sábado, 23 de março de 2013

JOSÉ SÓCRATES - O REGRESSO AO COMENTÁRIO POLÍTICO


Considero, porque nós cidadãos não conhecemos missa metade, importante que José Sócrates adira ao comentário político. Comentário político que já fazia antes de ser primeiro-ministro com Santana Lopes. Será uma oportunidade de conhecermos outros pontos de vista, os outros contornos da realidade que nos contam e que nos fazem crer. As relações internacionais que manteve com os grandes líderes mundiais, o resultado desses contactos, a sua leitura dos mercados e as grandes contradições políticas internacionais, as imposições a que teve de se submeter, as suas dúvidas e os seus projectos, as angústias, enfim, existem múltiplos aspectos que ao cidadão comum interessa. Não acredito que a sua presença sirva para branquear seja o que for. Quem esteve atento e está atento, sabe que pode colocar em um dos pratos da balança o que José Sócrates fez ou diz e, no outro, as políticas menos bem sucedidas. E daí, livremente, retirará as suas conclusões. Agora, ter medo da sua presença na RTP, isso não. Para mim é um comentador tal como tantos outros. Ridículo é, na Assembleia da República, o CDS querer indagar o Director da RTP e que o PSD se sinta indignado com a alegada contratação de José Sócrates como comentador. Será que querem manter um bode expiatório para a actual situação em que Portugal se encontra?


