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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

O dominó angolano ainda mal começou a cair


Por 
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
21/01/2020

O dominó começou a cair e nunca foi difícil adivinhar que viria o tempo. Durante quase quarenta anos à frente de Angola, o presidente José Eduardo dos Santos constituiu uma oligarquia que se alimentou fartamente dos recursos nacionais, mas o inevitável esgotamento do consulado, as contradições entre cleptocratas ou a pressão popular para a democracia acabaram por se impor. João Lourenço teve de afirmar o seu poder protegendo-se do clã Dos Santos, a desesperante falta de recursos em tempos de petróleo barato obrigou ao esforço de recuperação de capitais, o povo exigia medidas contra o saque e, assim, o dominó desabou. Mas, ao desfazer-se, desencadeou uma curiosa valsa de justificações em Portugal.

Com aquele gosto florentino que tem aprimorado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, falando de si próprio na terceira pessoa, na boa tradição literária de um treinador de futebol, explicou que “talvez agora se perceba melhor a insistência do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal - desde pelo menos dezembro de 2015 - de manter o melhor relacionamento possível com as autoridades angolanas; de manter o nível de relacionamento entre os dois Estados no mais alto dos patamares”. Maravilha da diplomacia, este “melhor relacionamento possível” foi estabelecido desde finais de 2015 mas não antes, ou seja, desde a nomeação do próprio, com a “autoridade angolana” do “mais alto dos patamares”, ou seja o próprio José Eduardo dos Santos, eventualmente na presunção futurista de que aquele seria substituído por alguém que o pusesse em causa. Nisto, o governante só peca por um menosprezo injusto pelos que estiveram nas Necessidades antes dele e que, aliás, fizeram exatamente o mesmo, o “melhor relacionamento possível” com esse “mais alto dos patamares”.
Esse “relacionamento” resume-se a uma guarda pretoriana que foi recrutada em Portugal para proteger os assaltantes de Angola. Os banqueiros (no BCP, no BPI), os empresários (Amorim primeiro que todos, depois a Sonae, José de Mello e tantos outros) e os governos multiplicaram-se em vénias para atrair esses capitais e as suas alianças. O Banco de Portugal fechou os olhos às investidas de personalidades “politicamente expostas” e, salvo ter evitado na 25ª hora que Isabel dos Santos viesse a ser administradora do BIC, não opôs qualquer reserva a nenhuma das suas outras funções nem sequer à compra em saldo deste último banco.
Assim, protegida por alguma imprensa que a apresentava como a rainha do glamour, por uma câmara municipal que oferecia ao marido a medalha de ouro da cidade a troco de uma inútil promessa de um museu, pelo deslumbramento dos políticos e pela ganância dos capitais, Isabel dos Santos instalou uma rede de conivências em Portugal, com que pretendeu abrir caminhos para o reconhecimento internacional.
É cruel lembrar, mas não deixa de ser verdade, que estas aplicações do dinheiro extorquido de Angola eram barradas noutros países europeus. Nada que demovesse um ex-presidente do PSD, ex-ministros de várias cores, um ex-governador do Banco de Portugal, um ex-deputado do PS e tantos outros de trabalharem para esta rede de interesses da constelação Dos Santos e, em particular, de Isabel. Ser pago em dinheiro angolano passou a ser uma das etiquetas de muita da elite portuguesa.

E tudo se sabia. Pepetela, que conhecia cada uma dos personagens desta clique, retratou-as em vários romances em que apresenta a sua desilusão e raiva contra a corrupção e o seu regime. Rafael Marques denunciou durante anos muitos destes esquemas, com dados detalhados. O livro que Jorge Costa, João Teixeira Lopes e eu publicámos em 2014, “Os Donos Angolanos de Portugal”, resumindo muito do que nos anos anteriores já tínhamos investigado e escrito sobre a cleptocracia luandense e os seus aliados portugueses, chegou a milhares de pessoas em Angola e por cá. Incluímos nomes e gráficos com as ligações das diversas empresas. Contamos a história e revelamos de onde vinha o dinheiro. O general Kangamba alegou o direito de resposta e respondeu-me na imprensa portuguesa, não era de menos o que dele contamos no livro, as investigações judiciais internacionais sobre redes de prostituição ou automóveis com malas de dinheiro a circular pela Europa.

O “Jornal de Angola” dedicou-nos editoriais e insultos. Luaty Beirão e os seus camaradas puseram todas as denúncias na rua. Como Rafael Marques, foram presos, enquanto no Parlamento português, confrontados com votos pela liberdade de imprensa e de opinião contra a repressão pelo regime de Luanda, o PS, o PSD, o CDS e o PCP alinhavam na recusa sobranceira, com José Eduardo dos Santos ninguém se mete.
Nos congressos do MPLA desfilava uma procissão de políticos portugueses a tecer loas ao cônsul. Mesmo sendo membro da Internacional Socialista e parceiro do PS, o partido do poder procurava aliados em quase todos os quadrantes. Em 2016, de 17 a 20 de agosto, em mais um congresso de consagração de Dos Santos (e no período em que o nosso atual ministro já cuidava do “melhor relacionamento possível” com o “mais alto dos patamares”), o PS fez-se representar pela secretária-geral adjunta, Ana Catarina Mendes, e pelo presidente, Carlos César, que enfaticamente brindou os anfitriões com um “o MPLA e o PS têm trilhado um caminho comum, um continuado diálogo político e uma colaboração concreta em áreas de interesse mútuo, incluindo no âmbito da nossa família política no seio da Internacional Socialista. Estou convencido que esse caminho de proximidade será cada vez mais produtivo e a nossa presença neste congresso e a nossa saudação neste congresso é justamente para aqui testemunhar a garantia desse caminho novo de proximidade, de afetividade, de colaboração e de luta comum”.
Diz o DN, que assistiu ao congresso, que César acrescentou que “o líder do MPLA e Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, é uma figura referencial da história angolana e da emancipação africana”. Helder Amaral, em nome do CDS (Paulo Portas estava também, mas como “convidado pessoal”, e não falou), explicou que o seu partido estaria mais próximo do MPLA, com “muitos mais pontos em comum”, desejando “fortalecer essa relação”. Dois vice-presidentes do PSD, Teresa Leal Coelho e Marco António Costa, abrilhantaram a cerimónia, bem como Rui Fernandes, membro da comissão política do PCP.
Pois é. O que ninguém pode agora dizer é que não se sabia de nada. Mais se vai descobrir, mas surpresa é que não será. Foi roubo e não foi o mordomo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Isabel dos Santos na “era das colónias”


Por
Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 
20/01/2020

Com Luanda Leaks, a investigação de um consórcio internacional de jornalismo que envolveu 36 meios de comunicação (entre os quais o Expresso e a SIC), com 120 jornalistas de 20 países, completa-se o cerco inevitável a Isabel dos Santos. Inevitável porque o poder mudou em Angola. Entre 1992 e 2019, Isabel dos Santos e o seu marido, Sindika Dokolo, tiveram participações em 423 empresas (e respetivas subsidiárias), das quais 155 eram portuguesas e 99 angolanas. Excluindo as subsidiárias, são 192 empresas, espalhadas por 25 países, de que Isabel dos Santos e Sindika Dokolo são ou foram acionistas. Não se constrói um império destas dimensões, espalhado pelo mundo, sozinha.


A primeira parte da investigação concentrou-se na forma como, pouco tempo antes de saber que iria ser destituída da presidência da Sonangol, cargo para o qual foi nomeada pelo seu pai, a mulher mais rica de África canalizou mais de cem milhões de dólares da petrolífera pública para o seu labirinto de empresas.
Não vou recontar aqui como enriqueceu Isabel dos Santos. Até porque o choque de muitos parece ignorar como nasce a maior parte das riquezas no advento do capitalismo em cada país. Das vilanias necessárias para construir novos ricos que, passadas algumas gerações, constituem respeitáveis famílias de negócios que acreditam no mito fundador da sua fortuna baseado no trabalho e no mérito. Deixo isso para outro texto. Agora fico-me pelo cinismo.
Como sabem, Isabel dos Santos começou a reforçar a sua posição em Portugal pela mão de Américo Amorim. Na construção do seu império por terras lusas, que passou por telecomunicações, banca, energia, mobilidade e quase todos os sectores fundamentais da nossa economia, contou com a colaboração ativa dos principais políticos e homens de negócios deste país. Na lavagem da sua imagem e do dinheiro que roubou aos angolanos contou com a participação de agências de comunicação portuguesas, jornalistas portugueses e principais escritórios de advogados portugueses. E é por isso que, à medida que as investigações forem avançando, todo o mundo continuará a tropeçar em nomes portugueses. Foi uma parte razoável da nossa elite a colaborar e a ajudar a silenciar denúncias.
Se era difícil não saber quem era e o que fazia Ricardo Salgado, com Isabel dos Santos qualquer tentativa de surpresa causará risota geral. Isabel dos Santos nunca foi dissimulada. Até porque, ao contrário de Salgado, o seu dinheiro era demasiado fresco para esconder o rasto. Todos sabiam de onde vinha. E quando digo todos não me refiro àqueles que com ela colaboraram ou podiam colaborar. Digo mesmo todos. Do empregado de café ao banqueiro. Quem, em Portugal, colaborou com o assalto organizado pela família dos Santos sabia o que fazia e até sabia que todos nós sabíamos o que fazia.
Onde isso é possível, porque a opinião pública pode ter sido surpreendida por esta história – que é a história da acumulação primitiva de capital em sociedades em transição para o capitalismo –, aqueles que antes partilhavam os corredores do poder com Isabel dos Santos vão dedicar-se ao costumeiro festival de cinismo. Já começou. A consultora PricewaterhouseCoopers (PwC) fez saber que vai deixar de trabalhar com empresas controladas pela família do ex-Presidente de Angola, anunciando uma investigação interna. E o Fórum de Davos desconvidou-a. Esperam-se mais comunicados indignados com o crime hediondo cometido por Isabel dos Santos: deixou-se apanhar.
Em Portugal, a coisa vai ser mais difícil. Foi tudo demasiado descarado, demasiado evidente, demasiado transparente. A cumplicidade com o assalto aos bens angolanos foi política de Estado, estratégia empresarial, quase um imperativo patriótico. De novo. O que me leva a sorrir quando leio um tweet em que Isabel dos Santos escreve que o preconceito perante a sua riqueza, nascida do seu “caráter”, “inteligência”, “educação”, “capacidade de trabalho” e “perseverança”, faz recordar “a era das colónias”. É possível que Isabel dos Santos não perceba que, com a sua ganância, é um simples peão do mais velho dos neocolonialismos. Mecanismo pelo qual o capitalismo internacional, com especial participação das antigas potências coloniais, encontra líderes corruptos locais para que eles continuem a transferir a riqueza de países com matérias primas abundantes para o exterior, perpetuando a pobreza dos seus povos e a exploração externa dos seus recursos.
Não, não estou a dizer que a culpa é nossa. Até porque o “nós” e “eles”, os angolanos e os portugueses, não têm aqui lugar. Isabel dos Santos não representa nenhuma colónia, assim como os portugueses comuns não representam nenhum colonizador. Ela e os seus comparsas portugueses, respeitáveis advogados, capitães da indústria e políticos cheios de sentido de Estado, representam a mesma relação colonial de sempre entre quem rouba e quem é roubado. E há “colonialismos” internos, cá e lá. Isabel dos Santos tratou do assalto, outros trataram de colocar o fruto do seu roubo na economia legítima. Não espero que venham assumir as suas responsabilidades. Estarão já à procura de outro fura-vidas para o negócio poder continuar. “As usual.”

