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domingo, 13 de março de 2022

As sanções de Washington destruirão a Europa, não a Rússia


Pepe Escobar, 
in Resistir, 
10/03/2022




O campo de batalha está traçado.
A lista negra oficial russa de nações sancionadoras hostis inclui os EUA, a UE, o Canadá e, na Ásia, Japão, Coreia do Sul, Formosa e Singapura (a única do Sudeste Asiático). Repare como a dita "comunidade internacional" continua a encolher.

O Sul Global deveria estar consciente de que nenhuma nação da Ásia Ocidental, América Latina e África se juntou ao comboio das sanções de Washington.

Moscovo ainda nem sequer anunciou o seu próprio pacote de contra-sanções. No entanto, um decreto oficial "Sobre a ordem temporária das obrigações para com certos credores estrangeiros" que permite às empresas russas liquidarem as suas dívidas em rublos, dá uma pista do que está para vir.

As contra-medidas russas giram todas em torno deste novo decreto presidencial, assinado no sábado passado, que o economista Yevgeny Yushchuk define como uma "mina terrestre de retaliação nuclear".

Funciona assim: para pagar empréstimos obtidos de um país sancionador que excedam 10 milhões de rublos por mês, uma empresa russa não tem de fazer uma transferência. Ela pede a um banco russo que abra uma conta correspondente em rublos sob o nome do credor. A seguir a empresa transfere rublos para esta conta à taxa de câmbio do dia e é tudo perfeitamente legal.

Pagamentos em divisas estrangeiras só passam pelo Banco Central numa base casuística. Eles devem receber autorização especial da Comissão Governamental para o Controlo do Investimento Estrangeiro.

O que isto significa na prática é que a maior parte dos cerca de US$478 mil milhões da dívida externa russa pode "desaparecer" dos balanços dos bancos ocidentais. O equivalente em rublos será depositado algures, em bancos russos, mas os bancos ocidentais, tal como estão as coisas, podem não ter acesso a ele.

É discutível se esta estratégia simples foi o produto daqueles cérebros não soberanistas reunidos no Banco Central russo. É mais provável que tenha havido contributos do influente economista Sergei Glazyev, um antigo conselheiro de topo do Presidente russo Vladimir Putin sobre integração regional: aqui está uma edição revista, em inglês, do seu ensaio inovador Sanctions and Sovereignty, que resumi anteriormente.

Enquanto isso, o Sberbank confirmou que irá emitir os cartões de débito/crédito Mir da Rússia em conjunto com o UnionPay da China. O Alfa-Bank – o maior banco privado da Rússia – também emitirá cartões de crédito e de débito UnionPay. Embora introduzido há apenas cinco anos, 40% dos russos já possuem um cartão Mir para uso interno. Agora poderão também utilizá-lo internacionalmente, através da enorme rede do UnionPay. E sem Visa e Mastercard, as comissões sobre todas as transacções permanecerão na esfera Rússia-China. Desdolarização efectiva.

Sr. Maduro, dê-me um pouco de petróleo

As negociações das sanções iranianas em Viena podem estar a chegar à última fase – como reconhecido até pelo diplomata chinês Wang Qun. Mas foi o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, que introduziu uma nova variável crucial nas discussões finais de Viena.

Lavrov tornou a sua exigência da décima primeira hora bastante explícita: "Pedimos uma garantia escrita... de que o actual processo [de sanções à Rússia] desencadeado pelos Estados Unidos não prejudica de forma alguma o nosso direito ao comércio livre e pleno, à cooperação económica e de investimento e à cooperação técnico-militar com a República Islâmica".

Segundo o acordo do Plano de Acção Global Conjunto (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA) de 2015, a Rússia recebe urânio enriquecido do Irão e troca-o por yellowcake e, em paralelo, está a reconverter a central nuclear Fordow do Irão num centro de investigação. Sem as exportações iranianas de urânio enriquecido não há simplesmente nenhum acordo da JCPOA. É surpreendente que o secretário de Estado dos EUA, Blinken, pareça não entender isso.

Toda a gente em Viena, até os que estão à margem, sabe que para todos os actores assinarem o renascimento da JCPOA, nenhuma nação deve ser individualmente visada em termos de comércio com o Irão. Teerão também o sabe.

Assim, o que agora está a acontecer é um jogo elaborado de espelhos persas, coordenado entre as diplomacias russa e iraniana. O Embaixador de Moscovo em Teerão, Levan Jagaryan, atribuiu a reacção feroz a Lavrov em alguns bairros iranianos a um "mal-entendido". Tudo isto será jogado nas sombras.

Um elemento extra é que, segundo uma fonte de inteligência do Golfo Pérsico com acesso privilegiado iraniano, Teerão já pode estar a vender até três milhões de barris de petróleo por dia, "portanto, se assinarem um acordo, este não afectará de modo algum o fornecimento, apenas lhes será pago mais".



A administração americana do Presidente Joe Biden está agora absolutamente desesperada: hoje proibiu todas as importações de petróleo e gás da Rússia, que por acaso é o segundo maior exportador de petróleo para os EUA, atrás do Canadá e à frente do México. A grande "estratégia de substituição" energética russa dos EUA consiste em mendigar petróleo ao Irão e à Venezuela.

Assim, a Casa Branca enviou uma delegação para falar com o Presidente venezuelano Nicolás Maduro, liderada por Juan Gonzalez, o principal conselheiro da Casa Branca para a América Latina. A oferta dos EUA é "aliviar" as sanções contra Caracas em troca de petróleo.

O governo dos Estados Unidos passou anos – senão décadas – a queimar todas as pontes com a Venezuela e o Irão. Os EUA destruiram o Iraque e a Líbia, e isolaram a Venezuela e o Irão, na sua tentativa de tomar os mercados petrolíferos globais – só para acabar miseravelmente por tentar comprar a ambos e escapar a ser esmagado pelas forças económicas que desencadeou. Isto prova, mais uma vez, que os "decisores políticos" imperiais são absolutamente ignorantes.

Caracas irá exigir a eliminação de todas as sanções contra a Venezuela e a devolução de todo o seu ouro confiscado. E parece que nada disto foi esclarecido com o 'Presidente' Juan Guaido, o qual desde 2019 era o único líder venezuelano "reconhecido" por Washington.

Coesão social dilacerada

Enquanto isso, os mercados de petróleo e gás estão em pânico total. Nenhum trader ocidental quer comprar gás russo; e isso nada tem a ver com a empresa estatal russa de energia Gazprom, a qual continua a abastecer devidamente os clientes que assinaram contratos com tarifas fixas, de US$100 a US$300 (outros estão a pagar mais de US$3.000 no mercado spot).

Os bancos europeus estão cada vez menos dispostos a conceder empréstimos para o comércio de energia com a Rússia devido à histeria das sanções. Uma forte pista de que o gasoduto Rússia-Alemanha Nord Stream 2 pode estar literalmente enterrado é que o importador Wintershall-Dea anulou a sua parte do financiamento, assumindo de facto que o gasoduto não será lançado.

Todos os que têm cérebro na Alemanha sabem que dois portos metaneiros extra para a recepção de gás natural liquefeito (GNL) – ainda por construir – não serão suficientes para as necessidades de Berlim. Simplesmente não há GNL suficiente para os abastecer. A Europa terá de lutar com a Ásia sobre quem pode pagar mais. A Ásia vence.

A Europa importa cerca de 400 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano, sendo a Rússia responsável por 200 mil milhões. É impossível a Europa encontrar 200 mil milhões de dólares em qualquer outro lugar para substituir a Rússia – seja na Argélia, no Qatar ou no Turquemenistão. Para não mencionar a sua escassez dos portos metaneiros necessários.

Assim, obviamente, o principal beneficiário de toda esta confusão serão os EUA – que poderão impor não só os seus terminais e sistemas de controlo, mas também lucrar com empréstimos à UE, vendas de equipamento, e acesso pleno a toda a infraestrutura energética da UE. Todas as instalações de GNL, tubagens e armazéns serão ligados a uma única rede com uma única sala de controlo: um sonho empresarial americano.

A Europa será deixada com uma produção de gás reduzida para a sua – em declínio – indústria; perdas de emprego; diminuição dos padrões de qualidade de vida; aumento da pressão sobre o sistema de segurança social; e, por último mas não menos importante, a necessidade de solicitar empréstimos extra-americanos. Algumas nações voltarão ao carvão para aquecimento. O Desfile Verde será lívido.

E quanto à Rússia? Como hipótese, mesmo que todas as suas exportações de energia fossem reduzidas – e não o serão, os seus principais clientes estão na Ásia – a Rússia não teria de utilizar as suas reservas estrangeiras.

