinheiro sobrar para o combustível, mais do que alinhar na fantochada programada pelo governo regional para o Montado do Pereiro, considero que este é um tempo de exercer uma grande pedagogia sobre o significado mais genuíno da data.
Obviamente, sem prejuízo dos momentos de convívio, mas de lembrança e de contextualização do que foram as lutas de há 126 anos, em Chicago, principal centro industrial dos Estados Unidos na época, lutas essas pela dignificação do trabalho e do homem. E se ontem as condições de trabalho eram desumanas e subordinavam-se a jornadas de trabalho de treze e mais horas, hoje, por outras substanciais razões, volta a justificar-se a luta contra a subtileza da escravização do homem pelo homem. A memória dos mártires de Chicago, a memória das reivindicações pelo respeito e dignificação do trabalho com horários justos, remunerados, com deveres mas também com direitos, deveria ser assumida hoje como o vetor essencial de qualquer comemoração. Mas não é isso que assisto. O que fica, para além de algumas louváveis intervenções dos sindicatos, é a presença do governo a liderar processos comemorativos que não lhes diz respeito. Acabo de ler um texto do governo regional: "O Trabalho representa um valor da nossa Sociedade e da nossa Autonomia, que temos de evidenciar e celebrar, na memória e lembrança de todos os trabalhadores que no passado edificaram a nossa Terra com o seu esforço, bem como dos atuais trabalhadores, como garantes do nosso futuro. Muito do que os madeirenses conseguiram realizar, deve-se ao esforço, à vontade e à perseverança, dos que, muitas vezes em condições de grande dificuldade, enfrentaram os desafios da vida e da natureza. A Autonomia Regional permitiu, na Madeira, um surto de desenvolvimento e de melhoria das condições de vida das suas populações. Temos atuado, com empenho e determinação, no sentido de elevar o Trabalho e o Trabalhador à dignidade e respeito que merecem. Foi com Trabalho e com muito esforço, que os trabalhadores desta Região, souberem dar cara à luta, no desafio de vencer dificuldades, aqui, na nossa terra, e pelos quatro cantos do mundo. Como é já tradição, o Governo Regional associa-se às celebrações desta data, prestando a sua homenagem a todos quantos, de forma generosa, contribuem para o desenvolvimento com o esforço do seu trabalho. O Governo entende, assim, contribuir também para que as pessoas que o pretendam, gozem o 1.º de Maio num ambiente de festa e de convívio, mantendo uma tradição que vem de muitos anos". E a lengalenga vai por aí fora, com atividades desportivas às dezenas, numa tentativa de adormecimento dos trabalhadores, ao melhor jeito da ex-FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), fugindo, claramente, ao desemprego registado na Madeira (mais de 22.000) e às condições de exploração, como se o governo não tivesse culpas no processo, como se a desestruturação e desregulação do mundo laboral fosse coisa que não tivesse responsabilidades governativas. E assim se apresentam, com uma distinta lata política, a falar do "clima de estabilidade e de Paz Social que desfrutamos, em tranquilidade e em Justiça Social, elementos essenciais da nossa política laboral, que aposta na dimensão humana e no reconhecimento do Trabalho e do papel dos seus empreendedores". Subvertem, assim, a História, tentam levar a água ao seu moínho de interesses, fazendo esquecer que o 1º de Maio é, sobretudo, uma data de luto e de luta e que os governos não têm rigorosamente de se meter onde não são chamados. Deixem os trabalhadores em paz e deixem a sociedade liberta para dizer, neste dia, o que pensa e sente.
Ilustração: Google Imagens.

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