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O balão vai rebentar!


Preocupante. Ou talvez mais do que isso, porque tem traços de escândalo, a sequência de "acontecimentos" que a praça política vai brindando o povo. Parece que andam todos aos papéis, a governar a vidinha ou a "varrer os armários". Chegou a um ponto que nada parece causar incómodo, porque se perdeu a vergonha, a dignidade, o bom senso e diria mais, o sentido de responsabilidade do acto de governar ou de ser verdadeira oposição. É evidente uma transversal falência da qualidade política, uma inversão de prioridades e uma subversão de princípios e de valores. Há um registo de normal anormalidade, feito de palavras ocas e vergonhas sem fim, como se a comunidade fosse toda ela acéfala, incapaz cruzar os dados entre o que é dito e o que se passa nos corredores do poder e no daqueles que o desejam. Enfim, há um vazio de consequências bem previsíveis. Vai dar "erro"!


Quem governa denuncia que tem os olhos no imediatismo e na salvaguarda de interesses pessoais e de grupo. É esse o sentimento que prolifera junto dos cidadãos. Entre assuntos maiores e outros de menor destaque, basta interpretar os sinais produzidos pela comunicação social e toda a esfera informal. Ao correr do pensamento e sem qualquer sequência temporal, neste mês de Janeiro soube-se que: o governo "quer a totalidade do capital social da SDM para, depois, concessionar a privados a respectiva gestão" (?). Que embrulhada! Entre a montra e o que vai no armazém há uma substancial diferença a explicar; a saga do ferry continua a esconder a verdadeira história guardada nos bastidores; a ininteligível prescrição de 52 milhões de euros de contribuições para a Segurança Social. Como foi possível?; que 450 idosos fazem dos hospitais a sua residência, facto constrangedor por terem deixado resvalar os direitos e a solidariedade até este ponto; a "placa central" que ora é domínio público da autarquia do Funchal, ora do governo. Tem dias o assalto às competências; o Jornal Oficial que dá conta de uma "multidão" de nomeações políticas (250 até agora) para lugares rigorosamente desnecessários; as lutas no interior do sistema de Saúde que não param, com posições divergentes na coligação, demissões e reuniões de tonalidade maquiavélica, textos públicos de intriga palaciana, escritos a duas, quatro ou mais mãos, enquanto centenas aguardam por uma cirurgia ou por uma consulta; registei, também, a cobrança de 22 milhões à Câmara do Funchal, esquecendo-se os mesmos que hoje pressionam, sem dó nem piedade, que deixaram mais de cem milhões de dívidas por pagar e que se negam a assumir contratos-programa para obras necessárias; ontem foi tornado público, a criação de um "Conselho de Economia" que conduz à pergunta: para quê, quando existem várias instituições parceiras e de debate, entre outras, a Associação de Comércio e Indústria e o Conselho Económico e Social da Região. Não chega? Mais. A crítica aos dois novos secretários tem vindo a subir de tom, simplesmente porque, após cem dias de governo, denunciam não ter linhas programáticas orientadoras, ficando a ideia que apenas ali se abrigam por conveniência no equilíbrio político. Perderam o sentido crítico de outros tempos. Ah, o turismo, indústria determinante, apresenta uma queda preocupante com 214.000 dormidas perdidas em onze meses... e tão grave quanto tudo isto é ver gente de peito cheio, atirar-se para fora da Região com aquela peregrina ideia do "inimigo externo", não dando conta que a Região tem órgãos de governo próprio e que já poucos ligam àquela treta. Dei conta, ainda, da continuada e irracional história dos Açores receberem da República um pouco mais que a Madeira, paleio que, intencionalmente, esquece, por um lado, que a transferência de verbas está escudada na Lei das Finanças das Regiões Autónomas, válida para qualquer governo na República, por outro, como se fosse exactamente igual governar duas ilhas relativamente às nove do outro arquipélago. Li, finalmente, sobre o orçamento para 2020, que ele é um "orçamento social", porém, face a tanta pobreza ou risco (cerca de 80.000 madeirenses) os mesmos que defendem esse tal "orçamento social", mostram-se insensíveis para proporcionarem aos mais vulneráveis, a velhíssima reivindicação de um apoio suplementar regional de € 50,00 nas pensões mais baixas. Já agora, como acontece nos Açores. Só mais esta, que tem chancela de milagre, o Marítimo apresentou dois milhões de lucro, mas continua à mesa do orçamento. 
E a vida continua, a novela promete ser interminável e há que alimentá-la, até porque, amanhã, já ninguém se lembra do disparate feito ou dito hoje.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Se se metem com o futebol, levam!


Por
Pacheco Pereira, 
in Público, 
18/01/2020

Se eu olhar para a televisão sem som, o maior criminoso português e europeu é um homem com ar de adolescente tardio, com cabelo espetado para cima, completamente nerd. Vejo esse homem-rapaz algemado, transportado por polícias de várias nacionalidades, com aspecto de ser um enorme risco de segurança, a julgar pelo aparato à sua volta, de um lado para o outro. O ar dele é de desafio e nunca faz aquela cena de esconder a cara. Pelo contrário, parece arrogante ou pelo menos indiferente ao que o rodeia, pelo que ainda mais criminoso me parece. Não me lembro de ver pedófilos, assaltantes, homicidas a serem expostos e “passeados” assim pelas polícias.


Se eu ligar o som, a televisão diz-me que esse homem se chama Rui Pinto e, segundo a última contabilidade (os números são um pouco confusos e estão a mudar todos os dias), cometeu seis crimes de acesso ilegítimo, um de sabotagem informática, 17 de violação de correspondência, 68 de acesso indevido e um de extorsão. É obra, é um hacker de sucesso, tem a carreira no ramo garantida quando sair da prisão, e usa os seus dotes para o crime, mas, que eu saiba, não feriu nem matou ninguém.
Fique claro que eu não tenho dúvida nenhuma de que o homem é um criminoso, mas o seu tratamento contrasta com aquele que é dado aos criminosos de colarinho branco, aos homens que falsificaram documentos, que manipularam registos bancários, que fugiram ao fisco, que lavaram dinheiro, que roubaram o seu país de origem em que milhões vivem na mais abjecta pobreza, que levaram muitas empresas à miséria, trabalhadores ao despedimento e deixaram um rastro de “lesados” que perderam as poupanças de uma vida de trabalho. Muitos desses homens continuam a frequentar a melhor sociedade, passeiam-se pelos salões e o máximo que lhes acontece é estarem em casa em prisão domiciliária com uma pulseira. O contraste é gritante.

É muito simples responder à questão de saber por que razão existe este contraste. O homem meteu as mãos, ou melhor, o computador e o software, no mundo do futebol. Não no futebol popular, não no “clube mais perigoso do mundo”, o Canelas Gaia Futebol Clube, uma emanação da claque dos Super Dragões que, como se sabe, também não é flor que se cheire, mas no mundo do futebol de milhões, de muitos milhões, em que circula a elite dos clubes, dos negócios, dos fundos de investimento, da advocacia, das agências de publicidade, da banca, dos agentes e intermediários detentores de passes de jogadores, etc.