O ataque russofóbico total às exportações russas também visa metais como o paládio – vital para a electrónica, desde computadores portáteis a sistemas aeronáuticos. Os preços estão a disparar. A Rússia controla 50% do mercado global. Depois há os gases nobres – néon, hélio, árgon, xenon – essenciais para a produção de microchips. O titânio subiu um quarto e tanto a Boeing – em um terço – como a Airbus – em dois terços – dependem do titânio da Rússia.

Petróleo, alimentos, fertilizantes, metais estratégicos, gás néon para semicondutores: tudo a arder aos pés da Feiticeira Rússia.

Alguns ocidentais que ainda apreciam a realpolitik bismarckiana começaram a interrogar-se se a blindagem da energia (no caso da Europa) e os fluxos de mercadorias seleccionadas das sanções não terá tudo a ver com a protecção de uma imensa extorsão: o sistema de commodities derivativas.

Afinal, se isso implodir, devido a uma escassez de mercadorias, todo o sistema financeiro ocidental explode. Isto é que é um verdadeiro fracasso do sistema.

A questão chave para o Sul Global digerir é se o "ocidente" não está a cometer suicídio. O que temos aqui, essencialmente, são os Estados Unidos a destruírem deliberadamente a indústria alemã e a economia europeia – bizarramente, com a sua conivência.

Destruir a economia europeia significa não permitir espaço extra de mercado para a China, e bloquear o inevitável comércio extra que será uma consequência directa de trocas mais estreitas entre a UE e a Parceria Económica Global Regional (Regional Comprehensive Economic Partnership, RCEP), o maior acordo comercial do mundo.

O resultado final será os EUA a comerem as poupanças europeias ao almoço enquanto a China expande a sua classe média para mais de 500 milhões de pessoas. A Rússia vai sair-se muito bem, tal como esboça Glazyev: soberana – e auto-suficiente.

O economista americano Michael Hudson esboçou de forma concisa os lineamentos da auto-implosão imperial. Mas muito mais dramático, como catástrofe estratégica, é como os surdos, mudos e cegos desfilam em direcção a uma recessão profunda e a uma quase hiperinflação, que irá dilacerar o que resta da coesão social do Ocidente. Missão Cumprida.

08/Março/2022

[*] Jornalista.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Paz em tempos de guerra


Carmo Afonso, 
in Público, 
09/03/2022

Dá-se o improvável: quem está envolvido no conflito parece estar disposto a negociar. Quem assiste não.


(O meu comentário: Os líderes europeus, presos pela trela dos EUA, tentam dar cabo de todas as negociações. Que os EUA queiram uma guerra na Europa porque é fora do seu território até se percebe. Que a Europa queira caminhar alegremente para tal é a insanidade total, que só revela que a Europa atual não passa de uma colónia dos EUA, sendo os nossos líderes uma espécie de marionetas. Estátua de Sal, 09/03/2022)



Notam-se tímidos sinais de paz. O caminho está encetado.

A China, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, declarou estar disponível para promover as negociações de paz e ser mediadora no conflito. Não se consegue pensar em melhor mediador.

Zelenskii, numa entrevista à estação de televisão ABC News, afirmou ser possível um compromisso para a Crimeia e para o Donbass (que integra as regiões separatistas de Lugansk e Donetsk). Declarou igualmente um recuo na sua pretensão de adesão da Ucrânia à NATO. Desde o início ficou clara, para quem quis dar atenção aos antecedentes desta guerra, a importância da possibilidade de adesão à NATO na infeliz decisão de Putin.

Do lado de Putin - e atendendo à lista de condições para a paz que a Rússia deu a conhecer – parece ter existido a desistência da suposta desnazificação e a concretização da solução pacífica assente nos exatos pontos (apesar de em moldes diferentes) que Zelenskii referiu na entrevista; Putin insiste no reconhecimento da independência das regiões separatistas e numa revisão constitucional que impeça a Ucrânia de aderir à NATO, ficando obrigada a manter a sua neutralidade. Parece que nada é dito sobre a UE, o que indicia que poderá ser mais uma razão de entendimento. A Ucrânia pretendia essa adesão.

Falta muito para um entendimento e existem claros sinais que apontam para a intensificação do conflito. Mas hoje vamos continuar a falar sobre a possibilidade da paz.

Ela pode chegar só depois de mais mortes e de mais destruição, mas acabará sempre por chegar. Diz-se no ditado: “Não há bem que sempre dure, não há mal que não se acabe”. Esta expressão da sabedoria popular parece indicar que o futuro é mais risonho para quem está mal do que para quem está bem. É certo que traz bom augúrio para quem mais precisa.

O bom senso costuma exigir que se privilegiem os esforços para a paz; que seja valorizado cada pequeno avanço. Por estranho que pareça este é um tema entre nós. E é também esse o tema aqui e não uma qualquer adivinhação acerca do bom ou mau desfecho destas negociações: porque é que tão poucos acreditam nas negociações? Porque se nota apego pela ideia da derrota militar de Putin em detrimento da solução pacífica?

Dá-se o improvável: quem está envolvido no conflito parece estar disposto a negociar. Quem assiste não. As negociações para a paz contrariam o princípio da maldade intrínseca e gratuita de uma das partes. Assim sendo, contrariam quem a tem defendido. As pessoas ficam de facto reféns das posições que defendem e ninguém gosta de perder. Agora reparem que este é o princípio que leva à guerra e que a agudiza.

Na guerra existe sempre um derrotado, numa negociação não pode, e não deve, ser assim

Não obstante o conflito que está a decorrer, as partes entregam esforços a um propósito conciliatório. E as negociações têm implícitas cedências. Existe aqui a frágil possibilidade de ceder sem perder. Uma negociação deve distinguir-se da antecipação dos resultados práticos de uma derrota. Na guerra existe sempre um derrotado, numa negociação não pode, e não deve, ser assim.

O caminho instintivo de cada um é o da guerra, o de fazer valer as suas razões. É sabido que quem quer ter sempre razão quase nunca tem paz. Mas este caminho é possível, e pode até ser meritório, a nível individual. Nada a corrigir. Só que as soluções individuais são perigosas quando trazidas ao nível colectivo.

Recordar um excerto da Fábula das Abelhas, de Bernard Mandeville: “Todos os dias se cometiam delitos nessa colmeia (...). Mas nem por isso a colmeia era menos próspera porque os vícios dos particulares contribuíam para a felicidade pública”. Será talvez o melhor a que conseguimos chegar como grupo. Um mundo em que os nossos defeitos privados se diluem na harmonia da vida colectiva. Salve-se essa parte.

Em tempos de paz houve quem se preparasse para a guerra. Pois agora é justo e consolador ver que, em tempos de guerra, existe quem se prepara para a paz. Novamente um bom augúrio para quem mais precisa.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

sábado, 5 de março de 2022

Como chegámos aqui?


Boaventura Sousa Santos,
in Público,
25/02/2022

A soberania da Ucrânia não pode ser posta em causa. A invasão da Ucrânia é ilegal e deve ser condenada. A mobilização de civis decretada pelo presidente da Ucrânia pode ser considerada um acto desesperado, mas faz prever uma futura guerra de guerrilha. Putin deveria ter presente a experiência dos EUA no Vietnam: o exército regular de um invasor, por mais poderoso que seja, acabará por ser derrotado, se o povo em armas se mobilizar contra ele. Tudo isto faz prever incalculáveis perdas de vida humana inocente. Ainda mal refeita da pandemia, a Europa prepara-se para um novo desafio de proporções desconhecidas. A perplexidade perante tudo isto não poderia ser maior.



A pergunta é esta: como e porquê chegámos aqui? Há trinta anos a Rússia (então União Soviética) saía derrotada da Guerra Fria, desmembrava-se, abria as suas portas ao investimento ocidental, desmantelava o Pacto de Varsóvia, o correspondente soviético da NATO, os países do Leste Europeu emergiam da subordinação soviética e prometiam democracias liberais numa vasta área da Europa. O que se passou desde então para que o Ocidente esteja hoje de novo a defrontar a Rússia? Dada a diferença de poder entre a Rússia e as potências ocidentais em 1990, a resposta mais imediata será que tal se deve à total inépcia dos líderes ocidentais para capitalizaram os dividendos do colapso da União Soviética.

Sem dúvida que a inépcia é patente e caracteriza bem o comportamento da União Europeia ao longo destes anos. Foi incapaz de construir uma base sólida para a segurança europeia que obviamente teria de ser construída com a Rússia, e não contra a Rússia, quanto mais não seja para honrar a memória de cerca de vinte e quatro milhões de mortes, o preço que a Rússia pagou para se libertar e liberar a Europa do jugo nazi.

