terça-feira, 21 de agosto de 2012

PALAVRAS OCAS NO DIA DA CIDADE


Disseram-me que não tinham dinheiro para pagar € 1.000,00 de propinas mais os encargos do curso. Percebi, também, que saltitavam de emprego em emprego temporário, que tinham de sobreviver, eles e as suas famílias. Bom, terminada a conversa fiquei a pensar neste monumental círculo vicioso de uma pobreza a gerar nova pobreza. E vem hoje o presidente do governo falar da "mudança da actual política europeia, do modelo de sociedade pós-capitalista, da mudança do actual regime político português e uma maior Autonomia Política para a Madeira". Aqueles jovens, se escutaram isto, certamente que soltaram uma palavra menos respeitosa. Um palavrão quero eu dizer. Simplesmente porque o problema está aí, é de desemprego, é de empresários aflitos, é de uma economia estagnada, é de uma política de turismo sem rumo, é de um sistema educativo sem futuro, é de angústia nas famílias e isso nada tem a ver com esse "contencioso da autonomia". Tem sobretudo a ver com a inteligência política, com pessoas que saibam ser prospectivas, com políticos que não façam dos lugares uma profissão, mas um serviço público à comunidade. Enquanto isso não for assumido e resolvido, nada feito.

Pobre, sem cêntimo, esmagado pelos ínvios caminhos políticos seguidos, desnorteado no labirinto que construiu e onde se instalou, o presidente do governo regional da Madeira voltou à carga apontando baterias para o Estado sublinhado que eles têm de "(...) assumir uma decisão democrática e permitir um referendo na Madeira que, de uma vez por todas, demonstre a vontade do povo madeirense (...)". Mas qual vontade? Mas qual "contencioso da autonomia"?, pergunto. 
Ora, o que o povo desta região precisa, com toda a certeza, não é de blá, blá, mas de atitudes políticas certas. Acima de tudo o povo precisa é de acabar com o "polvo" e, a partir daí, gerar uma economia inovadora e potenciadora de emprego, a qual, saliento, não pode ter o mesmo desenho do passado. E cada dia que ele teime em manter aquele tipo de intervenção, parece-me óbvio que mais distante a Madeira ficará de romper com o passado e de criar a esperança na criação das bases promissores de um futuro de bem-estar. Aquele tipo de conversa é, portanto, oco, por um lado, porque na República ninguém lhe liga e ninguém politicamente o respeita, por outro, porque as palavras não enchem a barriga. O que a população precisa é de projecto sério e sustentável, sendo certo que inverter o rumo destes 36 anos no sentido de alavancar uma economia com alguma pujança, naturalmente que levará vários ou muitos anos. Qualquer madeirense preferiria que, hoje, no Dia da Cidade, face à situação política configurada numa crescente degradação social, o presidente do governo aproveitasse o momento para apontar caminhos, definir uma estratégia, fazer uma abordagem apostada na solução dos problemas, mas não, novamente, pela enésima vez, preferiu falar de assuntos absolutamente marginais que nada resolvem.
A propósito, ainda ontem, bateram à minha porta dois jovens de uma grande empresa sediada na Região. Tratava-se de um inquérito de satisfação do cliente. Jovens que não tinham mais de vinte anos. Pessoas simpáticas, agradáveis, bem apresentados e falando bem o português. Respondi às perguntas que me fizeram, mas fui mais longe. Percebi que tinham o 12º ano. Incentivei-os a continuarem os estudos. Disseram-me que não tinham dinheiro para pagar € 1.000,00 de propinas mais os encargos do curso porque a acção social era muito limitada. Percebi, também, que saltitavam de emprego em emprego temporário, porque tinham de sobreviver, eles e as suas famílias. Bom, terminada a conversa fiquei a pensar neste monumental círculo vicioso de uma pobreza a gerar nova pobreza. E vem hoje o presidente do governo falar da "mudança da actual política europeia, do modelo de sociedade pós-capitalista, da mudança do actual regime político português e de uma maior Autonomia Política para a Madeira". Aqueles jovens, se escutaram isto, certamente que soltaram uma palavra menos respeitosa. Um palavrão quero eu dizer. Simplesmente porque o problema está aí, é de desemprego, é de empresários aflitos, é de uma economia estagnada, é de uma política de turismo sem rumo, é de um sistema educativo sem futuro, é de angústia nas famílias e isso nada tem a ver com esse "contencioso da autonomia". Tem sobretudo a ver com a inteligência política, com pessoas que saibam ser prospectivas e com políticos que não façam dos lugares uma profissão, mas um serviço público à comunidade. Enquanto isso não for assumido e resolvido, nada feito. 
Sobre o Dia da Cidade do Funchal todos os anos escrevo e publico. Repetir torna-se-ia fastidioso. Aleatoriamente peguei num texto de 2009. Penso que o poderia publicar hoje sem grandes alterações. 
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Desculpe-me mas já não digo nada. Já não tenho pachorra. Tudo isto me faz lembrar os filmes de Hitchcock.
A sério!

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
AJJ está preso na sua própria teia. O Referendo é isso mesmo, é um fait-divers para chutar para longe um problema que é, fundamentalmente, da Madeira e de todos os erros cometidos ao longo de muitos anos.