Um mundo em que os crimes de lavagem de dinheiro e as fugas ao fisco, várias manipulações fiscais no limite da legalidade, violações dos próprios códigos de ética das associações de futebol, publicidade disfarçada, acordos de silenciamento, entendimentos secretos para manipular os mercados de jogadores, a utilização generalizada de offshores, a publicitação de valores falsos de transacções de jogadores, são o habitual. Nem tudo são crimes, mas tudo são procedimentos proibidos pelas próprias regras de ética que os clubes aceitaram, incluindo a falta de transparência e a manipulação da opinião pública por jornalistas e comentadores que actuam por conta dos clubes. Foi isso que revelaram e continuam a revelar os chamados “Football Leaks”, com a colaboração dos jornalistas de investigação da imprensa europeia de referência, com a hostilidade e a censura mesmo de muitas autoridades nacionais, que aceitam com facilidade suspeita calar estas denúncias.
Não se pense que estou a minimizar os crimes de Rui Pinto pelo facto de ele ter mexido na lama de ouro e fazer os “grandes” ter de pagar o que tinham escondido ao fisco e mostrar como o “grande” futebol funciona como uma máfia. Não estou. Pinto não o fez pelo amor à “verdade desportiva”, nem por repúdio pelas manigâncias do grande futebol – fê-lo para chantagem e extorsão. Nem sequer sou muito sensível ao facto de que parece que Rui Pinto está a ajudar as autoridades com informações para investigações em curso. Nem muito menos ao proverbial princípio de que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Nada disso.
O que não percebo, ou melhor percebo demasiado bem, é a desproporção de tratamento, a sanha persecutória contra um criminoso cujas vítimas foram outros criminosos, ou gente gananciosa na zona cinzenta da lei, que nunca andariam de algemas, os grandes clubes como o Mónaco, o Real Madrid, o Tottenham, o Manchester City, o Paris Saint Germain, o Sporting, várias federações nacionais de futebol, incluindo a portuguesa, a FIFA e pessoas como Ronaldo, Neymar, Mourinho, e só cito os nomes mais sonantes porque não sei muito de futebol.
A sanha contra Rui Pinto não passa apenas pela justa condenação pelos seus crimes – revela uma enorme duplicidade, a mesma duplicidade que explica a complacência popular face às malfeitorias do futebol e que explica por que razão um jogador pode fugir ao fisco com milhões e, se for do nosso clube ou uma emanação da pátria, ninguém quer saber. Na verdade, ninguém queria nem quer saber das revelações dos “Football Leaks”, recebidas com um encolher de ombros, mas atira-se com violência face ao delator, em particular se a denúncia for do “nosso” clube. O reverso, que explica o cartaz reproduzido acima, é da mesma natureza. É que o populismo habita o futebol, mas não se vê ao espelho. O mal de Rui Pinto foi que, para ganhar uns cobres, deu-lhes um espelho indesejado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A complacência com Trump é um erro monumental


Por
José Pacheco Pereira, 
in Público, 
11/01/2020

Volto a Trump, a única coisa relevante que há hoje para discutir. É pouco mediático num país que é muito indiferente às questões internacionais, não dá títulos saborosos como os pequenos “casos” nacionais, cansa e parece monotemático, mas é decisivo para o nosso futuro. O que fizer ou não fizer Trump, e o que nós lhe permitimos, vai decidir as próximas décadas. E cada vez parece mais uma obrigação ética travar o combate para o deter, porque estamos num desses momentos da história, em que esta se acelera, e, como na maldição, se torna “interessante”. Pensam que isto é um exagero e Trump um epifenómeno? Puro engano. Vejam só que ele já fez.

O que é perigoso na actual discussão é que mais uma vez se verifica algo que vi toda a vida: quando alguém tem força, essa mesma força é interiorizada como razão, como explicação, como realismo e dá-se uma falência crítica e perde-se clareza. E mais do que tudo com Trump é preciso ver claro. Os poderosos têm seguidores pelas vantagens de estar ao lado do poder, mas o efeito mais insidioso é a impregnação do pensamento e da crítica mesmo daqueles que se lhes opõem.
Leia-se o que se escreveu esta semana em Portugal. Vejo com espanto a facilidade com que o discurso trumpista se interioriza, e como o caos e as contradições resultam em discursos salomónicos, e em benefício da dúvida. Claro que não se pode esquecer que em Portugal há mais “trumpinhos” por aí à solta do que se imagina, quer os que o adoram, mas mais ainda os que precisam dele à direita para equilibrar um mundo que, pensam, se deslocou demasiado para a esquerda.
Não lhe dão palmas em público, mas dentro da cabeça, porque Trump bate nos mesmos inimigos em que eles gostariam de bater. É uma simpatia por afinidade que não ousa dizer o seu nome. Existe em Portugal, no Observador, no i , nalguns blogues muito à direita e que são câmaras de eco em bruto do Observador, mesmo na comunicação social de referência com gente mais preocupada em manter “equilíbrios” e distanciações, quando isso é exactamente o que os trumpistas querem.

O discurso de Trump é simples: há vitórias e vitoriosos e derrotados. Ele Trump teve uma “vitória”, porque os iranianos “cederam” e “recuaram” e assim ele pode obter o efeito útil de ter morto um adversário dos EUA, sem grandes consequências e mostrar força, fazer de Rambo e bater com as mãos no peito como o Tarzan para fins eleitorais. É o discurso habitual de Trump e os mecanismos mediáticos, que ele explora com sucesso, são hoje muito adequados a ver as coisas assim. Talvez, se se parasse para pensar, se perceba que não só esta é uma maneira muito grosseira de ver as coisas — o que se adapta muito bem a Trump e às colunas do sobe e desce, e às redes sociais —, como assenta mais no wishful thinking do que em factos, e não nos fornece uma visão coerente do que se passa. E acrescento não é muito complicado perceber que é uma história muito esfarrapada, ou como agora se diz “uma narrativa” que só se sustenta no peso da força e no ainda maior peso da preguiça mental.

Veja-se só, a título de exemplo, o próprio discurso vencedor de Trump — um discurso que em condições normais deveria arrepiar toda a gente. Mas que “passou” bem, porque pareceu moderado. Trump começa por dizer que os iranianos não atingiram ninguém, porque as contramedidas sofisticadas resultaram, impedindo-os de obter o objectivo de matar soldados americanos. Mais adiante, no mesmo discurso, sugeriu que os iranianos afinal deram uma resposta débil, porque recuaram com medo da resposta americana. Então queriam ou não matar americanos?
Nos dias seguintes, fontes militares disseram que sim, outras fontes acentuaram o recuo a “desescalada”, e a tese predominante é a segunda. Por sua vez, os iranianos mantêm também um discurso contraditório, mas porque lhes é vantajoso. Os iranianos não têm o poder dos EUA, como, aliás, os norte-coreanos. Medidos por essa bitola são sempre o lado mais fraco. Mas face a Trump são mais inteligentes, têm uma estratégia consistente e não dependem da imprensa do dia seguinte para prosseguir os seus objectivos — e não têm eleições para ganhar.
Qual é nos dias de hoje o “seguro de vida” do regime iraniano, como, aliás, do norte-coreano? Ter armas nucleares. Agora que não têm as peias do acordo é o que os iranianos vão fazer a toda a velocidade. Ora Israel e os EUA não o podem permitir, o que significa que terão de atacar o Irão. E como é? Vão só atacar de alto e não colocar “botas no chão”? Só com enormes baixas colaterais, civis. E não há Rússia e China?
O assassinato do general iraniano é uma distracção, neste contexto que radicaliza todas as frentes menores e não ajuda a maior, que Trump ajudou a estragar ao abandonar um acordo nuclear que estava a ser cumprido pelo Irão. Quando digo que o principal risco da política de Trump é ser errática e caótica, é por aqui que se mede. Não houve por isso vitória nenhuma, só encurralamento cada vez maior no caminho de uma guerra generalizada. Trump não quer saber disso para nada, desde que entenda que sai favorecido eleitoralmente. E, como quer ter vantagens sem grandes custos, apela aos países da NATO para lhe darem cobertura e homens e mulheres para não haver muitas baixas americanas. A resposta frouxa da NATO é quase tão perigosa como o caos de Trump.
Infelizmente, isto vai continuar.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Joacine


Enquanto fazia o meu "obrigatório" exercício diário de corrida, entre 30 a 40 minutos, fui seguindo o debate do Orçamento de Estado. Até que foi dada a palavra à Senhora Deputada Joacine Katar Moreira. Ora bem, tenho o maior respeito, seja lá por quem for que, naquele e em outros espaços de representação do povo, seja portador de alguma deficiência ou perturbação. No caso da Drª Joacine Moreira, obviamente, que a sua gaguez, não sendo uma doença, contudo constitui um grave problema na comunicação. Uma vez mais foi-me aflitivo vê-la querer comunicar e constatar as sucessivas hesitações e, por vezes, quase intermináveis bloqueios. 


Desconheço, mas presumo que a Deputada em causa tenha feito terapia da fala. E se assim aconteceu, deduzo que a sua perturbação seja muito complexa. De tal forma que, pelo menos para mim, foi sofredor acompanhá-la no desejo de querer expor uma posição e não conseguir. Cheguei ao final e não compreendi o que pretendia transmitir. Confesso que me perdi naquele labirinto à procura de uma saída sempre travada por um bloqueio. 
Eu sei que naquele hemiciclo há gente de palavra fluente mas que apresenta uma disfemia de pensamento que, por vezes, arrepia. São outros tipos de "gaguez"! Articulam palavras, porém, em deriva constante relativamente, aqui sim, às "doenças" do país. São fluentes no discurso, mas sofrem de uma incapacidade crónica de saber olhar para a História e de contextualizar os assuntos para além da visão partidária.
Neste caso concreto, interrogo-me se não haverá solução? Eu penso que sim. Bastaria uma alteração regimental que possibilitasse a leitura por outrem dos seus textos e ou perguntas fundamentais, até porque os tempos de intervenção que dispõe são limitadíssimos. Será assim tão complicado?
Do que assisti, enalteço, pelo menos a avaliar pelas imagens disponibilizadas em directo, a atitude irrepreensível dos membros do governo e de todas as bancadas. Imperou, uma vez mais, o respeito pela diferença.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Vacas sagradas

Por 
Daniel Oliveira, 
in Expresso, 
04/01/2020

Augusto Santos Silva disse que a gestão em Portugal é “fraquíssima”. Todos os estudos o demonstram. Temos os gestores com menor formação da Europa (mais de metade não têm o ensino secundário) e o hábito de colocar os “primos” no Estado resulta de uma cultura nacional, fortemente presente no sector privado, e não de uma idiossincrasia da gestão pública.