Mas esta resposta é insuficiente se tivermos em mente a política externa dos EUA nos últimos trinta anos. Com o fim da Guerra Fria, os EUA sentiram-se donos do mundo, um mundo finalmente unipolar. As potências nucleares que os podiam ameaçar estavam neutralizadas ou eram amigas. As ideias de correlação de forças e de equilíbrio de poderes desapareceram do seu vocabulário. Esta acalmia fazia inclusivamente prever o fim da NATO por falta de objectivo.

Mas havia a Jugoslávia, o país que, depois do fim da ocupação nazi em 1945, o general Tito tinha transformado numa federação de regiões (Croácia, Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Sérvia Kosovo, Macedónia), um regime que se pretendia independente tanto da União Soviética como do Ocidente.

Os EUA, com o entusiástico apoio da Alemanha, acharam que era tempo de a Jugoslávia colapsar. Os graves conflitos internos e as crises financeiras dos anos 1980 foram aproveitadas para fomentar a divisão e o ódio. Uma região, onde antes florescera o convívio interétnico e inter-religioso, transformou-se num campo de ódios. A nova guerra dos Balcãs, no início da década de 1990, transformava-se assim na primeira guerra em solo europeu depois de 1945. Violência inaudita foi cometida por todos os contendores, mas para o Ocidente, os vilões eram apenas os sérvios, todos os outros povos eram nacionalistas heróicos.

Os países ocidentais (à cabeça, a Alemanha) apressaram-se a reconhecer a independência das novas repúblicas em nome dos direitos humanos e da protecção das minorias. Em 1991, o Kosovo exigia em referendo a sua independência da Sérvia e oito anos depois a NATO bombardeava Belgrado para fazer cumprir a vontade dos kosovares.

Qual é a diferença entre o Kosovo e Donbass, onde as repúblicas etnicamente russas realizaram referendos em que se manifestaram a favor da independência? Nenhuma, excepto que o Kosovo foi apoiado pela NATO e as repúblicas do Donbass são apoiadas pela Rússia. Os acordos de Minsk de 2014 e 2015 previam a grande autonomia destas regiões. A Ucrânia recusou-se a cumpri-los. Foram, pois, rasgados muito antes de Putin fazer o mesmo. Qual a diferença entre a ameaça à sua segurança sentida pela Rússia perante o avanço da NATO e a “crise dos mísseis” de 1962, quando os soviéticos tentaram instalar mísseis em Cuba e os EUA, ameaçados na sua segurança, prometeram defender-se com todos os meios, inclusivamente a guerra nuclear?

A resposta à pergunta sobre como e por que chegámos aqui reside fundamentalmente num erro estratégico dos EUA e da NATO, o de não terem visto que nunca estiveram num mundo unipolar por eles dominado. No momento em que terminava a primeira guerra fria, crescia a China, com o apoio entusiasta das empresas norte-americanas em busca de salários baixos. Assim germinava o novo rival dos EUA, e com isso a nova Guerra Fria em que estamos a entrar, aliás potencialmente mais séria que a anterior.

Apostados em não reconhecer o seu declínio, desde a saída caótica do Afeganistão ao medíocre desempenho na pandemia, os EUA insistem em fugas para a frente, e nessa estratégia pretendem arrastar a Europa. Esta pagará uma alta factura pelo que se está a passar. A mais alta de todas recairá sobre a Alemanha, o motor da economia europeia e a única verdadeiramente concorrente dos EUA. É fácil concluir quem beneficiará da crise que aí vem, e não me refiro apenas a quem irá fornecer o petróleo e o gás. Por sua vez, a tentativa de isolar a Rússia, sobretudo depois de 2014, visa acima de tudo a China. Será outro erro estratégico pensar que assim se enfraquece a China. A China acaba de declarar que não há comparação possível entre a Ucrânia e Taiwan porque, para ela, Taiwan é território chinês. A implicação é clara: para a China, a Ucrânia não é território russo. Mas daí a pensar que se está a criar uma divisão entre a China e a Rússia será pura auto-ilusão.

Não tenho dúvida de que para a Europa é melhor um mundo multipolar governado por regras de coexistência pacífica entre as grandes potências do que um mundo exclusivamente dominado por um só país, porque, se isso alguma vez vier a suceder, será à custa de muito sofrimento humano. A invasão da Ucrânia é inaceitável. O que não se pode dizer é que não foi provocada. A Rússia, como grande potência que é, não se devia deixar provocar. Será que a invasão da Ucrânia é mais uma demonstração de fraqueza do que de força? Os próximos tempos o dirão.

Director Emérito do Centro de Estudos Sociais da UNiversidade de Coimbra 
e Coordenador do Observatório Permanente da Justiça

terça-feira, 1 de março de 2022

O futuro Governo de António Costa e a energia nuclear


Por
01 Março 2022

A energia nuclear, sempre polémica, encontra-se num processo de grande evolução tecnológica e de boas expectativas, o que pode vir a interferir, a prazo, com os interesses de ‘lobbies’ muito fortes no terreno das energias.



1. A temática da energia nuclear talvez não seja apreendida como um dos problemas mais prementes para o futuro Governo de António Costa. Mas, sendo a energia um dos assuntos actuais de fundo para Portugal, a Europa e o Mundo, tanto mais em todo este complexo e agitado contexto da guerra na Ucrânia, onde o gás natural assume um especial destaque (tanto que levou Mario Draghi a dizer que se tente colocar a energia à parte), dificilmente a nuclear pode deixar de ter, nem que seja uma simples anotação em pé de página, no programa do futuro Governo, dado o seu potencial e importante contributo, no conjunto de uma política de transição energética consistente e nas soberanias dos países.

Conhecemos, no entanto, a posição institucional do actual governo pela voz do ainda ministro do Ambiente e Acção Energética, João Pedro Matos Fernandes, que, em plena Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP26), realizada na Escócia em Novembro de 2021, rejeitou o nuclear na sua globalidade.

Nem foi capaz de fazer uma referência à fusão nuclear quando em curso estão experiências tecnológicas avançadas em vários países do Planeta, incluindo a Europa, e quando se está a recorrer a meios como a Inteligência Artificial (IA) com vista a controlar o plasma no interior do reactor.

Parece-me conservadorismo a mais e uma falha de perspectiva sob vários ângulos.

António Costa, na campanha para as legislativas, trouxe este assunto a debate com Rui Tavares. Não foi muito feliz, certamente porque menos bem informado, ao atirar-lhe o “pecado mortal” de defensor da energia nuclear. Rui Tavares lembrou-lhe que, apesar de ser contra as centrais nucleares tradicionais, que recorrem à fissão nuclear, defende “o investimento na fusão nuclear como possível para os próximos dez anos”.

Pelo que tenho lido, não serei tão optimista como o deputado do Livre, (dez anos seria uma excelente caminhada). Bom seria que assim fosse, porque teríamos pela frente, em pouco tempo, um Mundo novo.

Concluindo, o Governo rejeita, hoje, a energia nuclear. Uma atitude que aguarda, no mínimo, um rasgo de reflexão para se ajustar à posição da própria Comissão Europeia que acabou por reconhecer à nuclear e ao gás natural (algo discutível neste último caso) um papel equivalente às renováveis, no combate às alterações climáticas.

2. A energia nuclear, sempre polémica, encontra-se, porém, num processo de grande evolução tecnológica e de boas expectativas, o que pode vir a interferir, a prazo, com os interesses de lobbies muito fortes no terreno das energias.

Sintetizando, de forma esquemática, a actual situação da nuclear, temos:
A existência de centrais nucleares clássicas com produção de electricidade a partir da fissão ou, como preferem alguns especialistas portugueses utilizando a linguagem vigente no antigo LFEN, cisão. As novas centrais (EPR2) como as anunciadas no plano Macron, baseadas na fissão, incorporam avanços tecnológicos importantes trazendo maior segurança, o que não afasta, em definitivo, a totalidade de riscos. Tenho designado, muito subjectivamente, estas centrais nucleares como integrantes da fileira da indústria nuclear pesada.
Uma outra fileira a iniciar a sua vida industrial que designo de fileira nuclear ligeira é “a dos pequenos reactores modelares”, SMR, de menor custo, flexíveis, maior segurança e redução de tempo de construção. Estes pequenos reactores começaram a ser falados numa coluna do “Wall Street Journal”, em 23 de Março de 2010, pelo então Secretário de Estado da Energia dos EUA, Steven Chu, e só agora começam a fazer caminho, tendo recentemente a China ligado um SMR à sua rede energética.
E, finalmente, em desenvolvimento, vem a Fusão nuclear. Quando bem sucedida, teremos, como antes dizia, um mundo novo, dado este tipo de energia não emitir gases com efeito de estufa (CO2), garantir segurança contra acidentes nucleares e nem colocar problemas de armazenamento de detritos por que não os gera. Uma revolução energética. Acrescento quase perfeita.
Segundo li, para além dos reactores nucleares produzirem electricidade poderão vir a ter uma aplicação na dessalinização da água do mar e no aquecimento urbano sem falar da sua aplicação na electrólise da água na produção do hidrogénio verde.

