quarta-feira, 7 de outubro de 2009

07 DE OUTUBRO - UMA BREVE REFLEXÃO

Hoje, 7 de Outubro. Era nesta data que, no meu tempo, entrávamos para a Escola Primária, assim se designava. Poucos, muito poucos, antes de perfazerem os sete anos de idade iniciavam-se nas primeiras aprendizagens. Fui um desses. Os meus pais colocaram-me, julgo que aos cinco/seis anos, na Professora Leocádia, uma Senhora que recebia crianças (muito poucas) na sua casa, ali junto ao Castelo do Pico. Aprendi o desenho das primeiras letras e algarismos na ardósia e com o respectivo lápis de pedra. E dali saí para a primária. Muito brinquei nos pequenos espaços disponíveis. Ela contava-nos muitas histórias e o pequeno grupo aprendeu até a cuidar das galinhas, coelhos e não sei que mais. Tudo numa parte do dia, apenas de manhã. Na escola oficial, repito, a partir dos sete anos, entrávamos às nove horas e desenvolvíamos a actividade até às 12:30 e, depois, entre as 13:30 às 15:00 horas. Com vários intervalos pelo meio. Havia todo o tempo do mundo para aprender. Todo o tempo do mundo para brincar e para SER CRIANÇA. Para crescer, jogando, como salienta Jean Chateau. Ou então, na palavra de Schiller "o Homem não é completo senão quando joga".
Tenho alguma saudade desse tempo, pelo que aprendi e pelas regras de respeito e de relação com os outros que interiorizei e que ficaram na minha matriz comportamental. O processo pedagógico evidentemente que, hoje, olhando à distância, vejo quanto frágil era. Também hoje subsistem muitas críticas. Mas há uma coisa que me parece claro na minha análise, é que não se perdia tempo com o acessório, havia objectividade, retirando, obviamente, aspectos absolutamente anacrónicos, entre outros, o de saber as linhas férreas de Portugal, as estações e não sei se os apeadeiros. Ah, e as "reguadas" por tudo e por nada. Afora esses aspectos, entre outros, que o tempo e o conhecimento científico ajudaram a corrigir, recordo-me que havia tempo para SER CRIANÇA.
Hoje, caiu-se no extremo oposto, na desresponsabilização, na indisciplina, na falta de rigor, no brutal aumento da carga horária, na burocratização do sistema e na irresponsabilidade governativa de atirar para a Escola tudo quanto deveria ser da competência das famílias. A este propósito li, há dias, uma curiosa "carta do leitor" publicada no DN subordinada ao título: O ALUNÃO". Escreveu o seu autor: "(...) Depois do papelão, do vidrão, do embalão e do "velhão", apresento-vos o ALUNÃO. O alunão é um depósito de alunos em que, por impossibilidade profissional ou apenas por falta de vontade, os encarregados de educação transformam as escolas de hoje". Acrescento: pela irresponsabilidade de muitos encarregados de educação mas também com a complacência, irresponsabilidade e incapacidade política no sentido de uma melhor organização social, de EDUCAÇÃO e de mentalidade do povo que somos. Há razões de sobra para condenar, por exemplo, a escola a tempo inteiro (ETI). Ela constitui a melhor resposta para um problema errado. Esta via transformou a verdadeira escola no tal ALUNÃO, num depósito vazio de significado e que, ao contrário do que se possa pensar, rouba tempo para SER CRIANÇA. Rouba tempo a um tempo que não regressa.
Este é um assunto que me levaria a longas considerações, desde a organização social (as lógicas em que se dissolve o mundo laboral) até às políticas de família, passando pela organização escolar, curricular e programática. É muito complexa esta abordagem. De uma coisa, no entanto, estou seguro: o sistema educativo não deve (não deveria) assentar numa lógica de penso rápido numa ferida profunda que tem origem na organização social, isto é, a Escola não pode assumir-se como remediadora da ausência de pensamento político, simplesmente porque ela tem uma importantíssima missão que não pode ser confundida com um depósito cheio de coisas mas muito pouco eficiente e muito pouco eficaz quanto à garantia de um melhor futuro. Escolarizar é uma coisa, EDUCAR é outra.
Regresso ao SER CRIANÇA com as palavras de Jean Chateau: "(...) Na criança, o jogo é, antes de tudo, prazer. É também uma actividade séria em que o fingir, as estruturas ilusórias, o geometrismo infantil, a exaltação, têm uma importância considerável." Coisas que certos políticos não entendem, convencidos que estão do seu papel.
Apenas uma breve reflexão!

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