Arriscar-me-ia a dizer que a qualidade média dos gestores evoluiu menos do que a qualidade média dos trabalhadores. E também isso ajuda a explicar porque é que as nossas empresas não conseguem absorver o brutal investimento público feito em formação.
O problema é que a afirmação do ministro ignora o contexto. E o contexto é uma realidade económica e monetária que desincentiva as exportações, uma estrutura empresarial composta por pequenas empresas sem massa crítica e gestão realmente profissionalizada e um pequeno grupo de grandes empresas concentrado na prestação de serviços pouco qualificados e protegidos da concorrência. Sobram umas ilhas de excelência que nos dão alguma esperança mas não chegam para contrariar esta realidade. Porque não são os gestores que definem a realidade que temos, é a realidade que molda os gestores que temos. Não é por acaso que os “empreendedores” que merecerem maior admiração mediática são distribuidores e importadores de bens alimentares, administradores de bancos falidos e CEO de empresas em regime de semimonopólio. E, no entanto, os gestores das empresas do PSI-20 ganham 52 vezes mais do que os seus trabalhadores. Em 2014 era só 33 vezes mais, mas a recuperação económica chegou aos gestores sem passar pelos “colaboradores”. Os mesmos que exigem contrapartidas para o aumento de um salário mínimo indigno. Os mesmos que desconhecem qualquer cultura de concertação social — não me esqueço de uma conversa que tive com um importante empresário que se orgulhava de nunca ter falado com um sindicalista. O episódio da funcionária do Pingo Doce da Bela Vista, obrigada a urinar na caixa porque não a deixaram ir à casa de banho, ainda é um lamentável retrato do nosso atraso. Mas, mais uma vez, relações laborais primitivas são um retrato de uma economia pouco qualificada. E se o futuro está no turismo de massas isto não mudará.
O problema da afirmação de Santos Silva é a habitual facilidade em tratar atrasos estruturais do país, com causas complexas e responsabilidades dispersas, como falhas de um grupo específico. Mas não é nada que não tenha sido feito em sentido inverso. Quando Belmiro de Azevedo disse que “o problema é que os atores políticos têm que ser de uma qualidade diferente da média atual” ou Alexandre Soares dos Santos acusou “todos” os políticos de só estarem “a pensar nas eleições” ninguém se indignou por estarem a denegrir injustamente os políticos. O que eles disseram é tão verdade e tão redutor como o que foi dito por Santos Silva. Porque em vez de se concentrarem nas debilidades sociais, económicas e políticas do país preferiram falar de um grupo específico. Num caso, causou polémica e acabou em pedidos de desculpa, no outro foram aplaudidos pelo desassombro. E já nem falo de todas as vezes que se sublinha, sem qualquer sobressalto, a falta de qualificação dos trabalhadores. Ao que parece, os gestores são as novas vacas sagradas.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

PARA A FOTOGRAFIA...


Ou para a propaganda. Talvez as duas coisas. Fico a pensar que perante tantos e graves problemas no sector da Saúde, importante continua a ser a promoção da imagem, mesmo que ela assuma contornos de um certo ridículo. 

Ora bem, nasceram seis crianças no dia 1 de Janeiro, mas esse facto, questiono-me, justificará a presença do secretário regional junto de uma das parturientes? E quantas nasceram no dia 2 e hoje? Trata-se de um facto normal, jamais anormal. Já outros, as listas de espera, os sérios desconfortos entre médicos, enfermeiros e restante pessoal que trabalha para o sistema de saúde, por causarem desassossego, deveriam merecer um outro olhar de séria preocupação. 
Esta forma de estar no exercício da política tem uma história, eu diria, com barbas. São anos e anos de presença em tudo, desde a "festa da cebola" à "festa da lapa". Uma "faz chorar" e a outra tem, neste contexto, a simbologia do "apego ao poder". Portanto, de uma até à outra, lá está sempre um palco para meia-dúzia de palavrinhas de circunstância. É, como diz o povo, o tempo da palavra do "senhor governo". Entrou na rotina, em que os acontecimentos, mesmo os mais vulgares, conduzem logo a uma presença para a fotografia e propaganda.
Na mesma edição que dá conta de seis nascimentos é anunciado o falecimento de onze madeirenses. Ora, nascer e morrer são circunstâncias absolutamente normais, a diferença, como sublinhou Belmiro de Azevedo, "está em um fatinho e um par de sapatos". E não consta que o Senhor secretário tenha ido apresentar condolências!
Apenas um desabafo, sincero, pois entendo que é tempo de trabalhar em assuntos muito sérios. 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Último dia. Amanhã tudo será igual!


Violência, agressividade entre bem-falantes, intolerância, ausência de diálogo cooperante, conflitos por uma hegemonia contrária ao sentido da vida, paulatina destruição da nossa casa comum, ganância em contraponto à negação da exploração do homem pelo homem, abandono, fome, pobreza, guerra e morte, tudo isto continuou em 2019, apesar dos sempre louváveis acenos e desejos de um bom ano! A todos os níveis, do mais alto exercício da política até ao mais paroquial, a hipocrisia voltou a pontificar, continuaram as Acções de Graças com governantes na primeira fila, orando e batendo no peito, "por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa", mas a terminar, nestes dois últimos dias, mulheres aperaltadas e homens de smoking embora descalços, abraçam-se, mastigam passas (para quê?) bebem champanhe, em muitos casos do melhor, assistem ao fogo e fazem promessas e juras. Para o ano é que será o concretizar dos sonhos e desejos! 

Fogo na Madeira em 2016.
Foto da minha autoria. Atribuí o título:
"Abraço de Anjo"

E para a esmagadora maioria o próximo ano não será, obviamente. A engrenagem está montada, sofisticadamente oleada, aquela que subtil mas intencionalmente tritura e impede a esperança de melhores dias. O diabo continuará a amassar o pão e eles, do alto do seu púlpito, continuarão a sua luta pela descoberta de palavras e frases vãs, assobiando para o lado relativamente ao mundo que os mais vulneráveis vão escondendo e reclamando. 
Não sou uma pessoa derrotada pelas evidências, mas não gosto de caminhar vendo não vendo! Acompanha-me Salgado Zenha (1923/1993), um político que frequentemente assumiu que "só é vencido quem desiste de lutar". Já estive em algumas, profissionais e de cidadania activa, agora remeto-me a ler, reflectir e transmitir o que brota da acumulação de sentimentos. Não é novidade para qualquer um de nós que os "Vampiros" não nos deixam. O Zeca continua cheio de razão, embora outros sejam os tempos: "No céu cinzento sob o astro mudo / Batendo as asas pela noite calada / Vêm em bandos com pés de veludo / Chupar o sangue fresco da manada (...)". A sofisticação dos actos é que é diferente. Não é preciso uma polícia de Estado, não são necessários bufos de papel passado e a tortura apresenta-se sem marcas físicas externas visíveis. São interiores e devoradoras. Tudo flui no quadro de uma anormal normalidade. Roubam às escâncaras, pagamos os luxos e corrupções, desrespeita-se o sentido das prioridades estruturais e os pavões do "carro-preto" fazem-nos trazer em memória o que uma princesa terá dito ao saber que os pobres não tinham pão: "eles que comam brioche", o que significou e significa uma completa ausência de entendimento das tais prioridades básicas. Pois, Zeca, a engrenagem tem História e seguidores: "(...) São os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei / Enchem as tulhas bebem vinho novo / Dançam a ronda no pinhal do rei (...)".
Não estou a exagerar. Basta olhar em redor e fixar este número: por aqui, 30% de pobres significa cerca de 75.000 pessoas que não vivem bem em uma Região Autónoma, qual fruto bonito por fora mas corroído por dentro. Ficam claras as assimetrias. O Banco Alimentar que o diga, a que se juntam instituições religiosas e tantas outras que mitigam a fome. E o que dizer de tantas outras fomes? E o que dizer de um tempo onde ter um emprego não significa não ser pobre? E o que dizer dos milhares com consultas médicas e intervenções cirúrgicas em atraso. E o que dizer de um sistema educativo espantosamente apresentado como inclusivo, mas que deixa pelo caminho milhares que engrossam o "clube" da desesperança?
Porque temos o dever de acreditar no Homem, porque por detrás de Hong-Kong, dos coletes amarelos, dos jovens em luta pela defesa do Planeta entre tantos outros movimentos de cidadania de importante e constante revolta, apesar dos fazedores de implacáveis guerras e de uma comunicação social ao serviço de interesses não descortináveis em um simples olhar, oxalá que, em 2020, sejam dados passos no sentido de uma inteligência que respeite a dignidade do ser humano. Que os milionários se lembrem que a sua defesa e progresso está directamente relacionada com o bem-estar dos semelhantes. Que já descobrimos que as crises são fabricadas e que não é saudável, este é um mero exemplo, que 2/3 da riqueza dos Estados Unidos esteja nas mãos de dez famílias. E ali fala-se do sonho e da liberdade! Que os Estados olhem para as pessoas e que as economias estejam ao serviço do Homem e não de minorias. Por isso, apesar de tudo, um Bom Ano. Que a saúde não atraiçoe!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 29 de dezembro de 2019

E APESAR DISTO OS CULPADOS SÃO SEMPRE OS OUTROS


Final de ano, tempo para algum balanço. Entre muito que poderia e deveria ser analisado, ontem li um texto do Dr. Carlos Pereira, Deputado do PS na Assembleia da República. Transcrevo-o, não pelo facto de ser um Amigo, mas por nele ver a capacidade técnica e política que a muitos e muitos políticos não descortino. Vivi com ele várias lutas, infelizmente, quase todas perdidas. Pelo meio, muitas ofensas. A verdade porém, é que o tempo acabou por lhe dar razão. Esta síntese, publicada na sua página de fb, constitui, apenas, alguns pontos de referência. Mas existem tantos outros. Parabéns Amigo Carlos e que continue o seu trabalho político em defesa de uma Madeira distante de novos colonos. E, já agora, saiba que estou a reler "A Herança - saiba como a Madeira escondeu a dívida", esse magnífico documento de economia que todos os Deputados deveriam ler.