3. Assim, menos se compreendem frases tão declarativas como esta do gabinete de Matos Fernandes: “Os tempos recentes provam que só a aposta nas energias renováveis pode defender a Europa dos elevados preços de produção de electricidade”, não levando em linha de conta as suas limitações na produção de electricidade porque requerem sempre o apoio de centrais de origem fóssil, dado o seu funcionamento de forma intermitente pois nem sempre há sol nem vento, quer mesmo na poluição ambiental quando se analisam as renováveis ao longo do seu ciclo de vida, quer em elevados custos de produção.

Vejamos um exemplo: a energia solar. Não entramos na eólica pois a situação é bem mais complexa.

4. O sol é, em princípio, uma fonte inesgotável e a maior fonte energética do mundo. Só que é a mais cara de todas. Porquê?

Porque a luz solar tem uma limitação de fundo. Uma luz difusa com uma densidade muito baixa.

Retirar da luz solar uma quantidade significativa de energia obriga-nos a cobrir uma vasta área, quer com espelhos para focar os seus raios, quer com painéis de células fotovoltaicas e com uma eficiência deveras baixa. Assim, o investimento torna-se demasiado elevado e o quilowatt-hora fica muito caro face à grande maioria das outras fontes de energia.

Os avanços tecnológicos têm sido grandes, sobretudo em termos da melhoria dos equipamentos e até no solar flutuante, instalado em barragens, lagos, conseguiram resolver um problema técnico que acontecia com frequência, os incêndios, inutilizando partes significativas do equipamento.

5. Quando se entra numa análise mais ampla das renováveis, mesmo tendo confiança nos avanços da Ciência, algumas limitações de fundo nunca desaparecerão, como as de ter sol quando se quer e vento nas condições requeridas.

Não convém por isso “divinizar” tanto as energias renováveis, que até não são tão limpas como se apregoa, embora se posicionem muito além das de origem fóssil, pois são energias livres de carbono no seu produto final como a nuclear o é.

6. E se, como li, os reactores oferecem uma utilização potencial na dessalinização da água do mar, que futuro nos pode vir designadamente com os SMR, cujo fabrico custa menos, demoram muito menos tempo a ser construídos e são mais flexíveis, podendo combinar com as renováveis nos seus períodos de intermitência produtiva?

Em minha opinião, a nuclear merece mesmo uma nota de pé de página.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Guerra e paz


Por estatuadesal
Miguel Sousa Tavares, 
in Expresso, 
26/02/2022

Sim, invadiu. Vinte e quatro horas depois de ter insistido que estava ainda aberto a negociações “sérias e honestas”, Putin invadiu a Ucrânia e, pelo que se sabia até ontem à tarde, em larga escala.



Faço ideia da satisfação intelectual de tantos que passaram semanas a anunciar a invasão, às vezes parecendo mesmo desejá-la para poderem ver as suas previsões confirmadas. Não é o meu caso: sempre acreditei que Vladimir Putin não daria este passo extremo, com o qual tem muito mais a ganhar do que a perder, e que semanas e semanas de tensão a acumular-se eram pretexto e tempo suficiente para que os tão falados “esforços diplomáticos” conseguissem evitar uma guerra desta dimensão na Europa.

Porque, talvez ainda não tenham percebido bem, mas esta guerra não vai doer apenas aos ucranianos, com os seus mortos e o seu país ocupado, vai doer a todos na Europa e para além dela — e se a coisa ficar pela Ucrânia. Não tardará muito tempo até que aqui mesmo, em Portugal, o comum das pessoas se interrogue por que razão os que podiam não fizeram todos os esforços para evitar esta guerra e as suas consequências.

Em 19 de Janeiro passado, escrevi aqui isto: “Tudo o que a Rússia pede é a garantia de que nem a Ucrânia nem a Geórgia, nas suas fronteiras, vão aderir à NATO. Em troca, o que a NATO pode exigir à Rússia é a garantia de que não invadirá a Ucrânia. Custa assim tanto evitar a guerra?” Passaram cinco semanas desde então e o único esforço diplomático visível feito pelo Ocidente foi a ida de Macron a Moscovo. Veio de lá com algum optimismo, depois de ter ouvido Putin dizer que aceitava como base negocial o regresso aos Acordos de Minsk-2 (que, por si sós, impediam a Ucrânia de aderir à NATO sem o acordo das províncias russófonas). Mas logo no dia seguinte Putin lembrou que Macron não respondia pela NATO e a verdade é que da parte da organização nem uma palavra foi dita ou um avanço foi feito no sentido de negociar a questão com base nos Acordos de Minsk. E nada mais foi feito do lado de cá em matéria de esforços diplomáticos: apenas ameaças de sanções, reforço de meios militares nas fronteiras da Ucrânia e constantes avisos de que estava iminente a invasão russa, enquanto toda a gente continuava sentada, de braços cruzados, pronta a assistir. 

Particularmente chocante, quando ouvimos agora Ursula von der Leyen falar da diplomacia tentada, é pensar na absoluta inércia da União Europeia, prestes a enfrentar uma guerra no seu território, a arcar com o grosso das consequências económicas e políticas, e que não mexeu uma palha para a evitar, para se colocar como mediadora do conflito e que, como sempre, só sabe acenar com dinheiro a posteriori. E enquanto nada se passava na frente diplomática, ainda tivemos, segunda-feira passada, a ida do Presidente ucraniano, Zelensky, à cimeira da Segurança e Cooperação Europeia, em Munique, lançar a última acha na fogueira, queixando-se das armas nucleares (soviéticas) que afirmou lhe terem sido retiradas quando a Ucrânia se tornou independente e exigir a sua entrada imediata na NATO, desafiando os países recalcitrantes a assumirem-se ali e então. (Duas horas depois, talvez por ter chegado atrasado ou se ter perdido na tradução, o nosso ministro da Defesa dizia que essa questão “não estava em cima da mesa”, pelo que não havia fundamento para uma invasão russa.) Insisto: a invasão russa talvez pudesse ter sido evitada se tivesse havido uma vontade e um esforço sério de negociação do lado ocidental, que não houve.


E digo talvez porque não posso saber o que ia e vai na cabeça de um homem perigoso como Vladimir Putin. Mas a todo o tempo e em todos os lados se negociou com homens perigosos a benefício de um bem maior, que é a salvaguarda da paz — Kim Jong-il, da Coreia do Norte, ou os imãs do Irão são apenas os últimos e mais óbvios exemplos. O facto é que, não tendo negociado antes, deixando apenas a Putin a opção de se retirar publicamente humilhado e conformado a ver a Ucrânia juntar-se aos 14 países que antes faziam parte da URSS ou do Pacto de Varsóvia e que a NATO já juntou à sua colecção, assim cercando a Rússia de alto a baixo, do Báltico até ao Bósforo, o Ocidente vai agora ter de negociar com ele em posição de força. A menos que um dos lados, ou ambos, tenha endoidecido e esteja disposto a arriscar uma guerra total na Europa.

Negociar com Putin em posição de força não vai ser fácil. Na sua declaração de guerra, ele disse que a Rússia estava preparada para enfrentar as consequências e, a médio prazo, está economicamente bem mais preparada do que a Europa em matéria de abastecimento de energia, cereais e matérias-primas essenciais.

São as consequências políticas da invasão o grande preço a pagar.

Não tardará muito tempo até que aqui mesmo, em Portugal, o comum das pessoas se interrogue por que razão os que podiam não fizeram todos os esforços para evitar esta guerra e as suas consequências.

Apesar daquilo a que chamaram a sua “lição de história sobre a Ucrânia” conter muito mais verdades do que falsidades ou invenções, ele sabe que isso não lhe acrescenta qualquer validade política para invadir o que outrora foi terra russa: os tempos mudam, a vontade dos povos também e a poeira da História fica nos livros. Recuperar militarmente e manter a Ucrânia toda na Federação russa é um projecto politicamente insano, que a longo prazo sairá caro a Moscovo e ao povo russo.

Mas agora vamos entrar numa nova dimensão, chamada realpolitik — não sei se se lembram do que era, antes de alguém ter declarado que a História tinha acabado quando a URSS implodiu e a Guerra Fria terminou com a vitória do Ocidente. O Donbas, Odessa, Mariupol, pelo menos, nunca mais voltarão à posse da Ucrânia e esta nunca poderá ser membro da NATO — isto será o mínimo que Putin vai exigir. O resto, desde que Putin não queira uma Ucrânia “normalizada”, talvez seja negociável — é isso a realpolitik. Aquilo que resta quando se andou a brincar à guerra e paz com análises simplistas de aplicação universal e intemporal, como nos nossos livros de infância, em que os bons éramos sempre nós e os maus os peles-vermelhas.

