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domingo, 13 de março de 2022
As sanções de Washington destruirão a Europa, não a Rússia
quinta-feira, 10 de março de 2022
Paz em tempos de guerra
Dá-se o improvável: quem está envolvido no conflito parece estar disposto a negociar. Quem assiste não.
sábado, 5 de março de 2022
Como chegámos aqui?
A soberania da Ucrânia não pode ser posta em causa. A invasão da Ucrânia é ilegal e deve ser condenada. A mobilização de civis decretada pelo presidente da Ucrânia pode ser considerada um acto desesperado, mas faz prever uma futura guerra de guerrilha. Putin deveria ter presente a experiência dos EUA no Vietnam: o exército regular de um invasor, por mais poderoso que seja, acabará por ser derrotado, se o povo em armas se mobilizar contra ele. Tudo isto faz prever incalculáveis perdas de vida humana inocente. Ainda mal refeita da pandemia, a Europa prepara-se para um novo desafio de proporções desconhecidas. A perplexidade perante tudo isto não poderia ser maior.
A pergunta é esta: como e porquê chegámos aqui? Há trinta anos a Rússia (então União Soviética) saía derrotada da Guerra Fria, desmembrava-se, abria as suas portas ao investimento ocidental, desmantelava o Pacto de Varsóvia, o correspondente soviético da NATO, os países do Leste Europeu emergiam da subordinação soviética e prometiam democracias liberais numa vasta área da Europa. O que se passou desde então para que o Ocidente esteja hoje de novo a defrontar a Rússia? Dada a diferença de poder entre a Rússia e as potências ocidentais em 1990, a resposta mais imediata será que tal se deve à total inépcia dos líderes ocidentais para capitalizaram os dividendos do colapso da União Soviética.
terça-feira, 1 de março de 2022
O futuro Governo de António Costa e a energia nuclear
A energia nuclear, sempre polémica, encontra-se num processo de grande evolução tecnológica e de boas expectativas, o que pode vir a interferir, a prazo, com os interesses de ‘lobbies’ muito fortes no terreno das energias.
1. A temática da energia nuclear talvez não seja apreendida como um dos problemas mais prementes para o futuro Governo de António Costa. Mas, sendo a energia um dos assuntos actuais de fundo para Portugal, a Europa e o Mundo, tanto mais em todo este complexo e agitado contexto da guerra na Ucrânia, onde o gás natural assume um especial destaque (tanto que levou Mario Draghi a dizer que se tente colocar a energia à parte), dificilmente a nuclear pode deixar de ter, nem que seja uma simples anotação em pé de página, no programa do futuro Governo, dado o seu potencial e importante contributo, no conjunto de uma política de transição energética consistente e nas soberanias dos países.
sábado, 26 de fevereiro de 2022
Guerra e paz
Por estatuadesal
Miguel Sousa Tavares,
Sim, invadiu. Vinte e quatro horas depois de ter insistido que estava ainda aberto a negociações “sérias e honestas”, Putin invadiu a Ucrânia e, pelo que se sabia até ontem à tarde, em larga escala.
Faço ideia da satisfação intelectual de tantos que passaram semanas a anunciar a invasão, às vezes parecendo mesmo desejá-la para poderem ver as suas previsões confirmadas. Não é o meu caso: sempre acreditei que Vladimir Putin não daria este passo extremo, com o qual tem muito mais a ganhar do que a perder, e que semanas e semanas de tensão a acumular-se eram pretexto e tempo suficiente para que os tão falados “esforços diplomáticos” conseguissem evitar uma guerra desta dimensão na Europa.