Há um custo mas não sei para quem mandar a conta das responsabilidades! Ou melhor, já não me cabe a mim fazê-lo ...
Num tempo de balanço , apetece-me voltar atrás, mais atrás do que apenas 2019, e lembrar que custa estar certo antes do tempo. Custa muito, não para mim próprio, porque aprendi a viver sem o sabor do reconhecimento, custa porque a Região perde muito ao reconhecer os erros tão tardiamente ou a ignorar ostensivamente alertas sustentados .
Três exemplos concretos de grande dimensão que se tivesse sido atalhado o caminho a Madeira vivia melhor:
1- DÍVIDA DA MADEIRA: cheguei ao Parlamento da RAM em 2007. Por essa altura falava-se numa dívida de 500 milhões . Passado pouco mais de um ano actualizei os dados depois de cruzar informação e lancei a suspeita de uma dívida que ultrapassava os 3,2 mil milhões . Fui enxovalhado muitas vezes, aguentei, insisti e provei os meus cálculos mas 3 anos mais tarde o mundo conheceu os 5,5 mil milhões de euros. Se tivesse sido levado a sério os meus abertas estaríamos hoje bastante melhor e talvez nunca tivéssemos um PAEF!
2- PERDA DE FUNDOS EUROPEUS: alertei a partir de 2005 e reforcei o apelo a partir de 2007 que era preciso colocar na agenda os critérios de transferência de fundos porque podíamos perder centenas de milhões de euros . Fiz várias propostas em sede de ALRAM por causa do empolamento do PIB em virtude do efeito da Zona Franca. Foi sempre tudo chumbado e, mais uma vez, não me esqueço das perseguições e eles sabem de quem falo . Hoje está demonstrado que eu tinha razão mas a Região perdeu 1500 milhões de euros.
3- REGIONALIZAÇÃO DA SDM E GESTÃO PÚBLICA DA ZONA FRANCA. Apelei ao bom senso para que a Região assumisse a gestão dos benefícios fiscais, desde 2008. Apresentei propostas todos os anos. Alertei para que aquando a renovação da concessão (2017) fosse aproveitado para, ou realizar outro concurso ou a Região assumir a sua gestão. Hoje (já alguns meses atrás) volta a ser demonstrado que tinha razão e percebemos todos que a resolução desta questão será feita com um custo social adicional desnecessário. Também fui insultado até pelo ex- presidente da SDM que sempre se apresentou como figura distante e sábia criando uma barreira para avaliar responsabilidades e proveitos!
Podia dar bastantes mais exemplos: a concessão da inspecção automóvel que alertei vezes sem conta (até fui insultado e agredido pelos concessionários); os custos da OPM (fui ameaçado pelo Dr Sousa, um tal que aparece como estrela local porque manda cartas ao governo e por aí se mantém); a escandalosa gestão das sociedades de desenvolvimento, hoje nem vale a pena fazer comentários... e por aí fora !
É um balanço de quem dedicou uma parte da sua vida a defender o interesse da Madeira e que depois de tudo , e apesar de tudo, há contas a fazer embora já não saiba muito bem para quem mandar a conta e sobretudo esteja afastado desses deveres !
Bom ano.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O "carnaval" continua na Escola de Hotelaria e Turismo


Só o Omo lava mais branco! Foi a leitura que fiz depois de ler o "trabalhinho" publicado na edição de hoje do Dnotícias sobre a Escola de Hotelaria e Turismo da Madeira. A escola está bem e recomenda-se, pode ser a conclusão. O "entrudo" continua! Todos os professores reclamaram sem sentido e o outro pessoal, de prestadores de serviços a especialistas, deveriam estar calados, acabei por deduzir.

A secretaria da Educação, que tutela o estabelecimento, deve ter organizado a coisa muito bem para, através de outrem, lavar a sua cara. A entrevista é "omo" e o papel da secretaria é de embrulho. Está tudo limpinho e enfeitado com cores garridas, não há razões para alarme, a transparência no funcionamento é total que nem o mais famoso limpa vidros conseguiria fazer. A páginas tantas, face a tanto sucesso, perpassou-me pela cabeça a canção de os "Da Vinci", "O Conquistador", pelos cursos em Angola, Moçambique e agora S. Tomé. Ainda chegam à Praia, Bissau, Macau e Timor!
Portanto, em função da "despropositada" movimentação dos professores, vi-os de cabelos em pé em uma reunião sindical, dirão os mais incautos que, para esclarecimento cabal, no mínimo, seria razoável promover um inquérito, mas, de facto, para quê? Pelo que li, todo aquele pessoal é ingrato face a uma escola em "entrudo" permanente. O ano escolar passa para 34 semanas e até poderão vir a receber em dias de férias as horas extraordinárias. Não é bom? Se é... o problema é que parece que os supermercados não recebem "dias de férias" em troco do carrinho de compras! E o que seria do "entrudo" sem dinheirinho para as malassadas? 
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Não dá a bota com a perdigota


Nota prévia
Não sou entendido em mecânica de automóveis, ligeiros ou pesados, nem tenho formação jurídica para acusar ou absolver. Portanto, o que aqui fica escrito é a leitura de um simples cidadão que olha para um caso e fica perplexo. Talvez porque toda a informação não circulou. Talvez. 

Neste Natal, entre muitos e muitos aspectos que poderia e, porventura, deveria equacionar, desde os diversos constrangimentos, desde os de natureza social até ao estendal de hipocrisias que a época é propícia, há uma situação, a de um Homem que me parece só, acusado de ter sido o responsável por 29 mortes. Refiro-me ao caso do autocarro que tombou na estrada do Caniço.
Ora bem, li que se tratava de um excelente profissional, muito experiente e cumpridor das tarefas, li também que não se tratava de uma pessoa desequilibrada a vários níveis de análise nos foros médico e psicológico e li, também, que nada acusava na taxa de alcoolemia.
Fiquei pasmado quando foi público que, segundo os peritos, o autocarro estava em perfeitas condições de circulação. E mais pasmado fiquei quando, de seguida, o Ministério Público da Madeira acabou por acusar o motorista por 32 crimes (homicídio por negligência e crimes de ofensa à integridade física).
Ora, parece-me que "não dá a bota com a perdigota". Certo é que o tal motorista exemplar e experiente passará este Natal com muitos dedos apontados para ele. Não o meu e, certamente, o de milhares de madeirenses porque, repito, há evidentes contradições por explicar. E não é preciso ser entendido em automóveis ou em matéria jurídica. Apenas contradições. Imagino o que deve estar a passar. Ele e a sua família. E sendo assim, eu que não o conheço, saúdo-o com um fraterno abraço de solidariedade.
Imagens: Google Imagens.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Zozi, a Miss Universo que questiona e redefine a beleza


Ricardo Vita, 
in Público, 
20/12/2019

“Cresci num mundo onde uma mulher que se parece comigo, que tem a cor da minha pele e o meu cabelo, nunca foi considerada bonita, e acho que chegou a hora de acabar com isso, hoje. Quero que as crianças olhem para mim e vejam o meu rosto, e quero que vejam os seus rostos reflectidos no meu.”

Foi com essas palavras retumbantes, mas serenas, que o mundo inteiro descobriu surpreendido, no dia 8 de Dezembro, a Miss Universo 2019; uma mulher negra, inspiradora e sublime, em sintonia consigo mesma e com este século de afirmação de todas as diversidades. Lembrou-nos Nefertiti, a poderosa rainha egípcia negra de lendária beleza. Tem 26 anos e vem da terra de Mandela, África do Sul. Chama-se Zozibini Tunzi, uma genuína deusa da beleza do novo paradigma e do futuro.
É Zozi, para os amigos que, como ela, entendem a importância dos imaginários, da iconografia e as modalidades das suas construções. É a quinta mulher negra a ser coroada Miss Universo, mais é a primeira a reivindicar em voz alta a sua intenção de mudar mentalidades — para defender a beleza e a mulher — destacando a cor da sua pele e o seu cabelo crespo como triunfos intrínsecos. Pois, Zozi entendeu que a sua coroa já havia sido comprada e paga. Tudo o que ela precisa fazer é usá-la. Sabe que a sua história não começou no século XV com a chegada dos europeus a África, mas foi com eles que murchou. Sabe disso.

O frescor de Zozi faz-nos pensar sobre a beleza. Quem a define e como? E essa definição, a quem beneficia e a quem prejudica? Basicamente, como é que escolhemos entre o belo e o feio nas nossas sociedades? Pois, se a beleza é inevitavelmente uma construção cultural, então como podemos desconstruí-la, quebrá-la quando a definição não nos corresponde? Em 2011, critiquei, num artigo publicado no diário francês Libération, a uniformidade que reinava no universo da alta-costura.

