sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

SENHOR DIRECTOR REGIONAL, NÃO A UMA ESCOLA REMEDIADORA SOCIAL


Pelo caminho que a Região e o País seguem só poderemos esperar crescimento, não da economia, mas do desemprego, da pobreza e, concomitantemente, da indisciplina e, logo mais, da violência. Não tenhamos grandes dúvidas a este respeito. E assim sendo, amanhã, em vez de dez equipas, precisarão de vinte e, mais tarde, de trinta, quarenta... por aí fora para combater a indisciplina. Andarão sempre a reboque dos problemas. Ademais, o melhor combate à indisciplina na escola deve partir de uma nova organização interna dos estabelecimentos de ensino. "A diferenciação resolve-se através da organização pedagógica da escola e não do currículo, diz-nos o Professor Catedrático João Formosinho. Esse é o caminho. Ora, este sistema organizacional foi ultrapassado e nem conta os responsáveis políticos se deram que mantinham os instrumentos de ontem para resolver as questões de hoje. Com edifícios sobrelotados, com mil e muitos alunos, com turmas a abarrotar, com uma clara perseguição aos professores, dispensando-os quando são necessários, com uma Escola fechada sobre si própria que não interage com todos os outros sistemas, que funciona por interruptor, isto é, alguém no governo despacha e ela cumpre, nesta escola despersonalizada, de números, tendencialmente impessoal, que não consegue gerar o ambiente necessário pelo "conhecimento poderoso", autónoma apenas no papel, pergunto, o que poderão fazer os Psicólogos? Atenuar a dor, sim, mas nunca no sentido de resolverem o problema que é muito mais grave e profundo. E o Dr. João Estanqueiro, certamente, sabe que assim é!