Particularmente chocante, quando ouvimos agora Ursula von der Leyen falar da diplomacia tentada, é pensar na absoluta inércia da União Europeia, prestes a enfrentar uma guerra no seu território, a arcar com o grosso das consequências económicas e políticas, e que não mexeu uma palha para a evitar, para se colocar como mediadora do conflito e que, como sempre, só sabe acenar com dinheiro a posteriori. E enquanto nada se passava na frente diplomática, ainda tivemos, segunda-feira passada, a ida do Presidente ucraniano, Zelensky, à cimeira da Segurança e Cooperação Europeia, em Munique, lançar a última acha na fogueira, queixando-se das armas nucleares (soviéticas) que afirmou lhe terem sido retiradas quando a Ucrânia se tornou independente e exigir a sua entrada imediata na NATO, desafiando os países recalcitrantes a assumirem-se ali e então. (Duas horas depois, talvez por ter chegado atrasado ou se ter perdido na tradução, o nosso ministro da Defesa dizia que essa questão “não estava em cima da mesa”, pelo que não havia fundamento para uma invasão russa.) Insisto: a invasão russa talvez pudesse ter sido evitada se tivesse havido uma vontade e um esforço sério de negociação do lado ocidental, que não houve.
sábado, 19 de fevereiro de 2022
Famosos...
O big qualquer coisa é agora de "famosos". Nunca assisti a qualquer episódio, de fio a pavio, nem desta versão como de qualquer outra. Respeito quem goste. Eu, felizmente, tenho essa notável ferramenta que me permite mudar de canal. Ainda por cima "famosos", por outras palavras, ditos ilustres, invulgares, célebres e extraordinários. Pergunta-se, em quê? "Famosos inúteis" (não pelas respeitosas profissões que têm) talvez fosse mais adequado para título genérico do programa. Deixam-se, voluntariamente, "prender" numa casa que dizem ser "a mais vigiada do país", para ali viverem o nada, a vulgaridade e a mediocridade, durante várias semanas. É espantoso.
Onde pára a dignidade e o respeito pelos próprios? À custa, julgo eu, da promessa de uns euros como prémio, participam num jogo (jogo?) que me leva a ter dificuldade em perceber como é que um ser, minimamente pensante, se deixa ficar pela cerca que desmiola. Futilidade absoluta. E, depois, lá vem a gala em horário nobre! Eu, sinceramente, substituía a palavra gala por embrutecimento. Palavras ocas, mexericos e mexeriquices, gente aperaltada e uma enorme plateia que segue a "liturgia" dos comportamentos vulgares e toscos. No meu "zapping" passo, espreito e sigo. Não tenho nem estofo nem paciência.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
Plano do futuro primeiro-ministro para Portugal
João Abel de Freitas,
É fundamental que o Plano para a Legislatura contemple e dê relevo a linhas de fundo como a demografia, a água, a energia e a reindustrialização, em termos de actuação imediata, mas sobretudo de prospectiva.
1. Tenho ouvido e lido que António Costa, com esta sua maioria absoluta, tem todas as condições para executar o Plano de António Costa.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022
António Trancoso - Um livro, uma história de vida
Acabo de ler o livro do meu Amigo Dr. António Trancoso com o título de capa Se não tivesse sido assim... Uma deliciosa história de vida, desde o nascimento até ao seu "quadro de honra" que ostenta, neste momento, 4x20! É obra. São oitenta anos de história pessoal com muitas e muitas peripécias que me levam a concluir que só poderia ter sido assim. Porque, conhecendo-o há muitos anos, nunca nele vi o Homem portador de uma coluna de plasticina. Foi inteiro, foi ele próprio. E pagou por isso, só que a consciência tranquiliza-o e transmite-lhe, estou certo, que voltaria a viver os mesmos momentos, onde se misturaram a irreverência com o sentido de justiça.
A páginas tantas acabei por recuar no tempo, aquando da sua descrição no "paraíso de Macaloge" em Moçambique, para onde foi destacado na estúpida guerra colonial. Algumas passagens permitiram-me trazer à memória a constrangedora Guilége (Guiné-Bissau), por onde passei e onde nada existia, ou melhor, apenas o medo de não regressar. Trancoso conta as peripécias de uma guerra criada "por um regime deliberadamente criminoso" onde narra uma série de episódios de sacrifício e morte.
Depois, o regresso, a docência e a análise ao exercício da política, onde escalpeliza inúmeras situações de "lucrativos negócios e de rendosos lugares", da participação da Igreja, situações que deixaram um rasto de milhares de milhões ainda em pagamento e subtis perseguições que, ainda hoje, marcam um certo medo ou receio das represálias do poder.