Quis mostrar como designers como Karl Lagerfeld impuseram um modelo de beleza que excluía quase todas as mulheres não brancas. A mulher que ele sublimava era andrógina, magra, para não dizer anoréctica, sem formas ou curvas que subjugariam o olho imparcial posado sem concupiscência malsã na mulher não caucasiana, geralmente fora do padrão. Por exemplo, o olho parcial de Lagerfeld não podia apreciar a beleza e a escultura divina do corpo de várias mulheres negras. Era incapaz de ir além dos muros que cercavam a sua ilha. Com ele, graças à força de ataque que adquirira na Chanel, a digna alta-costura, a de Paco Rabanne, Yves Saint Laurent e Jean-Paul Gaultier ou John Galliano, havia deixado de rimar com diversidade.
Lagerfeld reinou como um absolutista neste mundo durante décadas, ditava a chuva e o bom tempo. Mas, com os outros, a haute couture era mais bonita e temos boas lembranças disso. Azzedine Alaïa lançou e defendeu com unhas e dentes Naomi Campbell; Saint Laurent fez o mesmo com Mounia, Iman Bowie e Katoucha; e Alek Wek foi várias vezes a “noiva” nos desfiles de Christian Lacroix.
No entanto, havia, e ainda há, uma constante. Fora de Alek Wek, na pele, impuseram-nos modelos negros — tanto mulheres como homens — com pele clara e feições finas. Essa segregação persiste em praticamente todos os lugares, como no mundo da música. No ano passado, numa entrevista sincera, Mathew Knowles, pai e ex-manager de Beyoncé, reconheceu, e insistiu, que a sua filha não teria o sucesso nem a carreira a solo que tem se não tivesse pele clara. “Se fizermos uma retrospectiva, sobre Whitney Houston, por exemplo, analisando as suas fotografias, veremos como elas foram trabalhadas para a tornar mais clara de pele! Há uma percepção, um colorismo, quanto mais clara for a pele, mais inteligente e rico parecemos. Portanto, existe uma percepção da cor em todo o mundo, mesmo entre os negros”, afirmou. Esse fenómeno, “selectivo e imposto”, continua até hoje. Winnie Harlow, uma linda modelo negra canadiana, vítima de vitiligo, é usada, positivamente, pelas marcas Desigual e Diesel; e Ashley Graham, uma modelo branca com excesso de peso, também goza dos favores de marcas e revistas famosas.

Portanto, há pessoas que decidem o que é bonito e o impõem a todos. Quando isso é feito de maneira sã, como no espírito de Yves Saint Laurent — o espírito que une, que celebra a diversidade e a diferença —, é claro que devemos recebê-lo de braços abertos para o abraçar. Mas devemos recusar com força os Lagerfelds de ontem, hoje e amanhã, devemos combatê-los.

E sejamos como Zozi, ela sabe que a beleza do mundo foi construída contra os negros, desde que foram dominados. Ela sabe que é por isso que os negros se rejeitam hoje, que a história de submissão se tornou a razão da sua vergonha de existir, o auto-ódio. Mas o que Zozi sabe melhor é que ela vem de uma longa linhagem de nobreza; de monarcas cujos poderes e inteligência eram temidos por todos os povos da terra, de filósofos, sábios e poetas que treinaram a humanidade toda. Ela sabe disso, é o que justifica a sua dignidade reconfortante. Essa dignidade, que ouvimos na voz segura e vemos no seu cabelo natural, não se deve apenas à vitalidade e pujança de Winnie Mandela, mas também ao orgulho das Candaces, essas rainhas poderosas do reino matrilinear de Kush (ou Cuxe). Ela sabe que os seus antepassados construíram e governaram o Egipto da abundância e alta expansão.
Zozi sabe o preço da sua coroa, sabe que é sua, de pleno direito. Ela faz parte dessa geração consciente que não quer mais ser definida por outros; a sua é a geração do novo paradigma. É essa geração que está determinada a reabilitar todas as belezas ocultadas ou minoradas, e as belezas confiscadas há muito tempo por gurus oportunistas e dogmáticos da monocultura, aqueles que definem a beleza como bem entendem por seu único e insaciável desejo de continuar a dominar.
Alegremo-nos então hoje, pois, pela primeira vez na história, ao mesmo tempo, no momento em que escrevo estas linhas, a Miss Teen USA é negra, a Miss USA é negra, a Miss America é negra, a Miss Mundo é negra e até a Miss França é negra. Não é um favor que vem do white-saviorism, como alguns revisionistas sempre tentaram afirmar nessas circunstâncias, é a força de um movimento de base que está determinado a mudar o mundo. A maioria de jovens do mundo — brancos, amarelos, vermelhos, negros — quer criar um outro mundo, um lugar mais agradável para se viver na diversidade. E só espero que, no próximo ano, todos esses títulos sejam atribuídos a outras belezas diversas, das quais o mundo é abundante: asiáticas, orientais, ameríndias, brancas. Este é o ciclo normal da vida humana, que devemos plenamente libertar das intenções vis dos supremacistas e segregacionistas.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A literatura ou a vida


Por
António Guerreiro, 
in Público, 
20/12/2019

Num texto sobre a lista de livros do ano que escrevi para esta edição do Ípsilon, falo da existência quase clandestina de alguns livros, por determinações das regras do mercado e das contingências da recepção crítica. Mas falo também de uma clandestinidade auto-infligida (algo que se passa quase exclusivamente no campo da poesia), que foi praticada, por exemplo, durante alguns anos, por Joaquim Manuel Magalhães.


Podemos entrever nalguns gestos deste tipo um desencantamento com aquilo a que chamamos “a vida literária”; mas pode ser também, noutros casos, um jogo com a coisa literária, com os leitores e o “meio”, ou uma reivindicação exacerbada da autonomia da obra. O “caso” que me suscitou algumas considerações foi o de Jorge Gomes Miranda, sobre o qual já me tinha muitas vezes perguntado: “O que é feito deste poeta, que deixou de publicar?” (pergunta que faço também relativamente a outro poeta: “O que é feito de Paulo Teixeira?”). Evidentemente, esta pergunta supõe um hábito muito do nosso tempo, toma como modelo o escritor que publica todos, ou quase todos os anos, acompanhando a aceleração do nosso tempo. Ficar hoje meia dúzia de anos sem publicar, mesmo que já seja autor de uma obra volumosa, é ficar condenado ao desaparecimento público. Um escritor com a publicação escassa de um Flaubert é, no nosso tempo, uma singularidade que raramente ajuda o reconhecimento. É verdade que existem casos como os de Salinger, que com o seu romance, Catcher in the Rye, se tornou um escritor de culto e passou ele próprio à clandestinidade, como quem não quer ter nada a ver com a vida literária nem com a função-escritor, como um criador que se ausenta da sua criação. Porque é que nos fascinam estas figuras como Salinger ou como Maurice Blanchot? Este último neutralizou-se completamente na vida civil, depois do Maio de 68, em nome da literatura. É difícil imaginar outra actividade, artística ou não, em que a “impessoalidade” seja vista como a mais alta exigência, em que a obra, no fundo, aniquila o seu autor.

O escritor francês Romain Gary, que se suicidou em 1980 com 66 anos, publicou livros com diferentes pseudónimos, sem nunca revelar a identidade que lhes correspondia. Assim acabou por ser o único escritor da literatura francesa que conseguiu a proeza de ganhar dois prémios Goncourt: um, atribuído a um romance assinado pelo seu próprio nome, e outro por outro romance assinado por um tal Émile Ajar, que durante muitos anos não se soube quem era. Neste tipo de mistificações, Romain Gary não foi o único génio.

Em Itália, encontramos ainda na primeira metade do século XX um outro modelo de escritor: o escritor que nunca escreveu, mas que é considerado pelos outros um seu par e que alcança um prestígio e uma autoridade extraordinárias. É o caso de Roberto Bazlen, que nasceu em 1902 em Trieste e morreu em 1965 em Milão. Foi ele que serviu de matéria a um romance de Daniele del Giudice, O Estádio de Wimbledon, que saiu com um prefácio de Italo Calvino. Sobre Roberto Bazlen, ou Bobi Bazlen, como era mais conhecido, escreveu Roberto Calasso no prefácio ao livro onde foram reunidos postumamente os escritos de Bazlen (afinal, ele tinha escrito alguma coisa; e uma das coisas que escreveu intitula-se Notas sem Texto) : “Na antiga querele entre o homem do livro e o homem da vida, Bazlen representava o homem do livro que está todo na vida e o homem da vida que está todo no livro”. Estas palavras muito lúcidas ajudam-nos a perceber certas atitudes dos escritores que parecem não conformar-se às exigências e aos protocolos da sua arte:
Há uma antiga e inextinguível inimizade entre a literatura e a vida, e ora se dá a primazia a uma, ora se dá a primazia a outra, ora se sacrifica uma, ora se sacrifica a outra. Quando as duas vivem em perfeita harmonia e são feitas uma para a outra, devemos suspeitar que nem a vida nem a obra são muito interessantes.
Este conflito não tem fim, existe em todos os tempos, e não são as regras actuais da edição e de legitimação dos livros que alteram significativamente as coisas. E é em função dele que temos de compreender os gestos enfáticos ou discretos de quem passa ao silêncio ou ao quase-silêncio.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Trabalho por objectivos ou ganhar por objectivos?


Vivemos em um mundo às avessas. Em tudo. Porque o dinheiro é rei: uns em luta pela sobrevivência no dia-a-dia; outros, escravizando em modo de tempos modernos, sofregamente, porque a lógica do sistema baseia-se em querer mais e muito mais. Vem isto a propósito do trabalho por objectivos.  