Segui as declarações do Director Regional de Educação, Dr. João Estanqueiro. Agradou-me uma parte das suas palavras, sobretudo quando sublinhou que estamos a viver em um "mundo de um só governo". Tem razão. Há muito que aqui teço considerações a esse respeito. Desde os primórdios dos anos 90, depois no interessante livro de Alvin Toffler (A Terceira Vaga 1984, entre outros autores), no qual aborda as vagas do passado e a vaga que aí vinha, a era do conhecimento e domínio tecnológico, da informação e comunicação, a era da completa ruptura com o passado, transportadora de tendências para a globalização e subordinação dos povos a meia-dúzia de directórios, que sabemos desse perigo de um "mundo de um só governo". Directórios que acabaram por definir, na expressão mais simples, desde o que comer, ao que vestir e até em quem votar. A engrenagem foi e é perfeita no quadro da subordinação do Homem à economia e não de uma economia ao serviço do Homem. Por aí, embora considere que muito haveria a dizer ou a especificar sobre esta matéria, estou de acordo com a posição do Dr. João Estanqueiro. E também estou, como corolário destas políticas de gente sem rosto, que milhões estejam hoje a sofrer as consequências da ganância, do dinheiro que não tem pátria, do egoísmo e da incapacidade dos mais fracos conseguirem realizar o necessário contraponto de sobrevivência. Gente que deslocaliza empresas de um para outro dia, gera o desemprego, faz crescer a pobreza e, naturalmente, o desespero. Tornou-se absolutamente natural que a Escola acabasse por reflectir a crescente onda de desesperança das famílias e, daí, o crescimento da indisciplina. É o corolário natural de quem está sob múltiplos factores de pressão. Disse o Director Regional: "A desagregação familiar, os problemas na família no fundo são trazidos para a escola, local onde o aluno passa mais tempo" (...) "São problemas decorrentes deste mundo em que praticamente não se olha às pessoas, olha-se só para a economia". Exacto. Assino por baixo.
Agora, já não assino por baixo quando sublinha, genérica e de forma abrangente, que "(...) vemos os nossos políticos falarem nas televisões e praticamente se esquecem que as pessoas existem. O que existe é apenas a parte económica e isso começa a ser assustador". Mas quais políticos, pergunto. Os de fora da Região? Sim, é verdade. E os de dentro da Região, responsáveis há mais de trinta anos pela organização social, pela economia, pelas finanças, pela educação, pela saúde, pelo sistema empresarial, pelo despesismo desenfreado, pela inversão das prioridades, enfim, o governo do qual o Dr. João Estanqueiro faz parte, não teve nem tem nada a ver com o que se está a passar numa Região que já foi autónoma e dispôs de todos os meios para que as taxas de desemprego e de pobreza não fossem aquelas que são? Então este governo não foi o causador do insucesso e do abandono quando de educação se fala? Não é este governo responsável por 85.000 não disporem mais do que o 2º ciclo do Ensino Básico? Se o Dr. João Estanqueiro está a falar, também, dos políticos do governo regional a que pertence, aí retiro este parágrafo e tenho-lhe a dizer que acertou no alvo. Se assim é, tiro-lhe o chapéu pela coragem que demonstrou no nesse acto de "mea culpa". Simplesmente porque há grandes e significativas responsabilidades locais, porque confundiram, entre muitos aspectos, crescimento com desenvolvimento. O sistema educativo que hoje temos na Madeira é, indiscutivelmente, a consequência de uma falta de visão e de atempada negociação. Prevaleceu a construção dos edifícios e não o que lá se faz portador de futuro. Interessou inaugurar e não criar as condições para o sucesso. E uma das condições era a de tornar o sistema educativo, não como reserva absoluta de competência legislativa da República, mas reserva relativa. Passaram-se trinta e tal anos, com várias revisões constitucionais, e nunca avançaram para uma caracterização de um país e três sistemas, apenas convergentes na matriz essencial. Não souberam fazer isso, como, por cá, onde era possível avançar em tantas áreas e domínios, sublinho, sem constrangimentos de ilegalidade ou de inconstitucionalidade, não o fizeram, por incúria, irresponsabilidade e visão de futuro.
Finalmente, o Dr. João Estanqueiro perante este quadro de desastre político, económico, financeiro, social e cultural, quase apela à escola para que seja remediadora social. Não concordo. Quando sublinha que acredita na "capacidade das escolas para enfrentarem estes novos desafios, nomeadamente através das equipas multidisciplinares que foram constituídas e que actuam sempre de forma pró-activa" - reportava-se, obviamente, à indisciplina consequência dos problemas de uma sociedade desestruturada - considero que labora num erro grosseiro de análise. A Escola tem uma vocação e uma missão e não deve ser, repito, remediadora social. O governo é que tem de ir à raiz dos problemas e actuar de forma a gerar outros caminhos no sentido do bem-estar. Coisa que nunca fez! Embora as equipas constituídas, de acção pró-activa, sejam bem-vindas, elas não podem nem devem entrar para girar no círculo vicioso dos problemas resultantes das tensões sociais. Pelo caminho que a Região e o País seguem só poderemos esperar crescimento, não da economia, mas do desemprego, da pobreza e, concomitantemente, da indisciplina e, logo mais, da violência. Não tenhamos grandes dúvidas a este respeito. E assim sendo, amanhã, em vez de dez equipas, precisarão de vinte e, mais tarde, de trinta, quarenta... por aí fora. Andarão sempre a reboque dos problemas. Ademais, o melhor combate à indisciplina na escola deve partir de uma nova organização interna dos estabelecimentos de ensino. "A diferenciação resolve-se através da organização pedagógica da escola e não do currículo, diz-nos o Professor Catedrático João Formosinho. Esse é o caminho. Ora, este sistema organizacional foi ultrapassado e nem conta os responsáveis políticos se deram que mantinham os instrumentos de ontem para resolver as questões de hoje. Com edifícios sobrelotados, com mil e muitos alunos, com turmas a abarrotar, com uma clara perseguição aos professores, dispensando-os quando são necessários, com uma Escola fechada sobre si própria que não interage com todos os outros sistemas, que funciona por interruptor, isto é, alguém no governo despacha e ela cumpre, nesta escola despersonalizada, de números, tendencialmente impessoal, que não consegue gerar o ambiente necessário pelo "conhecimento poderoso", pergunto, o que poderão fazer os Psicólogos? Atenuar a dor, sim, mas nunca no sentido de resolverem o problema que é muito mais grave e profundo. E o Dr. João Estanqueiro, certamente, sabe que assim é!
Ilustração: Google Imagens.

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