Caríssimo Amigo e Colega António Trancoso, este seu testemunho contado na primeira pessoa, deu-me prazer em toda a extensão das 264 páginas de leitura. Apenas junto um pormenor: o facto de me ter sido grato recordar o Professor Capitão Robalo Gouveia de quem também fui aluno, pela sua exigência, rigor e mestria na arte de formar ginastas.
Parabéns Amigo Trancoso.
Ilustração: Fotos publicadas no livro.
domingo, 13 de fevereiro de 2022
Esta guerra que nos querem vender
Miguel Sousa Tavares,
Parece que o mundo não tem suficientes problemas globais urgentes, com a pandemia, as alterações climáticas, as migrações do sul para o norte, a crise do preço das matérias-primas e a inflação, e ainda precisa de lhes acrescentar uma guerra — uma guerra a sério, capaz de destabilizar tudo, de causar a morte a muitos milhares de seres humanos, lançar o caos na economia e relançar em força o espírito da Guerra Fria, que ainda alimenta tantas nostalgias.
Putin, garantem-nos há meses os nossos “especialistas” ocidentais, prepara uma invasão iminente da Ucrânia: marcada primeiro para Janeiro, depois adiada para o início de Fevereiro e agora garantida para a semana que vem. Mas desconfiem também disto: de cada vez que alguém fora do círculo belicista NATO-Estados Unidos-Inglaterra inicia diligências paralelas para encontrar uma saída que evite a guerra (o chanceler Scholz ou o Presidente Macron), ou de cada vez que é o próprio Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a pedir aos seus aliados ocidentais que parem com a “histeria” da guerra iminente, logo aumentam as “notícias” na imprensa ocidental sobre novas movimentações de tropas russas com vista à invasão. Sim, é verdade que Putin tem os meios para iniciar a invasão de parte ou de toda a Ucrânia quando o quiser e se o quiser. Mas ainda ninguém respondeu cabalmente a esta pergunta: porque haveria Putin de querer invadir a Ucrânia, o que teria a ganhar com isso, no curto e no longo prazo? A Ucrânia não será nunca, para o Exército russo, um passeio na Crimeia: é 25 vezes maior do que a Crimeia, e a sua população de 43 milhões de pessoas é dividida entre 73% de ucranianos e 22% de russos, contra apenas 2,4 milhões de habitantes na Crimeia, dos quais 65% de russos e 15% de ucranianos. Mesmo que o referendo posterior à anexação russa de 2014, que Moscovo sustenta ter-lhe sido favorável com 94% dos votos, não seja credível, é óbvio que na Crimeia — que Potemkin conquistou para Catarina, a Grande, em 1783, e que o ucraniano secretário-geral do PCUS Nikita Khrushchov deu à Ucrânia, em 1954 — Moscovo está em casa, enquanto na Ucrânia teria pela frente umas Forças Armadas poderosas, uma resistência feroz e um povo maioritariamente hostil, que transformaria a ocupação num inferno permanente. E por mais que Putin seja um saudosista do Império russo e soviético, também é suficientemente pragmático para compreender os custos que tal aventura lhe acarretariam, com a Rússia mergulhada em nova Guerra Fria, cercada de inimigos por todos os lados e reduzida à condição de pária entre as nações, só com o cordial inimigo chinês como potencial aliado.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
Coitadinho do Pacheco de Amorim, tão maltratado
Ventura, matreiro, quer fazer da disputa pela vice-presidência do Parlamento uma telenovela que se arraste pela amargura da vitimização, quanto mais longa melhor, para lhe dourar os galões de antissistema. Escolheu para isso o candidato que lhe dava mais garantias de ser chumbado. Hic Rhodus, hic salta, eis não sei quantos dos profetas da direita a responderem a este apelo e a rasgarem as vestes pela elevação do Pacheco de Amorim a vice, ora apresentando-a como uma obrigação estatutária, ora terçando pela conveniência educativa da iniciativa.
Como seria de esperar, é do Observador que chegam os mais enfáticos, e o seu chefe, José Manuel Fernandes, apresenta numa emissão de rádio o argumento definitivo: “Se querem discutir a eleição de Pacheco de Amorim, discutam a Constituição, pois é lá que está prevista. O que a Constituição não prevê e não devia ser tolerado é uma ‘socranete’ como presidente da AR.”