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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A ESCOLA ENQUANTO REINVENTORA DA NOVA SOCIEDADE


"A escola era um lugar de instrução, de aprendizagem de conhecimentos; as crianças eram educadas na família, na praça pública, na rua, com os vizinhos, com as outras crianças (...). O que eu penso é que a escola foi criada para um conjunto de funções muito importantes, que são funções cognitivas, e foram-lhe sendo atribuídas outras. De tal maneira que ela hoje pode aparecer como tendo outras funções e não tendo as principais. Isto é um desvirtuamento completo da ideia de escola. E dá origem a desastres terríveis como a definição de professor como educador, em vez daquele que ensina uma determinada matéria".  


Há leituras, algumas dispersas, que vou fazendo que, tarde ou cedo, acabam por se traduzir numa síntese que faculta  razão às convicções que alimento. Politicamente, desde há muito defendo, que à Escola compete, fundamentalmente, o trabalho de transmissão de conhecimentos, e que, quem governa, não pode ignorar outras variáveis, entre as quais, as políticas de família. Defendi, sem sucesso, na Assembleia Legislativa esta visão do problema. Porque essas políticas, de natureza multifactorial (a família é apenas uma das variáveis), quando devidamente integradas e concertadas, são susceptíveis de garantirem a desejada EDUCAÇÃOÀ Escola, organizada segundo determinados desígnios, não compete educar, mas transmitir aquilo que se designa, na expressão do sociólogo da educação Michael Young (falecido em 2002), por "conhecimento poderoso". No essencial, à Escola, compete o conhecimento, não a educação das crianças e jovens. E esta visão nuclear do problema altera tudo sobre a missão da Escola e que está profundamente enraizada na sociedade. Hoje, a escola é, diariamente, induzida, em uma parte substancial do seu tempo, a resolver os problemas da educação e não os do tal "conhecimento poderoso". Dir-se-á que a fragilidade desta escola começa por aí, porque o sistema, também por ignorância política, acabou por conduzir a escola a um espaço mais centrado na "guarda" das crianças e dos jovens do que apostada na transmissão de conhecimentos. "Guarda" que começa desde muito cedo, desde os três anos. Mais tarde "fechando-as" nessa absurda "escola a tempo inteiro", enquanto os pais trabalham. Deduz-se, assim, que os governantes não se preocupam em caminhar no sentido de uma nova organização social, apenas preocupam-se em dar resposta aos desvios organizacionais da sociedade, particularmente os resultantes do mundo do trabalho. A família, uma das variáveis, fica para trás, tem ficado para trás, a educação fica e tem ficado para depois e, portanto, a Escola tem sido chamada a assumir intervenções que estão fora do seu âmbito e da sua missão.
Mas, dizia eu, sabe bem ler os investigadores e confirmar os posicionamentos construídos ao longo dos anos e através da integração de leituras diversas. A Professora Olga Pombo, Doutorada em História e Filosofia da Ciência, Professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, concedeu-me esse prazer através de uma entrevista publicada na revista "A Página da Educação", edição de Inverno, 2011, pág. 08/19. Na entrevista fica tudo muito claro nesta síntese: "A escola era um lugar de instrução, de aprendizagem de conhecimentos; as crianças eram educadas na família, na praça pública, na rua, com os vizinhos, com as outras crianças (...). O que eu penso é que a escola foi criada para um conjunto de funções muito importantes, que são funções cognitivas, e foram-lhe sendo atribuídas outras. De tal maneira que ela hoje pode aparecer como tendo outras funções e não tendo as principais. Isto é um desvirtuamento completo da ideia de escola. E dá origem a desastres terríveis como a definição de professor como educador, em vez daquele que ensina uma determinada matéria".   