Tenho lido e escutado vários “especialistas” na matéria a defender que negociar com Putin terá o mesmo e funesto efeito que teve negociar com Hitler em 1938. É mais uma análise de aplicação universal e intemporal cuja utilidade está agora a ser provada pelos ucranianos. Para começar, e embora haja historiadores para todos os gostos, Putin não é Hitler. E, depois, a situação não é igual nem comparável: em 38, Hitler já tinha consumado o Anschluss sobre a Áustria, queria os Sudetas, que Chamberlain e Daladier lhe deram em Munique, e não escondia que a seguir engoliria toda a Checoslováquia. Mas, sobretudo e diferentemente da Rússia de 2022, era a Alemanha que ameaçava a Europa, e não a Europa que ameaçava a Alemanha, com um cordão de países unidos numa aliança militar cercando-a por todos os lados.

Há dias, numa das suas proclamações “ao mundo”, Joe Biden dizia sobre Putin: “Quem pensa ele que é?” Bom, agora já deve saber quem é e do que é capaz. É pena que antes disso não lhe tivessem explicado: “O Putin, sr. Presidente? É Presidente do segundo maior país e da segunda maior potência nuclear do mundo, com quem ao longo de décadas temos mantido negociações e tratados de limite de armas nucleares, graças aos quais o mundo evitou uma terceira guerra mundial devastadora nos últimos 50 anos. Ele agora está furioso porque a Ucrânia se quer juntar a 14 outros paí ses membros da NATO que já cercam a Rússia e que, a partir daí, podem atingir território russo com mísseis nucleares em questão de minutos. Eu aconselho a que fale com ele.”

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Famosos...


O big qualquer coisa é agora de "famosos". Nunca assisti a qualquer episódio, de fio a pavio, nem desta versão como de qualquer outra. Respeito quem goste. Eu, felizmente, tenho essa notável ferramenta que me permite mudar de canal. Ainda por cima "famosos", por outras palavras, ditos ilustres, invulgares, célebres e extraordinários. Pergunta-se, em quê? "Famosos inúteis" (não pelas respeitosas profissões que têm) talvez fosse mais adequado para título genérico do programa. Deixam-se, voluntariamente, "prender" numa casa que dizem ser "a mais vigiada do país", para ali viverem o nada, a vulgaridade e a mediocridade, durante várias semanas. É espantoso.



Onde pára a dignidade e o respeito pelos próprios? À custa, julgo eu, da promessa de uns euros como prémio, participam num jogo (jogo?) que me leva a ter dificuldade em perceber como é que um ser, minimamente pensante, se deixa ficar pela cerca que desmiola. Futilidade absoluta. E, depois, lá vem a gala em horário nobre! Eu, sinceramente, substituía a palavra gala por embrutecimento. Palavras ocas, mexericos e mexeriquices, gente aperaltada e uma enorme plateia que segue a "liturgia" dos comportamentos vulgares e toscos. No meu "zapping" passo, espreito e sigo. Não tenho nem estofo nem paciência.

Entretenimento é outra coisa. E a televisão, por excelência, devia ter esse cuidado de separação da trivialidade relativamente àquilo que diverte ou distrai. O problema é que aquilo, infelizmente, vende. É na publicidade, nas revistas rosa ou negras de conteúdo, certo é que se não vendesse não constataria de um alinhamento sério. E porque é que vende? Eis a grande questão! Eu tenho a minha leitura, mas cada um que faça a sua sobre os elevados à distinção de "famosos".

Em 2021 escrevi um outro texto. Pode ser lido aqui.

Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Plano do futuro primeiro-ministro para Portugal


Por
João Abel de Freitas, 
Economista 
15 Fevereiro 2022

É fundamental que o Plano para a Legislatura contemple e dê relevo a linhas de fundo como a demografia, a água, a energia e a reindustrialização, em termos de actuação imediata, mas sobretudo de prospectiva.



1. Tenho ouvido e lido que António Costa, com esta sua maioria absoluta, tem todas as condições para executar o Plano de António Costa.

Só não encontrei ainda, dos que falam ou escrevem, que Plano é esse, que frentes estruturantes vão ser privilegiadas pelo novo Governo. As frentes escolhidas devem, para além de, por si próprias, serem determinantes no lançamento da transformação radical da sociedade e economia portuguesas, impulsionar importantes dinâmicas noutros domínios e, articularem-se numa linha coerente de País do futuro.

O País precisa de se projectar num ritmo sustentado de desenvolvimento qualitativo, muito acima da média europeia, vencer bolsas de pobreza que persistem e gerar riqueza e distribuí-la de forma mais equitativa. Aqui também caberia interrogar-se sobre os trunfos de que dispomos e antecipar as dificuldades a vencer no longo percurso do caminho delineado.

Será pedagógico saber o que sabem os comentadores que tanto falam do Plano. Pelo menos, registem o que têm na cabeça sobre o mesmo e contraponham.

2. Dizer que o futuro primeiro-ministro, António Costa, vai aplicar ao máximo os fundos comunitários e, nomeadamente, pôr de pé a tão conhecida “bazuca”, cujo pai, mãe, padrinho conhecemos, acrescento eu, escrever/dizer isto só, é pobre, como também títulos de primeiras páginas a anunciar que o Governo vai estar recheado de super ministros, embora reconheça que as pessoas são importantes, se trouxerem diferença pelo seu peso político, competência e capacidade de decisão. E títulos de primeira página em que se confundem orçamento e plano, piora ainda um pouco.

3. Existe o PRR já negociado e aprovado em Bruxelas. Um PRR que diferencia três dimensões: a Resiliência Económica, a Transição Climática e a Transição Digital.

A Resiliência é a dimensão mais consistente porque incorpora a saúde e a habitação, duas áreas ligadas a direitos básicos e onde muito está por fazer. Espero que o Plano do Governo vá um pouco além, em temas estruturantes e, ainda, articule as verbas do PRR com as do Programa 2030 numa programação financeira coerente.

Assim, é fundamental que o Plano para a Legislatura contemple e dê relevo a linhas de fundo como a demografia, a água, a energia e a reindustrialização, em termos de actuação imediata, mas sobretudo de prospectiva.

Notas avulso

4. A saúde. O grande problema da saúde são os recursos humanos e a gestão, diz-se. Resolver o problema dos recursos humanos da saúde no âmbito da filosofia da Administração Pública é, diria, tarefa impossível. Porque não uma ruptura de paradigma? O Ministério da Saúde tem de se guiar pelos padrões rígidos da Função Pública?! Porque não ensaiar um novo modelo e com essa experiência partir em novos moldes para a Reforma de grandes fatias do aparelho de Estado, como a educação, a ciência… a cultura. Faz algum sentido continuar a falar de Administração Pública como no tempo de Napoleão?!

Perspectivo, no entanto, a Saúde muito para além das carreiras. Por isso, há a economia da saúde. Esta dimensão enquadra tudo quanto circula à sua volta, como os consumos e equipamentos. Detectar as capacidades de Portugal nos mercados sobre estas potencialidades. Raciocinar e agir como cluster, ligando todas as peças. Pensar ligando é quanto a mim a melhor forma de fortificar e ampliar o SNS. E, sem mitigar o papel das empresas, compete ao Estado a missão dirigir. E o Estado para isso necessita de criar estruturas técnico-científicas de produção de pensamento e acção (estruturas de prospectiva e planeamento). Mais uma componente importante que “mexe” com a Reforma de Estado.

5. A habitação. Outra área chave, que nunca fica resolvida em definitivo. A habitação envolve todo o país, embora seja nos grandes centros urbanos que as carências são mais acutilantes. Para atingir um patamar digno na habitação é preciso investir muito. O PRR afectou um montante significativo que permite abrir caminho.

Na habitação, a grande questão prende-se com os protagonistas que são vários, mas o Estado e as autarquias deverão ter um papel relevante a diferentes níveis. A contratualização Governo/Autarquias na base de programas concretos é um bom caminho.

É importante para a economia consolidar a construção civil que hoje se debate com problemas de mão-de-obra e de acesso à aquisição de materiais e componentes em tempo. Um diálogo constante governo/associações será importante no encontro de soluções.

6. A energia. Um tema estruturante para o desenvolvimento e transição climática. Face à escalada dos preços da energia urge atacar o problema no curto prazo, pelo menos, neutralizando os aumentos ou mesmo fazendo-os recuar, mas o lançamento de bases de desenvolvimento futuro, onde o hidrogénio merece relevo e reflexão especiais, designadamente na sua relação com a geração de electricidade de que precisa é fundamental e pode ser de ruptura de modelo e aqui até se liga à reindustrialização do País.