Há dias, em uma grande superfície comercial, abeirei-me de uma daquelas ilhas que vendem produtos, eu diria, da época. Interessei-me e comprei. Lá pelo meio da transacção disse à simpática vendedora: parece que o negócio está fraco. Resposta: tem dias, uns melhores que outros. O problema é atingir os objectivos. Objectivos? questionei? Com um semblante alegre para com o cliente de circunstância, próprio de quem deseja vender o máximo, adiantou: para a semana tenho de chegar a (x vendas), porque de contrário perco o bónus e talvez mais do que isso.
Saí dali a pensar nesta história do trabalho por objectivos. Se calhar o mais correcto seria falar de ganhar por objectivos! E em um ápice lembrei-me da minha gestora de conta, já tem uns anos, que às nove e meia da manhã, à minha exclamação "pela sua cara, parece-me que isto hoje não vai bem". Não pode ir, foi a resposta, e continuou: entrei às 08:30, são nove e meia e já me perguntaram "o que já vendi hoje". Alguns anos mais tarde, todos viemos a conhecer a trama bancária desse e de outros bancos. Em síntese, exploração de uns para alimento, neste caso, de condenáveis interesses de uns quantos.
Do meu ponto de vista, a questão do trabalho por objectivos deve colocar-se ao nível empresarial em uma perspectiva macro. Isto é, em função do período anterior, a empresa x define, como objectivo, um crescimento de, por exemplo, 2%. Toda a estrutura organizacional, quero eu dizer, todos os seus colaboradores, animados de um sentido de pertença, deverão trabalhar no sentido da concretização daquele objectivo. Coisa bem diferente é, a um circunstancial colaborador, portanto, com um vínculo precário, dizer-lhe que tem de vender 300 caixas de um determinado produto na semana k. Sem publicidade de suporte, acrescento.
É panaceia do trabalho por objectivos que esmaga e que, muitas vezes se torna ridículo. Um dia, na minha escola, uma assistente operacional abeirou-se e pediu-me que a ajudasse a preencher um documento que tinha recebido. A páginas tantas o documento solicitava que definisse os objectivos a concretizar no ano seguinte. Porque está sujeita a uma avaliação para progredir na carreira, a senhora estava em pânico e disse-me: eu limpo o pavilhão e todas as instalações anexas uma vez por dia e dou assistência aos senhores professores, aliás, como está definido. O que acha, vou pôr aqui que passarei a limpar três vezes por dia? Pedi-lhe o papel, levei-o para casa, preenchi e, no dia seguinte acertámos os pormenores. Ela ficou feliz porque o tal papel, devidamente preenchido, ao querer dizer tudo, nada dizia, portanto, não a comprometia. Porque o seu trabalho era feito de forma exemplar.
Mas há quem diga que se não houver objectivos o pessoal não trabalha! São todos uns malandros, ouve-se amiúde. Não aceito este posicionamento, quando em causa está a estrutura organizacional e a criação de um verdadeiro sentido de pertença capaz de fazer atingir um objectivo desejado. A este propósito deixo aqui o endereço de um texto que publiquei, baseado na organização de uma empresa de sucesso. 


Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de dezembro de 2019

It once upon a time a Great Britain…


Por 
Vítor Lima, 
14/12/2019

Os ingleses tiveram de escolher nas últimas eleições, entre um idiota e um incapaz. O Boris Trump pretende recuar à orgulhosa Inglaterra, ainda que sem império mas com muitos offshores para animar a Bolsa. O Corbyn vincou as questões sociais mas mostrou-se neutro em algo mais abrangente como a integração europeia; sem querer ver que as duas coisas estariam absolutamente ligadas, um erro crasso que o vai remeter para a aposentação.

Um terço dos votantes trabalhistas vieram de regiões empobrecidas e apoiaram o Brexit como se o encerramento autárcico seja solução para alguma coisa. E Boris, com a sua maioria de avatares nacionalistas, quiçá lepenistas, tratará de liquidar o sistema de saúde, privatizando-o; e, certamente, de modo mais radical do que vem acontecendo em Portugal, com as célebres PPP, levadas a cabo pelo PS/PSD, com capitalistas a viver do dinheiro dos impostos.


Em termos gerais, calcula-se que a quebra do PIB da GB, para os próximos dez anos, será de 4 a 10% consoante o resultado dos acordos com a UE, nos capítulos do comércio e dos emigrantes.
Uma grande parte do enorme problema que Boris vai ter de resolver é admitir que a Escócia e a Irlanda do Norte (e até Gales, onde o separatismo cresce a olhos vistos) se separem da Inglaterra, transformando esta numa Grande Londres e arredores, centrada na bolsa, na rede de offshores e reportando a Trump.
O que se passa no mundo, muito para além do Brexit, da atrofia da GB, da estagnação da economia e a incapacidade política das classes políticas é a crise do capitalismo.
Acima o novo mapa dos EUA com o seu novo estado federado.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O PSD ainda está na geringonça?


Por
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário, 
05/12/2019

O debate entre os candidatos começou da pior forma para o PSD. Pelas contas de merceeiro, com uma medição de desempenhos que levou a alguns momentos ridículos, como a responsabilização de Rui Rio por resultados tidos quando era vice-presidente ou o regresso dos resultados de Luís Montenegro nas candidaturas à Câmara de Espinho ou uma distrital. Em resposta, Montenegro explicou as condições difíceis em que concorreu à autarquia do norte. Ou seja, assumiu que, tal como dissera Rui Rio em relação às legislativas, as condições em que se concorre são relevantes. E Rui Rio repetiu a responsabilização dos opositores internos. O que, num partido com a história do PSD, cola mal.



É natural que num confronto interno se faça um debate sobre os créditos de cada um. Mas não é um debate que nos diga respeito. Um debate entre candidatos a um partido, quando passa na televisão, deve sair do que apenas é importante para os militantes. E a viagem de Rui Rio à Maçonaria (cuja obediência eu também considero incompatível com a liderança de um partido), acabando a dizer que acredita em notícias desmentidas, foi um dos momentos mais infelizes. Rui Rio optou, mais uma vez, pelo julgamento de tabacaria que sempre criticou.
Passado este momento penoso, chegou-se ao debate que é relevante para os próximos anos: como o PSD fará oposição ao PS? A posição de Montenegro é das que resulta sempre em todos os partidos: o sectarismo. Mas será difícil, caso chegue à liderança, manter a fasquia onde a colocou. Afirmar que não precisa de ver o Orçamento para dizer que vota contra (Pinto Luz explicou que era preciso dar a aparência de que se tinha esperado para ver e ser contra) é incompreensível para qualquer pessoa normal. Rui Rio, nessa matéria, tem o discurso do senso comum. Pelo menos para os eleitores – outra coisa são os militantes.
Para explicar o seu posicionamento, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz construíram uma fantasia sobre a atual situação política. É como se a “geringonça” continuasse a existir e toda a estratégia do partido se baseasse nessa ideia. Só que a “geringonça” não morreu apenas em teoria. Morreu na prática. Não há acordos e não há interesse, nem do Bloco de Esquerda nem do PCP, em prolongar uma relação com os socialistas que não lhes trará vitórias programáticas ou eleitorais.

Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro. O retrato fantasioso resulta da necessidade em justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza os militantes

A partir desta fantasia, os dois candidatos construíram uma segunda fantasia, ainda mais distante da realidade: a de um PS radicalizado, totalmente amarrado a uma política esquerdizante e socializante. Até de amor à Venezuela se falou. Se isso não foi verdade durante a “geringonça”, onde o papel de bloquistas e comunistas foi forçar devolução de rendimentos perdidos e reversão de medidas impostas no período da troika (onde se incluíram a renacionalização da TAP e o recuo nas concessões dos transportes urbanos, as duas muito recentes e mal explicadas), vai para lá do delirante neste momento. Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro, não é ter-se radicalizado à esquerda.
Este retrato fantasioso não resulta de uma dificuldade de perceção. Resulta de uma necessidade. Montenegro e a sua versão moderada precisam dele para justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza mais os militantes do que os eleitores. Que não é seguramente justificada, como tentaram fazer crer, pela história do partido que fez inúmeras revisões constitucionais com os socialistas. Uma estratégia que corresponde a uma radicalização à direita que transformaria o PS num partido charneira, que ocuparia todo o centro e não, como querem fazer imaginar para consumo interno, o lugar de líder de um bloco da esquerda que morreu no início de outubro. Esse episódio político passageiro durou apenas a anterior legislatura e terá, na melhor das hipóteses, o seu último momento na aprovação deste Orçamento de Estado, demasiado precoce para uma crise política.
Com base nesta fantasia o debate deslizou para o que poderia ser interessante: as grandes clivagens políticas e ideológicas que definem o confronto de alternativas. Fora a construção de uma história muito própria do país, em que o PSD foi quem “instaurou uma verdadeira democracia liberal em Portugal” e até “construiu o terceiro sector”, apenas duas ideias estiveram presentes: baixar impostos sobre as empresas e dar mais espaço ao privado no Serviço Nacional de Saúde, ignorando a recorrente suborçamentação do SNS, responsabilidade de vários governos. E depois, o velho, estafado e enganador debate que contrapõe um crescimento económico baseado nas exportações ao aumento do consumo interno, como se um e outro fossem contraditórios. Bem à moda portuguesa, que vê a ideologia do outro como uma doença e a nossa como “reformismo”, todas as divergências com o PS, as reais e as imaginadas, foram tratadas como “complexos ideológicos” dos adversários.
No fim, ficou uma sensação estranha: sabemos que Luís Montenegro é mais à direita e Rui Rio mais ao centro, estando Miguel Pinto Luz, que até nem se safou mal, algures no meio deles. Mas isso só se percebe na relação que prometem ter com o PS, chumbando tudo, chumbando tudo mas fingindo que se pensa no assunto ou chumbando quase tudo quase de certeza. Entre eles, não houve sinal de divergências políticas substantivas. E o PSD tem abrangência suficiente para elas existirem. Talvez não aconteça porque diferenças menos acentuadas não permitem caricaturas sobre os “complexos ideológicos” dos outros ou simples frases de efeito sobre a “agenda reformista” deles próprios. Uma agenda que vá para lá de baixar impostos às empresas e privatizar partes do SNS. O país ficou a saber o que cada um quer fazer na oposição, não percebeu o que os distinguiria no poder.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Tantas cartas para Greta


Por
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
03/12/2019

O estilo epistolar foi o escolhido por inúmeros autonomeados correspondentes de Greta Thunberg. Nada há que objetar quanto à técnica discursiva, cada qual sabe de si e de como entende apresentar as suas ideias, embora seja de assinalar que esta escolha da carta aberta delimita unicamente dois campos, ou o da proximidade (escrevo a alguém que conheço ou que reconheço) ou o da distância (contraponho-me a alguém de quem discordo e que quero criticar em público). No caso de Greta, temos desde o jogo do político que se quer refletir no fenómeno de popularidade, até ao do crítico zangado mas a quem o instinto aconselha a não atacar uma figura mais simpática. E o resultado é uma chuva de cartas para Greta.