Considero sem sentido esta polémica que se gerou em torno da alegada contratação do Engº José Sócrates como comentador da RTP. Chegou-se ao ponto de ter sido aberta uma "petição pública" na NET visando uma espécie de defesa do ex-primeiro-ministro. Não sei se as pessoas pararam um pouco para reflectir ou se reflectiram em andamento, na onda das várias posições tornadas públicas. É evidente que não sou portador de todos os contornos dessa alegada contratação, sei o que por aí li, mas isso, no essencial, pouco importa. Se a RTP irá ganhar mais audiência ou não, se com isso aumentará as receitas da publicidade ou não, sinceramente, são aspectos que não domino. Parto sim do princípio que um gestor, público ou privado, não deixa de lado tais aspectos que são de relevante importância no plano da competitividade empresarial. Mas, vamos por partes:
Primeiro: José Sócrates foi primeiro-ministro, valha a verdade, num período muito complexo da História no quadro das interacções económicas e financeiras mundiais. Quando vivíamos numa certa estabilidade, confirmam os números, no seu primeiro governo conseguiu baixar o défice público que se situava nos 6.83%, transitado do tempo do Dr. Durão Barroso/Santana Lopes, para 2,6% (2007 e 2008). Julgo que não nos podemos esquecer este aspecto e que essa significativa redução foi conseguida sem colocar em causa o apoio social que conheceu, a partir de 2005, um dos maiores e mais consistentes incrementos junto dos mais carenciados da sociedade. Cito de cor, por exemplo, a baixa no preço de 4.000 medicamentos que significou uma poupança para os portugueses de 726 milhões de euros; o Complemento Solidário para Idosos, instrumento poderoso para atenuar a pobreza de 200.000 portugueses; o apoio pré-natal quando começou a ser preocupante o défice de natalidade; o Salário Mínimo que cresceu 20%; o Abono de Família, uma das prestações mais importantes que cresceu 25% no mesmo período. Tratou-se, aliás, do maior aumento de sempre conjugado com o 13º mês desta prestação social; a Acção Social Escolar, baseado nos escalões do abono de família e que veio a beneficiar milhares de alunos e suas famílias; o apoio à parentalidade, onde a licença passou de cinco para dez dias de licença, acrescido de mais um mês caso o pai ficasse com a criança; a reforma da segurança social permitindo safar o País que se encontrava no abismo para uma situação de alguma garantia de futuro; a substancial melhoria do parque escolar; a obrigatoriedade do 12º ano; o investimento na investigação científica; as ligações viárias ao interior do país, etc.. Não apenas isto, mas também a significativa abertura de Portugal ao comércio externo (que hoje estamos a beneficiar), a questão das energias renováveis, enfim, entre tantos projectos que vi com interesse futuro. 
Segundo: E surgiu a crise externa, gravíssima, a pior dos últimos 70 anos, avassaladora ao ponto de varrer desde os Estados Unidos a toda a Europa. Veja-se a situação de Espanha, que tinha tido superavit e que está hoje com 25% de desemprego, a situação da Grécia, da Irlanda, da Islândia, da Itália, da própria França e agora do Chipre, entre outros que andam com o credo na boca. O sistema colapsou, mais por razões externas de natureza especulativa que internas, e isso penso que não pode nem deve ser atribuído a uma única pessoa. Está aos nossos olhos que Portugal, pequeno país, periférico, pobre, assimétrico e deficitário no plano industrial, nesta onda de desconfiança total, seria atingido com maior gravidade. Por outro lado, estamos a sofrer as consequências do desnorte e contradições das políticas europeias.  
Terceiro: Que houve erros, obviamente que sim. Aconteceram situações sobre as quais tive muitas dúvidas sobre a oportunidade. Não me posiciono porque não conheço os dossiers, concretamente, aos projectos de "alta velocidade" ou ao novo aeroporto, iniciativas que tanto deram que falar. Hoje, afloram que a Portela tende para o esgotamento e que a "alta velocidade", entre Lisboa e Madrid, afinal, parece fazer algum sentido. Começará pelo transporte de mercadorias e não tardará o de passageiros! Não sei e poucos saberão, pois são dois dossiers extremamente complexos. Não concordei, por outro lado, com o Europeu de futebol e com o investimento em estádios que, sabia-se, não terem um efeito multiplicador. Foi um erro. Uma outra, embora não dependendo do primeiro-ministro, foi a questão da supervisão bancária que veio a determinar, desde logo, o escândalo do BPN. Neste caso, ainda assim, estou convencido que a intervenção do governo, através do Ministro das Finanças, ficou a dever-se ao facto da dimensão do "buraco" não ser suficientemente conhecida. Havia, porventura, no contexto de então, o receio do contágio o que se tornava preocupante. Mas deixou-me muitas dúvidas, obviamente que sim.
Quarto: Na história recente da democracia nunca um primeiro-ministro esteve tão debaixo de fogo como José Sócrates, desde que tomou posse. Não vou aqui enunciar os casos, mas toda a sua vida foi permanentemente vasculhada, desde os bancos de escola até à riqueza da sua família, passando pelas decisões enquanto Secretário de Estado do Ambiente. E ainda continuam. A verdade é que nada se provou quer em Tribunal quer a outros níveis de natureza política e social. Momentos houve que fiquei com a impressão que era, politicamente, um homem a abater. Porquê, não sei. Mas foi sempre sensível um interesse em denegrir a sua imagem, vendê-la como um aldrabão, um interesseiro e um desonesto. A questão da TVI, na luta que travou com a jornalista Manuela Moura Guedes, o que posso dizer é que se lá estivesse teria procedido da mesma maneira. Aquilo não era jornalismo, era ataque intencional, feroz e infundado contra uma pessoa. E mais tarde, muitos concluíram que assim era. 
Quinto: Independentemente dos prós e contras da sua figura de político, dos que entendem que tem um trabalho meritório ou não, que foi mais apanhado pela tempestade financeira mundial ou não, José Sócrates é hoje um cidadão como qualquer outro. Tem o direito de viver  fora do País ou em Lisboa. A opção é sua. Julgo que não devemos ter reservas sobre o seu passado político, independentemente dos que estão a favor ou contra. E dou um exemplo: José Manuel Durão Barroso é tido - nas altas esferas da governação europeia e mundial - como o perfeito instrumento do Clube Bilderberg. Daniel Estulin, que investiga há muitos anos o Clube de Bilderberg, diz que as suas fontes lhe confirmaram que Henry Kissinger, um membro permanente de Bilderberg, terá dito o seguinte sobre Durão: é "indiscutivelmente o pior primeiro-ministro na recente história política. Mas será o nosso homem na Europa". Talvez porque abriu as portas dos Açores a uma reunião que determinou a invasão do Iraque! A História um dia narrará os bastidores desta acção. E questiono: o que é hoje a UE, com a sua responsabilidade, inviabilizará a sua alegada candidatura, em 2016, à Presidência da República? Provavelmente que não.
Sexto: Considero ridículo que, na Assembleia da República, o CDS queira indagar o Director da RTP e que o PSD se sinta indignado com a alegada "contratação" de José Sócrates como comentador. Será que querem manter um bode expiatório para a situação em que Portugal se encontra, uma vez que, volta e meia falam da herança política de Sócrates? Aliás, tal como na Região da Madeira, onde prevalece o inimigo externo, a República, para apagar a irresponsabilidade governativa regional. Talvez. E que razões levam a que ninguém fale de outros comentadores, entre os quais vários que foram ministros com responsabilidades governativas? E, já agora, quem se lembra que o Professor Cavaco Silva, primeiro-ministro durante dez anos, com duas maiorias absolutas, deixou o país com um défice de 8,9% do PIB.
Sétimo: Considero, por tudo isto, escrito ao correr do pensamento, porque nós cidadãos não conhecemos missa metade, que José Sócrates é bem vindo ao comentário político. Comentário político que já fazia antes de ser primeiro-ministro tendo como parceiro Santana Lopes. Será uma oportunidade de conhecermos outros pontos de vista, os outros contornos da realidade que nos contam e que nos fazem crer. As relações internacionais que manteve com os grandes líderes mundiais, o resultado desses contactos, a sua leitura dos mercados e as grandes contradições políticas internacionais, as imposições a que teve de se submeter, as suas dúvidas e os seus projectos, as angústias, enfim, existem múltiplos aspectos que ao cidadão comum interessa. Não acredito que a sua presença sirva para branquear seja o que for. Quem esteve atento e está atento, sabe que pode colocar em um dos pratos da balança o que José Sócrates fez ou diz e, no outro, as políticas menos bem sucedidas. E daí retirará as suas conclusões. Agora, ter medo da sua presença na RTP, isso não. Para mim é um comentador tal como tantos outros. Aliás, penso que a RTP deu um tiro certeiro no plano da competitividade empresarial. Os mais de 100.000 que votaram contra a sua presença da RTP, penso que estarão lá todos caídos para o ouvir. A televisão pública só ganhará com isto.  E logo veremos, já na próxima Quarta-feira, com uma entrevista inicial conduzida por Vítor Gonçalves. Da minha parte não estarei de pé atrás. Ouvi-lo-ei como a qualquer outro.
Ilustração: Google Imagens.

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