Difícil encontrar, a nível da União Europeia, uma matéria com divergências tão profundas entre os governos dos países membros. É um campo minado por grandes lóbis.

7. A reindustrialização é quase tudo. É uma matéria transversal que merece ser trabalhada até em termos de conceptualização. Para mim, a revolução digital, a inteligência artificial e como antes referi a energia nela se enquadram. Merece uma estrutura de Missão acima do ministério tipo.

8. A demografia e a água. Dois temas que nem precisam de justificação para constarem como linhas de fundo. A água porque é o recurso mais necessário para a vida do ser humano. A demografia analisa o ser humano. E pelos estudos que se vão conhecendo quer a demografia quer a água não se encontram de boa saúde… e, por isso, há que recorrer a quem lhes trate da saúde e, como são temas globais, compete aos governos dos países interessarem-se por lhes devolver a saúde.

9. Os temas de um plano para uma legislatura não têm de ter todos o mesmo tipo de explanação. Têm de contemplar uma linha estratégica de longo prazo e pensados e programados por fases, de acordo com os passos que se pretendam, com realismo, no período do plano.

Assim, alguns dos temas referidos, se eventualmente contemplados, apresentar-se-iam, pela sua natureza, com níveis de desenvolvimento desiguais. Óptimo seria que aparecessem tratados para o público. Fundamental, no entanto, é a bússola que defina para onde queremos ir.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

António Trancoso - Um livro, uma história de vida

 

Acabo de ler o livro do meu Amigo Dr. António Trancoso com o título de capa Se não tivesse sido assim... Uma deliciosa história de vida, desde o nascimento até ao seu "quadro de honra" que ostenta, neste momento, 4x20! É obra. São oitenta anos de história pessoal com muitas e muitas peripécias que me levam a concluir que só poderia ter sido assim. Porque, conhecendo-o há muitos anos, nunca nele vi o Homem portador de uma coluna de plasticina. Foi inteiro, foi ele próprio. E pagou por isso, só que a consciência tranquiliza-o e transmite-lhe, estou certo, que voltaria a viver os mesmos momentos, onde se misturaram a irreverência com o sentido de justiça.



Fui lendo e lendo páginas de um tempo marcado por uma insana obediência a valores políticos, educativos (nos Pupilos e na Academia Militar) e sociais que nem faziam sequer sentido  na esfera da disciplina militar, tempos marcados, também, por uma massacrante pobreza (os Senhores e os outros), mas onde, apesar de tudo, fica indisfarçável o amor de António Trancoso pelos Pupilos do Exército.

Tempos, como também assinala, de "covardia" e de "maldade", acompanhados de uma perceptível insensibilidade para alguns senhores perceberem que a "disciplina conquista-se pela compreensão das pessoas" - disse-me, em 1973, um Brigadeiro no decorrer da guerra na Guiné-Bissau. E assim, António Trancoso e outros camaradas de curso tiveram de abandonar a Academia Militar a poucos meses de terminarem o curso. A quantos, pergunta, "filhos e afilhados" foram "perdoadas" as tropelias da idade? E diz bem, recordando o Cardeal de Retz: "Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito". É isso. É o caso daquele comandante, certamente um exemplar aluno da Academia, mas que nas suas altas funções em Moçambique comprou "manilhas de esgoto", quando outras foram as aquisições para satisfazer interesses pessoais. António Trancoso relata o episódio, a trafulhice acompanhada da ameaça de 15 dias de prisão senão as mandasse pagar! Ao falar de manilhas, creia António Trancoso, que me assaltou o "esgoto" de tantas situações. Enfim...

A páginas tantas acabei por recuar no tempo, aquando da sua descrição no "paraíso de Macaloge" em Moçambique, para onde foi destacado na estúpida guerra colonial. Algumas passagens permitiram-me trazer à memória a constrangedora Guilége (Guiné-Bissau), por onde passei e onde nada existia, ou melhor, apenas o medo de não regressar. Trancoso conta as peripécias de uma guerra criada "por um regime deliberadamente criminoso" onde narra uma série de episódios de sacrifício e morte.

Depois, o regresso, a docência e a análise ao exercício da política, onde escalpeliza inúmeras situações de "lucrativos negócios e de rendosos lugares", da participação da Igreja, situações que deixaram um rasto de milhares de milhões ainda em pagamento e subtis perseguições que, ainda hoje, marcam um certo medo ou receio das represálias do poder.

Caríssimo Amigo e Colega António Trancoso, este seu testemunho contado na primeira pessoa, deu-me prazer em toda a extensão das 264 páginas de leitura. Apenas junto um pormenor: o facto de me ter sido grato recordar o Professor Capitão Robalo Gouveia de quem também fui aluno, pela sua exigência, rigor e mestria na arte de formar ginastas.

Parabéns Amigo Trancoso.

Ilustração: Fotos publicadas no livro.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Esta guerra que nos querem vender


Por estatuadesal
Miguel Sousa Tavares, 
12/02/2022


Parece que o mundo não tem suficientes problemas globais urgentes, com a pandemia, as alterações climáticas, as migrações do sul para o norte, a crise do preço das matérias-primas e a inflação, e ainda precisa de lhes acrescentar uma guerra — uma guerra a sério, capaz de destabilizar tudo, de causar a morte a muitos milhares de seres humanos, lançar o caos na economia e relançar em força o espírito da Guerra Fria, que ainda alimenta tantas nostalgias.




Putin, garantem-nos há meses os nossos “especialistas” ocidentais, prepara uma invasão iminente da Ucrânia: marcada primeiro para Janeiro, depois adiada para o início de Fevereiro e agora garantida para a semana que vem. Mas desconfiem também disto: de cada vez que alguém fora do círculo belicista NATO-Estados Unidos-Inglaterra inicia diligências paralelas para encontrar uma saída que evite a guerra (o chanceler Scholz ou o Presidente Macron), ou de cada vez que é o próprio Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a pedir aos seus aliados ocidentais que parem com a “histeria” da guerra iminente, logo aumentam as “notícias” na imprensa ocidental sobre novas movimentações de tropas russas com vista à invasão. Sim, é verdade que Putin tem os meios para iniciar a invasão de parte ou de toda a Ucrânia quando o quiser e se o quiser. Mas ainda ninguém respondeu cabalmente a esta pergunta: porque haveria Putin de querer invadir a Ucrânia, o que teria a ganhar com isso, no curto e no longo prazo? A Ucrânia não será nunca, para o Exército russo, um passeio na Crimeia: é 25 vezes maior do que a Crimeia, e a sua população de 43 milhões de pessoas é dividida entre 73% de ucranianos e 22% de russos, contra apenas 2,4 milhões de habitantes na Crimeia, dos quais 65% de russos e 15% de ucranianos. Mesmo que o referendo posterior à anexação russa de 2014, que Moscovo sustenta ter-lhe sido favorável com 94% dos votos, não seja credível, é óbvio que na Crimeia — que Potemkin conquistou para Catarina, a Grande, em 1783, e que o ucraniano secretário-geral do PCUS Nikita Khrushchov deu à Ucrânia, em 1954 — Moscovo está em casa, enquanto na Ucrânia teria pela frente umas Forças Armadas poderosas, uma resistência feroz e um povo maioritariamente hostil, que transformaria a ocupação num inferno permanente. E por mais que Putin seja um saudosista do Império russo e soviético, também é suficientemente pragmático para compreender os custos que tal aventura lhe acarretariam, com a Rússia mergulhada em nova Guerra Fria, cercada de inimigos por todos os lados e reduzida à condição de pária entre as nações, só com o cordial inimigo chinês como potencial aliado.

Não, é muito provável que Putin não queira invadir a Ucrânia, nem queira uma guerra. Que queira outras coisas, paras as quais é preciso ouvi-lo com atenção. Para começar, isso mesmo: ser escutado. Lembrar que, apesar da actual guerra latente Ocidente-China, continua a existir uma terceira superpotência chamada Rússia, o segundo maior país do mundo, com o segundo arsenal nuclear, maior fornecedor à Europa de gás natural (agora considerado “energia verde” pela UE), e cujos interesses estratégicos não podem, pura e simplesmente, ser distratados, como se não merecessem qualquer consideração. Quem conhecer a história da Rússia sabe que no subconsciente de todos os russos está o medo ancestral do cerco. Putin vê nos sucessivos alargamentos da NATO aos ex-países da órbita soviética e aos vizinhos da Rússia uma manobra de cerco, e, ao opor-se a ela, ele não está, necessariamente, a manifestar um saudosismo imperial, mas a defender aquilo que os russos pensam: é política interna, não é política externa.