Greta tornou-se um símbolo mundial por várias razões e nenhuma delas é passageira. Por ser jovem e falar diretamente. Por exprimir um sentimento e uma razão que eram obviamente tratados com cinismo pelas instituições. E, sobretudo, por mobilizar o conhecimento científico contra um situacionismo calculista e adaptativo. Essa é a sua força principal, a mais radical: ela fala em linguagem direta e em nome do consenso científico que se alarma com a displicência da diplomacia, com o interesse da indústria e com a fuga dos governos à responsabilidade. Nada disto é ingenuidade ou ar do tempo, como ligeiramente supuseram alguns dos comentadores, no início deste périplo das novas ideias da justiça climática. O incómodo dos governos, habituados a técnicas de jogo político de curto prazo, é por isso patente na forma como aplaudem o que não parecem dispostos a aceitar (os governos europeus) ou insultam o que não querem sequer admitir (os governantes dos EUA e do Brasil).
Pressionados pelo fenómeno mediático e procurando responder como se fosse somente uma moda, chegam então as cartas abertas de governantes e influencers. A mais discutida dessas cartas a Greta, pelo menos entre nós, foi a do ministro do Ambiente. Nada presumo sobre as suas intenções, pois seria injusto. Noto até que o Governo anunciou uma antecipação para o fecho de centrais termoelétricas e denunciou alguns dos contratos de concessão de prospeção petrolífera, tudo boas medidas num país que tem avançado na produção de energias alternativas.

No entanto, tem sido também assinalado que estas decisões convivem com o paradoxo da degradação da ferrovia, da decadência dos transportes públicos nas grandes áreas metropolitanas, sobretudo do metropolitano, com a concessão de autorizações de perfuração em Bajouca e Aljubarrota e com deliberações que aumentarão as emissões da aviação em mais 40%. Dar com uma mão e tirar com outra é má política.

Em qualquer caso, a agenda ambiental de urgência entrou no debate português. As greves climáticas de jovens são a maior mobilização dos movimentos estudantis em muitos anos e nada indica que se deixem fazer esquecer. Por isso, estas cartas têm um problema. Focam mais quem assina do que o que pretende fazer. São um espelho, e não uma conversa, dado que não estão sequer à espera de resposta. Exibem, em vez de apresentarem soluções. É possível ter em cinco anos as cidades sem carros, com os centros urbanos restritos ao transporte público e de moradores? É possível antecipar para 2030 a neutralidade carbónica? É possível refazer a floresta? E priorizar a reabilitação urbana em vez da construção? Sim, é tudo possível. Suspeito que há quem queira atrasar, negociar ou evitar soluções deste tipo, mesmo escrevendo cartas cordiais a Greta. Afinal de contas, essa é a história da vida das sociedades modernas, se alguma decisão afeta o poder dos poucos que dominam, sobra a escolha de prejudicar os muitos que se espera que fiquem caladinhos. E, sobretudo, que não ouçam uma miúda de 16 anos que cita relatórios científicos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Politiquice barata!


FACTO

Plano de Investimentos da Câmara Municipal do Funchal para 2020 foi aprovado; o Orçamento para 2020, NÃO. - Fonte: Dnotícias.

COMENTÁRIO

Não são necessários muito comentários, porque qualquer cidadão apercebe-se da politiquice sem qualquer vergonha. Passei pela autarquia, como vereador, durante doze anos. Exerci o meu direito de discordância em relação ao Orçamento, mas também relativamente ao Plano. Porque os dois documentos são indissociáveis. 
Ora, seria legítimo que a oposição na Câmara votasse contra os dois documentos, por discordância quer na política das grandes opções como do orçamento de suporte. O que não está correcto é assumir, maioritariamente, que o plano é, no mínimo, satisfatório, mas, alto aí, não vão ter dinheiro para o cumprir.
Ah e tal, dirão, são coisas com algum grau de diferença, por isto e por aquilo. Digo eu, vão junto da população e perguntem se aquela votação tem algum sentido. Ouvirão, certamente, da boca dos munícipes, que aquelas votações constituem uma politiquice barata, sem nexo e perturbadora, porque a Câmara irá, durante os próximos tempos, ser gerida através de duodécimos. Percebe-se que o que está em causa é complicar a vida da vereação maioritária da Câmara Municipal.
Se não concordam com o Orçamento deveriam ter votado contra o Plano de Investimentos. Assim, com os cortes de milhões de euros do Governo relativamente à Câmara, agora, com o estrangulamento do Orçamento e Plano, julgo que algumas forças estão a apostar em eleições intercalares. A ver vamos.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Impunidade sem limites


Por
Subdirector do DIÁRIO
01 DEZ 2019 

O Governo Regional perdeu todo e qualquer pudor face às nomeações de clientela partidária para os lugares da administração pública. A ‘máscara’ caiu mal foram conhecidos os resultados eleitorais. Daí para cá temos assistidos a um assalto sem paralelo à máquina do poder na Região. Sem filtros e à vista de todos. O governo faz tábua-rasa das elementares regras da ética e dos princípios democráticos para colocar os amigos nos gabinetes, nas empresas, nos institutos, protagonizando um festim onde não faltam ligações familiares próximas. 43 anos depois, o laranja e o azul fundiram-se com as cores da autonomia.

Nos conselhos de administração das empresas públicas a gula partidária intensificou-se e, sem justificação convincente, o executivo procede ao aumento do número de vogais apenas e só para saciar dirigentes do PSD e do CDS. Na ‘Habitação’, primeiro. Depois virá o SESARAM. Os critérios de competência sucumbiram aos da influência e chantagem partidária. Na Saúde o escândalo assume contornos indecentes. Para colocar uma ex-secretária regional no comando do IASAÚDE, o governo vai mudar os estatutos do organismo porque a senhora não possui as qualificações necessárias para o desempenho do cargo. 

Como se não bastasse criou mais uma direcção regional, com tudo o que isso implica a mais de despesa pública, para suprir a dificuldade que a indicação forçada de Rita Andrade implica. Na direcção clínica do SESARAM assiste-se a outra trapalhada semelhante. Filomena Gonçalves não assumiu o lugar porque foram detectadas, a tempo, ilegalidades contratuais, que têm de ser ultrapassadas. Qual o problema? Nenhum. 

Até lá arranja-se um substituto provisório, porque o serviço de saúde só pode ser liderado por esta médica, competentíssima ao que sabemos, que é dirigente do CDS e pessoa próxima do deputado Mário Pereira, que tem feito valer toda a sua influência política na empresa. Entretanto, um concurso público à medida da cirurgiã já está em marcha. Sobre as listas de espera e sobre a falta de condições hospitalares? Nem uma palavra.
No melhor destino insular da Europa e do Mundo andamos nisto há longas semanas, perante a indiferença generalizada dos partidos da oposição e com parte da sociedade focada na lastimável ‘barracada’ da Placa Central, como se todos os nossos problemas desembocassem ali. Nesta espécie de circo político que antecipa o Natal ficamos a saber que na Madeira regista-se a segunda taxa mais elevada de risco de pobreza do país. Ficámos também a saber que as nossas crianças passam horas a mais nas creches e que a acção social escolar abrange muito mais alunos na Região do que no continente. Mas importam todos estes sinais? Rigorosamente nada. Em Lisboa, o primeiro-ministro foi ao Parlamento anunciar medidas para combater a pobreza, reconhecendo-a e elegendo-a como uma das principais preocupações. E por cá? Um dia depois, o Conselho de Governo decide expropriar temporariamente parte da avenida Arriaga e as latrinas da praça da Restauração, para que não falte poncha e arraial nas semanas da Festa. Delicioso. No meio desta ‘guerra de alecrim e manjerona’ faltava a ‘cereja no topo do bolo’: é-nos anunciado que vai ser criado um grupo de trabalho para resolver a questão do subsídio social de mobilidade. Em português corrente é a mesma coisa que dizer que nada vai ser solucionado em breve e que o madeirense vai continuar a pagar uma pequena fortuna para se deslocar a Lisboa. Foi nisto que deu o “diálogo permanente” que Miguel Albuquerque inaugurou no novo relacionamento com o governo da República.
Sobra-nos o consolo de que a Madeira cresce consecutivamente há 76 meses, mesmo que isso não diga rigorosamente nada à esmagadora maioria da sua população.