Deduz-se, portanto, que a conceção de escola, hoje, por falência dos princípios orientadores da organização social, tem sido levada a realizar tarefas acessórias "indispensáveis para realizar a que é, de facto, a função decisiva", o ensino. Salienta a professora: "fico alarmada quando verifico que a confusão é de tal maneira grande que se pode dizer que um professor é, em primeiro lugar, um educador e de quando em vez também ensina. É exactamente ao contrário". Mais adiante, questiona o jornalista: "E a questão da educação para os valores? Salienta a Professora: "A educação para os valores é um disparate! O grande valor que o professor tem a ensinar é o valor do conhecimento. Ele tem de ser capaz de criar as condições na sala de aula para poder realizar o seu trabalho, que é ser professor, e não deve  imiscuir-se em questões da moralidade" (...) "a dimensão instrutiva é que é  veiculadora de valores" (...) " não é preciso moralizar; basta pôr em funcionamento o acto de ensino e esses valores vêm com ele. O professor  não tem que ser um padre. Deve fugir da imagem do padre. Aliás, a palavra "padre" tem a ver com "pai". Nem pai nem padre... e nem nem outro são professores!"
Bom, a entrevista é longa e, pelo menos para mim, escorreu-me garganta abaixo como mel, em função das minhas mais profundas convicções sobre esta matéria. É por isso que, desde há muito, escrevo no sentido de uma nova configuração do sistema, dito "educativo", compaginada com vários sectores e áreas de intervenção que outros actores devem defender e implementar. Dir-se-á que existe um défice de conhecimento ao nível de quem governa que conduz a opções políticas absolutamente desconformes da missão da Escola. Consequência do "progresso"? Não, salienta a Professora, "consequência da má organização. Da má política". Concordo. Quando se aumenta, por exemplo, mais meia hora de trabalho por dia, situação que, inevitavelmente, vai colocar muitas crianças durante mais tempo no "armazém" escola, quem assim decide esquece-se que a produtividade não está no aumento das horas de trabalho, mas em melhor trabalho com rigor e qualidade. E esquecem-se que, daquela forma, a educação é que sofre, desde logo entre muitos outros factores, pelo afastamento dos pais em relação aos filhos. A produtividade, sustento, não depende do aumento das horas de trabalho, depende sim, do "conhecimento poderoso" dado pela Escola, capaz de desenvolver mecanismos de criatividade, de inovação e de responsabilidade.
Aliás, este sistema capitalista em roda livre tem os seus dias contados. A sociedade terá de se reinventar e a Escola, nesse pressuposto, terá de ser o motor dessa reinvenção. A Escola, do meu ponto de vista, não pode ser resposta à desorganização social, antes modificadora e catalizadora das grandes mudanças. Leva tempo, muito tempo, mas a ela compete-lhe pegar nas rédeas da construção do futuro. E isso, naturalmente, implica políticos com uma outra dimensão, uma outra atitude de pensamento estratégico, com uma outra leitura da sociedade, analisada de baixo para cima, que não aquela apenas centrada na Escola e de uma configuração de escola cujos resultados demonstram a sua própria falência e quase inutilidade.
Foi, por isso, que o convite do Dr. Maximiano Martins à Professora Doutora Liliana Rodrigues (Universidade da Madeira), no quadro de uma alternativa de poder na Madeira, encheu-me de entusiasmo. A Madeira poderia, com essa candidatura, constituir, a prazo, um exemplo nacional e europeu, pela sua reduzida dimensão e capacidade de tornar-se em um laboratório. O povo não quis, mas o meu lamento fica. Fica, por outro lado, também, a convicção que a Professora Doutora Olga Pombo, quando sublinha que "é preciso que a Filosofia da Educação seja um lugar onde o aluno é chamado a compreender a função da Escola e o que é que ali está a fazer", o que nos está a transmitir é que a revolução no sistema passa por políticos com qualidade e não por políticos que repetem até à exaustão os erros do passado. E quem repete o passado, não pode esperar outros resultados que não os do próprio passado. Voltarei a este tema que me apaixona.
Ilustração: Google Imagens.

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