E a verdade é que, se a NATO foi criada para enfrentar a ameaça soviética, uma vez dissolvida a URSS e extinto o Pacto de Varsóvia, foi preciso uma grande ginástica política para justificar a sua continuidade — que, aliás, e por outras razões, Donald Trump pôs claramente em causa. Mas não só a NATO não se extinguiu como se foi alargando a novos membros e a novos territórios, abraçando e cercando a Rússia, mas não só. Na sequência do 11 de Setembro, e torcendo de forma clara os princípios da sua carta fundadora, a NATO foi intimada pelos Estados Unidos a segui-los na caça à Al-Qaeda e a Bin Laden, no Afeganistão. Mas como a Al-Qaeda era uma ameaça planetária e o 11 de Setembro chocou todos, abriu-se pacificamente o precedente. Porém, não havia Al-Qaeda no Afeganistão, e Bin Laden foi capturado e morto comprometedoramente no Paquistão, um aliado americano. E, depois de anos de inúteis e mortíferos esforços de nation building, os EUA, logo seguidos pelos seus fiéis aliados, bateram em retirada daquele vespeiro, entregando-o à barbárie dos talibãs. Mas aprendemos a lição? Não.

Quando se tem uma organização que deixou de ter como fim a preservação da paz através da dissuasão para passar a ser um instrumento de guerra sempre latente, comandada por um pistoleiro irresponsável e tão sensível aos interesses dos grandes fabricantes de armas, a qualquer guerra falhada segue-se invariavelmente uma nova tentativa de guerra feliz — como se isso pudesse existir.

Eu conheci a NATO em 1979, no seu quartel-general em Bruxelas, numa das minhas primeiras viagens como jornalista ao estrangeiro. A ordem de trabalhos da reunião extraordinária não podia ser mais dramática: discutia-se que resposta dar à iniciativa da URSS de colocar mísseis de curto e médio alcance — os SS-20 — na Alemanha Orien tal, Polónia e Checoslováquia. Aquele passo, tomado pelo louco do Brejnev, era uma escalada determinante que rompia o periclitante “equilíbrio do terror” em que se vivia na Europa. Significava que, em lugar de esperar que um míssil disparado da Rússia demorasse 20 ou 30 minutos a atingir uma capital europeia, bastariam agora 5 minutos para isso, não dando tempo ao lado de cá de tentar interceptar os mísseis e até de ripostar — o mesmo que Khrushchov tentara 16 anos antes, em Cuba, e que Kennedy travou com a ameaça de uma terceira guerra mun dial. Fora do edifício da NATO, uma multidão de manifestantes, vindos de toda a Europa, gritavam e ostentavam cartazes dizendo “Better red than dead” (“Antes vermelhos do que mortos”) — o mesmo que apregoava essa organização pró-soviética chamada Conselho Mundial da Paz, em Portugal representada pelo ex-PR Costa Gomes e um patético personagem de seu nome Silas Cerqueira. Pelo contrário, eu não tive dúvidas algumas de que, se a NATO não respondesse, não só acabaríamos vermelhos como também provavelmente mortos. Mas a NATO não vacilou, apesar das resistências em contrário: ripostou com a instalação dos Cruise e Pershing II junto às fronteiras do Pacto de Varsóvia, e esse gesto de resistência viria a apressar o fim da URSS.

De então para cá assistimos à 1ª Guerra do Golfo, que George Bush pai desencadeou, com toda a legitimidade, para expulsar Saddam Hussein do Koweit, que ele acabara de invadir, e que terminou cumprida a missão. Mas depois a NATO envolveu-se na guerra civil da ex-Jugoslávia, na infame guerra de bombardeamento aéreo de Belgrado, cujo objectivo primeiro foi escoar material militar americano em vias de ficar obsoleto e permitir à indústria militar nova geração de contratos com o Pentágono.

E envolveu-se na 2ª Guerra do Golfo, desencadeada pela vaidade oca de George Bush filho, “a President at war”, com o pretexto de aniquilar as armas de destruição maciça de Saddam, cuja existência não estava provada e cujas “provas irrefutáveis”, de que falava Durão Barroso, se revelaram grosseiramente forjadas.

Uma guerra em que a NATO (e Portugal) se envolveram contra o voto do Conselho de Segurança da ONU e que teve como consequência, até hoje, a disseminação do terrorismo islâmico por todo o Médio Oriente. Lembrem-se disso. Lembrem- -se das aventuras desastrosas, das guerras ilegítimas e das suas consequências trágicas em que a NATO já nos envolveu desde que ficou sem inimigo natural e passou a procurá-lo algures. Lembrem- -se de como o Ocidente respondeu, e bem, às tentativas da URSS de o cercar de mísseis de alcance próximo, em Cuba e na Alemanha, em 1962 e 1979. É isso mesmo que a NATO pretende fazer agora com a Rússia. Cercá-la de aliados seus e posteriores inimigos da Rússia — à força, se necessário, pois ninguém ainda ouviu a Ucrânia ou a Geórgia pedirem para aderir à NATO. E depois armá-los para os defender da ameaça russa. O que, aliás, já estão a fazer, sem esperar sequer pela adesão. Porque, se até há umas semanas o discurso, do lado de cá, é que em caso de invasão russa se responderia com sanções económicas e financeiras nunca vistas, agora, e no meio da gritaria permanente com os 100 mil soldados russos do lado de lá, ninguém fala dos soldados e armas que se vão colocando no terreno do lado de cá. “São apenas manobras defensivas”, explicava há dias um “especialista” português.

Defensivas? Trazer dos Estados Unidos a 82ª Divisão Aerotransportada, a unidade de combate de elite do Exército americano, para a Polónia, será uma manobra defensiva ou a preparação de uma sanção económica? Acordem, europeus! Porque Biden e Johnson precisam de tensão ou guerra para subir os índices de popularidade interna e a Polónia precisa de transfigurar a sua imagem de pior parceiro europeu em tempo de paz para parceiro indispensável em tempo de guerra, querem vender-nos uma guerra sem causa.

Uma guerra que os ucranianos suplicam que não lhes imponham, que os russos pedem que evitem e que nos fará, a nós outros, na melhor das hipóteses, retroceder anos, em vez de avançar em direcção ao que importa.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O Estado da Educação


 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A ESCOLA É UMA SECA


 

À venda na Livraria Esperança - Rua dos Ferreiros/Funchal

Ou através dos sites:

Coitadinho do Pacheco de Amorim, tão maltratado


Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
08/02/2022


Ventura, matreiro, quer fazer da disputa pela vice-presidência do Parlamento uma telenovela que se arraste pela amargura da vitimização, quanto mais longa melhor, para lhe dourar os galões de antissistema. Escolheu para isso o candidato que lhe dava mais garantias de ser chumbado. Hic Rhodus, hic salta, eis não sei quantos dos profetas da direita a responderem a este apelo e a rasgarem as vestes pela elevação do Pacheco de Amorim a vice, ora apresentando-a como uma obrigação estatutária, ora terçando pela conveniência educativa da iniciativa.



Como seria de esperar, é do Observador que chegam os mais enfáticos, e o seu chefe, José Manuel Fernandes, apresenta numa emissão de rádio o argumento definitivo: “Se querem discutir a eleição de Pacheco de Amorim, discutam a Constituição, pois é lá que está prevista. O que a Constituição não prevê e não devia ser tolerado é uma ‘socranete’ como presidente da AR.”

“Está prevista” a eleição de Amorim na Constituição, curiosa escolha de palavras. De facto, o que o texto constitucional determina é que os deputados têm o poder de “eleger por maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções o seu presidente e os demais membros da Mesa, sendo os quatro Vice-Presidentes eleitos sob proposta dos quatro maiores grupos parlamentares” (Artigo 175º, alínea b).

Seria demais pedir ao ideólogo alguma atenção à redação, que atribui o poder de “proposta” aos quatro grupos parlamentares e o poder de “eleger” aos deputados, que são naturalmente livres de exprimirem o seu voto. Tavares, no Público, apimenta a coisa com uma alegada tradição: teríamos um problema se os deputados exercessem o seu voto de modo a produzirem um “corte com a tradição parlamentar desde 1975” (o que, a talhe de foice, é uma “tradição” frequentemente “cortada”, ou seja, sempre que os deputados entenderam diversamente dos proponentes).

Pode-se perguntar em que mais assuntos transcendentes é que esta defesa da “tradição” ou da “previsão” constitucional obrigaria os deputados a abdicarem do seu direito de opinião para aprovarem de cruz o que lhes é proposto. O resultado seria uma estranha democracia, mas certamente obediente.

A rapidez com que os dois ideólogos se escapulem para a eventual proposta de Edite Estrela para a presidência do Parlamento não deixa de ser reveladora de algum desconforto com a sua adesão à candidatura de Amorim. Aliás, os termos em que o fazem denunciam o estratagema, pois seguem a máxima dos aflitos: se a conversa corre mal dispara depressa noutra direção. Acresce que Fernandes não se coíbe de usar uma grosseria que só mobiliza por se tratar de uma mulher. Ela é uma “socranete”, pois claro.

Imagine quem lê esta prosa se alguma vez o diretor do Observador escreveria de Pacheco de Amorim que é um “venturete”. Já sabe a resposta: nunca, afinal o dito cujo é um homem, homens não são majorettes, quanto a mulheres bem podem ser, não é? Tavares, que é mais prudente na escolha das palavras, limita-se a atirar contra “a madrinha do Sócrates”. Veremos se Estrela é mesmo a candidata à presidência do Parlamento pelo PS, o que pareceria uma escolha infeliz – mas compará-la com alguém que fez carreira numa organização responsável por atentados e que se orgulha desse passado, isso é uma abominação. Nesse plano, nenhuma confusão é possível.

Temos então, na direita, três atitudes sobre o Chega, que se vão consolidando e que este episódio volta a revelar. A primeira é de quem quer a extrema-direita para o porradismo social. É, por exemplo, a de Fátima Bonifácio, que explicou que, como “a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas”, um avanço do Chega será o início de “uma barrela de alto a baixo” no país. A segunda é a de quem lhe quer garantir um estatuto na direita, eles que se entendam. Ao que se percebe, é a do Observador. Finalmente, a terceira é a de quem prefere abrir a porta da sala de aula, esperando que os rufias do recreio se sentem sossegadinhos, como parecem ser os casos de Marques Mendes e Lobo Xavier ou, mais enfático, de Pinto Luz.

Para Ventura é um gosto aliar-se com as duas primeiras versões da direita e usar a terceira a seu bel-prazer. Fica a saber que a cartada Pacheco de Amorim mete em sentido uma parte daquela ala e desbarreta outra, afinal foi fácil. Com isso, já ganhou alguma coisa.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Demografia: Portugal na parte negra da História futura


Por
01 Fevereiro 2022

A Demografia é bem ou mais importante que a Transição Climática, que tantas entidades e pessoas mobiliza. Estas duas forças globais, que se cruzam em muitos aspectos essenciais, vão determinar o futuro da Humanidade.



Notas breves

1. Demografia, um tema “não lembrado” na campanha eleitoral cujos resultados se apuraram no domingo, 30 de Janeiro, com o PS a obter uma vitória retumbante contra as expectativas das sondagens e alguma inquietação nos meios da esquerda não alinhada.

Só as projecções à boca das urnas admitiram este possível desfecho.

A população votou na boa gestão do Governo na Covid-19, valorizando a estabilidade. O País espera que, para além da gestão eficaz e eficiente do dia-a-dia, o novo Governo PS pense, lance e operacionalize linhas de um percurso estratégico de futuro, entre elas, a da Demografia.

Portugal bem precisa. E dispõe de meios financeiros avultados com os quais pode avançar para uma profunda transformação da sociedade portuguesa, que até a evolução expectável da Demografia impõe.

Certamente, pelas dificuldades em apontar soluções para a problemática da Demografia, todos os partidos fugiram à questão. Até parecia haver um conluio!

2. A Demografia, como conceito amplo, abarcando os movimentos de aumento ou de redução da população, bem como os fluxos dos grupos populacionais dentro da espécie humana, é, e vai ser ainda mais, uma questão maior, profunda e de futuro incerto e “negro” em Portugal, na Europa e no Mundo.

Ultrapassar este futuro “negro” exige um novo modelo, onde o desenvolvimento jamais possa assentar apenas no crescimento da população, como tem vindo a suceder desde a Revolução Industrial. O novo modelo tem de perspectivar a redução sucessiva e acentuada da população após atingir o pico de crescimento populacional [algures neste século, data (s) sobre que reina polémica] e o envelhecimento em curso das sociedades.

A Demografia é bem ou mais importante que a Transição Climática que, no entanto, tantas entidades e pessoas mobiliza. Estas duas forças globais, que se cruzam em muitos aspectos essenciais, vão e já estão a parametrizar e a determinar o futuro da Humanidade.

Alguns dados da evolução demográfica – século XX

3. Há quem refira que, no século XX, a Demografia mundial disparou de forma vertiginosa e os números dos serviços estatísticos demográficos da ONU confirmam.

O Planeta para atingir os primeiros mil milhões de habitantes levou cerca de 12 mil anos, ou seja, todo o período desde “a descoberta” da agricultura até aos anos de 1800 da nossa era (inícios da primeira revolução industrial). Em 1930, 130 anos depois, regista-se o segundo milhar de milhão de habitantes. De esse ano até ao final do século XX (1999), a população mundial é acrescentada em mais 4 mil milhões de habitantes, perfazendo, assim, os seis mil milhões, através de períodos de tempo cada vez mais curtos por cada mil milhão.

Estes ritmos diferenciados do crescimento da população mundial devem-se a múltiplos factores, melhores serviços de saúde, produção de novos medicamentos, redução da taxa de mortalidade, melhor nível de vida e consequente aumento da esperança de vida, embora desde os anos 1970 se assista ao declínio da taxa de fecundidade.

Em 1960, criou-se a ideia de que a população mundial ia crescer indefinidamente, tendo surgido alguns novos malthusianos, como o demógrafo americano Paul Elrlich, que alertou para “a fome massiva” no decorrer dos anos de 1980.

Na segunda metade do século XXI

4. A população mundial estimada para 2021 é de 7,8 mil milhões de pessoas. Isto significa que, nos dois primeiros decénios deste novo século, o ritmo de crescimento da população mundial pouco se alterou, embora acuse um lento decréscimo de ritmo que entre meados do século anterior e hoje passou de 2,05% para 1,1%.

As projecções para o período a partir de 2040/50 estão a gerar controvérsia, cimentando-se a ideia de que a tendência de crescimento da população mundial sustentada no cenário central da ONU (2019 – 7,7 milhares de milhões, 2050 – 9,7 e 2100 – 10,7 milhares de milhões) não incorpora algumas transformações em curso nas sociedades.

Desde logo, a taxa de fecundidade que, sendo muito variável por país, está a baixar mais repentinamente nos países em vias de desenvolvimento do que se esperava, a esperança de vida em recuo em países significativos como os EUA, desde 2012, devido à obesidade e ao consumo de drogas e a Covid-19, em geral, com impacto na diminuição do número de nascimentos, em que Portugal não foi excepção.

Produziram-se vários estudos/projecções de demografia para estes horizontes. A ONU tem tradição e excelente trabalho neste domínio e costuma actualizar os trabalhos todos os dois anos.

Estudos recentes como os da revista “The Lancet”, Universidade de Washington, Universidade de Viena vieram defender que o pico de crescimento da população mundial se dará antes de 2100, na década de 2060, embora não coincidindo todos no ano de início do declínio. Segundo os estudos, o pico ocorrerá em 2064/2070, com 9,3/ 9,7 mil milhões de habitantes, com a população mundial em 2100 a não ultrapassar 8,8 mil milhões, uma diferença significativa de dois milhares de milhões para o cenário central da ONU. Refira-se que a ONU no seu cenário baixo apresenta também um valor mais reduzido.

Independentemente dos valores destes estudos, há algo comum a todos. O reconhecimento do pico de crescimento da população com declínio a partir de uma data, pondo em causa a ideia reinante do crescimento contínuo do século XX.

Portugal a perder metade da sua população

Em todos os estudos são, em geral, os países mais desenvolvidos, os mais afectados na queda. Portugal não escapa e até no estudo da “Lancet” aparece enquadrado num conjunto de mais de 20 países que verão a sua população reduzida de metade ou até mais no horizonte 2100.

Embora sem enumerar exaustivamente os países, o estudo realça o Japão, Coreia do Sul, Espanha, Itália, Portugal e Polónia, com perda de 50% da população no horizonte 2100. É assustador.

Salienta o mesmo estudo que a China, hoje com mais de 1,4 mil milhões de habitantes, passará para 730 milhões, enquanto a África subsariana triplicará a sua população, tornando-se a Nigéria o segundo país mais populoso do Planeta com 800 milhões de habitantes.

Revolução demográfica

O Mundo vai passar por uma transformação radical da sua Demografia nos próximos 40/50/60 anos, Revolução que porá em causa as estruturas sociais, organização dos Estados, segurança social, empresas, economia, cultura e sociedades no seu todo. Tudo isto merece muita reflexão e uma visão de futuro. Termino com uma provocação: para quê agir sobre as alterações climáticas, se não houver população a beneficiar das mudanças?!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.